A Torre Negra V: Lobos de Calla
Capítulo 11
— E foi assim — disse Callahan — que acabei no quarto 577 daquele mesmo hospital naquela mesma noite.
Susannah encarou-o, olhos arregalados.
— Fala sério?
— Sério como um ataque cardíaco — disse ele. — Rowan Magruder morreu, eu quase morro de porrada, e me levaram de volta para a mesma cama. Deve ter havido tempo apenas para rearrumá-la, e até a senhora chegar com o carrinho da morfina e me apagar, eu fiquei ali deitado me perguntando se talvez a irmã de Magruder não pudesse reaparecer e terminar de vez o que os Irmãos Hitler haviam começado. Mas por que essas coisas deviam surpreendê-los? Há dezenas desses cruzamentos estranhos em nossas duas histórias, há, sim. Vocês não pensaram na coincidência de Calla Bryn Sturgis e meu próprio sobrenome, por exemplo?
— Claro que sim — disse Eddie.
— Que aconteceu depois? — perguntou Roland.
Callahan deu um largo sorriso, e ao fazê-lo o pistoleiro percebeu que os dois lados do rosto do homem não se alinhavam exatamente. Tivera o maxilar quebrado, certo.
— A pergunta preferida do contador de história, Roland, mas acho que o que preciso fazer agora é apressar um pouco meu relato, ou vamos ficar aqui a noite toda. O importante, a parte que você quer mesmo ouvir, é a final, de qualquer modo.
Bem, você pode pensar que sim, meditou Roland, e não se surpreenderia se todos os três amigos alimentassem versões do mesmo pensamento.
— Fiquei no hospital durante uma semana. Quando me deixaram sair, me mandaram para uma clínica de reabilitação da previdência social, no Queens. O primeiro lugar que me ofereceram era em Manhattan e muito mais perto, mas associado com o Lar... mandávamos pessoas para lá, às vezes. Eu temi que se fosse para lá, talvez recebesse outra visita dos Irmãos Hitler.
— E recebeu? — perguntou Susannah.
— Não. O dia em que visitei Rowan no quarto 577 do Hospital Riverside e depois acabei eu mesmo indo para lá foi 19 de maio de 1981 — disse Callahan. — Saí para Queens no banco de trás de uma caminhonete com outros três ou quatro caras acidentados que andavam em 25 de maio. Isto para dizer que seis dias depois, pouco antes de eu deixar o hospital e pegar mais uma vez a estrada, eu vi a notícia no Post. Numa página à direita, mas não na primeira. DOIS HOMENS ENCONTRADOS MORTOS A BALA EM CONEY ISLAND, dizia a manchete. POLICIAIS DIZEM “QUE PARECE SERVIÇO DE QUADRILHA”. Pois rostos e as mãos haviam sido queimados com ácido. No entanto, a polícia identificou os dois: Norton Randolph e William Garton, os dois do Brooklyn. Publicaram fotos. Fotos de arquivo policial; os dois tinham longas fichas criminais. Eram os meus caras, certo, George e Lennie.
— Você acha que os homens maus os pegaram, não? — perguntou Jake.
— Sim. A vingança é implacável.
— Os jornais os identificaram alguma vez como os Irmãos Hitler? — perguntou Eddie. — Porque, rapaz, continuávamos em pânico com esses caras quando eu cheguei.
— Houve alguma especulação sobre esta possibilidade nos jornais sensacionalistas — disse Callahan —, e aposto que no íntimo os repórteres que cobriram os assassinatos e mutilações dos Irmãos Hitler sabiam que eles eram Randolph e Garton, não aconteceu nada depois, além de algumas imitações pouco convincentes de cortes, mas ninguém na imprensa sensacionalista quer matar seu bicho-papão, porque o bicho-papão vende jornais.
— Rapaz — disse Eddie. — Você esteve na guerra.
— Você ainda não ouviu o último ato — disse Callahan. — É excepcional.
Roland fez o gesto de continue, mas não parecia urgente. Enrolara cigarro e parecia até mais satisfeito como nunca haviam visto seus três companheiros. Só Oi, dormindo aos pés de Jake, parecia mais em paz consigo mesmo.
— Procurei minha passarela para pedestres quando deixei Nova York pela segunda vez, viajando pela ponte George Washington com minha brochura e minha garrafa — continuou Callahan —, mas a passarela desaparecera. Ao longo dos dois meses seguintes, vislumbrei alguns trechos de estradas escondidas, e me lembro que recebi uma nota de 10 dólares, com Chadbourne estampado nela, umas duas vezes, mas quase todas haviam desaparecido. Vi um monte de vampiros Tipo Três e me lembro que achei que estavam se espalhando. Mas nada fiz quanto a eles. Parecia que eu tinha perdido a vontade, como Thomas Hardy perdeu a vontade de escrever romances e Thomas Hart Benton a de pintar seus murais. “Não passam de mosquitos”, pensava. “Deixe eles irem.” Minha função era entrar em alguma cidade, encontrar a mais próxima agência Brawny Man, Trabalho Braçal ou Emprego Temporário, e também encontrar um bar onde me sentisse à vontade. Preferia lugares parecidos com o Americano ou Blarney Stone em Nova York.
— Você gostava de uma mesinha enfumaçada com a sua pinga, em outras palavras — disse Eddie.
— Isso mesmo — disse Callahan, encarando Eddie como se encara uma alma gêmea. — Gostava, sim! E protegia esses lugares até chegar a hora de seguir adiante. Quero dizer que eu me embriagava no meu bar preferido do bairro, depois terminava a noite, o rastejo, a gritaria, a parte do vômito na frente da camisa, em algum outro lugar. Al fresco, em geral.
Jake começou:
— Como...?
— Quer dizer que ele se embriagava ao ar livre, docinho — explicou-lhe Susannah. Despenteou o cabelo dele, contraiu-se e pôs a mão na barriga.
— Tudo bem, sai? — perguntou Rosalita.
— Sim, mas se você tiver alguma coisa gasosa, eu bebo com muito prazer.
Rosalita levantou-se, afagando Callahan no ombro ao fazê-lo.
— Continue, père, ou vão ser duas da manhã e os gatos vão estar fazendo sinfonia antes que você termine.
— Está bem — disse ele. — Eu bebia, a coisa se resume a isso. Bebia toda noite e delirava com qualquer um que se dispusesse a ouvir sobre Lupe, Rowan e Rowena, o negro que me deu carona em Issaquena County e Ruta, que realmente podia ser cheia de graça, mas não era nenhuma gata siamesa. E eu acabava perdendo os sentidos.
“Tudo continuou assim até eu chegar a Topeka. Em fins do inverno de 1982. Foi quando cheguei ao fundo. Vocês sabem o que quer dizer, chegar ao fundo?”
Houve uma longa pausa, e então os três assentiram. Jake pensava na aula de inglês da Sra. Avery, e em sua Redação Final. Susannah lembrava-se de Oxford, no Mississippi, Eddie na praia no mar Ocidental, curvando-se sobre o homem que viria a tornar-se seu dinh, com a intenção de cortar-lhe a garganta, porque Roland não o deixava atravessar uma daquelas portas mágicas, e riscando um pequeno H.
— Pra mim, o fundo chegou numa cela de prisão — disse Callahan. — Era de manhã bem cedo, e eu estava relativamente sóbrio. Também não havia nenhum tanque de bebida, mas uma cela com uma manta no catre e uma privada de verdade no banheiro. Comparada a alguns dos lugares onde estive, eu peidava através de cetim. As únicas coisas chatas eram o cara da chamada... e aquela música.
12
A luz que entra pela pequena janela reforçada com arame de galinheiro da cela é cinzenta, o que em conseqüência torna sua tez da mesma cor. Também as mãos estão encardidas e cobertas de arranhões. A sujeira sob algumas das unhas é preta (terra) e sob outras marrom (sangue seco). Ele tem uma vaga lembrança de que lutou com alguém que não parava de chamá-lo de senhor, por isso imagina que esteja ali pelo eternamente popular 48 do Código Penal, Agressão a Policial. Tudo o que ele queria — Callahan tem uma lembrança um pouco mais clara disto — era experimentar o quepe, muito elegante, do rapaz. Lembra-se que tentou dizer ao jovem policial (pela aparência deste, logo vão estar contratando oficiais de polícia que ainda nem largaram as fraldas, pelo menos em Topeka) que vivia à procura de novos chapéus com bossa, sempre usa chapéu, porque ele tem a Marca de Caim na testa. “Parece uma cruz”, lembra-se que disse (ou tentou dizer), “mas é na verdade a Marga de Gaim.” O que, em seus ouvidos, é quase o mais próximo do que consegue dizer Marca de Caim.
Estava realmente bêbado na noite anterior, mas não se sente tão mal aqui sentado no catre, esfregando a mão no cabelo desgrenhado. O gosto na boca não é muito bom, como se a Gata Siamesa Ruta houvesse soltado um barro nela, se querem saber a verdade, mas a dor na cabeça não é tão terrível. Se ao menos as vozes se calassem! Mais longe no corredor alguém recita monotonamente uma lista de nomes em ordem alfabética que parece infindável. Mais perto, alguém canta sua última música preferida: “Alguém salvou, alguém salvou, alguém salvou minha vi-da esta noite...“
— Nailor!... Naughton... O’Connor!... O’Shaugnessy!... Oskowski!... Osmer!
Callahan só se dá conta de que é ele quem está cantando quando começa o tremor em suas panturrilhas. Vai subindo pelos joelhos, pelas coxas, aprofundando-se e fortalecendo-se no caminho. Vê os grandes músculos nas pernas projetando-se para fora e para dentro como pistons. Que está acontecendo com ele?
— Palmer!... Palmgren!...
O tremor chega à virilha e à base da barriga. O calção de baixo escurece quando ele o borrifa de urina. Ao mesmo tempo, ele começa a bater os pés no ar, como se tentasse chutar bolas de futebol invisíveis com os dois pés ao mesmo tempo. Estou tendo um ataque, pensa. Provavelmente é isto. Na certa vou desta para a melhor. Bye-bye blackbird. Tenta pedir ajuda e nada lhe sai da boca além de um ruído de sufocação baixo. Os braços se põem a debater-se para cima e para baixo. Agora está chutando bolas de futebol invisíveis com os pés enquanto os braços gritam aleluia, e o cara lá no corredor vai continuar até o fim do século, talvez até a próxima Era Glacial.
— Peschier!... Peters!... Pike!... Polovik!... Rance!... Rancourt!
A parte de cima do corpo de Callahan começa a debater-se para a frente e para trás. Cada vez que se lança à frente, ele chega perto de perder o equilíbrio e cair no chão. As mãos voam para o alto. Os pés voam para os lados. Uma súbita panqueca de calor espalha-se pelo seu rabo e ele percebe que acabou de disparar o chocolate.
— Ricupero!... Robillard!... Rossi!...
Ele se precipita para trás, até a parede de concreto caiada de branco onde alguém rabiscou BANGO SKANK e ACABEI DE TER MEU 19 º COLAPSO NERVOSO! Depois para a frente, desta vez com o entusiasmo de corpo inteiro de um muçulmano nas preces matinais. Por um momento, fita o piso de concreto entre os joelhos nus, desequilibra-se e cai de cara no chão. O maxilar, que de algum modo se refez apesar de suas farras etílicas noturnas, quebra-se em três dos quatro lugares originais. Mas só para repor as coisas em perfeito equilíbrio, quatro é o número mágico, desta vez também quebra o nariz. Ele jaz debatendo-se no chão como um peixe no anzol, o corpo deixando impressões de sangue, merda e urina. Ié, chegou meu fim, pensa.
— Ryan!... Sannelli!... Scher!
Mas aos poucos o extravagante grand mal sacode seu corpo e passa de moderado para petit mal, e depois para pouco mais que espasmos. Acha que alguém deve chegar, mas ninguém chega, não a princípio. Os espasmos desaparecem e agora ele é apenas Donald Frank Callahan, deitado no chão de uma cela de prisão em Topeka, no Kansas, onde de algum lugar mais afastado no corredor um homem continua desfiando o alfabeto.
— Seavey!... Sharrow!... Shatzer!
De repente, pela primeira vez em meses, ele pensa na cavalaria chegando quando os Irmãos Hitler se preparavam para esculpi-lo e matá-lo ali, naquela lavanderia abandonada, na Quarenta e Sete Leste. E eles quase chegaram a fazê-lo — no dia seguinte ou no outro —, alguém teria encontrado um certo Donald Frank Callahan morto como a cavala da fábula e na certa usando seus ovos como brincos. Mas então chegou a cavalaria e...
Não havia cavalaria alguma, ele pensa, ali deitado no chão, o rosto mais uma vez inchando, conheça o novo rosto, igual ao antigo rosto. Havia Voz Número Um e Voz Número Dois. Só que isto também não está certo. Havia dois homens, no mínimo de meia-idade, provavelmente beirando um pouco o lado mais velho. Havia o Sr. Ex Libris e o Sr. Gai Cocknif En Yom, qualquer que seja o significado disto. Os dois morrendo de medo. E com razão de ter medo. Os Irmãos Hitler talvez não tivessem esculpido milhares como se jactara Lennie, mas marcaram um bom número e mataram alguns deles, os dois eram uma dupla de cobras venenosas humanas, ah, sim, o Sr. Ex Libris e o Sr. Gai Cocknif tinham absoluta razão de sentir medo. Acabara tudo bem para eles, mas poderia não ter sido assim. E se George e Lennie tivessem virado as mesas, e aí? Ora, em vez de encontrar um homem morto na Lavanderia Baía da Tartaruga, quem quer que por acaso chegasse lá primeiro teria encontrado três. O que teria sido matéria de primeira página do Post com certeza! Então aqueles caras arriscaram suas vidas, e ali estava o motivo pelo qual a haviam arriscado, por seis ou oito meses seguidos: um babaca de um bêbado fodido, emaciado, imundo, a cueca encharcada de mijo num lado e cheia de merda no outro. Um pau-d'água diurno e noturno.
E é quando acontece. Atrás, no corredor, a constante e monocórdica voz baixa chegou a Sprang, Steward e Sudby; nessa cela, corredor adiante, um homem estendido no chão, na longa luz do amanhecer, chega afinal ao fundo, o que é, por definição, aquele ponto do qual você não pode descer mais baixo, a não ser que encontre uma pá e comece realmente a cavar.
Estendido como está, olhando direto na linha do chão, os tufos de poeira parecem bosquetes fantasmagóricos de árvores e os grumos de terra parecem as colinas em algum campo de mineração estéril. Ele pensa: Que mês é este? Fevereiro? Fevereiro de 1982? Alguma coisa assim. Bem, eu lhe digo. Vou me dar um ano para tentar limpar meu ato. Um ano para fazer alguma coisa — qualquer coisa — para justificar o risco que aqueles dois caras correram. Se conseguir fazer alguma coisa, vou continuar em frente. Mas se ainda estiver bebendo em fevereiro de 1983, vou me matar.
Adiante, no corredor, a voz recitante chegou afinal em Targenfield.
13
Callahan calou-se por um momento. Tomou um gole de café, fez uma careta e preferiu um cálice de sidra não fermentada.
— Eu sei como começa a escalada de volta — disse. — Tinha tomado suficientes drinques de fundo, ido a suficientes reuniões dos AA no East Side, Deus sabe. Portanto, quando me deixaram sair, encontrei os AA em Topeka e passei a ir todo dia. Nunca olhava para a frente, nunca olhava para trás. “O passado é história, o futuro é um mistério”, dizem. Só que desta vez, em vez de me sentar no fundo da sala e não dizer nada, eu me obrigava a ir direto para a frente, e durante as apresentações dizia: “Sou Don C. e não quero beber mais.” Eu queria, sim, todo dia sentia falta, mas nos AA eles têm ditados para tudo, e um deles é: “Finja até conseguir.” E aos pouquinhos eu consegui mesmo. Acordei um dia no outono de 1982 e compreendi que realmente não queria mais beber. A compulsão, como eles dizem, se fora.
“Segui em frente. Não se espera que você faça quaisquer grandes mudanças no primeiro ano de sobriedade, mas um dia, quando eu estava no parque Gage, na verdade Jardim da Rosa Reinisch...” — A voz se extinguiu quando Callahan notou a expressão deles. — Como? Vocês o conhecem? Não me digam que conhecem o Reinisch!
— Já estivemos lá — disse Susannah baixinho. — Vimos o trem de brinquedo.
— Mas isso — disse Callahan — é incrível.
— São 19 horas e todos os pássaros estão cantando —- disse Eddie, não sorrindo.
— Seja como for, o Jardim da Rosa foi onde localizei o primeiro cartaz. VOCÊ VIU CALLAHAN, NOSSO SETTER IRLANDÊS? CI-CATRIZ NA PATA DIANTEIRA. CICATRIZ NA TESTA. GENEROSA RECOMPENSA. Etc. Finalmente haviam conseguido o nome certo. Decidi que era hora de me mudar enquanto ainda podia. Assim, fui para Detroit, e lá encontrei um lugar chamado Abrigo do Farol. Era um abrigo onde se bebia. De fato era o Lar, sem Rowan Magruder. Faziam um ótimo trabalho ali, mas mal conseguiram se manter. Eu me inscrevi. E foi lá que eu estava em dezembro de 1983, quando aconteceu.
— Quando aconteceu o quê? — perguntou Susannah.
Foi Jake Chambers quem respondeu. Ele sabia, talvez fosse o único deles que poderia saber. Também acontecera com ele, afinal.
— Foi quando você morreu — disse Jake.
— Sim, isso mesmo — disse Callahan. Não demonstrava surpresa alguma. Podiam estar conversando sobre arroz ou a possibilidade de Andy funcionar em antinomia. — Foi quando eu morri. Roland, será que me enrolaria um cigarro? Parece que preciso de uma coisa um pouco mais forte do que sidra.
14
Há uma antiga tradição no Abrigo do Farol, que remonta a... nossa, deve ser a todos os quatro anos (o Abrigo do Farol só existe há cinco). É o Dia de Ação de Graças no ginásio da escola de ensino médio Santo Nome, na rua West Congress. Um bando dos alcoólatras decora o lugar com papel crepom, perus de cartolina, legumes e frutas de plástico. Amuletos americanos, em outras palavras. Exigia-se que você tivesse uma sobriedade contínua de no mínimo duas semanas para participar dessa atividade. E também — trata-se de uma coisa que Ward Huckman, Al McCowan e Don Callahan combinaram entre si — cérebros encharcados não podem entrar no Pelotão da Decoração, não importa há quanto tempo estejam sóbrios.
No Dia do Peru, quase uma centena dos mais excelentes paus-d'água, chapados e desabrigados semiloucos reúne-se na Santo Nome para um esplêndido jantar de peru, batata e todos os acompanhamentos. Sentam-se a uma dezena de mesas compridas no centro da quadra de basquetebol (as pernas das mesas são protegidas por tiras ornamentais de feltro, e os comensais comem de pés calçados em meias). Antes que comecem a cair de boca — isto faz parte do costume —, eles contornam rapidamente as mesas (“Levem mais de dez segundos, rapazes, que eu corto vocês do jantar”, avisou Al) e todo mundo diz uma coisa pela qual é grato. Pois é Dia de Ação de Graças, sim, mas também porque um dos principais dogmas do programa AA é que um grato alcoólico não se embriague e um grato dependente de drogas não fique doidão.
A ação de graças prossegue rápido, e como Callahan está apenas sentado ali, não pensando em nada especial, quando chega sua vez ele quase deixa escapar uma coisa que lhe teria causado problema. No mínimo, teria sido rotulado como um cara com estranho senso de humor.
— Eu agradeço por não ter... — começa, então percebe o que vai dizer, e reprime-o.
Todos o olham em expectativa, homens de rostos com barba por fazer e pálidos, mulheres massudas com cabelos ralos, todas emanando em volta o mesmo aroma de brisa suja de estação de metrô que é o cheiro das ruas. Alguns já o chamam de Padre, como sabem? Como poderiam saber? E como se sentiriam se soubessem que calafrio lhe causa ouvir isso? Como isso o faz lembrar-se dos Irmãos Hitler e do doce e infantil cheiro de amaciante? Mas eles o estão encarando. “Os clientes.” Ward e Al também.
— Eu agradeço por não ter tomado um drinque nem uma droga hoje — ele diz, recuando para a antiga devoção, sempre terá de ser grato por isso.
Eles murmuram sua aprovação, o homem seguinte a Callahan diz que é grato por sua irmã deixá-lo vir para o Natal, e ninguém fica sabendo como Callahan chegou perto de dizer: “Eu agradeço por não ter visto recentemente quaisquer vampiros Tipo Três nem cartazes de animais de estimação perdidos.”
Ele acha que isso é porque Deus o aceitou de volta, pelo menos numa base experimental, e o poder da mordida de Barlow foi finalmente cancelado. Acha que perdeu o amaldiçoado dom de ver, em outras palavras. Não o testa, contudo, tentando entrar numa igreja — o ginásio da escola Santo Nome é próximo o bastante para ele, graças. Nunca lhe ocorre — pelo menos na mente consciente — que eles querem assegurar que a rede esteja em peso à sua volta desta vez. Podem ser aprendizes lentos, Callahan vai acabar compreendendo, mas nem por isso deixam de ser aprendizes.
Então, no início de dezembro, Ward Huckman recebe uma carta maravilhosa.
— O Natal chegou antecipado, Don! Espere até ver isto, Al! — Brande a carta, triunfante. — Joguem suas cartas direito que, rapazes, nossas preocupações sobre o ano que vem terminaram!
Al McCowan pega a carta, e ao lê-la sua expressão de reserva consciente, cuidadosa, começa a desfazer-se. Quando a entrega a Don, está rindo de uma orelha a outra.
A carta é de uma empresa com escritórios em Nova York, Chicago, Detroit, Denver, Los Angeles e São Francisco. A fibra do papel é tão refinada e luxuosa que dá vontade de cortá-lo numa camisa e usá-lo junto apele. Diz que a empresa planeja doar 20 milhões de dólares a vinte instituições de caridade em todos os Estados Unidos, 1 milhão para cada. Que precisa fazer isto antes do fim do ano calendário 1983. Os recipientes em potencial incluem despensas de distribuição de alimentos, abrigos para desabrigados, duas clínicas para indigentes e um programa protótipo de testagem de Aids em Spokane. Um dos abrigos é o Farol. A assinatura é de Richard P. Sayre, vice-presidente executivo, Detroit. Tudo parece honesto e legal, e o fato de que todos os três foram convidados aos escritórios da empresa em Detroit para discutir o donativo também parece honesto e legal. A data da reunião -— que será a data da morte de Donald Callahan — é 19 de dezembro de 1983. Uma segunda-feira.
O nome timbrado no cabeçalho da carta é IMOBILIÁRIA SOMBRA.
15
— Você foi — disse Roland.
— Todos nós fomos — disse Callahan. — Se o convite tivesse sido só para mim, eu jamais teria ido. Mas como eles chamavam nós três, e queriam nos dar 1 milhão de dólares, você faz a mínima idéia do que 1 milhão de paus significaria para um estabelecimento financeiramente mal das pernas como o Lar ou o Farol? Sobretudo durante os anos Reagan?
Susannah levou um susto. Eddie lançou-lhe um olhar de desvelado triunfo. Callahan claramente quis perguntar o motivo dessa outra ação, mas Roland já girava o dedo mais uma vez naquele gesto de apresse-se, e agora estava ficando tarde mesmo. Chegando meia-noite. Não que nenhum do ka-tet de Roland parecesse sonolento; concentravam-se atentamente no père, marcando cada palavra.
— Eis no que passei a acreditar — disse Callahan, curvando-se para a frente. — Há uma liga de associação vaga entre os vampiros e os homens maus. Acho que se buscássemos no passado a origem, encontraríamos as raízes dessa associação na Terra das Trevas. No Trovão.
— Não tenho a menor dúvida — disse Roland, os olhos azuis lampejando do rosto pálido e cansado.
— Os vampiros, os que não são do Tipo Um, são idiotas. Os homens maus são mais inteligentes, mas não a corja toda. Do contrário eu jamais teria conseguido escapar deles por tanto tempo. Mas então, finalmente, mais alguém se interessou. Um agente do Rei Rubro, devo achar, seja quem ou o que for ele. Os homens maus foram afastados de mim. Assim como os vampiros. Não houve cartazes durante aqueles últimos meses, que eu tenha visto, não; nem mensagens escritas a giz nas calçadas da rua West Fort e tampouco da avenida Jefferson. Alguém dava as ordens, é isto que eu acho. Alguém muito mais inteligente. E 1 milhão de dólares! — Ele abanou a cabeça. Um pequeno e amargo sorriso tocou-lhe o rosto. — No fim, foi isso que me cegou. Nada além de dinheiro. “Ah, sim, mas é pra fazer o bem!” Eu disse a mim mesmo... e dissemos uns aos outros, claro. “Vamos ficar independentes por no mínimo cinco anos. Não precisaremos mais ir ao Conselho Municipal de Detroit, mendigando de chapéu na mão!” Tudo verdade. Só me ocorreu mais tarde que há outra verdade, muito simples: mesmo numa boa causa, cobiça continua sendo cobiça.
— Que aconteceu? — perguntou Eddie.
— Ora, mantivemos nosso compromisso — disse o père. Tinha um sorriso meio fantasmagórico no rosto. — No edifício Tishman, na avenida Michigan, 982, um dos mais excelentes endereços em Detroit. Dia 19 de dezembro de 1983, às 4h20 da tarde.
— Que hora estranha para uma entrevista — comentou Susannah.
— Foi o que também pensamos, mas quem questiona esses assuntos de menor importância com 1 milhão em jogo? Após alguma discussão, concordamos com Al, ou melhor, com a mãe de Al. Segundo ela, deve-se apresentar a entrevistas importantes cinco minutos antes, não mais nem menos. Assim, entramos no saguão do edifício Tishman às 4hl0, vestidos no maior esmero possível, encontramos a IMOBILIÁRIA SOMBRA no quadro de endereços e subimos ao 33º andar.
— Tinha verificado a empresa antes? — perguntou Eddie.
Callahan olhou-o como se fosse dizer dá.
— Segundo o que conseguimos encontrar na biblioteca, Sombra era uma sociedade anônima fechada, sem emissão de ações ao público, em outras palavras, que comprava sobretudo outras empresas. Especializavam-se em material de alta tecnologia, imóveis e construção. Parecia ser tudo que se sabia. O patrimônio era um segredo guardado a sete chaves.
— Sediada nos Estados Unidos? — perguntou Susannah.
— Não. Nassau, nas Bahamas.
Eddie sobressaltou-se, lembrando seus dias de mula de cocaína e da coisa de pele amarelada da qual comprara seu último papelote.
— Estive lá, fiz aquilo — disse. — Mas não vi ninguém da Imobiliária Sombra.
Tinha certeza, porém, de que isso era verdade? E se aquela coisa amarela com sotaque britânico trabalhava para a Sombra? Era tão difícil acreditar que estivessem envolvidos no tráfico de drogas, junto com tudo mais em que se metiam? Eddie achava que não. Quando nada mais fosse, isso sugeria uma ligação com Enrico Balazar.
— De qualquer modo, eles estavam lá em todos os livros de referências e anuários — continuou Callahan. — Obscuros, mas lá. E ricos. Eu não sei exatamente o que é Sombra, e estou ao menos meio convencido de que a maioria das pessoas que vimos em seus escritórios no 33º andar não passava de extras... figurantes... mas provavelmente existe uma verdadeira Imobiliária Sombra.
“Tomamos o elevador até lá. Bela área de recepção... pinturas impressionistas nas paredes, que mais?, e uma bela recepcionista combinando com elas. O tipo de mulher, peço perdão, Susannah, que se você é um homem, quase pode acreditar que se o deixassem tocar o seio dela viveria pra sempre.”
Eddie desatou a rir, olhou de lado para Susannah, e parou de chofre.
— Eram 4hl7. Fomos convidados a nos sentar. O que fizemos, sentindo um nervosismo dos diabos. Pessoas entravam e saíam. De vez em quando, uma porta à esquerda abria-se e víamos um pavimento cheio de mesas e cubículos. Telefones tocando, secretárias indo pra lá e pra cá com documentos, o barulho de uma grande copiadora. Se era uma armação, e acho que era, era tão sofisticada quanto um filme de Hollywood. Eu me sentia nervoso pela nossa entrevista com o Sr. Sayre, porém só isso. É realmente extraordinário. Eu havia vivido em fuga mais ou menos sem parar desde que saí de Jerusalem’s Lot oito anos antes, e desenvolvido um sistema de alarme muito bom de sinais antecipados, mas que não chegou nem a soar naquele dia. Acho que se pudesse entrar em contato com ele através de uma tábua Ouija, John Dillinger teria dito a mesma coisa sobre sua noite no cinema com Anna Sage.
“Às 4hl9, um rapaz de camisa listrada e gravata que parecia, ai, tão Hugo Boss saiu e veio nos buscar. Fomos conduzidos bruscamente por um corredor, passando por vários escritórios muito grã-finos, com um executivo grã-fino trabalhando ativamente em cada um, pelo que pude ver, até portas duplas no fim do corredor. Nestas, lia-se SALA DE CONFERÊNCIA. Nosso acompanhante abriu as portas. Disse: ‘Divina sorte, cavalheiros.’ Eu me lembro disso perfeitamente. Não boa sorte, mas divina sorte. Foi quando meus alarmes periméticos começaram a disparar, e àquela altura era tarde demais. Aconteceu rápido, vocês sabem. Eles não...
16
Aconteceu rápido. Eles estavam atrás de Callahan fazia um longo tempo, mas não perderam tempo algum exultando. As portas fecharam-se batendo atrás, ruidosas demais e com força bastante para sacudi-las nas molduras. Assistentes de executivos cobram 18 mil dólares para começar fechando portas de certa maneira — com respeito pelo dinheiro e pelo poder —, que não era aquela. Aquela era a maneira como bêbados e viciados em heroína fechavam portas. E também os loucos, claro. Os loucos são batedores de porta de aço.
Os sistemas de alarme de Callahan estão em pleno funcionamento agora, não apitando, mas uivando, e quando ele olha a sala de conferência em volta, dominada no lado oposto por uma imensa janela que descortinava uma fantástica vista do lago Michigan, entende que há um bom motivo para isso: Cristo Redentor — Santa Maria, mãe de Deus —, como pude ser tão idiota? Vê 13 pessoas na sala. Três são homens maus, e esta é a primeira boa olhada que ele dá em suas caras de aparência pesada, doentia, olhos vermelhos cintilantes e lábios femininos, cheios. Todos estão fumando. Nove são vampiros Tipo Três. A 13 ª pessoa na sala de conferência usa uma camisa espalhafatosa e gravata destoante, traje de homens baixos, com certeza, mas este tem um rosto magro e vulpino, cheio de inteligência e humor negro. Exibe na testa um circulo vermelho de sangue que não parece escorrer nem se coagular.
Ouve-se um forte estalo glacial. Callahan gira e vê Al e Ward caírem no chão. Em pé, de cada lado da porta pela qual entraram, estão os números 14 e 15, um homem mau e uma mulher má, os dois segurando paralisantes elétricos.
— Seus amigos vão ficar bem, padre Callahan.
Ele gira mais uma vez para a frente. É o homem da mancha de sangue na testa. Parece ter sessenta anos, mas é difícil dizer. Usa uma camisa amarela berrante e uma gravata vermelha. Quando os lábios se separam num sorriso, revelam dentes que terminam em pontas. Este é Sayre, pensa Callahan. Sayre, ou quem quer que tenha assinado aquela carta. Quem quer que tenha montado aquela armadilha.
— Você, contudo, não vai — continua ele.
Os homens maus olham-no com uma espécie de avidez baça: aqui está ele, afinal, o cãozinho desaparecido deles com a pata queimada e a testa marcada de cicatrizes. Os vampiros mostram mais interesse. Quase zunem em suas auras azuis. E de repente Callahan ouve a música do carrilhão. É baixa, de algum modo abafada, mas está ali. Chamando-o.
Sayre — se é este o seu nome — volta-se para os vampiros.
— Ele é o tal — diz num tom prosaico. — Matou centenas de vocês numa dezena de versões dos Estados Unidos. Meus amigos — indica com a mão os homens maus — não conseguiram encontrá-lo, mas claro que procuravam outra presa, menos suspeita, no curso comum das coisas. Em todo caso, ele está aqui agora. Vão, sirvam-se dele. Mas não o matem!
Vira-se para Callahan. O furo em sua testa enche-se e brilha mas não pinga. É um olho, pensa Callahan, um olho sangrento. Que é que olha por ele? Que está vendo, e de onde?
Sayre diz:
— Todos estes amigos pessoais do Rei têm o vírus da Aids. Com certeza sabe o que quer dizer, não sabe? Vamos deixar que isto mate você. Vai tirá-lo do jogo pra sempre, neste e nos outros mundos. De qualquer modo, não existe jogo algum para um cara igual a você. Um falso padre como você.
Callahan não hesita. Se hesitar, estará perdido. Não é da Aids que ele sente medo, mas, acima de tudo, de deixá-los pôr aqueles lábios imundos nele, beijá-lo como o que beijava Lupe Delgado no beco. Eles não têm de vencer. Depois de todo o caminho que ele percorreu, depois de todos os trabalhos, todas as celas de prisão, depois de conseguir finalmente chegar sóbrio ao Kansas, eles não têm de vencer.
Não tenta argumentar com eles. Não há conversa. Apenas se lança a toda velocidade pelo lado direito da extravagante mesa de mogno da sala de conferência. O homem de camisa amarela, de repente alarmado, berra: “Peguem-no! Peguem-no!” Mãos estapeiam-lhe o paletó — comprado especialmente na Grand River Menswear para essa auspiciosa ocasião —, mas escorregam. Ele tem tempo para pensar: A janela não vai se quebrar, é feita de algum vidro duro, anti-suicida, e não vai se quebrar... e tem tempo suficiente para invocar Deus pela primeira vez, desde que Barlow o obrigou a ingerir seu sangue contaminado.
— Socorro! Por favor, me ajude! — grita padre Callahan, e precipita-se, cotovelo à frente, para a janela. Mais outra mão dá-lhe um tapa na cabeça, tenta se emaranhar em seus cabelos, e desaparece. A janela se estilhaça, em toda a sua volta e de repente ele se vê em pé no ar frio, cercado de rajadas de neve. Olha embaixo entre os sapatos pretos, também especialmente comprados para essa auspiciosa ocasião, e vê a avenida Michigan, com carros iguais a brinquedos e pessoas iguais a formigas.
Ele os pressente — Sayre, os homens maus e os vampiros que deveriam infectá-lo e tirá-lo do jogo para sempre — amontoados na janela quebrada, fitando descrentes.
Ele pensa: Isto me tira mesmo daqui para sempre... não?
E pensa, com a admiração de uma criança: Este é o último pensamento que terei para sempre. Isto é adeus.
Então está caindo.
17
Callahan interrompeu-se e olhou para Jake, quase timidamente.
— Você se lembra? — perguntou. — Da verdadeira... — Pigarreou. — Morte?
Jake assentiu gravemente.
— Você não?
— Eu me lembro que vi a avenida Michigan entre meus sapatos novos. Da sensação de estar em pé ali, ao que parecia, de qualquer modo, no meio de uma rajada de neve. De Sayre atrás de mim, berrando em alguma outra língua. Xingando. Palavras tão guturais que só podiam ser maldições. E que pensei: Ele está assustado. Este foi na verdade meu último pensamento, que Sayre estava assustado. Então houve um intervalo de escuridão. Eu flutuava. Ouvia a música dos sinos do carrilhão, mas ao longe. Depois ela se aproximou. Como se estivesse montada em alguma máquina que corria ao meu encontro em terrível velocidade.
“Havia luz. Eu vi luz na escuridão. Julguei estar tendo a experiência da morte de Kübler-Ross e fui ao seu encontro. O lugar de onde saí não me importava, desde que não fosse na avenida Michigan, esmagado e sangrando, com uma multidão em pé ao redor de mim. Mas não entendi como aquilo podia acontecer. A gente não cai 32 andares e recupera a consciência.
“E eu queria me afastar dos sinos. Não paravam de repicar mais alto. Meus olhos começaram a lacrimejar. Os ouvidos a doer. Fiquei feliz por ainda ter olhos e ouvidos, mas a música do carrilhão tornava qualquer gratidão que eu pudesse ter inteiramente acadêmica.
“Pensei: Preciso entrar na luz, e lancei-me para ela. Eu...”