A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 31
E MBORA O DEUS DO MAR TENHA ME TOMADO COMO SUA NOIVA, as perguntas continuam me atormentando nos dias seguintes, enquanto perambulo pelos corredores vazios do palácio. Lorde Grou disse que, uma vez que o Fio Vermelho do Destino se formasse entre mim e o Deus do Mar, eu saberia que era hora de quebrar a maldição. Será que ele estava mentindo, ou nunca houve maldição nenhuma, para começo de conversa? Um ano parece tempo demais para descobrir se as tempestades acabaram de vez. Algo dentro de mim me perturba. É como se eu estivesse olhando para uma história inacabada.
Também estou preocupada com Namgi. Será que Kirin o tirou do rio a tempo? Será que Dai se recuperou? E Cheong?
Deve haver algum jeito de devolvê-la ao mundo de cima.
Eu pensava que a Casa de Lótus era grande, mas seu terreno todo poderia caber em um quadrante do palácio do Deus do Mar. Levo dias para explorar o quadrante leste, onde fica meu quarto com vista para o jardim. Nunca vi
ninguém - nem criados nem guardas -, mas os cômodos estão todos limpos, e as chamas de suas lareiras estão acesas. Não sei se os seres invisíveis que cuidam do palácio são criados fantasmagóricos ou algo completamente diferente disso. Durante todas as horas do dia, as mesas da cozinha estão servidas de comida - os pasteizinhos estão fumegantes, como se tivessem acabado de sair do fogo; as frutas e os vegetais estão sempre frescos, como se tivessem sido colhidos e lavados um instante atrás. Todas as noites, vestidos elaborados surgem no meu armário. E, se sinto falta de alguma coisa, só tenho que dizer as palavras em voz alta para que o objeto do meu desejo apareça, seja uma banheira quentinha ou sandálias para os meus pés.
Na manhã do meu trigésimo dia no Reino dos Espíritos, encontro o Deus do Mar olhando para os barquinhos de papel no lago do jardim, onde ele passa a maior parte de seu tempo. Como fiz outras vezes, espio a água para ver se o barquinho com meu desejo está flutuando entre os juncos, mas não vejo nada. Fico me perguntando se a Deusa da Lua e da Memória percebeu que tem uma dívida comigo. Afinal de contas, apesar de eu ter lhe oferecido meu desejo voluntariamente, ela nunca cumpriu sua parte do trato.
- Tenho um pedido para te fazer - digo, me sentando ao lado do Deus do Mar na grama da margem do lago. - Minha irmã, Cheong, desceu até aqui na última tempestade.
Queria visitá-la para saber como ela está se saindo, mas também para falar com nossos ancestrais, a fim de descobrir se existe algum jeito de ela voltar para o mundo de cima.
- Na última história que você contou, foi o Deus do Mar quem devolveu Shim Cheong para o mundo de cima. Receio não ter o poder de fazer isso. Senão, eu a mandaria de volta para que ela se juntasse ao pai.
- E eu? Se eu pedisse, você me devolveria também?
Curvado sobre o lago, de costas para mim, ele fica em silêncio por um tempo, até que diz:
- Eu lhe dou permissão para sair do palácio. Mas você precisa voltar antes que o sol se ponha, porque nós vamos nos casar. Caso contrário, você vai se tornar um espírito e perder sua alma.
Eu me afasto do lago. A princípio, caminho devagar, mas então vou mais rápido e mais rápido ainda, até que estou correndo, cruzando a porta secreta, o salão e os vários pátios. Os grandes portões - que foram fechados depois que entrei no palácio - agora estão abertos. Passo por eles e desço a escada apressadamente, seguindo para o rio. Ao sul, está a Casa de Lótus, e, embora eu queira ir para lá, sei que, se eu for, talvez nunca mais vá embora.
O rio está calmo e tranquilo. Ainda assim, não olho para a água enquanto atravesso a ponte.
A Casa da Estrela é um templo com telhado em camadas que fica ao sopé das montanhas do leste. Chego no auge da manhã, e o sol brilha intensamente sobre um prado tomado por azaleias reais.
Criados vestidos de preto - homens e mulheres de cabeça raspada -me cumprimentam no pátio principal do
templo da montanha. Uma mulher faz uma reverência para mim, gesticulando para que eu a siga. Ela me conduz por corredores profundamente cravados na encosta da montanha e por um longo lance de escada. O ar fica mais rarefeito à medida que vamos subindo, e emergimos em uma plataforma com vista para todo o vale. Cheong e uma outra jovem estão sentadas em tapetes de palha atrás de uma mesinha disposta com chá e frutas em delicadas tigelas de porcelana.
A jovem se vira quando nos aproximamos. Ela é linda.
Tem um rosto redondo, bochechas coradas e olhos brilhantes.
Hyeri.
Ela inclina a cabeça para o lado, me estudando com atenção.
- Conheço você.
- Já nos vimos antes - digo. - Um ano atrás, na noite em que você ia se casar com o Deus do Mar.
- Lembrei agora. - Ela se levanta para pegar minhas mãos. Assim como Cheong, ela é mais alta do que eu. Sua voz é calorosa e receptiva. - Você foi minha aia. Você me ajudou a me vestir e trançou meu cabelo. Você me ouviu em uma noite que eu precisava mais do que tudo ser ouvida. -
Ela me puxa com gentileza para a mesa quadrada, oferecendo uma esteira para mim. - Venha, junte-se a nós.
Depois que me acomodo, Hyeri me serve uma xícara de chá fumegante. Eu a levo ao nariz e inalo o aroma suave de crisântemos.
- Estou feliz que você veio, Mina - diz Cheong timidamente. Estico o braço e pego sua mão, apertando-a
com força.
- Você parece bem, Cheong - digo, sentindo gratidão por Hyeri. -Vim aqui hoje não só para te visitar, mas também porque acho que existe um jeito de te devolver para o mundo de cima.
Ela arregala os olhos.
- Isso é possível?
- Tenho motivos para acreditar que sim. - Viro-me para Hyeri e pergunto: - O que você sabe sobre a Casa dos Espíritos?
Ela se recosta na almofada com uma expressão pensativa.
- É a maior de todas as casas. Está localizada na parte inferior da cidade, onde o rio começa. Os espíritos que conseguem sair do rio são levados para lá primeiro, e depois são enviados para a casa de seus ancestrais que já moram na cidade, ou para um mestre de guilda em busca de emprego. Assim, o melhor jeito de encontrar seus ancestrais é ir para essa casa e se apresentar a eles. - Hyeri se vira para Cheong. - Você tem algum parente que morreu antes de você?
- Só tenho meu pai, que ainda está vivo.
Hyeri suspira.
- Bem, nem tudo pode funcionar perfeitamente.
Sorrio, achando graça dessa estranha maneira de enxergar as coisas.
- Estava pensando… - digo. - Talvez meus ancestrais nos ajudem. Afinal de contas, eles também são os ancestrais de Cheong. Ao se casar com Joon, ela se tornou parte de nossa família.
Hyeri se inclina para a frente, animada.
- Isso! Mina, você pode ir até a Casa dos Espíritos para ver se consegue se encontrar com eles. Os ancestrais são sábios e já viveram muitas vidas. Qualquer coisa que eles compartilharem com você pode ser útil.
Assinto, então me viro para Cheong.
- Como não sei quais dos nossos ancestrais estarão na Casa dos Espíritos, acho melhor eu ir sozinha. Vou falar com eles, e depois volto para te buscar.
- Obrigada, Mina - diz Cheong, emocionada. - Mas… - Seu sorriso desvanece. - Mas e você? Se eu voltar para o mundo de cima, não quero ir sozinha. Você tem que ir comigo. Seus irmãos estão te esperando, e sua avó…
Meu coração dói intensamente ao pensar na minha família. Na nossa família. Eu daria tudo para vê-los uma última vez.
- Não posso. Se eu me recusar a me casar com o Deus do Mar e voltar para o mundo de cima, é possível que as tempestades recomecem.
- Você vai mesmo se casar com ele? - Cheong franze as sobrancelhas. - Mas e… - Ela nunca termina a frase, talvez por perceber minha expressão arrasada.
Hyeri e Cheong trocam um olhar.
- Eu acho tudo muito estranho - diz Hyeri. - Todo mundo fala que a maldição foi quebrada, e mesmo assim o Deus do Mar não sai do palácio. Nada mudou de verdade, além das tempestades.
Hyeri tem razão, eu também notei nisso. O Deus do Mar continua igual ao que era antes de despertar: melancólico e solitário.
- Por que o Deus do Mar foi amaldiçoado, para começo de conversa? - continua ela. Suas perguntas reviram algo dentro de mim. - E, se ele foi amaldiçoado mesmo, quem foi que lançou a maldição?
Ouvimos uma batida suave na porta, e nós três nos viramos para a entrada da varanda, onde Shiki - Deus da Morte e marido de Hyeri -está parado, vestido todo de preto, como na primeira vez que o vi.
Ele faz uma reverência e diz:
- Peço desculpas pela interrupção. Sei que vocês gostariam de conversar mais… mas três visitantes chegaram para ver lady Mina.
Meu coração dá um solavanco dentro do peito.
Eu me despeço de Cheong e Hyeri e sigo Shiki pelos corredores do templo até a escadaria que dá para o vale.
Há três figuras entre as azaleias selvagens. Namgi. Kirin.
E Shin.
Caminho na direção deles através do campo de flores corde-rosa e roxas.
- Mina, a noiva do Deus do Mar - diz Namgi baixinho.
Sou tomada por uma onda de alívio. Da última vez que o vi, Kirin estava arrastando para fora do rio a alma quase perdida de Namgi.
- Só Mina - digo, enquanto ele me puxa para um forte abraço. Eu me deleito em seu calor. Quando sua alma saiu de seu corpo, ele estava tão frio.
- Bem, Só Mina - diz ele, me soltando -, como se sente sendo a noiva escolhida do Deus do Mar? Você pensa em nós, seus amigos não tão ilustres?
- Não me sinto nem um pouco diferente. - Olho para Shin.
Ele está mais afastado do grupo. Ele não me encara, apesar de eu ter sentido seus olhos sobre mim enquanto atravessava o campo de azaleias.
- Você parece bem - diz Kirin. - Sua roupa é bonita.
Olho para mim mesma. Estou usando um vestido simples cor-de-rosa e verde, um dos muitos do meu armário.- Obrigada - digo, corando. - Como está Dai?
- Ele e seus outros amigos espíritos saíram da casa esta manhã, depois que o considerei completamente recuperado.
Ao contrário de Namgi, que ainda está fraco demais para ficar zanzando por aí.
Namgi sorri.
- Estou ótimo. Nada poderia me impedir de ver Mina.
- Você devia tomar mais cuidado - insiste Kirin. - Pouco tempo atrás, você não tinha nem alma.
- Mas agora tenho, graças a você! - Namgi ataca Kirin com um abraço.
Eles caem nas flores, discutindo, igual quando os conheci, no salão do Deus do Mar. No entanto, agora é possível ver o quanto eles se amam e se importam um com o outro, e a briga logo se transforma em risada.
Encaro Shin com o coração batendo dolorosamente.
Quando o conheci, pensei que seus olhos escondiam seus pensamentos melhor do que a máscara escondia seu rosto.
Já não penso mais assim.
Ele me olha com um olhar tão triste que parte meu coração.
- O que está fazendo aqui? - pergunto baixinho.- Eu falei que te levaria para ver seus ancestrais.
Quase me desfaço em pedaços. Shin… este homem alto, nada assustador e honrado, que mantém a palavra e sempre cumpre suas promessas, mesmo quando está sofrendo.
Engulo em seco.
- Então vamos.
A Casa dos Espíritos é exatamente como Hyeri descreveu: uma construção gigantesca e quadrada, que fica ao lado do Rio das Almas e lembra uma casa de banho. Tem ao menos cinco andares. Através das janelas de papel, posso ver o contorno dos seres festejando e dançando lá dentro.
Shin atravessa as grandes portas e segue para a sala principal do edifício, passando por uma enorme fila de pessoas muito molhadas.
Namgi se inclina para sussurrar em meu ouvido:
- Recém-chegados.
A sala é magnífica, um enorme pátio fechado cercado de terraços em todos os andares.
Um homem corpulento de bigode e olhos redondos se apressa para cumprimentar Shin.
- Ó grande e poderoso lorde da Casa de Lótus…
Kirin o interrompe.
- Precisamos arranjar um encontro ancestral.
O homem pisca rápido.
- Sim, claro! - Ele estala os dedos, e uma avó pequena e curvada se aproxima, mancando. Ela está usando uma máscara de jovem. Lentamente, ela entrega ao homem um pergaminho enrolado.
Ele limpa a garganta.
- Sobrenome?
- Song - digo.
- Vilarejo de origem.
- Beira-Mar.
- Song das Montanhas Baixas, dos Campos ou da Ribeira?
- Montanhas Baixas. - Faço uma careta. Cortamos relações com os Song dos Campos depois que o avô deles teve um desentendimento com o meu avô por conta de uma partida de Go.
- Ah, aqui estão - diz ele, com um dedo no papel. - Parece que… tanto sua tataravó quanto seu avô estão registrados como seus ancestrais Song na cidade.
Fico sem ar. Lágrimas enchem meus olhos. Meu avô.
Minha tataravó.
- Eles estão aqui? - sussurro emocionada, e me viro para Shin. -Eles estão aqui! E eu vou vê-los! - Eu não sabia que precisava tanto vê-los até este momento.
- Fico feliz por você, Mina - diz ele baixinho.
A avó dá uma tossida por trás da máscara. Viro as costas para Shin e para os outros e sigo-a. Subimos cinco lances de escada e avançamos por um corredor repleto de portas fechadas. Ela para na terceira porta à esquerda e a abre.
- Espere aqui.
Entro na sala e ela fecha a porta atrás de mim. O cômodo é pequeno, composto de várias prateleiras baixas abarrotadas de itens. Reconheço alguns dos rituais que minha avó e eu fazíamos todos os anos. Ali está a comida que deixamos para o meu avô no dia de seu aniversário no mês retrasado. Ela ainda está boa. O arroz com feijão e a sopa de bacalhau seco - seus pratos favoritos -ainda estão fumegantes, mas percebo que as tigelas estão mais vazias.
Ali estão as frutas brilhantes, as preferidas do meu avô, que minha avó deixou para ele, e o buquê de flores frescas colhidas no jardim que ela deixou para a sua avó - as flores douradas e os hibiscos escarlates ainda estão tão reluzentes quanto no dia em que os colhemos.
Pouso o olhar em um berço enfiado no canto da sala.
Respiro fundo. É o barco que Joon levou semanas esculpindo.
Ficamos tão animados quando Sung, meu irmão cinco anos mais velho que Joon, nos contou que ele e Soojin teriam um bebê. Joon e eu fomos para as montanhas; eu rezei para o guardião da floresta enquanto ele derrubava sua árvore favorita, a que plantou quando era só um garotinho. Com o coração da árvore, ele construiu um berço para a bebê. Ele entalhou belas imagens na madeira - um grou voando para guiá-la em seus sonhos, um tigre subindo pela cabeceira para protegê-la dos pesadelos -, e todas as noites eu me colocava diante do berço inacabado rezando para a Deusa das Mulheres e das Crianças, beijando a madeira que um dia receberia a cabecinha da minha sobrinha.
Quando nasceu, ela sorveu o ar apenas uma vez, e nunca mais. Enterramos o berço no jardim, para que ele pudesse embalá-la no outro mundo.
Corro os dedos pelas listas do tigre e pelas penas das asas do grou.
A porta se abre atrás de mim, e meus ancestrais entram na sala.