A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 24 de 43

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

Capítulo 9 · Conclusão da História do Padre

 

(Desconhecida)

 

1

— As camas estão prontas — disse Rosalita Munoz quando eles voltaram.

Eddie estava tão cansado que achou que ela dissera alguma coisa inteiramente diferente... Hora de capinar o jardim, talvez, ou Cinqüenta ou sessenta pessoas gostariam de encontrá-lo lá na igreja. Afinal, quem falava de camas às três da tarde?

— Hem? — perguntou Susannah com olhos injetados. — Que foi que disse, meu bem? Não entendi direito.

— As camas estão prontas — repetiu a governanta do padre. — Vocês dois vão pra onde dormiram na noite de anteontem; o sinhô-moço vai ficar na cama do père. E o trapalhão pode ir com você, Jake, se quiser; père me pediu pra lhes dar este recado. Estaria aqui pra dizer pessoalmente, se hoje não fosse sua tarde de visita aos doentes. Ele lhes dá a comunhão. Disse as últimas palavras com inconfundível orgulho.

— Cama — disse Eddie. Não conseguia exatamente captar o sentido disso. Olhou em volta, como para confirmar que ainda era o meio da tarde, o sol continuava a brilhar. — Cama?

— Père viu vocês no depósito — acrescentou Rosalita — e achou que iam querer tirar um cochilo após falar com aquelas pessoas.

Eddie entendeu, afinal. Imaginou que em algum ponto de sua vida devia ter-se sentido mais grato por uma bondade, mas francamente não conseguiu lembrar quando nem que tipo de bondade poderia ter sido. A princípio, os que se aproximaram deles, quando sentados ali nas cadeiras de balanço na varanda de Took, haviam chegado devagar, em hesitantes e pequenos grupos. Mas como ninguém virou pedra nem levou uma bala na cabeça — como houve, de fato, animada conversa e verdadeira risada —, mais e mais foram chegando. Quando o fio d’água se tornou um dilúvio, Eddie acabou descobrindo o que era ser uma pessoa pública. Ficou assombrado ao ver como isso era difícil, extenuante. Eles queriam respostas simples a milhares de perguntas complexas — de onde vieram os pistoleiros e aonde iam foram apenas as duas primeiras. Algumas das perguntas podiam ser respondidas honestamente, porém cada vez mais Eddie se ouviu dando respostas evasivas de políticos e ouviu os dois amigos fazendo o mesmo. Não eram exatamente mentiras, mas pequenas cápsulas que pareciam respostas. E todo mundo queria um olhar direto no rosto e um Passe bem que soasse direto do coração. Até Oi participou com sua parte do trabalho; era afagado repetidas vezes e obrigado a falar até Jake levantar-se, entrar na loja e pedir uma tigela de água a Eben Took. Este cavalheiro deu-lhe, contudo, uma caneca fina e disse-lhe que podia enchê-la no bebedouro defronte lá fora. Jake foi cercado por locais que o questionaram sem parar mesmo quando ele fazia essa simples tarefa. Oi esvaziou a caneca com lambidas, depois enfrentou sua própria multidão de inquisidores curiosos, enquanto Jake voltava ao bebedouro para reencher a caneca.

No cômputo geral, haviam sido para eles as cinco horas mais longas a que Eddie já se submetera, e ele achou que jamais seria de novo celebridade exatamente da mesma maneira. De quebra, antes de finalmente deixar a varanda e voltar para a residência do Velho, Eddie reconheceu que deviam ter falado com todo mundo que morava na cidade e um bom número de fazendeiros, pecuaristas, caubóis e trabalhadores que moravam além. O mundo viajava rápido: os forasteiros estavam sentados na varanda do Depósito Geral, e se você quisesse conversar com eles, eles conversariam com você.

E agora, meu Deus, esta mulher, este anjo, falava de cama.

— Quanto tempo temos? — perguntou a Rosalita.

— Père deve estar de volta às quatro — disse ela —, mas só comeremos às seis, e isto só se o dinh de vocês voltar a tempo. Por que não os acordo às cinco e meia? Assim terão tempo para se lavar. Está bem para vocês?

— Tá — disse Jake, e deu-lhe um sorriso. — Eu não sabia como apenas conversar com pessoas pode deixar a gente tão cansado. E com sede.

Ela assentiu.

— Tem um jarro de água fria na despensa.

— Eu preciso ajudá-la a preparar a refeição — disse Susannah, e logo abriu a boca num enorme bocejo.

— Sarey Adams já está vindo ajudar — disse Rosalita —, e é apenas uma refeição fria, de qualquer modo. Vão logo. Descansem. Vocês estão mortos de cansaço, dá pra ver.

 

2

Na despensa, Jake bebeu muito e longamente, depois despejou água numa tigela para Oi e levou-a para o quarto do padre Callahan. Sentia-se culpado por estar ali (e por levar um trapalhão consigo), mas as cobertas da estreita cama de Callahan haviam sido viradas para baixo, o travesseiro afofado, e as duas coisas o chamavam. Pôs a tigela no chão e Oi começou em silêncio a lamber a água. Jack se despiu e ficou só com suas roupas de baixo novas, depois se deitou de costas e fechou os olhos.

Provavelmente, não vou conseguir dormir mesmo, pensou. Nunca fui muito bom em tirar sonecas, mesmo quando a Sra. Shaw me chamava de Bama.

Menos de um minuto depois, ressonava levemente, com um braço atirado sobre os olhos. Oi dormia a seu lado com o focinho numa das patas.

 

3

Eddie e Susannah sentavam-se lado a lado na cama do quarto de hóspedes. Eddie ainda mal podia acreditar nisso: não apenas uma soneca, mas uma soneca numa cama de verdade. Luxo em cima de luxo. Não queria mais que se deitar, tomar Suze nos braços e dormir assim, mas uma questão precisava ser tratada primeiro. Estivera importunando-o o dia todo, mesmo no mais pesado de seu improviso político.

— Suze, sobre o avô de Tian...

— Não quero saber — disse ela de chofre.

Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso. Embora imaginasse por quê.

— Podíamos falar disso — disse ela —, mas estou cansada. Conte a Roland o que o velho lhe contou, e conte a Jake se quiser, mas não me conte. Ainda não. — Sentava-se junto a ele, a coxa trigueira tocando a sua branca, os olhos castanhos encarando firme os cor de avelã dele. — Está me ouvindo?

— Ouvindo muito bem.

— Obrigadíssima.

Ele riu, tomou-a nos braços e beijou-a.

Logo depois os dois dormiam com os braços enlaçados e as testas se tocando. Um retângulo de luz subia ininterrupto pelo corpo deles enquanto o sol afundava. Voltara para o verdadeiro oeste, pelo menos por enquanto. Roland viu isso sozinho cavalgando devagar pela alameda que levava à casa-reitoria do Velho, com as pernas doloridas livres dos estribos.

 

4

Rosalita saiu para cumprimentá-lo.

— Salve, Roland, longos dias e belas noites.

Ele assentiu.

— Que você tenha tudo isso em dobro.

— Eu soube que você talvez peça a algumas de nós para lançarmos o prato contra os Lobos, quando eles chegarem.

— Quem lhe disse isto?

— Ah... um passarinho sussurrou no meu ouvido.

— E você aceitaria? Se eu pedisse?

Ela mostrou os dentes arreganhando os lábios.

— Nada nesta vida me daria mais prazer. — Os dentes desapareceram e os lábios suavizaram-se num verdadeiro sorriso. — Embora talvez nós dois juntos possamos descobrir um prazer que chega perto. Gostaria de conhecer meu chalezinho, Roland?

— Sim. E você me esfregaria com aquela gordura mágica?

— Chama de esfregar o que eu fiz?

— Sim.

— Esfregação pesada ou esfregação leve?

— Ouvi dizer que um pouco das duas melhora uma junta dolorida.

Ela pensou nisto, desatou a rir e tomou-lhe a mão.

— Vamos. Enquanto o sol brilha e este cantinho do mundo dorme.

Ele foi com ela de bom grado aonde o levou. Ela mantinha uma fonte secreta cercada de musgo macio, e ali ele se refrescou.

 

5

Callahan chegou afinal por volta das cinco e meia, no momento em que Eddie, Susannah e Jake se apresentavam. Às seis, Rosalita e Sarey Adams serviram um jantar de salada de folhas e galinha fria no alpendre atrás da reitoria. Roland e os amigos comeram famintos, o pistoleiro servindo-se não apenas duas, mas três vezes. Callahan, por outro lado, pouco fez além de remexer a comida no prato. O bronzeado no rosto dava-lhe uma certa aparência de saúde, mas não escondia as olheiras. Quando Sarey — mulher jovial, animada, gorda, mas de leve agilidade — estendeu um bolo de especiarias, ele só abanou a cabeça.

Quando nada restara na mesa além das xícaras e do bule de café, Roland pegou o tabaco e ergueu as sobrancelhas.

— Vá — disse Callahan, elevando em seguida a voz. — Rosie, traga alguma coisa pra este rapaz bater o cigarro!

— Grande homem, eu o ouviria o dia inteiro — disse Eddie.

— Eu também — concordou Jake.

Callahan sorriu.

— Sinto a mesma coisa em relação a vocês, meninos, pelo menos um pouco. — Serviu-se de uma xícara de café. Rosalita trouxe para Roland um pote de cerâmica para as cinzas. Depois que ela se foi, o Velho disse: — Eu devia ter terminado essa história ontem. Passei quase toda a noite de ontem remexendo e revirando, pensando em como contar o resto.

— Ajudaria se eu lhe dissesse que já sei parte dela? — perguntou Roland.

— Provavelmente não. Você foi à Gruta da Porta com Henchick, não foi?

— Sim. Ele disse que havia uma música na máquina falante que eles mandaram até lá para encontrar, e que você chorou quando a ouviu.

— “Alguém Salvou Minha Vida Esta Noite” é o nome dela. E posso lhe dizer como foi estranho estar sentado numa cabana manni em Calla Bryn Sturgis, olhando através da escuridão do Trovão e ouvindo Elton John.

— Uau, uau — exclamou Susannah. — Está muito à frente de nós, père. A última coisa que soubemos foi que você estava em Sacramento, era 1981 e tinha acabado de descobrir que seu amigo havia sido cortado por esses tais Irmãos Hitler. — Encarou severamente Callahan, depois Jake e por fim Eddie. — É preciso que eu diga, cavalheiros, que vocês não parecem ter feito muito progresso na questão de viver em paz desde os dias que deixei os Estados Unidos.

— Não me culpe por isso — disse Jake. — Eu estava na escola.

— E eu, drogado — disse Eddie.

— Tudo bem, eu assumo a culpa — disse Callahan, e todos riram.

— Termine sua história — pediu Roland. — Talvez durma melhor esta noite.

— Talvez sim — disse Callahan. Pensou por um minuto, depois continuou. — O que me lembro do hospital, e imagino que todos se lembrem, é o cheiro de desinfetante e o barulho das máquinas. Sobretudo as máquinas. A maneira como emitiam bipes. A única outra coisa que soa assim é o equipamento na cabine de aviões. Perguntei certa vez a um piloto, e ele disse que é a engrenagem da aeronavegação que faz esse barulho. Lembro que pensei naquela noite que devia haver um monte dos diabos de navegação ocorrendo nas Unidades de Tratamento Intensivo, UTIs, de hospital.

“Rowan Magruder não era casado quando eu trabalhava no Lar, mas imaginei que isso devia ter mudado, pois havia uma mulher sentada na cadeira junto à sua cama, lendo uma brochura. Bem-vestida, um belo costume verde, meias de náilon, sapatos de saltos baixos. Finalmente senti-me bem em relação a enfrentá-la; tinha-me lavado e penteado o melhor que pude, e não tinha tomado um drinque desde Sacramento. Mas assim que ficamos cara a cara, não me senti nada bem. Ela estava sentada com as costas para a porta, entendam. Eu bati no batente, ela se virou pra mim, e a minha chamada presença de espírito foi passear. A primeira vez desde a noite em que Rowan e eu visitamos Lupe naquela mesma espelunca. Podem imaginar por quê?”

— Claro — disse Susannah. — Porque as peças se encaixam. Sempre se encaixam. Temos visto isso repetidas vezes. Só não sabemos qual é a imagem.

— Nem entendê-la — disse Eddie.

Callahan fez que sim com a cabeça.

— Era como olhar Rowan, só que com cabelos louros e seios. Sua irmã gêmea. E ela riu. Perguntou se eu achava que tinha visto um fantasma. Eu achei... surreal. Como se houvesse deslizado para dentro de outro daqueles mundos, igual ao real, como se existisse tal coisa, mas não exatamente o mesmo. Senti uma vontade louca de puxar a carteira e ver quem estava nas cédulas. Não era apenas a semelhança; era o sorriso. Sentada ali ao lado de um homem que tinha o seu rosto, supondo que lhe houvesse até mesmo restado algum rosto sob as ataduras, e rindo.

— Bem-vindo ao quarto 19 do Hospital Todash — disse Eddie.

— Como?

— Só quis dizer que conheço a sensação, Don. Todos nós conhecemos. Continue.

— Eu me apresentei e perguntei se podia entrar. E quando perguntei, estava pensando de novo em Barlow, o vampiro. Pensando: Você tem de convidá-los a primeira vez. Depois, eles chegam e vão embora como bem entendem. Ela me disse, claro, que eu podia entrar. Que viera de Chicago para ficar com ele no que chamou de “suas horas terminantes”. Depois, naquela mesma voz agradável, disse: “Eu soube quem era você no mesmo instante. É a cicatriz em sua mão. Nas cartas dele, Rowan disse que tinha quase toda a certeza de que você foi um homem religioso em sua outra vida. Ele falava o tempo todo sobre as outras vidas das pessoas, querendo dizer antes de começarem a beber, a tomar drogas, a enlouquecer, ou todas as três coisas juntas. Esse era um carpinteiro em sua outra vida. Aquela era uma modelo em sua outra vida. Ele estava certo sobre você?” Tudo naquela voz era agradável. Como uma mulher batendo papo num coquetel. E Rowan ali deitado com a cabeça coberta de ataduras. Se estivesse usando óculos, pareceria Claude Rains em O Homem Invisível.

“Eu entrei. Disse que tinha sido, sim, um homem religioso, mas tudo isso era passado. Ela estendeu a mão. Estendi a minha. Porque, vocês sabem, achei...”

 

6

Ele estendeu a mão porque imaginou que ela quisesse apertar a dele. A voz agradável o enganara. Callahan não percebe que o que Rowena Magruder está fazendo na verdade é erguendo a mão, não estendendo-a. A princípio, nem chega a perceber que levou um tapa, e forte o bastante para fazer o ouvido esquerdo tinir e o olho esquerdo lacrimejar; tem uma idéia confusa de que o súbito calor a subir-lhe pelo lado esquerdo da face devia ser algum tipo de alergia insignificante, talvez uma reação ao estresse. E logo ela avança para cima dele com lágrimas escorrendo pelo rosto estranhamente idêntico ao de Rowan.

— Vá até lá e olhe para ele — diz. — Porque, sabe de uma coisa? Esta é a outra vida do meu irmão! A única que lhe restou! Chegue bem perto e dê uma boa olhada nela. Eles também arrancaram seus olhos, tiraram uma de suas faces... dá pra você ver os dentes ali: cadê? A polícia me mostrou fotografias. Não queriam, mas eu os obriguei. Eles fizeram um furo no coração dele, mas acho que os médicos taparam. É o fígado que o está matando. Também fizeram um furo ali, e o órgão está se acabando.

— Srta. Magruder, eu...

— É Sra. Rawlings — ela o corrige —, não que isso tenha importância para você, de um jeito ou de outro. Ande. Dê uma boa olhada. Veja o que fez a ele.

— Eu estava na Califórnia... Li no jornal...

— Ah, com certeza. Com certeza. Mas você é o único que eu posso agarrar, não entende? O único que era próximo dele. Seus outros amigos morreram do Mal de Bicha, e os demais não estão aqui. Estão comendo de graça lá na espelunca dele, eu acho, ou conversando sobre o que aconteceu em suas reuniões. Como isso os faz se sentirem. Bem, reverendo Callahan, ou é padre? Eu vi você se persignar... deixe-me lhe dizer o que isto me faz sentir. Isto... me deixa... FURIOSA.

A Sra. Rawlings continua falando na voz agradável, mas quando ele abre a boca para falar, ela põe-lhe novamente o dedo atravessado nos lábios, e a força com que esse único dedo aperta seus dentes é tanta que ele desiste. Deixe que ela fale, por que não? Faz anos desde que ouviu uma confissão, mas algumas coisas são como andar de bicicleta.

— Ele se formou com louvor na Universidade de Nova York. Sabia disto? Tirou segundo lugar no Concurso do Prêmio de Poesia Beloit em 1949, sabia disto? Ainda como estudante universitário! Ele escreveu um romance, um belo romance, que está no meu sótão se enchendo de poeira.

Callahan sente um leve orvalho instalando-se em seu rosto. Vem da boca da Sra. Rawlings.

— Eu pedi a ele... não, implorei... que continuasse com a literatura e ele riu de mim, dizendo que não era nada bom. “Deixe isso para os Mailer, O’Hara e Irwin Shaw”, disse, “pessoas que realmente sabem como fazer. Eu ia acabar num escritório de alguma torre de marfim, dando baforadas num cachimbo de magnesita e parecendo o Mr. Chips.”

“E isso também teria sido muito bom — diz ela —, mas então ele se envolveu com o programa dos Alcoólicos Anônimos, e daí foi um pulo fácil pra dirigir a espelunca. E andar com seus amigos. Amigos como você.”

Callahan fica pasmo. Jamais ouviu a palavra amigos revestida de tanto desprezo.

— Mas cadê eles, agora que meu irmão está na pior e indo embora? — pergunta-lhe Rowena Magruder Rawlings — Hein? Cadê todas as pessoas que ele curou, todos os repórteres especiais da imprensa que o chamam de gênio? Cadê Jane Pauley? Ela o entrevistou no programa Today, você sabe. Duas vezes! Cadê aquela porra da Madre Teresa? Ele disse numa de suas cartas que o pessoal a chamava de santinha quando ela foi ao Lar, bem, ele precisava de uma santa agora, meu irmão precisava de uma santa agora, alguma mão estendida, então, onde diabos está ela?

Lágrimas escorriam-lhe pela face. O peito subindo e descendo. Ela e linda e terrível. Callahan pensa numa fotografia que viu certa vez de Shiva, o deus destruidor hindu. Sem tantos braços, pensa, e trata de reprimir uma vontade urgente, louca, suicida de rir.

— Não estão aqui. Só tem eu e você, certo? E ele. Rowan podia ter ganhado um Prêmio Nobel de Literatura. Ou ensinado quatrocentos alunos por ano durante trinta anos. Tocado centenas de mentes com isso. Em vez disso, está aqui deitado numa cama de hospital com o rosto retalhado, vai precisar de vaquinha pra pensão barata e pra pagar sua doença final, se é assim que se chama ser despedaçado de doença, o caixão e o enterro.

Ela olha para ele, rosto desnudado e sorrindo, a face brilhando de umidade e fios de muco pendendo-lhe do nariz.

— Na outra vida anterior dele, padre Callahan, ele foi o Anjo da Rua. Mas esta é sua outra vida final. Encantadora, né? Vou atravessar o corredor até a cantina pra pegar um café e uma fatia de bolo. Vou ficar lá uns dez minutos. Tempo de sobra pra você fazer sua visitinha. Faça-me o favor de não estar mais aqui quando eu voltar. Você e todos os outros dos caridosos dele me causam nojo.

Ela sai. Os práticos saltos baixos vão-se afastando com um clique-clique contínuo. Só quando este se extingue completamente ele percebe que está tremendo da cabeça aos pés. Não acha que seja o início do delirium tremens, mas por Deus que é como parece.

Quando Rowan fala por baixo de seu rígido véu de ataduras, Callahan quase grita. O que seu amigo diz é muito pastoso, mas ele não tem o menor problema para entender.

— Ela pregou esse sermão no mínimo oito vezes hoje, e não se dá ao trabalho de dizer a ninguém que no ano em que eu tirei o segundo lugar no Beloit, só quatro nomes entraram. Imagino que a guerra arrancou muito da poesia das pessoas. Como tem passado, Don?

A dicção é péssima, a voz que a conduz pouco mais que uma lima, mas é Rowan, que bom. Callahan chega até ele e toma-lhe as mãos que repousam na colcha. Elas se enroscam nas suas com surpreendente firmeza.

— Quanto ao romance... cara, era James Jones de terceira categoria, e isto é ruim.

— E você, Rowan, como tem passado? — pergunta Callahan. Agora é ele quem chora. O maldito quarto logo vai estar flutuando.

— Ah, bem, inteiramente fodido — diz o homem sob as ataduras. Em seguida: — Obrigado por ter vindo.

— Não é nada — diz Callahan. — Que é que você precisa de mim, Rowan? Que é que eu posso fazer?

— Ficar longe do Lar — diz Rowan. A voz começa a sumir, mas as mãos ainda estão agarradas às de Callahan. — Eles não estavam atrás de mim. Era você que eles queriam. Você me entende, Don? Eles estavam à sua procura. Não pararam de me perguntar onde você estava, e por fim eu lhes teria dito, se soubesse. Mas claro que não sabia.

Uma das máquinas se põe a bipar mais rápido, os bipes correndo para uma fusão que vai disparar um alarme. Callahan não tem como saber disto, mas sabe mesmo assim. De algum modo.

— Rowan... eles tinham olhos vermelhos? Usavam... não sei... casacões? Como capas de chuva? Chegaram em carros espalhafatosos?

— Nada disso — sussurra Rowan. — Provavelmente, estavam na faixa dos trinta anos, mas se vestiam como adolescentes. Também pareciam adolescentes. Esses caras vão parecer adolescentes por mais vinte anos, se viverem tanto, e então um dia serão apenas velhos.

Callahan pensa, Só uma dupla de punks. É o que ele está dizendo? É, com quase toda a certeza é, mas isso não significa que os Irmãos Hitler não tenham sido contratados pelos homens maus para este trabalho particular. Faz sentido. Mesmo o artigo do jornal, por mais breve que fosse, salientava que Rowan Magruder não tinha muito a ver com o tipo de vítima comum dos Irmãos Hitler.

— Fique longe do Lar — sussurra Rowan, mas antes que Callahan possa prometer, o alarme de fato dispara.

Por um momento, as mãos que seguram as suas as apertam, e Callahan sente um espectro da antiga energia daquele homem, aquela ensandecida e forte energia que de algum modo manteve as portas do Lar abertas apesar de todas as vezes que a conta bancária chegava a zero absoluto, a energia que atraía homens capazes de fazerem todas as coisas que Rowan Magruder sozinho não poderia.

Então o quarto começa a encher-se de enfermeiras, um médico de expressão arrogante berra pela ficha do paciente, e logo a irmã gêmea de Rowan estará de volta, desta vez possivelmente expelindo fogo pelas ventas. Callahan decide que é hora de se escafeder dessa loja popular e da loja popular maior que é a cidade de Nova York. Os homens maus continuam interessados nele, parece, muito interessados na verdade, e se têm uma base de operações, fica na certa na cidade da Diversão, nos Estados Unidos. Em conseqüência, um retorno à Costa Oeste seria uma excelente idéia. Não tem dinheiro para comprar outra passagem aérea, mas tem o suficiente para viajar no ônibus do Grande Cão Cinzento. E tampouco será a primeira vez. Outra viagem para oeste, por que não? Ele se vê com absoluta clareza o homem na poltrona 29-C: um maço novo, fechado, de cigarros no bolso da camisa; uma garrafa nova, fechada, de Early Times num saco de papel; o último romance de John D. MacDonald, também novo e fechado, no colo. Talvez já esteja na margem oposta do Hudson e dirigindo-se para Fort Lee, bem adentrado o Capítulo Um e bebericando seu segundo drinque quando eles afinal desligaram as máquinas do Quarto 577 e seu velho amigo saiu para as trevas e ao encontro de seja lá o que for que nos aguarda lá.

7

— 577 — disse Eddie.

— Dezenove — disse Jake.

— Como? — perguntou mais uma vez Callahan.

— Cinco, sete e sete — disse Susannah. — Some-os que terá 19.

— Isso quer dizer alguma coisa?

— Ponha todos juntos, que formam mãe, palavra que quer dizer o mundo pra mim — disse Eddie, com um sorriso sentimental.

Susannah ignorou-o.

— Não sabemos — ela disse a Callahan. — Você nunca saiu de Nova York, saiu? Se houvesse saído, não teria arranjado isto. — Apontou a cicatriz na testa dele.

— Ah, eu saí — disse Callahan. — Não tão logo quanto pretendia. Minha intenção quando deixei o hospital era voltar à Autoridade Portuária e comprar uma passagem no ônibus Quarenta.

— Que é isso? — perguntou Jake.

— Gíria de vagabundo para o mais longe que a gente pode ir. Se você compra uma passagem para Fairbanks, no Alasca, diz que viaja no ônibus Quarenta.

— Aqui, seria ônibus Dezenove — disse Eddie.

— Enquanto eu seguia a pé, comecei a pensar naqueles velhos tempos. Parte deles foi muito divertida, como quando um bando de caras no Lar encenou um espetáculo circense. E alguns momentos foram apavorantes, como uma noite logo antes do jantar em que um cara diz a outro: “Pára de cutucar o nariz, Jefly, está me deixando nauseado”, e Jefly retruca: “Por que não cutuca isto, conterrâneo” e saca um canivete de mola, e antes que qualquer um de nós possa se mexer ou até entender o que está acontecendo, Jefly corta a garganta do outro cara. Lupe gritando, e eu berrando: “Deus do céu! Minha nossa!”, e o sangue a borrifar pra todo lado porque ele pegou a carótida do cara, ou talvez seja jugular, e aí Rowan chega correndo do banheiro segurando a calça numa das mãos e um rolo de papel higiênico na outra, e vocês sabem o que ele fez?

— Usou o papel — respondeu Susannah.

Callahan deu um largo sorriso, o que o fazia parecer mais jovem.

— Yer-bugger, isto mesmo. Apertou o rolo todo no lugar onde esguichava o sangue e berrou a Lupe pra que ligasse pro 211, que mandava uma ambulância naquele tempo. E eu ali parado, vendo aquele papel higiênico branco virar vermelho, penetrando no centro de papelão. Rowan disse: “Pense nisto apenas como o maior corte de barbear do mundo”, e nós desatamos a rir. Rimos até saírem lágrimas dos olhos.

“Eu seguia revivendo grande parte dos velhos tempos, seguia, sim. Os momentos bons, os maus e os feios. Lembro, vagamente, que parei num mercado Smiler e comprei duas latas de cerveja num saco de papel. Tomei uma delas e continuei andando. Não pensava em pra onde ia, não na mente consciente, pelo menos, mas meus pés deviam ter sua mente própria, porque de repente olhei em volta e estava defronte ao lugar em que a gente jantava às vezes quando estávamos, como dizem, abonados. Era na Segunda com a Cinqüenta e Dois.”

— O Chew Chew Mama’s — disse Jake.

Callahan encarou-o com verdadeiro assombro, e em seguida olhou para Roland.

— Pistoleiro, seus meninos estão começando a me dar certo medo.

Roland apenas girou os dedos em seu velho gesto: Continue, parceiro. — Decidi entrar e pedir um hambúrguer só pelos velhos tempos — disse Callahan. — E enquanto comia o hambúrguer, decidi que não queria sair de Nova York sem dar ao menos uma olhada no Lar pela janela da frente. Eu podia ficar no outro lado da rua, como na época em que aparecia por lá depois da morte de Lupe. Por que não? Nunca tinha sido incomodado lá antes. Nem pelos vampiros nem pelos homens maus. — Olhou-os. — Não sei lhes dizer se realmente acreditava nisso, ou se foi algum tipo de jogo mental complicado, suicida. Posso recuperar muito do que senti naquela noite, o que eu disse e pensei, mas não isto.

“Em todo caso, nunca cheguei ao Lar. Paguei e segui andando pela Segunda Avenida. O Lar ficava na Primeira com a Quarenta e Sete, mas eu não queria passar direto na frente dele. Por isso decidi descer até a Primeira com a Quarenta e Seis e atravessar lá.”

— Por que não a Quarenta e Oito? — perguntou-lhe Eddie, em voz baixa. — Você podia virar na Quarenta e Oito, que teria sido mais rápido. Teria lhe poupado voltar duas vezes por uma quadra.

Callahan pensou na pergunta, depois abanou a cabeça.

— Se houve um motivo, não me lembro.

— Houve um motivo — disse Susannah. — Você quis passar pelo terreno baldio.

— Por que eu ia...

— Pelo mesmo motivo que as pessoas querem passar por uma padaria quando as rosquinhas estão saindo do forno — disse Eddie. — Algumas coisas são simplesmente agradáveis, só isso.

Callahan ouviu-o, em dúvida, e encolheu os ombros.

— Você está dizendo.

— Estou, sai.

— Em todo caso, eu seguia em frente, tomando minha outra cerveja. Já estava quase na Segunda com a Quarenta e Seis quando...

— Que é que tinha lá? — perguntou Jake, ansioso. — Na esquina em 1981?

— Eu não me... — começou Callahan, e interrompeu-se. — Uma cerca — disse. — Bem alta. De uns 3, talvez 6 metros.

— Não é a que pulamos para o outro lado — disse Eddie a Roland. — A não ser que tenha aumentado sozinha l,50m.

— Havia uma imagem nela — disse Callahan. — Disso me lembro, sim. Uma espécie de mural de rua, mas não vi o que era, porque as luzes da rua na esquina estavam apagadas. E no mesmo instante me ocorreu que alguma coisa estava errada. No mesmo instante, um alarme começou a disparar na minha cabeça. Parecia muito com o que levou todas as pessoas ao quarto de Rowan no hospital, pra falar a verdade. No mesmo instante, não deu pra acreditar que eu estava onde estava. Era loucura. Mas ao mesmo tempo eu pensava...

 

8

Ao mesmo tempo ele pensava: Está tudo bem, são só algumas luzes apagadas, é só isso, se houvesse vampiros, você os veria, e se fossem homens maus, você ouviria os sinos repicando e sentiria o cheiro de cebola rançosa e metal quente. Mesmo assim ele decide vagar por essa área, e logo. Repiques de sinos ou não, cada nervo de seu corpo precipita-se de repente de sua pele, lançando faíscas e chiando.

Callahan dá meia-volta e vê dois homens bem atrás dele. Há um espaço de segundos, quando os dois são surpreendidos por sua brusca mudança de direção, que ele provavelmente poderia ter-se lançado entre eles como um velho correndo de um lado para outro da Segunda Avenida. Mas também ele fica surpreso, e por mais um espaço de segundos os três ficam apenas ali parados, encarando-se.

Há um Irmão Hitler grande e um Irmão Hitler pequeno. O pequeno não chega a l,60m de altura, veste uma camisa de cambraia largona sobre a calça preta. Na cabeça, um boné de basquete virado ao contrário. Tem os olhos negros como gotas de piche e a pele horrível. Callahan logo pensa nele como Lennie. O grande talvez tenha quase l,90m de altura, usa um moletom dos Yankees, jeans azuis e tênis. Com um bigode cor de areia, leva uma mochila pendurada na frente. Callahan vê que se trata de George.

Callahan dá meia-volta, planejando fugir pela Segunda Avenida, se pegar o sinal aberto parece que pode vencer o tráfego. Se isto for impossível, vai descer a Quarenta e Seis até o Hotel Plaza da ONU e entrar rapidamente no saguão deles...

O grandalhão, George, agarra-o pela camisa e puxa-o para trás pela gola. A gola rasga-se, mas infelizmente não o bastante para libertá-lo.

— Não, você não vai não, doutor — diz o pequeno. — Não vai não.

Então ele se lança para a frente, rápido como um inseto, e antes que Callahan perceba o que está acontecendo, Lennie já lhe enfiou a mão entre as pernas, segurou os testículos e espremeu-os violentamente um no outro. A dor e imediata e enorme, uma náusea avolumando-se como chumbo líquido.

— Tá gostoso, amante de negro? — pergunta-lhe Lennie num tom que parece transmitir genuína preocupação, que parece dizer: “Queremos que isto signifique tanto pra você quanto pra nós.” Aí ele puxa os testículos de Callahan para a frente e a dor triplica. Enormes e enferrujados dentes de serra mergulham na barriga de Callahan e ele pensa: Vai arrancar, já os transformou em geléia e agora vai arrancar de vez, nada os segura além de uma pelezinha solta e ele vai...

Começa a berrar e George tapa-lhe a boca com a mão.

— Pare! — rosna para o parceiro. — Estamos na porra da rua, você esqueceu?

Mesmo com a dor comendo-o vivo, Callahan rumina o aspecto estranhamente invertido da situação: George é o Irmão Hitler responsável, não Lennie. George é o Irmão Hitler grande. Certamente, não é a maneira como Steinbeck a teria escrito.

Então, da sua direita, eleva-se um zumbido. A princípio ele pensa que são os badalos, mas o zumbido é agradável. E também forte. George e Lennie o sentem. E não gostam.

— Que é isto? —pergunta Lennie. — Você ouviu?

— Não sei. Vamos levá-lo para a casa. E tire as mãos dos ovos dele. Depois pode puxá-los o quanto quiser, mas agora só me ajude.

Um de cada lado dele, e de repente está sendo empurrado de volta pela Segunda Avenida. A alta cerca de tábuas passa correndo à direita. Aquele zumbido vigoroso, agradável, chega de trás dela. Se eu pudesse transpor aquela cerca, ficaria tudo bem, pensa Callahan. Há alguma coisa ali, alguma coisa poderosa e boa. Eles não ousariam chegar perto dela.

Talvez seja assim, mas ele duvida que conseguiria saltar uma cerca de 3 metros de altura mesmo que os ovos não estivessem disparando enormes rajadas de seu próprio e doloroso código Morse, mesmo que não os estivesse sentindo incharem na cueca. De repente, a cabeça se lança para a frente e ele vomita uma carga quente de comida semidigerida na frente da camisa e da calça. Sente-o empapando-o até a pele, quente como urina.

Dois jovens casais, obviamente juntos, encaminham-se na outra direção. Os rapazes são grandes, poderiam na certa limpar a rua com Lennie e talvez até dar a George uma corrida por seu dinheiro, se se juntassem contra ele, mas nesse momento olham enojados e claramente não querem mais nada além de afastar o mais rápido possível as namoradas da vizinhança geral de Callahan.

— Ele só bebeu um pouco demais — disse George, sorrindo, solidário — e depois se deu mal. Acontece nas melhores famílias de vez em quando.

Eles são os Irmãos Hitler!, Callahan tenta gritar. Estes caras são os Irmãos Hitler! Mataram meu amigo e agora vão me matar! Chame a polícia! Mas claro que nada sai, em pesadelos assim nunca sai, e logo os casais já seguiram para o outro lado. George e Lennie continuam levando-o a passos rápidos pela quadra da Segunda Avenida entre a Quarenta e Seis e a Quarenta e Sete. Os pés dele mal tocam o concreto. O hambúrguer do Chew Chew Mama’s fumega em sua camisa. Ah, ele chega a sentir o cheiro da mostarda que pôs no sanduíche.

— Deixe eu ver a mão dele — diz George, ao se aproximarem da esquina seguinte, e quando Lennie agarra a mão esquerda de Callahan, George esbraveja: — Não, tampinha, a outra!

Lennie estende a mão direita de Callahan, que não poderia impedir mesmo se tentasse. A parte inferior da sua barriga enchera-se de cimento quente e úmido. O estômago, enquanto isso, parece tremer no fundo da garganta como um animal pequeno, assustado.

George olha a cicatriz na mão direita de Callahan e assente com a cabeça.

— É, é ele, muito bem. Não custa nada ter certeza. Vamos, ande logo, padre. Compasso duplo, upa-upa!

Quando chegam à Quarenta e Sete, Callahan é afastado da via principal. Ladeira abaixo, à esquerda, vê-se uma poça de luz branca brilhante: o Lar. Ele chega a ver algumas silhuetas de ombros caídos, homens em pé no canto, conversando no programa e fumando. Talvez eu até conheça alguns deles, pensa, confuso. Com os diabos, na certa conheço.

Mas não chegam até lá. A menos de um quarto do caminho, descendo a quadra entre a Segunda Avenida e a Primeira, George arrasta Callahan para o vão da porta da fachada de uma loja com uma tabuleta PARA VENDER OU ALUGAR nas duas vitrinas cobertas de sabão. Lennie circula em volta deles, como um terrier em volta de duas vacas, movendo-se devagar.

— Eu vou foder você, amante de crioulo! — entoa ele. — Acabamos com milhares iguaizinhos a você, vamos acabar com um milhão antes de chegarmos ao fim, podemos eliminar qualquer crioulo, mesmo quando o crioulo é dos grandes, isto é de uma música que estou compondo, uma música chamada “Mate Todas as Bichas Amantes de Crioulo”, vou mandá-la pra Merle Haggard quando terminar de compor, ele é o melhor, o único que disse a todos aqueles hippies que se agachassem e cagassem em seus chapéus, Merle é do caralho pros Estados Unidos, eu tenho um Mustang 380 e uma Luger de Hermann Goering, sabia disso, amante de crioulo?

— Cale a boca, seu cuzinho punk — diz George, mas fala com afetuoso alheamento, reservando a verdadeira atenção a encontrar a chave da loja num gordo aro delas e depois abrir a porta da loja vazia. Callahan pensa: Para George, Lennie é como um rádio sempre tocando numa oficina de automóveis ou na cozinha de um restaurante de refeições ligeiras, nem o ouve mais, ele só faz parte do barulho de fundo.

— Ié, Nort — diz Lennie e emenda direto. — Porra da Luger da porra do Goering, isto mesmo, e eu poderia explodir a porra dos seus ovos com ela, porque nós sabemos a verdade sobre o que amantes de crioulo como você estão fazendo com este país, certo, Nort?

— Eu já te disse, nada de nomes — diz George/Nort, mas fala com indulgência e Callahan sabe por quê: ele não poderá dizer quaisquer nomes à polícia, não se as coisas saírem como estes sacos de ducha vaginal planejam.

— Perdão, Nort, mas vocês, seus amantes de crioulo, que amam as porras de intelectuais judeuzinhos, são os que estão fodendo este país, por isso eu quero que pense nisso quando eu arrancar a porra dos seus ovos da porra do seu escroto...

— Os ovos são o escroto, debilóide — diz George/Nort numa voz estranhamente professoral, e depois: — Na mosca!

A porta abre-se. George/Nort empurra Callahan por ela. A loja não passa de um galpão empoeirado cheirando a água sanitária, sabão e goma. Fios e canos grossos projetam-se de duas paredes. Ele vê quadrados de lavadoras nas paredes onde antes ficavam máquinas de lavar e secar de funcionamento por meio de moeda. No chão, estende-se uma placa onde ele mal consegue ler na escuridão: LAVANDERIA BAÍA DA TARTARUGA VOCÊ LAVA OU NÓS LAVAMOS DAS DUAS FORMAS TUDO SAI LIMPO!

Tudo sai limpo, certo, pensa Callahan. Ele se vira para os dois e não se surpreende ao ver George/Nort apontando-lhe uma arma. Não é a Luger de Hermann Goering, parece mais a Callahan o tipo barato .32 que a gente comprava por 60 dólares num bar na parte alta da cidade, mas tem certeza de que fiaria o serviço. George/Nort abre o zíper da bolsa na barriga sem tirar os olhos de Callahan — já fez isso antes, os dois já o fizeram, são mãos calejadas, velhos lobos que têm uma longa trajetória sozinhos — e retira um rolo de fita isolante. Callahan lembra que Lupe certa vez disse que os Estados Unidos entrariam em colapso numa semana sem fita isolante. “A arma secreta”, chamava-a. George/Nort entrega o rolo a Lennie, que o pega e avança para Callahan com aquela mesma rapidez de inseto.

— Bote as mãos pra trás, puxa-saco de crioulo — diz Lennie.

Callahan não obedece.

George/Nort sacode a pistola.

— Bote ou eu ponho uma na sua barriga, padre. Você ainda não sentiu uma dor como essa, prometo.

Callahan obedece. Não tem opção. Lennie precipita-se para trás dele.

— Bote juntas, puxa-saco de crioulo — diz Lennie. — Não sabe como se faz? Nunca foi ao cinema? — Ri como um lunático.

Callahan põe os pulsos juntos. Chega uma rosnadela baixa quando Lennie puxa a fita do rolo e começa a passá-la nos braços de Callahan às costas. Ele fica sorvendo longos haustos de poeira, água sanitária e o perfume confortante, um tanto infantil, de amaciante de roupas.

— Quem contratou vocês? — pergunta a George/Nort. — Foram os homens maus?

George/Nort não responde, mas Callahan julga ver seus olhos piscarem. Do lado de fora, o tráfego passa em rajadas. Alguns pedestres passeiam tranqüilamente. Que aconteceria se ele gritasse? Bem, imagina que sabe a resposta, não sabe? A Bíblia diz que o sacerdote e o levita passaram ao largo do homem ferido, “mas o samaritano... encheu-se de compaixão por ele”. Callahan precisa de um bom samaritano, mas em Nova York há escassez deles.

— Eles tinham olhos vermelhos, Nort?

Os olhos de Nort piscam de novo, mas o cano da arma continua apontada para o meio do corpo de Callahan, firme como uma rocha.

— Dirigiam carros espalhafatosos? Dirigiam, não? E quanto acha que a sua vida e a deste espetinho de merda vão valer assim que...

Lennie agarra-lhe mais uma vez os testículos, espreme-os, torce-os, puxa-os para baixo como persianas. Callahan grita e o mundo fica cinzento. A força esvai-se de suas pernas e os joelhos fletem totalmente.

— Iiiih! — grita Lennie, cheio de alegria maligna. — Mohamed-Cabeça-de-Martelo A-Li CAÍDO NO CHÃO! A GRANDE ESPERANÇA BRANCA PUXOU O GATILHO NAQUELE CRIOULO FALASTRÃO NA LONA! NÃO ACREDIIIITO! — É uma imitação de Howard Cosell, e tão boa que mesmo em sua agonia Callahan tem vontade de rir. Ele ouve outro ronrom e agora são os tornozelos sendo presos com a fita.

George/Nort traz uma mochila do canto. Abre-a e retira uma Polaroid de um instantâneo. Curva-se sobre Callahan e de repente o mundo fica claro-ofuscante. No instante imediato, Callahan não vê nada além de formas espectrais atrás de uma bola azul no centro de sua visão. Daí vem a voz de George/Nort.

— Lembre-me de bater outra, depois. Eles querem as duas.

— Sim, Nort, sim!

O baixinho parece agora quase raivoso de excitação, e Callahan sabe que o verdadeiro ferimento vai começar. Lembra-se de uma antiga música de Dylan chamada A Hard Rain’s A-Gonna Fall, dizendo que vai desabar uma chuva pesada, e pensa: Combina. Melhor que a de Elton John que diz “Alguém Salvou Minha Vida esta Noite”, com certeza.

É envolto por uma névoa de alho e tomate. Alguém preparou comida italiana para o jantar, possivelmente quando o rosto de Callahan era estapeado no hospital. Uma forma surge da ofuscação. O cara grandalhão.

— Não importa a você quem contratou a gente — diz George/Nort. — O negócio é que fomos contratados, e no que nos diz respeito, padre, você é apenas mais um amante de crioulo igual àquele cara Magruder e os Irmãos Hitler limpando sua ficha. Na maioria das vezes, somos dedicados, mas trabalhamos, sim, por um dólar, como qualquer bom americano. — Faz uma pausa e então chega o absurdo existencial máximo: — Somos populares no Queens, você sabe.

— Foda-se — diz Callahan, e em seguida todo o lado direito de seu rosto explode de agonia.

Lennie o chutou com uma bota de exercícios com bico de aço, quebrando-lhe o maxilar no que acabou sendo um total de quatro lugares.

— Bela fala — ouve Lennie dizer do insano universo onde Deus claramente morreu e jaz fedendo no chão de um céu saqueado. — Bela fala para um padre. — Então a voz eleva-se, torna-se o ganido excitado e suplicante de uma criança: — Me deixa fazer, Nort! Por favor, deixa! Eu quero fazer!

— De jeito nenhum! — diz George/Nort. — Eu faço as suásticas da testa, você sempre caga todas. Pode fazer as das mãos, está bem?

— Ele está amarrado! As mãos estão cobertas naquela porra de...

— Depois de morto — explica George/Nort com uma terrível paciência. — A gente tira a fita das mãos depois que ele estiver morto e você pode...

— Nort, por favor! Faço aquela coisa que você gosta. E escute! — A voz de Lennie anima-se. — Ouça bem! Se eu começar a cagar tudo, você me diz que eu paro! Por favor, Nort? Por favor?

— Bem... — Callahan também ouviu esse tom antes. O pai indulgente que não pode negar a um filho preferido, embora mentalmente comprometido. — Bem, pode fazer.

A visão dele começa a clarear. Pede a Deus que não comece. Vê Lennie retirar uma lanterna da mochila. George retirou um bisturi de sua capanga. Trocam ferramentas. George aponta a lanterna para o rosto de Callahan, que começa a inchar rapidamente. Callahan contrai-se e franze os olhos. Só tem visão bastante para ver Lennie girando o bisturi com os dedos minúsculos, mas destros.

— E esta vai sair boa! — grita Lennie, em êxtase de excitação. — E esta vai sair muito boa!

— Só não cague tudo — diz George.

Callahan pensa: Se fosse um filme, a cavalaria chegaria bem agora. Ou os tiras. Ou a porra de Sherlock Holmes na máquina do tempo de H. G. Wells.

Mas Lennie ajoelha-se diante dele, a intumescência dura em sua calça visível demais, e a cavalaria não chega. Curva-se para a frente com o bisturi estendido, e os policiais não chegam. Callahan sente o cheiro não de alho e tomate nesse, mas de suor e cigarro.

— Espere um segundo, Bill — diz George/Nort —, tive uma idéia, deixe-me desenhá-la pra você, primeiro. Tenho uma caneta no bolso.

— Foda-se — murmura Lennie/Bill.

Estende o bisturi. Callahan vê a lâmina de fio cortante tremer quando a excitação do homenzinho é transmitida ao instrumento, e sai de seu campo de visão. Alguma coisa fria risca-lhe a testa, depois fica quente, e Sherlock Holmes não chega. O sangue escorre e entra em seus olhos, irrigando-lhe a visão, e nem James Bond Perry Mason Travis McGee Hercule Poirot a porra da Srta. Marple.

O comprido rosto de Barlow surge em sua mente. Os cabelos do vampiro flutuam em volta de sua cabeça. Barlow estende a mão. “Venha, falso padre”, ele diz, “aprenda uma verdadeira religião.” Ouvem-se dois estalos quando os dedos do vampiro partem os braços da cruz que sua mãe lhe deu.

— Ó seu demente de merda — geme George/Nort —, isto não é uma suástica, é uma porra de uma cruz! Me dê o bisturi!

— Pare, Nort, me dê uma chance, ainda não terminei!

Discutem em cima dele como dois garotos, enquanto os ovos o matam de dor, o maxilar quebrado lateja e a visão afunda no sangue. Todos aqueles questionamentos da década de 1970 sobre se Deus estava ou não morto, e Cristo, olhe para ele! Apenas olhe para ele! Como poderia haver qualquer dúvida?

E é nesse momento que chega a cavalaria.

 

9

— Que quer dizer exatamente com isto? — perguntou Roland. — Gostaria muito de ouvir esta parte, père.

Continuavam sentados à mesa no alpendre, mas a refeição terminara, o sol se pusera, e Rosalita trouxera lampiões. Callahan interrompera a história tempo suficiente para pedir-lhe que se sentasse com eles, e ela assim o fizera. Além das telas, no escuro jardim da reitoria, insetos zumbiam, sedentos de luz.

Jake tocou o que se passava na mente do pistoleiro. E de repente, impaciente com todo aquele segredo, fez ele mesmo a pergunta:

— Éramos nós a cavalaria, père?

Roland pareceu chocado, depois realmente divertido. Callahan apenas olhou, surpreso.

— Não — ele respondeu. — Acho que não.

— Você não os viu, viu? — perguntou Roland. — Você nunca viu mesmo as pessoas que o salvaram.

— Eu contei a vocês que os Irmãos Hitler tinham uma lanterna. É verdade. Mas esses outros caras, a cavalaria...

 

10

Sejam quem forem, eles têm um aparelho de busca munido de uma fonte de luz e um refletor que projeta um feixe de luz de alta intensidade com raios paralelos. Enche a lavanderia com um clarão mais brilhante que o flash da Polaroid barata, e ao contrário da Polaroid, é constante. George/Nort e Lennie/Bill tapam os olhos. Callahan taparia os seus, se os braços não estivessem presos com fita atrás.

— Nort, largue a arma! Bill, largue o bisturi! — A voz que vem da imensa luz é assustadora porque está assustada. É a voz de alguém que poderia condenar ao inferno quase tudo. — Vou contar até cinco e depois vou atirar em vocês dois, que é o que merecem. — E então a voz por trás da luz começa a contar, não devagar e portentosamente, mas com rapidez alarmante. — Umdoistrêsquatro... É como se o dono da voz quisesse atirar, quisesse apressar-se e acabar com a formalidade disparatada. George/Nort e Lennie/Bill não têm tempo para pensar em suas opções. Largam a pistola e o bisturi, e a pistola dispara quando atinge o linóleo empoeirado, um ESTAMPIDO alto como a pistola de uma criança carregada com cápsulas duplas. Callahan não tem a mínima idéia de aonde foi a bala. Talvez tenha até entrado dele. Chegaria a sentir se houvesse entrado? Duvidoso.

— Não atire, não atire! — guincha Lennie/Bill. — Nós não, nós não, nós não... — Não o quê? Lennie/Bill não parece saber.

— Mãos ao alto! — É uma voz diferente, mas que também vem de trás da ofuscação da luz. — Levantem as mãos pro céu! Já, seus monstrengos!

Os dois lançam as mãos para cima.

— Nãão, espere! — diz a primeira. Podem ser grandes sujeitos, Callahan sem dúvida desejoso de pô-los em sua lista de cartões de Natal, mas é claro que nunca fizeram nada disso antes. — Tirem os sapatos! As calças! Agora! Já!

— Que caralho... — George/Nort começa. — Vocês, caras, são os policiais? Se são, têm de nos ler nossos direitos, a porra da Miranda...

De trás da luz ofuscante uma arma dispara. Callahan vê um clarão alaranjado de fogo. Na certa é uma pistola, mas é para a modesta 32 de bar dos Irmãos Hitler como um falcão para um beija-flor. O estrondo é gigantesco, logo seguido por um esmigalhamento de reboco e uma onda de poeira mofada. George/Nort e Lennie/Bill gritam. Callahan tem a impressão de que um dos atiradores — provavelmente o que não atirou — também grita.

— Sapatos e calças fora! Agora! Já! É melhor tirar antes de eu chegar a trinta, ou então estão mortos! Umdoistrêsquatrocin...

Mais uma vez, a rapidez da contagem não deixa tempo algum para consideração, muito menos protesto. George/Nort começa a sentar-se e a Voz Número Dois diz:

— Sente-se que a gente mata você.

E assim os Irmãos Hitler cambaleiam como gruas espasmódicas em volta da mochila, a Polaroid, a arma e a lanterna, empurrando para fora os calçados, enquanto a Voz Número Um faz sua contagem com rapidez suicida. Os sapatos saem e as calças caem. George é um cara de calção, enquanto Lennie prefere sungas da variedade manchada de xixi. Não há sinal algum da intumescência dura de Lennie; na certa ela resolveu tirar a noite de folga.

— Agora saiam — diz a Voz Número Um.

George encara a luz. Sua camiseta dos Yankees pende acima do calção de baixo, que se encapela até os joelhos. Ele continua usando a capanga. Embora fortemente musculosas, as barrigas das pernas tremem. E a expressão de George alonga-se com consternada compreensão.

— Escutem, vocês aí — diz ele —, se sairmos sem acabar com este cara, eles vão nos matar. São muito maus...

— Se os babacas de vocês não estiverem aqui fora quando eu chegar a dez — diz a Voz Número Um —, sou eu quem vai matá-los.

Ao que acrescenta a Voz Número Dois, com uma espécie de desprezo histérico:

— Gai cocknif en yom, seus punheteiros covardes! Fiquem, sejam baleados, quem dá a mínima?

Mais tarde, após repetir esta fase a uma dezena de judeus que apenas abanavam as cabeças, perplexos, Callahan encontra por acaso um camarada idoso em Topeka que lhe traduz gai cocknif en yom. Quer dizer vá cagar no oceano.

A Voz Número Um recomeça a recitar-lhes:

— Umdoistrêsquatro...

George/Nort e Lennie/Bill trocam um olhar de indecisão de história em quadrinhos, e disparam como um raio para a porta com as roupas de baixo. O imenso feixe de luz gira para acompanhá-los. Eles estão fora; se foram.

— Siga-os — diz asperamente a Voz Número Um a seu parceiro.

A luz brilhante desliga-se com um clique.

— Vire-se de barriga — diz a Callahan a Voz Número Um.

Ele tenta dizer-lhe que acha que não pode, seus ovos agora parecem quase do tamanho de bules de chá, mas o que lhe sai da boca é apenas mingau, por causa do maxilar quebrado. Ele chega a um meio-termo rolando sobre o lado esquerdo o máximo que consegue.

— Não se mexa — diz a Voz Número Um. — Eu não quero cortar você.

Não é a voz de um cara que faz esse tipo de coisa como meio de vida. Mesmo em seu estado presente, Callahan percebe isso. O cara respira em movimentos ofegantes que às vezes falham de uma forma alarmante e depois recomeçam. Callahan quer agradecer-lhe. Uma coisa é salvar um estranho quando se trata de um policial, bombeiro ou salva-vidas, imagina. Outra muito diferente é quando você não passa de um membro comum do público maior. E é isto que é seu salvador, imagina, os dois salvadores, embora como chegaram tão bem preparados ele não saiba. Como poderiam saber os nomes dos Irmãos Hitler? E exatamente onde estavam esperando? Chegaram da rua ou estavam na lavanderia abandonada o tempo todo? Outra coisa que Callahan não sabe. E na verdade não tem importância. Porque alguém salvou, alguém salvou, alguém salvou sua vida esta noite, e isto é que é o importante, a única coisa que importa. George e Lennie quase enfiaram suas garras nele, não, querida, mas a cavalaria chegou no último minuto, exatamente como num filme de John Wayne.

O que Callahan quer fazer é agradecer a esse cara. Onde Callahan quer estar é seguro numa ambulância e a caminho do hospital antes que os punks ataquem do ponto cego o dono da Voz Número Dois lá fora, ou o dono da Voz Número Um tenha um ataque cardíaco induzido pelo nervosismo. Ele tenta e mais papa lhe sai da boca. Fala de bêbado, o que Rowan chamava de lixo de bebum. Soa como obi-ado.

Suas mãos são soltas, depois os pés. O cara não tem um ataque cardíaco. Callahan rola mais uma vez para deitar-se de costas, e vê uma mão branca rechonchuda segurando o bisturi. O terceiro dedo tem um anel de sinete. Mostra um livro aberto. Abaixo, as palavras Ex Libris. Então o feixe de luz e religado e Callahan leva um braço sobre os olhos.

— Mãe do céu, cara, por que está fazendo isto? — Sai mãnocéu, ca-a, uê a endo issu, mas o dono da Voz Número Um parece entender.

— Devo imaginar que seria óbvio, meu amigo ferido — diz ele. — Se nos encontrarmos de novo, eu gostaria que fosse pela primeira vez. Se cruzarmos na rua, eu logo passaria sem ser reconhecido. É mais seguro assim.

Passos rangendo. A luz está recuando.

— Vamos chamar uma ambulância do telefone público do outro lado da rua...

— Não! Não façam isto! E se eles voltarem? — Em seu terror bastante genuíno, estas palavras saem com perfeita clareza.

— Vamos ficar vigiando — diz a Voz Número Um. A respiração difícil agora começa a desaparecer. O cara está voltando a ficar mais uma vez sob controle. Bom para ele. — Acho que é possível que voltem, o grandalhão estava muito fora de si, mas, se os chineses estiverem corretos, eu agora sou responsável por sua vida. É uma responsabilidade à qual pretendo corresponder. Se eles reaparecerem, meto uma bala neles. E tampouco acima das cabeças. — A forma faz uma pausa. Ele mesmo parece um homem muito grande. Tem uma arma, este tanto com certeza. — Aqueles eram os Irmãos Hitler, meu amigo. Sabe de quem estou falando?

— Sim — sussurra Callahan. — E não vai me dizer quem você é?

— É melhor que não saiba — diz o Sr. Ex Libris.

— Você sabe quem eu sou?

Uma pausa. Passos rangendo. O Sr. Ex Libris está agora parado na porta da lavanderia abandonada.

— Não — diz ele. Então: — Um sacerdote. Isto não importa.

— Como souberam que eu estava aqui?

— Espere pela ambulância — diz a Voz Número Um. — Não tente se mexer sozinho. Você perdeu muito sangue, e talvez tenha ferimentos internos.

Então desaparece. Callahan fica ali deitado no chão, sentindo o cheiro de água sanitária, detergente e o aroma agradável emanado pelo amaciante de roupas. Você lava ou nós lavamos, pensa, das duas formas tudo sai limpo. Os testículos latejam de dor e incham. O maxilar lateja e também há inchaço ali. Ele sente todo o rosto repuxar-se com a carne inchando. Ali deitado, espera a ambulância e a vida ou o retorno dos Irmãos Hitler e a morte. A dama ou o tigre. O tesouro de Diana ou a picada mortal da cobra. E um tempo interminável, incontável, depois, pulsações de luz vermelha inundam o outro lado do linóleo empoeirado, e ele sabe que é a dama. Desta vez é o tesouro.Desta vez é a vida.