A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 31 de 43

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

Capítulo 7

 

Para Calvin Tower (que começara a vida como Calvin Toren), não houve sensação imediata alguma de alívio, nenhum sentimento de Graças a Deus, estou salvo. Seu primeiro pensamento foi: Eles são maus; este novo é pior.

Na fraca luz do depósito, o recém-chegado pareceu fundir-se com sua própria sombra a saltar e tornou-se uma aparição de 3 metros de altura. Uma aparição com olhos em chamas que partiam das órbitas e a boca repuxada para baixo, expondo dentes que quase pareciam presas. Numa das mãos, uma pistola que parecia do tamanho de um bacamarte, o tipo de arma citada nas histórias de aventura do século XVII como máquina. Ele agarrou Andolini pelo alto da camisa e a lapela do paletó esporte e atirou-o contra a parede. A coxa do bandido atingiu o armário de vidro, que tombou. Tower deu um grito de consternação, ao que nenhum dos dois homens prestou a mínima atenção.

O sujeito de Balazar tentou sair se contorcendo pela esquerda. O novo, o homem a rosnar com os cabelos escuros presos atrás, deixou-o soltar-se, depois deu-lhe uma rasteira e caiu em cima dele, um joelho em seu peito. Enfiou a boca do bacamarte na concha mole embaixo do queixo do bandido, que torcia a cabeça, tentando livrar-se da arma. O novo apenas a enfiou mais fundo.

Numa voz sufocada que o fez parecer um pato de desenho animado, o torpedo de Balazar disse:

— Não me faça rir, espertinho... isto não é uma arma de verdade.

O novo, o que pareceu fundir-se com sua própria sombra e se tornou da altura de um gigante, puxou a máquina de baixo do queixo do bandido, engatilhou-a com o polegar e apontou-a para o fundo da área de depósito. Tower abriu a boca para dizer alguma coisa, mas antes que pudesse proferir uma palavra houve um estrondo ensurdecedor, o estrondo do projétil de um morteiro disparado a menos de 2 metros da trincheira individual de algum infeliz soldado raso. Uma chama amarela brilhante desprendeu-se da boca da máquina. Um momento depois, o cano estava mais uma vez embaixo do queixo do bandido.

— Que é que você acha agora, Jack? — ofegou o novo. — Ainda acha que é de mentira? Vou dizer o que eu acho: da próxima vez que puxar este gatilho, seus miolos vão voar direto para Hoboken.

 

8

Eddie viu medo nos olhos de Jack Andolini, mas nenhum pânico. O que não o surpreendeu. Fora Jack Andolini que o agarrara depois que a entrega da mula de cocaína de Nassau dera errado. Esta versão dele era mais jovem — dez anos mais jovem —, porém não mais bonita. Andolini, antes apelidado de Velho Duplo-Feio pelo grande sábio e viciado ilustre Henry Dean, tinha uma testa protuberante de homem da caverna e o maxilar saliente Alley Oop para combinar. As mãos eram tão imensas que pareciam caricaturas. Pêlos brotavam dos nós dos dedos. Ele parecia Velho Duplo-Idiota, além de Velho Duplo-Feio, mas nada tinha de idiota. Os idiotas não abrem caminho para tornar-se o segundo no comando de caras como Enrico Balazar. E embora Jack ainda não fosse o segundo neste quando, seria em 1986, quando Eddie voltaria num vôo para o aeroporto JFK com cerca do equivalente a 200 mil dólares de pó boliviano sob a camisa. Naquele mundo, naquele onde e quando, Andolini já se tornara o marechal-de-campo Il Roche. Neste, Eddie achou que havia uma grande chance de ele se aposentar cedo. De tudo. A não ser, quer dizer, que jogasse perfeitamente.

Eddie enfiou o cano do revólver mais fundo sob o pescoço de Andolini. O cheiro de gasolina e pólvora intensificou-se no ar, por enquanto sobrepujando o cheiro de livros. De algum lugar nas sombras, ouviu-se um silvo raivoso de Sérgio, o gato da livraria. Parece que não aprovava barulhos altos no seu domínio.

Andolini contraiu-se e torceu a cabeça à esquerda.

— Não faça isso, cara... esta coisa tá quente!

— Não tão quente quanto você vai ficar daqui a cinco minutos — disse Eddie. — A não ser que me escute, Jack. Suas chances de se livrar desta são remotas, mas não exatamente nenhuma. Vai escutar?

— Não sei. Como você nos conhece?

Eddie tirou a arma de baixo do queixo duplo do Velho Duplo-Feio e viu um círculo vermelho onde o cano do revólver de Roland pressionara. Se eu dissesse que é seu ka encontrar-se comigo de novo, daqui a dez anos? E ser comido pelas lagostrosidades? Que elas vão começar com os pés dentro dos seus mocassins Gucci e abrir caminho para cima? Andolini não acreditaria nele, claro, tanto quanto não acreditara no grande e velho revólver de Roland até Eddie demonstrar a verdade. E ao longo dessa pista de possibilidade — nesse nível da Torre —, Andolini poderia não ser comido pelas lagostrosidades. Porque este mundo era diferente de todos os outros. Este era o Nível 19 da Torre Negra. Eddie sentia-o. Mais tarde ia ruminar sobre isso, mas agora não. Agora o próprio ato de pensar era difícil. O que ele queria, já, era matar aqueles dois homens, depois dirigir-se até o Brooklyn e acertar os membros restantes do tet de Balazar. Bateu o cano do revólver num dos salientes ossos malares de Andolini. Ia ter de refrear-se para não começar realmente a trabalhar naquele homem medonho, e Andolini viu isso. Piscou os olhos e molhou os lábios. Eddie continuava com o joelho em seu peito. Sentia-o subindo e descendo como um fole.

— Você não respondeu à minha pergunta — disse. — O que fez em vez disso foi fazer uma pergunta sua. Na próxima vez que fizer isso, Jack, vou usar o cano deste revólver pra quebrar sua cara. Depois meter uma bala na sua rótula, torná-lo um capenga pro resto da vida. Posso atirar em várias partes suas e ainda deixar você em condições de falar. E não se faça de idiota comigo. Você não é idiota, exceto talvez na escolha de seu patrão, e eu sei disso. Então me deixe perguntar de novo: Vai me escutar?

— Que opção eu tenho?

Movendo-se com aquela mesma rapidez fantasmagórica visível apenas como um borrão, Eddie bateu com o revólver no rosto de Andolini. Ouviu-se um estalo quando o osso malar se partiu. O sangue começou a escorrer-lhe da narina direita, que para Eddie parecia do tamanho do túnel do centro do município de Queens. Andolini gritou de dor, Tower de choque.

Eddie encaixou a boca da pistola de volta ao local mole sob o queixo de Andolini. Sem desviar o olhar dele, disse:

— Fique de olho no outro, Sr. Tower. Se ele começar a se mexer, me avise.

— Quem é você? — Tower quase baliu.

— Um amigo. O único que tem que pode salvar seu toucinho.

— Es-está bem.

Eddie Dean voltou toda a atenção para Andolini.

— Eu derrubei George porque ele é idiota. Mesmo que pudesse transmitir o recado que preciso mandar, ele não ia acreditar. E como pode um cara convencer outros do que não acredita?

— Você nisso tem razão — disse Andolini.

Olhava para Eddie com uma espécie de fascinação horrorizada, talvez vendo afinal aquele estranho com a arma pelo que ele realmente era. Pelo que Roland soubera que ele era desde o início, mesmo quando Eddie Dean não passava de um viciado de nariz molhado, deixando todo trêmulo o vício da heroína. Jack Andolini via um pistoleiro.

— Pode apostar que sim — disse Eddie. — E eis o recado que quero que transmita: Tower é intocável.

Jack abanava a cabeça.

— Você não entende. Tower tem uma coisa que alguém quer. Meu patrão concordou em conseguir. Ele prometeu. E meu patrão sempre...

— Sempre cumpre suas promessas, eu sei — disse Eddie. — Só que desta vez ele não vai poder cumprir, e não vai ser por culpa dele. Porque o Sr. Tower decidiu não vender o terreno baldio nesta rua à Imobiliária Sombra. Ele vai vender à... hããã... à Imobiliária Tet. Entendeu?

— Senhor, eu não sei, mas conheço meu patrão. Ele não vai parar.

— Vai, sim. Porque Tower não terá nada pra vender. O terreno não será mais dele. E agora escute com mais atenção, Jack. Escute ka-me, não ka-mai. Sabiamente, não tolamente.

Eddie curvou-se. Jack encarava-o acima, fascinado pelos olhos salientes — íris cor de avelã, brancos, injetados de sangue — e a boca sorrindo ferozmente agora à distância de um beijo da sua.

— O Sr. Tower se pôs sob a proteção de pessoas mais poderosas e mais violentas do que você pode imaginar, Jack. Pessoas que fazem Il Roche parecer um hippie paz e amor em Woodstock. Você tem de convencê-lo que não tem nada a ganhar se continuar a molestar Calvin Tower, e tudo a perder.

— Eu não posso...

— Quanto a você, saiba que a marca de Gilead está nesse homem. Se voltar a tocar mais uma vez nele, se voltar a pôr o pé nesta loja, eu vou ao Brooklyn e mato sua mulher e seus filhos. Depois vou encontrar sua mãe e seu pai, e os mato também. Depois as irmãs da sua mãe e os irmãos do seu pai. Depois mato seus avós, se ainda estiverem vivos. Você será deixado por último. Acredita em mim?

Jack Andolini continuou fitando o rosto acima dele, os olhos injetados, a boca arreganhada, rosnando, mas agora com crescente horror. A verdade era que acreditava. E quem quer que fosse, sabia muito sobre Balazar e esse acordo vigente. Sobre o acordo vigente, talvez soubesse até mais que o próprio Andolini.

— Temos mais gente — disse Eddie — e estamos todos no mesmo negócio: proteção... — Quase disse proteção da rosa. — ... proteção a Calvin Tower. Vamos ficar vigiando este lugar, vigiando Tower, vigiando os amigos de Tower, caras como Deepneau. — Eddie viu os olhos de Andolini piscarem de surpresa a isso, e ficou satisfeito. — Todo mundo que vier aqui e até levantar a voz pra Tower, nós mataremos as famílias deles, e eles por último. Isto vale pra George, Cimi Dretto, Tricks Postino... pra seu irmão Cláudio, também.

Andolini arregalava os olhos a cada nome, depois fechou-os momentaneamente ao nome de seu irmão. Eddie achou que talvez tivesse se feito entender. Mas em certo aspecto, isso nem importava, pensou friamente. Assim que Tower nos vender o terreno, realmente não importará o que fizerem com ele, importará?

— Como sabe tanto? — perguntou Andolini.

— Isso não interessa. Simplesmente transmita o recado. Mande Balazar dizer aos amigos dele na Sombra que o terreno não está mais à venda. E diga que Tower está sob a proteção do pessoal de Gilead, que porta grossos calibres.

— Grossos?

— Quero dizer pessoal mais perigoso do que qualquer um com quem Balazar já lidou — disse Eddie —, incluindo o pessoal da Imobiliária Sombra. Diga que se ele insistir haverá cadáveres bastantes para encher a Grand Army Plaza. E muitos serão de mulheres e crianças. Convença-o.

— Eu... cara, eu vou tentar.

Eddie levantou-se e recuou. Enroscado nas poças de gasolina e nos cacos de vidro espalhados, George Biondi começava a mexer-se e resmungar no fundo da garganta. Eddie fez um gesto a Jack com o cano da pistola de Roland para que se levantasse.

— E melhor tentar mesmo.

 

9

Tower serviu uma caneca de café a cada um deles, depois não conseguiu tomar o seu. As mãos tremiam horrivelmente. Após vê-lo tentar duas vezes (pensando numa personagem da limpeza de bombas no UXB que teve uma crise nervosa), Eddie sentiu pena dele e despejou metade do café da caneca dele na sua.

— Tente agora — disse, e empurrou a caneca pela metade de volta ao dono da livraria.

Tower tinha os óculos de novo, mas um dos aros fora torcido e eles ficavam tortos em seu rosto. Também havia a rachadura que corria pela lente esquerda como um raio de relâmpago. Os dois estavam no balcão de mármore, Tower atrás, Eddie sentado num dos bancos altos. Tower trouxera consigo o livro que Andolini ameaçara queimar primeiro, e botou-o ao lado da cafeteira. Era como se não suportasse tê-lo fora de seu raio de visão.

Pegou a caneca com a mão trêmula (sem anéis, notou Eddie, nas duas mãos) e esvaziou-a. Eddie não entendia como o sujeito preferia beber aquele xarope preto. Pelo que sabia, o gosto verdadeiramente bom era o Half and Half. Após os meses que passara no mundo de Roland (ou talvez anos houvessem passado furtivamente), tinha o gosto tão saboroso quanto creme grosso.

— Melhor? — perguntou Eddie.

— Sim.

Tower olhou para fora pela janela, como se esperasse o retorno do sedã que saíra aos solavancos e desaparecera dez minutos atrás. Depois tornou a olhar para Eddie. Continuava assustado com o rapaz, mas o resto do visível terror partira quando Eddie acomodara a imensa pistola de volta dentro do que chamava de “embornal do meu amigo”. A bolsa era feita de um couro escovado, natural, e fechada em volta da boca com ilhoses e tiras em vez de zíper. Para Calvin Tower, foi como se o rapaz tivesse guardado os aspectos mais assustadores de sua personalidade no “embornal de tropeiro”, junto com o revólver de tamanho descomunal. Era bom, porque lhe permitia acreditar que o jovem não estivera blefando sobre matar todas as famílias de bandidos e depois os próprios bandidos.

— Onde está seu amigo Deepneau hoje? — perguntou Eddie.

— No oncologista. Dois anos atrás, Aaron começou a ver sangue na privada quando defecava. Um homem mais jovem pensa: “Malditas hemorróidas”, e compra um tubo de Pomada H. Quando a gente está na faixa dos setenta, imagina o pior. No caso dele, era sério, mas não terrível. O câncer avança mais devagar quando se tem a idade dele; mesmo o Grande C envelhece. É engraçado pensar nisso, não? De qualquer modo, eles o cauterizaram com radiação e dizem que já desapareceu, mas Aaron afirma que a gente não dá as costas ao câncer. Ele volta lá a cada três meses, e é lá que está, o que me deixa feliz. É um velho decrépito, mas continua sendo um cabeça-quente, impetuoso.

Eu devia apresentar Aaron Deepneau a Jamie Jaffords, pensou Eddie. Os dois podiam jogar Castelos em vez de xadrez, e desfiar os dias da Lua de Cabra.

Tower, enquanto isso, sorria tristemente. Ajustava os óculos no rosto. Por um momento, ficaram retos, mas logo tornaram a entortar-se. A inclinação era de certo modo pior que a rachadura; fazia-o parecer meio doido, além de vulnerável.

— Ele é um cabeça-quente e eu sou um covarde. Talvez por isso sejamos amigos, nos encaixamos nos lugares errados um do outro, formamos uma coisa quase inteira.

— Escute, talvez esteja sendo um pouco duro consigo mesmo — disse Eddie.

— Eu não concordo. Meu analista diz que qualquer um que queira saber como os filhos de um pai-A e uma mãe-B acabarão sendo só precisam estudar o histórico do meu caso. Também diz que...

— Perdão, Calvin, mas não dou a mínima merda pro seu analista. Você não se desfez do terreno ali na rua, e isso já basta para mim.

— Não mereço crédito algum por isso — disse Calvin Tower morosamente. — É como este — pegou o livro que pusera ao lado da cafeteira — e os outros que ele ameaçou queimar. Eu simplesmente tenho um problema pra me desfazer das coisas. Quando minha primeira mulher disse que queria o divórcio e perguntei por que, ela explicou: “Porque, quando me casei com você, eu não compreendia. Achei que era um homem. Acabei vendo que você é um rato de biblioteca.”

— O terreno é muito diferente dos livros — disse Eddie.

— É? Você acha mesmo?

Tower olhava-o, fascinado. Quando ergueu a caneca de café, Eddie alegrou-se ao ver que o pior da tremedeira passara.

— Você não?

— Às vezes eu sonho com ele — disse Tower. — Na verdade, não vou lá desde que a delicatessen de Tommy Graham faliu e eu paguei pra derrubá-la. E mandei erguer a cerca, claro, que foi quase tão cara quanto os homens da bola de demolição. Sonho que há um campo de rosas ali dentro. Um campo de rosas. E em vez de só até a Primeira Avenida, o terreno segue toda a vida. Sonho engraçado, não é?

Eddie teve certeza de que Calvin Tower tinha realmente esses sonhos, mas julgou ver mais alguma coisa nos olhos escondidos atrás dos óculos tortos e rachados. Achou que Tower revelava esse sonho para representar todos os sonhos que não contaria.

— Engraçado — concordou Eddie. — Acho melhor me servir um pouco mais daquela lama, por favor, eu peço. Vamos ter uma pequena confabulação.

Tower sorriu e mais uma vez ergueu o livro que Andolini ameaçara carbonizar.

— Confabulação. É o tipo de coisa que vivem dizendo aqui.

— É mesmo?

— Hum-hum.

Eddie estendeu a mão.

— Deixe eu ver.

A princípio, Tower hesitou, e Eddie viu o rosto do dono da livraria contrair-se com uma pesarosa mistura de emoções.

— Por favor, Cal, não vou limpar o rabo com isso.

— Não. Claro que não. Sinto muito. — E nesse momento Tower pareceu arrependido, como pareceria um alcoólatra após um destrutivo surto de embriaguez. — Eu simplesmente... alguns livros são muito importantes pra mim. E este é uma verdadeira raridade.

Passou-o a Eddie, que olhou a capa protegida por plástico e sentiu o coração parar.

— Que foi? — perguntou Tower. Largou a caneca com um baque. — Qual o problema?

Eddie não respondeu. A ilustração da capa mostrava uma pequena habitação redonda como uma barraca pré-fabricada Quonset, só que feita de madeira, com telhado de colmo e ramos de pinheiro. Afastado num lado, via-se um índio valente usando calça de couro de gamo. Sem camisa, segurava uma machadinha dos peles-vermelhas no peito. No fundo, uma velha locomotiva a vapor a fumegar varava como um raio a pradaria, soltando fumaça cinzenta num céu azul.

O título do livro era The Dogan. O autor, Benjamin Slightman Jr.

De muito longe, Tower perguntava-lhe se ele ia desmaiar. De apenas um pouco mais perto, Eddie disse que não ia. Benjamin Slightman Jr. Ben Slightman Filho, em outras palavras. E...

Empurrou a mão rechonchuda de Tower quando tentou recuperar o livro. Depois Eddie usou o próprio dedo para contar as letras do nome do autor. Eram, claro, 19.

10

Engoliu outra caneca do café de Tower, desta vez sem o Half and Half. E voltou a pegar o livro.

— Que é que o torna especial? — perguntou. — Quer dizer, é especial pra mim porque conheci alguém recentemente cujo nome é o mesmo do cara que escreveu este. Mas...

Uma idéia ocorreu a Eddie, e ele foi para a segunda orelha, esperando encontrar uma foto do autor. O que encontrou no entanto foi uma curta biografia de duas linhas: “BENJAMIN SLIGHTMAN JR. é criador de gado em Montana. Este é seu segundo livro.” Abaixo, o desenho de uma águia e um slogan: COMPRE BÔNUS DE GUERRA!

— Mas por que é tão especial pra você O que o faz valer 7.500 dólares?

O rosto de Tower iluminou-se. Quinze minutos antes, estivera em terror mortal por sua vida, mas ninguém jamais saberia disso se o visse agora, pensou Eddie. Agora se achava sob o domínio de sua obsessão. Roland tinha a Torre Negra; esse homem os livros raros. Ele segurou-o para Eddie ver a capa.

— The Dogan, certo?

— Certo.

Tower mostrou-lhe o livro aberto e apontou a primeira orelha, também sob plástico, onde se via o sumário da história.

— E aqui?

— “The Dogan” — leu Eddie. — “Um conto emocionante do velho oeste e do esforço heróico de um índio valente para sobreviver.” E daí?

— Agora veja isto!. — disse Tower, triunfante, e virou-o para a folha de rosto, com o título. Aí Eddie leu:

The Hogan

Benjamin Slightman Jr.

— Não saquei — disse Eddie. — Que é que há de tão importante?

Tower revirou os olhos.

— Olhe de novo.

— Por que você simplesmente não me diz o que...

— Não, olhe de novo. Eu insisto. A alegria está na descoberta, Sr. Dean. Qualquer colecionador lhe dirá a mesma coisa. Selos, moedas ou livros, a alegria está na descoberta.

Ele o folheou mais uma vez de volta à capa, e desta vez viu.

— O título na frente está impresso errado, não é? Dogan em vez de Hogan.

Tower assentiu, satisfeito.

— Hogan é uma barraca indígena de terra do tipo ilustrado na capa. Dogan é... bem, nada, não existe. O erro tipográfico na capa torna o livro um tanto valioso, mas agora... olhe aqui.

Ele foi para a página do Copyright e entregou o livro a Eddie. A data do copyright era 1943, o que, claro, explicava a águia e o slogan da orelha do autor. O título do livro era dado como The Hogan, logo parecia tudo certo. Eddie ia perguntar, quando percebeu.

— Eles deixaram de fora o Jr. do nome do autor, não é?

— Sim! Sim! — Tower quase abraçava a si mesmo. — Como se o livro tivesse sido escrito pelo pai do autor! Na verdade, certa vez, quando eu estava numa convenção bibliográfica na Filadélfia, expliquei a situação particular deste livro a um advogado que fez uma palestra sobre lei de direitos autorais, e esse sujeito disse que o pai de Slightman Jr. poderia de fato afirmar o direito de propriedade do livro por causa de um simples erro tipográfico! Impressionante, não acha?

— Totalmente — disse Eddie, pensando em Slightman pai.

Pensando em Slightman filho. Pensando em que Jake fizera logo amizade com o último e perguntando-se por que isso lhe dava um pressentimento tão mau agora, sentado ali e bebendo café na pequena e velha Calla Nova York.

Pelo menos ele levou a Ruger, pensou Eddie.

— Está me dizendo que basta isso pra tornar um livro valioso? — perguntou a Tower. — Um erro tipográfico na capa, mais uns dois dentro e de repente a coisa vale 7.500 paus?

— De jeito nenhum — disse Tower, parecendo chocado. — Mas o Sr. Slightman escreveu três romances de faroeste realmente excelentes, todos adotando o ponto de vista dos índios. The Hogan é o do meio. Tornou-se um grande maníaco em Montana depois da guerra, um trabalho que tinha a ver com direitos de água e minerais, e depois, aí está a ironia, um grupo de índios o matou. Escalpelou, na verdade. Estavam bebendo na parte aberta de um armazém geral...

Um armazém geral chamado Took’s, pensou Eddie. Eu acertei meu relógio e garanto.

— ... e parece que o Sr. Slightman disse alguma coisa que desagradou aos índios, e... bem, lá se vai seu jogo.

— Todos os seus livros valiosos têm histórias semelhantes? — perguntou Eddie. — Quer dizer, alguma espécie de coincidência os torna valiosos, e não apenas os textos em si?

Tower riu.

— Meu rapaz, a maioria das pessoas que coleciona livros raros nem chega a abrir suas aquisições. Abrir e fechar um livro danifica a lombada. Daí prejudica o preço de revenda.

— Isso não lhe parece um comportamento meio doentio?

— De jeito nenhum — disse Tower, mas um rubor denunciador lhe subiu pela face. Parecia que parte dele concordava com Eddie. — Se um cliente gasta 8 mil dólares numa primeira edição assinada do Tess dos D’Urbevilles, de Hardy, faz perfeito sentido pôr o livro num lugar seguro, onde possa ser admirado mas não tocado. Se o cara quiser realmente ler a história, que compre uma brochura da Vintage.

— Você acredita nisso — disse Eddie, fascinado. — Você acredita mesmo nisso.

— Bem... sim. Os livros podem ser objetos de grande valor. Esse valor é criado de várias formas. Às vezes, basta a assinatura do autor para criá-lo. Outras, como neste caso, é um erro de tipografia. Às vezes é uma primeira impressão, primeira edição, extremamente pequena. E alguma coisa disso tem a ver com o motivo que o trouxe aqui, Sr. Dean? É sobre isso que queria... confabular?

— Não, acho que não.

Mas sobre o que exatamente quisera confabular? Soubera — fora claríssimo para ele quando arrebanhara Andolini e Biondi para fora do depósito, depois ficara na porta de entrada vendo-os cambalear até o sedã, apoiando-se um no outro. Mesmo na Nova York cínica, meta-se-com-sua-própria-vida, haviam atraído muitos olhares. Os dois sangravam e exibiam o mesmo olhar estupefato de: Que porra ACONTECEU comigo? Sim, então era claro. O livro e o nome do autor haviam mais uma vez turvado seu pensamento. Ele o tomou de Tower e botou-o de cabeça para baixo no balcão para não ter de olhá-lo. Então se pôs em ação para tornar a reunir os pensamentos.

— O principal e mais importante, Sr. Tower, é que tem de sair de Nova York até 15 de julho. Porque eles vão voltar. Na certa, não aqueles mesmos caras, mas alguns dos outros que Balazar usa. E virão com impaciência maior que nunca pra dar uma lição a você e a mim. Balazar é um déspota. — Esta palavra Eddie aprendera com Susannah, que a usara para descrever o Homem do Tiquetaque. — O modo dele fazer negócios é sempre em escala ascendente. Você dá um tapa, ele revida duas vezes mais forte. Dê-lhe um soco no nariz, que ele quebra seu maxilar. Você lança uma granada, ele lança uma bomba.

Tower gemeu. Foi um som teatral (embora na certa não pretendido assim), e em outras circunstâncias Eddie talvez tivesse rido. Nessas, não. Além disso, tudo que queria dizer a Tower voltava-lhe à mente. Ele podia fazer a barganha, por Deus. Faria a barganha.

— A mim, provavelmente eles não vão conseguir agarrar. Tenho negócios em outro lugar. No alto das montanhas e muito longe daqui, permita-me dizer. Seu trabalho também é não deixar que consigam pegar você.

— Mas com certeza, depois do que acabou de fazer, e mesmo que não acreditem em você sobre as mulheres e as crianças...

Os olhos de Tower, arregalados atrás dos óculos ferrados, imploravam a Eddie para dizer que não falara realmente a sério sobre criar cadáveres bastantes para encher a Grand Army Plaza. Eddie não podia ajudá-lo nisso.

— Cal, escute. Caras como Balazar não acreditam nem desacreditam. O que fazem é testar os limites. Eu dei um susto no Narigão? Não, só o nocauteei. Dei um susto em Jack? Sim. E vai pegar, porque Jack tem um pouco de imaginação. Balazar vai ficar impressionado com o susto que dei no Feio Jack? Sim... mas só o suficiente pra ser cauteloso.

Eddie curvou-se sobre o balcão, olhando seriamente Tower.

— Não quero matar crianças, certo? Vamos deixar bem claro. Em... bem, em outro lugar, deixemos a coisa por aí, em outro lugar, eu e meus amigos vamos arriscar nossas vidas no paredão pra salvar crianças. Mas são crianças humanas. Pessoas como Jack, Tricks Postino e o próprio Balazar são animais. Lobos de duas pernas. E lobos criam seres humanos? Não, criam mais lobos. Lobos se acasalam com mulheres? Não, se acasalam com lobas. Portanto, se eu tivesse de entrar nessa, e entraria se tivesse, diria a mim mesmo que estava eliminando uma matilha de lobos, até o filhote menor. Não mais que isso. E não menos.

— Meu Deus, ele fala sério — disse Tower. As palavras saíram em voz baixa, e todas num murmúrio, para o ar rarefeito.

— Com toda a certeza, mas isso não quer dizer nada — disse Eddie. — A questão é: eles virão atrás de você. Não pra matá-lo, mas para virá-lo de novo na direção deles. Se ficar aqui, Cal, acho que se candidatará a uma séria mutilação, no mínimo. Há algum lugar onde possa ir até 15 de julho do próximo mês? Tem dinheiro suficiente? Eu não tenho, mas imagino que possa arranjar algum.

Em sua mente, Eddie já estava no Brooklyn. Balazar era o anjo da guarda de um jogo de pôquer no quarto dos fundos da Barbearia de Bernie, todo mundo sabia. O jogo às vezes podia não acontecer durante um dia de semana, mas haveria alguém lá com dinheiro vivo. O suficiente para...

— Aaron tem algum dinheiro — dizia, relutante, Tower. — Já me ofereceu várias vezes. Eu sempre recusei. Ele vive me dizendo que preciso tirar umas férias. Acho que quer dizer com isso que eu devia me afastar dos caras que você acabou de pôr pra fora. Está curioso por saber o que eles querem, mas não pergunta. Um cabeça-quente, mas um cabeça-quente cavalheiro. — Tower deu um breve sorriso. — Talvez Aaron e eu pudéssemos sair de férias juntos, jovem senhor. Afinal, talvez não tenhamos outra oportunidade.

Eddie tinha quase certeza de que os tratamentos químicos e de radiação iam manter Aaron Deepneau de pé por pelo menos mais quatro anos, mas provavelmente não era a hora certa para dizer isso. Olhou para a porta do Restaurante da Mente de Manhattan e viu a outra porta. Além dela, a boca da gruta. Sentado ali como um iogue de quadrinhos, apenas uma silhueta de pernas cruzadas, estava o pistoleiro. Perguntou-se quanto tempo havia que ele se encontrava ali, quanto tempo a ouvir o som abafado mas ainda assim enlouquecedor dos sinos todash.

— Acha que Atlantic City seria longe o bastante? — perguntou Tower timidamente.

Eddie Dean quase tremeu só de pensar. Tivera uma breve visão de duas ovelhas rechonchudas — envelhecendo, sim, mas ainda saborosas — indo ao encontro não apenas de uma matilha de lobos, mas de toda uma cidade deles.

— Lá, não — disse Eddie. — Qualquer lugar, menos lá.

— Que tal Maine ou New Hampshire? Talvez pudéssemos alugar um chalé num lago em algum canto até 15 de julho.

Eddie fez que sim com a cabeça. Era um rapaz cosmopolita. Difícil imaginar os bandidos lá no norte da Nova Inglaterra, usando aqueles bonés xadrezes e coletes, mastigando sanduíches de pimentão e tomando Ruffino.

— Lá seria melhor — disse. — E enquanto estiver lá, talvez possa tentar encontrar um advogado.

Tower desatou a rir. Eddie olhou-o, a cabeça meio virada para trás, sorrindo também um pouco. Era sempre bom fazer as pessoas rirem, mas melhor ainda quando se sabia de que porra estavam rindo.

— Perdão — disse Tower, um ou dois minutos depois. — Só que Aaron era advogado. Sua irmã e dois irmãos, todos mais moços ainda, são advogados. Gostam de jactar-se que têm o mais singular timbre legal em Nova York, talvez em todos os Estados Unidos. Diz apenas “DEEPNEAU”.

— Isso agiliza as coisas — disse Eddie. — Quero que peça ao Sr. Deepneau para redigir um contrato enquanto estiverem de férias na Nova Inglaterra.

— Escondidos na Nova Inglaterra — disse Tower. De repente, pareceu melancólico. — Enfurnados na Nova Inglaterra.

— Chame do que quiser — disse Eddie —, mas faça com que o documento seja redigido. Você vai vender aquele terreno a mim e a meus amigos. À Imobiliária Tet. Só vai receber um dólar por ele pra começar, mas posso quase lhe garantir que no fim terá o justo valor de mercado.

Tinha mais a dizer, muito mais, porém parou por aí. Quando estendeu a mão para pegar o livro, The Dogan ou The Hogan, ou qualquer que fosse o nome, uma expressão de dolorosa relutância já varrera o rosto de Tower. O que tornava a aparência desagradável era o subtom de idiotice nela... e não muito embaixo da superfície também. Ó, meu Deus, ele vai brigar comigo por isso. Depois de tudo que aconteceu, ele ainda vai brigar comigo por isso. E por quê? Porque ele é realmente um rato de livros.

— Pode confiar em mim, Cal — disse, sabendo que confiança não era exatamente a questão. — Eu acertei meu relógio e garanto. Agora me ouça. Eu peço que me ouça.

— Eu não o conheço através de Adam. Você entrou da rua...

—... e salvei a sua vida, não se esqueça disso.

A expressão de Tower tornou-se rígida e obstinada.

— Eles não iam me matar. Você mesmo disse.

— Iam queimar seus livros preferidos. Os mais valiosos.

— Não os mais valiosos. Aquilo também talvez tenha sido um blefe.

Eddie inspirou fundo e expirou, esperando que o súbito desejo de curvar-se sobre o balcão e afundar os dedos na garganta de Tower passasse ou ao menos diminuísse. Lembrou a si mesmo que se Tower não tivesse sido obstinado, na certa teria vendido o terreno à Sombra muito antes. A rosa teria sido arada embaixo. E a Torre Negra? Eddie imaginava que quando a rosa morresse, a Torre Negra ia simplesmente desabar como a de Babel quando Deus dela se fartara e girara Seu dedo. Não se passariam outras centenas ou milhares de anos até a maquinaria que governava os Feixes de Luz parar de funcionar. Apenas cinzas, cinzas, todos tombamos. E então? Salve o Rei Rubro, senhor das trevas todash.

— Cal, se vender a mim e aos meus amigos o terreno baldio, você se livra do anzol. Não apenas isso, mas acabará tendo dinheiro bastante para manter sua lojinha pelo resto da vida. — Teve uma idéia súbita. — Escute, conhece uma empresa chamada Holmes Dental?

Tower sorriu.

— Quem não conhece? Eu uso a escova deles. E a pasta de dentes. Experimentei a loção bucal, mas é forte demais. Por que pergunta?

— Porque Odetta Holmes é minha mulher. Posso parecer o Sapo Gremlin, mas na verdade sou a porra do Príncipe Encantado.

Tower calou-se por um longo tempo. Eddie dominou sua impaciência e deixou o cara pensar. Por fim, Tower disse:

— Você acha que estou sendo tolo. Sendo Silas Marner, ou pior, Ebenezer Scrooge.

Eddie não sabia quem era Silas Marner, mas entendeu a afirmação de Tower pelo contexto da discussão.

— Vamos pôr nos seguintes termos — disse. — Depois do que você acabou de suportar, é inteligente demais para não saber onde está o seu melhor interesse.

— Eu me sinto obrigado a lhe dizer que não se trata apenas de avareza insensata da minha parte; há um elemento de cautela, além disso. Sei que aquele pedaço de Nova York é valioso, qualquer pedaço de Manhattan é, mas não é só isso. Tenho um cofre lá. Há uma coisa nele. Uma coisa talvez ainda mais valiosa que meu exemplar de Ulisses.

— Então por que não está no seu cofre-forte no banco?

— Porque deve ficar lá — disse Tower. — Sempre esteve lá. Talvez esperando você ou alguém como você. Antes, Sr. Dean, minha família era dona de quase toda a Baía da Tartaruga, e... bem, espere. Vai esperar?

— Sim — disse Eddie.

Qual a opção?

 

11

Quando Tower saiu, Eddie desceu do banco e foi até a porta que só ele via. Olhou através dela. Fracamente, ouviu sinos. Com mais nitidez, ouviu a mãe.

— Por que não sai daí? — gritou ela dolorosamente. — Você só torna as coisas piores, Eddie... sempre piora.

Esta é a minha mãe, pensou, e chamou o nome do pistoleiro.

Roland puxou uma das balas do ouvido. Eddie notou a maneira estranhamente desajeitada como a segurava, quase a apalpando, como se tivesse os dedos duros, mas não havia tempo para pensar nisso agora.

— Tudo bem com você? — chamou Eddie.

— Vou indo. E você?

— Sim, mas... Roland, dá pra você atravessar? Talvez eu precise de uma ajudinha.

Roland pensou, e fez que não com a cabeça.

— A caixa poderia se fechar se eu fizesse isso. Na certa se fecharia. E ficaríamos encurralados aí.

— Não dá pra calçar essa porra aberta com uma pedra, um osso ou alguma coisa?

— Não — disse Roland. — Não vai dar certo. O globo é poderoso.

E está agindo em você, pensou Eddie. O rosto de Roland parecia desfeito, magro e macilento, como ficara quando tinha o veneno das lagos-trosidades dentro.

— Tudo bem — disse.

— Seja o mais rápido que puder.

— Serei.

 

12

Quando deu meia-volta, Tower olhava-o, interrogativo.

— Com quem estava falando?

Eddie ficou de lado e apontou a entrada da porta.

— Está vendo alguma coisa ali, sai?

Calvin Tower olhou, começou a abanar a cabeça e olhou mais um pouco.

— Um luzir suave — acabou dizendo. — Como ar quente sobre um incinerador. Quem está lá? O que está lá?

— Por enquanto, digamos que ninguém. Que tem em sua mão?

Tower ergueu-o. Era um envelope, muito antigo. Escritas em calcografia, as palavras St ef an Tor en e Let r a, Mor t a Abaixo, desenhados com todo o esmero em tinta antiga, viam-se os mesmos símbolos na porta e na caixa: . Agora talvez estejamos chegando a algum lugar, pensou Eddie.

— Antes este envelope guardava o testamento do meu tetravô — disse Calvin Tower. — Datado de 19 de março de 1846. Agora não tem mais nada aqui, além de uma única folha de papel com um nome escrito. Se me disser que nome é este, meu rapaz, farei o que pede.

E assim, meditou Eddie, tudo se reduz a outra adivinhação. Só que desta vez não eram quatro vidas que dependiam da resposta, mas toda a existência. Graças a Deus, é uma das fáceis, pensou.

— É Deschain — disse Eddie. — O primeiro nome será Roland, o nome do meu dinh, ou Steven, o do pai dele.

Todo o sangue pareceu fugir do rosto de Calvin Tower. Eddie não tinha a menor idéia de como o sujeito conseguia manter-se de pé.

— Meu querido Deus no céu — disse.

Com dedos trêmulos, retirou uma antiga e frágil folha de papel do envelope, uma viajante do tempo que viajara mais de 131 anos para aquele onde e quando. Estava dobrada. Tower abriu-a e pôs no balcão, onde os dois poderiam ler as palavras que Stefan Toren escrevera na mesma e firme caligrafia:

Roland Deschain, de Gilead

A linhagem do PISTOLEIRO

ELD

 

13

Conversaram mais, cerca de 15 minutos ao todo, e Eddie julgou pelo menos parte da conversa importante, mas o verdadeiro acordo fora fechado quando ele dissera a Tower o nome que o tetravô de Tower escrevera numa folha de papel 14 anos antes de a Guerra Civil começar.

O que Eddie descobriu sobre Tower durante a confabulação era desanimador. Embora nutrisse um certo respeito pelo homem (por qualquer homem que resistisse mais de vinte segundos aos gorilas de Balazar), não gostava muito dele, pois tinha uma espécie de idiotice intencional. Eddie achou que era uma autocriação e talvez apoiada por seu analista, que lhe dizia que ele devia cuidar de si mesmo, que precisava ser o capitão de seu próprio navio, autor do próprio destino, respeitar seus próprios desejos, todo aquele blablablá. Todas aquelas palavras e termos codificados que significavam que estava tudo bem para o fodido de um egoísta. Que era nobre, mesmo? Quando Tower disse a Eddie que Aaron Deepneau era seu único amigo, Eddie não ficou surpreso. O que de fato o surpreendeu foi que Tower tivesse algum amigo. Um homem daqueles jamais seria ka-tet, e deixava Eddie inquieto saber que seus destinos estavam tão intimamente ligados.

Você terá apenas de confiar em ka. É para isso que serve ka, não é?

Claro que era, mas Eddie não era obrigado a gostar.

 

14

Eddie perguntou a Tower se ele tinha um anel com Ex Liveris. Tower pareceu intrigado e desatou a rir, explicando-lhe que ele devia querer dizer Ex Libris. Remexeu numa das prateleiras, encontrou um livro, mostrou a Eddie a gravura na capa. Eddie assentiu com a cabeça.

— Não — disse Tower. — Mas seria a coisa perfeita para um cara como eu, não seria? — Olhou Eddie com entusiasmo. — Por que pergunta?

Mas a futura responsabilidade de Tower em salvar um homem que agora estava explorando as estradas secundárias dos múltiplos Estados Unidos era um assunto em que Eddie não estava a fim de entrar já. Chegara tão perto de explodir a mente do cara quanto quisera, e tinha de voltar pela porta desconhecida antes que o Treze Preto reduzisse Roland a um farrapo.

— Não importa. Mas, se vir um, deve comprar. Mais uma coisa e depois vou embora.

— Qual é?

— Quero que me prometa que assim que eu sair, você sairá.

Tower mais uma vez ficou evasivo. Era o lado dele que Eddie passaria a detestar, com o tempo.

— Ora... pra dizer a verdade, não sei se posso fazer isso. O anoitecer é muitas vezes uma hora movimentada pra mim, as pessoas tendem muito mais a folhear assim que termina o dia de trabalho, e o Sr. Brice está vindo para ver uma primeira edição de The Troubled Air, o romance de Irwin Shaw sobre a era do rádio e de McCarthy... Terei de ao menos passar os olhos pela minha agenda de compromissos e...

Falou monotonamente, na verdade acumulando vapor enquanto descia para as trivialidades.

Eddie disse, muito brando:

— Gosta dos seus colhões, Calvin? É tão ligado a eles, talvez, quanto eles a você?

Tower, que estivera imaginando quem ia dar de comer a Sérgio se ele simplesmente se mudasse e fugisse, agora parava e olhava-o, pasmo, como se nunca tivesse ouvido aquela simples palavra de duas sílabas.

Eddie assentia com a cabeça, prestativo.

— Suas bolas. Seu saco. Suas pedras. Seus cojones. A antiga firma de esperma. Seus testículos.

— Não entendo o que...

O café de Eddie acabara. Ele despejou um pouco de Half and Half na caneca e bebeu-o, em vez do outro. Era muito saboroso.

— Eu disse que, se ficasse aqui, podia esperar uma séria mutilação. Foi isso que eu quis dizer. E por aí que eles provavelmente vão começar, por suas bolas. Dar-lhe uma lição. Quanto a quando acontece, bem, isso depende sobretudo do trânsito.

— Trânsito — Tower disse isso com uma completa falta de expressão vocal.

— Isto mesmo — disse Eddie, sorvendo seu Half and Half como se fosse um dedal de conhaque. — Basicamente do tempo que Jack Andolini levar pra voltar de carro ao Brooklyn e depois o tempo que Balazar levar pra encher um furgão ou uma caminhonete com caras pra voltarem aqui. Espero que Jack esteja tonto demais pra apenas telefonar. Achou que Balazar ia esperar até amanhã? Convocar uma pequena reunião de caras como Kevin Blake e Cimi Dretto pra discutir a questão? — Eddie ergueu um dedo e depois dois. A poeira de outro mundo acumulava-se sob as unhas. — Primeiro, eles não têm miolos; segundo, Balazar não confia neles.

“O que ele vai fazer, Cal, é o que faz todo déspota bem-sucedido: reagir já, rápido como um raio. O trânsito da hora do rush vai detê-los um pouco, mas se você ainda estiver aqui às seis, mais meia hora no máximo, pode despedir-se dos seus colhões. Eles vão decepá-los com uma faca, depois cauterizar a ferida com uma daquelas tochazinhas, aquelas Bernz-O-Matics...”

— Pare — disse Tower. Agora, em vez de branco, ficara verde. Sobretudo na área em volta do queixo e do pescoço. — Vou para um hotel no Village. Há uns dois baratos que atraem escritores e artistas na maré baixa da sorte, quartos medonhos, mas não tão ruins assim. Vou ligar para Aaron, e viajaremos para o norte amanhã de manhã.

— Ótimo, mas primeiro precisa escolher uma cidade pra ir. Porque eu, ou um dos meus amigos, talvez precise entrar em contato com você.

— Como devo fazer isso? Não conheço nenhuma cidade na Nova Inglaterra ao norte de Westport, Connecticut!

— Dê alguns telefonemas assim que chegar ao hotel no Village — disse Eddie. — Escolha a cidade, e então amanhã de manhã, antes de sair de Nova York, mande seu chapa Aaron até o terreno baldio. Peça que escreva o Código de Endereçamento Postal na cerca de tábuas. Vocês têm códigos postais, não? Quer dizer, eles já foram inventados, certo?

Tower olhou-o como se ele tivesse pirado.

— Claro que sim.

— Valeu. Faça-o escrever no lado da rua Quarenta e Seis, de cima a baixo, onde termina a cerca. Entendeu?

— Sim, mas...

— Eles na certa não vão mandar vasculhar sua loja amanhã de manhã, vão imaginar que ficou esperto e se mandou, mas se o fizerem, não vão mandar vasculhar o terreno, e se o fizerem, será no lado da Segunda Avenida. E se derem uma batida no lado da rua Quarenta e Seis, vão estar atrás de você, não dele.

Tower sorria um pouco, apesar de si mesmo. Eddie relaxou e retribuiu o sorriso.

— Mas...? E se também estiverem atrás de Aaron?

— Mande-o usar o tipo de roupas que não usa normalmente. Se for um homem de blue jeans, diga-lhe para pôr um terno. Se for um homem de terno...

— Faça-o usar blue jeans.

— Correto. E óculos escuros não seriam má idéia, supondo que o dia não esteja nublado demais pra fazê-lo parecer estranho. Peça que ponha um chapéu de feltro preto. Diga-lhe que não precisa ser teatral. Simplesmente ele vai até a cerca, como se pra ler um dos cartazes. Depois escreve os números e se manda. E diga-lhe pelo amor de Deus que não cague tudo.

— E como vai nos encontrar assim que tiver o código postal, seja lá qual for?

Eddie pensou no Took’s, e na conversa com os locais quando se sentaram nas grandes cadeiras de balanço da varanda. Deixando todo mundo que quisesse dar uma olhada e fazer uma pergunta.

— Vá a um armazém geral. Converse um pouco, diga a todo mundo interessado que está na cidade para escrever um livro ou pintar quadros das armadilhas de pescar lagosta. Eu o encontrarei.

— Está bem — disse Tower. — É um bom plano. Você faz bem isso, rapaz.

Eu fui feito para isso, pensou Eddie, mas não disse. O que disse foi:

— Tenho de ir embora. Já fiquei tempo demais, na verdade.

— Há uma coisa que precisa me ajudar a fazer antes de sair — disse Tower, e explicou.

Eddie arregalou os olhos. Quando Tower terminou — não levou muito tempo —, ele desatou a rir:

— Ai, você tá de sacanagem!

Tower indicou com a cabeça a porta de sua loja, onde podia ver aquele fraco luzir. Fazia os pedestres que passavam na Segunda Avenida parecerem miragens momentâneas.

— Há uma porta ali. Você quase disse isso, e acredito em você. Não a vejo, mas vejo alguma coisa.

— Você é louco — disse Eddie. — Totalmente pirado. — Não falava a sério, não exatamente, mas menos que nunca gostava de ter seu destino tão firmemente enredado com o de um homem que fizera tal pedido. Tal exigência.

— Talvez eu seja, talvez não — disse Tower. Cruzou os braços sobre o largo mas flácido peito. A voz era suave, mas o olhar nos olhos inflexível. — Nos dois casos, esta é a minha condição pra fazer tudo que diz. Por me envolver em sua loucura, em outras palavras.

— Ora, Cal, pelo amor de Deus! Deus e o Homem Jesus! Só estou lhe pedindo o que Stefan Toren lhe mandaria fazer.

Os olhos não se suavizaram nem se desviaram como faziam quando Tower ficava evasivo ou se preparava para mentir. Ao contrário, ficaram ainda mais empedernidos.

— Stefan Toren está morto, e eu não. Já disse minha condição pra fazer o que você quer. A única questão é sim ou não...

— Sim, sim, SIM! — gritou Eddie, e tomou o resto da bebida branca da caneca. Depois pegou a embalagem e também a esvaziou, para ter certeza. Parecia que ia precisar da força. — Venha — disse. — Vamos fazer isso.

 

15

Roland via dentro da livraria, mas era como olhar coisas no fundo de uma torrente impetuosa. Desejava que Eddie se apressasse. Mesmo com as balas enterradas no fundo das orelhas, ouvia os sinos todash, e nada bloqueava os terríveis cheiros alternados: metal quente, bacon rançoso, queijo velho derretido, cebola queimada. Os olhos marejavam, o que provavelmente explicava ao menos parte da aparência vacilante das coisas vistas além da porta.

Muito pior que o barulho dos sinos ou os cheiros era a maneira como o globo se insinuava nas juntas já comprometidas, enchendo-as do que pareciam estilhaços de vidro quebrado. Até então, não sentira nada além de algumas pontadas agudas na mão esquerda boa, mas não tinha ilusões: a dor ali e em todos os demais lugares continuaria aumentando enquanto a caixa ficasse aberta e o Treze Preto destampado emitisse aquele brilho. Parte da dor da torção seca talvez passasse assim que o globo fosse mais uma vez escondido, mas ele não achava que ela desaparecesse inteiramente. E poderia ser apenas o começo.

Como se para parabenizá-lo por sua intuição, um enorme fardo de dor instalou-se na coxa direita e começou a latejar. Para Roland, parecia um saco cheio de chumbo líquido quente. Pôs-se a massageá-la com a mão direita... como se isso lhe proporcionasse algum alívio.

— Roland! — Embora borbulhante e distante, como as coisas que via além da porta, parecendo vir de baixo d’água, a voz era inconfundivelmente de Eddie. Roland ergueu os olhos da coxa e viu que Eddie e Tower haviam levado uma espécie de caixa até a porta desconhecida. Parecia cheia de livros. — Roland, pode nos ajudar?

A dor se instalara com tal profundidade em suas coxas e joelhos que Roland não teve certeza nem de que conseguiria levantar-se — mas conseguiu, e lepidamente. Não sabia o quanto de seu estado os olhos aguçados de Eddie talvez já houvessem visto, mas não queria que eles vissem mais. Pelo menos não antes de terminadas suas aventuras em Calla Bryn Sturgis.

— Quando a empurrarmos, você puxa!

Roland assentiu seu entendimento, e a estante deslizou para a frente. Houve um estranho e vertiginoso momento em que metade da gruta ficou firme, clara, e a metade da Livraria da Mente de Manhattan tremeluziu instavelmente. Então Roland agarrou-a e atravessou-a. Ela trepidou e guinchou pelo piso da gruta, lançando para os lados pilhas de seixos e ossos.

Assim que o móvel transpôs o vão da porta, a tampa da caixa de pau-ferro começou a fechar-se. A porta também.

— Não, não ouse — murmurou Roland. — Não ouse, sua safada.

Enfiou os dois dedos restantes da mão direita no espaço estreito entre a tampa da caixa. A porta parou de mexer-se e ficou entreaberta quando ele fez isso, e Roland chegou ao seu limite. Agora até os dentes zumbiam. Embora Eddie trocasse umas últimas palavras com Tower, ele não dava mais a mínima nem que fossem os segredos do universo.

— Eddie! — bramiu. — Eddie, a mim!

E, graças a Deus, Eddie pegou o saco de tropeiro e passou. No momento em que cruzou a porta, Roland fechou a caixa. A porta desconhecida fechou-se um segundo depois com uma batida seca e inexpressiva. Os sinos cessaram. Assim como a mistura de dor venenosa que inundava as juntas do pistoleiro. O alívio foi tão tremendo que ele gritou. Então, durante uns dez segundos, pôde apenas baixar o queixo junto ao peito, fechar os olhos e lutar para não soluçar.

— Obrigado — conseguiu afinal dizer. — Eddie, obrigado.

— Não há de quê. Vamos sair desta gruta, que acha?

— Acho bom — disse Roland. — Deuses do céu, sim.