A Torre Negra V: Lobos de Calla
Parte Dois
CONTANDO HISTÓRIAS
CAPÍTULO 1
O Pavilhão
1
Se alguma coisa no passeio a cavalo por Calla Bryn Sturgis surpreendeu Eddie, foram a facilidade e a naturalidade com que ele se adaptou a montaria. Ao contrário de Susannah e Jake, que haviam cavalgado em acampamentos de verão, ele jamais sequer acariciara um cavalo. Quando ouvira o pocotó dos cascos a se aproximar na manha apos o que julgou ser o Todash Número Dois, sentira uma pontada de pavor. Não era andar a cavalo que temia nem os próprios animais, mas a possibilidade — diabos, a forte probabilidade — de parecer um idiota. Que tipo de pistoleiro jamais andara a cavalo?
Mas ainda assim encontrou tempo para trocar uma palavra com Roland, antes de os animais chegarem.
— Não foi a mesma coisa ontem a noite. Roland ergueu as sobrancelhas.
— Não foi 19 ontem à noite.
— Que quer dizer com isto?
— Não sei o que quero dizer.
— Eu também não sei — meteu-se Jake —, mas ele tem razão. Ontem à noite Nova York parecia a coisa verdadeira. Quer dizer, sei que entramos em todash, mas mesmo assim...
— Verdadeira — meditou Roland.
E Jake, sorrindo, disse:
— Verdadeira como as rosas.
2
Os Slightman encabeçavam o grupo de Calla desta vez, cada um trazendo duas montarias puxadas por longos cabrestos. Não havia nada de muito intimidador nos cavalos de Calla Bryn Sturgis, sem dúvida não eram muito parecidos com os que Eddie imaginara galopando pela Baixa no relato de Roland sobre os antigos mejis. Aqueles animais eram criaturas atarracadas, pernas robustas, com pelos desgrenhados e olhos grandes, inteligentes. Embora maiores que os potros de Shetland, nada tinham a ver com os garanhões de olhos ferozes que estivera esperando. Não apenas haviam sido seladas, mas cada uma das montarias trazia amarrado um conveniente colchonete.
Ao se encaminhar para o seu (não precisou que lhe dissessem qual era, ele sabia: o ruão, de pêlo branco malhado com manchas escuras e arredondadas), todas as suas dúvidas e receios se desfizeram. Eddie fez uma única pergunta, dirigida a Ben Slightman filho, após examinar os estribos.
— Estes vão ficar curtos demais para mim, Ben... pode me mostrar como encompridar?
Quando o jovem desmontou para fazê-lo ele mesmo, Eddie abanou a cabeça.
— É melhor que eu aprenda — disse, sem o menor constrangimento.
Enquanto o jovem lhe mostrava, percebeu que na verdade não precisava da lição. Viu como se fazia quase no momento mesmo em que Benny deslizou os dedos pelo estribo, revelando o tirante de couro atrás. Não se tratava de conhecimento oculto, inconsciente, e tampouco lhe pareceu uma coisa sobrenatural. Foi só isso, o cavalo uma realidade quente e fragrante diante de si, e ele entendeu como tudo funcionava. Só tivera uma única experiência exatamente igual aquela desde que chegara ao Mundo Médio, e fora a primeira vez em que amarrara uma das armas de Roland.
— Precisa de ajuda, doçura? — perguntou Susannah.
— Só me levante se eu cair do outro lado — grunhiu ele, mas claro que não fez nada disso. O cavalo manteve-se firme, oscilando o mínimo quando Eddie enfiou o pé no estribo e virou-se na sela preta simples feita na fazenda de gado.
Jake perguntou a Benny se tinha um poncho. O filho do capataz olhou em dúvida o céu nublado acima.
— Não acho mesmo que vá chover — respondeu. — É quase sempre assim durante os dias na época da colheita...
— Eu o quero para Oi.
Perfeitamente calmo, perfeitamente seguro. Ele se sente exatamente como eu, pensou Eddie. Como se houvesse feito isso milhares de vezes antes.
O rapazola retirou um impermeável enrolado de um de seus alforjes e entregou-o a Jake, que lhe agradeceu, vestiu-o e depois acomodou Oi no espaçoso bolso na frente, como uma bolsa de canguru. Tampouco houve sequer um protesto do trapalhão. Eddie pensou: Se eu dissesse a Jake que esperava que Oi trotasse atrás de nós, como um cão pastor, ele teria perguntado: “Ele sempre viaja assim?” Não... mas poderia pensar nisso.
Ao partirem, Eddie percebeu o que tudo aquilo lhe lembrava: as histórias que ouvira de reencarnação. Tentara afastar a idéia, resgatar o garoto prático, realista e resoluto do Brooklyn, criado a sombra de Henry Dean, e não conseguira muito seu intento. A idéia de reencarnação talvez fosse menos aflitiva se lhe houvesse ocorrido de cara, mas não. O que pensou foi que não podia ser da linhagem de Roland, simplesmente não podia. A não ser que Arthur Eld tivesse a certa altura parado perto de Co-Op City. Talvez para uma bala de canela e uma rosquinha frita de Dahlie Lundgren. Que burrice projetar uma idéia dessas pela capacidade de cavalgar sem aulas um cavalo obviamente dócil. Mas a idéia retornara-lhe em momentos ocasionais durante todo o dia, e o acompanhara até no sono na noite anterior: o Eld. A linhagem do Eld.
3
Almoçaram ao meio-dia na cela, e enquanto comiam sanduíches e tomavam café frio, Jake afrouxou o passo de sua montaria para ficar junto a de Roland. Do bolso do poncho, Oi espichou a cabeça com olhos brilhantes para o pistoleiro. Jake dava de comer ao trapalhão pedaços de seu sanduíche, e viam-se migalhas presas nos bigodes de Oi.
— Roland, posso falar com você como dinh? — Jake parecia meio sem graça.
— Claro. — Roland tomou o café e olhou para o garoto, interessado, balançando satisfeito para a frente e para trás na sela.
— Ben... isto é, os dois Slightman, mas principalmente o rapaz... perguntaram se eu gostaria de passar a noite com eles. La na Rocking B.
— Você quer ir? — perguntou Roland.
As bochechas do garoto se ruborizaram.
— Bem, eu achei que se vocês estivessem na cidade com o Velho e eu lá no campo... no sul da cidade, entende... teríamos duas imagens diferentes do lugar. Meu pai diz que a gente não vê nenhuma coisa muito bem se só a olha de um ponto de vista.
— É a pura verdade — disse Roland, e desejou que nem sua voz nem sua expressão traíssem a tristeza e o remorso que de repente sentiu.
Ali estava um garoto que agora se sentia envergonhado por ser menino. Fizera um amigo, e o amigo o convidara para hospedar-se na casa dele, como às vezes fazem os amigos. Benny havia-lhe sem a menor dúvida prometido que ele poderia ajudar na alimentação dos animais, e talvez atirar com seu arco (ou bah, se este atira raios em vez de flechas). Haveria lugares que Benny gostaria de partilhar, lugares secretos a que talvez tivesse ido com sua irmã gêmea em outros tempos. Uma plataforma na árvore, quem sabe, ou um lago de peixes nos juncos especial para ele, ou um trecho da margem do rio onde se dizia que piratas de Eld haviam enterrado ouro e jóias. Esses tipos de lugares aonde meninos vão. Mas grande parte de Jake Chambers se sentia agora envergonhado por querer fazer essas coisas. Era a parte que fora despojada pelo zelador da Mansão em Dutch Hill, por Gasher, pelo Homem do Tiquetaque. E pelo próprio Roland, claro. Se dissesse não ao pedido de Jake agora — mesmo com o mínimo traço de indulgência na voz, por exemplo —, o garoto mudaria de idéia.
O garoto. O pistoleiro se deu conta do quanto gostaria de continuar chamando Jake assim, e de até que ponto o tempo para fazer isso ia ser favorável. Sentia um mau pressentimento sobre Calla Bryn Sturgis.
— Vá com eles depois que jantarem conosco no Pavilhão esta noite — disse Roland. — Vá e passe bem, como dizem por aqui.
— Tem certeza? Porque se achar que poderia precisar de mim...
— O ditado de seu pai é dos bons. Meu velho mestre...
— Cort ou Vannay?
— Cort. Ele nos dizia que um zarolho vê plano. São necessários dois olhos, meio separados um do outro, para ver as coisas como realmente são. Portanto, sim. Vá com eles. Faça do menino seu amigo, se isso parece natural. Ele parece bastante agradável.
— Ié — disse brevemente Jake. Mas o rubor descia-lhe mais uma vez pela face. Roland ficou feliz ao ver isso.
— Passe o dia de amanhã com eles. E os amigos dele, se tiver um bando com quem costuma andar.
Jake fez que não com a cabeça.
— Fica longe no campo. Ben disse que Eisenhart tem muita ajuda no lugar, e ha alguns garotos de sua idade, mas não o deixam brincar com eles. Porque é filho do capataz, imagino.
Roland assentiu. Isso não o surpreendeu.
— Vão-lhe oferecer aquela cerveja graf esta noite no Pavilhão. Preciso lhe dizer que vai ser chá gelado assim que fizermos o primeiro brinde?
Jake abanou a cabeça.
Roland tocou a têmpora, os lábios, o canto de um olho e mais uma vez os lábios.
— Cabeça clara. Boca fechada. Veja muito. Fale pouco.
Jake deu-lhe um breve sorriso e o polegar erguido.
— E vocês?
— Nós três vamos nos hospedar com o padre esta noite. Espero que amanhã a gente talvez possa ouvir a história dele.
— E ver... — Haviam ficado um pouco atrás dos outros, mas mesmo assim Jake baixou a voz. — Ver a coisa de que ele nos falou?
— Isto eu não sei — respondeu Roland. — Depois de amanhã, vamos os três partir a cavalo até a Rocking B. Talvez ao meio-dia nos encontraremos com sai Eisenhart e tenhamos uma pequena confabulação. Depois, durante os próximos dias, nos quatro vamos dar uma olhada nesta cidade, por dentro e por fora. Se tudo correr bem com você lá na fazenda, Jake, cuidarei para fique lá durante o tempo que quiser e que eles o recebam.
— Verdade? — Embora conservasse a expressão composta (enquanto o ouvia), o pistoleiro achou que Jake ficou muito satisfeito.
— Sim. Pelo que deduzo... o que percebo... há três grandes problemas em Calla Bryn Sturgis. Overholser é um deles. Took, o lojista, outro. O terceiro e Eisenhart. Vou querer saber com muito interesse o que você acha dele.
— Vai saber — disse Jake. — E obrigado-sai.
Deu três tapas na garganta. Depois sua seriedade desfez-se num largo sorriso. Um sorriso de menino. Incitou o cavalo a trotar, avançando para contar ao novo amigo que sim, ia poder passar a noite, sim, ia poder ficar e brincar.
4
— Nossa mãe! — exclamou Eddie.
As palavras saíram baixas e lentas, quase a exclamação de uma personagem de quadrinhos assombrada. Mas apos quase dois meses nas matas a paisagem justificava uma exclamação. E havia o elemento surpresa. Num momento, vinham apenas fazendo pocotó pela trilha da floresta, sobretudo a dois (Overholser cavalgava sozinho a frente do grupo, Roland, solitário, seguia-o atrás). No seguinte, as árvores haviam desaparecido e a própria terra se afastado para o norte, sul e leste. Foram assim presenteados com uma repentina vista, de tirar o fôlego e afundar o estômago, da cidade cujas crianças eles deviam salvar.
Mas a principio Eddie não tinha de modo algum olhos para o que se abria diretamente abaixo dele, e quando olhou para Susannah e Jake, viu que eles também olhavam além de Calla. Eddie não precisou desviar o olhar para Roland, para saber que também ele tinha a vista cravada na frente. Definição de um errante, pensou Eddie, um sujeito que esta sempre olhando além.
— Sim, uma belíssima paisagem, damos graças aos deuses — comentou Overholser, complacente; e, então, com uma olhada a Callahan: — Ao Homem Jesus, também, claro, todos os deuses são um só quando se trata de dar graças, assim eu ouvi, e este e um ditado bastante bom.
Ele poderia ter continuado a tagarelar. Na certa o fez; quando se era o grande fazendeiro de gado, a gente tinha em geral de fazer-se ouvir, e do começo ao fim. Eddie não prestou a mínima atenção. Retornara a atenção à paisagem.
Adiante deles, além da aldeia, via-se uma faixa cinzenta de rio correndo para o sul. O braço do grande rio conhecido como Devar-Tete Whye, lembrou-se Eddie. Onde saia da floresta, o Devar-Tete corria entre margens íngremes, mas baixavam quando o rio penetrava nos primeiros campos cultivados, depois desapareciam de todo. Ele viu alguns renques de palmeiras, verdes e destoantemente tropicais. Além da aldeia de dimensões moderadas, a terra a oeste do rio era um brilhante verde disparado por todo lado com mais cinza. Eddie teve certeza de que num dia ensolarado aquele cinza se transformava num resplandecente azul, e de que quando o sol estava a pino o clarão seria forte demais para se olhar. Contemplou os campos de arroz. Ou talvez a gente os chame de arrozais.
Além desses e a leste do rio ficava o deserto, estendendo-se por quilômetros. Eddie via riscos de metal correndo para dentro deles, e deduziu que eram trilhos de ferrovia.
E além do deserto — ou obscurecendo o resto dele — via-se apenas escuridão. Erguia-se no céu como uma muralha vaporosa, parecendo varar as nuvens que flutuavam baixas.
— O distante Trovão, sai — disse Zalia Jaffords.
Eddie assentiu com a cabeça.
— Terra dos Lobos. E Deus sabe do que mais.
— Yer, bugger — acrescentou Slightman filho.
Tentava parecer rude e prosaico, mas para Eddie parecia muito assustado, talvez a beira das lágrimas. Mas os Lobos não o levariam, com certeza... se nosso gêmeo morria, isto nos tornava um filho individual a revelia, não era assim? Bem, isso sem dúvida funcionou para Elvis Presley, mas claro que o Rei não viera de Calla Bryn Sturgis. Nem de Calla Lockwood ao sul.
— Nãão, o Rei era um garoto do Mississippi — disse Eddie, em voz baixa.
Tian virou-se na sela para olhá-lo.
— Como disse, sai?
Eddie, alheio a que falara em voz alta, respondeu:
— Desculpe-me. Estava falando comigo mesmo.
Andy, o Robô Mensageiro (multifuncional), chegou a passos largos do atalho adiante deles a tempo de ouvir isto:
— Os que mantém conversa consigo mesmos viram triste companhia. Este é um velho ditado de Calla, sai Eddie, eu lhe peço que não o tome pessoalmente.
— E, como disse antes e sem a menor dúvida tornarei a dizer, não se pode limpar o catarro de um paletó de camurça, meu amigo. Um velho ditado de Calla Bryn Brooklyn.
As entranhas de Andy estalaram. Os olhos azuis lampejaram.
— Catarro: muco do nariz. Também uma pessoa rabugenta. Camurça: produto de couro curtido que...
— Não ligue, Andy — interveio Susannah. — Meu amigo só esta sendo tolo. Faz isso com muita freqüência.
— Ah, sim — disse Andy. — É um filho do inverno. Gostaria que eu fizesse seu horóscopo, Susannah-sai? Vai encontrar um belo homem! Terá duas idéias, uma ruim e uma boa! Terá um de cabelos escuros...
— Fora daqui, seu idiota — disse Overholser. — Direto para a cidade, linha reta, nada de extravio. Verifique se esta tudo certo no Pavilhão. Ninguém quer saber de seus malditos horóscopos, peço seu perdão, Velho Camarada.
Callahan não deu qualquer resposta. Andy curvou-se, deu três tapas na garganta metálica e partiu de volta pela trilha, que era íngreme, mas de confortável largura. Susannah viu-o afastar-se com o que talvez fosse alívio.
— Foi um tanto duro com ele, não? — perguntou Eddie.
— Ele não passa de uma peça de maquinaria — respondeu Overholser, dividindo as últimas palavras em sílabas, como a falar com uma criança.
— E às vezes sabe ser irritante — disse Tian. — Mas me digam, sais, que acham de nossa Calla?
Roland conduziu devagar seu cavalo, pondo-o entre o de Eddie e o de Callahan.
— É muito linda — disse. — Sejam quais forem os deuses, eles favoreceram este lugar. Vejo milho, tubérculos, feijão e... batatas? São batatas ali?
— Sim, são batatas, sim — respondeu Slightman, claramente contente com o olho de Roland.
— E adiante fica todo aquele magnífico arroz — disse Roland.
— Todas as pequenas propriedades junto ao rio — disse Tian —, onde a água é doce e lenta. E sabemos como somos afortunados. Quando o arroz fica pronto, para plantar ou para colher, todas as mulheres se juntam. Há cantoria nos campos, e até dança.
— Vem-vem a commala — disse Roland. Pelo menos foi o que Eddie ouviu.
Tian e Zalia se iluminaram de surpresa e reconhecimento. Os Slight-man trocaram um olhar e sorriram.
— Onde foi que ouviu “A Balada do Arroz”? — perguntou o mais velho. — Quando?
— Na minha casa — respondeu Roland. — Há muito tempo. Vem-vem a commala, brote, brote o arroz, ô camaradas. — Apontou para oeste, distante do rio. — Lá esta a maior fazenda, mergulhada no trigo. É a sua, sai Overholser?
— É sim, sai, obrigado.
— E além, para o sul, mais fazendas... e depois as de pasto. Aquela é de gado... aquela lá, ovelha... aquela outra, gado... mais gado... mais ovelha.
— Como pode saber a diferença de tão longe? — perguntou Susannah.
— As ovelhas comem a grama mais perto da terra, dama-sai — disse Overholser. — Assim, onde você vê as manchas de terra marrom-claro, é a terra de pasto das ovelhas. As outras... o que vocês chamariam de ocre, imagino, é o pasto do gado.
Eddie pensou em todos os filmes de faroeste que vira no Majestic: Clint Eastwood, Paul Newman, Robert Redford, Lee Van Cleef.
— Na minha terra, contam lendas de guerras serranas entre os criadores de gado e os criadores de ovelha — disse. — Porque, diziam, as ovelhas comiam a grama rente demais. Arrancavam até as raízes, vocês sabem como é, de modo que não tornaria a crescer.
— Isso é uma tolice completa, com o seu perdão — disse Overholser. — As ovelhas de fato ceifam rente, sim, mas depois mandamos as vacas ate lá pra aguar. O estrume que elas defecam e cheio de raízes.
— Ah — disse Eddie.
Não pode pensar em nenhuma outra coisa. Explicada assim, toda a idéia de guerras entre os criadores parecia requintadamente estúpida.
— Vamos indo — disse Overholser. — A luz do dia está se dissipando, está sim, e há um banquete preparado para nos no Pavilhão. Toda a cidade vai estar lá para receber vocês.
E para nos dar uma boa examinada, também, pensou Eddie.
— Mostre o caminho — disse Roland. — Podemos estar lá no final do dia. Ou estou enganado?
— Não — respondeu Overholser, lançando então os pés nos lados do cavalo e puxando-lhe bruscamente a cabeça em volta (só ver isso fez Eddie estremecer). Partiu à frente pelo caminho. Os outros o seguiram.
5
Eddie nunca esqueceu esse encontro com a Calla folken; era uma lembrança sempre de fácil alcance. Pois tudo que aconteceu foi uma surpresa, imaginava, e quando tudo e uma surpresa, a experiência adquire uma característica onírica. Lembrava-se de como as tochas mudavam quando se falava — a luz estranha e variada. Lembrava-se da inesperada saudação à multidão. Os rostos voltados para cima, seu pânico sufocante e a raiva que sentiu de Roland. Susannah içando-se sozinha ao banco do piano, no que os locais chamavam de música. Ah, sim, sempre essa lembrança. Pode apostar. Porém, ainda mais vívida que sua lembrança dos entes queridos era a do pistoleiro.
A de Roland dançando.
Mas antes de vir qualquer dessas coisas, veio o passeio pela rua Alta de Calla, e seu senso de pressentimento. Sua premonição de dias ruins a caminho.
6
Chegaram à cidade propriamente dita uma hora antes do por do sol. As nuvens se separaram e deixavam passar a última luz vermelha do dia. A rua estava vazia. A superfície estava impregnada de óleo. Os cascos dos cavalos faziam baques abafados na massa compacta marcada de rodas. Eddie viu uma estrebaria, um lugar chamado Repouso dos Viajantes, que parecia uma combinação de pensão e restaurante, e, na extremidade da rua, um prédio de dois andares que só podia ser o Salão da Assembléia de Calla. Afastado, a direita deste, o clarão das tochas, assim ele imaginou que pessoas esperavam ali, mas na extremidade norte da cidade, por onde eles entraram, não havia ninguém.
O silêncio e as largas calcadas vazias começaram a dar-lhe arrepios. Lembrou-se da história de Roland sobre o percurso final de Susan dentro de Mejis na parte de trás de uma carroça, em pé com as mãos amarradas na frente e um laço corrediço ao pescoço. A rua dela também estivera vazia. A princípio. Depois, não longe do cruzamento da Grande Estrada com a estrada do Rancho de Silk, Susan e seus captores haviam passado por um único fazendeiro, um homem que Roland descrevera como tendo olhos de abatedor de ovelhas. Depois ela seria bombardeada com legumes c paus, até com pedras, mas aquele fazendeiro solitário fora o primeiro, ali parado com a mão cheia de cascas de milho, que jogou quase com delicadeza nela quando passou a caminho de... bem, a caminho da árvore de charyou, a Feira da Colheita do Povo Antigo.
Enquanto cavalgavam para Calla Bryn Sturgis, Eddie não parou de esperar aquele homem, aqueles olhos de abatedor de ovelhas, e o punhado de cascas de milho. Porque aquela cidade lhe dava a impressão de ruim. Não má — maus como os mejis na certa haviam sido na noite da morte de Susan Delgado —, mas má de uma forma mais simples. Má como má sorte, mas escolhas, maus presságios. Mau ka, talvez. Curvou-se para Slightman pai.
— Onde diabos esta todo mundo, Ben?
— Lá adiante — disse Slightman, e apontou para o clarão das tochas.
— Por que estão tão quietos? — perguntou Jake.
— Eles não sabem o que esperar — disse Callahan. — Os forasteiros que de fato vemos de vez em quando são o ocasional mascate, malfeitor, jogador... ah, e os mercados flutuantes do lago que às vezes param no alto verão.
— Que é um mercado flutuante do lago? — perguntou Susannah.
Callahan descreveu uma chata larga a vapor, movida a roda propulsora e alegremente pintada, coberta de lojinhas. Estas prosseguiam devagar pelo Devar-Tete Whye abaixo, parando em Callas do Meio Crescente até todas as suas mercadorias acabarem. A maior parte não passa de artigos inferiores, disse Callahan, mas Eddie não teve certeza se confiava inteiramente nele, pelo menos no que se referia aos mercados flutuantes do lago; ele falava com a aversão quase inconsciente dos religiosos antigos.
— E os outros forasteiros vêm para roubar seus filhos — concluiu Callahan. Apontou para a esquerda, onde um comprido prédio de madeira parecia ocupar quase metade da rua Alta. Eddie contou não dois ou quatro corrimãos aos quais amarrar animais, mas oito. Dos longos. — O Armazém Geral de Took, que lhes faca bem — acrescentou, com o que talvez fosse sarcasmo.
Chegaram ao Pavilhão. Eddie mais tarde calculou o número de presentes em setecentos ou oitocentos, mas quando os viu pela primeira vez — uma massa de chapéus, toucas, botas e mãos calejadas abaixo da longa luz vermelha do sol do cair da tarde daquele dia — a multidão parecia enorme, inenarrável.
Eles vão jogar bosta em nós, pensou. Jogar bosta em nós e gritar: “Árvore de Charyou.” Embora ridícula, a idéia também era forte.
A Calla folken afastou-se recuando para os dois lados, criando uma passarela de relva verde que levava a uma plataforma suspensa de madeira. Contornando em círculo o Pavilhão, viam-se tochas presas em gaiolas de ferro. A essa altura, continuavam todas emitindo uma chama amarela bastante comum. O nariz de Eddie captou o forte mau cheiro de óleo.
Overholser desmontou. O mesmo fizeram os demais do grupo. Eddie, Susannah e Jake olharam para Roland, sentado como estava por um momento, curvado levemente para a frente, um dos braços lançado sobre a parte mais alta da sela, parecendo perdido nos próprios pensamentos. Então ele tirou o chapéu e estendeu-o para a multidão. Bateu na garganta três vezes. A multidão murmurou. De apreciação ou surpresa? Eddie não soube dizer. Não com raiva, contudo, decididamente não com raiva, e isso era bom. O pistoleiro ergueu um pé calçado de bota por cima da sela e desmontou com ligeireza. Eddie saltou do cavalo com mais cuidado, cônscio de todos os olhos cravados nele. Pendurara o arreio de Susannah antes, e agora se punha de costas ao lado da montaria dela. A multidão murmurou mais uma vez quando viu que lhe faltavam as pernas desde pouco acima dos joelhos.
Overholser avançou a passos vivos pela abertura, apertando algumas mãos ao longo do caminho. Callahan encaminhou-se diretamente atrás dele, desenhando de vez em quando o sinal-da-cruz no ar. Outras mãos estenderam-se da multidão para segurar os cavalos. Roland, Eddie e Jake seguiram lado a lado. Oi continuava no largo bolso da frente do poncho que Benny emprestara a Jake, olhando em volta, desinteressado.
Eddie percebeu que na verdade sentia o cheiro da multidão — suor, cabelos, pele queimada de sol e o ocasional borrifo do que as personagens nos filmes de faroeste em geral chamavam (com desprezo semelhante ao de Callahan pelos mercados flutuantes do lago) de “mijo”. Também sentia cheiro de comida: carne de porco e bife, pão fresco, cebola frita, café e folhas. Embora seu estômago roncasse, ele não estava com fome. Não, com fome mesmo, não. A idéia de que o caminho por onde andavam ia desaparecer e aquelas pessoas se fechando a volta deles não lhe deixava a mente. Eram tão caladas! Em algum lugar próximo, ele ouviu os primeiros noitibós e curiangos sintonizando-se para a noite.
Overholser e Callahan subiram até a plataforma. Eddie ficou alarmado ao ver que nenhum dos outros do grupo que saíra para encontrá-los fez o mesmo. Mas Roland galgou sem hesitação os três largos degraus de madeira. Eddie seguiu-o, consciente de que seus joelhos estavam meio fracos.
— Tudo bem com você? — murmurou Susannah em seu ouvido.
— Até aqui.
À esquerda da plataforma havia um palco redondo com sete homens, todos vestindo camisas brancas, calcas jeans azuis e faixas na cinta. Eddie reconheceu os instrumentos que seguravam, e embora o bandolim e o banjo o fizessem achar que a musica na certa iria ser da variedade chuta-bosta, a visão deles era tranqüilizadora. Não se contratavam bandas para tocar em sacrifícios humanos, contratavam-se? Talvez só um ou dois tocadores de tambor, para assustar os espectadores.
Eddie voltou-se para encarar a multidão com Susannah nas costas. Desanimou-o ver que a passagem que se abrira no fim da rua Alta agora de fato desaparecera. Rostos erguiam-se para olhá-lo. Mulheres e homens, velhos e moços. Sem nenhuma expressão nos semblantes, nem crianças entre eles. Rostos que passavam quase o tempo todo ao sol e tinham as fissuras para prová-lo. Aquela sensação de pressentimento não o largava.
— Ponha-me no chão, Eddie — disse Susannah, baixinho. Embora não gostasse da idéia, ele a pôs.
— Sou Wayne Overholser, da fazenda Seven-Mile — disse Overholser, avançando até a borda do palco com a pena na frente. — Eu peço agora que me ouçam.
— Nós agradecemos-sai — eles murmuraram.
Overholser virou-se e estendeu uma das mãos para Roland e seu tet, ali em pé, as roupas manchadas da viagem (Susannah não em pé, exatamente, mas sentada entre Eddie e Jake nos quadris e apoiada numa das mãos). Eddie achava que jamais se sentira examinado com tamanha ansiedade.
— Nós, Calla folken, ouvimos Tian Jaffords, George Telford, Diego Adams e todos os demais que falaram no Salão da Assembléia — disse Overholser. — Ali eu mesmo falei. “Eles vão vir e levar as crianças”, disse, me referindo aos Lobos, claro: “Depois vão nos deixar mais uma vez em paz por uma geração ou mais tempo. Assim é, assim tem sido, e minha opinião é que deixem isso pra lá.” Agora acho que aquelas palavras talvez tenham sido meio apressadas.
Murmúrio da multidão, suave como uma brisa.
— Naquela mesma assembléia, ouvimos père Callahan dizer que havia pistoleiros ao norte de nós.
Outro murmúrio. Este foi um pouco mais alto. Pistoleiros... Mundo Médio... Gilead.
— Ficou decidido entre nos que um grupo devia ir ver. Foi essa gente que encontramos, foi sim. Eles afirmam ser o que père Callahan disse que eram. — Overholser agora parecia desconfortável, quase como se reprimindo um traque. Eddie vira essa expressão antes, sobretudo na TV, quando políticos confrontados com algum fato e que não podiam demonstrar mal-estar eram obrigados a retroceder. — Eles afirmam ser do mundo extinto. Quer dizer...
Continue, Wayne, pensou Eddie, desembuche. Você pode.
—... quer dizer, da linhagem de Eld.
— Os deuses sejam louvados — esganiçaram-se algumas mulheres. — Os deuses os mandaram para salvar nossos bebes, mandaram sim!
Ouviram-se xius. Overholser esperou o silencio com uma expressão atormentada no rosto.
— Eles podem falar por si mesmos... e devem... mas já vi o suficiente para crer que talvez tenham condições de ajudar-nos com nosso problema. Portam boas armas, como vocês podem ver, e sabem usá-las. Acertei meu relógio e garanto, e agradeçam.
Desta vez o murmúrio da multidão foi mais alto, e Eddie sentiu boa vontade nele e relaxou um pouco.
— Tudo bem, então, que eles se apresentem a vocês, um por um, para que possamos ouvir suas vozes e ver muito bem seus rostos. Este é o dinh deles. — Ergueu a mão para Roland.
O pistoleiro avançou. O pôr do sol vermelho deixava-lhe o lado esquerdo da face em chamas; o direito, tingido de amarelo com o lume da tocha. Deu um passo a frente. O baque do salto da bota surrada nas tábuas foi muito claro no silêncio; sem motivo algum, Eddie pensou num .punho batendo na tampa de um caixão. Roland curvou-se até embaixo, palmas abertas estendidas para eles.
— Roland de Gilead, filho de Steven — disse. — A Linhagem de Eld.
Todos suspiraram.
— Que o recebam bem. — Ele recuou um passo e deu uma olhada a Eddie.
Aquela parte ele podia fazer.
— Eddie Dean, de Nova York — disse. — Filho de Wendell. — Pelo menos é isto que mamãe sempre afirmou, pensou. Então, sem ter consciência de que ia dizê-lo: — A Linhagem de Eld. O ka-tet do 19.
Deu um passo atrás, e Susannah avançou até a borda da plataforma. Costas eretas, olhando-os calmamente, disse:
— Sou Susannah Dean, mulher de Eddie, filha de Dan, a Linhagem de Eld, o ka-tet do 19, que sejamos bem recebidos e vocês passem bem. — Fez uma mesura, erguendo os lados da saia imaginaria.
Diante disso, ouviram-se risadas e aplausos.
Enquanto ela proferia sua apresentação, Roland curvou-se para sussurrar alguma coisa breve no ouvido de Jake. Ele assentiu e depois se adiantou, confiante. Parecia muito jovem e belo à luz final do dia.
Estendeu o pé e curvou-se sobre ele. O poncho projetou-se comicamente para a frente com o peso de Oi.
— Sou Jake Chambers, filho de Elmer, a Linhagem de Eld, o ka-tet do 99.
Noventa e Nove? Eddie olhou para Susannah, que lhe ofereceu um mínimo encolher de ombros. Que merda e esta de 99? Então pensou, que diabos. Ele também não sabia o que era o ka-tet do 19, e o dissera.
Mas Jake não havia terminado. Ergueu Oi do bolso do poncho de Ben Slightman. A multidão murmurou a visão do animal. Jake lançou uma rápida olhada a Roland que perguntava... Tem certeza?... e Roland assentiu com a cabeça.
A princípio, Eddie não achou que o amiguinho peludo ia fazer alguma coisa. Calla folken, mais uma vez, havia-se calado totalmente, tão mudos que desta vez se voltou a ouvir com grande nitidez o canto vespertino dos pássaros.
Então Oi ergueu-se em suas pernas traseiras, esticou uma delas para a frente e realmente se curvou sobre ela. Oscilou, mas manteve o equilíbrio. Estendia a patinha preta com a palma virada para cima, como a de Roland. Houve arquejos, risadas, aplausos. Jake parecia estupefato.
— Oi! — disse o trapalhão. — Eld! Agadeço!
Cada palavra clara. Manteve a vênia por mais um instante, caiu então sobre as quatro patas e saiu correndo alegre para junto de Jake. O aplauso foi estrondoso.
De um gesto brilhante e simples, Roland (pois, quem mais, pensou Eddie, poderia ter ensinado o trapalhão a fazer aquilo) tornara aquelas pessoas amigas e admiradoras. Por esta noite, ao menos.
Assim, essa foi a primeira surpresa: Oi fazendo uma reverência para o Calla folken e declarando-se ele mesmo an-tet com seus companheiros viajantes. A segunda veio logo em cima.
— Não sou orador — disse Roland, avançando mais uma vez. —
Minha língua se enrola mais que a de um bêbado na Noite da Colheita. Mas tenho certeza de que Eddie vai nos brindar com uma palavra.
Foi a vez de Eddie ficar estupefato. Abaixo deles, a multidão aplaudia e batia apreciativamente os pés no chão. Houve gritos de Graças-sai. Fale bem e Escutem ele, escutem ele. Até a banda entrou no número, tocando um floreio capenga, mas alto.
Eddie teve tempo de fuzilar Roland com um único olhar frenético e furioso. Por que caralho está fazendo isto comigo? O pistoleiro retribuiu-lhe olhar com brandura, cruzando depois os braços no peito.
O aplauso se extinguia. Assim como sua raiva, substituída por terror. Overholser observava-o com interesse, os braços cruzados em imitação consciente ou inconsciente de Roland. Abaixo dele, Eddie via alguns rostos individuais na frente da multidão: os Slightman, os Jaffords. Olhou para o outro lado e lá estava Callahan, os olhos azuis apertados. Acima destes, a irregular cicatriz cruciforme na testa parecia brilhar intensamente.
Que porra se espera que eu diga a eles?
Melhor dizer alguma coisa, Eddie, falou mais alto a voz de Henry. Eles estão esperando.
— Perdão se sou um pouco lento para dar a partida — disse. — Percorremos quilômetros e voltas e mais quilômetros e voltas, e vocês são a primeira gente que vemos em vários...
Vários o quê? Semana, mês, ano, década?
Eddie riu. Parecia a si mesmo o maior idiota do mundo, um cara em que não se podia confiar para controlar o próprio pau na hora de mijar, quanto mais uma arma.
— Em várias luas azuis.
Todos riram disso, e com vontade. Alguns chegaram até a aplaudir. Ele tocara o senso de humor da cidade sem se dar conta. Relaxou, e quando o fez se viu falando com bastante naturalidade. Ocorreu-lhe, só de passagem, que não muito tempo atrás o pistoleiro armado em pé ali diante daquelas setecentas pessoas assustadas, esperançosas, estivera sentado em frente da TV, apenas de cueca amarela, comendo Chee-tos, derrubado pela heroína, e vendo Zé Colméia.
— Viemos de muito longe — disse ele — e ainda temos uma grande distância a percorrer. Nosso tempo aqui será breve, mas faremos o que pudermos, eu peço que me escutem.
— Continue, estranho! — gritou alguém. — São belas as suas palavras!
Ié mesmo?, pensou Eddie. Novidade pra mim, cara.
Alguns gritos de Ié e São, sim.
— Os curandeiros em meu baronato tem um ditado — contou-lhes Eddie. — “Primeiro, não façam mal algum.” — Ele não tinha certeza se era um lema de advogado ou um lema de médico, mas o ouvira em muitos filmes e programas de TV, e parecia danado de bom. — Nós não faremos mal algum aqui, saibam vocês, mas ninguém jamais arrancou uma bala, nem sequer uma farpa da unha do dedo de um garoto, sem derramar algum sangue.
Ouviram-se murmúrios de concordância. Overholser, contudo, exibia a expressão indecifrável de jogador de pôquer, e na multidão Eddie viu olhares de dúvida. Sentiu um surpreendente jorro de raiva. Não tinha o menor direito de sentir raiva daquelas pessoas, que não lhe haviam feito absolutamente mal algum, nem lhes haviam recusado absolutamente nada (pelo menos até então), mas mesmo assim sentiu.
— Temos outro ditado no baronato de Nova York — disse-lhes. — “Ninguém come de graça.” Pelo que sabemos, a situação de vocês é séria. Resistir e lutar contra esses Lobos seria perigoso. Mas às vezes não fazer nada faz as pessoas se sentirem enojadas e famintas.
— Escutem ele, escutem ele! — gritou o mesmo sujeito atrás na multidão. Eddie viu o robô Andy lá no fundo, e perto dele uma grande carroça cheia de homens com volumosas capas pretas ou azul-escuras. Ele supôs que fossem mannis.
— Examinaremos o lugar em volta, e assim que entendermos o problema, vamos ver o que pode ser feito. Se acharmos que a resposta é não, nós tocaremos a aba de nossos chapéus e seguiremos adiante.
Duas ou três fileiras atrás, estava um homem de chapéu surrado de caubói branco. Tinha sobrancelhas brancas desgrenhadas e um bigode branco combinando. Eddie achou que ele se parecia um pouco com o pai Cartwright naquele antigo seriado de TV, Bonanza. Aquela versão do patriarca Cartwright não parecia muito encantada com o que Eddie dizia.
— Se pudermos ajudar, ajudaremos — continuou, agora com a voz inteiramente neutra. — Mas não faremos isso sozinhos, camaradas. Peço que me escutem. Escutem muito bem. É melhor que defendam o que precisam. É melhor que estejam prontos para lutar pelas coisas que conservaram.
Com isto, bateu um dos pés esticado para a frente — o mocassim que usava não produziu a mesma batida de punho fechado na tampa de caixão, mas ele pensou nisso de qualquer modo... e curvou-se. Fez-se um silêncio mortal. Então Tian Jaffords começou a aplaudir. Zalia juntou-se a ele. Benny também aplaudiu. Seu pai cutucou-o, mas o garoto continuou aplaudindo, e após um momento o velho Slightman também.
Eddie lançou um olhar faiscante a Roland. A expressão suave do pistoleiro não se alterou. Susannah puxou-lhe a perna da calça e Eddie curvou-se para ela.
— Saiu-se muito bem, amor.
— Não graças a ele. — Eddie indicou Roland com a cabeça.
Mas agora que chegara ao fim, sentia-se surpreendentemente bem. E sabia que falar não era mesmo o forte de Roland. Podia fazê-lo quando não tinha apoio algum, mas não dava importância àquilo.
Então agora você sabe o que é, pensou. O porta-voz de Roland de Gilead.
E no entanto isso era tão ruim assim? Não cumprira Cuthbert Allgood a mesma função muito antes dele?
Callahan adiantou-se.
— Talvez pudéssemos recebê-los um pouco melhor do que fizemos, meus amigos... dar-lhes as verdadeiras boas-vindas de Calla Bryn Sturgis. Ele começou a aplaudir. A gente reunida juntou-se imediatamente desta vez. O aplauso foi longo e vigoroso. Ouviram-se vivas, assobios, batidas de pés (a batida de pés um tanto menos satisfatória sem um piso de madeira para amplificar o ruído). A bandinha tocou não apenas um floreio, mas toda uma série deles. Susannah segurou uma das mãos de Eddie. Jake a outra. Os quatro curvaram-se em sinal de cortesia como algum grupo de rock ao final de uma apresentação, e os aplausos redobraram.
Por fim, Callahan silenciou-os erguendo as mãos.
— Trabalho sério pela frente, pessoal — disse. — Coisas sérias em que pensar, coisas sérias a fazer. Mas, por ora, vamos comer. Mais tarde, dançar, cantar e alegrarmo-nos. — Recomeçaram a aplaudir novamente e Callahan mais uma vez os silenciou. — Chega! — gritou, rindo. — E vocês, mannis aí atrás, sei que trazem suas próprias rações, mas não há motivo algum na terra para que não comam e bebam o que tem conosco. Juntem-se a nós, façam isso, sim! Que passem bem!
Que nos livre a todos, pensou Eddie, e ainda assim aquela sensação de pressentimento não o deixava. Era como um convidado parado na periferia do grupo, logo além do brilho das tochas. E era como um ruído. O salto de bota num piso de madeira. Um punho na tampa de um caixão.
7
Embora houvesse bancos e longas mesas de cavalete, só os mais velhos comeram seus jantares sentados. E que famoso jantar foi, com literalmente duzentos pratos entre os quais escolher, a maioria comida caseira e deliciosa. Os procedimentos começaram com um brinde a terra de Calla. Foi proposto por Vaughn Eisenhart, que se ergueu com uma caneca cheia até a borda numa das mãos e a pena na outra. Eddie julgou que talvez aquela fosse a versão do Crescente do Hino Nacional.
— Que ela sempre esteja bem! — gritou o rancheiro, e esvaziou sua caneca de graf num longo gole. Eddie admirou a goela do homem, quando nada; a cerveja de maca de Calla Bryn Sturgis era tão forte que só cheirá-la fez seus olhos lacrimejarem.
— BEBAM! — responderam os presentes, dando vivas e bebendo.
Naquele momento, as tochas que contornavam o Pavilhão ficaram da cor rubro-escura do sol que havia pouco se fora. A multidão exclamou oohhs, aahhs e aplaudiu. Quanto à tecnologia, Eddie achou que não se justificava tamanha admiração — certamente não se comparava ao Mono Blaine, ou aos computadores bipolares que governavam Lud —, mas projetava uma linda luz sobre a multidão e parecia inócua. Ele aplaudiu com os demais. Susannah também. Andy trouxera-lhe e desdobrara a cadeira de rodas com uma cortesia (também oferecera falar-lhe do belo estranho que logo iria conhecer). Agora ela a girava avançando com um prato de comida no colo no meio dos grupinhos de pessoas, papeando aqui, seguindo adiante, e mais uma vez papeando ali, seguindo adiante. Eddie deduziu que ela tivera sua cota de coquetéis não muito diferentes daquele, e sentiu um certo ciúme de sua desenvoltura.
Começou a notar crianças na multidão. Parecia que os locais haviam decidido que os visitantes não iam apenas sacar seus paus-de-fogo e iniciar um massacre. Permitiu-se que a garotada mais velha perambulasse sozinha. Circulavam em bandos protetores que Eddie se lembrava de sua própria infância, recolhendo volumosas quantidades de comida das mesas (embora nem sequer os apetites de adolescentes vorazes chegassem a causar uma mossa naquela fartura). Eles observavam os de fora, mas nenhum ousava aproximar-se.
As crianças pequenas permaneciam junto aos pais. As da dolorosa idade intermediária amontoavam-se em volta do escorrega, dos balanços e do intricado trepa-trepa na extremidade mais afastada do Pavilhão. Algumas usavam a construção, mas a maioria apenas olhava a festa com os olhos perplexos daqueles que são de algum modo apanhados desprevenidos. O coração de Eddie foi para elas. Ele viu quantos pares formados — era misterioso — e deduziu que eram aquelas crianças perplexas, apenas um pouco grandes demais para usar o equipamento do playground, que dariam o maior número aos Lobos... se eles concedessem permissão aos Lobos para fazerem a coisa de sempre, só isso. Não viu nenhum dos roont, e imaginou que haviam sido deliberadamente mantidos separados, para não sombrear a festa. Eddie até entendia isso, mas esperava que estivessem tendo sua própria festa em algum lugar. (Mais tarde, descobriu que foi exatamente o que ocorreu — cookies e sorvetes atrás da igreja de Callahan.)
Jake teria se encaixado perfeitamente no grupo intermediário de crianças, fosse ele de Calla, mas claro que não era. E fizera um amigo que lhe caia sob medida: mais velho em idade, mais novo em experiência. Os dois circulavam de mesa a mesa, ciscando ao acaso. Oi seguia atrás de Jake bastante contente, sempre balançando a cabeça de um lado para outro, Eddie não tinha a menor dúvida de que se alguém fizesse um gesto agressivo em direção a Jake de Nova York (ou de seu novo amigo Benny de Ha), o sujeito ia ver que lhe faltavam dois dedos. A certa altura, viu os dois garotos se entreolharem, e embora não houvessem trocado uma palavra desataram a rir no mesmo momento. E isso fez Eddie lembrar-se tão convincentemente de suas próprias amizades da infância que lhe doeu.
Não que pudesse permitir-se muito tempo para introspecção. Sabia pelos relatos de Roland (e por tê-lo visto em ação algumas vezes) que os pistoleiros de Gilead haviam sido muito mais que oficiais da paz. Também eram mensageiros, guarda-livros, às vezes espiões, de vez em quando até executores. Mais que tudo, porém, haviam sido diplomatas. Eddie, criado pelo irmão e amigos com pepitas de sabedoria como: Por que não pode me comer como faz sua irmã e Eu fodi sua mãe e claro que ela foi ótima, para não mencionar a sempre popular: Não me calo, cresço, e quando olho pra você, vomito, jamais se julgaria um diplomata, mas no geral achou que se portava muito bem. Só Telford foi grosso, mas a banda fechou-lhe a matraca, graças.
Sabia Deus que era um caso de afundar ou nadar; a Calla folken podia sentir medo dos Lobos, mas não se acanhava quando chegava para perguntar como Eddie e os outros de seu tet iam cuidar deles. Eddie se deu conta de que Roland lhe fizera um grande favor, forçando-o a falar diante de todo o bando deles. O que o aqueceu um pouco para isso.
Dizia a todos as mesmas coisas, repetidas vezes. Seria impossível falar de estratégia antes de haverem dado uma boa olhada na cidade. Impossível dizer quantos homens de Calla seriam necessários para juntar-se a eles. O tempo mostraria. Eles espreitariam a luz do dia. Haveria água se Deus quisesse. Mais todos os outros clichês que ocorriam. (Até lhe passou pela mente prometer-lhes uma galinha em cada panela depois que os Lobos fossem vencidos, mas segurou a língua antes que fosse tão longe.) O fazendeiro de uma pequena propriedade chamado Jorge Estrada quis saber o que eles fariam se os Lobos decidissem por fogo na aldeia. Outro, Garrett Strong, pediu que Eddie lhes dissesse onde as crianças seriam mantidas em segurança quando os Lobos chegassem.
— Pois não podemos deixá-las aqui, como você deve saber muito bem — disse.
Eddie, que percebeu que sabia muito pouco, sorveu sua cerveja e foi evasivo. Um sujeito chamado Neil Faraday (Eddie não soube dizer se era dono de uma pequena propriedade ou apenas um trabalhador braçal) aproximou-se e disse-lhe que tudo aquilo já tinha ido longe demais.
— Eles nunca levam todas as crianças, você sabe.
Eddie pensou em perguntar a Faraday o que ele pensaria de alguém que dissesse: “Bem, só dois deles estupraram minha mulher”, e decidiu guardar o comentário para si mesmo. Um sujeito de pele escura, bigodudo, chamado Louis Haycox, apresentou-se e disse a Eddie que decidira que Tian Jaffbrds tinha razão. Passara várias noites insones desde a assembléia, pensando bem em tudo, e havia finalmente decidido que ia levantar-se e lutar. Se o quisessem, era isso. A combinação de sinceridade e terror que Eddie viu na expressão do homem tocou-o profundamente. Não era nenhum rapazola excitado que não sabia o que estava fazendo, mas um adulto maduro que na certa sabia tudo bem demais. Assim, ali eles chegavam com suas perguntas e se iam sem quaisquer respostas verdadeiras, porém parecendo apesar disso mais satisfeitos. Eddie falou ate ficar com a boca seca, depois trocou a caneca de madeira com graf por chá gelado, não querendo se embriagar. Também não queria comer mais; estava empanturrado. Mas eles ainda continuaram chegando. Cash e Estrada. Strong e Echeverria. Winkler e Spalter (primos de Overholser, disseram). Freddy Rosario e Farren Posella... ou era Freddy Posella e Farren Rosario?
A cada dez ou 15 minutos, as tochas mudavam mais uma vez de cor. De vermelho para verde, de verde para laranja, de laranja para azul. Os jarros de graf circulavam. A conversa ficou mais alta. Assim como as risadas. Eddie passou a ouvir gritos mais freqüentes de Yer-bugger e alguma coisa que soava como Vá fundo!, sempre seguidos de gargalhadas.
Viu Roland conversando com um velho de capa azul. O ancião tinha a barba mais espessa, mais longa e mais branca que já vira fora de um épico bíblico de TV. Ele falava serio, encarando o rosto de Roland, maltratado pela intempérie. Uma vez tocou no braço do pistoleiro, puxou-o um pouco. Roland escutava, assentia, nada dizia — em todo caso, não enquanto Eddie o observava. Mas ele esta interessado, pensou Eddie. Ah, esta — o velho compridão e feio ouvia alguma coisa que lhe interessava muito.
Os músicos voltavam em bando para o coreto, quando mais alguém avançou para Eddie. Era o sujeito que o fizera lembrar-se de pai Cartwright.
— George Telford — disse. — Que passe bem, Eddie de Nova York.
Deu em sua testa um tapa superficial com o lado do punho fechado, depois abriu a mão e estendeu-a. Usava acessório de cabeça de um rancheiro, um chapéu de caubói em vez do sombreiro de rancheiro, mas a palma da mão parecia admiravelmente macia, a não ser por uma linha de calos correndo na base dos dedos. É aí que segura as rédeas, pensou Eddie, e quando se põe a trabalhar, na certa é isso.
Eddie fez-lhe uma pequena mesura.
— Longos dias e belas noites, sai Telford.
Ocorreu-lhe perguntar se Adam, Hoss e Little Joe, de Bonanza, estavam de volta na Ponderosa, mas decidiu de novo manter sua boca sabichona calada.
— Que você tenha tudo isso em dobro, filho, em dobro. — Olhou a arma na coxa e depois o rosto de Eddie. Tinha os olhos astuciosos e não particularmente amistosos. — Seu dinh usa o par desta, percebo.
Eddie sorriu, mas nada disse.
— Wayne Overholser contou que seu ka-babby apresentou uma senhora exibição de tiroteio com outra arma. Creio que sua mulher a esta usando esta noite?
— Creio que sim — disse Eddie, não ligando muito para aquela coisa de ka-babby.
Sabia muito bem que Susannah tinha a Ruger. Roland decidira que seria melhor se Jake não fosse armado para a Rocking B de Eisenhart.
— Quatro contra quarenta seria um grande esforço, não acha? — perguntou Telford. — Sim, senhor, seria um esforço da pesada. Ou talvez sejam sessenta chegando do leste; ninguém parece se lembrar com certeza, e por que se lembrariam? Vinte e três anos e um longo tempo de paz, agradeça a Deus e ao Homem Jesus.
Eddie sorriu e nada disse por mais algum tempo, esperando que Telford mudasse de assunto. Esperando que Telford desse o fora, na verdade.
Não existe tal sorte. Os chatos não desgrudam da gente: isto era quase uma lei da natureza.
— Claro que quatro armados contra quarenta... ou sessenta... seria uma visão melhor do que três armados e um em pé por perto para animar a torcida. Sobretudo quatro armados com calibres pesados, ouça-me por favor.
— Escutá-lo é ótimo — disse Eddie.
Próximo à plataforma, onde eles haviam sido apresentados, Zalia Jaffords dizia alguma coisa a Susannah. Eddie achou que Suze também parecia interessada. Ela tem a mulher do fazendeiro, Roland, o Senhor das porras dos Anéis, Jake começa a ter um amigo, e que é que eu tenho? Um cara que se parece com pai Cartwright e interroga com uma minúcia e rigor iguais a Perry Mason.
— Vocês têm mais armas? — perguntou Telford. — Sem dúvida devem ter mais, se acham que podem opor resistência aos Lobos. Quanto a mim, acho essa idéia uma loucura; não fiz o menor segredo disso. Vaughn Eisenhart acha a mesma coisa...
— Overholser também pensava assim e mudou de idéia — disse Eddie, como uma maneira de só passar o tempo. Tomou o chá e olhou para Telford por cima da borda da caneca, esperando uma reprovação. Talvez até um breve olhar de exasperação. Não obteve nenhuma das duas coisas.
— O Cata-vento Wayne — disse Telford, e riu consigo mesmo. — Ié, ié, vira pra cá, vira pra lá. Eu não teria tanta certeza dele ainda, jovem sai.
Eddie pensou em dizer: Se acha que isso é uma eleição, é melhor que pense mais uma vez, e depois não o fez. Boca fechada, veja muito, fale pouco.
— Vocês tem atiradores rápidos, talvez? — perguntou Telford. — Ou grenados?
— Ah... bem — disse Eddie —, assim é que deve ser.
— Nunca ouvi falar de mulher pistoleira.
— Não?
— Nem de garoto, aliás. Sequer como aprendiz. Como vamos saber que vocês são o que dizem ser? Peço-lhe que me diga.
— Bem, esta é uma pergunta difícil de responder — disse Eddie. Passara a sentir forte aversão por Telford, que parecia velho demais para ter filhos em risco.
— Mas as pessoas vão querer saber — disse Telford. — Certamente antes que tragam a tempestade.
Eddie se lembrou do ditado de Roland: Podemos ser empurrados para a frente, mas não para trás. Era óbvio que eles ainda não haviam entendido isso. Telford com certeza não. Claro que as perguntas tinham de ser respondidas, e respondidas sim; Callahan mencionara isso e Roland o confirmara. Três delas. A primeira era alguma coisa sobre ajuda e socorro. Eddie achou que essas perguntas ainda não haviam sido respondidas, e não via como poderiam ter sido, mas achou, sim, que seriam feitas no Salão da Assembléia quando chegasse a hora. As respostas talvez fossem dadas por pessoas simples como Posella e Rosario, que nem sequer sabiam o que eles estavam dizendo. Pessoas que tinham de fato filhos em risco.
— Quem é você realmente? — perguntou Telford. — Diga-me, eu lhe peço.
— Eddie Dean de Nova York. Espero que não esteja questionando minha honestidade. Espero por Deus que não esteja fazendo isso.
Telford deu um passo atrás, de repente cauteloso. Eddie sentiu uma alegria maligna ao ver isso. Medo não era melhor que respeito, mas por Deus era melhor que nada.
— Nãão, de jeito nenhum, meu amigo! Por favor! Mas me diga isto... você já usou alguma vez a arma que leva ai? Diga-me, eu lhe peço.
Eddie viu que Telford, embora apreensivo com ele, não acreditava mesmo. Talvez ainda lhe restasse muito do antigo Eddie Dean, daquele que realmente fora de Nova York, no semblante e na atitude para aquele vaqueiro-sai acreditar nisso, mas Eddie não achava que fosse isso. Não a essência disso, de qualquer modo. Ali estava um cara que decidira ficar de lado vendo as criaturas do Trovão levarem os filhos dos seus vizinhos, e talvez um homem como aquele simplesmente não pudesse acreditar nas respostas simples e finais que uma arma permitia. Eddie, contudo, passara a conhecer essas respostas. Até a amá-las. Lembrou-se do único dia deles em Lud, empurrando Susannah a toda em sua cadeira de rodas sob um céu cinzento, enquanto martelavam os tambores dos deuses. Lembrou-se de Frank, de Luster e do Marinheiro Topsy; pensou numa mulher chamada Maud ajoelhando-se para beijar um dos lunáticos que Eddie matara a tiros. Que foi que ela dissera? Você não devia ter baleado Winston, pois hoje era o aniversário dele. Qualquer coisa assim.
— Eu usei esta, a outra e a Ruger também — respondeu ele. — E jamais ouse falar comigo assim de novo, meu amigo, como se nós dois fossemos os únicos a entender alguma piada.
— Se o ofendi de alguma maneira, pistoleiro, eu rogo seu perdão.
Eddie relaxou um pouco. Pistoleiro. Pelo menos o filho-da-puta de cabelos grisalhos teve a presença de espírito para dizê-lo, embora talvez não acreditasse.
A banda musical apresentou outro floreio. O líder deslizou a tira da guitarra pela cabeça e gritou:
— Agora, venham todos! Já chega de comida! Hora de gastá-la e suá-la dançando, é isso aí!
Vivas e gritos estridentes. Ouviu-se também um matraquear de explosões que fez Eddie deixar cair a mão, como vira Roland fazer com a dele em muitas ocasiões.
— Calma, meu amigo — disse Telford. — São só bombinhas de estalo. Crianças soltando busca-pés de Festa da Colheita, você sabe como é.
— É mesmo — disse Eddie. — Eu rogo seu perdão.
— Não precisa. — Telford sorriu. Um belo sorriso de pai Cartwright, e nele Eddie viu uma coisa clara: aquele homem jamais ficaria do lado deles. Não, era isso, até e a não ser que cada Lobo vindo do Trovão jazesse morto para a inspeção da cidade naquele mesmo Pavilhão. E se isso acontecesse, ele ia afirmar que sempre estivera do lado deles desde o inicio.
8
A dança continuou até o nascer da lua, e naquela noite a lua surgiu clara. Eddie revezou-se com várias senhoras da cidade. Dançou duas vezes com Susannah nos braços, e quando dançaram a quadrilha, ela se virou e cruzou — alemanda esquerda, alemanda direita — com bela precisão na cadeira de rodas. Junto à luz das tochas sempre a mudar, tinha o rosto úmido e maravilhado. Roland também dançou, cavalheiresco, mas (achou Eddie) sem nenhum verdadeiro prazer nem jeito para a coisa. Certamente, não havia nada ali que os preparasse para o que rematou a noite. Jake e Benny Slightman haviam sumido perambulando sozinhos, mas uma vez Eddie os vira ajoelhados embaixo de uma árvore e jogando finca, só que com canivete, em vez dos ferrinhos de ponta afiada.
Quando acabou a dança, houve cantoria. Esta começou com a própria banda — uma balada de amor chorosa e depois um numero de ritmo rápido e animado, tão carregado da gíria de Calla que Eddie não conseguiu acompanhar a letra. Não teve de fazê-lo para saber que era no mínimo levemente obscena; ouviam-se berros e gargalhadas dos homens e gritinhos de alegria das senhoras. Algumas das mais velhas tapavam os ouvidos.
Após essas duas melodias, várias Calla folken subiram ao coreto para cantar. Eddie achou que nenhuma teria chegado muito longe no programa Star Search — em busca de novos talentos —, mas cada uma foi saudada com entusiasmo ao avançar para a banda e aplaudida vigorosamente (e no caso de uma jovem e bonita matrona, com muita lascívia) ao descer. Duas meninas de uns nove anos, obviamente gêmeas idênticas, cantaram uma balada chamada “Ruas de Campara” em perfeita e pungente harmonia, acompanhadas por apenas uma guitarra que uma delas tocava. Eddie ficou impressionado com o silêncio arrebatado no qual as pessoas ouviam. Embora a maioria dos homens estivesse em profunda embriaguez, nenhum deles quebrou o silêncio atento. Nem se soltaram bombinhas. Muitos (entre eles, o tal Haycox) ouviam com lágrimas escorrendo-lhes pelas faces. Se perguntado antes, Eddie teria dito: claro que entendia o peso emocional sob o qual mourejava a cidade. Não lhe perguntaram. Agora ele sabia disso.
Quando terminou a música sobre a mulher seqüestrada e o caubói moribundo, fez-se um momento de absoluto silêncio. Eddie pensou: Se eles levantassem as mãos para votar no que fazer sobre os Lobos naquele momento, nem mesmo pai Cartwright ousaria votar por não se envolver.
As meninas fizeram uma cortesia e pularam lepidamente para a relva. Eddie achou que isso seria suficiente para encerrar a noite, mas então, para sua surpresa, Callahan subiu ao palco e disse:
— Aqui vai uma música ainda mais triste que minha mãe me ensinou, e lançou-se numa alegre balada chamada “Pague pra Mim Mais uma Rodada, seu Veado”. Era tão obscena quanto a que a banda tocara antes, mas desta vez Eddie entendeu a maioria das palavras. Ele e os outros da cidade juntavam-se em grande animação no último verso de cada estrofe: Antes que tenha me posto no chão, pague pra mim mais uma rodada, seu veado!
Susannah levou a cadeira de rodas até o coreto e ajudaram-na a subir durante os aplausos que se seguiram a apresentação do Velho. Ela falou brevemente com os três guitarristas e mostrou-lhes alguma coisa no braço de um dos instrumentos. Todos assentiram com a cabeça. Eddie imaginou que eles conheciam a música ou uma versão dela.
A multidão aguardava em expectativa, ninguém mais que o próprio marido da dama. Ele ficou encantado, mas não inteiramente surpreso quando ela viajou sobre “Maid of Constant Sorrow,” a música sobre a donzela de sofrimento constante que as vezes cantara na trilha. Susannah não era nenhuma Joan Baez, mas tinha a voz autêntica, cheia de emoção. E por que não? Era a música de uma mulher que abandonou o lar por um lugar estranho. Quando terminou, não se fez silêncio, como após o dueto das meninas, mas houve uma rodada de aplauso honesto, entusiástico. Ouviram-se gritos de Isso aí!, Mais uma vez! Mais estrofes! Ela não ofereceu mais estrofes (pois cantara todas as que conhecia), porém fez uma profunda mesura. Eddie bateu palmas até as mãos doerem, depois enfiou os dedos nos cantos da boca e assobiou.
E então — parecia que as maravilhas dessa noite jamais chegariam ao fim — o próprio Roland escalou o palco, enquanto eles ajudavam Susannah a descer com todo o cuidado.
Jake e seu novo amigo chegavam ao lado de Eddie, Benny Slightman com Oi no colo. Até aquela noite Eddie diria que o trapalhão teria mordido qualquer um fora do ka-tet de Jake que tentasse fazer o mesmo.
— Ele sabe cantar? — perguntou Jake.
— Novidade pra mim se souber, amiguinho — respondeu Eddie. — Vamos ver. — Não fazia a mínima idéia do que esperar, e ficou meio entretido ao ver como seu coração martelava.