A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 9 de 38

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A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 9

U MA FIGURA ENTRA CARREGANDO UMA VELA. A luz da chama projeta sua silhueta no biombo. A sombra do invasor não coincide com a de nenhum dos homens que vi lá embaixo. Ela tem uma forma bizarra - uma protuberância estranha irrompe de suas costas.

De repente, a sombra se alonga, abrindo inconfundíveis asas, como se fosse um ser celestial. Ou um demônio.

Pressiono as costas contra a parede. Então um som corta o silêncio: o gorjeio suave de uma pega.

Shin.

Ele se move pelo quarto silenciosamente, tira a gaiola do ombro e a coloca na prateleira. Como a Deusa da Sorte está me pregando peças esta noite! Primeiro Namgi, depois Kirin, e agora Shin.

E a pega…

Estamos tão perto que sinto um baque ecoando em meu peito a cada batida de suas asas.

A sombra de Shin volta a se movimentar pelo quarto. Ele está saindo sem a ave! Meu coração dispara diante do triunfo iminente. Mas então ele para, como se tivesse notado algo. Quebro a cabeça tentando descobrir o que chamou sua atenção.

Não toquei em nada ao entrar aqui. Será que deixei pegadas no chão?

Ele ergue a vela e assopra a chama. Sinto um aroma agradável de fumaça e flores de ameixa.

Meu coração bate rápido dentro do peito. O silêncio se prolonga interminavelmente. Quando não aguento mais, dou uma espiada para fora do biombo. Ele se foi. O quarto está tão vazio quanto antes.

Não, há uma diferença: agora há uma gaiola na prateleira. A pega agita as asas, animada com minha presença. Não é hora de hesitar. Atravesso a sala depressa e estico a mão para a gaiola.

- Pensei ter sentido a presença de um ladrão.

Eu me viro. Shin está encostado no batente da porta. Seu cabelo escuro, ligeiramente úmido, está penteado para trás.

Ele deve ter vindo da sala de banho. Não está com a mesma roupa que usava da última vez que o vi, exibindo agora uma veste de seda preta, com flores de lótus bordadas com fios de prata no colarinho. Sua espada está presa à cintura.

- Estou impressionado - diz ele, me observando com olhos semicerrados. - Você tem sorte por ter chegado tão longe.

- Que engraçado, senti que a sorte me escapou a noite toda.

Ele franze as sobrancelhas.

- Não consigo te ver daqui. Não sei o que está dizendo.

- Só porque você não ouve as palavras, não significa que elas não estejam sendo ditas.

Ele endireita a postura e avança pela soleira.

- Acho que nunca houve uma noiva que tenha me dado tanto trabalho quanto você.

- E Hyeri? Pelo que ouvi, você perdeu uma batalha contra o pretendente dela. Feriu seu orgulho ser derrotado por um humano?

Ele estreita os olhos.

- Você ainda está falando.

- Você é o culpado por não conseguir me ouvir. De qualquer forma, é melhor assim. Se soubesse o que estou dizendo, não ficaria satisfeito.

Ele atravessa o cômodo e se aproxima, parando diante de mim, iluminado pelo luar. Sinto uma pontada de irritação diante de nossa diferença de altura. Meus olhos estão no mesmo nível do tecido bordado com intrincadas flores de lótus em seu colarinho. Estamos tão perto que vejo a pulsação constante de seu pescoço. Posso sentir o cheiro que emana de suas vestes - uma mistura de lavanda, menta e sândalo.

- Pode destilar suas ofensas agora que estou te vendo claramente -diz ele.

Ele está próximo demais; minhas bochechas me denunciam ao ficarem coradas. Cerro os dentes e levanto o queixo.

- Você que é o ladrão aqui.

Há uma pausa enquanto ele decodifica as palavras em meus lábios. Depois ele fala tão baixinho que preciso me

esforçar para ouvir:

- Eu devia saber que você não desistiria assim tão facilmente. -Seus olhos vão do meu ombro para a gaiola.

Sei o que vai acontecer em seguida: serei expulsa da Casa de Lótus, assim como fui expulsa do palácio, e todas as chances de recuperar minha alma estarão perdidas. Dou um passo à frente, fazendo com que seu olhar volte para mim.

- Me deixe te ajudar - digo.

Agora já posso admitir que o julguei mal em nosso primeiro encontro. Suas ações, mesmo que equivocadas, estavam a serviço do Deus do Mar. Se eu puder de alguma forma convencê-lo de que minhas ações também estão a serviço do deus, ele talvez se torne meu aliado - um aliado forte, a julgar pela vastidão de sua casa e pela lealdade de seu povo.

Seus olhos sobem dos meus lábios para os meus olhos.

- Não há nada que você possa fazer para me ajudar.

Respiro fundo.

- Seu pressentimento sobre a presença de ladrões estava certo. -Eu o encaro enquanto ele acompanha meus lábios, franzindo as sobrancelhas à medida que vai absorvendo o que tenho a dizer. - Vi duas pessoas entrando em uma das salas do andar de baixo. Uma era maior, parecida com um urso. A outra era menor, mas… mais perigosa, acho. Talvez elas queiram te ferir por algo que você tenha roubado.

Assim como eu, pelo que você roubou de mim. - Não consigo evitar adicionar essa última parte.

- Por que eu deveria acreditar no que está dizendo?

Ouvimos um barulho do lado de fora.

- Porque quero que me ajude.

Seus olhos se fixam nos meus.

Passos suaves e quase inaudíveis se aproximam - agora são mais de duas pessoas.

É a minha vez de ler os lábios dele.

Esconda-se, diz ele, sem emitir um som, acenando com a cabeça para o biombo. Volto para meu esconderijo e me agacho.

A porta se abre.

Os passos ressoam no chão enquanto os estranhos avançam, contornando a sala. Apavorada, vou me movendo junto com o biombo, que está sendo empurrado do outro lado. Meus joelhos batem contra o papel. Um silêncio pesado cai sobre a sala, densa de tensão.

Então ouço Shin desembainhar a espada. Alguém grita, e logo em seguida o bando de ladrões ataca. A sala vira um caos. Aço se choca contra aço. Grunhidos baixos e berros de dor preenchem o ar. Pego meu punhal, indecisa se devo continuar escondida ou me juntar à luta. Não consigo distinguir a voz de Shin das outras, não sei se ele está ferido nem se precisa de ajuda. Algo grande é derrubado no chão, fazendo um estrondo. O armário. Um jato de sangue mancha o biombo de papel feito tinta sobre uma tela.

A pega solta um grito de agonia. Eu me levanto e saio de trás do esconderijo.

O chão está coberto de corpos de uma dúzia de homens.

Só dois invasores ainda continuam de pé - um deles é aquele que parece um urso. Eles estão enfrentando Shin.

- Lorde Shin! - exclama ele, apertando uma ferida no ombro. - Seu mestre é fraco e ingrato. Empreste sua força a

nosso senhor e será recompensado.

Shin está na janela, segurando a espada. Mesmo após uma luta tão desigual, ele mantém a compostura, com as costas eretas e uma expressão neutra. Então percebo o sangue escorrendo por seu pulso. Ele está ferido.

- E quem é o seu senhor? - pergunta ele com uma voz baixa.

O urso vai responder, mas seu comparsa sibila:

- Não se engane! Ele quer nos fazer revelar a identidade do nosso mestre só para nos matar em seguida. Concentre-se na nossa tarefa. A ave é o nosso prêmio.

Franzo o cenho. Por que eles querem minha alma?

Os olhos de Shin piscam na minha direção, apesar de nenhum deles ter percebido a minha presença. Soltando um rugido, o urso avança. Shin desvia para trás, e a espada do oponente passa perto de sua garganta. Se movendo com uma velocidade impressionante, ele agarra o ombro do outro ladrão, desferindo um golpe em sua barriga. O homem cai no chão. O urso, claramente perturbado, abaixa a espada e sai correndo em direção à porta.

Quando ele atravessa a soleira, o luar ilumina algo no canto mais distante, envolto em sombras. É o homem que se parece com uma doninha, segurando uma besta. Em meio ao caos, me esqueci dele.

Ele tem um virote apontado para o peito de Shin.

Não hesito e saio correndo pela sala. Tudo acontece em um instante. Colido com Shin. O virote da besta zumbe sobre nossa cabeça, estilhaçando a janela. Frustrado, o ladrão-doninha foge. Shin e eu caímos juntos e batemos

contra a prateleira baixa. A gaiola oscila na borda e vai ao chão.

O tempo para enquanto a gaiola cai, quebrando-se com o impacto e libertando a ave. A pega bate suas asas de pontas vermelhas, deixando escapar um som agudo e penetrante antes de explodir em um clarão.