A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 17
D EIXAMOS O BARCO NO CANAL do lado de fora do palácio e entramos no jardim do Deus do Mar pela porta do mural.
Mesmo abandonado, o lugar é lindo. Pétalas de flores esvoaçam pelo caminho de pedras, prendendo-se nas pregas da minha saia. Uma leve garoa preenche o ar, e me pergunto se uma tempestade está se formando em algum lugar a leste.
No lago, o vento fraco soprou todos os barcos de papel para a outra margem, deixando as águas mais próximas vazias. Enquanto Shin inspeciona o pavilhão, desço até a margem e me abaixo para pegar uma pedra.
Meu avô costumava fazer as pedrinhas saltitarem na superfície do lago do nosso jardim. Quando éramos crianças, Joon e eu gostávamos de contar quantas vezes a pedrinha encostava na água antes de desaparecer.
Viro a mão e atiro a pedra na água. Ouço um som alto quando ela afunda. Olho por cima do ombro e vejo Shin contornando a lateral do pavilhão. Ele não parece impressionado.
Quando me inclino para pegar outra pedra, meus dedos tocam algo áspero. Esta é diferente das outras, e exibe o desenho de uma flor de lótus. As linhas são nítidas demais para que o entalhe seja natural. Alguém deve ter esculpido cuidadosamente as oito pétalas ovais e o miolo de cor de estrela com uma faca. Ela me lembra da flor de lótus que Shin deixou ao lado do barquinho de papel na prateleira, flutuando em uma tigela rasa. Enfio a pedra no bolso.
Com o canto do olho, vejo Shin se posicionar debaixo de uma árvore do outro lado do pavilhão, mantendo uma atenção vigilante. Concordamos que busca nenhuma nos faria encontrar o deus, que nossa melhor escolha era esperar.
Durante a meia hora seguinte, fico atirando pedrinhas na água, e só paro quando as nuvens cobrem o céu. Desabo no chão ao lado da lagoa. Meu avô sempre dizia que o momento em que se sentia mais em paz era quando estava sentado à beira do lago no nosso jardim, observando os patos que passavam vagarosamente. Só que não há patos nesta lagoa. Apenas barquinhos de papel. Como um cardume de peixinhos rebeldes, eles lotam a costa norte.
Um barco escapou e desliza até o meio do lago.
Enquanto se aproxima, vejo que ele não é como os outros. Ele é torto, suas dobras são desajeitadas e desiguais, e ele está meio submerso na água. Há um fio vermelho e áspero no centro, como se tivesse sido rasgado ao meio e costurado novamente.
Um arrepio percorre meu corpo. Conheço este barquinho.
Fui eu quem encontrou o papel e o pressionou nos lábios para sussurrar um desejo na folha gelada. Fui eu quem o dobrou com mãos trêmulas.
Este é o meu barquinho - o barquinho que contém o meu desejo. Este não é como os desejos infantis que eu fazia no festival. Este eu nunca coloquei no rio.
Saio correndo e entro na lagoa.
- Mina! - grita Shin atrás de mim.
Nem o escuto, afoita demais para pegar meu barquinho.
Tento agarrá-lo. Meu pé fica preso na raiz de uma árvore caída. Debato-me na água e afundo.
Subo meio segundo depois. Cuspo água e olho em volta, mas o lago está vazio.
Meu barquinho se foi. Será que foi minha imaginação?
Será que a culpa trouxe à tona a memória de um desejo?
Encharcada, caminho de volta para a margem. Preparo-me para a bronca de Shin, que deve estar furioso comigo por eu ter feito algo que até eu admito que foi imprudente.
Mas, quando olho para cima, quase caio de volta na água.
Deitado na grama diante de mim está o dragão, e, a seu lado, está o Deus do Mar.
O corpo do dragão está protetoramente ao redor do deus adormecido, e sua enorme cabeça com chifres descansa ao lado da do garoto. Seus grandes bigodes estão emaranhados com os cabelos macios do Deus do Mar, e, quando o dragão solta um suspiro, o cabelo do deus se levanta com a brisa quente.
Os olhos do dragão - escuros feito o mar e reluzindo inteligência -estão abertos, me observando. Dou um passo hesitante para fora da água, tentando antecipar
cautelosamente qualquer movimento da criatura, mas, assim como um gato gigante, ele parece contente em só ficar deitado ali. Eu me aproximo devagar, esperando o momento em que ele vai decidir me devorar.
Devo estar demorando muito, porque ele começa a soltar um rosnado baixo e gutural. As pedras tremem sob meus pés. Os olhos do dragão vão de mim para o Deus do Mar, impacientes. Exigentes. Na verdade, o dragão parece estar me impulsionando para ele. Dou os últimos passos e, com um rápido olhar para o dragão, coloco a mão sobre o deus-menino. Como antes, sou arrastada para uma luz ofuscante.
A primeira coisa que noto é que ainda estou no jardim, que agora está coberto daquela mesma névoa de quando acordei no Reino dos Espíritos.
A segunda é…
- Shin!
Ele está imóvel, deitado na margem do lago, o rosto virado para baixo. Eu me aproximo depressa, caindo de joelhos a seu lado. Viro-o para cima e corro os dedos por seus lábios. Sou tomada pelo alívio ao sentir seu hálito quente. Se eu tivesse parado um pouco para olhar ao redor, teria visto o Fio Vermelho do Destino cintilando em meio à névoa e saberia que ele está bem. Enquanto a fita estiver intacta, ambos estaremos a salvo, pois nossas vidas estão conectadas.
Levanto seu corpo do chão e o acomodo em meu colo.
- Ele está bem, só está dormindo.
Olho para cima. Diante de mim está o Deus do Mar. As luxuosas dobras de suas vestes estão encharcadas da lama da margem. Ele parece não perceber. Atrás de si, a névoa se dissipou e consigo ver a sombra do dragão.
Ele desvia os olhos de Shin para mim.
- Minha alma está me dizendo que você é minha noiva.
Pisco, surpresa.
- Você parece adequada. - Ele inclina a cabeça para o lado, e seu cabelo escuro cai sobre seus longos cílios. -
Gosto da sua aparência. Seu cabelo tem a aconchegante cor das cascas das árvores, e seus olhos são como o mar noturno. Posso ver a lua neles. Duas luas. Dois oceanos de noite.
Engulo em seco com dificuldade, sem saber o que dizer.
Esta é a primeira vez que nos falamos.
- Você é bem romântico, Deus do Mar.
- Não muito - diz ele, se virando e se dirigindo para a margem do lago. Ele coloca um dedo esguio na água, e pequenas ondas se espalham pela superfície. - Só estou solitário.
Não sei nem por onde começar. Assim como aconteceu na sala do trono, sou tomada por uma sensação opressiva que me faz querer proteger esse garoto preso em pesadelos e afundado em sofrimento. Não me parece certo exigir algo dele - salve meu povo, acabe com as tempestades, acorde e seja quem você foi, inteiro e feliz.
Shin grunhe no meu colo, mas seus olhos continuam fechados. Gentilmente afasto para o lado o cabelo que grudou em sua testa.- Ele está lutando contra o sono. Ele quer acordar - diz o Deus do Mar.
Olho para o deus-menino, dividida entre ficar neste momento com ele e ajudar Shin. De alguma forma, sei que o tempo está acabando; logo o garoto e o dragão vão desaparecer, e eu serei expulsa do sonho.
- Você podia contar uma história para ele - sugere o deus-menino.
Meu coração dá um solavanco. Uma história? Convencer um deus a despertar depois de cem anos parece uma tarefa impossível, mas uma história eu posso contar. Contei centenas de histórias para meus irmãos e para as crianças do vilarejo. Agora vou contar uma história para o Deus do Mar e para Shin. Só não sei qual escolher.
Shin se mexe. Meus olhos vão dele para o deus, e depois voltam para ele, se demorando ali.
Shin protege o Deus do Mar daqueles que querem feri-lo, mesmo ressentido por seu abandono. De repente, a história vem até mim, como se estivesse me esperando esse tempo todo.
Respiro fundo e começo:
- Era uma vez dois irmãos. O mais novo era pobre e morava em uma cabana, mas era gentil e tinha um coração bom, enquanto o outro era rico e morava em uma casa grande, mas era cruel e ganancioso.
“Uma manhã, o irmão mais novo ouviu um triste som vindo da floresta. Ele o seguiu e encontrou um filhote de andorinha que tinha caído do ninho e estava chorando de dor por sua asa quebrada. O garoto o levou para casa, passou bálsamo em suas juntas e fez uma pequena tala
com barbante e gravetos para evitar que sua asa ficasse torta. Depois, colocou a andorinha de volta em seu ninho, e, quando o inverno chegou, ela foi embora para o sul.
“Na primavera, a andorinha voltou e deixou uma semente no jardim dele, que se transformou em cinco abóboras gordas. Quando ele abriu a primeira, montanhas de arroz se espalharam. Era muito mais do que ele precisava para a vida toda. A segunda continha ouro e joias.
A terceira guardava uma deusa da água, que abriu as outras duas. Uma escondia pequenos carpinteiros e a outra, madeira. Em um dia, eles construíram para ele uma magnífica mansão.
“O irmão mais velho, tendo ouvido sobre a sorte de seu irmão mais novo, foi até a mansão e lhe perguntou como ele tinha ficado tão rico em tão pouco tempo. O mais novo lhe contou sobre a andorinha.
“O irmão mais velho, se achando muito esperto, construiu um ninho e esperou uma andorinha vir botar seus ovos ali. Então decidiu empurrar um filhote, que quebrou sua asinha. Assim como seu irmão mais novo, o mais velho passou bálsamo na asa do pássaro e fez uma tala. No inverno, a andorinha voou para o sul, e ele ficou esperando ansiosamente seu retorno. Assim como o previsto, ela voltou na primavera e jogou uma semente em seu jardim.
Como antes, cinco abóboras brotaram.
“O irmão mais velho abriu a primeira abóbora todo feliz, mas o que saiu dela foi um exército de demônios. Eles o espancaram com varas, castigando-o por sua ganância e crueldade. Ainda assim, ele pensou que havia tesouros reservados para ele, então abriu a segunda abóbora. Só que
ela estava cheia de cobradores de dívidas, que levaram todo o seu dinheiro. A terceira continha uma torrente de água suja que inundou e destruiu sua casa e levou embora as outras duas abóboras. E ele ficou sem nada.
“Percebendo seu terrível erro, ele saiu correndo para encontrar seu irmão mais novo e implorar por ajuda, apesar de nunca ter sido bom ou gentil com ele. Na verdade, ele se esforçava para ser abertamente cruel e vingativo. Mas, quando chegou à casa de seu irmão mais novo - esperando ser mandado embora, como ele mesmo faria se as circunstâncias fossem trocadas -, ele o convidou para entrar, dizendo: ‘Você é meu irmão, e o que é meu é seu’.
Ele dividiu metade de sua fortuna com o irmão mais velho, que, entendendo as profundezas da compaixão de seu irmão, conheceu pela primeira vez o remorso e a vergonha.
Ele se tornou um homem humilde e bom. Juntos, os irmãos envelheceram felizes, cercados por sua família e seus entes queridos.”
Enquanto conto a história, o Deus do Mar permanece no lago.
Ele fala com uma voz baixa:
- Qual é o significado dessa história?
Olho para suas costas, notando o tremor em seus ombros franzinos.
- Não há um significado exato, só um… sentimento, talvez.
- E qual é?
- Que não há lugar longe o bastante para o perdão. Não quando ele vem de alguém que te ama.
Pelo menos, foi isso que entendi quando ouvi essa história. Eu queria acreditar que, mesmo se um de nós cometesse um erro, meu irmão sempre me perdoaria, e eu sempre o perdoaria.
- Eu nunca serei perdoado pelo que fiz - diz o Deus do Mar.
Ele tira a mão do lago e a coloca sobre a testa. A água escorre por seu rosto, passando como lágrimas por seus olhos fechados.- Estou com dor de cabeça. Me deixe.
- Espere - digo. - Você precisa saber de uma coisa. Meu povo…
O dragão levanta a cabeça em meio à névoa e sopra um vento frio na minha cara.
Perco a consciência e acordo em um jardim vazio com Shin a meu lado.
- Mina. - Ele se levanta com dificuldade, afastando os últimos vestígios de sono. Sua voz está tomada de preocupação. - Você está bem?
- Estou… estou bem - respondo, surpresa com sua presença. Quando Shin estava dormindo, ele parecia vulnerável e me senti protetora. Mas agora sou eu que me sinto estranhamente exposta.
Assim como na manhã em que descobri que ele tinha voltado para buscar o barquinho de papel, um sentimento esquisito se aloja em meu peito. É como se meu coração estivesse preenchido. Algo mudou entre nós naquele dia, ou talvez na noite anterior, quando levamos o desejo para a deusa. Eu só não estou pronta para nomear esse sentimento ainda.
Olho para o lado.
- O Deus do Mar estava bem aqui, Shin. Eu estava em seu sonho.
Shin não fala nada, apenas franze as sobrancelhas.
- O que significa isso? - pergunto.
- Não sei - responde ele, então acrescenta, hesitante: - O
Deus do Mar nunca apareceu para nenhuma noiva antes.
Ao nosso redor, a névoa se dissipou.