A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 26 de 38

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A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 26

D URANTE TODA A MINHA VIDA, EU ACREDITEI no mito da noiva do Deus do Mar, passado de avó para avó desde que as tempestades surgiram, quando o reino foi destruído pelos conquistadores do Ocidente e o imperador, atirado dos penhascos. O Deus do Mar, que amava o imperador feito um irmão, enviou as tempestades para punir os usurpadores - diziam que as chuvas violentas eram suas lágrimas, e os trovões, seus gritos. As secas correspondiam aos anos em que ele sentiu o vazio de seu coração.

Mas quanto de um mito é verdade? E o que fazer quando se deixa de acreditar nele?

- Não posso fazer mais nada. - A voz de Kirin está abafada, distante.- Fechei a ferida, mas ela perdeu sangue demais e sua pulsação está fraca.

- E o assassino? - pergunta Namgi com uma voz rouca, como se tivesse gritado.

- Fugiu quando ela berrou. Lorde Yu deve tê-lo mandado em uma última tentativa de matar Shin.

Estou no quarto de Shin, olhando para o meu corpo de cima. Eu me pergunto se é assim que a pega vê o mundo.

Questiono a mim mesma se eu sou a pega, flutuando no ar.

Mas acho que não. Ninguém parece me notar pairando sobre suas cabeças.

Namgi e Kirin estão a meu lado. Estou deitada em um palete de cobertores de seda. Shin não está com eles. Será que está bem? Namgi e Kirin estariam mais chateados se ele estivesse ferido, não?

Olho para o meu corpo e vejo que o Fio Vermelho do Destino não está mais na minha mão. Lembro que a fita desapareceu. A deusa-raposa disse que ela só poderia ser cortada se Shin ou eu morrêssemos.

Será que eu… morri sangrando no lago? Mas, se estou morta, meu espírito deveria estar no rio, não aqui flutuando acima do meu corpo…

Vou até a janela. Há um lindo arco-íris no céu. Distraída, minha alma voa para cima. Será que se eu voar alto o suficiente consigo chegar ao céu?

Sinto cócegas no ouvido, então ouço a voz de Dai:

- Não vá longe demais, Mina. Se você for muito longe, não vai conseguir voltar.

Eu me viro e retorno para o quartinho.

Namgi e Kirin não estão mais ali. Agora é Dai quem está ao meu lado, com Miki no colo.

- As tempestades acabaram - diz ele. - Estão dizendo que acabaram para sempre.

Eu flutuo até Dai e observo seu rosto. As feridas do ataque do Imugi estão quase curadas; os hematomas não estão mais tão escuros, e sua face recuperou a cor. Miki

choraminga com o punho na boca enquanto me olha dormindo.

- Não se preocupe, Miki - diz Dai. - Mina vai ficar bem. Ela vai acordar quando estiver pronta.

Olho para a janela e vejo que já é crepúsculo. O tempo parece funcionar de um modo estranho nesse estado intermediário. Quando torno a olhar para o quarto, Dai e Miki não estão mais lá.

A porta se abre e Namgi entra. Ele fica parado na soleira, e eu flutuo até parar a seu lado, espiando o cômodo. Além do armário e do biombo de papel, agora há outros móveis ali: um baú para as minhas roupas, uma mesinha e um espelho para os meus enfeites de cabelo. A prateleira abaixo da janela está repleta de coisas que coletei nos jardins: flores secas, pedrinhas e cascas. O barquinho de papel flutua em uma tigela rasa de água.

- Este quarto estava vazio antes - diz Namgi -, e você o encheu com todas essas coisas. Será uma metáfora para a forma como você preencheu nossas vidas?

Ele se move pelo quarto devagar.

- Se estivesse acordada, você me provocaria. Você diria:

“Namgi, como você é esperto”. - Ele para ao lado da cama, olhando para o meu rosto imóvel. - Eu realmente pensei que você acordaria depois dessa.

Ele pega o cobertor e o leva até meu queixo, então se abaixa para pousar um beijo em minha testa.

- Durma bem, minha amiga, mas não por muito tempo.

Alguns de nós não são tão fortes quanto você.

Franzo o cenho. Como assim? Mas então minha mente fica nublada e o tempo parece me escapar. A luz da manhã

está se infiltrando pelo quarto quando volto à consciência.

Fico surpresa ao ver Kirin a meu lado. Ele está segurando um pano frio em minha testa e tem uma ruga entre as sobrancelhas. Mesmo quando estou dormindo, ele está descontente comigo. Suspiro, querendo fugir de sua frustração. Até que ele coloca o pano de lado e se levanta, indo para o outro lado do palete. Ele hesita, então adentra o raio de sol que ilumina meu rosto.

Eu me aproximo do meu corpo para descobrir por que ele estava com as sobrancelhas franzidas. Minha testa está suada.

Não sei quanto tempo Kirin fica ali, me observando sem falar nada, bloqueando o sol com seu corpo.

Ele não se move até alguém bater na porta. Então ele vira a cabeça.

A neblina de antes emerge novamente, mais escura e ameaçadora dessa vez, e sou arrastada para um vazio.

Entro em um buraco negro inescapável. Um lugar sem tempo nem significado, sentindo uma dor no coração por estar morrendo e não haver nada que eu possa fazer para me salvar.

Quando retorno, já é noite, e Shin está a meu lado. O

quarto está escuro, e a lua se esconde atrás das nuvens.

- Matei o assassino - diz ele, com os olhos nas sombras.

Franzo o cenho para sua voz vazia, sem emoção. - Eu o arrastei pelas ruas enquanto ele implorava para que eu o poupasse. Ele estava em uma agonia terrível. Mas ele te feriu, e eu sabia que dor nenhuma seria suficiente para ele.

Ele para de falar. Eu me aproximo, querendo ver seus olhos atrás das sombras.

- Mas, quando cheguei ao rio, percebi que nada disso importava. Estava chovendo, e você estava morrendo… -

Lentamente, ele estica o braço e pega meu pulso inerte, abaixando a cabeça até encostar a testa nele. - A deusa-raposa disse que o Fio Vermelho do Destino quebraria se um de nós morresse. Eu acreditei nas palavras dela feito um tolo. - Ele respira fundo. - Eu deveria estar feliz por ele ter desaparecido e eu ainda estar vivo. Mas é estranho, Mina.

Por que me sinto assim? Não preciso de um Fio Vermelho do Destino para me dizer que, se você morrer, eu também vou morrer.

Não! Quero lhe dizer que a deusa deve ter se enganado, mas a neblina escura me envolve de novo, me arrastando para uma inconsciência tão profunda que parece o fim do desespero. Parte de mim sabe que eu não devia estar aqui -

que, se eu me deixar levar, estarei perdida para sempre.

Mas não sei como encontrar o caminho de volta. Não existe mais um Fio Vermelho do Destino para me guiar.

Mergulho mais fundo no nada, com as pernas no meu peito e a cabeça curvada sobre os joelhos. Nunca me senti tão sozinha. É assim que o Deus do Mar se sentiu durante cem anos?

Da escuridão, ouço uma voz. É estranho, mas parece a minha voz cantando.

No fundo do mar, o dragão dorme

Com o que ele sonha?

No fundo do mar, o dragão dorme Quando ele vai acordar?

Na pérola de um dragão,

seu desejo vai mergulhar.

Na pérola de um dragão, seu desejo vai mergulhar.

Só minha avó conhecia essa canção. Sua avó lhe ensinou quando ela era uma garotinha, muito tempo atrás.

Minha avó.

Uma mão macia aperta a minha.

- Mina, você precisa acordar. Como é que você pode salvar o Deus do Mar e não se salvar? - Sua voz é clara. É

como se ela estivesse bem ao meu lado, sussurrando no meu ouvido.

É diferente, quero dizer. Eu fui gravemente ferida. Perdi muito sangue.

Ela estala a língua.

- Não tem desculpa, Mina. Acorde. Acorde agora!

Abro os olhos.

- Mina! - Meia dúzia de vozes gritam meu nome. Olho ao redor e descubro que estou cercada. De um lado estão Mascarada, Dai e Miki. Do outro estão Namgi, Nari e Kirin.

Dai é o primeiro a se mexer, se abaixando para me abraçar pela cintura.

- Você nos assustou! - diz ele.

- Cuidado! - Kirin o repreende, puxando Dai pela manga. -

Eu fechei a ferida dela, mas vai levar um tempo até ela se curar completamente.

- Está com fome? - pergunta Nari. - Quer que eu busque algo para você comer?

- Quer beber algo? - sugere Namgi. - Licor é bom para a dor. - Agora é a vez de Namgi ser puxado para longe da cama por Nari, que o segura pela orelha.

- Que bom que você voltou - diz Mascarada, sentada ao meu lado com Miki no colo. Ela estica a mão e gentilmente afasta uma mecha de cabelo do meu rosto.

Corro os olhos pelo quarto, e consigo dizer:

- Onde está Shin?

Todos ficam em silêncio, olhando uns para os outros.

- Ele estava aqui até uns minutos atrás - diz Namgi finalmente. - Ele mal saiu do seu lado.

Não entendo. Então onde ele está?

- Não se preocupe com ele - diz Mascarada. - Ele vai voltar logo. Enquanto isso, descanse um pouco. - Ela se vira e começa a dar ordens para trazerem comida e prepararem meu banho. Todos se apressam para obedecer-lhe, tomando o cuidado de não me olhar nos olhos.

Cerro o punho, com as mãos no colo. Onde antes o Fio Vermelho do Destino cintilava, não há mais nada. É como se o laço entre mim e Shin nunca tivesse existido.