A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 4 de 38

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A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 4

A AVE PIA NA MÃO DE SHIN. Ao contrário das pegas pretas e brancas do meu vilarejo, as pontas das asas desta cintilam em um tom vibrante de vermelho - a mesma cor do Fio Vermelho do Destino.

Ela agita as asas, e eu sinto uma pontada estranha no peito.

Kirin se aproxima com passadas largas, cobrindo a curta distância entre nós. Ele ergue a gaiola de madeira, e Shin gentilmente coloca a pega lá dentro. A ave não parece se importar com a prisão, e saltita contente no poleiro que se estende pela pequena gaiola. Enquanto Kirin fecha a portinha com um barbante de bambu, Shin se vira, guardando a espada de volta na bainha.

Aponto para a gaiola.

- De onde veio essa pega?

Mas nenhum som sai da minha boca.

- De onde…

Nada. Não há som. Não tenho voz.

Pressiono os dedos na garganta; minha pulsação está forte.

- O que está acontecendo? - Posso sentir as palavras, as vibrações familiares. - Por que não posso me ouvir?

- Sua alma é uma pega.

Olho para Namgi sorrindo para mim do último degrau, sem máscara.

- Como assim?

Ele não precisa me ouvir para ler minha expressão. Ele vem até Kirin e se agacha para espiar a gaiola.

- Quando Shin cortou o Fio Vermelho do Destino, ele levou sua alma. Para você, sua alma está ligada à sua voz.

Não é incomum isso acontecer com cantoras e contadoras de histórias.

Minha… alma?

Ele bate o nó do dedo nas barras de madeira, fazendo com que a pega agite as asas de pontas vermelhas.

- É um estado temporário do ser. Nada muito grave. É

como se, a cada três batidas, seu coração perdesse uma.

Fico pálida, achando tudo isso muito grave.

Kirin puxa a gaiola das mãos de Namgi.

- No final do mês, vá ao portão sul da Casa de Lótus -

explica ele com uma voz monótona, como se tivesse falado essas palavras muitas vezes antes. - Um criado vai devolver sua alma. Não nos responsabilizamos pelo que pode acontecer se você não aparecer.

Esforço-me para entender. É muito diferente acreditar nos mitos e viver dentro de um. Se eu quiser acreditar neles, devo aceitar que minha alma é uma pega e está de alguma forma fora do meu corpo. Porém, sou a mesma de

quando acordei neste mundo. Talvez eu esteja um pouco mais salgada e completamente exausta, mas isso não é nada comparado ao que eu pensava que seria perder a alma - um batimento cardíaco a menos por minuto parece um abismo tão grande quanto o mundo que habita você.

- Lorde Shin - chama Kirin. - Com a sua permissão, Namgi e eu vamos voltar para a Casa de Lótus.

Shin, que tinha se abaixado para pegar algo no chão, se levanta.

- Vocês têm a minha gratidão, Kirin. Vou me juntar a vocês em breve.

Kirin faz uma reverência, seguido por Namgi. Eles se viram para sair. A pega dá um grito de advertência.

- Esperem! - grito, mas não emito som nenhum.

Eles saem depressa do salão, levando a pega com eles -

minha alma. Logo os perco de vista.

- Diga a eles pra voltarem! - Subo a escada e agarro o braço de Shin. Através do tecido fino de sua camisa, posso sentir o calor de seu corpo, seus músculos se contraindo em resposta a meu toque. Ele se vira, revelando o brilho de uma lâmina em sua mão direita. Cambaleio para trás e levanto o braço. Ele não me ataca, então olho para cima.

Ele me observa com uma sobrancelha levantada e devolve meu punhal, oferecendo-me o cabo.

- Depois de todo o trabalho que tive para pegar sua alma- diz ele, zombando -, você acha que vou te matar agora?

Seu tom sarcástico me deixa arrepiada de raiva.

- Achei que você não se importaria. O que é um corpo sem uma alma para alguém como você?

Seus olhos imediatamente percorrem meu corpo, e cerro os dentes para não corar. Depois de alguns segundos excruciantes, eles voltam para o meu rosto, pelo visto sem terem encontrado nada de interessante.

Mais uma vez, ele estende o punhal para mim. Agora eu o pego e fico na borda do palanque, querendo colocar o máximo de distância entre nós.

- Fique com isso. Uma arma forjada no reino dos humanos tem um corte afiado no reino dos deuses.

Seu conselho é desnecessário. Eu ficaria com o punhal de qualquer forma, já que é o único item do meu mundo que me sobrou, tirando as roupas que estou vestindo. É a única ligação que tenho com minha família e meus entes queridos.

Shin afirma ter roubado minha alma, mas então por que me sinto assim - como se tivesse sofrido um forte golpe no meu âmago ao pensar na minha família? De onde vem essa dor, se não da minha alma?

- Minha avó me deu esse punhal. - Deslizo o polegar pelos sulcos ásperos de uma lua esculpida no cabo de osso.

- Ele pertenceu à avó dela, que ela dizia se parecer comigo.

- Viro a arma para o lado, revelando a cicatriz que abri no meu pulso para fazer o juramento ao Deus do Mar.

- A música que você cantou… foi sua avó quem te ensinou?

Guardo o punhal de volta na minha blusa.

- Ela me ensinou muitas músicas, lendas e mitos. Ela dizia que, através das músicas e das histórias, eu podia aprender sobre o mundo e as pessoas que vivem nele.

E sobre meu próprio coração, mas não menciono isso.

Então uma dúvida surge. Como é que estamos tendo essa conversa? Afinal, estou falando sem emitir som nenhum. Estreito os olhos. Será que ele pode ler meus pensamentos?

Espero.

Sua

expressão

permanece

decididamente neutra.

- Você consegue ler lábios.

- Sim.

- Por que cortou o Fio Vermelho do Destino?

- Para proteger o Deus do Mar.

- De mim? - pergunto, incrédula.

Shin desvia o olhar para o deus-menino em seu trono.

Mesmo depois de toda a comoção, ele continua dormindo.

- O Reino dos Espíritos não pode sustentar uma noiva humana. Sua espécie é fraca, e seus corpos são mais suscetíveis aos perigos deste mundo. Qualquer coisa pode efetivamente matar você, se assim quiser. O Fio Vermelho do Destino conecta sua alma ao Deus do Mar. Se você morresse, ele também poderia sofrer o mesmo destino. Para protegê-lo, cortei o laço de vocês.

Tento absorver suas palavras.

- O que Kirin quis dizer quando falou que eu posso pegar minha alma de volta no final do mês? - Shin não responde, e percebo que ele não sabe que estou falando porque ainda está com os olhos voltados para o Deus do Mar. Puxo sua manga e, quando ele me olha, repito a pergunta.

- Dentro de um mês, você vai ter passado trinta dias no Reino dos Espíritos. Até lá, você vai ter se tornado um espírito. Como eu disse, corpos humanos são fracos. Sem um laço mais forte para mantê-los neste mundo, eles…

- Está dizendo que vou morrer?

- Você morreria de qualquer maneira - diz ele -, um dia.

- Tenho dezesseis anos. Era pra eu ter todo o tempo do mundo!

Ele fecha a cara.

- Então você devia ter ficado no seu mundo.

- Meu mundo, lugar ao qual pertenço, está sendo destruído por causa do seu mundo. Se não quer consertá-lo, então eu vou!

- Como?

- O Deus do Mar…

Seus olhos brilham.

- O que tem ele? Ah, certo, seu mito precioso. Você acredita que só uma noiva humana pode salvá-lo, que ele vai se apaixonar por ela, que ele vai salvar seu povo por amor a ela.- Não. - Cerro os dentes. - Não sou tão ingênua.

- É nisso que seu povo acredita. É no que todas as noivas antes de você acreditavam.

- Você não tem como saber disso, pois cada noiva tem seus motivos, mesmo que não sejam tão grandiosos quanto você gostaria. Talvez elas achassem que, por conta de seu sacrifício, suas famílias seriam cuidadas, alimentadas e vestidas. Talvez elas acreditassem que fizeram tudo que estava a seu alcance para proteger aqueles que mais amavam. Talvez elas pensassem que pelo menos tentaram, quando ninguém mais ousaria!

Shin franze o cenho, claramente frustrado.

- Mais devagar. Não consigo entender o que você está dizendo.

- Quem é você para julgá-las? Pelo menos elas tinham esperança. E você, o que tem? Uma espada afiada. Palavras cheias de ódio.

Ambos estamos respirando pesado. Seu olhar vai da minha boca para os meus olhos.

- Para alguém que não pode falar - diz ele lentamente -, você até que tem muito o que dizer. - Há algo em sua voz parecido com… respeito? Ele faz que vai continuar, mas se vira. - Não importa. Em outra vida, quem sabe você encontrasse um lugar mais convidativo do que este. Como vê, este mar é escuro, o Deus do Mar está dormindo, e a praia está longe demais.

Já ouvi a cadência dessas palavras antes. São uma despedida.

- Espere! - grito, mas é claro que não solto nenhum som.

Estico o braço e agarro somente o ar.

Ele sai da sala depressa, mas seus passos não fazem barulho no piso de madeira. No intervalo de uma respiração, ele desaparece.

O que acabou de acontecer? Minha parte racional sabe que posso sobreviver sem minha alma. Afinal de contas, estou viva e respirando neste exato momento. Mas uma parte maior de mim sente que, sem a pega, não estou inteira. Eu me sinto mais leve sem ela, mas não de um jeito agradável. É como se uma brisa pudesse me colocar à deriva, como se eu fosse tão insubstancial quanto uma folha ao vento.

O silêncio antes pesado agora parece vazio sem o som familiar da minha respiração. Estremeço. Coloco os braços em volta do meu corpo e me viro para o Deus do Mar.

Ele está exatamente como antes, mas com uma diferença. A mão que segurava a fita está vazia, sem nada que indique que já estivemos conectados. Não há cor no ar entre nós, nenhum Fio Vermelho do Destino. Se ele acordasse agora, será que me reconheceria como sua noiva?

O Deus do Mar solta um suspiro suave.

Eu me aproximo.

Ouço um estalo estrondoso e sou atirada para trás. Cravo os calcanhares no chão, lutando para me manter no lugar, mas é como se uma ventania me arrastasse. O Deus do Mar vira um borrão distante enquanto uma força invisível me puxa pelo salão, através dos pátios vazios. As portas se fecham uma a uma conforme passo por elas, o som das grandes tábuas de madeira deslizando no lugar atrás de mim.

Sou largada do lado de fora do palácio. Tropeço e quase caio pela escadaria. Um lamento alto sinaliza o fechamento do portão principal. Eu me levanto com dificuldade e jogo meu corpo contra as portas enquanto elas se fecham com um estrondo retumbante.

Bato os punhos contra a madeira grossa. Tudo o que ganho por meus esforços são mãos machucadas e uma dor terrível no peito. Desabo no chão, exausta. Minha pulsação bate descompassada, e tenho que contar minhas respirações para acalmar as batidas selvagens do meu coração.

Fico ali no chão por alguns minutos, atordoada, antes de perceber que algo mudou. O ar está limpo.

Então ouço algo parecido com uma risada sendo trazida com o vento. Levanto devagar e me viro. A névoa misteriosa se dissipou, revelando a noite.

Atrás de mim, se estendendo feito a tela de um pintor, está a cidade do Deus do Mar.

É diferente de tudo que eu já vi - um labirinto de edifícios com telhados curvos e pontes arqueadas, espalhados como sólidas curvas de arco-íris. Uma luz dourada emana de lampiões pendurados em postes de três andares de altura, como velas de navios em chamas. Há mais lanternas flutuando na água, nas ruas do canal que se espalha pela cidade feito galhos de uma árvore magnífica e brilhante.

Peixes de cores vivas nadam pela brisa, como se o céu fosse um oceano. Baleias flutuam preguiçosamente no alto como se fossem nuvens. E a distância, o dragão desliza pelo ar como uma pipa solta na terra.

Nunca vi algo tão lindo. Nunca vi algo tão aterrorizante.

As maravilhas desta cidade revelam uma verdade inegável: estou em um outro mundo - um mundo de dragões, deuses com poderes incompreensíveis, assassinos que se movem pelas sombras sem serem vistos, onde sua voz pode ser transformada em uma ave para então ser roubada, e onde ninguém que eu amo jamais poderá me encontrar.