A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 30 de 38

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A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 30

S IGO O DEUS DO MAR PELO PÁTIO E ENTRAMOS NO SALÃO. Um silêncio sinistro paira sobre o palácio, e não vejo sinais de guardas, nobres ou criados. Quando alcança o palanque, ele hesita. Então abre mão do trono frio e se senta nos degraus. Eu me junto a ele, acomodando meus pés embaixo da saia.

O silêncio se arrasta. Fico olhando o deus-menino, que parece inadequado em suas vestes grandiosas. Ele está curvado, com os cotovelos sobre os joelhos. Percebo que não sei seu nome. Sinto-me imediatamente culpada por nunca ter perguntado.

- Como devo te chamar? Qual é seu nome?

- Você pode me chamar de Marido.

Empalideço.

- Não somos… casados, somos?

- Precisamos de um casamento antes.

Suspiro de alívio.

- Quanto à segunda pergunta, eu não tenho nome.

Talvez… você possa me dar um.

- Que tal… - Olho além de seu ombro para o mural do dragão. -Yong?

O Deus do Mar faz uma careta.

- Como quiser…

Ele parece tão consternado que não consigo evitar sorrir um pouco.

- Não vou te chamar de um nome que te desagrada. Por ora, vamos ficar com Deus do Mar. Aposto que ninguém mais nos dois mundos tem um nome assim.

- Eu tenho um nome. Só não… consigo me lembrar dele.

Tem tantas coisas de que não consigo me lembrar.

Ele olha para as próprias mãos, e penso no que me levou até o Deus do Mar, em primeiro lugar. Como é ser tão solitário assim? Quando o vi pela primeira vez, pensei que poderia protegê-lo.

- Quando durmo, tenho uns sonhos estranhos - diz ele baixinho. -Vejo uma cidade vermelha e dourada e um penhasco e uma luz ofuscante. Então sinto uma dor insuportável. Mas não é nos meus ossos… é na minha alma.

- Ele leva as mãos pálidas ao pescoço, como se as palavras machucassem sua garganta. - E em todos os sonhos, estou me afogando.

Eu me aproximo dele. Ele se inclina e apoia a cabeça em meus joelhos.

- Mina - sussurra ele -, me conta uma de suas histórias?

Isso não deveria me surpreender. Para o Deus do Mar, as histórias são, ao mesmo tempo, o único escape para as verdades do mundo, e também a única forma de enxergá-las com clareza.

Minha mão paira sobre ele, então desce com suavidade em seu cabelo macio. Afasto com delicadeza os fios que caíram sobre sua testa.

As histórias favoritas de Joon sempre foram as que eu tirava do ar feito uma folha para melhor se adequar ao nosso humor, conforme a gente quisesse rir ou chorar. Eram histórias de amor, ódio, esperança e desespero - e todas falavam as verdades que precisávamos ouvir.

Eu fechava os olhos, deixava minha mente vagar e contava para ele- para nós - uma história direto do meu coração.

- Em um vilarejo à beira-mar - começo -, vivia um cego chamado Shim Bongsa. Ele não tinha nada de valor, mas era alegre e feliz, pois tinha sua filha, Shim Cheong, a quem ele amava mais do que tudo no mundo. Ele a amava mais do que a brisa quente do verão, mais do que o sabor adocicado do mel em uma xícara de chá, mais do que a canção do mar beijando a praia. Ele podia ser cego, mas enxergava o mundo, porque seu mundo era Shim Cheong.

“Um dia, o vilarejo à beira-mar teve que enfrentar uma terrível tempestade. As plantações e os animais foram levados com a maré. Os anciãos se reuniram e concluíram que a causa da tempestade era o Deus do Mar, que vivia em algum lugar nas grandes profundezas do oceano. Para agradá-lo, eles decidiram fazer um sacrifício.

“No dia anterior, Shim Bongsa tinha caído em uma vala a caminho de casa, e quebrara a perna. Por causa disso, ele não podia mais trabalhar nos campos. Shim Cheong, tendo

ouvido sobre o sacrifício que os anciãos estavam preparando, se voluntariou. Ela estava disposta a pular no mar, se o vilarejo providenciasse arroz para seu pai durante sua ausência. Os anciãos logo concordaram, pois Shim Cheong era linda e gentil, e seria um sacrifício digno de um deus.

“No dia do sacrifício, ela deu um beijo na bochecha do pai e disse que o amava, tomando o cuidado de manter a voz estável para que ele não percebesse que estava partindo para sempre e que estava com medo. O barqueiro então levou Shim Cheong para o mar e, após fazer uma última oração pedindo que seu pai tivesse uma vida longa e próspera, ela pulou.

“Ela desceu e desceu até as profundezas mais escuras.

Depois de um tempo, ela não sabia mais se estava viva ou morta. Finalmente, seus pés tocaram o fundo do mar. Diante de si, havia um palácio magnífico. As paredes eram feitas de corais, e algas marinhas cresciam em suas grandes torres. Ela atravessou as portas do palácio, entrou em um salão e viu o Deus do Mar sentado em um trono dourado.

“Ele era um grande dragão marinho, com bigodes e olhos tão imensos e escuros que ela pensou que continham toda a sabedoria do mundo. Peixes vermelhos, dourados e brancos flutuavam a seu redor. Embora estivesse com medo, Shim Cheong se aproximou do trono e se colocou diante do Deus do Mar com o queixo erguido.

“Ela estava certa em pensar que ele era sábio, pois ele podia ver tudo. Ele olhou dentro de seu coração e falou:

“- O amor que você sente pelo seu pai é lindo e bom.

Pelo seu sacrifício, vou honrá-la acima de todas.

“Ele convocou os golfinhos para envolverem Shim Cheong em um vestido tecido com flores do mar, e a mandou de volta à superfície dentro de uma bela flor de lótus, que floresceu na corte do imperador. Ao ver Shim Cheong, o imperador se apaixonou por ela, e ela por ele. E, pouco tempo depois, eles se casaram.

“Enquanto isso, Shim Bongsa percorria o interior em busca da filha. Os moradores do vilarejo se ofereceram para cuidar dele, mas ele recusou, pois, como pode imaginar, ele estava desolado. Tinha perdido o mundo.

“Ele ouviu falar que o imperador estava convidando todos os cegos, mulheres e crianças do reino para um grande banquete em homenagem à sua noiva. Shim Bongsa foi até a capital. Ele entrou no palácio, atraído pelas risadas e pela música. Um silêncio caiu sobre o salão, e o velho ficou curioso para saber o que estava acontecendo. Ele ouviu o som de passos suaves se aproximando. E a multidão suspirou quando a imperatriz o abraçou.

“- Finalmente te encontrei - disse Shim Cheong para o pai. - Você está em casa.

“E Shim Bongsa, ouvindo a voz de sua amada filha, derramou lágrimas de alegria.”

Quando termino a história, um feitiço de sono cai sobre mim.

Acordo sentindo um puxão estranho no pulso. Olho para baixo e me sento abruptamente. O Fio Vermelho do Destino.

Shin. Coloco-me de pé de um salto. A fita me leva para fora do salão e então para o pátio, onde vejo uma figura solitária, olhando para o céu sem estrelas. O Fio Vermelho do Destino vacila no ar parado. E no final dele vejo…

O Deus do Mar.