A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 25 de 38

Páginas do PDF

A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 25

S HIN, NAMGI E KIRIN ESTÃO ME ESPERANDO NA ESCADA DO PALÁCIO.

Lembro da minha primeira noite aqui, quando eles estavam diante de mim no salão do Deus do Mar. Eram inimigos. Estranhos. Shin parecia tão distante… assim como agora.

- Onde está Shim Cheong? - grito, para me fazer ouvir através da chuva.

- Shiki lhe ofereceu abrigo na Casa da Estrela - responde Namgi. -Ela estará segura ali.

- Precisamos sair dessa chuva - diz Kirin.

Shin se vira e desce a escada. Olho para Namgi, mas ele apenas balança a cabeça. Será que Shin está bravo comigo por eu ter corrido para dentro da névoa?

As ruas estão inundadas. Nós quatro contornamos carrinhos tombados e barcos-lanternas apagados. Shin e Kirin vão na frente, tirando os destroços do caminho, enquanto Namgi e eu seguimos atrás. A água chega até nossos joelhos; se estivesse mais alta, correríamos o risco de sermos arrastados. Felizmente, a corrente não é tão forte quanto no rio. Arfo quando um corpo passa flutuando, é uma mulher de olhos fechados e mãos na barriga, como se estivesse dormindo. Namgi agarra meus ombros e me empurra para a frente.

Quando chegamos à Casa de Lótus, Shin nos conduz ao pavilhão principal. O primeiro andar já está inundado, então subimos a escada para o segundo andar. Todos estão ali, todas as pessoas que consideram a Casa de Lótus seu lar.

Vejo minhas criadas, as lavadeiras, os cozinheiros e os guardas. Mascarada está sentada em uma almofada ao lado de Dai, que segura Miki no colo. Nari está escoltando uns espíritos mais velhos para um canto, servindo-lhes chá quente para aquecer seus corpos. Vou para a varanda. As águas do lago cobriram as pontes. A única luz que se vê em quilômetros vem das tochas acesas por todo o perímetro.

Visto de longe, o pavilhão deve parecer um candelabro em um vasto oceano.

Quando coloco a mão no parapeito, algo cutuca minha manga. Pego o barquinho de papel que a Deusa da Lua e da Memória me deu. O que contém o desejo de Shim Cheong.

O barquinho é leve. Suas dobras são perfeitas no papel liso. Desfaço a dobradura devagar, esperando a familiar confusão de ser arrastada para dentro de uma lembrança.

Só que nada acontece.

O barco se abre, revelando apenas uma frase curta.

Eu esperava ler algo como “Que eu não tenha que me casar com o Deus do Mar” ou “Que eu fique com Joon” ou

“Que as tempestades terminem para sempre”, mas tudo o que está escrito na elegante letra de Shim Cheong é: “Por favor, que meu pai tenha uma vida longa e feliz”.

Refaço a dobradura com cuidado e a coloco de volta na manga de minha blusa.

- Esta tempestade não é natural - diz Kirin, se dirigindo a todos no pavilhão. - O rio transbordou e os mortos estão flutuando pelas ruas. Algo deve ser feito urgentemente.

- Precisamos enviar nossos barcos para recolher os mortos - insiste Nari - e mandá-los de volta para o rio.

- Enquanto isso - acrescenta Namgi -, precisamos impedir que o rio transborde para o nosso mundo. Se conseguirmos represar a fonte, podemos bloquear a entrada dos mortos.

- Isso vai fazer com que os fantasmas permaneçam no mundo dos humanos - diz Mascarada energicamente. - Sem receptáculos para contê-los, os espíritos inquietos vão assombrar os vivos, espalhando medo e pânico. Mais mortes virão.

Kirin balança a cabeça.

- Não podemos evitar que isso aconteça.

- Não - digo, chamando a atenção de todos os presentes.

- Essas soluções são apenas temporárias. A verdadeira fonte das mortes são as tempestades. Elas são a causa de tudo.

Precisamos impedi-las.

Namgi corre os olhos pela sala e então os volta para mim.

- Não nego que suas palavras sejam verdadeiras, Mina -

diz ele com gentileza. - Mas se o Deus do Mar não parou com as tempestades em cem anos, o que faz você pensar que ele vai parar agora?

Sinto uma pulsação dolorosa na base do meu crânio, o que torna difícil transformar meus pensamentos em palavras.

- Naquela noite na Casa do Grou, lorde Yu compartilhou algumas informações comigo. - Tomo o cuidado de não olhar para Shin. -Para quebrar a maldição do Deus do Mar, a noiva deve formar um laço verdadeiro com ele.

- Um laço verdadeiro? - Namgi franze o cenho. - Como assim?

Esqueci que ele não estava com Shin e Kirin quando eles questionaram o lorde Grou.

- Um laço de almas gêmeas - digo.

- E você acredita que é a noiva dele - fala Kirin.

A sala toda fica em silêncio, na expectativa. Espero pelos murmúrios e os olhares de escárnio. Quem eu penso que sou para acreditar ser a verdadeira noiva do Deus do Mar?

Não sou muito bonita, nem particularmente talentosa em nada.

- É possível que você seja - continua Kirin, e fico surpresa. De todas as pessoas, eu imaginaria que ele seria o mais cético. - Antes de você, nenhuma noiva tinha falado com o Deus do Mar. E apesar de essa tempestade ser terrível, é uma mudança em uma rotina que permaneceu a mesma por cem anos.

- A noiva que acabou de chegar, Shim Cheong, não tinha o Fio Vermelho do Destino - acrescenta Namgi.

Finalmente, os murmúrios começam, mas não como eu esperava. Os espíritos se viram uns para os outros animados, encantados com a possibilidade de o mito da noiva do Deus do Mar enfim se tornar realidade.

- Não importa - diz Shin, pronunciando suas primeiras palavras desde que entrou no pavilhão. - Você não o ama.

A pulsação na base do meu crânio se intensifica.

- E você seria uma tola se pensasse que ele poderia amar você algum dia.

Um silêncio cai sobre a sala. Sei que Shin está desabafando seu próprio ressentimento, mas um calor doloroso se acumula atrás dos meus olhos. Talvez fugir seja uma atitude infantil, mas não consigo evitar. Disparo pela sala; os espíritos abrem caminho para eu passar. Desço a escada correndo até o primeiro andar. A chuva atinge meu rosto quando saio do pavilhão. A água do lago subiu até a metade da colina. Não cruzo a ponte, mas vou escorregando pela grama da margem até meus pés tocarem a água.

Acho que finalmente entendi o que significa ser a noiva do Deus do Mar. Não é um fardo nem uma honra. Não é ser a garota mais bonita do vilarejo nem a que vai quebrar a maldição. Para ser a noiva do Deus do Mar, é preciso fazer uma única coisa: amá-lo.

Não sou a noiva do Deus do Mar.

Falhei com meu povo. Falhei com minha família. Minha avó. Meus irmãos. Minha cunhada. Cheong. Eu falhei com todos eles.

Não há esperança, porque o amor não pode ser comprado, nem conquistado, nem suplicado em oração. Ele deve ser oferecido livremente. E eu já ofereci meu coração a alguém que não é o Deus do Mar.

A chuva continua a açoitar a terra. A água do lago sobe mais, encharcando minhas sandálias. Dou um passo para trás no instante em que algo passa zunindo por mim. O

virote de uma besta se finca a meus pés. Um galho se quebra embaixo da ponte. Instintivamente, levo a mão ao meu punhal.

Da escuridão, surge uma figura familiar. O assassino-doninha. Saco minha arma, mas é tarde demais. Ele carrega outro virote, mira e atira.

Eu desvio para o lado, mas não sou rápida o suficiente. O

virote perfura meu ombro. Eu berro de dor.

Ouço um grito vindo do pavilhão. Nari. O assassino deve ter ouvido também, porque foge de volta para a escuridão.

Caio no chão, com o rosto virado para a terra molhada.

Meu braço inerte se estende na lateral de meu corpo. O

sangue forma uma poça e se espalha feito um cobertor quente. A fita vibra e lentamente começa a desaparecer.

- Não - sussurro. O Fio Vermelho do Destino conecta minha alma à de Shin. Se eu morrer, ele também…

A chuva se mistura com as lágrimas em meu rosto.

Minha respiração fica irregular e minha visão escurece nos cantos.

Meus últimos pensamentos são uma mistura de imagens: meu irmão se afastando de mim na ponte; o Deus do Mar chorando em um penhasco à beira-mar; e Shin esta manhã, a luz do sol escorrendo feito água por seu rosto.