A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 5
E STOU CHAMANDO ATENÇÃO DEMAIS do lado de fora do palácio, onde qualquer um - qualquer coisa - pode me ver. Mas, por mais que eu não goste de Shin, suas palavras foram um aviso claro: humanos são vulneráveis no mundo dos deuses.
Desço a escada aos tropeços, o corpo dolorido por causa da agitação do mar e do vento, talvez ainda mais forte.
Entro sorrateiramente no beco mais próximo e me agacho no recuo de uma porta. Uma lanterna de papel range em cima da moldura de madeira rachada, e sua pequena vela lança sombras sinistras nas paredes. Estou nos fundos de uma peixaria; o cheiro da pesca do dia anterior é inconfundível. Se há pessoas por perto, não vejo sinal delas, e logo fica impossível enxergar, pois lágrimas começam a embaçar minha visão.
Choro em silêncio, enquanto os soluços me torturam e fazem meu corpo todo tremer.
Sei que preciso ser forte como as heroínas da minha avó.
Mas estou frustrada. Exausta. E se o que Shin falou é verdade, não tenho mais alma. É estranho, mas era mais fácil bancar a corajosa na frente dele, podendo me amparar na raiva que eu sentia por ele. É muito mais difícil bancar a corajosa estando aqui sozinha e com frio.
O que devo fazer agora?
Trago as pernas até o peito e apoio o rosto nos joelhos.
Angustiada, tento lembrar de algum dos ditados da minha avó, algo cheio de sabedoria que me traga conforto e força.
Mas o desespero tomou conta de mim e não quer me deixar.
Só me senti assim uma vez antes - é como se o mundo tivesse se adiantado e me deixado para trás.
Foi na noite do festival dos barquinhos de papel. Eu estava animada porque Joon tinha falado que soltaríamos nossos barquinhos no rio juntos, como fazíamos todos os anos desde que passei a ter idade para frequentar o festival. Eu estava de joelhos na margem, escrevendo as últimas palavras do meu desejo no papel, quando ouvi a voz dele:
- Shim Cheong pode ser a garota mais bonita do vilarejo, mas seu rosto é uma maldição.
Era o começo da história deles, uma história na qual eu não teria participação nenhuma, pelo menos não por um tempo.
Eu estava em uma das extremidades da ponte enquanto Joon seguia Shim Cheong até a outra. Lembro de ficar observando meu irmão, querendo que ele olhasse para trás
- um mero aceno já seria suficiente para me mostrar que eu ainda estava em seus pensamentos, que ele não tinha me esquecido. Mas quando ele não fez nada disso, tive um
pressentimento de que as coisas nunca mais seriam as mesmas.
Eu tinha doze anos, e senti nossa infância escapando dos meus dedos feito areia no mar.
Naquela noite, meu avô me viu chorando ao lado do lago do nosso jardim. Ele se sentou na grama da margem, com os olhos fixos no reflexo difuso da lua. Parecia que os patos estavam nadando em sua face perolada. Nenhum de nós dois disse nada por um tempo. Meu avô entendia o conforto do silêncio compartilhado.
Quando eu estava pronta para ouvir, ele disse:
- Em toda a minha vida, nunca vi criatura mais maravilhosa que os patos. - Ele fez uma pausa para dar risada diante da minha perplexidade. - Ao nascer, eles registram a primeira coisa que veem, geralmente a mãe, e a seguem com determinação até a maturidade. Sabia disso?
Balancei a cabeça, sem conseguir falar nada. O choro ainda estava preso em minha garganta.
- Você veio a este mundo órfã. - Seus olhos estavam na água, e eu soube que ele estava pensando em sua filha, minha mãe. - Você não parava de chorar e só ficava com os olhos bem apertados. Nada parecia te acalmar. Fiquei com medo de que você se afogasse nas próprias lágrimas. Nem mesmo sua avó sabia como te ajudar. Mas então Joon, que estava esperando no jardim, entrou em casa discretamente.
Ele era tão pequeno, não tinha nem três verões ainda. Mas insistiu em te segurar. Então sua avó te colocou com cuidado nos braços dele, e quando você abriu os olhos e olhou para ele pela primeira vez, o sorriso que iluminou seu
rosto foi a coisa mais maravilhosa que já vi. Foi como o sol depois de uma tempestade.
- Vovô, está dizendo que sou uma pata? - perguntei, inclinando a cabeça para ele.
Ele levou os dedos até meu rosto para enxugar minhas lágrimas.
- Estou dizendo, Mina, que Joon te ama desde que você nasceu. Ele sempre vai te amar. É o presente dele pra você.
Balancei a cabeça.
- Então por que ele me deixou para trás?
- Porque ele sabe que você o ama o bastante para deixá-lo ir.
No beco frio e úmido da cidade do Deus do Mar, fecho os olhos com força. Vovô. Ele sempre sabia o que dizer para fazer eu me sentir melhor.
Faz tanto tempo que ele se foi. Vovô, tenho tanta saudade. Queria tanto que você estivesse aqui agora.
- Olha! - Ouço a voz ansiosa de um garotinho gritando por perto. -Tem uma garota chorando atrás da peixaria. O
que vamos fazer, Mascarada?
Uma garota responde com uma voz muito mais calma do que a do garoto e ligeiramente abafada:
- Esperar que ela gaste todas as lágrimas, claro. Quando ela terminar de chorar, não vai recomeçar. Essa aí tem um espírito forte.
Levanto o rosto dos joelhos, ofegante, e me deparo com a imagem mais peculiar que já vi.
Uma garota da minha altura está de pé na minha frente, a cabeça inclinada para o lado e o rosto coberto por uma máscara de madeira. Sulcos marcam suas rugas, e as
bochechas e a testa têm círculos vermelhos pintados. É a face de uma avó. Sua boca faz uma curva para baixo.- Como você sabe, Mascarada? Não parece que ela vai parar tão cedo.
Eu me viro e quase encosto o nariz em um garotinho agachado ao meu lado. Ele deve ter uns oito ou nove anos, e está usando calças largas de cânhamo e uma jaqueta fina com botões de madeira. Ele tem cabelos rebeldes e um grande rodamoinho na lateral da cabeça, lembrando uma flor. Nas costas, traz o que parece ser uma mochila de tecido.
- Nem Miki chora tanto quanto ela - diz ele, franzindo a sobrancelha.
A essa frase, se segue um som de bolhas emergindo do oceano.
Os dedos do garoto voam para o ombro, tirando as alças da mochila. Ele agita a bolsa e revela uma criança enfiada lá dentro.
- Ay, Miki. - O garoto dá risada, erguendo a menininha da mochila. -Sorria para a bebê.
Ele a segura diante de mim. Ela não deve ter mais do que um ano. Tem bochechas rosadas e cabelos curtos como os do garoto, só que os dela estão penteados com cuidado para o lado. Pela roupa que está usando - um vestido macio de algodão bordado com florezinhas cor-de-rosa -, sei que é muito amada. Miki e eu piscamos uma para a outra. Não sei se é a magia ou seu sorriso contagiante, mas minhas lágrimas param de cair. Miki dá uma risadinha e estica as mãozinhas para mim.
- Não, não, Miki. - O garoto a repreende, abrindo a mochila e a enfiando de volta gentilmente. - Você vai ficar comigo agora. - Ele faz carinho na cabeça dela antes de colocar a mochila nas costas.
Olho para a garota mascarada. A expressão gravada na madeira mudou, passando de avó irritada para avó sorridente.
- Melhor assim - diz ela. - Tudo bem chorar de vez em quando, mas nunca é bom desperdiçar água.
- Quem… quem são vocês? - falo. Ou tento falar. Como antes, não consigo emitir som nenhum.
Ela me surpreende ao responder:
- Somos espíritos. - Sua voz é abafada, vinda de trás da máscara. -Sou Mascarada - diz ela, apontando para si. -
Estes são Dai e Miki. - Ela acena para eles despreocupadamente, e Dai abre um sorriso largo. - A gente te viu no beco fazendo barulho silencioso e veio investigar.
Dai olha para Mascarada e então para mim.
- Como sabe o que ela está falando, Mascarada? Você consegue ouvir?
- Claro que não! - responde Mascarada, exasperada. - A voz dela é de uma pega, afinal de contas. Só estou usando a cabeça. O que você acha que uma humana feito ela, sozinha em um beco no meio da cidade do Deus do Mar, diria? “Quem são vocês? O que são vocês? Por que estão aqui? O que vocês querem?” Respondi a todas essas perguntas. Faça que sim, garota, se eu tiver respondido a pelo menos uma de suas perguntas.
Faço que sim.
Dai bate palmas.
- Pergunte o nome dela, Mascarada! Ela é tão bonita.
- Como você sabe que ela é bonita? Você é só um garotinho!
Ignoro a conversa deles e me concentro nas palavras de Mascarada: a voz dela é de uma pega.
Agito as mãos no ar para chamar a atenção deles. Junto os dedões e mexo os outros dedos para imitar uma ave voando.- Já sei! - Dai estala os dedos. - Sei o que ela está tentando dizer.
Aceno a cabeça para encorajá-lo.
- Ela quer voar como um pássaro. Será que devemos levá-la para a cachoeira mais alta, Mascarada? Podíamos empurrá-la. Daí ela poderia voar!
Engasgo.
- Não, não é isso que ela está falando! - Mascarada dá risada. -Sabia que sua linhagem era inferior!
- Retire o que disse, Mascarada! Peça desculpas.
Eu me inclino para a frente e aceno com as mãos, tentando manter os dois focados.
- Como você sabe que minha voz é uma pega? Vocês viram o que aconteceu? Sabem para onde a levaram?
Mascarada e Dai me olham com uma expressão vazia.
Ou pelo menos Dai me olha com uma expressão vazia. A máscara de avó da garota continua mostrando um sorriso beatífico.
- Uh… - diz Dai, coçando a ponte do nariz. - Você entendeu o que ela acabou de falar?
Mascarada balança a cabeça.
- Não podemos ler mentes - diz ela com gentileza. - E
também não sabemos ler lábios direito. Finja que não podemos te ouvir mesmo se você conseguisse falar.
- Pega - digo, mexendo a boca. Ergo as mãos novamente, fazendo uma mímica de pássaro, dessa vez dando um rasante dramático no ar. Parece mais o voo de um falcão do que de uma pega, mas, a esta altura, já não estou me preocupando com os detalhes.
Dai aponta para as minhas mãos.
- Parece um falcão.
- Ah! - exclama Mascarada. - Entendi agora. Pega, certo?
A gente viu lorde Kirin e aquele ladrão espertinho do Namgi pegar sua alma, presa em uma pega, e enfiá-la na gaiola.
Você precisa recuperá-la, senão o Deus do Mar não vai te reconhecer como sua noiva.
Arregalo os olhos.
- Você sabe que sou a noiva dele?
Ela deve entender o que estou perguntando, porque diz:
- O que mais você seria? As únicas humanas que podem entrar no Reino dos Espíritos são as noivas do Deus do Mar… quer dizer, as únicas humanas inteiras, não os espíritos dos humanos. - Ela aponta para si, para Miki e Dai.
- Como nós.
Mascarada inclina a cabeça para o lado.
- Você não está morta, não é?
Mesmo se eu tivesse voz, não saberia o que dizer.
- Todo humano tem uma alma - explica ela. - Quando morrem, eles deixam seus corpos no mundo de cima, e suas almas seguem o fluxo do rio. Espíritos são as almas dos humanos que saíram do rio, teimosos demais para seguir para a outra vida. Então a gente fica aqui no Reino dos Espíritos, causando confusões e nos empanturrando com rituais ancestrais. -Ela dá um tapinha na barriga e Miki solta uma risadinha.
Fico olhando para eles de olhos arregalados. Se o que ela está dizendo é verdade, eles estão mesmo mortos.
- Vamos ajudá-la, Mascarada - diz Dai, estremecendo quando Miki morde seu ombro. - Posso colocá-la dentro da Casa de Lótus. É pra lá que Kirin e Namgi estão indo.
Podemos falar para quem estiver no comando que ela está procurando trabalho. - Ele dá tapinhas carinhosos na minha cabeça.- Você é tão quietinha. Tenho certeza de que vão te contratar.
- A não ser que descubram que você é uma humana, e não um espírito. - Mascarada dá risada. - Daí vão querer te comer!
Fico pálida. Ela deve estar brincando.
Mascarada me oferece a mão, e eu a aceito. Ela me coloca de pé e me vira para poder limpar a sujeira na parte de trás do meu vestido. Temos a mesma altura.
Com ela de perfil para mim, posso observá-la à vontade.
A máscara que ela usa está amarrada na nuca com um fio grosso. Seu cabelo castanho tem tons dourados e está preso em uma longa trança, o que simboliza sua condição de donzela solteira. Isso e a curva de seu pescoço sugerem que ela tem mais ou menos a minha idade.
- Então vamos! - diz Dai.
Miki está rindo em suas costas. Mascarada endireita a postura para se juntar a ele. Hesito. Geralmente não sou tão desconfiada, mas o encontro com Shin e os outros me deixou cautelosa. Ainda assim, sinto uma estranha afinidade com esses espíritos, tão simpáticos e cheios de vida -