A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 21 de 38

Páginas do PDF

A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 21

- E você? - pergunto baixinho.

Namgi não fala nada, mas uma sombra cobre seu rosto.

- Quando olho para Kirin, só vejo ele, uma luz brilhando na escuridão. Quando ele olha para mim, só vê a escuridão.

Chegamos ao mercado central da cidade. Do outro lado está o palácio do Deus do Mar, se elevando debaixo de um oceano de estrelas. Centenas de barracas margeiam a rua, mas elas estão estranhamente silenciosas, sem vendedores anunciando seus produtos. Tudo à nossa volta é silêncio, e a quietude é como a morte.

- Namgi… onde estão as pessoas?

Namgi olha para o mercado vazio e para a rua deserta.

Ele franze o cenho e leva a mão à espada na cintura.

De repente, uma pesada cortina de escuridão recai sobre nós. É como se uma capa tivesse sido jogada sobre as estrelas.

Olho para cima e solto um grito. Pairando acima de nós, está uma monstruosa serpente marinha com a língua bifurcada à mostra.

21

- M INA, CUIDADO!

Namgi me empurra para o lado, depois dá um salto para fora do caminho, enquanto a serpente marinha lança sua cauda para baixo, acertando os paralelepípedos onde estávamos parados. Namgi se levanta primeiro. Ele sai correndo pela rua na minha direção, mas a cobra o agarra com a cauda e o atira contra um prédio.

- Namgi! - grito, avançando apressada.

- Para trás! - berra ele, erguendo o rosto.

Paro de repente. As íris de seus olhos estão vertendo sangue, e o preto se espalha pelo branco. Uma sombra cobre seu corpo, escondendo suas feições. Sua forma escurece e se deforma, então começa a se alongar. Lanças trevosas brotam de seu corpo, e um grito terrível e desumano surge de suas profundezas sinistras.

Acima, a serpente marinha fica mais agitada, balançando a cauda para a frente e para trás. Eu me escondo atrás de

uma parede em ruínas para evitar um golpe capaz de separar meu espírito do meu corpo.

Os sons da batalha reverberam por todo o mercado, onde mais Imugis avançam contra Shin e Kirin.

O rugido de Namgi é abruptamente interrompido. Viro a cabeça com tudo. Lascas de sombra emanam de seu corpo feito fumaça em um incêndio. Onde antes havia um garoto de cabelo encaracolado, agora se vê uma enorme serpente marinha enrolada sobre si mesma. Com um ruído baixo, seu corpo longo e sinuoso começa a se desenrolar e esticar, atingindo seu inconcebível comprimento máximo. Escamas pretas e vermelhas cintilam à luz da tocha.

As palavras que Namgi disse enquanto caminhávamos pelo mercado ficam ressoando em meus ouvidos. Na forma da minha alma, sou uma poderosa serpente marinha. Ela é como um dragão, só que sem sua magia. Ainda assim, a alma de Namgi é diferente dos Imugis pairando sobre nós, com suas feições de cobra, buracos no lugar das narinas e olhos vermelhos. As feições de Namgi lembram as de um dragão. Seus olhos são os de sempre, profundamente negros cintilando travessura.

Namgi ergue a cabeça e solta um grito angustiante. Uma luz escarlate vai subindo por sua garganta e irrompe de sua boca em um fogo negro, envolvendo o inimigo Imugi em sua explosão. Em seguida, ele levanta voo, e é como se estivesse sendo carregado pelo próprio vento. Os dois Imugis colidem, abrindo suas poderosas mandíbulas. As presas de Namgi rasgam a pele frágil da criatura menor.

Gotas espessas de sangue viscoso escorrem das grandes feridas e chiam quando atingem a terra.

Minha atenção é desviada da batalha. Ouço um som agudo de algo se aproximando rapidamente, zumbindo no ar. Por instinto, me abaixo. O vi- rote de uma besta voa sobre minha cabeça e se aloja em uma tábua de madeira.

No topo de um telhado do outro lado da rua há uma figura agachada- é o ladrão parecido com uma doninha que vi naquela primeira noite. Ele me olha com um sorriso de escárnio, presunçoso, embora tenha errado o alvo.

Então me lembro de seu companheiro, o ladrão parecido com um urso. Braços envolvem meu pescoço, me erguendo do chão e me arrastando para as sombras de um prédio.

Enfio as unhas nele, mas meu oponente é forte. Esforço-me para respirar enquanto meus braços enfraquecem e minha visão escurece nas bordas.

De repente, o ladrão-urso me solta, uivando de dor. Eu me viro e tenho um vislumbre borrado de Mascarada, pulando para longe das costas dele, onde ela enfiou uma faca até o cabo.

- Venha, Mina! - grita ela, pegando minha mão. Corremos pelas ruas labirínticas. Acima de nós, Namgi e seus irmãos estão travando uma batalha feroz.

Aqui e ali, vejo um rosto espiando atrás de uma janela, que se fecha rapidamente toda vez que Mascarada e eu passamos. Quando estamos longe o suficiente, ela dispara na direção de um prédio, me puxando consigo.

Eu me inclino, apoiando as mãos nos joelhos para recuperar o fôlego. Estamos em uma loja de penhores, e as prateleiras estreitas exibem uma variedade de itens: peças de cerâmica, papel e até fogos de artifício enfiados em

cestos de tecido. Mascarada vai até um barril e pega duas adagas.

Ela me oferece uma; a lâmina tem o dobro do comprimento do meu punhal.

- Sabe usar isso?

- Sei um pouco - digo, testando seu peso em minha mão.

- Minha avó me ensinou.

Mascarada sorri, estreitando os olhos atrás dos buracos de sua máscara. O som de passos se aproximando do lado de fora nos dá um aviso rápido antes que Dai irrompa na loja com Miki nas costas.

- Você está bem, Mina? - pergunta ele. - Ela está bem, Mascarada?

- Ela está bem. Eu também, obrigada por perguntar!

Miki fica me encarando com os olhos arregalados e cheios de lágrimas.

- É perigoso pra vocês dois estarem aqui - digo. Miki pode ser apenas um bebê, mas Dai também não passa de uma criança. - Se escondam.

Dai não discute. Ele vai até um canto nos fundos da loja, se agacha e murmura uma canção de ninar suave quando Miki começa a chorar. Juntas, Mascarada e eu empilhamos cestas na frente deles para impedir que vejam a batalha.

O Fio Vermelho do Destino vibra pela sala, virando para a esquerda. Shin e Kirin devem estar enfrentando os Imugis, assim como Namgi. Meu estômago se revira, sentindo a punhalada do medo só de pensar em Shin lutando contra aquelas bestas monstruosas.

Ouço um barulho alto na parte da frente da loja. Então a luz de um lampião se espalha pela escuridão do recinto.

- Passarinha - cantarola a voz do ladrão-urso. - Por ter fugido, você vai receber uma morte bem lenta. E sua amiga, uma morte ainda mais lenta que a sua.

Antes, os ladrões queriam roubar minha alma. Agora, o urso e a doninha são assassinos que querem me exterminar totalmente.

Mascarada cutuca meu ombro, chamando minha atenção. Ela aponta para si e para as prateleiras à direita, depois para mim e para a esquerda. Assinto para indicar que entendi. Nós nos separamos e saímos andando silenciosamente pela loja bagunçada. Mantenho-me rente ao chão, escondida por baús de madeira e caixotes empilhados. No final da fileira, pressiono as costas contra uma prateleira e observo ao redor. O assassino está parado em frente à porta, com uma espada em uma mão e um lampião na outra.

- Parece que um número considerável de pessoas deste reino quer te ver morta. Lorde Grou é um, mas também tem a grande mestra dos Imugis. O que você fez, passarinha, para atrair a ira de uma deusa?

Eu também gostaria de saber.

Mascarada solta um grito de batalha, saltando de uma prateleira alta. O assassino-urso se vira e levanta a espada.

As armas deles colidem, emitindo um som que lembra um sino.

Logo ela cai no chão e sai rolando, acertando as pernas do assassino com sua adaga. Com um berro, ele solta o lampião, que se estilhaça sobre uma pilha de pergaminhos, incendiando-os. Antes que ela escape, ele agarra sua trança, puxando sua cabeça para trás. Sua máscara

escorrega e, por um momento, vejo suas bochechas rosadas e sua boca carnuda formando uma careta.

Também solto um grito de batalha e avanço com tudo.

Ele liberta Mascarada para poder me enfrentar. Sinto o impacto de nossas armas em uma dor aguda subindo por meu braço. O fogo se espalha a nosso redor, transformando o lugar em um inferno.

- Mina!

Giro o corpo e vejo Mascarada recuperada, segurando um monte de fogos de artifício, deixando clara sua intenção.

O assassino se prepara para outro ataque. Dessa vez minha adaga emprestada se despedaça ao se chocar com a arma dele. O homem ergue a espada com um sorriso triunfante no rosto.

Dai salta para a frente, agarra o braço do assassino-urso e o morde com força. Com um uivo de dor, ele derruba a espada. Eu a pego depressa, mergulhando-a em suas vestes pesadas, prendendo-o o chão.

- Agora! - grito.

Mascarada acende os fogos de artifício, que explodem fazendo um barulho estrondoso.

Saímos pela porta da frente, meio chamuscados e tossindo por causa da fumaça pesada. A loja está em chamas.

Do lado de fora, abraço Dai e Miki com força. Se não fosse por eles e por Mascarada, eu certamente estaria perdida.

- Rápido - diz Mascarada, nos puxando para uma barraca.

- Não podemos ficar aqui na rua. Precisamos encontrar abrigo.

Dai pega minha mão e seguimos atrás dela, que já saiu na frente e está espiando em uma esquina.

Ela se vira de repente com uma expressão de pânico em sua máscara de avó.

- Cuidado! - grita ela.

Uma enorme serpente marinha irrompe entre os prédios à nossa direita. Sua cauda chicoteia em nossa direção, me jogando para um lado, Dai e Miki para o outro.

Sou lançada contra a parede de um prédio, levantando poeira com a colisão. Tusso, desorientada, enquanto meus ouvidos zumbem insistentemente. Um grito de dor me arranca do estupor. Dai. Miki. Levanto-me depressa.

A uma curta distância, a serpente encurralou os dois contra um edifício, cercando-os com seu corpo enrolado.

Eles não conseguem se mexer. Vejo o instante em que Dai percebe o mesmo. Ele leva a mão ao ombro e retira as alças da mochila, trazendo Miki até seu peito. Ele se vira para a parede do prédio, ficando de costas para a enorme serpente. Fico olhando horrorizada enquanto ele se inclina sobre Miki, protegendo o corpinho dela com o seu.

A serpente levanta o rabo e o lança para baixo.

- Não! - grito.

Dai também grita. Um golpe o atinge com força. Ele cai de joelhos, com Miki ainda firmemente segura em seus braços.

- Não! Por favor, pare! - imploro, avançando na direção deles.

A serpente o golpeia mais uma vez.

- Pare! - Olho em volta, desesperada. - Alguém, por favor, nos ajude…

Ouço um assobio agudo. Uma flecha dourada desce do céu, cravando-se fundo no pescoço da serpente. Ela se contorce, uivando. Outra flecha acerta sua garganta, interrompendo

seu

grito.

Ela

treme

e

desaba,

transformando-se em um homem de olhos vidrados e frios.

Uma grande besta surge do céu. A criatura parece um cavalo com cascos de fogo, e está carregando uma mulher.

Ela está esticando a corda de um grande arco feito de chifre. Seu cabelo vai até a cintura. Seus olhos são como velas acesas. Um raio de luz explode e lança sua silhueta na escuridão. Ela é o ser mais impressionante, terrível e apavorante que eu já vi. Ela vira sua montaria lentamente, o olhar brilhante fixo em mim.

- Deusa! - grita Shin do telhado do prédio mais próximo, onde está com Kirin. Ambos ostentam sinais da batalha em suas roupas rasgadas e nas espadas pingando sangue. -

Chame seus servos - ordena ele -, e saia desta cidade.

Servos? Então ela é a Deusa da Lua e da Memória. Mais Imugis surgem acima dela no céu. Mas, se ela é a mestra deles - olho para o homem caído no chão, cujo corpo está desaparecendo devagar -, por que matou um dos seus?

- Me dê a garota - diz a deusa - e vou embora em paz.

- Já falei para o seu servo, Ryugi. Lady Mina não é mais a noiva do Deus do Mar; é minha noiva.

A resposta parece desagradá-la mais do que acalmá-la, e ela segura o arco com mais força.

- Então por que ela caminha pelos jardins do Deus do Mar? Por que ela lhe conta histórias para seduzir seu coração? Sua noiva, noiva do Deus do Mar… não importa.

Ela é minha inimiga.

Devagar, ela começa a direcionar a montaria para mim.

Atrás dela, Shin sai pulando de telhado em telhado, mas não vai chegar a tempo. A deusa ergue o arco, apontando a flecha diretamente para o meu coração.

Então alguém salta na minha frente e me derruba.

- Dai! - Ele coloca os braços em torno do meu pescoço, demonstrando uma força surpreendente para um menino tão jovem, ainda mais para um menino severamente ferido.

Tento afastá-lo, mas ele me segura firme. Do outro lado da rua, Miki está gemendo no colo de Mascarada. - Dai, você precisa me soltar -imploro. Mas ele se recusa. Mesmo ferido e sangrando, ele só pensa em me proteger.

Levanto os olhos para a deusa, que nos observa imóvel de sua montaria. Por um segundo, posso jurar ver uma profunda melancolia em sua expressão, mas então ela abaixa o arco e seus olhos endurecem.

- Que covarde, se escondendo atrás de uma criança. Mas ele não vai estar com você sempre, e quando estiver sozinha, quando menos esperar, vou aparecer diante de você. E vou pegar o que me pertence.

Mordo o lábio para me impedir de responder. Minha alma pertence a mim.

O cavalo se eleva no ar. Cinzas douradas emanam de seus cascos e chiam com o vento. Ele sai galopando pelo céu, enquanto as serpentes marinhas se aglomeram ao redor da deusa.

Uma criatura se separa das outras e cai no chão. Seu corpo se encolhe e assume sua forma humana, revelando um Namgi suado e arranhado, mas vivo.

O corpo de Dai cede, e eu o seguro, acomodando-o em meu colo.

Shin se aproxima e se agacha a meu lado.

- Precisamos levá-lo para a Casa de Lótus.

Assinto, e ele o pega nos braços com gentileza.

Partimos juntos, exaustos da batalha. Mascarada carrega Miki, que está inconsolável; seu choro ecoa a preocupação em meu coração. Enquanto corremos pela rua, olho para trás uma última vez. Os lampiões da rua se apagaram durante a batalha. A única luz da noite vem da lua cheia e brilhante, eclipsada pela figura solitária da deusa.