A Torre Negra V: Lobos de Calla
Capítulo 2
Vendo Roland fazer as apresentações (ela foi apresentada por último, após Jake, e quase negligentemente), Susannah teve tempo de refletir sobre como se sentia bem, agora que os aborrecidos espasmos no lado esquerdo haviam desaparecido. Diabos, até a renitente dor de cabeça seguira seu caminho, e aquela sugadora ficara rondando por perto — às vezes na nuca, às vezes numa têmpora ou noutra, às vezes logo acima do olho esquerdo, como uma enxaqueca a chocar — por uma semana ou mais. E, claro, havia as manhãs. Cada uma a encontrava nauseada e com um sério caso de perna bamba durante a primeira hora ou por aí assim. Ela jamais vomitava, mas naquela primeira hora sempre se sentia à beira de fazê-lo. Não era estúpida a ponto de se enganar com tais sintomas, mas tinha motivo para saber que não significavam nada. Apenas esperava que não fosse constranger-se inchando como Jessica, a amiga de sua mãe, não uma, mas duas vezes. Duas falsas gravidezes, e nos dois casos a mulher parecera pronta para expelir gêmeos. Trigêmeos, até. Mas claro que Jessica Beasley já não menstruava mais, e isso tornava muito fácil a mulher acreditar que estava grávida. Susannah sabia que não estava grávida pelo simples motivo de que ainda menstruava. Ficara menstruada no mesmo dia em que haviam despertado no Caminho do Feixe de Luz, com o Palácio Verde uns 40 ou 60 quilômetros atrás. Já tivera outro ciclo desde então. Os dois haviam sido demasiado fortes, necessitando o uso de trapos para conter o fluxo escuro, e antes suas regras sempre eram leves, alguns meses não mais que alguns fios do que sua mãe chamava “rosas de dama”. Mas ela não se queixava, porque antes de sua chegada a este mundo suas regras em geral eram dolorosas e às vezes excruciantes. As duas que tivera desde que retornara ao Caminho do Feixe de Luz não haviam doído nada. Não fosse pelos trapos encharcados que ela enterrava cuidadosamente num ou noutro lado da trilha, não teria idéia de que era o seu dia do mês. Talvez fosse a pureza da água.
Claro que ela sabia do que se tratava; não era preciso ser um cientista de foguetes, como às vezes dizia Eddie. Os sonhos malucos e embolados que ela não lembrava, a fraqueza e a náusea pela manhã, as passageiras dores de cabeça, os ferozes ataques de gases e uma ou outra cãibra, tudo se resumia à mesma coisa: ela queria aquele bebê. Mais que qualquer outra coisa no mundo, queria o chapinha de Eddie crescendo em sua barriga.
O que não queria era inchar numa humilhante gravidez falsa.
Esqueça isso tudo agora, ela pensou quando Callahan se aproximava com os outros. Neste momento, tem de ficar atenta. Tem de ver o que Roland, Eddie e Jake não vêem. O jeito como não se larga nada. E sentia que podia fazer bem esse trabalho.
Realmente, jamais se sentira melhor em sua vida.
3
Primeiro veio Callahan. Seguido de dois homens, um que parecia por volta dos 30 e outro que para Susannah tinha quase duas vezes isso. O mais velho tinha bochechas gordas que seriam dobras em mais uns cinco anos, e rugas abriam caminho dos lados do nariz até o queixo. Seu pai chamava esses de “quero rugas” (e tinha um belo conjunto delas). O mais jovem usava um sombreiro esbagaçado, o mais velho um limpo Stetson branco que a fez querer sorrir — parecia daqueles que o mocinho usava num antigo filme de faroeste em preto e branco. Contudo, ela achava que uma cobertura daquela não saía barata, e que o homem que a usava devia ser Wayne Overholser. “O grande fazendeiro”, como o chamara Roland. O que precisava ser convencido, segundo Callahan.
Mas não por nós, pensou Susannah, o que era uma espécie de alívio. A boca franzida, os olhos astutos e, acima de tudo, todas aquelas rugas profundas (outra cortava verticalmente a testa logo acima dos olhos) sugeriam que sai Overholser ia ser um pé no saco quando se tratasse de convencimento.
Logo atrás desses dois — especificamente atrás do mais jovem — vinha uma mulher alta e elegante, provavelmente não negra, mas ainda assim com a pele quase tão escura quanto a da própria Susannah. Fechando a retaguarda, um rapaz de ar sério, óculos e roupas de camponês, provavelmente dois ou três anos mais velho que Jake. Era impossível não perceber a semelhança entre os dois; tinham de ser Slightman pai e filho.
O garoto pode ser mais velho que Jake em anos, ela pensou, mas tem uma aparência molenga ainda assim. Verdade, embora não necessariamente uma coisa ruim. Jake vira demasiado para um garoto que ainda não chegara à adolescência. Fizera demasiado também.
Overholser olhou as armas deles (Roland e Eddie traziam cada um grandes revólveres com cabo de sândalo: a Ruger .44 da cidade de Nova York pendia da axila de Jake, no que Roland chamava muleta de estivador) e depois para Roland. Fez uma saudação pró-forma, o punho semifechado passando em algum ponto perto da testa. Não fez mesura. Se Roland se sentiu ofendido com isso, não o mostrou no rosto. Nada mostrava no rosto além de um polido interesse.
— Salve, pistoleiro — disse o homem que vinha andando ao lado de Overholser, e realmente caiu sobre um dos joelhos, com a cabeça baixa e a testa apoiada no punho. — Eu sou Tian Jaffords, filho de Luke. Esta senhora é minha esposa Zalia.
— Salve — disse Roland. — Que eu seja Roland para você, se lhe apraz. Que longos sejam os seus dias sobre a terra, sai Jaffords.
— Tian. Por favor. E que você e seus amigos tenham duas vezes...
— Eu sou Overholser — interrompeu bruscamente o homem de Stetson branco. — Viemos ao seu encontro, e de seus amigos, a pedido de Callahan e do jovem Jaffords. Eu passaria as formalidades e entraria no assunto o mais breve possível, não se ofenda, peço-lhe.
— Perdão, mas isso não é bem assim — disse Jaffords. — Nós fizemos uma assembléia, e os homens de Calla votaram...
Overholser tornou a interromper. Susannah achava que ele era exatamente esse tipo de homem. Duvidava que ele ao menos percebesse que o fazia.
— A cidade, sim. Calla. Eu vim com todo o desejo de agir direito com minha cidade e meus vizinhos, mas estou muito ocupado no momento, nunca estive tanto...
— A árvore de charyou — disse Roland em voz baixa, e embora Susannah conhecesse um sentido mais profundo para a expressão, que lhe trouxe picadas na espinha, os olhos de Overholser se iluminaram. Ela teve então seu primeiro sinal de como ia ser aquele dia.
— Vem a colheita, sim, senhor, eu lhe agradeço.
Afastado para um lado, Callahan olhava a mata com uma espécie de estudada paciência. Atrás de Overholser, Tian Jaffords e a esposa trocaram um olhar constrangido. Os Slightman apenas esperavam e observavam.
— De qualquer modo, até aí você entende — disse Overholser.
— Em Gilead, nós éramos cercados por fazendas e terras livres — disse Roland. — Eu tinha meu quinhão no trigo e milho no celeiro. É, e raízes também.
Overholser dava a Roland um sorriso que Susannah achava francamente ofensivo. Dizia: Nós sabemos que, não, não sabemos, sai? Afinal, somos ambos homens do mundo.
— De onde é você mesmo, sai Roland?
— Meu amigo, está precisando ir a um otorrino — disse Eddie.
Overholser olhou-o, intrigado.
— Perdão, meu ouvido?
Eddie fez um gesto de Aí, tá vendo?, e balançou a cabeça.
— Exatamente o que quero dizer.
— Fique quieto, Eddie — disse Roland. Ainda suave como leite. — Sai Overholser, podemos por um momento trocar nomes e fazer um ou dois bons votos, sem dúvida. Pois é assim que as pessoas civilizadas e bondosas se comportam, não é? — Fez uma pausa, uma breve pausa de acentuação, e então disse: — Com bandidos é diferente, mas não há bandidos aqui.
Overholser comprimiu os lábios e olhou duro para Roland, pronto para ofender-se. Não viu nada no rosto do pistoleiro que justificasse isso e tornou a relaxar.
— Obrigado — disse. — Tian e Zalia Jaffords, como já disse...
Zalia fez uma mesura, espalhando saias invisíveis de cada lado de gastas calças de cotelê. — ... e aqui estão Slightman pai e filho.
O pai levou o punho à testa e balançou a cabeça. O filho, o rosto um temor absoluto (sobretudo pelas armas, supôs Susannah), curvou-se com a perna direita estendida rígida à frente e o calcanhar plantado.
— O Velho você já conhece — concluiu Overholser, falando com exatamente aquele seco desdém com o qual ele próprio se ofenderia, se dirigido ao seu estimado ego.
Susannah supôs que quando o cara era o grande fazendeiro, se acostumava a falar simplesmente tudo que queria. Perguntava-se até onde ele podia empurrar Roland antes de descobrir que não empurrara coisa alguma. Porque alguns homens não podiam ser empurrados. Podiam nos acompanhar por um tempo, mas então...
— Estes são meus companheiros de trilha — disse Roland. — Eddie Dean e Jake Chambers, de Nova York. E esta é Susannah.
Indicou-a sem voltar-se para ela. O rosto de Overholser lançou uma expressão intensamente masculina e conhecedora que Susannah já tinha visto antes. Detta Walker tinha um jeito de varrer aquela expressão da cara dos homens que ela não acreditava que sai Overholser fosse gostar.
Apesar disso, ela lançou a Overholser e ao resto deles um sorrisinho pudico e fez a mesura da saia invisível. Achou a sua tão graciosa quanto a de Zalia Jaffords, mas claro que uma mesura não era exatamente a mesma quando não se tinham as pernas e os pés. Os recém-chegados haviam observado as partes que lhe faltavam, claro, mas os sentimentos deles a esse respeito não a interessavam muito. Mas imaginava o que eles pensavam de sua cadeira de rodas, a que Eddie pegara para ela em Topeka, onde o Mono Blaine acabara. Aquela gente jamais teria visto coisa igual.
Callahan talvez tenha, pensou. Porque ele é do nosso lado. Ele...
O garoto perguntou:
— Esse é um trapalhão?
— Quer calar a boca? — disse Slightman, parecendo quase chocado pelo fato de o filho ter falado.
— Está tudo bem — disse Jake. — Ié, é um trapalhão. Oi, vá até ele.
Apontou o Ben filho. O trapalhão trotou em torno da fogueira até onde o recém-chegado estava de pé e encarou o garoto com seus olhos debruados de dourado.
— Eu nunca vi um domesticado antes — disse Tian. — Já ouvi falar, claro, mas o mundo seguiu adiante.
— Talvez nem todo ele tenha seguido — disse Roland. Olhou para Overholser. — Talvez ainda vigorem alguns dos velhos costumes.
— Posso fazer carinho nele? — perguntou o rapaz a Jake. — Não vai me morder?
— Pode, e ele não morde.
Quando Slightman filho se acocorou diante de Oi, Susannah certamente esperou que Jake tivesse razão. Com uma mordida do trapalhão no nariz do garoto, as coisas não iam ficar nada bem.
Mas Oi deixou-se afagar, chegando a esticar o pescoço para cima, a fim de experimentar o cheiro do rosto de Slightman. O menino riu.
— Como disse que era o nome dele?
Antes que Jake pudesse responder, o próprio trapalhão falou:
— Oi!
Todos riram. E com essa simplicidade eles ficaram juntos, bem encontrados naquela trilha que seguia o Caminho do Feixe de Luz. A ligação era frágil, mas até Overholser a sentia. E quando riu, o grande fazendeiro parecia poder ser um bom sujeito. Talvez assustado, e pomposo sem dúvida, mas havia alguma coisa ali.
Susannah não sabia se devia ficar satisfeita ou assustada.
4
— Eu gostaria de ter uma palavrinha a sós com você, se não se importa — disse Overholser.
Os dois garotos haviam-se afastado um pouco com Oi, Slightman filho perguntando a Jake se o trapalhão sabia contar, como ele ouvira dizer que alguns sabiam.
— Acho que não, Wayne — foi logo dizendo Jaffords. — Ficou combinado que voltaríamos para nosso acampamento, dividiríamos o pão e explicaríamos nossa necessidade a essa gente.
— Eu não faço objeção a ter uma palavra com sai Overholser — disse Roland —, nem você, sai Jaffords, eu acho. Pois não é ele seu dinh? — E, então, antes que Tian pudesse fazer outras objeções (ou negá-las): — Dê chá a essa gente, Susannah. Eddie, venha aqui conosco um pouco, se estiver tudo bem por você.
Essa frase, nova a todos os ouvidos, saiu da boca de Roland parecendo perfeitamente natural. Susannah ficou maravilhada com ela. Se houvesse tentado dizer aquilo, teria parecido estar sugando.
— Temos sempre comida no sul — disse timidamente Zalia. — Comida, brotos e café. Andy...
— Nós comeremos com prazer e tomaremos seu café com alegria — disse Roland. — Mas primeiro tome o chá. Ficaremos só alguns instantes, não é, sai?
Overholser fez que sim com a cabeça. Desaparecera sua expressão de severo desconforto. E também sua rigidez corporal. Do outro lado da estrada (perto de onde a mulher chamada Mia deslizara para dentro da mata ainda na noite passada), os garotos riram quando Oi fez alguma coisa esperta — Benny com surpresa, Jake com óbvio orgulho.
Roland tomou o braço de Overholser e levou-o um pouco adiante na estrada. Eddie acompanhou-os. Jaffords, de testa franzida, fez que ia com eles afinal. Susannah tocou o seu ombro.
— Não vá — disse em voz baixa. — Ele sabe o que faz.
Jaffords olhou-a em dúvida por um instante e foi com ela.
— Talvez eu pudesse fazer um fogo para você, sai — disse Slightman pai com um olhar de simpatia às suas pernas amputadas. — Ainda vejo algumas fagulhas, vejo, sim.
— Por favor — disse Susannah, pensando como era maravilhoso aquilo.
Como era maravilhoso, como era estranho. E potencialmente mortal também, claro, mas aprendera que tinha igualmente seus charmes. A possibilidade de escuridão é que fazia o dia parecer tão luminoso.
5
Adiante na estrada, a uns 10 metros dos outros, os três homens sentaram-se juntos. Overholser parecia ser o único a falar, às vezes gesticulando violentamente para acentuar um argumento. Falava como se Roland não passasse de um pistoleiro vagabundo que aparecera por acaso na estrada com alguns companheiros bêbados sem importância atrás. Explicava-lhe que Tian Jaffords era um tolo (embora bem-intencionado) que não compreendia as verdades da vida. Disse que se se pudesse fazer alguma coisa, Wayne Overholser, filho de Alan, seria o primeiro na fila para fazê-la; jamais se furtara a uma tarefa em sua vida, mas ir contra os Lobos era loucura. E por falar em loucura, acrescentou baixando a voz, havia o Velho. Quando se atinha à sua igreja e rituais, era ótimo. Nessas coisas, um pouco de loucura dava um bom molho. Aquilo, no entanto, era um pouco diferente. Ié, e de longe.
Roland ouviu tudo, balançando de vez em quando a cabeça. Quase nada falou. E quando Overholser por fim acabou, o grande fazendeiro de Calla Bryn Sturgis simplesmente ficou a olhar com uma espécie de fixa fascinação o pistoleiro à sua frente. Sobretudo os olhos azuis baços.
— Você é mesmo o que diz? — perguntou finalmente. — Fale a verdade, sai.
— Eu sou Roland de Gilead — disse o pistoleiro.
— Da linhagem do Eld? Você diz isso?
— Por direito e mandato — disse Roland.
— Mas Gilead... — Overholser fez uma pausa. — Gilead há muito desapareceu.
— Eu — disse Roland — não.
— Você mataria todos nós ou faria com que nos matassem? Diga-me, eu lhe peço.
— Que faria você, sai Overholser? Não depois; nem um dia, uma semana ou uma lua a partir de agora, mas neste minuto?
Overholser ficou parado um longo tempo, olhando de Roland para Eddie e de novo para Roland. Ali estava um homem não acostumado a mudar de idéia; se mudasse, isso o machucaria como um rompimento. De mais abaixo na estrada veio a risada dos garotos quando Oi foi pegar alguma coisa que Benny jogara — um pau quase tão grande quanto o próprio trapalhão.
— Eu escutaria — disse Overholser por fim. — Isso eu faria, com a ajuda dos deuses, e agradeceria.
— Em outras palavras, ele explicou os motivos pelos quais era um serviço de tolo — disse mais tarde Eddie a Susannah — e depois fez exatamente o que Roland queria que fizesse. Pareceu coisa de magia.
— Às vezes Roland é mágico — disse ela.
6
O grupo de Calla acampara num aprazível topo de uma colina não muito ao sul da estrada, mas um pouco fora do Caminho do Feixe de Luz, de modo que nuvens ainda pairavam imóveis no céu, parecendo ao alcance da mão. A trilha ali no meio da mata fora cuidadosamente assinalada; algumas das fogueiras que Susannah via tinham o tamanho da sua palma. Aquelas pessoas podiam ser camponeses rudes e trabalhadores braçais, mas era claro que a floresta os deixava inquietos.
— Posso empurrar um pouco essa cadeira pra você, meu rapaz? — perguntou Overholser a Eddie quando começaram o estirão final encosta acima.
Susannah sentia o cheiro de carne assando e imaginava quem cuidava da comida se todo o grupo de Callahan-Overholser viera ao encontro deles. Havia a mulher falado em alguém chamado Andy? Um empregado, talvez? Falara, sim. O pessoal de Overholser? Talvez. Certamente, um homem que podia comprar um Stetson tão grande quanto o agora jogado para trás em sua cabeça podia ter uma equipe.
— Tome — disse Eddie. Não ousava exatamente acrescentar: — Eu lhe peço.
(Ainda lhe soa falso, pensou Susannah), mas se afastou para um lado e entregou as barras da cadeira a Overholser. O fazendeiro era um homem grande, a encosta fácil, e agora ele empurrava a mulher, que pesava perto de 65 quilos, mas sua respiração, embora forte, permaneceu regular.
— Posso lhe fazer uma pergunta, sai Overholser? — perguntou Eddie.
— Claro — respondeu Overholser.
— Qual é seu segundo nome?
Houve um ligeiro afrouxamento na condução da cadeira; Susannah atribuiu-o a mera surpresa.
— É um nome curioso, meu jovem; por que pergunta?
— Oh, é uma espécie de passatempo meu — disse Eddie. — Na verdade, eu digo a sorte com eles.
Cuidado, Eddie, cuidado, pensou Susannah, mas estava divertida apesar de si mesma.
— Ah, é?
— É — disse Eddie. — Agora você, aposto que seu segundo nome começa com... — pareceu calcular — com a letra D. — Só que pronunciou Dei, como as Grandes Letras da Língua Superior. — E eu diria que é curto. Cinco letras? Talvez apenas quatro?
De novo o afrouxamento na marcha da cadeira.
— Com os diabos! — disse Overholser. — Como você sabe? Me diga!
Eddie deu de ombros.
— É só conta e palpite, de fato. Na verdade, erro quase tanto quanto acerto.
— Mais — disse Susannah.
— Eu lhe digo que o meu segundo nome é Dale — disse Overholser —, embora se alguém um dia me explicou por quê, eu esqueci. Perdi meus velhos quando era criança.
— Sinto muito pela sua perda — disse Susannah, feliz por ver que Eddie se afastava. Provavelmente para contar a Jake que ela tinha razão sobre o segundo nome: Wayne Dale Overholser. Igual a 19.
— Esse jovem é são ou idiota? — perguntou Overholser a Susannah. — Me diga, eu lhe peço, porque eu não percebo.
— Um pouco das duas coisas — disse ela.
— Mas não há dúvida sobre essa cadeira, não é? É certeira feito uma bússola.
— Agradeço — ela disse, e deu um pequeno suspiro para dentro de alívio.
Se saíra direito, provavelmente era porque ela não planejara exatamente como falar.
— De onde veio isso?
— De uma boa distância lá atrás — disse ela.
Essa virada na conversa não lhe agradava muito. Achava que era tarefa de Roland contar a história (ou não). Ele era o dinh deles. Além disso, o que era contado apenas por um não podia ser contradito. Ainda assim, pensou que podia dizer mais alguma coisa.
— Ali está a barreira entre os mundos. Nós viemos do outro lado dela, onde tudo é muito diferente. — Esticou o pescoço em volta para olhá-lo. Ele tinha a face e o pescoço ruborizados, mas na verdade, ela pensou, estava se saindo muito bem para um homem já bem entrado na casa dos 50. — Sabe do que estou falando?
— Ié — disse ele, boquiaberto, e cuspiu para a esquerda. — Não que eu tenha visto ou ouvido pessoalmente, você entende. Nunca ando muito longe; muita coisa a ver com a fazenda. Os de Calla em geral não são mateiros simplórios, mesmo assim, você sabe.
Oh, sim, eu acho que sei, pensou Susannah, vendo outro clarão mais ou menos do tamanho de um prato de jantar. A infeliz árvore assim assinalada teria sorte se sobrevivesse ao próximo inverno.
— Andy falou muitas vezes da barreira. Faz um barulho, ele diz, mas não sabe dizer o que é.
— Quem é Andy?
— Você vai conhecê-lo pessoalmente muito em breve. Você não é de Nova York, como seus amigos?
— Sou — ela disse, mais uma vez em guarda. Ele virou a cadeira de rodas em torno de um pau-ferro esbranquiçado. As árvores eram mais esparsas agora e o cheiro de cozinha era muito mais forte. Carne... e café. A barriga dela roncou.
— E eles não são pistoleiros — disse Overholser, indicando Jake e Eddie com a cabeça. — Você não me dirá isso, certamente.
— Você deve decidir por si mesmo quando chegar a hora — disse Susannah.
Ele não respondeu por alguns instantes. Depois a cadeira de rodas rugiu sobre um afloramento de rocha. À frente deles, Oi andava entre Jake e Benny Slightman, que haviam feito amizade com a rapidez dos garotos. Ela se perguntava se era uma boa idéia. Pois os dois garotos eram diferentes. O tempo mostraria aos dois quanto, e para mágoa deles.
— Ele me assustou — disse Overholser. Falou numa voz quase baixa demais para ouvir-se. Como para si mesmo. — São os olhos dele, eu acho. Sobretudo os olhos.
— Gostaria de seguir então igual a antes? — perguntou Susannah.
A pergunta estava longe de ser tão leve quanto ela esperava que parecesse, mas ainda estava surpresa com a fúria da reação dele.
— Você ficou maluca, mulher? Claro que não... se vi uma saída da caixa onde você está. Me escute bem. Aquele rapaz... — Apontou para Tian Jaffords, que caminhava à frente com a esposa. — ... aquele rapaz praticamente me acusou de covardia. Tinha de assegurar que todos soubessem que eu não tinha filhos da idade que os Lobos gostam. Não como os dele, você sabe. Mas você acha que eu sou algum idiota que não sabe fazer contas?
— Eu, não — disse Susannah.
— Mas ele sim? Eu meio que acho isso. — Overholser falava como um homem quando seu orgulho e medo lutam em sua cabeça. — Eu lá quero entregar os bebês aos Lobos? Bebês que são mandados de volta como roonts para serem um atraso de vida na cidade eternamente? Não! Mas tampouco quero que algum cabeça-dura nos leve a um erro sem retorno!
Ela percebeu movimentos pelo canto do olho.
— Nossa mãe! — gritou Eddie.
A mão de Susannah voou para o revólver que não estava ali. Ela tornou a se virar para a frente na cadeira. Andando pela ladeira em direção a eles, movendo-se com um cuidado afetado que ela não pôde deixar de achar divertido, mesmo em seu espanto, vinha um homem de metal de pelo menos 2,5m de altura.
Jake levara a mão à muleta de estivador e à arma ali pendurada.
— Calma, Jake! — disse Roland.
O homem de metal, olhos luzindo azul, parou na frente deles. Ficou perfeitamente imóvel por talvez dez segundos, tempo suficiente para Susannah ler o que trazia gravado no seu peito. North Central Positronics, pensou, de volta para mais uma chamada ao palco. Para não falar na LaMerk Industries.
Então o robô ergueu um braço prateado e pôs a mão prateada na testa de aço inoxidável.
— Salve, pistoleiro, que vem de longe — disse. — Longos dias e belas noites.
Roland levou os dedos à própria testa.
— Que você tenha tudo isso em dobro, Andy-sai.
— Obrigaaado.
Ouviu-se o tilintar de suas incompreensíveis entranhas. Então ele se curvou para Roland, olhos azuis faiscando mais forte. Susannah viu a mão de Eddie esgueirar-se para o cabo de sândalo do antigo revólver que usava. Roland, porém, nem piscou.
— Eu preparei uma gostosa refeição, pistoleiro. Muitas coisas boas da abundância da terra, ié.
— Eu lhe agradeço, Andy.
— Que fique bem. — As entranhas do robô tornaram a tilintar. — Enquanto isso, será que não quer ouvir seu horóscopo?
CAPÍTULO 6