A Torre Negra V: Lobos de Calla
Capítulo 6
Não haviam ido muito longe quando Jake percebeu que Oi seguia na verdade um atalho que contornava, sinuoso, a terra acidentada e rochosa daquele lado do rio. Começou a ver sinais de tecnologia: rebotalhos, uma bobina elétrica enferrujada, uma coisa que parecia um antigo quadro de circuito projetando-se da areia, minúsculas lascas de cerâmica e cacos de vidro. Na escura sombra de um pedregulho grande criada pelo luar ele viu o que parecia uma garrafa inteira. Desmontou, pegou-a, despejou sabe lá Deus quantas décadas (ou séculos) de areia acumulada e examinou-a. Escrita no lado com letras em relevo uma palavra que ele reconheceu: Nozz-A-La.
— A bebida dos mais finos beberrões em toda parte — murmurou Jake, e largou a garrafa. Ao lado dela, uma maço de cigarros amassado. Ele o alisou, revelando a foto de uma mulher de lábios vermelhos usando um sofisticado chapéu vermelho. Segurava um cigarro entre dois dedos glamourosamente longos. PARTI parecia ser o nome da marca.
Oi, enquanto isso, uns 10 metros adiante, olhava-o por cima de um dos ombros.
— Tudo bem — disse Jake. — Já vou.
Outros atalhos juntavam-se àquele em que estavam, e ele percebeu que se tratava de uma continuação da estrada Leste. Via apenas algumas pegadas de bota, dispersas, e pisadas menores, mais profundas. Encontravam-se em lugares protegidos por pedras altas — grutas laterais que os ventos predominantes não alcançavam com freqüência.
Imaginou que as pegadas de bota eram de Slightman, as pisadas profundas, de Andy. Não havia outras. Mas haveria, e também não dali a muitos dias. As pegadas dos cavalos cinzentos dos Lobos, vindos do leste. Também seriam pegadas profundas, reconheceu Jake. Profundas como as de Andy.
Mais adiante, o atalho chegava ao topo de uma colina. Dos dois lados, viam-se mandacarus fantasticamente disformes, cactos imensos com grandes braços grossos, que pareciam apontar para todos os lados. Parado ali, Oi olhava alguma coisa no chão, e mais uma vez pareceu sorrir. Quando Jake se aproximou dele, sentiu o cheiro dos cactos, amargo e penetrante. Lembrava-lhe os martínis do pai.
Emparelhou o pônei com Oi, examinando embaixo. No sopé da colina à direta, viu uma entrada de concreto para carros despedaçada. Um portão de correr imobilizara-se semi-aberto, séculos atrás, na certa muito antes de os Lobos começarem a atacar a terra de fronteira Calla em busca de crianças. Mais adiante, um prédio com telhado de metal curvo. Janelinhas enfileiravam-se no lado que Jake via, e seu coração se animou à visão do firme brilho branco que as atravessava. Não havia lamparinas nem lâmpadas (o que Roland chamava de “luzes-faísca”). Só fluorescentes lançavam aquele tipo de luz. Em sua vida de Nova York, as luzes fluorescentes faziam-no pensar sobretudo em coisas infelizes, tediosas: lojas gigantescas onde tudo estava sempre em liquidação e a gente nunca encontrava o que queria, tardes sonolentas na escola quando a professora falava monótona e infindavelmente sobre as rotas comerciais da China antiga ou as jazidas minerais do Peru; e a chuva caía sem parar no lado de fora; e parecia que a campainha que encerrava a aula jamais tocaria; consultórios de médicos onde se deitava de cueca numa mesa de exames coberta com papel, sentindo frio, sem graça e de algum modo certo de que ia tomar uma injeção. Nesta noite, contudo, aquelas luzes o animaram.
— Bom garoto! — disse ao trapalhão.
Em vez de responder, como em geral fazia, repetindo seu nome, Oi olhou atrás de Jake e iniciou um rosnado baixo. No mesmo momento, o pônei mudou de posição e soltou um gemido nervoso. Jake controlou-o com a rédea, percebendo que aquele amargo (mas não de todo desagradável) cheiro de gim e zimbro ficara mais forte. Olhou em volta e viu dois caules espinhentos do emaranhado de cactos à direita girando devagar e dirigindo-se cegamente para ele. Ouviu-se um estalo trincado, e gotas de seiva branca começaram a escorrer pelo tronco central do mandacaru. Os espinhos nos braços balançando em direção a Jake pareciam longos e maus ao luar. A coisa sentira o cheiro dele e estava faminta.
— Vamos — disse a Oi, e tocou de leve com as botas os flancos do pônei, que não precisava mais de exortação. Saiu apressado morro abaixo, não exatamente trotando, para o prédio com lâmpadas fluorescentes. Oi lançou ao cacto que se deslocava um último olhar cheio de desconfiança, depois os seguiu.
7
Jake chegou à entrada de garagem e parou a cerca de 50 metros adiante na estrada (não bem exatamente uma estrada, nem fora uma há muito tempo), trilhos de trem cruzavam-na e depois corriam para o Devar-Tete Whye, onde uma ponte baixa os levava ao outro lado. O pessoal de Calla chamava aquela ponte de caminho elevado do diabo.
— Os trens que trazem os roonts de volta do Trovão vêm naqueles trilhos — murmurou a Oi.
E teria sentido o puxão do Feixe de Luz? Tivera uma idéia de que quando deixassem Calla Bryn Sturgis — se deixassem Calla Bryn Sturgis — seria por aqueles trilhos.
Ficou onde estava mais um momento, os pés fora dos estribos, e depois conduziu o pônei acima pela entrada de garagem em ruínas rumo ao prédio. A Jake parecia uma barraca Quonset numa base militar. Oi, com as pernas curtas, passava maus momentos seguindo na superfície estropiada. Aquela pavimentação despedaçada seria perigosa também para o cavalo. Assim que o portão imobilizado ficou para trás, Jake desmontou e procurou um lugar para amarrar a montaria. Havia mato espesso próximo, mas alguma coisa lhe dizia que era cerrado demais. Saiu com o pônei até o terreno duro, parou e olhou para Oi:
— Fique!
— Fique! Oi! Aque!
Jake encontrou mais matagal cerrado atrás de uma pilha de pedregulhos que pareciam uma série de imensos blocos de montar gastos pela erosão. Ali se sentiu satisfeito o bastante para amarrar o pônei. Assim que o fez, afagou o comprido e aveludado focinho.
— Não é por muito tempo — disse. — Vai ficar bem?
O pônei bufou pelas narinas e pareceu assentir com a cabeça. O que provavelmente nada significava, sabia Jake. E provavelmente era uma precaução desnecessária, de qualquer modo. No entanto, mais segura que lamentável. Voltou à entrada de veículos e curvou-se para suspender o trapalhão. Assim que se aprumou, uma série de luzes brilhantes acenderam-se num lampejo, pregando-o como um percevejo num palco microscópico. Segurando Oi na curva de um dos braços, ergueu o outro para proteger os olhos. O trapalhão ganiu e piscou.
Não houve nenhum grito de advertência nem severa exigência de identificação, apenas a fraca fungada da brisa. As luzes eram acesas por sensores de movimento, imaginou Jake. Que viria em seguida? Fogo de metralhadora dirigido por computadores? Uma corridinha de pequenos mas mortais robôs como aqueles que Roland, Eddie e Susannah haviam despachado na clareira, onde começara o Feixe de Luz que eles haviam seguido? Talvez uma enorme rede lançada de cima, como no filme de selva que ele vira uma vez na TV?
Jake ergueu os olhos. Nenhuma rede. Tampouco metralhadoras. Recomeçou a avançar, contornando os buracos e saltando sobre um vazamento de água. Além deste, embora inclinado e rachado, o terreno era mais inteiro.
— Pode descer agora — disse a Oi. — Menino, como você está gordo. Cuidado, senão vou ter de inscrevê-lo nos Vigilantes do Peso.
Mantinha os olhos direto em frente, franzindo-os e protegendo-os do violento clarão. As luzes em série corriam abaixo do teto curvo da barraca Quonset. Projetavam sua sombra longa e escura atrás dele. Jake viu cadáveres de gatos-da-montanha, dois à esquerda e dois mais à direita. Três deles quase não passavam de esqueletos. O quarto achava-se em avançado estado de decomposição, mas ele viu um buraco que parecia grande demais para uma bala. Achou que fora feito por um disparo de bah. A idéia era reconfortante. Nada de armas de superciência em ação ali. Mesmo assim, não era ele louco por não bater em retirada de volta ao rio e a Calla além? Não era?
— Louco — disse.
— Ouço — disse Oi, chapinhando mais uma vez na cola dele.
Um minuto depois, chegaram à porta do galpão. Acima dela, numa placa de aço enferrujada, lia-se o seguinte:
NORTH CENTRAL POSTTRONICS, LTDA.
Corredor Nordeste
Quadrante do Arco
POSTO AVANÇADO 16
Segurança Média
EXIGE-SE CÓDIGO DE ENTRADA VERBAL
Na própria porta, pendendo torta de apenas dois parafusos, outra tabuleta. Uma brincadeira? Algum tipo de apelido? Jake achou que podia ser um pouco das duas coisas. Embora as letras estivessem cobertas de ferrugem corroídas sabia Deus por quantos anos de açoite de pó e grão de areia de cascalho, ele conseguiu lê-las:
BEM-VINDO A DOGAN
8
Jake esperava encontrar a porta trancada e não ficou decepcionado. A maçaneta de alavanca subiu e desceu apenas com um mínimo de folga. Ele imaginou que quando nova nem teria mexido. A esquerda da porta havia um painel de aço enferrujado com um botão e uma pequena grade-falante. Abaixo desta, a palavra VERBAL. Jake estendeu a mão para apertar o botão, e de repente as luzes que contornavam o alto do prédio se apagaram. Controladas por timer, pensou, esperando que os olhos se ajustassem. Um tempo muito breve. Ou talvez apenas estejam ficando cansadas, como tudo mais que o Povo Antigo deixou para trás.
Assim que seus olhos se adaptaram ao luar, ele tornou a ver a caixa de entrada. Teve uma ótima idéia de qual devia ser o código de entrada. Apertou o botão.
— BEM-VINDO AO POSTO AVANÇADO 16 DO QUADRAN-TE DO ARCO — disse uma voz.
Jake deu um salto para trás, sufocando um grito. Esperara uma voz, mas não tão misteriosamente igual à do Mono Blaine. Quase esperava que passasse para uma voz arrastada de John Wayne e o chamasse de alpinista. ESTE É UM POSTO AVANÇADO DE SEGURANÇA MÉDIA. FAVOR DAR A SENHA DE ENTRADA VERBAL. VOCÊ TEM DEZ SEGUNDOS. NOVE... OITO...
— Dezenove — disse Jake.
— SENHA DE ENTRADA VERBAL INCORRETA. VOCÊ TEM MAIS UMA TENTATIVA. CINCO... QUATRO... TRÊS...
— Noventa e nove — disse Jake.
— OBRIGADO.
A porta abriu-se com um estalo.
9
Jake entrou com Oi numa sala que lhe lembrava a imensa área de controle a que Roland o levara sob a cidade de Lud, ao seguirem a bala de aço que os guiara até o berço de Blaine. Esse espaço agora era menor, claro, mas vários dos mostradores e painéis pareciam os mesmos. Havia cadeiras em alguns dos consoles, daquelas que deslizam pelo piso para que as pessoas que trabalham ali se desloquem de um lugar ao outro sem ter de levantar-se. Embora houvesse um bafio de ar fresco constante, Jake ouvia ocasionais matraqueados brutos da maquinaria que o governava. E embora três quartos dos painéis estivessem acesos, ele percebeu que muitos estavam apagados. Velhos e cansados: tiveram razão sobre isso. Num canto, estendia-se um esqueleto sorridente nos vestígios de um uniforme caqui.
Num dos lados da sala ficava uma bancada de monitores de TV. Lembravam um pouco a Jake o estúdio do pai em casa, embora o pai só tivesse três telas — uma para cada rede —, e ali havia... contou. Trinta. Três delas estavam pouco nítidas, mostrando imagens que ele não conseguia realmente entender. Duas deslizavam rápido para cima e para baixo, como se o controle vertical tivesse sofrido avaria. Quatro estavam inteiramente apagadas. Outras 21 projetavam imagens, e Jake olhava-as com crescente admiração. Meia dúzia mostrava várias partes de deserto, entre elas o topo da montanha guardada pelos dois cactos disformes. Outras duas mostravam o posto avançado — a Dogan — de trás e do lado da entrada para carros. Abaixo destas, três telas mostravam o interior da Dogan. Uma exibia um cômodo que parecia uma pequena cozinha. A segunda mostrava um pequeno alojamento, parecendo equipado para dormirem oito (num dos beliches, no de cima, Jake viu outro esqueleto). A terceira tela do interior da Dogan apresentava aquele cômodo, de um ângulo alto. Jake se via a si mesmo e a Oi. Havia uma tela com uma faixa dos trilhos da estrada, e outra mostrando o Pequeno Whye daquele lado, banhado de luar e lindo. Na extrema direita, estava a passagem elevada com os trilhos férreos cruzando-a.
Foram as imagens nas outras oito telas em operação que assombraram Jake. Uma mostrava o Armazém Geral de Took, agora escuro e deserto, fechado até o raiar do dia. Outra o Pavilhão. Duas a rua Alta de Calla. Outra, a igreja Nossa Senhora da Serenidade, e outra a sala da reitoria... dentro da reitoria! Jake viu na verdade o gato do padre, Snugglebutt, deitado dormindo na lareira. As outras duas, ângulos do que Jake imaginou fosse a aldeia dos mannis (ele não estivera lá).
Onde, em nome do diabo, estão as câmeras?, perguntou-se Jake. Como é que ninguém as vê?
Porque são pequenas demais, supôs. E porque haviam sido escondidas. Sorria, você está sendo filmado.
Mas a igreja, a reitoria, eram prédios que só existiam em Calla desde alguns anos antes. E dentro? Dentro da reitoria? Quem pusera a câmera ali, e quando?
Jake não sabia quando, mas teve uma terrível idéia de que sabia quem. Graças a Deus, haviam feito quase toda a confabulação no alpendre ou no gramado do lado de fora. Mas, mesmo assim, até onde os Lobos — ou seus donos — saberiam? Até onde haviam as máquinas infernais daquele lugar, as porras das máquinas daquele lugar, gravado?
E transmitido?
Ele sentiu uma dor nas mãos e se deu conta de que as cerrara com força, as unhas cortando as palmas. Abriu-as com esforço. Esperava o tempo todo que a voz da grade alto-falante — a voz parecidíssima com a de Blaine — o desafiasse, perguntasse o que fazia ali. Mas imperava um quase silêncio total naquele espaço não exatamente de ruína; apenas o zumbido do equipamento e o ocasional silvo rascante de circuladores de ar. Olhou para a porta atrás e viu que se fechara numa dobradiça automática. Não ficou muito preocupado a respeito; daquele lado onde ele se encontrava, na certa abriria com facilidade. Se não, o bom velho 99 o tiraria de novo dali. Lembrou-se de quando se apresentou ao povo de Calla naquela primeira noite no Pavilhão, uma noite que já parecia muito tempo atrás. Sou Jake Cbambers, filho de Elmer, a Linhagem de Eld. O ka-tet do 99. Por que dissera isso? Não sabia. Só sabia que as coisas não paravam de reaparecer. Na escola, a Sra. Avery lera um poema para eles, “O Segundo Advento”, de William Butler Yeats. Falava alguma coisa sobre um falcão rodando e rodando num imenso giro, que era — segundo a Sra. Avery — uma espécie de círculo. Mas as coisas ali eram numa espiral, não num círculo. Para o Ka-tet do 19 (ou do 99; Jake tinha uma idéia de que eram realmente os mesmos), as coisas iam ficando mais uniformizadas à medida que o mundo em volta delas envelhecia, afrouxava-se, fechava-se, lançava peças de si mesma. Era como estar no ciclone que havia transportado Dorothy para a Terra de Oz, onde feiticeiras eram reais e bumhugs governavam. Para o coração de Jake, fazia perfeito sentido que estivessem vendo as mesmas coisas repetidas vezes, e com freqüência cada vez maior, porque...
O movimento numa das telas atraiu seu olhar. Olhou-a e viu o pai de Bennv e o Mensageiro Andy chegando ao topo do morro guardado pelos sentinelas cactos. Os braços de caule giraram para dentro a fim de bloquear a estrada — e talvez empalar a presa. Andy, contudo, não tinha motivo algum para temer espinhos de cacto. Girou um braço e quebrou um dos caules na metade do comprimento. O caule caiu no chão, esguichando gosma branca. Talvez nem fosse seiva. Talvez fosse sangue. Em todo caso, Andy e Ben Slightman pararam por um momento, talvez para discutir a respeito. A resolução da tela não era bastante clara para mostrar se a boca humana se movia ou não.
Jake foi tomado por um pânico terrível e sufocante. E seu corpo de repente pareceu pesado demais, como rebocado pela gravidade de um planeta gigantesco como Júpiter ou Saturno. Não conseguia respirar; tinha o peito inteiramente arriado. Assim deveria ter-se sentido a Cachinhos de Ouro, pensou, de uma maneira distante e fraca, se houvesse acordado na caminha do tamanho certo para ouvir os Três Ursos voltando no andar de baixo. Ele não comera o mingau, não quebrara a cadeira do Ursinho, mas sabia de segredos demais. Reduziam-se a um único segredo. Um segredo monstruoso.
Agora chegavam pela estrada. Chegavam a Dogan.
Oi olhava-o, ansioso, o longo pescoço esticado ao máximo, mas Jake mal o via. Flores negras desabrochavam em seus olhos. Logo desmaiaria. Iam encontrá-lo estendido ali no chão. Oi poderia tentar protegê-lo, mas se Andy não cuidasse do trapalhão, Ben Slightman o faria. Havia quatro gatos-da-montanha mortos ali, e o pai de Benny despachara pelo menos um deles com seu certeiro bah. Um trapalhão rosnando não seria problema algum para ele.
Você seria tão covarde assim, então?, perguntou Roland dentro de sua cabeça. Mas por que eles matariam um covarde como você? Por que não o mandam apenas para oeste com os estropiados como você que esqueceram os rostos de seus pais?
Isso o trouxe de volta. Quase todo, pelo menos. Inspirou profundamente, sorvendo ar até lhe doer o fundo dos pulmões. Soltou um explosivo sibilo. Depois se deu uns tapas no rosto, bons e fortes.
— Aque! — gritou Oi com uma voz reprovadora, quase chocada.
— Tá tudo bem — disse o garoto.
Olhou para os monitores que mostravam a cozinha e o alojamento e decidiu-se pelo último. Não havia nada atrás do que se esconder na cozinha. Talvez houvesse um armário, mas e se não houvesse? Estaria fodido.
— Oi, a mim — disse, e atravessou a sala sob as fortes luzes brancas.
10
O alojamento guardava o fantasmagórico aroma de especiarias antigas: canela e cravo. Jake perguntou-se — de uma maneira distraída, do fundo da mente — se os túmulos embaixo das pirâmides exalavam aquele cheiro quando os primeiros exploradores entraram neles. Do beliche superior no canto o esqueleto deitado sorria como dando-lhe boas-vindas. Afim de um cochilo, alpinista? Estou tirando um dos longos! Sua caixa torácica tremeluzia com sedosas camadas de teia de aranha, e Jake perguntou-se daquela mesma maneira distraída quantos filhotes de aranha haviam nascido naquela cavidade vazia. Em outro travesseiro jazia um maxilar, incitando uma lembrança espectral, apavorante, do fundo de sua mente. Outrora, num mundo em que ele morrera, o pistoleiro encontrara um osso igual àquele. E usara-o.
A frente de sua mente martelou com duas perguntas frias e uma resolução ainda mais fria. As perguntas eram quanto tempo levaria para chegarem ali e se iam ou não descobrir seu pônei. Se Slightman estivesse montado em seu cavalo, Jake tinha certeza de que o amável poneizinho já teria relinchado uma saudação. Por sorte, Slightman estava a pé, como da última vez. Jake também teria vindo a pé, se soubesse que sua meta ficava apenas 1 quilômetro e meio a leste do rio. Claro, quando saíra às ocultas da Rocking B nem soubera com certeza de que tinha uma meta.
A resolução foi matar os dois, o homem de lata e o de carne e osso, se fosse descoberto. Se pudesse, quer dizer. Andy talvez fosse durão, mas aqueles olhos de vidro azul esbugalhados pareciam um ponto fraco. Se conseguisse cegá-lo...
Haverá água, se Deus quiser, disse o pistoleiro que agora vivia em sua cabeça, para o bem e para o mal. Sua tarefa agora é esconder-se, se puder. Onde?
Não nos beliches. Todos eram visíveis no monitor que cobria aquele cômodo, e ele não tinha como personificar um esqueleto. Debaixo de um dos estrados do beliche no fundo? Arriscado, mas serviria... a não ser que...
Jake avistou outra porta. Saltou à frente, abaixou a maçaneta e abriu-a. Era um armário, e os armários davam bons esconderijos, mas aquele estava cheio de equipamentos eletrônicos enferrujados, misturados de cima a baixo. Alguns caíram no chão.
— Caracas! — sussurrou ele numa voz baixa, urgente.
Pegou o que caíra, jogou em cima e embaixo, depois tornou a fechar a porta. Tudo bem, teria de ser debaixo de uma das camas...
— BEM-VINDO AO POSTO AVANÇADO 16 DO QUADRAN-TE DO ARCO — troou a voz gravada. Jake recuou e viu outra porta, esta semi-aberta. Tentar a porta ou se espremer debaixo de um dos estrados de beliche no fundo do quarto? Tinha tempo para tentar um ou outro esconderijo, mas não os dois. — ESTE É UM POSTO AVANÇADO DE SEGURANÇA MÉDIA.
Jake partiu para a porta e acertou em cheio ao fazê-lo, porque Slight-man não deixou a gravação terminar sua arenga.
— Noventa e nove — chegou a voz dele dos alto-falantes, e a gravação agradeceu.
Era outro armário, este vazio, a não ser por duas ou três camisas num canto e um poncho pendurado num gancho. O ar era quase tão empoeirado quanto o poncho, e Oi deu três espirros rápidos, delicados, ao entrar.
Jake abaixou-se sobre um joelho e passou o braço em volta do es-guio pescoço do trapalhão.
— Não faça mais isso, a não ser que queira nós dois mortos — disse ele. — Calado, Oi.
— Alado, Oi — sussurrou de volta o trapalhão e piscou os olhos. Jake estendeu a mão e puxou a porta a 5 centímetros de fechada, como estava antes. Ele esperava.
11
Ouvia-os com muita clareza — clareza demais. Jake percebeu que havia microfones e alto-falantes por todos os lados. A idéia em nada contribuiu para sua paz de espírito. Porque se ele e Oi os ouviam...
Falavam, ou melhor, Slightman falava dos cactos. Chamava-os de flores peludas, e queria saber o que os deixara eriçados.
— Com quase toda a certeza, gatos-da-montanha, sai — disse Andy, com a voz complacente e meio efeminada.
Eddie disse que Andy fazia-o lembrar-se de um robô chamado C3PO em Guerra nas Estrelas, um filme que Jake andara à procura. Perdera-o por menos de um mês.
— É a época de acasalamento deles, você sabe.
Um pensamento desanimador esgueirou-se pela mente de Jake: o piso da Dogan estava empoeirado? Ficara ocupado olhando boquiaberto os painéis de controle e os monitores de TV para notar. Se ele e Oi tivessem deixado rastros, aqueles dois já poderiam ter percebido. Talvez só fingissem ter uma conversa sobre cactos, embora na verdade avançassem furtivamente para a porta do alojamento.
Jake tirou a Ruger do coldre embaixo do braço e segurou-a na mão direita com o polegar na trava de segurança.
— Uma consciência pesada não nos torna a todos covardes — disse Andy com a complacente voz de só-achei-que-você-gostaria-de-saber. — Esta é a minha adaptação livre de um...
— Cale a boca, seu saco de parafusos e fios — rosnou Slightman. — Eu...
Então ele gritou. Jake sentiu Oi enrijecer-se junto dele, o pêlo começando a eriçar-se. O trapalhão se pôs a rosnar. Jake passou a mão em volta de seu focinho.
— Me largue! — gritou Slightman. — Tire a mão de mim!
— Claro, sai Slightman — disse Andy, agora parecendo solícito. —-Só apertei um nervinho no seu cotovelo, você sabe. Não vai causar danos duradouros, a não ser que eu pusesse no mínimo cinco libras-peso de pressão.
— Por que diabos faria isso? — Slightman parecia ofendido, quase gemendo. — Não estou fazendo tudo que você quer, e mais? Não estou arriscando a vida pelo meu filho?
— Sem falar em alguns extras — disse Andy docemente. — Seus óculos, a máquina de música que guarda no fundo de seu alforje... e, claro...
— Você sabe por que estou fazendo isso e o que teria acontecido comigo se eu fosse descoberto — disse Slightman. O gemido desaparecera da voz. Agora parecia digno e meio fatigado. Jake ouviu aquele tom com crescente consternação. Se saísse daquilo e tivesse de denunciar o pai de Benny, queria denunciar um vilão. — É, aceitei alguns extrazinhos, você diz a verdade, eu agradeço. Óculos, para ver melhor e trair as pessoas que conheço de toda a vida. Uma máquina de música para não ter de ouvir a consciência de que você fala sem dificuldade e que não o impede de dormir à noite. Então belisca alguma coisa no meu braço que me faz sentir como se meus olhos de grife Riza fossem saltar direto da minha cabeça grife Riza.
— Eu aceito isso de todos os outros — disse Andy, e agora a voz mudara. Jake mais uma vez pensou em Blaine, e mais uma vez aumentou sua consternação. E se Tian Jaffords ouvisse aquela voz? E Vaughn Eisenhart? Overholser? O resto do pessoal? — Eles espancam o tempo todo minha cabeça como carvões em brasa e eu jamais levanto uma palavra de protesto, quanto mais a mão. “Vem cá, Andy. Vai ali, Andy. Pára com essa cantoria idiota, Andy. Engula sua falação. Não nos fale do futuro, porque não queremos saber.” Então eu não falo, a não ser dos Lobos, porque eles ouvem o que os deixa tristes, e eu falo, sim, falo; para os meus ouvidos cada lágrima é uma gota de ouro: “Você não passa de uma pilha imbecil de luzes e fios”, dizem. “Diga-nos a meteorologia, cante pro bebê dormir, depois suma daqui.” E eu deixo. Idiota de Andy que sou, brinquedo de toda criança e sempre vítima fácil de um açoite de língua. Mas não aceito um açoite de língua de você, sai. Espera ter um futuro em Calla depois que os Lobos acabarem com ela por mais alguns anos, não?
— Você sabe o que eu quero — disse Slightman, tão baixo que Jake mal o ouviu. — E mereço.
— Você e seu filho, digam os dois obrigado, passando os dias em Calla, digam os dois commala! E isso pode acontecer, mas depende mais da morte dos forasteiros do outro mundo. Depende do meu silêncio. Se quer isso, exijo respeito.
— Mas que absurdo — disse Slightman após uma breve pausa. Do seu lugar no armário, Jake concordava categoricamente. Um robô exigir respeito era absurdo. Mas também era absurdo um urso gigantesco patrulhar uma floresta vazia, um bandido Morlock tentar desvendar os segredos de computadores bipolares ou um trem que só vivia para ouvir e resolver novas adivinhações. — E, além disso, eu peço que me escute, como posso respeitá-lo, quando não respeito nem a mim mesmo?
Houve um clique mecânico em resposta a isso, muito alto. Jake ouviu Blaine emitir um ruído semelhante quando ele — ou aquilo — sentira o absurdo fechando, ameaçando fritar seus circuitos lógicos. Então o robô disse:
— Sem resposta, 19. Conecte-se e informe, sai Slightman. Vamos acabar logo com isso.
— Está bem.
Foram trinta ou quarenta segundos de batidas de teclado, depois um sibilo alto, modulado, que fez Jake estremecer e Oi ganir no fundo da garganta. Jake jamais ouvira um som igual àquele; ele era da Nova York de 1977, e a palavra modem nada teria significado para ele.
O guincho estridente interrompeu-se bruscamente. Fez-se um momento de silêncio. Depois:
— AQUI É ALGUL SIENTO. AQUI FINLI O’ TEGO. DÊ SUA SENHA. VOCÊ TEM DEZ SEGUNDOS...
— Sábado — respondeu Slightman, e Jake franziu a testa. Ouvira aquela feliz palavra de fim de semana nesse lado? Achava que não.
— OBRIGADO. ALGUL SIENTO RECONHECE. ESTAMOS ONLINE. — Houve outro assobio estridente. Depois: — INFORME, SÁBADO.
Slightman falou que vira Roland e “o mais jovem” subirem até a Gruta das Vozes, onde havia algum tipo de porta, com grande probabilidade invocada pelos mannis. Disse que usara o visor de distância e assim tivera uma visão muito boa...
— Telescópio — disse Andy. Retornara à voz complacente e meio efeminada. — Chamam-se telescópios.
— Gostaria de fazer meu relatório, Andy? — perguntou Slightman com frio sarcasmo.
— Rogo perdão — disse Andy, com uma voz de longo sofrimento. — Rogo perdão, rogo perdão, continue, continue, como quiser.
Houve uma pausa. Jake imaginou Slightman disparando um olhar furioso ao robô, um olhar tornado menos furioso pela maneira como o capataz teria esticado o pescoço para lançá-lo. Por fim, continuou:
— Eles deixaram os cavalos embaixo e subiram a pé. Levaram um saco cor-de-rosa que passavam de mão em mão, como se fosse pesado. Seja o que for que estava dentro, tinha bordas quadradas; deduzi isso pelo visor do telescópio. Posso oferecer dois palpites?
— SIM.
— Primeiro, talvez estivessem pondo dois ou três livros mais valiosos do père em segurança. Neste caso, um Lobo devia ser mandado pra destruí-los depois de concluída a missão principal.
— POR QUÊ? — A voz foi inteiramente fria. Não a de um ser humano, Jake teve certeza. O som fê-lo sentir-se fraco e receoso.
— Ora, como um castigo, se faz favor — disse Slightman, como se devesse ser óbvio. — Como um castigo pra servir de lição ao padre!
— CALLAHAN MUITO EM BREVE ESTARÁ ALÉM DE CASTIGOS — disse a voz. — QUAL O OUTRO PALPITE?
Quando Slightman voltou a falar, parecia abalado. Jake esperava que o filho-da-puta do traidor ficasse abalado. Protegia o filho, claro, mas por que achava que isso lhe dava o direito de...
— Talvez haja mapas — disse Slightman. — Pensei um longo tempo que um homem que tem livros é propenso a ter mapas. Talvez tenha lhes dado mapas das Regiões do Leste que levam ao Trovão... eles não têm se furtado a dizer que é onde planejam ir em seguida. Se forem mapas que os levem até lá, muito bem lhes farão, até se viverem. No próximo ano, o norte será leste, e provavelmente no ano seguinte trocará de lugar com o sul.
Na empoeirada escuridão do armário, Jake viu de repente Andy observando Slightman fazer seu relatório. Os olhos azuis elétricos do robô faiscavam. Slightman não sabia — ninguém em Calla sabia —, mas aqueles lampejos rápidos eram a maneira como DNF-44821-V-63 expressava humor. Ele estava, de fato, rindo de Slightman.
Porque ele sabe mais das coisas, pensou Jake. Porque sabe o que tem realmente naquela sacola. Aposto uma caixa de cookies que sabe.
Poderia ter tanta certeza disso? Era possível usar o toque num robô?
e ele pensa, falou o pistoleiro em sua cabeça, então você pode tocá-lo. Bem... talvez.
— Fosse o que fosse, é uma indicação danada de boa de que eles realmente planejam levar as crianças para os arroios — dizia Slightman. — Não que vão colocá-las naquela gruta.
— Não, não, naquela gruta não — disse Andy, e embora sua voz fosse tão séria-efeminada como sempre, Jake imaginou que os olhos faiscavam ainda mais rápido. Quase gaguejando, de fato. — Vozes demais naquela gruta, eles iam apavorar as crianças! Yer-bugger!
Robô Mensageiro DNF-44821-V-63. Mensageiro! Você poderia acusar Slightman de traição, mas como alguém poderia acusar Andy? O que ele fazia, o que ele era, estivera estampado em seu peito para o mundo todo ver. Ali estivera, diante de todos eles. Deuses!
O pai de Benny, enquanto isso, trabalhava impassivelmente em seu relatório a Finli o’Tego, que se encontrava em algum lugar chamado Algul Siento.
— A mina que ele nos mostrou no mapa que os Tavery desenharam é a Glória, e a Glória fica apenas a menos de 2 quilômetros da Gruta das Vozes. Mas o safado é esperto. Posso dar outro palpite?
— SIM.
— O arroio que leva à mina Glória se bifurca para o sul após uns 500 metros. Há outra mina velha no fim do percurso. Chama-se Cardeal Dois. O dinh deles anda dizendo ao pessoal que pretende pôr as crianças na Glória, e acho que vai dizer o mesmo a eles na assembléia a ser convocada mais tarde nesta semana, na qual pede licença para lutar contra os Lobos. Mas creio que, quando chegar a hora, ele vai ficar mesmo na Cardeal. Mandará as Irmãs de Oriza montar guarda, na frente e acima também, e faríamos bem não subestimando aquelas donas.
— QUANTAS?
— Acho que cinco, se ele incluir Sarey Adams entre elas. Mais alguns homens com bahs. Vai pôr o bolinho de chocolate com elas, você sabe, e ouvi dizer que ela é boa. Talvez a melhor de todas. Mas, de um ou de outro jeito, sabemos onde vão estar as crianças. Colocá-las num lugar daqueles é um erro, mas ele não sabe disso. Ele é perigoso, mas envelhecendo nas idéias. Provavelmente, essa estratégia funcionou pra ele antes.
E funcionara, claro. No desfiladeiro da Flecha, contra os homens de Latigo.
— O importante agora é descobrir onde ele e o cara mais moço vão estar quando os Lobos chegarem. Talvez ele conte na assembléia. Se não, talvez diga a Eisenhart depois.
— OU A OVERHOLSER?
— Não. Eisenhart vai lutar com ele. Overholser, não.
— VOCÊ PRECISA DESCOBRIR ONDE ELES VÃO ESTAR.
— Eu sei — disse Slightman. — Nós vamos descobrir, Andy e eu, e vamos fazer depois mais uma excursão ao lugar profano. Então, juro pela Senhora Oriza e o Homem Jesus que terminei minha parte. Agora podemos sair daqui?
— Num instante, sai — disse Andy. — Tenho de fazer o meu relatório, você sabe.
Ouviu-se mais um daqueles guinchos longos e sibilantes. Jake rangeu os dentes e esperou que terminasse, e por fim terminou. Finli o’Tego se desconectou.
— Terminamos? — perguntou Slightman.
— A não ser que você tenha algum motivo pra se demorar, creio que sim — disse Andy.
— Alguma coisa aqui lhe parece diferente? — perguntou de repente Slightman, e Jake sentiu o sangue gelar.
— Não — disse Andy —, mas tenho grande respeito pela intuição humana. Está tendo alguma intuição, sai?
Houve uma pausa que pareceu durar no mínimo um minuto inteiro, embora Jake soubesse que devia ser muito mais curta. Encostou a cabeça de Oi no joelho e esperou.
— Não — disse Slightman. — Acho que só estou ficando meio nervoso, agora que está perto do fim. Meu Deus, queria que já tivesse terminado. Odeio isso!
— Você está agindo certo, sai. —Jake não sabia quanto a Slightman, mas o tom pastosamente solidário fê-lo ranger os dentes. — A única coisa, na verdade. Não é sua culpa que seja pai do único gêmeo sem par em Calla Biyn Sturgis, é? Conheço uma cantiga que fala disso de uma forma particularmente comovente. Talvez queira ouvir...
— Feche a matraca! — gritou Slightman, a voz engasgada. — Feche a matraca, seu diabo mecânico! Eu vendi a porra da minha alma, não basta pra você? Preciso também fazer uma exibição disso?
— Se o ofendi, peço desculpas do fundo do meu coração — disse Andy. — Em outras palavras, rogo seu perdão.
Parecia sincero. Parecia acreditar em cada palavra dita. Parecia seguro de si. Mas Jake teve certeza de que os olhos do robô faiscavam em rajadas de silenciosas risadas azuis.
12
Os conspiradores saíram. Ouviu-se um anúncio estranho e sem sentido, melodioso, dos alto-falantes acima (sem sentido para Jake, pelo menos) e depois silêncio. Ele esperava que eles descobrissem seu pônei, voltassem, vasculhassem à sua procura, o encontrassem e o matassem. Após contar até 120, e não havendo eles voltado a Dogan, levantou-se (a dose excessiva de adrenalina em seu sistema deixou-o sentindo-se tão enrijecido quanto um velho) e voltou para a sala de controle. Chegou bem a tempo de ver as luzes do sensor de movimentos se apagarem. Olhou o monitor que mostrava o alto da colina e viu amargamente divertido Slightman e Andy seguirem pela diferença das alturas dos dois. Sempre que seu pai via uma dupla assim de Mutt e Jeff, dizia inevitavelmente: Ponha-os numa comédia de vaudeville. Era quase o mais próximo de uma piada a que Elmer Chambers conseguia chegar.
Quando aquela dupla saiu de seu raio de visão, Jake olhou para o chão. Nenhuma poeira, claro. Nenhuma poeira e nenhum rastro. Ele deveria ter visto isso quando entrou. Claro que Roland teria visto. Roland teria visto tudo.
Jake queria sair, mas se forçou a esperar. Se eles vissem as luzes do sensor de movimentos tornarem a acender-se atrás, na certa iam imaginar que se tratava de um gato-da-montanha (ou talvez o que Benny chamava de “armydillo”), mas talvez não fosse muito bom. Para passar o tempo, olhou os vários painéis, muitos com o nome Indústrias LaMerk. Contudo, também viu os conhecidos logotipos da GE e da IBM, mais um que desconhecia — Microsoft. Toda a parafernália trazia inscritas as palavras MADE IN USA. Os produtos LaMerk não tinham essa inscrição.
Teve quase certeza de que alguns dos teclados que viu — pelo menos duas dezenas — eram computadores controlados. Que parafernália havia mais ali? Quantas engenhocas ainda funcionavam? Seriam as armas armazenadas ali? De algum modo achou que a resposta a esta pergunta era não — se tivessem existido armas, sem dúvida já haviam sido desativadas ou apropriadas, com grande chance por Andy, o Robô Mensageiro (Multifuncional).
Acabou decidindo que era mais seguro ir embora — se, quer dizer, fosse extremamente cuidadoso, cavalgasse de volta ao rio e se esforçasse para chegar à Rocking B pelos fundos. Já quase alcançava a porta, quando lhe ocorreu outra questão. Haveria alguma gravação da visita dele e de Oi à Dogan? Estariam num videoteipe em algum lugar? Olhou para as telas de TV em operação, poupando o último e longo olhar para a que mostrava a sala de controle. Ele e Oi reapareceram mais uma vez enquadrados. Do ângulo alto da câmera, qualquer um naquela sala teria de estar naquela imagem.
Deixe isso pra lá, aconselhou-o o pistoleiro na cabeça. Você não pode fazer nada, logo deixe pra lá. Se tentar remexer e espionar, é provável que deixe sinais. Talvez até dispare um alarme.
A idéia de disparar um alarme convenceu-o. Pegou Oi no braço, mais por conforto que por qualquer outra coisa, e se mandou. O pônei estava no lugar exato onde o deixara, pastando a sonhar no mato ao luar. Não havia rastros no pátio de montagem... mas, viu Jake, ele mesmo não deixava nenhum. Andy teria quebrado a superfície porosa o bastante para deixar rastros, mas não ele. Não tinha peso suficiente. Na certa o pai de Benny também não teria.
Esqueça. Se eles o houvessem farejado, teriam voltado.
Jake imaginou que era verdade, mas se sentia meio como Cachinhos de Ouro saindo nas pontas dos pés da casa dos Três Ursos. Conduziu o pônei de volta à estrada deserta, vestiu o poncho e pôs Oi no espaçoso bolso da frente. Ao montar, bateu com força o trapalhão no arção da sela.
— Ai, Aque! — disse Oi.
— Esqueça, seu bebê — disse ele, dando meia-volta no pônei em direção ao rio. — Precisa ficar calado, agora.
— Queça — concordou Oi, e deu-lhe uma piscadela.
Jake deslizou os dedos pelo espesso pêlo do trapalhão e cocou o lugar que ele mais gostava. Oi fechou os olhos, esticou o focinho a uma distância quase cômica e sorriu.
Ao chegarem ao rio, Jake desmontou e perscrutou sobre uma pedra os dois lados. Embora nada visse, tinha o coração na garganta durante toda a travessia até o outro lado do rio. Não parava de pensar no que diria se o pai de Benny o saudasse e perguntasse o que fazia ali fora no meio da noite. Nada veio. Na aula de inglês, quase só tirava A em seus deveres de redação criativa, mas agora descobria que medo e imaginação não se misturavam. Se o pai de Benny o saudasse, Jake seria apanhado. Muito simples.
13
Depois que Jake se enfiou de volta no colchonete e puxou as cobertas, Oi pulou para a cama de Benny e deitou-se, o focinho mais uma vez embaixo da cauda. Benny ressonava em sono profundo. Ele gostava de Benny — de sua disponibilidade, da ânsia por diversão, da disposição para trabalhar. Gostava da risada trinada dele quando achava alguma coisa engraçada, e da forma como os dois combinavam em tantas coisas, e...
Até aquela noite, Jake gostara do pai de Benny, também.
Tentou imaginar como Benny ia olhá-lo quando descobrisse que (a) seu pai era um traidor e (b) seu amigo o delatara. Jake achava que suportava raiva. A mágoa é que ia ser difícil.
Acha que mágoa vai ser tudo? É melhor pensar de novo. Não há muita sustentação no mundo sob Benny, e isso vai derrubar todos os suportes sob ele. Cada um.
Não é minha culpa que o pai dele seja espião e traidor.
Mas também não era de Benny. Se a gente perguntasse a Slightman, na certa ele diria que tampouco era dele, que fora obrigado a sê-lo. Jake imaginou que isso era quase verdade. Completamente verdade, se se visse tudo com o olho de um pai. Que era aquilo que os gêmeos de Calla criavam e os Lobos precisavam? Alguma coisa no cérebro deles, com quase toda a certeza. Algum tipo de enzima ou secreção não produzida por crianças individuais; talvez o fenômeno da “telepatia de gêmeos”. Fosse o que fosse, poderiam tirar de Benny Slightman, pois Benny Slightman só parecia individual. Sua irmã morrera? Bem, isso era duro, não era? Muito duro, sobretudo para o pai que amava o que restara. Que não suportaria separar-se dele.
Imagine se Roland o matar? Como Benny vai olhar para você depois?
Uma vez, em outra vida, Roland prometera tomar conta de Jake Chambers e depois deixara-o cair nas trevas. Jake então achara que não poderia haver pior traição que aquela. Agora não tinha tanta certeza. Não, certeza nenhuma. Esses pensamentos tristes mantiveram-no acordado por um longo tempo. Mais ou menos meia hora depois o primeiro laivo do alvorecer tocou o horizonte, ele apagou num sono superficial e agitado.
CAPÍTULO 4
O Flautista de Hamelin