A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 36 de 43

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

Capítulo 5 · A Assembléia do Povo

 

 

A Assembléia do Povo

 

1

Tian Jaffords jamais se sentira tão assustado na vida como ao se apresentar no palco do Pavilhão, olhando o povo de Calla Bryn Sturgis embaixo. Sabia que provavelmente não eram mais de quinhentas — seiscentas pessoas no máximo ali fora —, mas para ele parecia uma multidão, e seu silêncio tenso era enervante. Olhou para a mulher em busca de conforto e não encontrou nenhum. O rosto de Zalia parecia magro, escuro e contraído, o rosto de uma velha em vez de ainda bem em anos de procriar.

Nem a aparência daquele fim de tarde o ajudou a encontrar calma. Embora o céu acima fosse um azul sem nuvens, translúcido, estava muito escuro para as cinco horas. Via-se um imenso banco de nuvens a sudoeste, e o sol passara atrás delas assim que ele subira os degraus até o palco. Era o que seu grand-père teria chamado de tempo esquisito; agourento, agradeça. Na constante escuridão que era o Trovão, relâmpagos lampejavam como grandes faíscas.

Houvesse eu sabido que chegaria a isso, jamais teria dado a partida inicial, pensou loucamente. E desta vez não haverá père Callahan algum para tirar minhas pobres e velhas cinzas do fogo. Embora Callahan estivesse ali, em pé com Roland e seus amigos — os dos calibres pesados —, com os braços cruzados na camisa preta simples de colarinho cortado e sua cruz do Homem Jesus pendendo acima.

Disse a si mesmo para não ser tolo, Callahan ia ajudar, e os forasteiros do outro mundo também. Estavam ali para ajudar. O código que seguiam exigia que tinham de ajudar, mesmo que isso significasse a destruição deles e o fim de qualquer missão em que se encontrassem. Disse a si mesmo que só precisava apresentar Roland, que ele viria. Uma vez antes, o pistoleiro erguera-se naquele palco, dançara a commala e conquistara os corações de todos. Duvidava Tian que Roland conquistasse mais uma vez seus corações? Na verdade, não. O que temia no íntimo era que desta vez fosse uma dança da morte e não da vida. Porque era da morte que aquele homem e seus amigos tratavam; era o pão e o vinho deles. O sorvete que tomavam para limpar os palatos quando terminavam a refeição. Naquele primeiro encontro — poderia ter sido menos de um mês atrás? —, Tian falara por desespero irado, mas um mês era tempo suficiente para valer o custo. E se fosse um erro? E se os Lobos incendiassem toda a Calla até o chão com suas varas-de-fogo, levassem as crianças que quisessem uma última vez e explodissem todos os que tivessem restado — velhos, jovens, na meia-idade — com suas bolas de morte que zumbem? Esperavam ali em pé que ele abrisse a sessão, o povo de Calla reunido. Os Eisenhart, Overholser, Javier e os inúmeros Took (embora sem gêmeos entre estes últimos da idade que gostavam os Lobos, é, nada de gêmeos, que felizardos eram os Took); Telford em pé com os homens e sua mulher rechonchuda, mas de feições duras, com as mulheres; os Strong, Rossiter, Slightman, Hand, Rosário e Posella; os mannis mais uma vez agrupados como uma mancha escura de tinta, o patriarca Henchick em pé junto com o jovem Cantab, de quem todas as crianças gostavam tanto; Andy, outro preferido da garotada, afastado num dos lados com os braços de metal magricelas nas cadeiras e os olhos elétricos azuis faiscando na obscuridade; as Irmãs de Oriza amontoadas como pássaros numa cerca (a sua entre elas); e os caubóis, os homens contratados, os rapazes diaristas, até o velho Bernardo, o ébrio da cidade.

À direita de Tian, os que haviam levado a pena arrastavam os pés, meio inquietos. Em circunstâncias comuns, dois gêmeos bastavam para levar a pena de opópanax; na maioria dos casos, as pessoas sabiam com boa antecedência do que se tratava, e levar a pena não passava de uma formalidade. Dessa vez (fora idéia de Margaret Eisenhart), três pares de gêmeos haviam saído juntos com a pena consagrada, levando-a de aldeia a pequena propriedade, a rancho, a fazenda, numa carroça conduzida por Cantab, sentado atipicamente silencioso e sem cantiga até a fachada do Pavilhão, a fazer trotar uma parelha de mulas castanhas iguais que precisavam de preciosa ajudazinha de gente como ele. Os mais velhos, aos 23 anos, eram os gêmeos Haggengood, nascidos no ano do último ataque dos Lobos (e feios como o pecado para a maioria do povo de Calla, embora valiosos trabalhadores esforçados, eu agradeço). Em seguida vinham os gêmeos Tavery, os belos guris da aldeia, que desenhavam mapas. Por último (e os mais moços, embora os mais velhos da prole de Tian), vinham Heddon e Hedda. E foi Hedda quem o incitou a começar. Tian captou o olhar dela e viu que sua boa filha (embora de rosto sem graça) percebera o medo do pai e estava à beira das lágrimas.

Eddie e Jake não eram os únicos que ouviam vozes de outros na cabeça; Tian agora ouvia a voz de seu grand-père. Não como Jamie era hoje, senil e quase desdentado, mas como fora vinte anos atrás: velho, mas ainda capaz de lhe dar umas boas palmadas na estrada do Rio, se você falasse sem papas na língua ou se fizesse corpo mole numa empurrada difícil. Jamie Jaffords, que outrora enfrentara os Lobos. Disso Tian havia de vez em quando duvidado, porém não duvidava mais. Porque Roland acreditara.

Diabos, então!, rosnou a voz em sua mente. Que tremelique e vacilo são esses que te deixam tão lerdo, imbecilizado? De nada adianta dizer o nome dele e ficar de lado, sacou? Então, pro bem ou pro mal, pode deixá-lo fazer o resto.

No entanto, Tian examinou a multidão silenciosa por mais um instante, a maior parte cercada nessa noite por tochas que não mudavam de cor — pois não se tratava de festa —, mas apenas brilhavam intensamente alaranjadas. Porque ele queria dizer alguma coisa, talvez precisasse dizer alguma coisa. Quando nada para reconhecer que parte do crédito por aquilo lhe era devida. Para o bem ou para o mal.

Na escuridão oriental, relâmpagos disparavam explosões silenciosas.

Roland, em pé com os braços cruzados como o padre, captou o olhar de Tian e assentiu ligeiramente com a cabeça para ele. Mesmo perto do lume quente da tocha, o olhar firme do pistoleiro era frio. Quase tão frio quanto o de Andy. Mas era todo o encorajamento de que precisava Tian.

Ele pegou a pena e estendeu-a à sua frente. Até a respiração da multidão pareceu imobilizar-se. Em algum lugar além da cidade, um rebelão relinchou como para deter a noite.

— Não faz muito tempo desde que subi naquele Salão da Assembléia ali e disse a vocês o que eu acreditava — começou Tian. — Que quando os Lobos vêm não levam apenas nossas crianças, mas nossos corações e almas. Cada vez que roubam e nós ficamos de lado, eles nos cortam um pouco mais fundo. Se você corta uma árvore fundo demais, ela morre. Corte uma cidade fundo demais, que ela também morre.

A voz de Rosalita Munoz, sem filhos a vida toda, ressoou com clara ferocidade na obscuridade feérica do dia.

— Você diz a verdade, agradeçam! Escute ele, pessoal! Escutem muito bem ele!

— Escutem ele, escutem ele. Escutem muito bem ele!

— Père levantou-se naquela noite e nos disse que vinham pistoleiros do noroeste, atravessando a Floresta Média pelo Caminho do Feixe de Luz. Alguns zombaram, mas père disse a verdade.

— Nós agradecemos — responderam eles. — Père disse a verdade.

E a voz de uma mulher:

— Louvado seja Jesus! Louvada seja Maria, mãe de Deus!

— Eles têm vivido em nosso meio todos esses dias desde então. Qualquer um que quis falar com eles falou. Eles nada prometeram, além de ajudar...

— E vão seguir adiante, deixando ruína sangrenta atrás, se a gente for tolo demais pra deixar! — bramiu Eben Took.

Ouviu-se um arquejo chocado da multidão. Quando se extinguiu, Wayne Overholser disse:

— Cale a boca, seu bocão.

Took virou-se para Overholser, o maior fazendeiro de Calla e melhor freguês dele, com um ar de surpresa boquiaberta. Tian disse:

— O dinh deles é Roland Deschain, de Gilead. — Embora todos soubessem disso, a simples menção de nomes tão lendários provocou um murmúrio baixo, quase gemido. — Do Mundo Interior que existiu. Querem ouvi-lo? Que dizem vocês, folken?

A resposta logo se elevou a um grito.

— Escutem ele! Escutem ele! Queremos ouvi-lo até o fim! Ouvi-lo muito bem, nós agradecemos!

E um ruído baixo, amassado, ritmado, que Tian a princípio não soube identificar. Depois percebeu o que era e quase sorriu. Era assim que soavam as batidas de botas, não nas tábuas do Salão da Assembléia, mas ali no gramado de Lady Riza.

Tian estendeu a mão. Roland avançou. O bater de botas tornou-se mais alto ao fazê-lo. As mulheres se juntavam, dando o melhor de si com seus sapatos macios de cidade. Roland subiu os degraus. Tian deu-lhe a pena e deixou o palco, tomando a mão de Hedda e fazendo sinal aos demais gêmeos para que fossem na frente. Roland ficou com a pena colada diante de si, segurando o antigo caule envernizado com mãos agora exibindo apenas oito dedos. Por fim, o bater dos sapatos e das botas se extinguiu. As tochas chiaram e cuspiram, iluminando os rostos das pessoas, revelando sua esperança e medo; mostrando muito bem as duas coisas. O rebelão relinchou e calou-se. No leste, um grande relâmpago varou a escuridão.

O pistoleiro postou-se de frente, encarando-os.

 

2

Pelo que pareceu uma longa examinada, ele apenas os encarou. Em cada olhar vidrado e assustado, leu a mesma coisa. Já vira aquilo muitas vezes antes, e a leitura era fácil. Aquela gente estava faminta. Compraria alegremente alguma coisa para comer, encher as barrigas nervosas. Lembrou o homem das tortas que percorria as ruas da cidade baixa de Gilead nos dias mais quentes do verão, e sua mãe o chamava de seppe-sai, por conta de como aquelas tortas podiam fazer adoecer as pessoas. Seppe-sai queria dizer o vendedor de morte.

É, pensou, mas eu e meus amigos não cobramos.

A esse pensamento o rosto dele se iluminou num sorriso. Esticou anos de seu mapa escarpado, e um suspiro de alívio nervoso veio da multidão. Começou como fizera antes:

— Somos bem recebidos em Calla, escutem-me, eu lhes peço.

Silêncio.

— Vocês se abriram conosco. Nós nos abrimos com vocês. Não é assim?

— É, pistoleiro! — respondeu Vaughn Eisenhart. — Assim é!

— Vocês nos vêem como somos e aceitam o que fazemos?

Foi Henchick dos mannis que respondeu desta vez.

— Sim, Roland, com exatidão, e nós agradecemos. Você é do Eld, Branco vem para lutar contra Preto.

Desta vez, o suspiro da multidão foi longo. Em algum lugar próximo ao fundo uma mulher começou a chorar.

— Calla folken, vocês nos pedem ajuda e socorro?

Eddie enrijeceu-se. Esta pergunta fora feita a vários indivíduos durante as semanas deles em Calla Bryn Sturgis, mas achou que fazê-la ali era extremamente arriscado. E se dissessem não?

Um momento depois compreendeu que não precisava ter-se preocupado em cativar a platéia, Roland foi tão astucioso como sempre. Alguns de fato disseram não — um punhado dos Haycox, uma pitada dos Took e um pequeno grupo dos Telford lideraram os contra —, mas a maioria da folken bramiu um caloroso e imediato SIM, NÓS AGRADECEMOS! Alguns outros — Overholser o mais destacado — não disseram nenhuma das duas coisas. Eddie achava que na maioria dos casos esse teria sido o passo mais sábio. O passo mais político, de qualquer modo. Mas não se tratava da maioria dos casos, e sim do mais extraordinário momento de decisão que quase todas aquelas pessoas iriam para sempre enfrentar. Se o Ka-tet do 19 vencesse a luta contra os Lobos, as pessoas daquela cidade iriam lembrar-se dos que disseram não e dos que nada disseram. Perguntou-se ociosamente se Wayne Dale Overholser continuaria sendo o grande fazendeiro daquelas bandas dali a um ano.

Mas então Roland abriu a confabulação, e Eddie voltou toda a atenção para ele. Atenção admiradora. Criado onde e como fora, ouvira muitas mentiras. Dissera muitas ele mesmo, algumas delas ótimas. Mas quando Roland chegou à metade de seu discurso, Eddie compreendeu que jamais estivera na presença de um verdadeiro gênio da falsidade até aquele início de noite em Calla Bryn Sturgis. E...

Olhou em volta, depois balançou a cabeça, satisfeito.

Eles engoliam cada palavra.

 

3

— Na última vez em que estive neste palco diante de vocês — começou Roland — eu dancei a commala. Esta noite...

George Telford interrompeu. Era muito escorregadio para o gosto de Eddie e bastante sonso, mas ele não podia criticar a coragem do sujeito, falando como fez, quando a maré corria tão claramente na outra direção.

— É, nós nos lembramos, você a dançou bem! Como dança você a mortata, Roland, eu peço que me diga.

Murmúrios de desaprovação da multidão.

— Não importa como eu a danço — disse Roland, nem um mínimo incomodado —, pois meus dias de dança em Calla terminaram. Temos trabalho nesta cidade, eu e os meus. Vocês nos fizeram sentir bem recebidos, e nós agradecemos. Vocês nos chamaram, procuraram nossa ajuda e socorro, portanto eu peço que me escutem muito bem. Daqui a menos de uma semana vêm os Lobos.

Houve um suspiro de concordância. O tempo talvez tivesse ficado escorregadio, mas mesmo gente humilde não podia apegar-se a cinco dias dele.

— Na noite anterior à prevista para a chegada deles eu porei cada criança gêmea com menos de 16 anos ali. — Apontou para a esquerda, onde as Irmãs de Oriza haviam armado uma tenda.

Naquela noite havia muitas crianças ali, embora de modo algum a centena mais ou menos em risco. As mais velhas haviam recebido a tarefa de cuidar das menores enquanto durasse a assembléia, e uma ou outra das Irmãs periodicamente inspecionava para certificar-se de que tudo continuasse bem.

— Não vão caber todas naquela tenda — disse Ben Slightman.

Roland sorriu.

— Mas vão caber numa maior, Ben, e eu conto com as Irmãs conseguirem encontrar uma.

— É, e dar-lhes uma refeição que jamais esquecerão! — gritou bravamente Margaret Eisenhart.

Risadas bem-humoradas saudaram isso, depois se desfizeram antes de pegar. Vários na multidão refletiam sem dúvida que se os Lobos acabassem vencendo, metade das crianças que tivessem passado a noite da Véspera do Lobo no Gramado não ia poder lembrar-se dos próprios nomes uma ou duas semanas depois, muito menos do que haviam comido.

— Eu dormiria aqui pra dar logo início cedo na manhã seguinte —-disse Roland. — Por tudo que me disseram, não há como saber se os Lobos virão cedo, tarde ou no meio do dia. Nós iríamos parecer os idiotas do mundo se eles chegassem cedo demais e as agarrassem bem aqui, no descampado.

— Como impedir que venham um dia antes? — gritou Eben Took, truculento. — Ou à meia-noite do que você chama de Véspera do Lobo?

— Não podem — disse apenas Roland. E, baseado no testemunho de Jamie Jaffords, tinha quase certeza de que isso era verdade. O relato do velho era seu motivo para deixar Andy e Ben Slightman circularem em liberdade pelos cinco dias e noites seguintes. — Eles vêm de longe, nem toda a viagem é montada a cavalo. Seu horário é marcado com muita antecedência.

— Como é que sabe disso? — perguntou Louis Haycox.

— É melhor eu não dizer — respondeu Roland. — Talvez os Lobos tenham orelhas compridas.

Um silêncio pensativo recebeu isso.

— Na mesma noite, a Véspera do Lobo, porei uma dezena de carroças bucka aqui, as maiores de Calla, a fim de retirar as crianças pro norte da cidade. Vou designar os condutores. Também haverá pessoas que cuidam de crianças para acompanhá-las e ficar com elas quando chegar a hora. E não precisam me perguntar pra onde elas vão; é melhor que não falemos disso também.

Claro que a maioria deles julgava já saber para onde as crianças iam ser levadas: a velha Glória. A palavra tinha um jeito de circular, como bem sabia Roland. Ben Slightman pensara um pouco adiante — até a Cardeal Dois, ao sul da Glória —, o que também era ótimo.

George Telford gritou:

— Não escute isso, pessoal, eu lhe peço. E mesmo que escutem, por suas almas e a vida da cidade, não façam isso! O que ele está dizendo é loucura! Já tentamos esconder nossas crianças antes, e não deu certo! Mas ainda que desse, eles com certeza viriam e incendiariam a cidade por vingança, arrasariam tudo...

— Silêncio, seu covarde. — Era Henchick, a voz seca como uma vergastada de chicote.

Telford teria dito mais, apesar disso, porém seu filho mais velho pegou-lhe o braço e o fez parar. O bater das botas de campanha recomeçara mais uma vez. Telford olhou para Eisenhart, incrédulo, o pensamento claro como um grito: Você não pode pretender fazer mesmo parte dessa loucura, pode?

O grande rancheiro abanou a cabeça.

— Não adianta olhar pra mim assim, George. Eu apoio minha mulher, e ela apóia o Eld.

Aplausos saudaram suas palavras. Roland esperou que silenciassem.

— O rancheiro Telford fala a verdade. Os Lobos provavelmente vão saber onde as crianças foram abrigadas. E quando chegarem, meu ka-tet estará lá para recebê-los. Não será a primeira vez que enfrentamos gente da espécie deles.

Bramidos de aprovação. Mais bater baixo de botas. Alguns aplausos ritmados. Telford e Eben Took olhavam em volta com olhos arregalados, como homens descobrindo que haviam acordado num asilo de loucos.

Quando o Pavilhão tornou a silenciar, Roland disse:

— Alguns da cidade concordaram em resistir conosco, gente com boas armas. Mais uma vez, não é uma parte sobre a qual precisam saber neste momento. Mas claro que a formação feminina contou muita coisa aos que já não sabiam sobre as Irmãs de Oriza.

Eddie mais uma vez teve de maravilhar-se com a forma como ele os conduzia; aconchegante, não era? Olhou para Susannah, que revirou os olhos e deu-lhe um sorriso. Mas a mão que ela pôs em seu braço estava fria. Queria que aquilo acabasse. Eddie sabia exatamente como ela se sentia.

Telford tentou uma última vez.

— Gente, me escute! Tudo isso já foi tentado antes!

Foi Jake Chambers quem falou:

— Não foi tentado por pistoleiros, sai Telford.

Um feroz bramido de aprovação recebeu isso. Ouviram-se mais bater de botas e aplausos. Roland acabou erguendo as mãos para silenciá-los.

— A maioria dos Lobos irá pra onde eles acham que estão as crianças, e trataremos deles lá — disse. — Grupos menores talvez ataquem de fato as fazendas ou ranchos. Alguns talvez entrem na cidade. E, sim, é possível que alguns ateiem fogo.

Eles ouviam silenciosa e respeitosamente, assentindo, adiantando-se a ele para o ponto seguinte.

— Um prédio queimado pode ser substituído. Uma criança roont, não.

— É — disse Rosalita. — Nem um coração roont.

Houve murmúrios de concordância, sobretudo das mulheres. Em Calla Bryn Sturgis (como na maioria dos lugares), os homens em estado de sobriedade não gostavam muito de falar sobre seus corações.

— Agora, me escutem, pois vou lhes dizer pelo menos mais isto: sabemos exatamente o que são os Lobos. Jamie Jaffords nos disse o que já suspeitávamos.

Elevaram-se murmúrios de surpresa. Cabeças viraram-se. Jamie, em pé atrás do neto, conseguiu endireitar as costas curvadas por um ou dois segundos e na verdade estufou o peito encolhido. Eddie só desejou que o velho abutre mantivesse sua paz com o que vinha depois. Se ficasse confuso e contradissesse o relato que Roland ia fazer, o trabalho deles se tornaria muito mais difícil. No mínimo significaria agarrar Slightman e Andy antes. E se Finli o’Tego — a voz a quem Slightman informara da Dogan — não tivesse notícia dos dois de novo antes do dia dos Lobos, haveria suspeitas. Eddie sentiu um movimento de mão em seu braço. Susannah acabava de cruzar os dedos.

 

4

— Não há criaturas vivas debaixo das máscaras — disse Roland. — Os Lobos são servos não mortos dos vampiros que governam o Trovão.

Um murmúrio de assombro saudou essa cuidadosamente articulada informação bombástica.

— São o que meus amigos Eddie, Susannah e Jake chamam de zumbis. Não podem ser mortos por flecha, por bah, nem por bala, a não ser se atingidos no cérebro ou no coração. — Roland bateu no lado esquerdo de seu peito para dar ênfase. — E claro que quando partem em seus ataques vêm usando pesada armadura sob as roupas.

Henchick assentia com a cabeça. Vários dos outros homens e mulheres mais velhos — habitantes que se lembravam bem não apenas de uma, mas de duas chegadas anteriores dos Lobos — faziam o mesmo.

— Isso explica muita coisa — disse ele. — Mas como...

— Atingi-los no cérebro está além de nossa competência, por causa dos capacetes que usam sob os capuzes — continuou Roland. — Mas vimos essas criaturas em Lud. Os não mortos não respiram, mas há uma espécie de guelra acima do coração deles. Se a tapam com armadura, morrem. E aí que vamos acertá-los.

Um baixo e pensativo zunzum de conversa recebeu isso. E então a voz de cana rachada e excitada do grand-père.

— Cada palavra é verdadeira, pois dona Molly Doolin acertou ela mesma com o prato um também não morto, e no entanto a criatura caiu no chão!

Susannah apertou a mão no braço de Eddie, o bastante para ele sentir-lhe as unhas curtas, mas quando a olhou, ela dava um sorriso radiante apesar de si mesma. Ele viu uma expressão semelhante no rosto de Jake. Coragem suficiente na hora H, velho, pensou Eddie. Lamento ter duvidado de você. Que Andy e Slightman atravessem o rio e comuniquem esta feliz bosta de cavalo! Perguntara a Roland se eles (o eles sem rosto representados por alguém que chamava a si mesmo Finli o’Tego) iam acreditar em tal lixo. Eles atacaram este lado do Whye durante mais de cem anos e perderam apenas um único combatente, respondera Roland. Acho que vão acreditar em qualquer coisa. A esta altura, o ponto realmente vulnerável deles é sua complacência.

— Tragam seus gêmeos aqui por volta das sete da manhã na Véspera do Lobo — disse Susannah. — Haverá senhoras, as Irmãs de Oriza, vocês sabem, com listas nas placas de ardósia. Vão riscar cada par, à medida que chegarem. É minha esperança ter uma linha traçada em cada nome antes das nove.

— Não vão riscar linha nenhuma pelos nomes dos meus! — gritou uma voz raivosa do fundo da multidão.

O dono da voz empurrou várias pessoas para o lado e avançou para junto de Jake. Era um posseiro com uma pequena propriedade de plantação de arroz mais afastada ao sul. Roland vasculhou o desarrumado depósito de sua memória recente (desarrumado, sim, mas nada fora jogado fora) e acabou vindo com o nome: Neil Faraday. Um dos poucos que não estavam em casa quando Roland e seu ka-tet chegaram para chamar, ou não, em casa por eles, pelo menos. Um trabalhador esforçado, segundo Tian, mas um bebedor ainda mais pesado. Com certeza parecia, com olheiras e um emaranhado de veias arroxeadas em cada face. Muitíssimo desmazelado. Mas Telford e Took lançaram-lhe um olhar agradecido e surpreso. Outro homem são no hospício, dizia. Graças aos deuses.

— Vô levá os bebê de quarquer jeito e eles arrasa a cidade — disse, falando com um sotaque que tornava suas palavras quase incompreensíveis. — Mas eu perco um de cada dos meus gêmeos, mas ainda me sobra três, e na meió das hipótese eu num vaio nada, mas minha maloca, sim! — Faraday olhou a gente da cidade em volta com uma expressão de desdém sarcástico. — Eles arrasa e ao diabo cum vocês — disse. — Ninguém ganha.

E de volta para o fundo da multidão se foi, deixando um surpreendente número de pessoas abaladas e pensativas. Fizera mais para virar o clímax da multidão com seu desprezo e (ao menos para Eddie) incompreensível tirada do que Telford e Took haviam conseguido fazer juntos.

Talvez seja um pobre sem vintém, mas duvido que vá ter problema em conseguir crédito de Took pelo ano seguinte, pensou Eddie. Se o armazém ainda continuar de pé, quer dizer.

— Sai Faraday tem direito à sua opinião, mas espero que a mude nos próximos dias — disse Roland. — Espero que vocês o ajudem a mudá-la. Porque, se ele não o fizer, é provável que não lhe reste nenhum dos três filhos. — Elevou a voz e dirigiu-a para o lugar onde se postara Faraday, entusiasmado. — Então vai ver como é trabalhar o cultivo de sua terra sem ajuda alguma, além de duas mulas e uma mulher.

Telford adiantou-se até a borda do palco, o rosto vermelho de fúria.

— Não há nada que não insista em dizer pra que seu argumento vença, seu chato? Há alguma mentira que não vai contar?

— Eu não minto e não digo nada como certo — respondeu Roland. — Se dei a qualquer um a idéia de que sei todas as respostas quando há menos de uma estação nem sabia da existência dos Lobos, rogo seu perdão. Quando eu era menino em Gilead, antes da chegada do Homem Bom e do grande incêndio que se seguiu, havia uma fazenda de árvores a leste da floresta o’ Barony.

— Quem já ouviu falar em cultivar árvores? — perguntou alguém escarnecendo.

Roland sorriu e assentiu com a cabeça.

— Talvez não árvores comuns nem mesmo pau-ferro, e essas eram pau-bálsamo, de uma madeira maravilhosa, leve, mas forte. A melhor madeira pra barcos que já existiu. Cresciam em milhares de hectares de terra, dez milhares de paus-bálsamo em fileiras perfeitas, todos supervisionados pelo guarda-florestal do Baronato. E a regra, jamais cedida, muito menos violada, era a seguinte: tire duas, plante três.

— É — disse Eisenhart. — E a mesma coisa com gado, e com novilhos o conselho é manter quatro pra cada um vendido ou abatido. Não que muitos possam se permitir isso.

Os olhos de Roland percorreram a multidão.

— Durante a estação do verão em que fiz dez anos, uma praga se abateu sobre a floresta de bálsamo. Aranhas teceram teias brancas pelos galhos superiores de algumas e aquelas árvores morreram das copas pra baixo, apodrecendo, tombando pelo próprio peso muito antes de a praga conseguir chegar às raízes. O guarda-florestal viu o que estava acontecendo e ordenou que cortassem imediatamente todas as árvores boas. Pra salvar a madeira enquanto valia salvá-la, entendem? Deixara de ser tire duas, plante três, porque a regra não fazia mais sentido. No verão seguinte, a floresta de bálsamo já havia desaparecido.

Total silêncio das pessoas. O dia escoara para um crepúsculo prematuro. As tochas sibilaram. Nem um único olho se desgrudou do rosto do pistoleiro.

— Aqui em Calla, os Lobos ceifam bebês. E nem precisam se dar ao trabalho de plantá-los, porque, me escutem, isso é com os homens e as mulheres. Até as crianças sabem. “Papai de idiota não tem nada, quando planta a commala do arroz, mamãe sabe o que deve fazer!”

Um murmúrio da gente.

— Os Lobos tiram, depois esperam. Tiram... e esperam. Sempre funcionou às mil maravilhas pra eles, porque homens e mulheres sempre plantam novos bebês, não importa o que mais aconteça. Mas agora vem uma coisa nova. Agora vem a praga.

Took começou:

— É, você diz a verdade, você é a praga, muito bem...

Então alguém derrubou no chão o chapéu de sua cabeça. Eben Took rodopiou, procurou o culpado, e viu cinqüenta rostos hostis. Agarrou o chapéu, levou-o ao peito e nada mais disse.

— Se virem que acabou o cultivo de bebês pra eles aqui — continuou Roland —, desta vez não vão levar apenas gêmeos; desta vez vão levar cada criança em que puderem pôr as mãos enquanto a colheita for boa. Portanto, tragam seus pequenos às sete da manhã. Este é o meu melhor conselho pra vocês.

— Que opção você deixou pra eles? — perguntou Telford, branco de medo e fúria.

Roland já se fartara dele. Elevou a voz num grito, e ele recuou da força dos olhos azuis repentinamente faiscantes do pistoleiro. — Nenhuma com que você tenha de se preocupar, sai, pois seus filhos são adultos, como todo mundo na cidade sabe. Já deu sua opinião. Agora, por que não fecha a matraca?

Uma explosão de aplausos e bater de botas saudou sua resposta. Telford engoliu o bramido e as vaias o máximo que agüentou, cabisbaixo, os ombros curvados como um touro prestes a atacar. Depois se virou e começou a abrir caminho empurrando a multidão. Took o seguiu. Passados alguns momentos, já haviam desaparecido. Não muito depois, terminou a assembléia. Não houve votação. Roland não lhes dera nada para votar.

Não, Eddie pensou mais uma vez ao empurrar a cadeira de Susannah para os comes e bebes, realmente aconchegante, não era?

5

Não muito depois, Roland procurou Ben Slightman. Parado sob uma haste da tocha, o capataz equilibrava uma caneca de café num prato com Um pedaço de bolo. Roland também se servira de café e bolo. Do outro lado do pátio gramado, a tenda das crianças havia se tornado no momento a tenda de comes e bebes. Uma longa fila de pessoas à espera serpeava diante dela. Ouvia-se conversa em voz baixa, mas poucas risadas. Mais perto, Benny e Jake lançavam uma bola elástica para a frente e para trás, de vez em quando deixando Oi brincar. O trapalhão latia alegremente, mas os garotos pareciam tão desanimados quanto as pessoas à espera na fila.

— Falou bem esta noite — disse Slightman, e bateu a caneca de café na de Roland.

— Você diz isso?

— Sim. Claro que eles estavam prontos, acho que você sabia, mas Faraday deve ter sido uma surpresa para você, porém você lidou bem com ele.

— Eu só disse a verdade. Se os Lobos perderem bastante de sua tropa, vão pegar o que puderem e reduzir suas perdas. As lendas criam barbas, e 23 anos é tempo suficiente pra criar uma bem longa. O povo de Calla supõe que haja milhares de Lobos no Trovão, talvez milhões deles, mas não acho que isso seja verdade.

Slightman o encarava com franco fascínio.

— Por que não?

— Porque tudo está se desmantelando — disse Roland apenas, e depois: — Preciso que me prometa uma coisa.

Slightman olhou-o, cauteloso. As lentes dos óculos cintilavam à luz da tocha.

— Se eu puder, Roland, farei.

— Cuide pra que seu filho fique aqui daqui a quatro noites. A irmã dele está morta, mas duvido que isto o torne não gêmeo para os Lobos. Continua havendo grande probabilidade de servir para o que eles querem.

Slightman não fez esforço algum para disfarçar seu alívio.

— Sim, ele vai estar aqui. Jamais pensei em outra opção.

— Ótimo. E eu tenho um trabalho pra você, se puder fazer.

O olhar cauteloso retornou.

— Que trabalho seria esse?

— Comecei a princípio achando que seis bastariam pra cuidar das crianças enquanto lidamos com os Lobos, e depois Rosalita me perguntou o que eu faria se elas ficassem assustadas e em pânico.

— Ah, mas você vai botá-las numa gruta, não vai? — perguntou Slightman, baixando a voz. — Crianças não podem correr pra muito longe numa gruta, mesmo que fiquem em pânico.

— Longe o bastante pra trombarem com uma parede e arrebentar o cérebro, ou cair num buraco no escuro. Se alguma em pânico iniciar uma debandada por conta da gritaria, da fumaça e do fogo, talvez todas caiam num buraco no escuro. Decidi que gostaria de ter dez cuidando das crianças. Gostaria que você fosse um deles.

— Roland, muito me lisonjeia.

— Isso é um sim?

Slightman assentiu com a cabeça.

Roland encarou-o.

— Você sabe que, se perdemos, os que estiverem cuidando das crianças têm chance de morrer?

— Se eu achasse que iam perder, jamais concordaria em ficar ali fora com a garotada. — Fez uma pausa. — Ou mandar meu próprio filho.

— Obrigado, Ben. Você é um bom homem.

Slightman baixou mais ainda a voz.

— Qual das minas vai ser? A Glória ou a Cardeal? — E como Roland não respondeu de imediato: — Claro que entendo se preferir não dizer...

— Não é isso — disse Roland. — É que ainda não decidimos.

— Mas vai ser uma ou outra.

— Ah, sim, onde mais? — disse Roland, ausente, e pôs-se a enrolar ; um cigarro.

— E vamos tentar pegá-los por cima?

— Não vai dar certo — disse Roland. — O ângulo é errado. — Deu um tapinha no peito acima do coração. — Temos de atingi-los aqui, lembre-se. Outros lugares... não adianta. Mesmo uma bala que atravesse a armadura não causaria muito dano a um zumbi.

— Isto é um problema, não?

— É uma oportunidade— corrigiu Roland. — Você conhece a ladeira coberta de seixos que se estende embaixo da passagem quase horizontal de acesso àquelas velhas minas de granada? Parece um babador de bebê?

— Sim?

— Vamos nos esconder ali. Embaixo dali. E quando eles avançarem a cavalo pra cima de nós, nos levantaremos e... — Roland engatilhou um polegar e um indicador para Slightman e fez um gesto de apertar o gatilho.

Um sorriso se espalhou pelo rosto de Slightman.

— Roland, que idéia brilhante!

— Não — contradisse Roland. — Apenas simples. Mas simples em geral é melhor. Acho que vamos surpreendê-los. Encurralá-los e pegá-los. Já funcionou pra mim antes. Não tem motivo pra que não funcione de novo.

— Não. Imagino que não.

Roland olhou em volta.

— É melhor não falarmos dessas coisas aqui, Ben. Sei que você é seguro, mas...

Ben assentiu rapidamente.

— Não diga mais nada, Roland, eu entendo.

A bola rolou até os pés de Slightman. O filho ergueu as mãos para ela, sorrindo.

— Pai! Joga!

Ben jogou, com força. A bola saiu voando, igual ao prato de Molly no relato do grand-père. Benny saltou, pegou-a com uma das mãos e riu. O pai retribuiu-lhe o sorriso com afeto, depois voltou o olhar para Roland.

— Eles formam uma dupla, não? O seu e o meu?

— É — disse Roland, quase sorrindo. — Quase como irmãos, com certeza.

 

6

O ka-tet voltou sem pressa para a reitoria, cavalgando os quatro lado a lado, sentindo cada olho da cidade que os via ir embora: morte na garupa de cavalo.

— Gostou de como tudo se passou, doçura? — perguntou Susannah a Roland.

— Vai servir — admitiu ele, e começou a enrolar um cigarro.

— Eu gostaria de experimentar um desses — disse Jake, de repente.

Susannah lançou-lhe um olhar ao mesmo tempo chocado e divertido.

— Morda a língua, doçura... você ainda não fez nem 13 anos.

— Meu pai começou aos dez.

— E estará morto por volta dos cinqüenta, o mais provável — ela disse, severamente.

— Não será uma grande perda — resmungou Jake, mas deixou morrer o assunto.

— E Mia? — perguntou Roland, riscando um fósforo com a unha do polegar. — Continua quieta?

— Se não fosse por vocês, rapaziada, não sei se eu acreditaria até que existiu essa dona.

— E a barriga está quieta também?

— Tá.

Susannah imaginou que todos tinham regras para mentir; a dela era que, se ia contar alguma, dava o melhor de si para mantê-la curta. Se tinha um chapinha na barriga — alguma espécie de monstro —, ela os deixaria ajudá-la a preocupar-se com ele dali a uma semana. Se ainda tivessem condições de se preocuparem com alguma coisa, quer dizer. Por enquanto, não precisavam saber das pequenas contrações que vinha tendo.

— Então está tudo bem — disse o pistoleiro. Cavalgaram em silêncio por algum tempo, e depois ele tornou a falar: — Espero que os dois rapazes aí saibam cavar. Haverá alguma escavação a fazer.

— Sepulturas? — perguntou Eddie, sem saber se brincava ou não.

— As sepulturas vêm depois. — Roland olhou para o céu, mas as nuvens haviam avançado do oeste e roubado as estrelas. — Só se lembrem que são os vencedores que as cavam.