A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 12
Não quero mencionar as qualidades de que ele carece e que tornam impossível para mim amá-lo: um coração
carinhoso e um jeito de olhar para mim não como se eu fosse um fardo ou uma fraqueza, mas uma força.
- Eu não pedi para que nossos destinos se conectassem -
digo. - Não quero colocar sua vida em perigo. Eu não sabia o que aconteceria quando libertei minha alma da gaiola, só a queria de volta.
- Mina, você não está entendendo.
- Então me diga. O que eu não estou entendendo?
- Não podemos ser almas gêmeas… - diz Shin. Seus olhos escuros se fixam nos meus. - Porque eu não tenho alma.
12
C OMO É POSSÍVEL SHIN NÃO TER ALMA?
A pergunta me atormenta durante todo o caminho de volta para a Casa de Lótus. Quando chegamos, sou arrastada por um grupo de criadas para uma grande sala de banho, onde sou despida sem cerimônia, molhada com água quente e esfregada até minha pele ficar em carne viva. Exausta demais para protestar, relaxo enquanto as mulheres cortam e lixam minhas unhas e hidratam meus braços e pernas com óleos perfumados. Só falo de novo quando avisto uma das criadas saindo do quarto com meu vestido surrado.
- Meu punhal! - exclamo.
A criada volta e o coloca em uma prateleira baixa a meu alcance.
Elas me chamam de “lady Mina” e de “noiva de Shin”, guiando-me dos banhos de sal em câmaras quentes e inebriantes ao riacho frio do lado norte para relaxar os pés.
Elas conversam, emocionadas e admiradas, e suas palavras me cercam feito chuva de verão.
- Ela é tão jovem para ser uma noiva, mal fez dezesseis anos!
- Não é romântico o lorde Shin ter se apaixonado em apenas uma noite?
- O que você acha que o cativou?
- Seu rosto iluminado!
- Seu corpo ágil.
- Seu cabelo grosso. É lindo. - Um par de mãos quentes massageia meu couro cabeludo, enquanto outro passa dedos perfumados de lavanda e hibisco por meu cabelo. Até que enfim fico sozinha na banheira central da câmara; o vapor me envolve, subindo em espirais agradáveis e preguiçosas.
Minha mente vagueia para a conversa de uma hora atrás. O que Shin quis dizer ao afirmar que não tem alma?
Ele falou como se fosse uma verdade indiscutível. E nem Kirin nem Namgi negaram. Mas fui ensinada que tudo tem alma, do imperador ao mais humilde dos humanos, dos pássaros às rochas no riacho.
Levanto o braço. A água escorre da minha mão, assim como o Fio Vermelho do Destino, que atravessa a câmara e desaparece pela parede oposta. Onde será que Shin está agora? Ele recebeu uma carta e partiu em um barco com Kirin, enquanto Namgi me conduzia de volta à casa.
Lentamente, o Fio Vermelho do Destino começa a se mover em diagonal pela sala. Ele deve estar em movimento.
- Lady Mina?
As criadas voltam e me ajudam a sair da banheira, depositando uma xícara de chá de cevada em minhas mãos para que eu beba enquanto uma delas escova meu cabelo com um pente de casco de tartaruga. Depois sou colocada em um vestido leve de verão com a saia azul-clara e a parte de cima branca com mangas bordadas com flores cor-derosa. Tem até um bolso para o meu punhal. Em seguida, deixamos o prédio principal da Casa de Lótus e atravessamos o mesmo campo aberto que cruzei com Shin e Namgi mais cedo.
A aurora rosada se espalha pelo horizonte. Passei a noite toda acordada, e estou meio sonolenta quando as criadas me levam para um quarto com uma cama de palete macia cheia de cobertores de seda. Coloco a cabeça no travesseiro de contas. Pego no sono em segundos.
Uma vez, minha avó me contou a história de quando as tempestades começaram.
Muito tempo atrás, nosso povo era governado por um imperador benevolente, abençoado e amado pelos deuses.
Principalmente pelo Deus do Mar. O mundo era próspero.
Diziam que o imperador e ele tinham uma ligação fraternal indestrutível, que um não podia existir sem o outro.
Até que um dia um conquistador chegou ao nosso reino, e, apesar de tê-lo enfrentado, nosso corajoso imperador foi derrotado e seu corpo sem vida, jogado do penhasco, caindo no mar.
Foi a perda do imperador que lançou o Deus do Mar em sua ira vingativa. E o usurpador, exultante depois de matar o imperador e sua família, viu o que era governar uma terra amaldiçoada pelos deuses.
Ironicamente, foi o conquistador quem primeiro sacrificou uma noiva para oferecer ao Deus do Mar e, assim, salvar nosso povo.
Por cinco anos, uma terrível estiagem devastou nossas terras, e todos os rios e riachos secaram. Os esqueletos dos peixes jaziam despedaçados nas margens áridas do rio. O
usurpador consultou uma sacerdotisa, que lhe disse que
“apenas um amor igual ou maior que o amor do Deus do Mar pelo imperador” poderia acalmar sua ira. O
conquistador, que tinha fixado residência no palácio do imperador morto, tinha uma filha. Diziam que ela era a garota mais bonita do reino, com seus lábios vermelho-romã e olhos de lua escura. Mas, mais do que isso, diziam que ela era a única pessoa que o conquistador amava de verdade.
Ela se tornou a primeira noiva do Deus do Mar.
Nas três estações que se seguiram ao sacrifício, o mar permaneceu calmo e as terras, seguras. Até que os meses de verão chegaram novamente. E dessa vez a chuva caiu do céu em torrentes de água gelada, inundando os rios e os campos. Algumas pessoas se afogaram em suas próprias camas, e crianças foram arrastadas por ventos violentos.
Outro sacrifício foi preparado. Mais uma garota foi jogada ao mar.
E o ritual continuou ano após ano.
Ganhou fama. Virou um mito.
Nada acalmava a ira do Deus do Mar, exceto a vida de alguém amado.
Acordo com a luz nos meus olhos e a voz da minha avó ecoando em meus sonhos. Reconheço o quarto como o mesmo da noite anterior, onde os ladrões tentaram roubar minha alma. Alguém deve tê-lo limpado enquanto estivemos fora. O piso de madeira está polido e brilhante, e os poucos móveis não estão mais caídos, e sim encostados em um canto. A única evidência da luta é o buraco na janela feito pelo virote da besta, através do qual os pássaros podem agora ser ouvidos cantarolando pelo lago.
Ouço uma batida suave na porta, que então se abre.
Duas criadas entram, uma carregando uma bandeja com pratos cobertos, e a outra, um pente e uma fita. A primeira criada coloca a bandeja diante de mim e começa a revelar suas delícias. Fico com água na boca ao ver a sopa saborosa. A corvina amarela grelhada disposta em uma cama de vegetais exuberantes. O arroz com castanhas. O
último prato é ovo cozido no vapor, tão macio que parece até uma nuvem na panela de pedra. Assim como aconteceu com os pasteizinhos da noite anterior, devoro a refeição. As criadas ficam me encorajando enquanto como, explicando as propriedades de certos pratos e perguntando se há algum alimento que eu gostaria de comer em futuras refeições. Depois, a segunda criada se senta atrás de mim para escovar meu cabelo e separá-lo em mechas para fazer uma trança.
- Pode me dizer para que este pavilhão é usado? - Olho para a janela, para o lago sereno e tranquilo, perturbado apenas por um pato. - Como ele é chamado?
- Você está no Pavilhão de Lótus, lady Mina - responde a primeira criada, uma garota de bochechas rosadas e sorriso gentil. - São os aposentos privativos de lorde Shin.
Pisco várias vezes.
- Aposentos privativos? Tipo…
- É onde ele dorme, onde passa a maior parte de seu tempo quando não está na cidade.
Olho em volta, me lembrando da primeira impressão que tive ao entrar aqui ontem à noite. Pensei que se tratava de um depósito. O cômodo está vazio, exceto por um armário velho, uma prateleira baixa na janela e o biombo de papel.
A segunda criada termina de trançar meu cabelo e se levanta. Juntas, elas dobram os cobertores com cuidado e os colocam encostados na parede.
- Obrigada - digo.
A primeira criada pega a bandeja com os pratos agora vazios.
- É uma honra servi-la, milady. - Elas fazem uma reverência e saem do quarto.
Aguardo alguns minutos antes de ir abrir as portas do armário. Sei que estou sendo bisbilhoteira, mas Shin deveria saber que, ao me colocar em seu quarto, eu daria uma olhada em seus pertences. Lá dentro há prateleiras repletas de vestes de cores escuras, além de calças e cintos. Eu vasculho tudo, mas não encontro nada de interessante.
Fecho o armário e me viro para examinar o recinto. Não há nada aqui que indique uso regular - nada de pergaminhos,
pinturas nem jogos de tabuleiro. Vou até a prateleira e dou uma espiada embaixo para ver se há algo escondido lá.
- Não sei se sua família ficaria orgulhosa ou horrorizada.
Olho para trás e me deparo com Nari apoiada na porta.
- Tenho certeza de que eles ficariam orgulhosos por você ter recuperado sua voz - diz ela -, mas, de alguma forma, não consigo imaginá-los felizes pelo seu noivado.
Da última vez que ela me viu, eu estava indo recuperar minha alma com Shin. Agora estou noiva dele. Ela deve estar se perguntando o que aconteceu nesse meio-tempo.
Quero lhe contar a verdade, mas temo colocá-la em perigo.
Já percebi que há políticas perigosas em vigor entre os deuses e as casas.
- Você viu Shin? Preciso falar com ele. É urgente.
Nari ergue uma sobrancelha, mas aceita a mudança de assunto.
- Ele foi para a Casa do Tigre com lorde Kirin.
Shin deve suspeitar que lorde Tigre está por trás da tentativa de roubo da minha alma.
- Quando ele volta?
- Só à noite.
Vai ser tarde demais, não posso desperdiçar um dia inteiro. Agora que recuperei minha alma, preciso procurar o Deus do Mar. O sonho me lembrou que as respostas que procuro estão com ele.
- Nari, não posso explicar agora, mas preciso sair. Você me ajuda?
- Sinto muito, Mina - diz ela com uma expressão de desculpas -, mas tenho ordens a cumprir. Você está livre
para ir a qualquer lugar que quiser, mas só dentro dos limites da Casa de Lótus.
Fico encarando-a chocada. Shin mentiu para mim! Ele prometeu que não me impediria de cumprir minha tarefa.
- Mina… - Ela começa.
Passo por ela e vou até a porta.
Ela me segue escada abaixo.
- Você não está entendendo. É para a sua própria segurança. Você é humana. Seu corpo é mais fraco neste mundo.
Viro-me e pego suas mãos.
- Nari, você precisa me ajudar a chegar ao palácio do Deus do Mar.
- O Deus do Mar… - Ela arregala os olhos e balança a cabeça. -Não posso desobedecer a uma ordem direta do lorde Shin. Ele é o senhor desta casa. Fiz um juramento.
- Diga que eu fugi! Você me ajudou ontem.
- Ah, Nari - fala uma voz baixa, direto das sombras sob a escada. -É por isso que você queria jogar cartas comigo? -
Namgi se afasta da parede em que estava apoiado. - E eu pensando que finalmente estávamos nos dando bem.