A Torre Negra V: Lobos de Calla
Capítulo 1
Susannah pôde observar muita coisa naquele longo e interessante dia, porque Roland lhe deu a oportunidade e porque, depois que passara a náusea da manhah, ela se sentiu inteira de novo.
Pouco antes de Callahan e seu grupo entrarem ao alcance do ouvido, Roland murmurou-lhe:
— Fique perto de mim, e não quero ouvir uma palavra de você, a não ser que eu pergunte. Se a tomarem por minha sh’veen, tudo bem.
Em outras circunstâncias, ela poderia ter alguma coisa impertinente para dizer sobre a idéia de ser a calada esposinha dele, sua costela de noite, mas não havia tempo nessa manhã, e de qualquer modo estava longe de ser motivo de pilhéria; a seriedade no rosto dele deixava isso claro. E, também, a parte da fiel e calada subordinada atraía-a. Na verdade, qualquer parte atraía-a. Mesmo em criança, raramente se sentira tão feliz como quando fingia ser outra pessoa.
O que provavelmente explica tudo que se pode conhecer de você, doçura, ela pensou.
— Susannah? — chamou Roland. — Está me ouvindo?
— Muito bem — disse ela. — Não se preocupe comigo.
— Se sair como eu quero, eles a verão pouco e você os verá muito.
Como uma mulher que crescera negra nos Estados Unidos de meados do século XX (Odetta rira e aplaudira-a durante toda a leitura de O Homem Invisível, de Ralph Ellison, muitas vezes balançando de um lado para outro na cadeira como alguém que recebeu uma revelação), Susannah sabia exatamente o que ele queria. E ia dar-lhe. Uma parte dela — uma despeitada parte Detta Walker — sempre se ressentiria da ascendência de Roland em seu coração e mente, mas na maior parte ela o reconhecia como o que era: o último de sua espécie. Talvez mesmo um herói.