A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 22 de 43

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

Capítulo 7 · Noturno, Fome

 

 

1

Mia estava de novo no castelo, mas desta vez era diferente. Agora, não se movia devagar, brincando com sua fome, sabendo que logo se alimentaria e saciaria, que tanto ela quanto seu chapinha ficariam satisfeitos. Daquela vez, o que sentia dentro de si era desespero voraz, como se um animal selvagem tivesse sido enjaulado dentro de sua barriga. Percebia que o que sentira em todas aquelas expedições anteriores não fora fome em absoluto, não a verdadeira fome, mas apenas apetite saudável. Aquela era diferente.

A hora dele está chegando, pensou. Ele precisa comer mais, a fim de se fortalecer. E eu também.

Mas se sentia atemorizada — apavorada — de que não se tratasse apenas de uma questão de necessidade de comer mais. Precisava comer alguma coisa, alguma coisa muito especial. O chapinha precisava disso para... bem, para...

Para concluir a transformação!

Sim! Sim, era isto, a transformação! E com certeza ela a encontraria no salão do banquete, porque tinha de um tudo no salão do banquete... milhares de pratos, cada um mais suculento que o último. Ela ia pastar a mesa, e quando encontrasse a coisa certa — o legume, o tempero ou as ovas de peixes certos —, suas entranhas e nervos gritariam por ela, e Mia comeria... ah, ela devoraria.

Pôs-se a deslocar-se mais rápido e depois a correr. Tinha vaga consciência de que suas pernas roçavam uma na outra, pois estava de calça. Calça de brim, como de caubói. E em vez de mocassins, usava botas.

Botas curtas, sussurrou-lhe a mente para a mente. Botas curtas, que lhe dêem conforto.

Mas nada disso importava. O que importava era comer, empanturrar-se (ah, como estava faminta), e encontrar a coisa certa para o chapinha. Encontrar a coisa que o fortalecesse e induzisse o trabalho de parto dela.

Desceu em disparada a ampla escadaria, sob o murmúrio ritmado constante das máquinas de trem lentas. Aromas deliciosos já deviam tê-la dominado àquela altura — rosbifes, aves assadas, peixes ao molho de ervas —, mas ela não sentia cheiro de comida algum.

Talvez eu esteja gripada, pensou, quando ouviu a batida tuc-tuc-tuc das botas nos degraus. Deve ser isso, eu me gripei. Minhas narinas estão inchadas e eu não sinto cheiro de nada...

Mas sentiu. Sentiu o cheiro do pó e da idade daquele lugar. O cheiro de infiltração úmida, um fraco saibo de óleo de máquina e o bolor carcomendo implacavelmente as tapeçarias e as cortinas que pairavam suspensas nos cômodos da ruína.

Estas coisas, mas não comida.

Precipitou-se pelo piso de mármore preto para as portas duplas, sem saber que estava mais uma vez sendo seguida — não pelo pistoleiro desta vez, mas por um menino de olhos arregalados, cabelos desgrenhados, de camisa e calção de algodão. Mia atravessou o foyer com seus quadrados de mármore vermelhos e pretos e a estátua de mármore e aço suavemente entrelaçados. Não parou para fazer reverência nem curvar a cabeça. Que ela se sentisse tão faminta era suportável. Mas seu chapinha não. Jamais seu chapinha.

O que a deteve (e apenas por um espaço de segundos) foi seu próprio reflexo, leitoso e irresoluto, no aço cromado da estátua. Acima do jeans, via a blusa branca simples (Você chama esse tipo de camiseta, suspirou sua mente) com alguma coisa escrita e uma imagem.

A imagem parecia de um porco.

Não importa o que se vê em sua camiseta, mulher. O que importa é o chapinha. Você precisa alimentá-lo.

Ela irrompeu no salão de jantar e parou com um arquejo de consternação. O aposento agora estava cheio de sombras. Algumas das tochas elétricas ainda brilhavam, mas a maioria se apagara. Enquanto olhava, a única que continuava queimando no outro lado do salão tremulou, zumbiu e escureceu. Os pratos brancos para ocasiões especiais haviam sido substituídos por azuis decorados com gavinhas verdes de arroz. As plantas de arroz formavam a Grande Letra Zn , que, ela sabia, significava eternidade e agora e também vem, como em vem-commala. Mas os pratos não tinham importância. O que importava era que os pratos e os belos copos de cristal estavam vazios e baços de pó.

Não, nem tudo estava vazio; num cálice alto, ela viu uma viúva-negra morta estendida com as várias patas enrascadas na ampulheta vermelha na parte média.

Viu o gargalo de uma garrafa de vinho espetado acima de um balde, e seu estômago deu um grito imperativo. Ela a apanhou, mal registrando o fato de que não havia água no balde, muito menos gelo. Pelo menos a garrafa tinha peso, e suficiente líquido para entornar...

Mas antes que Mia pudesse fechar os lábios no gargalo da garrafa, o cheiro de vinagre a atingiu com tanta força que seus olhos se encheram de água.

— Puta-merda! — gritou, e atirou a garrafa no chão. — Sua rasga-cu de mãe!

A garrafa despedaçou-se no piso de pedra. Coisas correram em esganiçada surpresa debaixo da mesa.

— Ié, melhor correrem! — gritou ela. — Fora, sejam quem forem vocês! Aqui está Mia, filha de ninguém, e de mau humor! Mas eu vou comer!. Sim! Vou sim!

Apesar da bravata, ela a princípio não viu nada na mesa que pudesse comer. Havia pão, mas o pedaço que se deu ao trabalho de pegar virara pedra. Havia o que pareciam ser restos de peixe, mas se haviam putrefeito e ficado submersos num molho de larvas branco-esverdeadas.

Seu estômago rosnou, repelido por aquela podridão. Pior, alguma coisa abaixo do estômago ficou nervosa, pôs-se a chutar e a gritar para ser alimentada. Fez isso não com a voz, mas virando alguns interruptores dentro dela, até o fundo das mais primitivas partes de seu sistema nervoso. Ela ficou com a garganta seca; a boca franziu-se como se houvesse bebido o vinho desandado. A visão aguçou-se quando os olhos se arregalaram e se projetaram para a frente nas cavidades. Cada pensamento, sentido e instinto sintonizou-se na mesma simples idéia: comida.

Além da outra cabeceira da mesa erguia-se uma tela mostrando Arthur Eld, espada empunhada alta, cavalgando por um pântano com três de seus cavaleiros-pistoleiros atrás. No pescoço exibia Saita, a grande serpente, que presumivelmente acabara de matar. Outra busca bem-sucedida! Tenham êxito! Homens e suas buscas! Bah! Que era matar uma cobra para ela? Tinha um chapinha na barriga, e o chapinha estava faminto.

Faaminto, pensou numa voz que não era a dela. Isto é que é ser faminto.

Atrás da tela havia portas duplas. Ela avançou transpondo-as, ainda sem saber do garoto Jake parado na outra ponta do salão de jantar em roupas de baixo, assustado.

A cozinha estava igualmente vazia e empoeirada. As bancadas tatuadas por animais domésticos. Potes, panelas e utensílios para preparo de alimentos juncavam todo o chão. Além daquele entulho ficavam quatro pias, uma cheia de água estagnada que se tornara uma espuma de algas. Iluminavam a dependência tubos fluorescentes. Só alguns ainda brilhavam firmes. A maioria tremeluzia intermitentemente, dando àquela trabalhada um aspecto surreal e dantesco.

Ela continuou em frente pela cozinha, chutando para o lado os potes e as panelas no caminho, onde se enfileiravam quatro fogões enormes. A porta do terceiro estava entreaberta. Dele saía um fraco eflúvio de calor, como às vezes se podia sentir saindo de uma lareira seis ou sete horas depois que as últimas brasas se extinguiram, e um cheiro que lhe provocou mais uma vez um clamor em todo o estômago. Era o cheio de carne recém-assada.

Mia abriu a porta. Dentro havia de fato algum tipo de assado. Alimentando-se dele, um rato do tamanho do gato Tom. Girou a cabeça à pancada da abertura da porta do fogão e fitou-a com olhos pretos, destemidos. Os bigodes, lambuzados de gordura, contraíram-se. Depois o rato retornou ao assado. Ela ouvia o estalar abafado de seus beiços e o ruído de carne rasgando-se.

Nãão, Sr. Rato. Não foi deixado para você. Foi deixado para mim e meu chapinha.

— Uma chance, meu amigo! — cantarolou, voltando-se para as bancadas e armários de ingredientes embaixo. — É melhor ir enquanto pode! Aviso justo! — Não que ele tenha obedecido. O Sr. Rato também está faminto.

Ela abriu uma gaveta e encontrou apenas tábuas de pão e um rolo de massa. Pensou brevemente em usá-lo, mas não tinha a menor intenção de regar seu jantar com mais sangue de rato do que lhe fosse absolutamente inevitável. Abriu o armário abaixo e encontrou formas para bolinhos e moldes para sobremesas sofisticadas. Moveu-se para a esquerda, abriu outra gaveta, e ali se encontrava o que ela procurava.

Mia examinou as facas, e preferiu retirar um espeto. Tinha dois dentes de aço de 15 centímetros de comprimento. Levou-o de volta à fileira de fogões, hesitou e inspecionou os outros três. Vazios, como imaginara que estivessem. Alguma coisa — algum destino, alguma providência, algum ka — deixara carne fresca, mas suficiente apenas para um. O Sr. Rato achou que era dele. O Sr. Rato cometera um engano. Ela tratou de não cometer outro. Não daquele lado da clareira, de qualquer modo.

Curvou-se e mais uma vez o cheiro de carne de porco recém-assada encheu-lhe as narinas. Os lábios se alargaram e a saliva escorreu-lhe dos cantos do sorriso. Desta vez o Sr. Rato não se voltou para olhar. Decidira que ela não era ameaça alguma. Muito bem. Ela curvou-se mais à frente, inspirou e empalou-o no espeto. Espetinho de rato! Retirou-o e levou-o defronte ao rosto. A criatura guinchava furiosamente, as pernas rodopiando no ar, a cabeça açoitando para a frente e para trás, o sangue escorrendo pelo cabo do garfo e formando uma poça em volta do punho dela. Transportou-o, ainda a contorcer-se, para a pia de água estagnada e soltou-o sacudindo o espeto. O rato esparrinhou no lodo e desapareceu. Por um momento a ponta do rabo contorcendo-se despontou, e depois desapareceu também.

Ela atravessou a fila de pias, experimentando as torneiras, e da última conseguiu um fraco gotejar de água. Lavou a mão coberta de sangue até acabar o gotejo. Então voltou até o fogão, enxugando a mão atrás na calça. Não viu Jake, agora parado logo depois das portas da cozinha e observando-a, embora sem fazer a menor tentativa de esconder-se; estava totalmente fixada no cheiro da carne. Não era suficiente, e não exatamente o que seu chapinha precisava, mas resolveria por enquanto.

Enfiou as mãos, pegou a assadeira pelos lados e recuou com um arquejo, sacudindo os dedos e abrindo um sorriso. Um sorriso de dor, porém não de todo destituído de humor. O Sr. Rato era uma insignificância mais imune ao calor que ela, ou talvez mais faminto. Embora fosse difícil acreditar que alguma coisa ou alguém estivesse mais faminto que ela naquele momento.

— Estou faminta! — gritou, rindo, ao voltar pela fileira de gavetas, abrindo-as e fechando-as rápido. — Mia é uma dona faminta, sim, senhor! Não foi a Morehouse, nem foi à não casa, mas eu estou faminta! E meu chapinha também está!

Na última gaveta (não era sempre na última?) encontrou o pega-panelas que estivera procurando. Voltou correndo ao fogão já com o protetor nas mãos, curvou-se e retirou o assado. Sua risada extinguiu-se num súbito arquejo de choque... e então ela desatou novamente a rir, mais alto e forte que antes. Que idiota era! Que porra de imbecil! Por um instante pensara que o assado, rematado com a pele crocante e só roído pelo Sr. Rato num único lugar, fosse o corpo de uma criança. E, sim, imaginou que um leitão assado parecia, de fato, uma criança... um bebê... o chapinha de alguém... mas agora que o via ali fora, os olhos fechados, as orelhas carbonizadas e uma maçã assada na boca aberta, não havia a menor questão a respeito do que era.

Ao pô-lo na bancada, pensou mais uma vez no reflexo que vira no foyer. Mas deixa isso pra lá agora. Suas entranhas eram um bramido esfomeado. Tirou uma faca de açougueiro da gaveta de onde tirara o garfo e cortou fora o pedaço que o Sr. Rato estivera comendo como se corta um furo de minhoca de uma maçã. Jogou esse pedaço para trás, depois segurou o assado inteiro e enfiou a cara no leitão.

Da porta, Jake a observava.

Depois de saciar a parte mais sôfrega da fome, Mia olhou a cozinha em volta com uma expressão que oscilava entre cálculo e desespero. Que devia fazer quando terminasse o assado? Que devia comer na vez seguinte que aquele tipo de fome chegasse? E onde ia achar o que o seu chapinha realmente quisesse, ou precisasse? Ela faria qualquer coisa para localizar essa coisa e garantir um bom abastecimento dessa comida, bebida, vitaminas especiais, ou fosse lá o que fosse. O leitão chegou perto (perto o bastante para fazê-lo adormecer mais uma vez, graças a todos os deuses e o Homem Jesus), mas não perto o suficiente.

Ela largou o sai Porco de volta na assadeira por enquanto, retirou pela cabeça a camiseta que usava e virou-a para vê-la de frente. Havia a caricatura de um porco assado, vermelho-vivo, mas parecia não se incomodar; sorria deliciado. Acima, em letras rústicas feitas para parecer tabuleta de celeiro, lia-se o seguinte: THE DIXIE PIG, RUA LEX COM 61. Abaixo: “MELHORES COSTELETAS DE NOVA YORK” — REVISTA GOURMET.

The Dixie Pig, pensou. The Dixie Pig. Onde ouvi isto antes?

Não sabia, mas ela acreditava que podia encontrar a rua Lex se precisasse.

— Fica bem ali entre a Terceira e a Park — disse. — Está certo, não?

O garoto, que saíra sem ser visto, mas deixara a porta entreaberta, ouviu isso e assentiu com a cabeça, pesarosamente. Ficava ali, sim, está certo.

Muito bem, pensou Mia. Tudo está bem por ora, o melhor possível, de qualquer modo, e como dizia aquela mulher no livro, amanhã ê outro dia. Preocupe-se com isso então. Certo?

Certo. Tornou a pegar o assado e começou a comer. Os estalos que emitia não eram na verdade muito diferentes dos feitos pelo rato. Na verdade, quase nada diferentes.

 

2

Tian e Zalia haviam tentado dar a Eddie e Susannah seu quarto de dormir. Convencê-los de que os hóspedes realmente não queriam o quarto deles — que dormir ali de fato ia deixá-los pouco à vontade — não fora fácil. Foi Susannah que acabou contornando o mal-estar, dizendo aos Jaffords numa voz hesitante, confidencial, que uma coisa terrível lhes acontecera na cidade de Lud, uma coisa tão traumática que nenhum dos dois conseguia dormir bem numa casa. Um celeiro, onde se via a porta aberta para o mundo exterior a qualquer hora que se quisesse dar uma olhada, era muito melhor.

Um bom conto, e bem amarrado. Tian e Zalia ouviram-no com uma solidária credulidade que fez Eddie se sentir culpado. Um monte de coisas ruins acontecera com eles em Lud, isso era verdade, mas nada que deixasse algum deles nervoso quanto a dormir dentro de casa. Pelo menos ele imaginava que não; desde que haviam deixado seu próprio mundo, os dois só haviam passado uma noite (a anterior) sob o verdadeiro telhado de uma verdadeira casa.

Agora ele se sentava de pernas cruzadas numa das mantas que Zalia lhes dera para estender no feno, as outras duas deixadas ao lado. Olhava o quintal lá fora, além do alpendre onde grand-père contara sua história, na direção do rio. A lua saía e entrava a esvoaçar nas nuvens, primeiro iluminando a cena até prateá-la, depois escurecendo-a. Eddie mal via o que olhava. Tinha os ouvidos atentos ao andar do celeiro abaixo deles, onde ficavam as estrebarias e os currais. Ela estava ali embaixo em algum lugar, tinha certeza de que estava, mas Deus do céu, estava tão silenciosa.

E por falar nisso, quem é ela? Mia, disse Roland, mas isto é apenas um nome. Quem é ela realmente?

Mas não era apenas um nome. Queria dizer mãe na Língua Superior, explicara o pistoleiro.

Quer dizer mãe.

Ié. Mas ela não é a mãe de meu filho. O chapinha não é meu filho.

Uma leve batida vinda de baixo dele, seguida pelo ranger de uma tábua. Eddie retesou-se. Ela estava ali embaixo, certo. Ele começara a ter suas dúvidas, mas ela estava.

Despertara após talvez umas seis horas de sono profundo e sem sonhos e descobrira que ela se fora. Foi até a porta da sacada do celeiro, que haviam deixado aberta, e olhou. Lá estava ela. Mesmo ao luar, soubera que não era mesmo Susannah ali embaixo na cadeira de rodas; não sua Suze, e tampouco Odetta Holmes ou Detta Walker. Mas não lhe era inteiramente desconhecida. Ela...

Você a viu em Nova York, só que então ela possuía pernas e sabia usá-las. Tinha pernas e não queria chegar perto demais da rosa. Tinha seus motivos para isso, e bons motivos, mas sabe qual era o verdadeiro motivo em minha opinião? Acho que temia que fosse ferir aquilo que levava na barriga.

Mas ele sentia pena da mulher embaixo. Não importa quem ela fosse ou o que levasse em si, meteu-se nessa situação enquanto tentava salvar Jake Chambers. Detivera o demônio fora do círculo, colhendo-o dentro de si apenas o tempo suficiente para que Eddie terminasse de desbastar a chave que fizera.

Se você a tivesse terminado antes, se não fosse aquela maldita titica de galinha, ela talvez nem estivesse nessa trapalhada, já pensou nisto?

Eddie afastou o pensamento. Continha alguma verdade, claro, ele perdera a confiança enquanto desbastava a chave, e por isso ainda não havia terminado quando chegou a hora do resgate de Jake, mas pusera um fim nesse tipo de pensamento. Não servia para nada, além de criar uma série verdadeiramente excelente de ferimentos auto-infligidos.

Quem quer que ela fosse, o coração dele fora para a mulher que via embaixo. No adormecido silêncio da noite, através das persianas de luar e escuridão, ela empurrou a cadeira de rodas de Susannah primeiro para o outro lado do quintal, depois voltou, mais uma vez para o outro lado do quintal, depois à esquerda, depois à direita. Ela lembrava um pouco os velhos robôs na clareira de Shardik, aqueles nos quais Roland o mandara atirar. E era isso tão surpreendente? Ele apagou pensando naqueles robôs, e o que Roland dissera deles: São criaturas de grande tristeza, acho, em sua maneira estranha. Eddie vai livrá-las do sofrimento. E assim o fizera, após alguma persuasão: o que parecia uma cobra de várias junções, o que parecia o trator Tonka que ele ganhara certa vez como presente de aniversário, o rato de aço inoxidável mal-humorado. Acertara todos exceto o último, uma espécie de coisa voadora mecânica. Roland pegara esse.

Como os velhos robôs, a mulher no quintal abaixo queria ir a algum lugar, mas não sabia aonde. Queria obter alguma coisa, mas não sabia o quê. A questão era: que devia ele fazer?

Apenas observe e espere. Use o tempo para inventar outra história absurda no caso de um deles acordar e vê-la no quintal andando de um lado para outro na cadeira de rodas. Mais síndrome de estresse pós-traumático de Lud, talvez.

— Ei, isso funciona pra mim — murmurou ele, mas logo depois Susannah já girara a cadeira de volta ao celeiro, encaminhando-se agora com um propósito.

Eddie se deitara, pronto para fingir que dormia, mas em vez de ouvi-la subindo ouvira um fraco clique, um grunhido de esforço, depois o rangido de tábuas afastando-se para os fundos do celeiro. No olho da mente, ele a viu saindo da cadeira e voltando para ali no seu rastejar de velocidade normal — para quê?

Cinco minutos de silêncio. Mal começava a ficar realmente nervoso quando ouviu um único guincho, estridente e curto. Tão igual a um grito de bebê que os testículos se contraíram e a pele irrompeu em arrepios. Ele olhou para a escada que levava ao andar do celeiro embaixo e forçou-se a esperar mais.

Aquilo foi um porco. Um dos jovens. Apenas um bacorinho, só isso.

Talvez, mas o que ele não parava de ver era o casal de gêmeos mais moços. Sobretudo a menina. Lia, rima com Mia. Apenas bebês, e era loucura pensar em Susannah cortando a garganta de uma criança, totalmente insano, mas...

Mas não é Susannah lá embaixo, e se você passar a achar que é, pode acabar ferido, como quase acabou antes.

Ferido uma porra. Quase morto foi como acabara. Quase tivera o rosto devorado pelas lagostrosidades.

Foi Detta quem me atirou às aberrações rastejantes. Essa não é ela.

Sim, e ele teve uma idéia — apenas uma intuição, na verdade — de que aquela talvez fosse muito mais bondosa que Detta, mas teria de ser um idiota para apostar a vida nisso.

Ou a vida das crianças? Os filhos de Tian e Zalia?

Ficou ali suando, sem saber o que fazer.

Agora, após o que pareceu uma interminável espera, ouviram-se mais guinchos e chiados. Os últimos vieram diretamente de baixo da escada que levava ao sótão. Eddie deitou-se de novo e fechou os olhos. Não totalmente cerrados, contudo. Espiando pelas pálpebras, viu a cabeça dela surgir acima do pavimento do sótão. Nesse momento a lua deslizou para fora de uma nuvem e inundou o sótão de luz. Ele viu sangue nos cantos de sua boca, escuro como chocolate, e lembrou-se de limpá-la pela manhã. Não queria nenhum do clã dos Jaffords vendo aquilo.

O que quero ver são os gêmeos, pensou Eddie. Os dois pares, todos os quatro, vivos e bem. Sobretudo Lia. Que mais eu quero? Que Tian saia do celeiro com um ar de reprovação no rosto. Que nos pergunte se ouvimos alguma coisa à noite, talvez uma raposa ou até um daqueles gatos da montanha de que eles falam. Porque, entendam, um dos bacorinhos desapareceu. Eu espero que tenha escondido bem o que tenha sobrado dele, Mia ou quem quer que você seja. Espero que tenha escondido muito bem.

Ela foi até ele, deitou-se, virou-se uma vez e caiu em profundo sono — ele soube pelo ruído da respiração. Eddie virou a cabeça e olhou para o adormecido lugar da casa dos Jaffords.

Ela não foi a nenhum lugar perto da casa.

Não, a não ser que houvesse atravessado todo o celeiro com a cadeira e saído direto pelos fundos, era isso. Contornado por ali, entrado furtivamente por uma janela, levado um dos gêmeos mais moços, levado a menina, a levado de volta ao celeiro... e...

Ela não fez isso. Não teve tempo, em primeiro lugar.

Talvez não, mas ele se sentiria muito melhor pela manhã, mesmo assim. Quando visse toda a garotada no desjejum. Incluindo Aaron, o menininho com as pernas rechonchudas e a barriguinha estufada. Pensou no que sua mãe às vezes dizia quando via uma mãe empurrando um pequenino no carrinho pela rua: Tão fofinho! Parece bastante bom para comer!

Comporte-se. Vá dormir!

Mas se passou um longo tempo até Eddie voltar a adormecer.

 

3

Jake acordou do pesadelo com um arquejo, sem saber ao certo onde estava. Usava apenas uma camiseta de algodão simples — grande demais para ele — e calção fino de algodão, tipo calção de ginástica, também muito grande. Que...?

Ouviu um grunhido, seguido por um traque abafado. Jake olhou em direção aos barulhos, viu Benny Slightman enterrado até as orelhas sob dois travesseiros, e tudo se encaixou. Ele usava uma das camisetas e cuecas de Benny. Estavam na tenda de Benny, no rochedo que dava para o rio. As margens fluviais ali eram pedregosas, dissera o amigo, não serviam para arroz, mas eram muito boas para pesca. Se tivessem só um pouco de sorte, conseguiriam pegar seu próprio desjejum do Devar-Tete Whye. E embora Benny soubesse que Jake e Oi iam ter de retornar para a casa do Velho a fim de se juntarem ao dinh e aos parceiros ka deles por um dia ou dois, talvez mais, era possível que Jake voltasse depois. Havia boa pesca ali, boa piscina a pouca distância torrente acima, e grutas onde as paredes brilhavam no escuro e os camaleões também cintilavam. Jake fora dormir muito satisfeito com a perspectiva dessas maravilhas. Não se sentia nervoso por se encontrar ali sem uma arma (vira demais e fizera demais para nunca mais sentir-se inteiramente relaxado sem uma arma naqueles dias), mas tinha toda certeza de que Andy os vigiava, e se permitira cair em sono profundo.

Então o sonho. O sonho terrível. Susannah na imensa e imunda cozinha de um castelo abandonado. Susannah erguendo um rato a contorcer-se num espeto de carne. Erguendo-o e rindo, o sangue a escorrer pelo cabo do garfo e em volta de sua mão.

Não foi sonho nenhum, e você sabe disso. Tem de contar a Roland.

O pensamento que se seguiu foi de certo modo ainda mais aflitivo. Roland já sabe. E Eddie também.

Jake sentou-se com os joelhos junto ao peito e os braços cruzados nas canelas, sentindo-se mais infeliz do que nunca, desde que dera uma boa olhada na Redação Final para a aula de inglês da Sra. Avery. Como Compreendo a Verdade fora o tema, e embora ele a compreendesse muito melhor agora — compreendesse em que grande medida aquilo devia ter sido suscitado pelo que Roland chamava de toque —, sua primeira reação fora de puro horror. O que sentia agora era não tanto horror quanto... bem...

Tristeza, pensou.

Sim. Esperava-se que eles fossem ka-tet, um de vários, mas agora sua unidade se perdera. Susannah tornara-se outra pessoa e Roland não queria que ela soubesse, com os Lobos a caminho ao mesmo tempo ali e no outro mundo.

Lobos de Calla, Lobos de Nova York.

Queria sentir raiva, mas parecia não haver ninguém de quem sentir raiva. Susannah engravidara, ajudando-o, afinal, e se Roland e Eddie não estavam dizendo a coisa a ela, era porque queriam protegê-la.

Ié, tem razão, elevou-se uma voz ressentida. Eles também querem ter certeza de que ela pode ajudar quando os Lobos chegarem cavalgando do Trovão. Seria menos uma arma se estivesse ocupada tendo um aborto ou um colapso nervoso ou qualquer coisa que o valha.

Ele sabia que isso não era justo, mas o sonho o deixara terrivelmente abalado. O rato não parava de voltar-lhe à mente. Ela erguendo-o. E sorrindo radiante. Não se esqueça disto. Sorrindo radiante. Tocara o pensamento na mente de Susannah naquele momento, e julgou que era espetinho de rato.

— Mãe do céu — sussurrou.

Imaginou que entendia por que Roland não estava contando a Susannah sobre Mia — e sobre o bebê, o que Mia chamava de chapinha — , mas não entendia o pistoleiro que alguma coisa muito mais importante fora perdida, e ia ficar cada vez pior a cada dia se se permitisse que aquilo continuasse?

Eles sabem melhor das coisas que você, são adultos.

Jake considerou aquilo besteira. Se ser adulto realmente significava saber melhor das coisas, por que seu pai continuava fumando três maços de cigarro sem filtro por dia e cheirando cocaína até o nariz sangrar? Se ser adulto dava à gente algum tipo de conhecimento melhor das coisas certas a fazer, como sua mãe dormia com o massagista, que tinha enormes bíceps e nada de cérebro? Por que nenhum dos dois notou, quando a primavera de 1997 avançava para o verão, que o filho (que tinha um apelido — Bama — conhecido apenas da governanta) estava pirando, porra?

Não é a mesma coisa.

Mas e se fosse? E se Roland e Eddie estivessem tão próximos do problema que não conseguissem ver a verdade?

Qual é a verdade? Como você compreende a verdade?

Que eles não eram mais ka-tet, esta era a sua compreensão da verdade.

Que foi que Roland dissera a Callahan, naquela primeira confabulação? Nós somos redondos e rolamos quando rolamos. Isto era verdade então, mas Jake não achava que fosse verdade agora. Lembrou-se de uma velha piada que as pessoas lhe contavam quando tinham uma explosão: Bem, é apenas chato no fundo. É o que eles eram agora, chatos no fundo. Não mais um verdadeiro ka-tet — como poderiam ser, quando guardavam segredos? E seriam Mia e o bebê crescendo em sua barriga os únicos segredos? Havia mais alguma coisa, também. Uma coisa que Roland estava escondendo não apenas de Susannah, mas de todos eles.

Podemos derrotar os Lobos se ficarmos juntos, pensou. Se formos ka-tet. Mas não como estamos agora. Não aqui nem em Nova York. Simplesmente não acredito nisso.

Outro pensamento ocorreu-lhe na cola desse, tão terrível que ele primeiro tentou afastá-lo. Só que percebeu que não podia afastá-lo. Por menos que quisesse, era uma idéia que tinha de ser levada em consideração.

Eu poderia resolver o problema sozinho. Contar eu mesmo a ela.

E depois o quê? Que diria a Roland? Como lhe explicaria?

Não saberia explicar. Não haveria explicação que eu pudesse dar ou que ele pudesse escutar. A única coisa que eu poderia fazer...

Lembrou-se da história de Roland do dia em que ele enfrentara Cort. O castigado e velho fidalgo com o bastão, o garoto destreinado com seu falcão. Se ele, Jake, fosse de encontro à decisão de Roland e dissesse a Susannah o que lhe fora ocultado até então, isto levaria diretamente à sua própria prova de maturidade.

E eu não estou pronto. Talvez Roland estivesse — mal —, mas não sou ele. Ninguém é. Ele é melhor que eu, e eu seria mandado para o Trovão sozinho. Oi tentaria ir comigo, mas eu não poderia permitir. Porque lá é a morte. Talvez para todo nosso ka-tet, certamente para um garoto sozinho.

E no entanto os segredos que Roland guardava, aquilo era errado. E daí? Iam se reunir mais uma vez para ouvir o resto da história de Callahan e — talvez — tratar da coisa na igreja de Callahan. Que deveria fazer então?

Conversar com ele. Convencê-lo de que está fazendo a coisa errada.

Muito bem. Podia fazer isso. Ia ser difícil, mas podia fazê-lo. Deveria falar também com Eddie? Jake achou que não. Incluir Eddie complicaria ainda mais as coisas. Deixe Roland decidir o que contar a Eddie. Roland, afinal, era o dinh.

A aba da tenda adejou e Jake levou a mão ao lado, onde penderia a Ruger se ele estivesse usando a muleta de estivador. Não ali, claro, mas daquela vez estava tudo bem. Foi só Oi, cutucando o focinho sob a aba e levantando-a para conseguir enfiar a cabeça na tenda.

Jake estendeu a mão para acariciar a cabeça do trapalhão. Oi tomou-a delicadamente nos dentes e puxou-a. Jake acompanhou-o de muito bom grado; sentiu como se o sono estivesse a mil quilômetros de distância.

Fora da tenda, o mundo era um estudo de severos pretos e brancos. Uma ladeira cravejada de pedras descia até o rio, que era largo e raso naquele ponto. A lua incandescia-se como uma lâmpada. Jake viu dois vultos na praia rochosa e imobilizou-se. Ao fazê-lo, a lua escondeu-se atrás de uma nuvem e o mundo escureceu. As mandíbulas de Oi fecharam-se mais uma vez em sua mão e o puxaram para a frente. Jake foi com ele, encontrou uma depressão de um metro e meio e agachou-se. Oi ficou acima e logo atrás dele, ofegando como um motorzinho.

A lua saiu de trás da nuvem. O mundo mais uma vez se iluminou. Oi levara-o a um naco de granito que aflorava da terra como a proa de um navio enterrado. Era um bom esconderijo. Ele espiou em volta e o rio embaixo.

Não havia a menor dúvida sobre um deles; a altura e o luar refletindo no metal bastaram para identificar Andy, o Robô Mensageiro (Multifuncional). O outro, contudo... quem era o outro? Jake franziu os olhos, mas a princípio não soube dizer. Eram no mínimo 200 metros de seu esconderijo até a margem do rio embaixo, e embora o luar fosse brilhante, também era enganoso. O homem ergueu o rosto para olhar Andy, e o luar caiu-lhe em cheio, mas as feições pareciam nadar. Só que o sujeito usava... ele reconheceu o chapéu...

Você pode ter-se enganado.

Então o homem virou ligeiramente a cabeça, o luar tirou dois reflexos dele, e Jake teve certeza. Embora talvez houvesse montes de caubóis em Calla que usavam aquele chapéu como aquele lá longe, ele até então só vira um único cara de óculos.

Certo, é o pai de Benny. E daí? Nem todos os pais são como o meu, alguns deles se preocupam com os filhos, sobretudo se já perderam um, como o Sr. Slightman perdeu a irmã gêmea de Benny. Para o pulmão quente, disse Benny, o que na certa queria dizer pneumonia. Seis anos atrás. Assim, viemos para cá acampar, e o Sr. Slightman mandou Andy ficar de olho em nós, só que ele acorda no meio da noite e decide inspecionar sozinho. Talvez tenha tido seu próprio pesadelo.

Talvez, mas isso não explicava por que Andy e o Sr. Slightman confabulavam ali embaixo junto ao rio, explicava?

Bem, talvez ele receasse nos acordar. Talvez venha verificar a tenda agora — neste caso é melhor eu voltar lá para dentro — ou talvez ele aceite a palavra de Andy, de que estamos muito bem, e volte para Rocking B.

A lua entrou atrás de outra nuvem, e Jake achou melhor ficar ali onde se achava até ela tornar a sair. Quando o fez, o que ele viu encheu-o da mesma consternação que sentira no sonho, seguindo Mia pelo castelo deserto. Por um momento, agarrou-se à possibilidade de que aquilo era um sonho, que ele simplesmente passara de um ao outro, mas a sensação do cascalho picando-lhe os pés e o ruído ofegante de Oi no ouvido nada tinham de onírico.

O Sr. Slightman não vinha subindo para onde os meninos haviam armado a tenda, e tampouco se encaminhava de volta para a Rocking B (embora Andy sim, em largos passos pela margem). Não, o pai de Benny chapinhava para o outro lado do rio. Dirigia-se para leste.

Talvez tivesse um bom motivo de rumar para lá. Um motivo perfeitamente bom.

É mesmo? Que motivo perfeitamente bom poderia ser? Não era mais Calla além dali, Jake sabia disso. Além dali havia apenas terreno inculto e deserto, um pára-choque entre as fronteiras e o reino da morte que era o Trovão.

Primeiro alguma coisa errada com Susannah — sua amiga Susannah. Agora, parecia, alguma coisa errada com o pai de seu novo amigo. Jake percebeu que começara a roer as unhas, hábito que adquirira nos últimos anos no Colégio Piper, e obrigou-se a parar.

— Isso não é justo, você sabe — disse a Oi. — Não é nada justo.

Oi lambeu-lhe a orelha. Jake virou-se, abraçou o trapalhão e apertou o rosto no viçoso pêlo do amigo. O trapalhão manteve-se na posição, paciente, aceitando isso. Passado algum tempo, Jake impeliu-se ao terreno mais alto onde se encontrava Oi. Sentia-se um pouco melhor, um pouco mais confortado.

A lua entrou atrás de outra nuvem e o mundo escureceu. Jake ficou onde estava. Oi gemeu baixinho.

— Só um minuto — o garoto murmurou.

A lua saiu mais uma vez. Jake olhava intensamente o lugar onde Andy e Ben Slightman haviam confabulado, marcando-o na memória. Havia uma grande pedra redonda com a superfície brilhante. A água trouxera um tronco morto com ela. Jake teve total certeza de que poderia encontrar de novo aquele local, mesmo que a tenda de Benny fosse levada embora.

Você vai contar a Roland?

— Eu não sei — murmurou.

— Sei — disse Oi, do lado de seu tornozelo, fazendo Jake saltar um pouco. Ou isso foi não? Que fora que o trapalhão realmente dissera?

Você está louco?

Ele não estava. Houve um tempo em que pensara que estava louco, louco ou chegando lá, numa porra de rapidez, mas não pensava mais. E às vezes Oi lia mesmo sua mente, sabia disso.

Jake voltou para dentro da tenda. Benny continuava dormindo pesado. Jake olhou para o outro garoto — mais velho em anos porém mais moço em muitas das formas que importavam —, durante vários segundos, mordendo o lábio. Não queria meter o pai de Benny em apuros. Não, a não ser que precisasse fazê-lo.

Jake deitou-se e puxou as mantas até o queixo. Jamais na vida sentira-se tão indeciso sobre tantas coisas, e teve vontade de chorar. O dia já começara a clarear antes que ele conseguisse voltar a dormir.

 

CAPÍTULO 8

 

O Armazém de Took;

A Porta Desconhecida

 

1

Durante a primeira meia hora após deixarem a Rocking B, Roland e Jake cavalgaram para as pequenas propriedades a leste em silêncio, os cavalos seguindo sem pressa lado a lado, em perfeita boa camaradagem. Roland sabia que Jake tinha alguma coisa séria em mente; era visível por sua expressão angustiada. Mas o pistoleiro mesmo assim continuou assombrado quando Jake enroscou o punho, botou-o no lado esquerdo do peito e disse:

— Roland, antes que Eddie e Susannah se juntem a nós, posso falar com você dan-dinh?

Permita que eu abra meu coração para seu comando. Mas o sentido implícito era mais complicado que isso, e antigo — remontando a séculos antes de Arthur Eld, ou assim afirmara Vannay. Significava apresentar ao seu dinh algum insolúvel problema emocional, em geral tendo a ver com um caso amoroso. Quando alguém fazia isso, aceitava fazer exatamente o que o dinh sugeria, logo e sem questionar. Mas certamente Jake Chambers não tinha problemas amorosos — não, a não ser que se houvesse apaixonado pela maravilhosa Francine Tavery, era isso — e, acima de tudo, como soubera ele daquela frase?

Enquanto isso, Jake olhava-o com uma solenidade de olhos arregalados e face pálida que Roland não gostava muito.

— Dan-dinh, onde ouviu isto, Jake?

— Jamais ouvi. Captei da sua mente, acho. — Jake apressou-se a acrescentar: — Não fico bisbilhotando aí dentro, nem nada desse tipo, mas às vezes a coisa simplesmente vem. A maior parte não é muito importante, eu acho, mas às vezes são frases.

— Você as capta como um corvo pega as coisas brilhantes que vê em sua asa.

— Acho que sim, é isso.

— Quais outras? Diga algumas.

Jake parecia sem graça.

— Não me lembro de muitas. Dan-dinh, quer dizer que eu abro meu coração para você e aceito fazer o que mandar.

Era mais complicado, mas o garoto captara a essência. Roland assentiu com a cabeça. O sol tocava-lhe gostoso no rosto enquanto seguiam juntos. A exibição de Margaret Eisenhart com o prato o acalmara, ele tivera um bom encontro com o pai da dama-sai depois e dormira muito bem pela primeira vez em várias noites.

— Sim.

— Vamos ver. Tem um diz-que-me-diz que quer dizer, eu acho, fofocar sobre alguém que a gente não devia fofocar. Não me sai da cabeça, porque o som da fofoca é: “Diz-que-me-diz.” — Jake pôs a mão em concha no ouvido.

Roland sorriu. Era na verdade dizequemei, mas Jake, claro, a pegara foneticamente. Era impressionante mesmo. Ele lembrou-se de guardar seus pensamentos profundos cuidadosamente no futuro. Havia meios de fazê-lo, graças aos deuses.

— Há uma palavra dash-dinh que quer dizer uma espécie de líder religioso. Você estava pensando nela esta manhã, acho, por causa... é por causa do velho manni? Ele é um dash-dinh?

Roland assentiu.

— Tem muito a ver, sim. E o nome dele, Jake? — O pistoleiro concentrou-se no nome. — Pode ver o nome dele em minha mente?

— Claro, Henchick — disse Jake, quase de chofre, e quase de improviso. — Você conversou com ele... quando? Tarde na noite de ontem?

— Foi.

Não estava se concentrando, e se sentiria melhor se Jake não o soubesse. Mas o garoto era forte no toque, e Roland acreditou nele quando disse que não estava bisbilhotando. Pelo menos de propósito.

— A Sra. Eisenhart acha que o odeia, mas você acha que ela só tem medo dele.

— Sim — disse Roland. — Você é forte no toque. Muito mais do que Alain já foi, e muito mais que era antes. É por causa da rosa, não?

Jake balançou a cabeça. A rosa, sim. Cavalgaram em silêncio mais um pouco, os cascos dos cavalos levantando um fino pó. Apesar do sol, o dia estava frio, prometendo um verdadeiro outono.

— Está bem, Jake. Fale dan-dinh como queira, e eu agradeço por sua confiança na pouca sabedoria que eu tenho.

Mas pelo espaço de quase dois minutos Jake não disse nada. Roland bisbilhotou-o, tentando penetrar na cabeça do garoto como ele entrara na sua (e com tanta facilidade), mas não havia nada. Nada em...

Mas havia, sim. Havia um rato... a contorcer-se, empalado em alguma coisa...

— Onde fica o castelo ao qual ela vai? — perguntou Jake. — Você sabe?

Roland não conseguiu ocultar sua surpresa. Espanto, na verdade. E imaginou que também havia um elemento de culpa aí. De repente, entendeu... bem, não tudo, mas muito.

— Não existe castelo, e nunca existiu — disse a Jake. — É um lugar aonde ela vai na mente, provavelmente criado das histórias que leu e também das que eu contei junto à fogueira do acampamento. Ela vai lá para não ter de ver o que realmente come. O que o bebê necessita.

— Eu a vi comendo um leitão assado — disse Jake. — Só que antes de chegar um rato estava comendo-o. Ela o varou com um espeto de churrasco.

— Onde você viu isso?

— No castelo. — Fez uma pausa. — No sonho dela. Eu estava no sonho dela.

— Ela o viu lá?

Os olhos azuis do pistoleiro faiscaram, quase em chamas. O cavalo sentiu uma mudança, pois parou. O mesmo fez o de Jake. Ali estavam na estrada do Leste, a pouco mais de um quilômetro do lugar onde a Vermelha Molly Doolin matara outrora um Lobo vindo do Trovão. Ali estavam, encarando um ao outro.

— Não — disse Jake. — Ela não me viu.

Roland pensava na noite em que a seguira até o pântano. Soubera que ela também ia a outro lugar em sua mente até aí, sentira, mas não exatamente aonde. Quaisquer visões que lhe tirara da mente haviam sido escuras. Agora soube. E também soube mais alguma coisa: Jake estava angustiado pela decisão de seu dinh de deixar Susannah seguir esse caminho. E talvez tivesse razão de estar transtornado. Mas...

— Não foi Susannah quem você viu, Jake.

— Eu sei. É aquela que ainda tem pernas. Diz que se chama Mia. Está grávida e morta de medo.

Roland disse:

— Eu gostaria que me falasse dan-dinh, dissesse tudo o que viu no sonho e tudo o que o perturbou ao acordar. Então eu lhe darei a sabedoria de meu coração, a pouca que eu tenho.

— Você não vai... Roland, você não vai ralhar comigo?

Desta vez, Roland não conseguiu esconder o espanto.

— Não, Jake. Longe disso. Talvez eu lhe deva pedir pra não ralhar comigo.

O garoto deu um sorriso pálido. Os cavalos retomaram o passo, avançando desta vez um pouco mais rápido, como se soubessem que haviam estado quase em apuros e quisessem deixar o lugar disso para trás.

 

2

Jake não tinha total certeza do quanto se passava em sua mente até começar realmente a falar. Acordara todo indeciso mais uma vez, em relação ao que dizer a Roland sobre Andy e Slightman pai. Por fim, aproveitou a deixa do que Roland acabara de dizer — Diga tudo o que viu no sonho e tudo o que o perturbou ao acordar — e deixou inteiramente de fora o encontro na beira do rio. Na verdade, essa parte parecia-lhe muito menos importante nessa manhã.

Contou a Roland que Mia descera correndo a escadaria, e o medo dela quando vira que não sobrara comida na sala de jantar nem no salão de banquete, ou fosse lá o que era. Em seguida a cozinha. Encontrara o assado com o rato a devorá-lo. Matara o competidor. Empanturrara-se com o prêmio. Depois ele acordara com os tremores e tentara não gritar.

Hesitou e lançou uma olhada a Roland, que fez seu gesto impaciente de girar o dedo... ande logo, rápido, termine.

Bem, Jake pensou, ele prometeu não ralhar comigo e mantém a palavra.

Era verdade, mas continuava sem condições para contar que pensara em ele mesmo dar com a língua nos dentes sobre a história a Susannah. Articulou, porém, seu principal medo: que o fato de os três saberem e um não rompeu seu ka-tet logo quando precisava ser mais firme que nunca. Chegou a contar a Roland a velha anedota, o cara com um megafone dizendo: É apenas chato no fundo. Não esperava que Roland risse, mas suas expectativas foram recebidas admiravelmente nesse aspecto. Sentiu que Roland ficou em certa medida envergonhado, e julgou isso assustador. Tinha a idéia de que vergonha era inteiramente reservada a pessoas que não sabiam o que faziam.

— E até ontem à noite foi pior que três por dentro e um por fora — disse Jake. — Porque vocês estavam tentando me manter de fora, também. Não estavam?

— Não — disse Roland.

— Não?

— Simplesmente deixei as coisas como estavam. Contei a Eddie porque temi que, como estavam dividindo um quarto, ele fosse descobrir as perambulações dela e tentar acordá-la. Temi o que poderia acontecer aos dois se ele fizesse isso.

— Por que não simplesmente contar a ela?

Roland deu um suspiro.

— Escute, Jake. Cort cuidou do nosso treinamento físico quando éramos meninos. Vannay cuidou do nosso treinamento mental. Os dois tentaram nos ensinar o que sabiam de ética. Mas, em Gilead, nossos pais eram responsáveis por nos ensinar sobre ka. E como o pai de cada criança era diferente, cada um de nós saiu da infância com uma idéia ligeiramente diferente do que é ka e o que faz. Você entende?

Eu entendo que está evitando uma pergunta muito simples, pensou Jake, mas assentiu.

— Meu pai me falou um bocado sobre o assunto, e quase tudo deixou a minha mente, mas uma coisa continua sendo muito clara. Ele disse que quando você está inseguro, deve deixar o ka resolver sozinho o problema.

— Então é ka. — Jake pareceu desapontado. — Roland, isso não é muito útil.

Roland percebeu preocupação na voz do garoto, mas foi a decepção que o atingiu. Virou-se na sela, abriu a boca, compreendeu que alguma justificativa sem valor ia sair aos borbotões e fechou-a de novo. Em vez de justificar-se, disse a verdade.

— Eu não sei o que fazer. Gostaria de me dizer?

O rosto do garoto enrubesceu com um alarmante matiz de vermelho, e Roland percebeu que Jake achou que ele estava sendo sarcástico, em nome dos deuses. Que ficara furioso. Essa falta de entendimento era assustadora. Ele tem razão, pensou o pistoleiro. Estamos rompidos. Deus nos ajude.

— Que não seja assim — disse Roland. — Ouça, eu lhe peço... preste bem atenção. Em Calla Bryn Sturgis, os Lobos estão chegando. Em Nova York, Balazar e seus “cavalheiros” estão chegando. Os dois grupos hão de chegar em breve. Será que o bebê de Susannah vai esperar até que sejam resolvidas essas questões, de um ou de outro jeito? Eu não sei.

— Ela nem parece grávida — disse Jake, vagamente. Parte da vermelhidão deixara o seu rosto, mas ele continuava cabisbaixo.

— Não — disse Roland. — Não parece. Os seios dela estão um pouco mais cheios, talvez os quadris, também, mas são apenas sinais. E portanto eu tenho alguma razão de estar esperançoso. Preciso estar, e você também. Pois, para culminar, os Lobos e o negócio da rosa em seu mundo, há a questão do Treze Preto e como lidar com isso. Eu acho que sei, espero que saiba, mas preciso falar mais uma vez com Henchick. E precisamos ouvir o resto da história de père Callahan. Pensou em dizer por conta própria alguma coisa a Susannah?

— Eu... — Jake mordeu o lábio e calou-se.

— Vejo que sim. Tire esta idéia da cabeça. Se alguma coisa além da morte pudesse romper nossa camaradagem, dizer a ela sem a minha sanção faria isso, Jake. Eu sou seu dinh.

— Eu sei disto — Jake quase gritou. — Não acha que eu sei disto?

— E você acha que eu gosto disto? — perguntou Roland, quase igualmente acalorado. — Não vê como era muito mais fácil tudo isso antes... — Interrompeu-se, apavorado com o que quase dissera.

— Antes de chegarmos — disse Jake, a voz categórica. — Bem, sabe de uma coisa? Nós não pedimos pra vir, nenhum de nós. — E eu não lhe pedi que me jogasse no escuro, também. Que me matasse.

— Jake... — O pistoleiro deu um suspiro, ergueu as mãos, deixou-as cair mais uma vez nas coxas. Logo adiante ficava a curva que os levaria à pequena propriedade dos Jaffords, onde Eddie e Susannah estariam à espera deles. — Só posso dizer de novo o que eu já disse: quando não se está seguro do ka, é melhor deixar o ka resolver sozinho. Se a gente interfere, sempre faz a coisa errada.

— Isso parece o que o pessoal lá no Reino de Nova York chama de tirar o seu da reta, Roland. Uma resposta que não é uma resposta, apenas um meio de fazer as pessoas seguirem adiante com o que a gente quer.

Roland pensou. Apertou os lábios.

— Você me pediu para comandar seu coração.

Jake assentiu com a cabeça cautelosamente.

— Então eis as duas coisas que digo a você dan-dinh. Primeiro, digo que nós três, você, eu e Eddie, vamos falar an-tet a Susannah antes de os Lobos chegarem, e dizer a ela tudo que sabemos. Que ela está grávida, que seu bebê é quase com toda a certeza o filho de um demônio e que ela criou uma mulher chamada Mia para ser mãe dessa criança. Segundo, eu digo que não discutiremos mais isto até chegar a hora de dizer a ela.

Jake digeriu essas coisas. Ao fazê-lo, seu rosto foi aos poucos se iluminando de alívio.

— Fala pra valer?

— Sim. — Roland tentou não demonstrar o quanto a pergunta o magoou e enfureceu. Entendeu, afinal, por que o garoto perguntara. — Eu prometo e juro a minha promessa. Faz bem a você?

— Sim! Faz muito bem a mim!

Roland assentiu.

— Não faço isso por estar convencido de que é o certo, mas porque você está, Jake. Eu...

— Espere um segundo, eh, espere — disse Jake, o sorriso desfazendo-se. — Não tente empurrar tudo isso pra mim. Eu nunca...

— Me poupe tal absurdo. — Roland usou um tom seco e distante que Jake raras vezes ouvira. — Você pediu parte da decisão de um homem. Eu permito, preciso permitir, porque ka decretou que você assuma a parte de um homem nas grandes questões. Você abriu essa porta quando questionou meu julgamento. Nega isso?

Jake passara de pálido para corado e para pálido mais uma vez. Parecia terrivelmente assustado, e abanou a cabeça sem dizer uma única palavra. Ah, deuses, pensou Roland, eu odeio cada parte disso. Fede como a merda de um morto.

Num tom mais baixo, disse:

— Não, você não pediu para ser trazido aqui. Nem eu desejei roubá-lo de sua infância. Contudo, aqui estamos, e ka se afasta para um canto e ri. Precisamos fazer como ele quer ou pagar o preço.

Jake abaixou a cabeça e disse duas palavras num sussurro trêmulo:

— Eu sei.

— Você acredita que Susannah deve saber. Eu, por outro lado, não sei o que fazer... nesta questão, perdi a bússola. Quando um sabe e o outro não, o que não sabe precisa abaixar a cabeça e o que sabe precisa assumir a responsabilidade. Você me entende, Jake?

— Sim — sussurrou Jake, e girou a mão levando-a à testa.

— Bom. Vamos deixar esta parte e agradecermos. Você é forte no toque.

— Quisera eu não ser! — desabafou Jake.

— Contudo, você pode tocá-la?

— Sim. Eu não bisbilhoto, nem o íntimo dela nem o de nenhum de vocês, mas às vezes a toco, sim. Pego trechinhos de músicas em que ela está pensando, ou lembranças do apartamento dela de Nova York. Ela sente saudade dele. Uma vez, pensou: “Eu gostaria de uma chance de ler aquele novo romance de Allen Drury que veio do Clube do Livro.” Acho que Allen Drury deve ser um escritor famoso do seu quando.

— Coisas de superfície, em outros mundos.

— Sim.

— Mas você podia ir mais fundo.

— Eu na certa poderia vê-la se despir, também — disse Jake, abatido —, mas isso não seria direito.

— Nessas circunstâncias, é direito, Jake. Pense nela como um poço onde você precisa ir todo dia e retirar um único balde para ter certeza de que a água continua limpa. Quero saber se ela muda. Em particular, quero saber se está planejando se mandar.

Jake arregalou os olhos.

— Se mandar? Se mandar pra onde?

Roland abanou a cabeça.

— Eu não sei. Pra onde vai uma gata despejar sua ninhada? Num armário? Embaixo de um celeiro?

— E se contarmos a ela e a outra assumir o comando? E se Mia se mandar, Roland, e arrastar Susannah com ela?

Roland não respondeu. Era exatamente isso que temia, e Jake era inteligente demais para sabê-lo.

Olhou-o com certo ressentimento compreensível — mas também com aceitação.

— Uma vez por dia. Não mais que isso.

— Mais se você sentir alguma mudança.

— Tudo bem — disse Jake. — Odeio isso, mas eu pedi seu dan-dinh. Imagino que você me ganhou.

— Isso não é uma queda de braço, Jake. Nem um jogo.

— Eu sei. — Jake abanou a cabeça. — A sensação é de que você virou a coisa toda pra cima de mim de algum modo, mas tudo bem.

Eu virei a coisa toda pra cima de você, pensou Roland. Imaginou que era bom que nenhum deles soubesse como ele estava perdido naquele momento, como estava ausente a intuição que o acompanhara por tantas situações difíceis. Eu o fiz... mas só porque tive de fazer.

— Vamos ficar calados agora, mas contamos a ela antes da chegada dos Lobos — disse Jake. — Antes de termos de lutar. E esse o trato?

Roland assentiu com a cabeça.

— Se tivermos de lutar com Balazar primeiro, no outro mundo, ainda assim precisamos contar a ela antes. Certo?

— Sim — disse Roland. — Tudo bem.

— Eu detesto isso — disse Jake mal-humorado.

— Eu também.