A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 13 de 38

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A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 13

Coloco-me na frente de Nari. Embora as palavras de Namgi sejam para ela, seus olhos estão em mim.

- Quebrar juramentos, entrar sorrateiramente em lugares aos quais você não pertence - diz ele. - Você pede demais dos seus amigos.

Hesito e digo:

- Eu pediria o mesmo aos meus inimigos.

Ele levanta uma sobrancelha, provavelmente se lembrando das palavras de ontem. Você é um amigo ou

inimigo?

- Não temos como fugir - diz Namgi. - Eu mesmo vou levar você até lá.

 

13

N AMGI E EU SAÍMOS A PÉ PELO PORTÃO PRINCIPAL, por onde os convidados da festa chegaram na noite anterior. Os guardas de plantão fazem um aceno de cabeça para ele quando passamos, dando uma olhada rápida em mim. Sei qual é a localização de Shin por causa do Fio Vermelho do Destino, que neste momento se estica atrás de mim, indicando que ele está em algum lugar ao sul. Se eu conseguir me manter ao norte, ele não vai descobrir que deixei a Casa de Lótus, pelo menos por um tempo.

Apesar de ser cedo, a cidade já está toda agitada: os espíritos estão comprando produtos e flores frescos na feira montada em ambos os lados da rua. Até o canal está repleto de vendedores em barcos, expondo suas mercadorias enquanto gritam para as pessoas passando pela costa. Vejo uma jovem jogar uma moeda de estanho no casco de um barco com uma mão, enquanto, com a outra, pega um peixe embrulhado lançado pelo vendedor.

- O que quer fazer primeiro? - pergunta Namgi, caminhando com as mãos na nuca. - Compras? Que tal um passeio? Tem uma casa de chá maravilhosa no distrito do mercado que serve uma variedade de bebidas alcoólicas.

- Leve-me para o palácio do Deus do Mar.

Posso ver, a distância, seu telhado em forma de asa, sob a sombra de uma grande nuvem branca.

- Os portões do palácio não estarão abertos, sabe. Não até o ano que vem, quando outra noiva chegará.

Franzo o cenho. Este é mais um obstáculo, mas não posso perder essa oportunidade.

- Vou lidar com isso quando chegar lá.

Namgi dá de ombros e gesticula para que eu o siga.

Descemos a rua. Conforme caminhamos, fico observando-o com o canto do olho. Como ontem, ele usa vestes pretas e justas e tem uma adaga na cintura; seu cabelo está puxado para trás, preso com uma presilha de jade. As pessoas o chamam quando passamos, a maioria de maneira muito amigável, embora eu note alguns espíritos se esquivando dele. Isso me lembra a festa da noite anterior, quando os convidados fugiram de medo com a chegada dos homens-cobras ao pavilhão.

- Está gostando do que vê? - pergunta Namgi, ao me perceber encarando-o.

- Ontem à noite, no pátio principal… - Seu sorriso provocador se dissipa. - Aquele homem era seu irmão?

Além do fato de que Ryugi o chamou de irmão, as semelhanças entre eles são muitas para serem ignoradas.

Os dois homens - ou melhor, todos eles, na verdade - são altos e magros e têm as mesmas feições marcantes.

- Dois deles são meus irmãos - diz Namgi após um momento de silêncio. - Hongi, que estava atrás, é mais como um primo.

Estremeço, lembrando dos eventos que precederam a chegada deles e do terrível som de corpos longos e sinuosos voando pelo ar.

- Então você não é um espírito?

- Não sou um espírito, graças aos deuses - diz ele. - Não que eu não goste de espíritos. - Ele abre um sorriso para um grupo de jovens que se aproxima de nós. A erupção de risadas que se segue é realmente impressionante.

- Não sou espírito, nem demônio nem deus. - Ele faz uma pausa dramática. - Sou um Imugi. Uma besta de um mito.

Cética, olho para seu cabelo encaracolado e seu sorriso travesso.

Ele dá risada.

- Esta é só minha forma humana, que consome muito menos energia para se mover, acredite em mim. Na forma da minha alma, sou uma poderosa serpente marinha. Ela é como um dragão, só que sem sua magia. Os Imugis são uma raça guerreira. Nascemos na guerra e morremos na guerra. Não adoramos deuses, pois acreditamos que nós mesmos podemos nos tornar deuses, seja vivendo mil anos, seja lutando mil batalhas. Só então poderemos ser elevados de serpentes a dragões.

Namgi sorri timidamente e continua:

- Claro, há um atalho para a divindade, como sempre acontece quando se trata de longas jornadas como essa. A pérola de um dragão pode transformar um Imugi em um deles, se ele assim o desejar. Ouvi boatos de que lorde Shin

tinha uma pérola em sua posse. Sendo o tolo de cabeça quente que eu era, tentei roubá-la. É suficiente dizer que falhei. Ela definitivamente não estava em seu quarto. Quero dizer, você viu, não há…

- Nada lá - termino. Nada exceto um armário, um biombo de papel e uma prateleira.

- Exato. É como se ele não tivesse nenhum pertence.

Você devia ver o meu quarto. Está cheio de todo tipo de coisa que fui coletando durante esses anos.

- O meu também. Minha avó vive enchendo meu saco me mandando guardar minhas coisas. Ela fala: “Mina, como é que você vai ter sua própria casa um dia se não consegue nem manter seu quarto em ordem?”. Claro, toda vez que vou arrumar o quarto, descubro que ela já dobrou as roupas e varreu o chão. Ela me pede para ser mais responsável, mas não consegue não me tratar feito criança. Sempre vai me ver como sua netinha mais nova, a única garota da sua linhagem, depois de ter tido somente filhos e netos. Fala que sou sua favorita, mesmo que, como avó, não deva escolher ninguém. Ela diz que eu a lembro de sua avó, de quem ela sente muita saudade todos os dias.

- Você é bem próxima dela.

Mordo o lábio, de repente tomada pela emoção.

- E seus pais? - pergunta ele.

- Eles morreram quando eu era criança. Meu pai morreu no mar. Minha mãe, no parto.

- Então foi sua avó quem te criou.

- Ela e meu avô, mas ele morreu. E meu irmão mais velho e sua esposa.

- Não vejo minha mãe há anos - diz Namgi. - Desde que jurei minha vida a Shin. A maioria dos Imugis encontra um mestre para servir, para poder completar as mil batalhas, já que não somos exatamente uma raça paciente. Assim, a maior parte da minha espécie serve a deuses da morte ou deusas da guerra. Eu planejava servir à Deusa da Lua e da Memória, assim como meus irmãos. Mas sempre me pareceu errado servir a um mestre só para lutar suas batalhas insignificantes. Roubar a pérola foi minha forma de me rebelar. Quando me pegou, Shin deveria ter me matado, mas, em vez disso, me ofereceu uma posição como seu guarda. Ele me salvou, e, por isso, devo minha vida a ele. E

minha vida mortal é de mais ou menos mil anos.

Olho para ele, levemente impressionada.

- Então quantos anos você tem?

Namgi abre seu sorriso, agora familiar.

- Dezenove.

Apesar de estarmos caminhando sem parar, o palácio do Deus do Mar ainda está distante, parecendo mais longe ainda. Namgi me conduz por uma rua, então por outra, até chegarmos a uma estrada que acompanha um canal. Vejo uma casa de chá com deques baixos se estendendo sobre a água. É adorável.

Já vi essa casa antes. Passamos por ela a caminho da Casa da Raposa na noite passada, o que significa que estamos longe demais- agora estamos a oeste do palácio do Deus do Mar, quando antes estávamos a leste.

Namgi se vira lentamente para me olhar, erguendo as mãos em um gesto apaziguador.

- Por favor, não fique brava, Mina. Como eu disse, as portas do palácio estão fechadas. Ninguém jamais entrou ali. É enfeitiçado. Quem sabe se você esperar, o próprio Shin te leve. Se alguém pode ultrapassar os muros do palácio, é ele.

- Vou esperar.

Namgi suspira de alívio.

- Você não vai se arrepender dessa decisão. Há tanta coisa para ver na cidade além do palácio do Deus do Mar. -

Ele se abaixa sob um arco em um beco cheio de barracas amontoadas; os espíritos estão se empurrando para pechinchar os preços de uma variedade de itens: sandálias, garrafas de porcelana com ginseng, tinta e pergaminhos.

Ele para e avalia um alfinete em forma de cavalo com olhos prateados e diz com uma risada: - Parece Kirin.

Sorrio.

Preciso despistá-lo, mas como? Não sou tola de achar que posso simplesmente me enfiar entre a multidão. Ele me encontraria em instantes. Ele conhece bem a área, e os moradores da cidade estarão mais propensos a ajudá-lo do que a ajudar uma estranha. Uma barraca está vendendo guarda--chuvas de seda, papel e tecido. Outra tem uma parede inteira coberta de máscaras de raposas, pássaros e aves de rapina. Algumas têm fendas nos olhos, outras buracos nas bocas. Há máscaras brancas com pontos vermelhos nas bochechas para determinar que são noivas; avôs com rugas e sobrancelhas de penas, e uma avó com olhos sorridentes.

Estou olhando para a máscara de avó quando ela de repente pisca para mim.

Depois ela leva um dedo aos lábios e o aponta para o lado. Dai vem correndo através da multidão.

- Mina. - Namgi aparece ao meu lado. - O que está fazendo?

Rapidamente, pego a máscara mais próxima - que, por ironia, é uma pega - e a coloco sobre o rosto.

- Que tal?

Pelos buracos dos olhos, observo Namgi sorrir.

- É horrível.

Olho para os lados. Dai está quase chegando.

- Eu quero. Compra pra mim?

Ele suspira.

- Se insiste. - Ele pega no bolso uma longa corda de moedas e se vira para o vendedor. - Quanto é?

Dai se aproxima, se colocando entre nós. Em um piscar de olhos, ele pega a corda de moedas de Namgi e a máscara da minha mão, colocando-a sobre o rosto. Então vai embora, desaparecendo entre a multidão do mercado.

- Seu ladrãozinho! - Namgi sai correndo atrás dele.

Mascarada surge a meu lado. Ela pega minha mão e me puxa por um espaço entre as barracas.

Tropeço e fico de frente para ela. Olho ao redor e vejo que ela me trouxe para um beco estreito.

- Você apareceu bem na hora - digo, ofegante. - Estava me perguntando como despistar Namgi.

Ela assente, e sua máscara de avó está sorrindo com as bochechas coradas.

- Conheço o caminho para o palácio do Deus do Mar. Vou te mostrar.

- E Dai? - Olho para a rua movimentada. - Namgi vai ficar furioso quando descobrir que foi enganado.

- E quem disse que ele vai ser pego? - pergunta Mascarada. - Bote um pouco de fé em Dai, Mina. Ele pode não ser muito inteligente, mas é rápido!

Mascarada se vira, me conduzindo pelo beco. Em suas costas, Miki está dormindo, com as mãozinhas na bochecha.

Ela se curva e coloca as mãos mais firmemente sob o traseiro da bebê, ajustando-a para que a menina fique segura. Ela então sai correndo por ruas e becos, passando por pontes e jardins. Os pedestres abrem caminho para a

“avó” com uma bebê.

Não é a primeira vez que fico me perguntando como é o rosto debaixo daquela máscara de avó. Caminhando com as costas voltadas para mim, posso ver os fios de cânhamo da máscara entrelaçados nos fios escuros de seu cabelo. Se alguém olhasse pela janela, poderia achar que somos irmãs.

Logo alcançamos o grande bulevar que dá no palácio do Deus do Mar. Nós nos apressamos, subindo os degraus.- O portão está aberto! - grito. Namgi disse que ele estaria fechado, mas há uma fenda entre as portas, grande o suficiente para que uma pessoa passe.

Estou quase lá quando percebo que Mascarada e Miki não estão mais comigo. Olho para trás e vejo-as no topo da escada. Miki, agora acordada, espia como uma coruja por cima do ombro da garota mais velha.

- Vá em frente, você está quase lá - diz Mascarada.

Afasto-me da porta.

- Mina? - Ela inclina a cabeça.

Saio correndo até ela e a abraço com força.

- Não sei por que está me ajudando, mas agradeço muito

- digo. Miki faz um barulhinho, e eu abro os braços, aconchegando-me no cabelo macio de Mascarada.

Talvez eu devesse desconfiar de alguém que esconde o rosto atrás de uma máscara, mas sinto sua bondade e preocupação comigo em cada palavra que ela pronuncia e em suas mãos gentis fazendo carinho em minhas costas.

- Tenho meus motivos - diz ela, misteriosa. - Agora vá.

Ela me empurra pelo portão do palácio do Deus do Mar.