A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 26 de 43

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

Capítulo 18

Ele abre os olhos, mas mesmo antes de fazê-lo, toma consciência de um cheiro. É o cheiro de feno, mas muito fraco, quase esgotado. Um espectro de seu eu anterior, poderia dizer-se. E ele? É um fantasma?

Senta-se e olha em volta. Se isto é a vida após a morte, então todos os livros sagrados do mundo, incluindo o que ele pregava, estão errados. Porque não está no céu nem no inferno, mas num estábulo. Há montes de palha antiga no chão. Fendas nas paredes de ripas de madeira através das quais entra uma luz forte. É a luz que ele seguiu saindo da escuridão, imagina. E pensa: É a luz do deserto. Há alguma razão concreta para pensar assim? Talvez. O ar é seco quando o inala nas narinas. É como inspirar o ar de um planeta diferente.

Talvez seja, ele pensa. Talvez seja o Planeta Vida após a Morte.

Os sinos continuam ali, ao mesmo tempo doces e horríveis, mas agora se extinguindo... extinguindo... e já desapareceram. Ele ouve o fraco fungar do vento quente. Parte dele entra pelas aberturas entre as tábuas, e uns fiapos de palha elevam-se do chão, executam uma cansada dancinha e mais uma vez se acomodam.

Agora há outro barulho. Uma batida surda e arrítmica. Alguma máquina, e não na melhor das formas, pelo ruído. Ele se levanta. Faz calor ali, e o suor logo irrompe-lhe no rosto e nas mãos. Baixa os olhos para si mesmo e vê que suas elegantes roupas da Grand River Menswear se foram. Agora usa uma calça jeans e uma camisa de cambraia azul, desbotada de várias lavagens. Nos pés, um par de botas surradas com saltos gastos. Dão a impressão de ter percorrido muitos quilômetros sedentos. Curva-se e apalpa as pernas a procura de fraturas. Ao que parece, nenhuma há. Depois os braços. Nenhuma. Tenta estalar os dedos. Eles obedecem facilmente, fazendo barulhinhos secos iguais a gravetos sendo quebrados.

Ele pensa: Minha vida toda foi um sonho? Esta é a realidade? Se for, quem sou eu e que estou fazendo aqui?

E das profundas sombras atrás vem aquele esgotado ruído giratório: o impacto do tuc-TUC-tuc-TUC-tuc-TUC.

Callahan se volta naquela direção, e arqueja com o que vê. Suspensa atrás dele no meio do estábulo abandonado ergue-se uma porta. Sem se encaixar em nenhuma parede, apenas paira solta. Tem dobradiças, mas pelo que ele pode ver não ligam a porta a lugar algum além do ar. Vêem-se hieróglifos gravados de baixo até a metade. Não consegue lê-los. Avança um passo, como se isto o ajudasse a entender. E de certo modo ajuda. Porque ele vê que a maçaneta e feita de cristal, e gravada nela está uma rosa. Ele lera Thomas Wolfe: uma pedra, uma rosa, uma porta desconhecida; uma pedra, uma rosa, uma porta. Não há pedra alguma, mas talvez seja este o sentido do hieróglifo.

Não, ele pensa. Não, a palavra é DESCONHECIDA. Talvez eu seja a pedra.

Estica o braço e toca a maçaneta de cristal. Como se isso fosse um sinal

(um desenho astrológico com poderes mágicos, ele pensa)

extingue-se o ruído da maquinaria. Muito fracos, muito distantes — longínquos e minúsculos —, ele ouve os sinos. Experimenta a maçaneta. Não se move para nenhum dos dois lados. Não cede sequer um milímetro. É como se estivesse encaixada em concreto. Quando ele retira a mão, cessa a música do carrilhão.

Ele contorna a porta e ela desaparece. Refaz o caminho de volta e ela reaparece. Faz três círculos devagar, observando o ponto exato no qual a espessura da porta desaparece num lado e reaparece no outro. Faz o percurso ao contrário, agora no sentido anti-horário. A mesma coisa. Que porra é esta?

Examina a porta por vários momentos, ponderando, depois se encaminha mais para o fundo do estábulo, curioso sobre a máquina que ouviu. Não sente dor alguma ao andar, como se apenas houvesse sofrido uma longa queda de que seu corpo ainda não recebeu a notícia, mas mãe do céu, como é quente aqui!

Vê baias de cavalo, há muito abandonadas, uma pilha de feno antigo, junto a uma manta dobrada à perfeição, e o que parece uma tábua de pão. Na tábua, apenas um pedacinho de carne-seca. Ele pega-o, cheira-o, cheiro de sal. Charque, pensa, e enfia-a na boca. Não se preocupa muito em ser envenenado. Como se pode envenenar um homem já morto?

Mastigando, continua suas explorações. No fundo do estábulo, fica um quartinho como uma reconsideração. Há umas findas nas paredes desse quarto também, suficientes para que veja uma máquina apoiada numa almofada de concreto. Tudo no estábulo sussurra longos anos e abandono, mas a engenhoca, que lembra um pouco uma máquina de leite, parece novinha em folha. Sem ferrugem, sem poeira. Ele chega mais perto. Um cano de cromo projeta-se para fora de um dos lados. Abaixo, um dreno. O anel de aço em volta parece úmido. Na tampa da máquina, há uma pequena placa de metal. Junto à placa, um botão vermelho. Carimbado na placa, isto:

INDÚSTRIAS LaMERK

834789-AA-45-776019

NÃO RETIRE A FICHA METÁLICA

PEÇA ASSISTÊNCIA

O botão vermelho tem estampada a palavra LIGAR . Callahan aperta-o. Recomeça o esgotado ruído giratório, e após um momento esguicha água do cano de cromo. Ele põe as mãos embaixo. A água é tão gelada que as deixa dormentes, chocando sua pele superaquecida. Bebe. Não é nem doce nem amarga, e ele pensa: Coisas como paladar devem ser esquecidas em grandes profundidades. Esta...

— Olá, padre.

Callahan grita de surpresa. Lança as mãos para o alto e por um momento pérolas de água cintilam num empoeirado raio de sol caindo entre duas tábuas encolhidas. Ele gira em volta sobre os saltos gastos das botas. Parado logo diante da entrada do quarto da bomba-d’água está um homem de beca com capuz.

Sayre, ele pensa. É Sayre, ele me seguiu, atravessou aquela maldita porta...

— Acalme-se — diz o homem de beca. — “Fique frio”, como talvez dissesse o novo amigo do pistoleiro. — Em confidência: — O nome dele é Jake, mas a governanta o chama de Bama. — E então, no tom animado de quem acabou de ter uma boa idéia, diz: — Eu vou mostrar a você! Os dois! Talvez não seja tarde demais! Venha! — Ele estende a mão. Os dedos que surgem da manga da túnica são longos e brancos, um tanto desagradáveis. Como cera. Como Callahan não faz menção de avançar, o homem de beca fala tentando convencê-lo. — Venha. Não pode ficar aqui, você sabe. Isto não passa de um posto de parada, e ninguém fica aqui muito tempo. Venha.

— Quem é você?

O homem de beca faz um muxoxo impaciente.

— Não temos tempo pra tudo isso, padre. Nome, nome, o que é um nome, como disse alguém. Shakespeare? Virgínia Woolf? Quem se lembra? Venha, que lhe mostrarei uma maravilha. E não tocarei em você; vou seguir na sua frente. Está vendo?

Ele se vira. A capa ondula como a saia de um vestido de baile. Volta para dentro do estábulo, e após um momento Callahan o segue. O quarto da bomba-d’água não é nada bom para ele, afinal; é um beco sem saída. Fora do estábulo, talvez consiga correr.

Correr para onde?

Bem, é isto que vamos ver, não?

O homem de capa e capuz bate na porta solta e em pé ao passar por ela.

— Bata na madeira, Doninho é legal! — diz alegremente, e quando pisa no brilhante retângulo de luz que cai pela porta do estábulo, Callahan vê que leva alguma coisa na mão esquerda. É uma caixa de uns 30 centímetros de comprimento, largura e profundidade. Parece feita da mesma madeira da porta. Ou talvez seja uma versão mais pesada daquela madeira. Com certeza, é mais escura e de veio mais cerrado.

Vigiando o homem de manto preto com todo o cuidado, disposto a parar se ele parar, Callahan acompanha-o para o sol. O calor é ainda mais forte assim que chega à luz, o tipo de calor que sentiu no Vale da Morte. Ah, sim, quando saem do estábulo ele vê que estão num deserto. Afastado num dos lados, fica um prédio em ruínas que se ergue de uma fundação de blocos de arenito desmoronados. Talvez houvesse sido outrora uma estalagem, imagina. Ou um cenário abandonado de um filme de faroeste. No outro lado há um curral onde a maioria dos mourões e parapeitos desabou. Adiante estendem-se quilômetros de terreno arenoso, rochoso.

Sim! Sim, há alguma coisa! Duas algumas coisas! Dois minúsculos pontos que se movem no extremo horizonte!

— Você os vê! Como deve ter olhos excelentes, padre!

O homem de batina — é preta, o rosto dentro do capuz nada além de uma pálida sugestão — está uns vinte passos adiante dele. Dando risadinhas abafadas. Callahan se preocupa tanto com o ruído quanto com a aparência de cera de seus dedos. Parece o ruído de camundongos correndo sobre ossos. Isto não faz nenhum sentido concreto, mas...

— Quem são eles? — pergunta Callahan numa voz seca. — Quem é você? Que lugar é este?

O homem de preto exala suspiros teatrais.

— Tanta história prévia, tão pouco tempo — diz. — Me chame de Walter, se quiser. Quanto a este lugar, é um posto de parada, como já lhe disse. Ah, você achou que era o andarilho distante, não? Seguindo todas aquelas suas estradas secundarias? Mas agora, padre, você está numa jornada real.

— Pare de me chamar disso! — grita Callahan.

Já sente a garganta seca. O calor ensolarado parece acumular-se no topo de sua cabeça com peso concreto.

— Padre, padre, padre! — diz o homem de preto. Parece petulante, mas Callahan sabe que ele está rindo por dentro. Tem uma idéia de que esse homem, se for um homem, passa grande parte do tempo rindo por dentro. — Ah, tudo bem, não há a menor necessidade de ficar puto com isso, imagino. Vou lhe chamar de Don. Acha assim melhor?

Os pontinhos pretos ao longe agora vacilam; as termas ascendentes fazem-nos levitar, desaparecer e tornar a aparecer. Logo terão desaparecido para sempre.

— Quem são eles?—pergunta ao homem de preto.

— Caras que você com quase toda certeza jamais conhecerá — diz o homem de preto, a devanear. O capuz desloca-se; por um momento, Callahan vê a lâmina cerácea de um nariz e a curva de um olho, uma pequena órbita cheia de fluido escuro. — Eles vão morrer sob as montanhas. Se não morrerem sob as montanhas, coisas no mar Ocidental os comerão vivos. É isso aí! — Ri mais uma vez. — Mas...

Mas de repente você não parece completamente seguro de si, meu amigo, pensa Callahan.

— Se tudo mais falhar — diz Walter —, isto vai matá-los. — Ergue a caixa, fracamente, Callahan ouve o desagradável murmúrio dos sinos. — E quem levará isto pra eles? Ka, claro, mas até ka precisa de um amigo, um kai-mai. Será você.

— Não entendo.

— Não — concorda tristemente o homem de preto —, e eu não tenho tempo de explicar. Como o Coelho Branco em Alice, estou atrasado, estou atrasado para um encontro importante. Eles estão atrás de mim, você sabe, mas precisei dar meia-volta e falar com você. Ocupado-ocupado-ocupado! Agora preciso chegar mais uma vez antes deles... de que outro jeito vou atraí-los? Você e eu, Don, precisamos terminar nossa conversa fiada, por mais lamentavelmente curta que tenha sido. Volto ao estábulo com você, amigo. Veloz como um coelhinho!

— E se eu não quiser? — Só que não há realmente e se nisto. Ele nunca quis ir menos a um lugar. Imagine que peça a esse cara que o deixe ir e tente alcançar aqueles pontos vacilantes? E se disser ao homem de preto: “É lá onde eu devo estar, onde o que você chama de ka quer que eu esteja?” — Conclui que sabe a resposta. Também poderia cuspir no mar.

Como para confirmá-lo, Walter diz:

— O que você quer dificilmente tem importância. Irá aonde o Rei decreta, e vai esperar lá. Se aqueles lá morrerem em seu curso, como com quase toda a certeza irão, você viverá uma vida de serenidade rural no lugar ao qual eu o envio e também vai morrer lá, cheio de anos e possivelmente com uma sensação falsa, mas sem a menor dúvida agradável, de redenção. Viverá em seu nível da Torre por muito tempo depois que eu virar pó de osso no meu. Isto eu lhe prometo, padre, pois vi no globo, falo a verdade! E se eles continuarem a chegar? E se o alcançarem no lugar ao qual você está indo? Ora, nesse caso improvável, vai ajudá-los de todas as formas que puder e matá-los ao fazê-lo. É incrível, não? Não diria que é incrível?

O homem de preto começa a encaminhar-se para Callahan. Ele recua para o estábulo onde se encontra a porta desconhecida. Não quer ir para lá, mas não há outro lugar.

— Afaste-se de mim — diz.

— Necas — diz Walter. — Não posso aceitar isso, ninguém pode. — Estende a caixa para Callahan. Ao mesmo tempo, põe a mão em cima e pega a tampa.

— Não! — ordena Callahan rispidamente.

Porque o homem de preto não pode abrir a caixa. Há uma coisa terrível dentro dela, alguma coisa que aterrorizaria até Barlow, o astucioso vampiro que obrigou Callahan a beber-lhe o sangue e depois o mandou para os prismas dos Estados Unidos como uma criança problemática cuja companhia se tornou maçante.

— Continue andando que talvez eu não precise — provoca Walter.

Callahan recua para dentro da escassa sombra do estábulo. Logo estará mais uma vez dentro. Não há remédio. E sente aquela estranha porta só-ali-de-um-lado à espera como um peso.

— Você é cruel — explode.

Walter arregala os olhos, e por um momento parece profundamente magoado. Talvez seja absurdo, mas Callahan está olhando no fundo dos olhos do sujeito e tem certeza de que a emoção, no entanto é sincera. E a certeza rouba-lhe qualquer última esperança de que tudo isso possa ser um sonho, ou um brilhante intervalo final antes da verdadeira morte. Nos sonhos — nos dele, pelo menos —, os caras maus, os caras apavorantes nunca têm emoções contraditórias.

— Eu sou o que ka, o Rei e a Torre fizeram de mim. Todos somos. Fomos apanhados.

Callahan lembra o oeste onírico pelo qual viajou: os silos esquecidos, os pores do sol e as longas sombras negligenciados, sua própria alegria amarga que arrasta atrás de si, a cantar até o jingle das muitas correntes que o prendem se tornarem uma doce música.

— Eu sei — diz.

— Sim, vejo que sabe. Continue andando.

Callahan está de volta ao estábulo agora. Mais uma vez, sente o fraco, quase exausto, cheiro de feno velho. Detroit parece impossível, uma alucinação. Assim como todas as suas lembranças dos Estados Unidos.

— Não abra aquela coisa — diz —, que eu irei.

— Que excelente padre é você, padre.

— Você prometeu não me chamar disso.

— As promessas são feitas para serem quebradas, padre.

— Não acho que vai conseguir matá-lo — disse Callahan.

Walter faz uma careta.

— Isto é problema de ka, não meu.

— Talvez tampouco de ka. Acha que ele está acima de ka?

Walter recua, como atingido. Eu blasfemei, pensa Callahan. E com este cara, imagino que não seja um ato insignificante.

— Ninguém está acima de ka, falso padre. — O homem de preto cospe nele. — E o quarto no topo da Torre está vazio. Eu sei que está.

Embora Callahan não tenha total certeza do que o homem está falando, sua resposta é rápida e segura.

— Você se engana. Existe um Deus. Ele espera e vê todos de Seu lugar elevado. Ele...

Então muitíssimas coisas acontecem no exato mesmo tempo. A bomba-d’água na alcova dispara, iniciando seu exausto ciclo de batidas. E Callahan bate com o traseiro na pesada e lisa madeira da porta. E o homem de preto atira a caixa para a frente, abrindo-a ao fazê-lo. E seu capuz cai para trás, revelando o rosto pálido, rabugento, de uma doninha. (Não é Sayre, mas na testa de Walter, igual a uma marca de casta hindu, brota o mesmo círculo vermelho, uma ferida aberta que não se coagula nem flui.) E Callahan vê o que tem dentro da caixa: vê o Treze Preto agachado em seu veludo vermelho com o olho escorregadio de um monstro que se criou fora da sombra de Deus. E Callahan começa a gritar à visão dele, pois sente seu poder infindável: pode atirá-lo a qualquer parte ou ao extremo beco sem saída de lugar nenhum. E a porta abre-se com um estalo. E mesmo em seu pânico — ou talvez abaixo de seu pânico — Callahan consegue pensar: Abrir a caixa abriu a porta. E ele tropeça para trás em algum outro lugar. Ouve gritos agudos. Um deles é a voz de Lupe, perguntando a Callahan por que o deixou morrer. Outro é a de Rowena Magruder, que lhe diz que esta é a outra vida dele, é, sim, e que tal lhe parece? E leva as mãos aos ouvidos para tapá-los mesmo quando uma bota velha tropeça na outra e ele começa a cair para trás, pensando que foi para o Inferno que o homem de preto o empurrou, o verdadeiro Inferno. E quando ergue as mãos, o homem de cara de doninha atira a caixa aberta com seu terrível globo de vidro dentro dela. E o globo se mexe. Gira como um olho de verdade numa cavidade invisível. E Callahan pensa: Está vivo, é o olho roubado de algum terrível monstro do além, e, ó meu Deus, ó amado Deus, isso está me olhando.

Mas pega a caixa. E a última coisa que deseja na vida, mas se acha impotente para deter-se. Feche-a, você tem de fechá-la, pensa, mas está caindo, tropeçou em si mesmo (ou o homem de manto deu-lhe uma rasteira) e está caindo, girando em torno de si ao cair. De algum lugar embaixo, todas as vozes do passado gritam com ele, reprovam-no (a mão quer saber por que ele deixou aquele imundo Barlow quebrar a cruz que ela lhe trouxera desde a Irlanda), e de forma incrível o homem de preto grita alegremente atrás dele: “Bon voyage, padre!”

Callahan bate num chão de pedra, juncado de ossos de animais pequenos. A tampa da caixa se fecha e ele sente um momento de sublime alívio... mas então ela torna a se abrir, muito devagar, revelando o olho.

— Não — sussurra Callahan. — Por favor, não.

Mas não consegue fechá-la — toda a sua força parece tê-lo abandonado... e a caixa não se fechou sozinha. Bem no fundo do olho negro um ponto vermelho forma-se, brilha... cresce. O horror de Callahan incha, enchendo-lhe a garganta, ameaçando fazer-lhe o coração parar de bater com seu frio. É o Rei, ele pensa. É o olho do Rei Rubro olhando abaixo de seu lugar na Torre Negra. E está me vendo.

— NÃO! — Callahan solta um grito estridente, ali deitado no piso de uma gruta no arroio norte de Calla Bryn Sturgis, lugar que acabará amando. — NÃO! NÃO! NÃO OLHE PRA MIM! Ó, PELO AMOR DE DEUS, NÃO OLHE PRA MIM!

Mas o Olho olha, sim, e Callahan não agüenta o insano olhar. E quando desfalece. Só após se passarem três dias tornará a abrir os olhos de novo, e quando o faz, estará com os mannis.

 

19

Callahan olhou-os, exausto. Meia-noite chegara e se fora, todos nós agradecemos, e agora faltavam 22 dias para que os Lobos chegassem em busca de seu butim de crianças. Bebeu os dois dedos finais de sidra no copo, fez uma careta como se fosse uísque de milho, largou-o na mesa.

— E todo o resto, como dizem, vocês sabem. Foram Henchick e Jemmin que me encontraram. Henchick fechou a caixa, e quando o fez, a porta se fechou. E agora o que era a Gruta das Vozes é a Gruta da Porta.

— E você, père? — perguntou Susannah. — Que foi que eles fizeram com você?

— Levaram-me para a cabana de Henchick... sua kra. Era onde eu estava quando abri os olhos. Durante minha inconsciência, as mulheres e as filhas dele me alimentaram com água e caldo de galinha, espremendo gotas de um trapo, uma por uma.

— Só por curiosidade, quantas mulheres ele tem? — perguntou Eddie.

— Três, mas só pode ter relações com uma de cada vez — respondeu Callahan, ausente. — Isso depende dos astros, ou de alguma coisa assim. Cuidaram bem de mim. Comecei a andar em volta da cidade; naquela época, eles me chamavam de o Velho Andarilho. Eu não conseguia bem ter o senso de onde me encontrava, mas de certa forma minhas perambulações anteriores me haviam preparado para o que acontecera. Me fortalecido mentalmente. Eu tinha dias, Deus sabe, em que pensava que tudo isso estava acontecendo no segundo ou dois que levaria para eu cair da janela que quebrara até lá embaixo na avenida Michigan... que a mente se prepara para a morte oferecendo alguma maravilhosa alucinação final, a verdadeira semelhança de uma vida inteira. E tinha dias em que decidia que eu havia finalmente me tornado o que todos mais temíamos no Lar e no Farol: um cérebro molhado. Achava que talvez tivesse sido esmurrado numa instituição bolorenta em algum lugar, e estava imaginando a coisa toda. Mas sobretudo aceitei simplesmente. E me alegrava ter terminado num bom lugar, real ou imaginário.

“Quando recuperei as forças, recomecei a ganhar a vida da maneira como fizera em meus anos de estrada. Embora não existisse nenhuma agência da Manpower nem da Brawny Man em Calla Bryn Sturgis, aqueles foram anos bons, e havia muito trabalho para um homem que quisesse trabalhar — foram anos de arroz graúdo, como dizem, apesar de que a linha pecuária e as demais colheitas também tenham se saído muito bem. Por fim, recomecei a pregar. Não houve nenhuma decisão consciente de fazer isso — embora não houvesse nada parecido com o tipo de pregação que eu fazia, Deus sabe —, quando o fiz, descobri que aquelas pessoas sabiam tudo sobre o Homem Jesus.” Ele riu. “Junto com O Além, Oriza e a Estrela do Búfalo... conhece a Estrela do Búfalo, Roland?”

— Ah, sim — respondeu o pistoleiro, lembrando-se de um pregador da Estrela do Búfalo que fora obrigado certa vez a matar.

— Mas eles prestavam atenção — continuou Callahan. — Muitos prestavam, em todo caso, e quando se ofereceram para construir uma igreja para mim, eu agradeci. E esta é a história do Velho. Como vêem, vocês estavam nela... dois de vocês, de qualquer modo. Jake, foi assim depois que você morreu?

Jake abaixou a cabeça. Oi, sentindo sua aflição, ganiu de agonia. Mas quando ele respondeu sua voz saiu firme o bastante.

— Após a primeira morte. Antes da segunda.

Callahan pareceu visivelmente chocado e persignou-se.

— Quer dizer que pode acontecer mais de uma vez? Santa Maria nos salve!

Rosalita os havia deixado. Agora voltava com um lampião forte. Os que haviam sido postos na mesa já quase se extinguiam, e o alpendre mergulhava num fraco e tremeluzente brilho, ao mesmo tempo misterioso e meio sinistro.

— As camas estão prontas — disse. — Esta noite o menino dorme com o père. Eddie e Susannah, onde vocês ficaram na noite de anteontem.

— E Roland? — perguntou Callahan, erguendo as sobrancelhas espessas.

— Arrumei um lugar confortável pra ele — respondeu ela, impassível. — Mostrei a ele mais cedo.

— Mostrou — disse Callahan. — Mostrou, ora. Muito bem, então, está resolvido. — Levantou-se. — Não me lembro da última vez que me senti tão cansado.

— Vamos ficar mais alguns minutos, se não se incomodar — disse Roland. — Só nós quatro.

— Como queiram — disse Callahan.

Susannah tomou-lhe a mão e impulsivamente a beijou.

— Obrigada por sua história, père.

— Foi bom tê-la finalmente contado, sai.

Roland perguntou:

— A caixa ficou na gruta até a igreja ser construída? Sua igreja?

— Sim. Não sei ao certo por quanto tempo. Talvez oito anos; talvez menos. É difícil dizer com certeza. Mas chegou uma época em que começou a chamar por mim. Por mais que eu odeie e tema aquele olho, parte de mim tem vontade de vê-lo mais uma vez.

Roland assentiu.

— Todas as peças do Arco-íris do Mago são cheias de sombrio magnetismo, mas sempre se disse que o Treze Preto é o pior. Agora acho que entendo o porquê disso. É o verdadeiro Olho vigilante do Rei Rubro.

— Seja o que for, eu o sentia me chamando de volta à gruta... e mais além. Sussurrando que eu devia retomar minhas perambulações e torná-las infindáveis. Eu sabia que podia abrir a porta abrindo a caixa. A porta me levaria a qualquer lugar que eu quisesse ir. E a qualquer quando! Só tinha de me concentrar. — Callahan pensou, e tornou a sentar-se. Curvou-se para a frente, olhando-os um de cada vez acima da escultura nodosa das mãos entrelaçadas. — Ouçam, eu lhes peço. Tivemos um presidente, chamava-se Kennedy. Foi assassinado uns 13 anos antes de minha época em ’Salem’s Lot... assassinado no Oeste...

— Sim — disse Susannah. —Jack Kennedy. Deus o ama. — Virou-se para Roland. — Ele era um pistoleiro.

Roland ergueu as sobrancelhas.

— É você quem diz?

— Sim. E digo a verdade.

— Em todo caso — continuou Callahan —, sempre se discutiu sobre se o homem que o matou agiu sozinho ou se fazia parte de uma conspiração maior. E às vezes eu acordava no meio da noite e pensava: “Por que não vai e vê? Por que não fica diante daquela porta com a caixa nos braços e pensa: ‘Dallas, 22 de novembro de 1963?’ Porque, se o fizer, aquela porta se abrirá e você pode ir lá, como o homem na história do Sr. Wells na máquina do tempo. E talvez pudesse mudar o que aconteceu naquele dia. E se já houve um momento mais divisor de águas na vida americana, foi aquele. Mude-o, mude tudo que veio após o Vietnã... os distúrbios raciais... tudo.”

— Mãe santíssima — disse Eddie, respeitoso. Se quando nada, a gente tinha de respeitar a ambição de uma idéia dessas. Foi exatamente ali com o capitão da perna de pau caçando a baleia branca. — Mas père... e se fizesse isso e mudasse tudo pra pior!

— Jack Kennedy não era um homem mau — disse Susannah calmamente. — Jack Kennedy era um homem bom. Um grande homem.

— Talvez. Mas sabe de uma coisa? Eu acho que é preciso ser um grande homem para cometer um grande erro. E, além disso, alguém que vinha ao encalço dele talvez tivesse sido um sujeito realmente mau. Algum Grande Caçador de Caixão por causa de Lee Harvey Oswald, ou quem quer que fosse.

— Mas o globo não permite esses pensamentos — disse Callahan. — Creio que atrai pessoas a cometerem atos de terrível maldade sussurrando-lhes que vão fazer o bem. Que vão fazer as coisas não apenas um pouco melhor, mas melhores em tudo.

— Sim — disse Roland. A voz era seca como o estalo de um graveto numa fogueira.

— Acredita que uma viagem assim possa ser realmente possível? — perguntou Callahan. — Ou era apenas a mentira persuasiva da coisa? Seu magnetismo?

— Acredito, sim — respondeu Roland. — E creio que quando deixarmos Calla, será por aquela porta.

— Quem dera que eu fosse com vocês! — disse Callahan. Falou com surpreendente veemência.

— Talvez vá — disse Roland. — Em todo caso, você acabou pondo a caixa, com o globo, dentro de sua igreja. Silenciando-a.

— Sim. E basicamente deu certo. Dorme quase todo o tempo.

— Mas você disse que ela o mandou a todash duas vezes.

Callahan assentiu com a cabeça. A veemência lampejara como um nó de pinheiro numa lareira e desaparecera com a mesma rapidez. Agora ele parecia apenas cansado. E muito velho, na verdade.

— A primeira vez foi para o México. Lembram-se do início da minha história? O escritor e o garoto que acreditaram?

Eles assentiram.

— Uma noite, o globo me alcançou quando eu dormia e me levou em todash para Los Zapatos, no México. Era um enterro. O enterro do escritor.

— Ben Mears — disse Eddie. — O cara de Air Dance.

— É.

— As pessoas viram você? — perguntou Jake. — Porque não viram a gente.

Callahan fez que não com a cabeça.

— Não. Mas me sentiram. Quando me encaminhei para eles, se afastaram. Como se eu tivesse me transformado numa corrente de ar fria. Em todo caso, o garoto estava lá... Mark Petrie. Só que não era mais um garoto. Já estava no início da maturidade. Disto e da forma como ele falou de Ben: “Houve uma época em que eu considerava 59 uma idade avançada”, foi como começou seu elogio fúnebre, imaginei que poderia ser meados da década de 1990. De qualquer modo, não permaneci muito tempo, mas o bastante para decidir que meu jovem de todo aquele tempo atrás acabou se saindo muito bem. Talvez eu tenha feito alguma coisa certa em ’Salem’s Lot, afinal. — Fez uma pausa e depois disse: — Em seu elogio, Mark se referiu a Ben como pai. Isto me tocou muito, muito profundamente.

— E a segunda vez que o globo o mandou todash? — perguntou Roland. — Foi quando o mandou ao Castelo do Rei?

— Havia pássaros. Grandes e gordos pássaros pretos. E, além disso, não vou falar. Não no meio da noite — disse Callahan numa voz seca que não tolerava argumento algum. Levantou-se de novo. — Outra hora, quem sabe?

Roland curvou-se em aceitação disso.

— Agradeço.

— Não vão se recolher, camaradas?

— Logo — disse Roland.

Eles lhe agradeceram pela história (até Oi acrescentou um único e sonolento latido e acenou-lhe boa-noite com a pata). Viram-no ir embora e durante vários segundos depois nada disseram.

 

20

Foi Jake quem quebrou o silêncio.

— Aquele cara Walter estava atrás de nós, Roland! Quando deixamos o posto de parada, ele estava atrás de nós! Père Callahan também!

— Sim — disse Roland. —Até lá atrás, Callahan estava na nossa história. Isto faz meu estômago esvoaçar. Como se eu tivesse perdido a gravidade.

Eddie cocou o canto do olho.

— Sempre que você mostra emoção igual a esta, Roland — disse —, eu fico todo quente e mole por dentro. — Depois, quando Roland apenas o olhou: — Ah, por favor, pare de rir. Você sabe que eu adoro quando entende a piada, mas está me deixando sem graça.

— Rogo seu perdão — disse Roland, com um leve sorriso. — Humor como o que tenho aparece de vez em quando.

— O meu fica acordado a noite toda — disse Eddie, animado. — Me mantém aceso, me conta piadas. Toc-toc-toc, quem bate, o frio, que frio, o frio que gela sua cueca, rá-rá-rá!

— Está fora de seu sistema? — perguntou Roland quando ele terminou.

— Por enquanto, sim. Mas não se preocupe, Roland, sempre volta a funcionar. Posso lhe perguntar uma coisa?

— É alguma idiotice?

— Acho que não. Espero que não.

— Então pergunte.

— Aqueles dois homens que salvaram o toucinho de Callahan na lavanderia no East Side... eram eles quem eu acho que eram?

— Quem você acha que eram?

Eddie olhou para Jake.

— E você, ó filho de Elmer? Tem alguma idéia?

— Claro — disse Jake. — Era Calvin Tower e o outro cara da livraria, amigo dele. O que me contou o enigma de Sansão e o do rio. — Estalou os dedos uma vez, duas, e deu um enorme sorriso. — Aaron Deepneau.

— E o anel que Callahan mencionou? — perguntou-lhe Eddie. — O com Ex Libris? Eu não vi nenhum deles usando um anel desses.

— Você estava procurando? — perguntou Jake.

— Na verdade, não. Mas...

— E lembre-se que o vimos em 1977 — disse Jake. — Aqueles caras salvaram a vida do père em 1981. Talvez alguém tenha dado o anel ao Sr. Tower durante os quatro anos intermediários. Como um presente. Ou talvez ele tenha comprado pra si mesmo.

— Você só está adivinhando — disse Eddie.

— É — concordou Jake. — Mas Tower tem uma livraria, portanto ter um anel com Ex Libris faz sentido. Você não acha que isso parece certo?

— Não. Eu diria que parece ao menos 99 por cento certo. Mas como eles poderiam conhecer Callahan... — A voz de Eddie extinguiu-se, ele pensou e abanou a cabeça decisivamente. — Naão, não vou nem entrar nisso esta noite. Quando a gente menos esperar vai estar discutindo o assassinato de Kennedy, e estou cansado.

— Estamos todos cansados — disse Roland —, vamos ter muito a fazer nos próximos dias. Mas a história do père me deixou num estado de espírito estranhamente perturbado. Não sei se responde a mais perguntas do que suscita, ou se o contrário.

Nenhum deles respondeu.

— Nós somos ka-tet, e agora nos reunimos an-tet — disse Roland. — Em conselho. Tarde como é, há mais alguma coisa que precisamos discutir antes de nos separarmos? Se houver, vocês têm de dizer. — Como não houve resposta, ele empurrou a cadeira para trás. — Muito bem, então eu desejo a vocês todos...

— Espere.

Era Susannah. Fazia tanto tempo que falara que eles quase a haviam esquecido. E ela falou em voz baixa não muito parecida com a sua normal. Certamente, não parecia a da mulher que dissera a Eben Took que, se ele a chamasse mais uma vez de bolinho de chocolate, lhe arrancaria a língua da cabeça e limparia o eu dele com ela.

— Talvez haja alguma coisa.

Aquela mesma voz baixinha.

— Mais alguma coisa.

E mais baixa ainda.

— Eu...

Ela olhou-os, um de cada vez, e quando chegou ao pistoleiro ele viu-lhe nos olhos pesar, reprovação e desgaste. Não viu raiva. Se ela estivesse com raiva, ele pensou depois, eu talvez não me sentisse tão envergonhado.

— Acho que talvez eu tenha um probleminha — disse ela. — Não sei como é possível... mas, rapazes, acho que posso estar meio grávida.

Após dizer isto, Susannah Dean/Odetta Holmes/Detta Walker/Mia filha de ninguém levou as mãos ao rosto e caiu em prantos.