A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 33
S HIN ESTÁ ESPERANDO DENTRO DO PAVILHÃO, ao lado do Lago dos Barquinhos de Papel. Ele se vira quando estou subindo a escada, e seus olhos encontram os meus.
- Falou com o Deus do Mar? - pergunta ele baixinho, olhando para mim daquele jeito que sempre me faz ter dificuldade para respirar.
- Sim - respondo. - E já sei o que preciso fazer.
Seu olhar se demora na minha mão, então desvia para o lago. Percebo um sofrimento agudo em sua expressão. Esta noite, os barquinhos de papel estão amontoados na margem feito um bando de patos. É como se eles fossem abrir as asas e sair voando a qualquer momento.
- Não vou te pedir nada - diz Shin. - Qualquer que seja a sua decisão, vou respeitar. Se você se casar com o Deus do Mar, vou proteger vocês dois. Por toda a minha vida.
Meu coração se enche de amor por ele. Como ele é bom, generoso e gentil.
- Mas eu não queria me conter nesse assunto… porque sei que você nunca se conteria. Nem em palavras, nem em ações. - Ele sorri, e meu coração dá um salto. - Posso não ter alma nem um Fio Vermelho do Destino, mas não preciso de nenhum deles para saber que amo você.
- Shin - digo sem fôlego -, o Fio Vermelho do Destino desapareceu.
Ele balança a cabeça.
- Não estou entendendo.
- A fita que me conectava ao Deus do Mar desapareceu -
explico - depois que coloquei minha mão sobre a dele, o que eu também fiz com você quando nosso destino se formou, lembra? Você disse que não ia funcionar. Bem, funcionou -
digo orgulhosa. - Como eu sabia que funcionaria, porque eu não o amo. Eu amo você, e estou escolhendo meu próprio destino.
Eu me inclino para a frente, me apoiando em seus ombros, e dou um beijo em seus lábios.
Em seguida, dou um passo para trás. Meu rosto está vermelho, mas o encaro com determinação. Afinal, ele disse que eu não me conteria. Ele se recupera da surpresa rapidamente. Pega minha mão, me puxa para seus braços e me beija. Seu coração bate forte contra o meu. Envolvo os braços em seu pescoço, beijando-o de volta com o mesmo fervor.
Quando finalmente nos separamos, o amor que vejo em seus olhos me faz perder o fôlego.
- Lorde Grou estava errado - diz Shin. - Ele disse que, uma vez que o Fio Vermelho do Destino estivesse formado, você saberia como quebrar a maldição.
Olho para ele, e um entendimento floresce dentro de mim.
- Não acho que ele estava errado.
Shin franze o cenho de leve.
- Como assim?
- Tenho que fazer uma coisa. Preciso ir. Você me espera aqui? Confia em mim?
A princípio, ele não fala nada, e fica apenas me encarando com seus olhos escuros feito o mar. Então ele sorri, curvando os lábios.
- Com a minha alma.
Volto correndo e atravesso o jardim, o salão, os pátios - o Deus do Mar não está em lugar nenhum - e desço a escada.
Meu coração bate selvagemente. Sinto que todas as respostas estão a meu alcance.
Viro no beco onde vi a Deusa da Lua e da Memória pela última vez, perto do altar enfiado na alcova. A tigela na frente da tábua está vazia, então coloco o punhal da minha tataravó em seu centro. Pego a pederneira e a bato contra a pedra de fogo, criando uma faísca. Apanho-a com um pedaço de papel, que uso para acender o incenso.
Dou um passo para trás e sussurro uma oração. Quando abro os olhos, a Deusa da Lua e da Memória está a meu lado.
Ela me observa com seus olhos de velas. Esta noite suas chamas estão mais fracas.
- Você não tem medo de mim? - pergunta ela, mais curiosa do que brava.
- Não - digo, e é verdade.
- Então você não tem medo de nada?
- Tenho medo de florestas.
Ela levanta uma sobrancelha, claramente pensando que é brincadeira.
- Quando eu era pequena, me perdi na mata - explico. -
Eu estava atrás do meu irmão quando vi uma raposa, saí correndo atrás dela e acabei me perdendo. Por muito tempo, não me lembrava como eu tinha saído da floresta.
Tudo o que eu lembrava era que estava morrendo de medo das árvores esquisitas na escuridão.
A deusa fecha os olhos, e me pergunto se ela está revivendo essa memória comigo.
- Fiquei chorando, sentada nas raízes de uma árvore por horas. Pensei que ninguém iria me encontrar, que eu ficaria sozinha naquela escuridão para sempre. Mas então vi uma luz através da copa das árvores: o luar se infiltrava por entre os galhos, iluminando uma trilha. Foi isso que me conduziu de volta para casa.
A deusa abre os olhos para me observar, e agora as chamas em seus olhos estão ardendo.
- Minha avó sempre disse que, embora o sol nos ofereça calor e luz e seja o símbolo do nosso grande imperador, é a lua que protege as mulheres e a noite. Ela é a mãe que protege todos nós.
Respiro fundo.
- Nós fizemos um trato, você e eu. Eu compartilhei uma parte da minha alma com você. É justo que você me ofereça algo em troca.
- E o que você quer?
- Uma memória. Me mostre o que aconteceu cem anos atrás, em um penhasco à beira-mar. Me mostre o que
aconteceu para que o Deus do Mar perdesse todas as esperanças. Me mostre o que aconteceu com o imperador do meu povo.
De sua manga, a deusa tira um barquinho de papel bem velho, todo desgastado nas bordas. Uma rajada de vento poderia destruí-lo. Ela o estende para mim.
Levanto a mão e toco o papel.
Estou de volta ao penhasco do sonho do Deus do Mar. No sonho, porém, ele estava na borda, e agora não está em lugar algum.
Tudo parece tranquilo. O vento sopra no ar límpido. O sol reluz no mar cintilante, e os barcos de pesca navegam nas águas matutinas.
Eu me aproximo da beirada, tentando distinguir os rostos nos barcos, quando a terra começa a tremer sob os meus pés. As pedras se soltam da encosta e caem no mar. Um batalhão de guerreiros a cavalo se aproxima, subindo a colina. À frente do grupo, montado em um magnífico cavalo, está o Deus do Mar.
Mas há algo estranho. Sua armadura está manchada de terra e de sangue.
Um homem a cavalo se coloca ao lado do Deus do Mar. O
emblema de seu peitoral mostra um tigre em ataque, marcando sua posição como general dos exércitos do imperador.
- Vossa Majestade! - grita o homem. - O senhor precisa fugir, antes que seja tarde demais.
O Deus do Mar tira o capacete. A expressão que vejo ali é totalmente diferente daquela com que estou acostumada -de menino perdido, sofrido. Ele parece… feroz, um líder.
Com os olhos fixos no general, ele deixa o capacete cair no chão.
- Não vou abandonar meus homens. Vou ficar e lutar.
- Vossa Majestade - grunhe o general -, o senhor precisa viver. O senhor é mais do que uma pessoa. É a esperança do nosso povo!
O Deus do Mar parece querer discutir, mas então pragueja. E vira seu cavalo abruptamente.
Mas é tarde demais. O pequeno grupo de homens ficou muito tempo parado a céu aberto. Os inimigos sobem o penhasco e encurralam os guerreiros contra o precipício.
A batalha que se segue é sangrenta, terrível. Os homens formam um círculo ao redor do Deus do Mar, mas, um por um, eles vão caindo. Logo restam apenas o menino e seu general.
Percebendo que a derrota é iminente, o general bate a espada contra o flanco do cavalo do Deus do Mar. O animal relincha alto e sai a galope para longe da batalha.
A esperança brota em meu coração, mas se dissipa rapidamente quando vejo um soldado inimigo sair de trás de uma grande pedra. Ele coloca uma flecha no arco e se prepara para atirar.
Ele dispara. A flecha faz um arco no céu.
- Cuidado! - grito, mas é claro que ninguém me ouve.
Ninguém pode me ver. Isso é só uma memória de algo que aconteceu há muito tempo.
A flecha atinge o peito do Deus do Mar.
Ele cai do cavalo, aterrissando a poucos centímetros da borda do penhasco. O inimigo recua. Já cumpriu sua tarefa.
A consequência é inevitável. Um ferimento como este é fatal.
Corro até ele, mantendo as mãos no ar, acima de sua cabeça. Mesmo se eu tentasse, não conseguiria tocá-lo.
Estamos separados por cem anos. A ponta da flecha sai por suas costas, ensopada de sangue. Ele está morrendo. O
Deus do Mar olha para mim e, por um momento, é como se ele me visse. Mas então ele vira o rosto, olhando ao redor.
- Quem é você? - sussurra ele.
Ergo o olhar. Do outro lado do deus, há uma figura agachada…
- Sh-Shin? - digo. - O que está fazendo aqui?
Ele não responde. Assim como o Deus do Mar, ele não pode me ver.
O deus tosse sangue. Ele é tão jovem. Tão novo para morrer.
- Por que não me responde? - grita ele. - Quem é você?
- Não fale nada - diz Shin em uma voz baixa e suave. -
Você foi atingido nos pulmões.
- Estou morrendo?
- Sim.
O Deus do Mar fecha os olhos, e uma terrível tristeza toma seu rosto.
Shin fica observando o menino, e eu observo Shin. Ele está diferente nesta memória. Está usando longas vestes azuis, parecidas com as que trajava no festival. Seu cabelo está mais comprido, preso em um coque alto. Ele murmura baixinho:- Você está com medo.
O menino abre os olhos, e uma expressão furiosa e feroz se espalha por suas feições. Mas então ele grunhe em sofrimento. Seus olhos estão turvos.
- Tenho menos medo de morrer do que de deixá-los sozinhos.
Suas palavras me fazem lembrar do pesadelo. Eu falhei com todos eles.
De repente, o menino agarra a manga de Shin.
- Meu povo… Quem vai protegê-los quando eu partir?
Quem vai garantir a segurança deles? - pergunta ele, desesperado, vertendo sangue entre os lábios.
- Eu.
- Você… - O menino parece murchar. - Sei quem você é.
Meu pai me contou sobre você. Ele disse que você protege nosso povo, e que, se eu precisasse, você me ajudaria. Vai me ajudar agora?
Ouço um som de estrelas varrendo o céu. Olho para cima e vejo o dragão sobrevoando o lugar onde estamos, com uma pérola enorme presa em sua garra esquerda.
Nunca o vi desse jeito. Suas escamas são de um azul vibrante e deslumbrante. Seus bigodes são longos e brancos. Ele se move mais livremente pelo céu, de um jeito dinâmico e alegre. Ele derruba a pérola, que explode em um clarão e se transforma em um incrível par de asas azuis e prateadas, que se projetam dos ombros de Shin.
O imperador olha para ele com uma expressão de puro encantamento.