A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 8 de 38

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A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 8

Verifico se minha máscara está bem presa ao redor da boca e avanço pelo caminho. Estamos visíveis, mas está escuro e as pessoas lá dentro estão entretidas. Um músico marca uma batida rítmica em um tambor enquanto um palhaço - usando uma máscara de noiva, com a face branca e esferas vermelhas e brilhantes nas bochechas - circula ao redor das mesas como se acompanhasse os movimentos de uma enorme onda.

Passo depressa pelo templo em direção às sombras da floresta do outro lado. As árvores assomam diante de mim, um matagal denso com uma pequena trilha em meio à escuridão. Meus passos vacilam ao vê-lo, mas respiro fundo e seguro a saia para correr.

- Espere!

Reconheço a voz. Uma imagem de alguns momentos antes surge na minha mente. Cabelo encaracolado. Sorriso torto. Você é uma noiva ou uma ave?

Namgi.

 

8

L EVO A MÃO AO ROSTO PARA VERIFICAR SE A MÁSCARA está cobrindo minha boca e meu nariz e avalio a distância até as árvores. Ouço os passos de Namgi se aproximando; uma pedrinha saltita à frente dele e bate na parte de trás de minha sandália.

- Já tomamos todas as bebidas alcoólicas - explica ele devagar com uma voz baixa e áspera, claramente pensando que sou uma criada.- Um ou dois jarros a mais deve…

Então seu tom animado esvanece.

- Por que está indo pra lá? Não há nada pra você ali.

Não consigo responder, pois não tenho voz! E, mesmo se tivesse, o que eu diria? Faço uma reverência breve, fixando os olhos no chão. Sua sombra está quase sobre a minha.

Praguejo por dentro.

- Lorde Namgi! - Nari chama com uma voz alta e confiante. - Deixe a garota em paz. Ela já tem as próprias tarefas para terminar sem o peso das suas.

Durante a breve pausa que se segue, não sou capaz de me mover nem de respirar. Até que Namgi dá uma risadinha, e sua voz se distancia enquanto ele se vira para Nari.

- Sua língua afiada nunca me decepciona.

- Pode ir, garota - diz Nari com a mesma confiança de antes. - Não ligue pra este senhor bêbado.

Aproveito a oportunidade e saio caminhando com determinação.

- Eu estou bêbado? - Ouço Namgi perguntar enquanto me esgueiro por entre as árvores. - Nunca sei. O mundo me parece igual quando estou bêbado e quando estou sóbrio.

- Vamos fazer um teste - brinca Nari. - Quer apostar um jogo de cartas?

Deixo o templo para trás e adentro a floresta. A inebriante vitória proporcionada pela minha fuga vai se dissipando enquanto eu vou andando pela trilha escura e sinuosa. Ao contrário do pátio dos criados ou do pavilhão ao lado do lago, as árvores aqui são numerosas; suas copas densas obscurecem o luar. Um silêncio sinistro paira sobre a floresta. Fico tentada a voltar, mas ouço mais vozes.

Quando eu era criança, me perdi na enorme floresta que fica além do nosso vilarejo. Eu estava seguindo Joon e Nari quando vi uma raposa e me afastei da trilha. Fiquei perambulando por horas, até que me abriguei nas raízes de uma grande canforeira. Sentei-me toda encolhida com os joelhos contra o peito e chorei com vontade, temendo ficar perdida para sempre - ou pior, ser devorada por um demônio.

Não lembro se fui encontrada ou se achei a saída sozinha, mas finalmente consegui sair dali. Eu devia ter uns cinco ou seis anos, e a lembrança está meio escondida, coberta de névoa, como se minha mente quisesse me proteger de algo ruim. Tudo o que me lembro é do medo.

Uma luz surge no meio da escuridão, piscando entre as árvores. Aliviada, sigo-a até me deparar com os limites da floresta. O pavilhão é exatamente como Nari descreveu: está localizado em uma ilha no centro de um lago e é acessível apenas por uma ponte estreita de madeira. A luz vem de um lampião carregado por uma figura solitária atravessando a ponte lentamente. No mesmo instante, reconheço quem é. A Deusa da Sorte está rindo de mim esta noite.

Escondo-me atrás de uma árvore enquanto Kirin se aproxima. Quase dou um salto de susto quando uma segunda figura aparece da escuridão para se juntar a ele -

uma mulher, vestida com a mesma armadura de Nari.

Ela faz uma reverência.

- Meu senhor.

Kirin

a

cumprimenta,

abaixando

a

cabeça

elegantemente.

- Tem alguma novidade para reportar?

- Todos os convidados foram revistados. Não descobrimos nada que chamasse atenção, além de algumas armas pequenas entre as sacerdotisas da Casa da Raposa, mas permitimos a entrada delas por ordens de lorde Shin. A maioria reclamou, mas se submeteu à revista. Os lordes da Casa do Tigre e da Casa do Grou, no entanto, foram mais…

difíceis. Eles protestaram muito e acusaram a Casa de Lótus de desonrar seus convidados.

Com isso, Kirin rosna:

- Tal insolência não deve ser permitida. Lorde Shin é complacente demais.

Quando a guarda não responde à altura, Kirin fala:

- O que foi? Você parece querer dizer algo.

Ela hesita, então continua:

- Há boatos circulando entre os convidados de que o poder do Deus do Mar está diminuindo, assim como o do lorde Shin. Menos de um ano atrás, ele foi derrotado por Shiki, e a amizade deles foi destruída irremediavelmente.

Sem um aliado convicto e poderoso, muitos acreditam que o papel de lorde Shin como guardião desta cidade está chegando ao fim. E o Deus do Mar, sem a proteção do lorde Shin…

A voz da guarda se dissipa quando ela e Kirin se afastam da árvore. Mantendo-me rente ao chão, eu os sigo, querendo ouvir mais da conversa. Só que, quando os alcanço, consigo apenas ouvir Kirin dispensando-a.

- Mande os outros ficarem de olhos bem abertos. Eu não me surpreenderia se o Grou ou o Tigre criassem problemas esta noite.

Ela faz uma reverência, dando um passo para trás.

- Sim, meu senhor. - Então ela sai como chegou, se misturando à escuridão. Logo, ela é apenas um borrão se movendo na minha visão periférica.

Agora sozinho, Kirin suspira, olhando para o lago. Uma garça solitária desliza pela água, roçando a superfície com a ponta da asa.

- Proteger o Deus do Mar é um fardo muito pesado para carregar. Até mesmo para alguém como você, Shin.

Recuo um pouco e um galho se quebra sob meu pé. No mesmo instante, Kirin se vira e eu me abaixo tremendo, assustada com minha falta de jeito. Através de um buraco entre a folhagem, espio Kirin espreitando a floresta. Por um momento, seus olhos parecem emitir um brilho prateado, mas então um esquilo pula do matagal, subindo pelo tronco de uma árvore. Quando o encaro novamente, seus olhos voltaram ao tom castanho.

Ele vai caminhando devagar em direção ao lago pela mesma trilha que a guarda percorreu. Quando ele desaparece, saio de trás das árvores e sigo para a ponte.

Aquela sensação desagradável que experimentei mais cedo volta a apertar meu coração - talvez eu tenha julgado mal esse tal de Shin. Ainda não entendi completamente os problemas deste reino, mas eles lembram meu vilarejo, onde, por causa de um governante fraco e covarde, chefes militares disputam territórios e derramam sangue em nome de reivindicações mesquinhas. Deve acontecer o mesmo aqui. Na ausência do Deus do Mar, os habitantes deste reino pressentem sua fraqueza e tentam desequilibrar a balança do poder a seu favor.

E Shin parece ser o único se esforçando para conter a maré. Como as pessoas do meu vilarejo. Como eu.

Balanço a cabeça, tentando mudar o curso dos meus pensamentos. Mesmo que eu entenda como ele se sente, tenho meus próprios desafios, a começar pela minha alma roubada.

O pavilhão está envolto em trevas. Se Nari não tivesse tanta certeza de que a pega está presa ali, eu provavelmente a procuraria em um lugar mais vigiado, e não em um local como este, que parece até abandonado.

Abro a porta, e o luar atrás de mim inunda a madeira escura. Há aposentos em ambos os lados do corredor estreito; as sombras das nuvens se movem pelas paredes de papel grosso.

Assim que fecho a porta, outra se abre no corredor. Eu me escondo em um canto, me agachando nas sombras.

Duas figuras vestidas de preto cruzam o corredor. Eu só as vejo por um instante - uma é robusta e carrega uma espada na cintura, a outra é magra feito uma doninha e tem uma grande besta pendurada no ombro -, antes que elas desapareçam pela porta oposta. Ladrões?

Quanta ironia - eles estão roubando de Shin, que roubou de mim. Em todas as histórias, as pegas nos alertam sobre ladrões.

Mas não esta noite.

À minha direita, há uma escadaria. Subo depressa, tomando cuidado para não fazer barulho. No andar de cima, há outro corredor estreito, mais curto que o de baixo. Há apenas uma porta. Lá dentro, ouço algo se agitando - algo como asas inquietas. A pega! Abro a porta, entro e a fecho atrás de mim.

Vasculho o quarto com os olhos, ansiosa, e me decepciono logo em seguida. A pega não está ali. A fonte do barulho é uma brisa fresca roçando o papel da janela. O

quarto é escassamente mobiliado. Há uma prateleira baixa sob a janela em frente à porta. Na parede da direita, há um

armário velho, e, à esquerda, um biombo de papel, o único outro objeto do recinto.

A pega deve estar em um dos aposentos do andar de baixo. Mas como vou conseguir evitar os ladrões?

Coloco a mão no punhal, envolvendo o cabo com os dedos. Ouço um ruído no corredor. Passos se aproximando.

Vou para trás do biombo e me abaixo no mesmo instante em que a porta se abre.