A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 19 de 38

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A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 19

- Você ainda é um idiota - solto -, se está pensando em matar Shin através de mim. Afinal, enquanto eu estiver sangrando no chão, Shin estará bem vivo e vai se vingar.

Minhas palavras devem tê-lo atingido, porque lorde Yu parece vacilar. Sua mão em meu pulso afrouxa.

Aproveito a oportunidade, pego meu punhal e golpeio o ar entre nós. Lorde Yu uiva, cambaleando para trás com a mão na bochecha, onde minha lâmina deixou sua marca.

Caio no chão no instante em que alguém grita no corredor e a porta se abre.

 

19

S HIN IRROMPE NA SALA. Ele olha para mim, para a mesa tombada e o jogo de chá espatifado no chão, e uma fúria inacreditável parece dominá-lo. Ele agarra lorde Yu pelo colarinho e o joga contra a parede.

- Eu devia matá-lo por isso!

Lorde Yu parece quase contente quando diz:- Você a encontrou mais rápido do que pensei. É quase como se você tivesse sido guiado por um destino invisível.

Não tinha certeza antes, mas agora tenho.

- Mina! - Namgi se aproxima e me ajuda a levantar. - Está ferida?

Do corredor, ouço sons de luta: gritos e aço contra aço.

Kirin deve estar enfrentando os guardas.

- Estou bem - digo. - Eu o cortei com o meu punhal. - As bochechas de lorde Yu estão jorrando sangue agora.

- Vamos embora - diz Shin, largando lorde Yu no chão. Ele se vira para mim. Estremeço quando sua mão envolve meu pulso.

Ele arregaça a manga do meu vestido. Um grande hematoma se formou no lugar onde lorde Grou me segurou.

Ele avalia o machucado sem falar uma palavra, mas seus olhos parecem ficar ainda mais escuros. Então se afasta e saca a espada.

Namgi o segura por trás.

- Shin, pare! Lorde Yu é o líder da Casa do Grou. Nem você pode matá-lo sem enfurecer as outras casas. Temos que ir antes de sermos dominados.

Como se para fazer jus às palavras de Namgi, ouvimos um grande estrondo no andar de cima; os guardas da Casa do Grou estão se reunindo para defender seu senhor e seu lar.

Shin se aproxima de mim novamente e pega minha mão.

No corredor, Kirin está parado diante dos corpos inconscientes de cinco guardas. Suas vestes brancas estão imaculadas, como se ele não tivesse acabado de sair de uma briga.- Lorde Shin… - começa ele, mas Shin passa direto.

Sou tomada pela culpa - se eu não tivesse deixado Kirin, isso não teria acontecido. Ainda assim, não me arrependo por ter tomado as decisões que me levaram até lorde Yu.

Embora seja um traidor, ele falou coisas úteis.

Shin e eu atravessamos em silêncio o longo corredor de volta para a biblioteca, saindo sem resistência pelas grandes portas que nos receberam há menos de uma hora.

O rosto dele está rígido e sua expressão é sombria. Ele não solta minha mão até que tenhamos caminhado uma longa distância.

- O que aconteceu depois que você me deixou? -

pergunto. Olho para trás e vejo Namgi e Kirin separados, vigilantes.

- Lorde Bom estava lá quando cheguei. - Shin balança a cabeça. -Mas estava com seus soldados. Era uma armadilha. Grou e Tigre estavam trabalhando juntos. Eles queriam me manter ocupado até que pudessem colocar as mãos em você. - Ele grunhe, claramente frustrado consigo mesmo. - Eu devia ter previsto isso. Você está em perigo por minha causa.

Eu deveria lhe contar o que descobri com lorde Grou -

que a maldição do Deus do Mar pode ser quebrada se ele formar um Fio Vermelho do Destino com uma noiva.

Consequentemente, o destino de Shin e o meu podem ser desfeitos se um de nós formar uma conexão mais forte com outra pessoa.

A resposta parece clara: para que ambos tenhamos o que queremos, eu devo formar um laço com o Deus do Mar.

Assim, Shin ficará livre, e meu povo será salvo. O caminho que devo escolher está bem diante de mim.

Então por que me sinto perdida?

Conforme caminhamos, percebo um som baixo e retumbante. Também o notei ao longe a caminho da Casa do Grou. Está mais alto agora; sinto meus ossos vibrando em resposta. O ar fica mais frio e uma névoa pesada sobe até meus tornozelos. Um vento gelado agita os fios da minha trança solta, desfeita no tumulto.

- É uma cachoeira? - pergunto.

Shin para, tira o manto e o coloca sobre meus ombros.

Paro de tremer no mesmo instante, aquecida pelo calor de

seu corpo.

- É o rio.

A forma como ele fala sugere que não se trata de um rio qualquer. A névoa aumenta e se adensa. Ajeito o manto de Shin em torno de mim, respirando cristais de gelo, que ficam presos na minha garganta. À nossa frente há um rio envolto em névoa. Não é muito largo - posso ver a outra margem -, mas é barulhento, e a corrente forte golpeia grandes objetos na superfície.

- O que é…

Eu me aproximo da margem. Levo um tempo para entender o que estou vendo: uma mão pálida, um rosto exangue. Os objetos não são entulho, mas pessoas flutuando no rio, os corpos meio afundados. Conto quatro, cinco, seis indivíduos, e esses são apenas os mais próximos.

Outros vão sendo trazidos pela correnteza, e muitos outros já foram levados. Estão todos imóveis. Imóveis demais…

Vislumbro uma agitação. No meio do rio, uma criança está lutando contra a correnteza. Seus gritos são fracos, quase abafados pelo golpe das águas. Seus braços desesperados se erguem, irrompendo na superfície apenas para serem sugados novamente, exaustos demais para se sustentarem.

Inclino-me para a frente, mas Shin me segura.

- Você não pode entrar no rio. A correnteza está forte demais, você vai ser arrastada.

- Preciso ajudá-la.

- É impossível. Só os mortos podem entrar no Rio das Almas.

Já ouvi falar nesse rio; Mascarada o mencionou na noite em que nos conhecemos. Ela também disse que os espíritos podem sair dali se tiverem bastante força de vontade.

Fico observando a garotinha se esforçar para manter a cabeça fora da água. Os outros estão de olhos fechados, como se dormissem, mas ela se recusa a aceitar o curso do rio. Ela quer viver.

Shin pragueja baixinho.

Sigo seu olhar para além da margem. Um homem se aproxima do rio. A distância, não consigo ver seu rosto, mas ele é alto e tem cabelos pretos na altura do ombro. As águas perto da margem se acalmam com sua presença, e ele penetra em suas profundezas. Enquanto a corrente segue com força, um círculo de águas tranquilas o rodeia.

- Quem é ele? - pergunto.

- O Deus da Morte, Shiki - diz Shin. - Um dos mais poderosos. Ele não é meu amigo.

Shiki. Aquele com quem Shin lutou pela alma da noiva do ano passado, Hyeri.

Movendo-se devagar, ele avança em direção à garotinha e se mantém perto dela. A menina - sem fôlego e sem forças - o avista. E retoma sua luta, mas, dessa vez, seguindo na direção dele. Ela nada devagar, mas sua vontade é forte. Ela se recusa a ceder à correnteza implacável. Até que finalmente alcança o deus, agarrando suas vestes. Ele a pega em seus braços, embalando-a.

Cansada pela provação, ela se entrega.

O Deus da Morte carrega a garota para a margem oposta. No meio do caminho, ele para e se vira para nos olhar. Segurando a criança com um braço, ele usa o outro

para indicar uma ponte que cruza o rio, deixando clara sua intenção. Quando Shin acena com a cabeça para mostrar que entendeu, o Deus da Morte continua caminhando pela água.

Kirin e Namgi nos esperam na extremidade da ponte.

- É seguro encontrar o Deus da Morte sozinho? - pergunta Kirin ao nos ver. Se ainda está ressentido pelo que aconteceu antes, não demonstra.

- Shin vai ficar bem enquanto estiver com Mina - diz Namgi. - Shiki tem um fraco pelas noivas do Deus do Mar.

Não sei se Shin concorda com isso, mas não discute, e segue pisando nas ripas de madeira da ponte. Nem Kirin nem Namgi tentam me impedir de segui-lo névoa adentro.

O ar está mais denso aqui do que na margem do rio. Algo me parece familiar, e me pergunto se esta é a mesma ponte em que acordei quando cheguei ao reino do Deus do Mar.

Sigo o Fio Vermelho do Destino até o meio da ponte, onde Shin está me esperando. Ele observa a névoa.

- O que tem do outro lado do rio? - pergunto.

- A Casa da Estrela - diz Shin -, o lar do Deus da Morte.

Além dela, montanhas e névoa. A névoa fica mais espessa conforme você se afasta da cidade. Você pode ficar vagando por semanas e acabar onde começou, ou do outro lado da cidade. É por isso que perdi o rastro dos ladrões. Na névoa, é difícil manter o controle. Os espíritos vivem se perdendo, tentando encontrar um jeito de voltar para o mundo dos vivos, mas isso não é possível. Depois de descer o rio, não há mais como voltar.

Estremeço diante da ideia.

- O que você acha que Shiki quer conversar com você?

- Na verdade, não sei dizer. Da última vez que nos vimos, acabamos nos confrontando. Com palavras e armas. Eu tinha pegado a alma da noiva, como todos os anos, mas Shiki, tendo se afeiçoado à garota, exigiu seu retorno.

Quando recusei, nós brigamos.

- E a alma foi devolvida a ela - digo, implicando que o resultado foi a favor de Shiki. Na minha cabeça, visualizo Hyeri observando da janela do palanquim com os olhos acesos de curiosidade e divertimento.

- Ela interrompeu a luta. Ela estava… morrendo, por ter passado tanto tempo sem sua alma. E Shiki, o Deus da Morte, não podia fazer nada. Então eu devolvi sua alma só para que ele parasse de reclamar.

- Ah - digo. - Então Shiki ganhou, no final. - Shin faz cara feia. - Por ter um amigo como você.

Shin balança a cabeça, mas não nega.

- Ele me agradeceu adequadamente. Depois que salvei a vida dela, ele me chamou de “imbecil sem alma” e foi embora. Não falei com ele nem o vi desde então.

A história de Shin revelou mais coisas do que ele pretendia. Pelo bem de Shiki, ele salvou Hyeri, permitindo que surgissem boatos e zombaria contra si mesmo.

- Como você tem certeza de que não possui alma? -

pergunto.

- Toda criatura tem alma, seja dentro de si, como os humanos, seja em uma forma diferente, como as bestas dos mitos. Deuses também têm alma. A alma da Deusa da Lua e da Memória é a lua. A do Deus do Mar é o dragão do Mar do Leste. A alma dos deuses que têm casas é seu lar. A dos deuses das montanhas, dos rios e dos lagos…

- São as montanhas, os rios e os lagos - termino.

Ele assente.

- Então, quando as montanhas, os rios e os lagos são destruídos, os deuses também são. Quando os rios são poluídos e as florestas, queimadas, os deuses ficam fracos e desaparecem. Sou um deus que perdeu a alma e, com ela, todas as lembranças de quem já fui, do que eu deveria proteger. Dessa forma, eu deveria ter desaparecido há muito tempo.

A dor em sua voz é inconfundível. Ele fecha os olhos.

Neste momento, quero confortá-lo, mais do que qualquer coisa, mas não sei como. Quando descobri que minha alma era uma pega, ela continuou existindo, só estava fora de mim. Ela não se perdeu. Não foi esquecida.

Penso nas várias coisas que Shin fez por mim: ele me salvou do lorde Grou, me levou até o Deus do Mar, me trouxe o barquinho de papel. Ele pode não acreditar que tem alma, mas eu acredito.

Levo a mão à cintura e pego a bolsinha de seda, virando-a para que o objeto caia na minha palma. Shin se vira, atraído pelos meus movimentos.

- Olhe, Shin - digo, sorrindo. - Encontrei sua alma.

Ergo a mão. Nela está a pedra com a flor de lótus entalhada.

Ele não diz nada por alguns minutos, e fico me perguntando se o ofendi. Então ele estica a mão, roçando os dedos na pedra e na minha palma aberta.

- Ela pode não ser tão imensa quanto uma montanha nem tão reluzente quanto a lua - digo enquanto ele ergue os olhos para encontrar os meus; vejo uma vulnerabilidade

comovente em suas profundezas escuras -, mas é linda porque é como a sua alma: forte, resiliente e estável. E

teimosa também. - Ele ri baixinho. - E valorosa, assim como você.

Shin prende a respiração.

Meu coração acelera dolorosamente.

- E aí? - digo, erguendo a mão. - Vai aceitá-la?

Só que, em vez de pegar a pedra, ele coloca a mão sobre a minha, e ela fica espremida entre nossas palmas.

- Se a aceitar, não a soltarei nunca mais.

Não é uma pergunta, mas sinto que ele está esperando minha resposta.

Então ele fica tenso, estreitando os olhos para algo além do meu ombro. Ele me puxa para o lado. E a morte surge da névoa.