A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 14 de 43

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

Capítulo 9

Roland retirou o revólver de dentro do coldre e o cinturão de cartuchos. Entregou-os a Susannah, que os pegou e prendeu as tiras de couro na cintura. O tecido da blusa franziu-se apertado quando ela o fez, e por um momento Eddie achou que seus seios pareciam maiores. Depois ele descartou a impressão como efeito da luz.

As tochas brilhavam alaranjadas. Roland ficou a luz delas, desarmado e com os quadris tão finos como um garoto. Por um momento, apenas cravou os olhos nos rostos calados, atentos, e Eddie sentiu a mão fria e pequena de Jake deslizar para dentro da sua. Não houve a menor necessidade de o garoto dizer o que estava pensando, porque o próprio Eddie também pensava a mesma coisa. Ele jamais vira um homem parecer tão solitário, tão distante do curso da vida humana, com sua camaradagem e cordialidade. Vê-lo ali, naquele local de fiesta (pois era uma fiesta, não importa o quão desesperado fosse o problema que se encontrava por baixo dela), só acentuava a verdade dele: era o último. Não existia mais nenhum outro. Se Eddie, Susannah, Jake e Oi eram de sua linhagem, não passavam de um rebento distante, longe do tronco. Reflexões posteriores, quase. Roland, contudo... Roland...

Xiu, pensou Eddie. Você não quer pensar nessas coisas. Esta noite, não.

Lentamente, Roland cruzou os braços sobre o peito, estreitos e apertados, para por a palma da mão direita no lado esquerdo da face e a da mão esquerda no lado direito. Isso não significou bulhufas para Eddie, mas a reação das cerca de setecentas Calla folken foi imediata: um estrépito jubiloso e aprovador muito além de simples aplausos. Eddie lembrou-se de um concerto dos Rolling Stones em que estivera. A multidão fizera aquele mesmo estardalhaço quando o baterista dos Stones, Charlie Watts, começar a bater no cincerro um ritmo sincopado que só podia significar “Mulher de Cabaré Brega”.

Roland ficou parado assim, braços cruzados, palmas das mãos na face, até eles se calarem.

— Somos todos bem acolhidos em Calla — disse ele. — Peço que me escutem.

— Nós agradecemos! — rugiram. E — Nós o escutamos muito bem! Roland assentiu e sorriu.

— Mas eu e meus amigos estivemos longe e ainda temos muito a fazer e ver. Agora, enquanto esperamos pelo bom momento, vocês se abrirão para nós se nos abrirmos para vocês?

Eddie sentiu um calafrio. E a mão de Jake apertar a sua. É a primeira das perguntas, pensou.

Antes que chegasse a concluir o pensamento, já haviam berrado sua resposta:

— Sim, e obrigado!

— Vocês nos vêem pelo que somos e aceitam o que fazemos?

Lá vai a segunda, pensou Eddie, e agora era ele quem apertava a mão Jake. Viu Telford e o tal Diego Adams trocarem um olhar de quem sabe das coisas, consternado. O olhar de homens percebendo de repente que tudo esta afundando diante deles e são impotentes para fazer qualquer coisa a respeito. Tarde demais, rapazes, pensou Eddie.

— Pistoleiros! — gritou alguém. — Pistoleiros justos e autênticos, nós agradecemos! Agradecemos em nome de Deus!

Bramidos de aprovação. Um estrondo de gritos e aplausos. Gritos de obrigado, bravo e até yer-bugger. Quando se calaram, Eddie esperou que Roland lhes fizesse a última pergunta, a mais importante: “Vocês pedem ajuda e socorro?”

Ele não a fez. Apenas disse:

— Nós vamos seguir nosso caminho para esta noite, e deitar nossas cabeças, pois estamos cansados. Mas eu lhes darei uma música final e um sapateadinho antes de sairmos, darei, sim, pois creio que vocês conhecem os dois.

Um jubiloso clamor de concordância recebeu isso. Todos conheciam, certo!

— Eu conheço e adoro — disse Roland de Gilead. — Conheço dos antepassados, e jamais esperei voltar a ouvir “A Canção do Arroz” de quaisquer lábios, menos que todos dos meus próprios. Estou mais velho agora, estou sim, e não tão desenferrujado como antes. Peço perdão para os passos que der errado...

— Pistoleiro! — gritou uma mulher. — Tão grande é a alegria que sentimos, ié!

— E não sinto eu a mesma coisa? — perguntou o pistoleiro, suavemente. — Não lhes dou alegria da minha alegria e água que carreguei a força de meu braço e do meu coração?

— Dá, sim, para comer da colheita verde — entoaram eles em uníssono, e Eddie sentiu as costas arderem e os olhos lacrimejarem.

— Ó meu Deus — suspirou Jake. — Ele sabe tanto...

— Dou-lhes a alegria do arroz — disse Roland.

Ficou por mais um instante no brilho alaranjado, como se reunisse forças, e então se pôs a dançar uma coisa que se enquadrava entre uma jiga e um número padronizado de sapateado. Lenta a princípio, muito lenta, calcanhares e dedos, calcanhares e dedos. De vez em quando as batidas dos saltos faziam aquele ruído de punho em tampa de caixão, mas agora ganhava ritmo. Apenas ritmo no início, e depois, quando os pés do pistoleiro começaram a ganhar velocidade, era mais que ritmo; tornou-se uma espécie de dança ao som de suingue. Era a única descrição que ocorria a Eddie, a única que parecia encaixar-se.

Susannah aproximou-se deles. Tinha os olhos imensos, o sorriso assombrado. Comprimiu as mãos entre os seios.

— Ó Eddie! — sussurrou. — Você imaginava que ele sabia fazer isso? Fazia a mínima idéia?

— Não — disse Eddie. — A menor idéia.

 

10

Mais rápido moviam-se os pés do pistoleiro em suas velhas e surradas botas. Depois, mais rápido ainda. O ritmo se tornava cada vez mais claro, e Jake de repente percebeu que conhecia aquela batida. Conhecia da primeira vez que ficara todash em Nova York. Antes de encontrar-se com Eddie, um jovem negro com fones de cabeça de um walkman passou por ele, batendo as sandálias um pouco ao ritmo da música e dizendo baixinho “Cha-da-ba, cha-da-ba-bu!”. E esse era o passo ritmado que Roland fazia com os pés no palanque da banda, cada Bu! rematado por um chute e um acentuado arremesso da perna para a frente e uma forte batida do calcanhar na madeira.

Em volta deles, as pessoas começaram a bater palmas. Não no ritmo das batidas, mas descompassadas. E a balançar. As mulheres que usavam saias jogavam-nas para a frente e rodopiavam. A expressão que Jake via em todos os rostos, dos mais velhos aos mais moços, era a mesma: de pura alegria. Não só isso, ele pensou, e lembrou-se de uma frase que sua professora de inglês usara sobre como alguns livros nos fazem sentir: O êxtase de perfeito reconhecimento.

O suor começou a brilhar no rosto de Roland. Ele baixou os braços cruzados e se pôs a bater palmas. Quando o fez, o Calla folken começou entoar uma palavra repetidas vezes no compasso: Vem!... Vem!... Vem!... Ocorreu a Jake que esta era a palavra que alguns garotos usavam para se referir a gozar, e de repente duvidou que fosse mera coincidência.

Claro que não é. Como o cara negro batendo os pés naquele mesmo compasso. É tudo o Feixe de Luz, e é tudo 19.

— Vem!... Vem!... Vem!

Eddie e Susannah haviam se juntado ao canto. Benny também. Jake abandonou o pensamento e fez igual.

11

No fim, Eddie não tinha uma idéia exata do que significariam as palavras de “A Balada do Arroz”. Não por causa do dialeto, no caso de Roland, não, mas porque eles as jorravam rápido demais para acompanhar. Uma vez, na TV, ele vira um leiloeiro de tabaco na Carolina do Sul. Era parecido com aquilo. Havia rimas fortes, rimas fracas, rimas alternadas, até rimas forçadas — palavras que não rimavam de forma alguma, mas eram inseridas a força por um momento no encontro dos limites da música. Não era uma música, de fato; era como um cântico, ou algum delirante hip-hop de esquina. Isto foi o mais perto a que Eddie pode chegar. E durante todo o tempo os pés de Roland martelaram nas tábuas seu ritmo de arrebatamento que extasiava as pessoas; e durante todo o tempo a multidão batia palmas e entoava: Vem, vem, vem, vem.

O que Eddie conseguiu apanhar dizia o seguinte:

Vem-vem-commala

O arroz chega ô pessoal

O arroz vem a cair

Eu vejo tudo brotar

Eles vem ô pessoal

A Or-i-za oferecemos

Que seja verde o arroz, ôôô

Vê-lo todos o vemos

Que seja verde o arroz, ôôô

Vem-vem-commala!

Vem-vem-commala!

O arroz chega ô pessoal

No fundo do fundo do vale

Mato-vem-commala

Sob o céu azul, ôôô

Relva verde e alta, ôôô

Moça e seu cara

Se deitam juntos

Escorregam, deslizam

Sob o céu, ôôô

Vem-vem-commala!

O arroz chega ô pessoal

No mínimo mais três versos seguiam-se aos dois últimos. A essa altura Eddie perdera o encadeamento das palavras, mas tinha quase certeza de que captara a idéia: um rapaz e uma moça, plantando tanto arroz quanto filhos na primavera do ano. O tempo do cântico, de uma rapidez suicida para começar, acelerava-se cada vez mais até as palavras não passarem de um vômito de jargão, e a multidão batia palmas tão depressa que as mãos eram uma mancha. E os saltos das botas de Roland haviam desaparecido inteiramente. Eddie teria dito que era impossível alguém dançar naquela velocidade, sobretudo após haver ingerido uma refeição pesada.

Mais devagar, Roland, ele pensou. Não parece provável que a gente possa ligar para 911 se você evaporar.

Então, a algum sinal que nem Eddie, Susannah ou Jake entenderam, Roland e a Calla folken pararam em plena velocidade, lançaram as mãos para o céu, projetaram o quadril para a frente, como numa cópula.

— COMMALA! — gritaram todos, e este foi o fim.

Roland oscilava, o suor escorrendo-lhe pela face e pela testa, e tombou do palco no meio da multidão. O coração de Eddie bateu em ziguezague no peito. Susannah gritou e começou a girar a cadeira de rodas para a frente. Jake a deteve antes que pudesse avançar, agarrando uma das alças.

— Acho que isso faz parte do show! — ele disse.

— Ié, eu também tenho quase certeza que faz — disse Benny Slightman.

A multidão dava vivas e aplaudia. Roland era transportado de um lado para outro e acima deles por amistosos braços erguidos. Seus próprios braços estenderam-se para as estrelas acima. O peito arfava como um fole. Eddie via numa espécie de descrença hilariante o pistoleiro ondular em direção a eles como na crista de uma onda.

— Roland canta, Roland dança, e para cúmulo de tudo mais — disse ele — Roland mergulha do palco como Joey Ramone.

— De que e que você esta falando, doçura? — perguntou Susannah.

Ele abanou a cabeça.

— Esqueça. Mas nada pode superar isso. Tem de ser o fim da festa.

Era.

 

12

Meia hora depois, quatro cavaleiros avançavam devagar pela rua Alta de Calla Bryn Sturgis. Um deles envolto num pesado salide. Plumas glaciais saíam-lhes das bocas e das de suas montarias a cada exalada. O céu estava cheio de salpicos frios de lascas de diamante, o Velho Astro e a Velha Mãe as mais brilhantes entre elas. Jake já seguira seu caminho com os Slightman para a Rocking B de Eisenhart. Callahan conduzia os outros três viajantes, cavalgando um pouco a frente deles. Mas, antes de conduzi-los a qualquer lugar, insistiu em envolver 'Roland na pesada manta.

— Você disse que não são nem 2 quilômetros até sua casa — começou Roland.

— Não importa sua tagarelice — disse Callahan. — As nuvens se dispersaram, a virada da noite ficou quase fria o bastante para nevar e você dançou uma commala como eu jamais vi em meus anos aqui.

— Quantos anos seriam isso? — perguntou Roland.

Callahan abanou a cabeça.

— Não sei. Sinceramente, pistoleiro, eu não sei. Sei muito bem quando cheguei aqui, isto foi no inverno de 1983, nove anos depois que deixei a cidade de Jerusalem’s Lot. Nove anos depois que ganhei isto. — Ergueu brevemente a mão cicatrizada.

— Parece uma queimadura — comentou Eddie.

Callahan assentiu com a cabeça, porém não disse mais nada sobre o assunto.

— De qualquer modo, o tempo aqui e diferente, como todos vocês devem saber muito bem.

— Segue à deriva — disse Susannah. — Como os pontos da bússola.

Roland, já envolto na manta, fora despedir-se de Jake com uma palavra... e outra coisa, também. Eddie ouviu o tinido de metal quando alguma coisa passou da mão do pistoleiro para a do aprendiz. Um dinheirinho, talvez.

Jake e Benny Slightman saíram cavalgando na escuridão lado a lado. Quando Jake se voltou e acenou-lhe um último adeus, Eddie retribuiu-o com uma surpreendente pontada. Meu Deus, você não é pai dele, pensou. Isto era verdade, mas não fez a pontada ir embora.

— Vai dar tudo certo, Roland? — Eddie não esperara nenhuma resposta além de sim, não quisera nada mais que um pouquinho de bálsamo para aquela pontada. Por isso, o longo silencio do pistoleiro o alarmou.

Por fim, Roland respondeu:

— Esperamos que sim. — E sobre o assunto de Jake Chambers mais nada disse.

 

13

Agora ali estava a igreja de Callahan, um prédio de ripas de madeira baixo e simples com uma cruz engastada acima da porta.

— Como você a chama, père. — perguntou Roland.

— Nossa Senhora da Serenidade.

Roland assentiu.

— Muito bom.

— Você sente? — perguntou Callahan. — Algum de vocês sente? — Não precisou dizer do que falava.

Roland, Eddie e Susannah ficaram calados por talvez um minuto inteiro. Roland fez que sim com a cabeça.

Callahan repetiu o movimento, satisfeito.

— Esta dormindo. — Fez uma pausa e depois acrescentou: — Agradeçam a Deus.

— Mas tem alguma coisa ali — disse Eddie. Indicou com a cabeça a igreja. — É como um... não sei, um peso, quase.

— Sim — disse Callahan. — Como um peso. É terrível. Mas esta noite esta dormindo. Graças a Deus. — Desenhou uma cruz no ar glacial.

Abaixo de uma trilha simples de terra (mas nivelada, e ladeada por sebes cuidadosamente tratadas) ficava outro prédio de ripas de madeira. A casa de Callahan, o que ele chamava de reitoria.

— Vai-nos contar sua história esta noite? — perguntou Roland.

Callahan deu uma olhada no rosto magro e exausto do pistoleiro e fez que não com a cabeça.

— Nem uma palavra dela, sai. Nem sequer se você estivesse descansado. A minha não é nenhuma história para a luz das estrelas. Amanhã, no desjejum, antes de você e seus amigos saírem em suas pequenas missões... estaria bem assim?

— Sim — disse Roland.

— E se aquilo acordar de noite? — perguntou Susannah, e inclinou a cabeça para a igreja. — Acordar e mandar a gente todash?

— A gente vai — disse Roland.

— Você tem uma idéia do que fazer com isso, não? — perguntou Eddie.

— Talvez — respondeu Roland. Tomaram o atalho até a casa de Callahan, incluindo-o entre eles tão naturalmente quanto respirar.

— Alguma coisa a ver com aquele velho sujeito manni com quem você estava falando? — perguntou Eddie.

— Talvez — repetiu Roland. Olhou para Callahan. — Diga-me, père, isso alguma vez já enviou você a todash? Conhece a palavra, não?

— Conheço — disse Callahan. — Duas vezes. Uma ao México. Uma cidadezinha chamada Los Zapatos. E uma... eu acho que... ao Casulo do Rei. Acho que tive muita sorte de conseguir voltar, dessa segunda vez.

— De que Rei esta falando? — perguntou Susannah. — Arthur Eld?

Callahan fez que não com a cabeça. A cicatriz em sua testa faiscou à luz das estrelas.

— É melhor não falar disso agora — disse ele. — Não à noite. — Olhou tristonho para Eddie. — Os Lobos estão chegando. Já é muito ruim. Agora chega um rapaz que me diz que o Red Sox perdeu de novo a Série Mundial para o Mets?

— Lamento que sim — disse Eddie, e sua descrição do jogo final, um jogo que fazia pouco sentido para Roland, embora se parecesse um pouco com Pontas chamadas Arcos por alguns, levou-os até a casa.

Callahan tinha uma governanta. Embora não se achasse à vista, deixara uma panela de chocolate quente na chapa de aquecimento do fogão.

Enquanto o bebiam, Susannah disse:

— Zalia Jaffords me disse uma coisa que talvez lhe interesse, Roland.

O pistoleiro ergueu as sobrancelhas.

— O avô do marido mora com eles. É tido como o homem mais velho de Calla Bryn Sturgis. Tian e o velho não têm boas relações há anos... Zalia não tem nem certeza do motivo de estarem putos um com o outro, de tanto tempo que faz... mas Zalia se da muito bem com ele. Ela disse que ele ficou bastante senil nos últimos dois anos, mas ainda tem seus dias de lucidez. E ele afirma que viu um desses Lobos. Morto. — Fez uma pausa.

— Afirma que ele mesmo o matou.

— Por Deus! — exclamou Callahan. — Não diga uma coisa destas!

— Digo, sim. Ou melhor, Zalia disse.

— Este — disse Roland — seria um relato digno de ser ouvido. Isso foi na última vez que os Lobos vieram?

— Não — respondeu Susannah. — Nem da vez anterior, quando até Overholser mal tinha largado as fraldas. Da vez anterior a essa.

— Se eles vêm a cada 23 anos — disse Eddie —, já faz quase setenta hoje.

Susannah assentiu.

— Mas ele já era adulto, mesmo então. Disse a Zalia que um moit deles surgiu na estrada do Oeste e esperou a chegada dos Lobos. Não sei quantos poderiam formar um moit...

— Cinco ou seis — disse Roland. Confirmava com a cabeça sobre o chocolate.

— De qualquer modo, o grand-père de Tian estava entre eles. E mataram um dos Lobos.

— Que era? — perguntou Eddie. — Com que se parecia sem a máscara?

— Ela não disse — respondeu Susannah. — Acho que ele não o descreveu para ela. Mas a gente devia...

Um ronco elevou-se, longo e profundo. Eddie e Susannah voltaram-se assustados. O pistoleiro adormecera. Tinha o queixo no esterno. Os braços cruzados, como se houvesse apagado para dormir ainda pensando na dança. E no arroz.

 

14

Só havia um quarto extra, portanto Roland dividiu o catre com Callahan. Eddie e Susannah deram-se assim ao luxo de uma espécie de lua-de-mel rústica: sua primeira noite juntos sozinhos, numa cama e sob um teto. Não estavam cansados demais para aproveitar isso. Depois, Susannah logo passou ao sono. Eddie ficou acordado um pouco. Hesitante, enviou a mente na direção da igrejinha bem cuidada de Callahan, tentando tocar a coisa que existia lá dentro. Provavelmente uma má idéia, mas ele não pôde resistir a pelo menos tentar. Não havia nada. Ou melhor, um nada defronte a alguma coisa.

Eu podia acordá-lo, Eddie pensou. Acho que realmente podia. Sim, e alguém com um dente infectado podia dar uma pancadinha nele com um martelo, mas por que você faria isso?

Bem, vamos acabar tendo mesmo que acordá-lo. Acho que vamos precisar dele.

Talvez, mas isso era para outro dia. Era hora de largar este.

Mas por algum tempo Eddie foi incapaz de fazê-lo. Imagens lampejavam em sua mente, como cacos de espelho quebrados na brilhante luz do sol. A terra de Calla, estendendo-se espraiada abaixo deles sob o céu nublado, o Devar-Tete Whye uma fita cinza, os canteiros verdes em sua margem; o arroz chega, ô pessoal. Jake e Benny Slightman entreolhando-se rindo sem que houvesse uma palavra trocada entre eles para explicá-lo. A passarela de relva verde entre a rua Alta e o Pavilhão. As tochas mudando de cor. Oi curvando-se e falando (Eld! Agadeço!) com perfeita clareza. Susannah cantando: “Eu conheci o sofrimento todos os meus dias.”

No entanto, o que ele se lembrava mais claramente era de Roland em pé, magro e desarmado, nas tábuas com os braços cruzados no peito e as mãos coladas na face; aqueles baços olhos azuis prestando atenção nas pessoas. Roland fazendo perguntas, duas das três. E depois o ruído de suas botas nas tabuas, lento a princípio, depois se acelerando. Cada vez mais rápido, até se tornarem uma mancha a luz das tochas. Batendo palmas. Suando. Sorrindo. Embora seus olhos não sorrissem, não aqueles olhos azuis de artilheiro; continuavam tão frios como sempre.

Mas como dançara! Grande Deus, como dançara a luz das tochas.

Vem-vem-commala, o arroz chega, ô pessoal, pensou Eddie.

A seu lado, Susannah gemeu em algum sonho.

Eddie virou-se para ela. Deslizou a mão sob o braço dela para colocá-la em concha no seu seio. Seu último pensamento foi para Jake. Melhor fariam se tomassem conta dele naquela fazenda. Se não o fizessem, iam ser um bando de vaqueiros dignos de dó.

Eddie dormiu. Não houve sonhos. E abaixo deles, enquanto a noite avançava e a lua se punha, aquele mundo de fronteira girava como um relógio agonizante.

CAPÍTULO 2

 

Torção Seca

 

1

Roland despertou de outro sonho horroroso com a colina de Jericó na hora antes do amanhecer. O chifre. Alguma coisa sobre o chifre de Arthur Eld. A seu lado na cama enorme, o Velho dormia com uma careta no rosto, como se vítima de seu próprio pesadelo. Vincava-lhe em ziguezague a testa larga, o que rompia os braços da cruz cicatrizada na pele.

Foi a dor que acordou Roland, não o sonho ruim com o chifre caído da mão de Cuthbert quando o velho amigo tombou. O pistoleiro se sentia preso num torno desde o quadril até os tornozelos. Visualizava a dor como uma série de anéis brilhantes e em chamas. Era o preço que tinha de pagar pelos atrozes esforços na noite anterior. Se fosse só isso, tudo estaria bem, mas ele sabia que tinha mais coisa ali do que apenas ter dançado a commala daquela forma um tanto entusiástica demais. Nem era o reumatismo, como vinha dizendo a si mesmo nas últimas semanas, o período de ajuste necessário de seu corpo à temperatura úmida daquele outono. Não ignorava como os tornozelos, sobretudo o direito, começaram a engrossar. Observara um engrossamento semelhante dos joelhos, e embora os quadris ainda parecessem em bom estado, quando punha as mãos neles sentia que o direito vinha mudando sob a pele. Não, não era igual ao reumatismo que afligira Cort tão dolorosamente em seu último ano de vida, mantendo-o dentro de casa ao pé da fogueira nos dias chuvosos. Aquilo era pior. Artrite, das ruins, do tipo seco. Não levaria muito tempo para atingir-lhes as mãos. Roland alimentaria de bom grado uma doença com a direita, se a satisfizesse; ensinara-a a fazer várias coisas bem desde que as lagostrosidades haviam levado os dois primeiros dedos, mas ela nunca mais ia ser como antes. Só que as enfermidades não funcionavam assim, funcionavam? Não se podia aplacá-las com sacrifícios. A artrite chegava quando chegava e ia embora quando queria.

Talvez eu tenha um ano, pensou, deitado na cama ao lado do religioso adormecido do mundo de Eddie, Susannah e Jake. Talvez até dois.

Não, dois não. Provavelmente nem sequer um. Como era que Eddie

dizia às vezes? Deixe de gozação. Eddie tinha um monte de ditados de seu mundo, mas aquele era particularmente bom. Particularmente apto.

Não que ele fosse desistir da Torre se o Velho Torcedor de Osso tirasse sua destreza para atirar, selar um cavalo, cortar uma tira de couro cru, até picar lenha para uma fogueira de acampamento, uma coisa simples assim; não, ele estava naquilo até o fim. Mas não gostava da idéia de cavalgar atrás dos outros, depender deles, talvez amarrado ao arreio com as rédeas, porque não conseguiria mais segurar a parte mais alta da sela. Nada além de uma âncora flutuante, daquelas que eles não teriam como levantar se e quando se exigisse navegação rápida.

Se chegar a isso, eu me mato.

Mas não o faria. Esta era a verdade. Deixe de gozação.

O que lhe trouxe Eddie mais uma vez à mente. Precisava falar com ele sobre Susannah, e já. Este foi o conhecimento com que despertou, e talvez valesse a dor. Não ia ser uma conversa agradável, mas tinha de ser feita. Era hora de Eddie saber sobre Mia. Ela ia achar mais difícil se esgueirar, agora que eles estavam numa cidade — numa casa —, mas teria de fazê-lo mesmo assim. Não podia discutir tanto com as necessidades do bebê e dos próprios desejos irresistíveis dela quanto Roland, com os anéis de dor que lhe circulavam pelo quadril direito, os joelhos e os tornozelos, mas que até o momento lhe haviam poupado as talentosas mãos. Se Eddie não fosse avisado, poderiam ver-se em terríveis apuros. Mais problemas eram coisa de que não precisavam agora; isso poderia afundá-los.

Ali deitado na cama, a dor latejando, Roland observava o céu clarear. Desanimou-o ver que a claridade não mais vicejava toda no leste; afastava-se um pouco mais para o sul agora.

O nascer do sol também estava à deriva.

 

2

A governanta era bonita, uns quarenta anos. Chamava-se Rosalita Munoz, e quando viu Roland encaminhar-se até a mesa, disse:

— Uma caneca de café, depois o senhor vem comigo.

Callahan empinou a cabeça para Roland quando ela foi até o fogão pegar o bule. Eddie e Susannah ainda não se haviam levantado. A cozinha era só deles.

— É muito grave o que tem na perna, senhor?

— É só o reumatismo — disse Roland. — Passa entre todos da minha família pelo lado do meu pai. Vai estar funcionando lá pelo meio-dia, com sol brilhante e ar seco.

— Eu conheço bem o reumatismo — disse Callahan. — Agradeça a Deus por não ser pior.

— É o que eu faço. — E a Rosalita, que trouxe pesadas canecas de café fumegante. — E lhe agradeço, também.

Ela largou as canecas, fez uma mesura e depois o olhou tímida e seriamente.

— Eu jamais vi a dança do arroz sapateada melhor, sai.

Roland deu um sorriso enviesado.

— Estou pagando por isso esta manhã.

— Vou pôr o senhor em forma — disse ela. — Tenho uma gordura de gato especial, feita por mim. Primeiro tira a dor e depois a manqueira. Pergunte ao père.

Roland olhou para Callahan, que confirmou com a cabeça.

— Depois vou deixá-lo em forma. Agradeço-sai.

Repetiu a mesura e saiu.

— Preciso de um mapa de Calla — disse Roland depois que ela saiu. — Não precisa ser grande arte, mas tem de ser correto e fiel quanto a distâncias. Pode desenhar um pra mim?

— De jeito nenhum — disse Callahan, senhor de si. — Eu desenho umas coisinhas, mas não saberia desenhar um mapa que o levasse até o rio, nem que me pusesse uma arma na cabeça. Só que este não é um talento eu tenho. Mas conheço dois que poderiam ajudá-lo nisso. — Ergueua voz — Rosalita! Rosie! Venha até aqui um instante, faça o favor!

 

3

Vinte minutos depois, Rosalita tomou Roland pela mão, o aperto firme e seco. Levou-o para a despensa e fechou a porta.

— Tire as calças, por favor — disse. — Não fique acanhado, pois duvido que tenha alguma coisa que eu não vi antes, a não ser que os homens sejam feitos de forma diferente em Gilead e no Mundo Interior.

— Não creio que sejam — disse Roland, e deixou as calças caírem.

O sol já se levantara, mas Eddie e Susannah continuavam deitados. Roland não tinha a menor pressa de acordá-los. Haveria muitos inícios de dias à frente — e noites adentradas, também, provavelmente —, mas naquela manhã deixe-os curtir a paz de um telhado acima de suas cabeças, o conforto de um colchão de penas sob seus corpos e a requintada intimidade permitida por uma porta entre seus segredos e o resto do mundo.

Rosalita, uma garrafa de líquido oleoso, claro, numa das mãos, deu um silvado com o carnudo lábio inferior. Examinou o joelho direito de Roland, tocou o quadril direito com a mão esquerda. Ele se retraiu um pouco do toque, embora fosse pura delicadeza.

Ela ergueu os olhos para ele. Eram castanhos tão escuros que quase chegavam a ser negros.

— Isso não é reumatismo. É artrite. Do tipo que se espalha rápido.

— É, de onde eu venho alguns a chamam de torção seca — disse ele. — Nem uma palavra disso ao père, nem aos meus amigos.

Os olhos escuros encararam-no, firmes.

— Não vai conseguir guardar este segredo por muito tempo.

— Estou ouvindo muito bem. Mas enquanto eu puder guardar o segredo, eu vou guardar o segredo. E você vai me ajudar.

— Sim. Não se preocupe. Vou esperar o momento propício.

— Eu lhe agradeço. Muito bem, isso vai me ajudar?

Ela olhou a garrafa e sorriu.

— Vai, sim. É hortelã e brotos do pântano. Mas o segredo é a bílis de gato que está aí dentro... só três gotas em cada garrafa, o senhor sabe. São gatos da montanha que chegam pelo deserto, vindos da grande escuridão.

Ela destampou a garrafa e despejou um pouco daquela coisa oleosa na palma da mão. O cheiro de hortelã penetrou de estalo no nariz de Roland, seguido por um outro, menos intenso, mas muito menos agradável. Sim, ele reconheceu que podia ser bílis de puma ou suçuarana, ou fosse lá como chamavam os gatos da montanha naquelas bandas.

Quando ela se curvou e esfregou-lhe as rótulas, o calor foi imediato e intenso, quase forte demais para suportar. Mas quando abrandou um pouco, causou-lhe um alívio maior do que ele teria ousado esperar.

Ao terminar de passar-lhe o ungüento, ela disse:

— Como está seu corpo agora, pistoleiro-sai?

Em vez de responder-lhe com a boca, ele a apertou contra o corpo magro, desnudo, e abraçou-a com força. Ela retribuiu o abraço com uma falta de vergonha ingênua e sussurrou-lhe no ouvido:

— Se é quem diz que é, precisa não deixar que levem os bebês. Não, nem um único sequer. Não importa o que digam os grandes vermes como Eisenhart e Telford.

— Faremos o melhor que pudermos — disse ele.

— Que bom. Obrigada. — Ela recuou, baixou os olhos. — Uma parte do senhor não tem artrite e tampouco reumatismo. Parece muito cheia de vida. Talvez uma senhora a visse de relance no luar esta noite, pistoleiro, e suspirasse por companhia.

— Talvez ela vá tê-la — disse Roland. — Você me daria uma garrafa deste negócio para levar em minhas viagens por Calla, ou é cara demais?

— Nãão, não é cara demais — disse ela. Em seu flerte, sorrira. Agora assumia mais uma vez um ar grave. — Mas acho que só vai ajudá-lo por algum tempo.

— Eu sei — disse Roland. — E não importa. Estendemos o tempo como podemos, mas no fim o mundo leva tudo de volta.

— E, leva sim — concordou ela.

 

4

Quando saiu da despensa, abotoando a fivela do cinturão, ele finalmente ouviu movimento no outro quarto. O murmúrio da voz de Eddie, seguido de um sonolento repique de risada feminina. Callahan estava junto ao fogão, servindo-se de café fresco. Roland foi até ele e falou rapidamente.

— Eu vi carurus-de-cacho na trilha à esquerda de sua entrada, entre a igreja e aqui.

— Sim, e os frutos estão maduros. Você tem olhos aguçados.

— Meus olhos não importam, você sabe. Vou sair para encher meu chapéu. Quero que Eddie se junte a mim enquanto sua mulher talvez estale um ou três ovos. Dá para cuidar disso?

— Acho que sim, mas...

— Ótimo — disse Roland, e saiu.

 

5

Quando Eddie chegou, Roland já enchera metade do chapéu com as bagas cor de laranja, e também já comera vários punhados. A dor nas pernas e no quadril haviam desaparecido com surpreendente rapidez. Colhendo, ele se perguntava quanto não haveria pagado Cort por uma única garrafa de gordura de gato de Rosalita Munoz.

— Cara, essas parecem com as frutas de cera que nossa mãe punha num paninho ornamental de mesa todo Dia de Ação de Graças — disse Eddie. — A gente pode mesmo comê-las?

Roland pegou uma fruta quase do tamanho da ponta do seu polegar e lançou-a na boca de Eddie.

— Tem gosto de cera, Eddie?

Os olhos de Eddie, cautelosos para começar, de repente se arregalaram. Ele engoliu, deu um enorme sorriso e estendeu a mão pedindo mais.

— Iguais a uvas-do-monte, só que mais doces. Será que Suze sabe fazer muffins? Mesmo que ela não saiba, aposto que a governanta de Callahan...

— Me escute, Eddie. Escute com muita atenção e controle suas emoções. Pelo seu pai.

Eddie estendia a mão para pegar um arbusto particularmente cheio de frutas. Interrompeu-se então e apenas o olhou, o rosto sem expressão. A luz do dia, Roland viu como ele parecia mais velho. Era realmente extraordinário como amadurecera.

— De que se trata?

Roland, que decidira guardar o segredo até que lhe parecesse mais complexo do que de fato era, surpreendeu-se com a rapidez e simplicidade que foi contado. E Eddie, ele percebeu, não ficou de todo surpreso.

— Há quanto tempo você sabe?

Roland escutou, à espera de acusação nesta pergunta, mas não ouviu nenhuma.

— Com certeza? Desde que a vi se esgueirar para a floresta. Eu a vi comendo... — O pistoleiro fez uma pausa. — ... o que ela comia. Ouvi-a falando com pessoas que não estavam lá. Desconfiei muito antes. Desde Lud.

— E não me contou.

— Não. — Agora viriam as recriminações, e uma generosa ajuda do sarcasmo de Eddie. Só que não vieram.

— Quer saber se estou puto, não? Se vou criar algum problema com isso?

— Vai?

— Não. Não estou zangado, Roland. Exasperado talvez, e com uma porra de medo por Suze, mas por que eu estaria danado com você? Não é você o dinh? — Foi a vez de Eddie fazer uma pausa. Quando tornou a falar, foi mais específico. Não era fácil para ele, mas pôs para fora. — Não é você o meu dinh?

— Sim — disse Roland.

Estendeu a mão e tocou o braço de Eddie. Ficou pasmo com o seu desejo, quase necessidade, de explicar. Resistiu. Se Eddie conseguia chamá-lo não apenas de dinh, mas de seu dinh, ele tinha de comportar-se como dinh. O que disse foi:

— Você não parece exatamente aturdido com a minha notícia.

— Ah, estou surpreso — disse Eddie. — Talvez não aturdido, mas... bem... — Pegou as bagas e jogou-as no chapéu de Roland. — Eu via algumas coisas, certo? Às vezes ela fica pálida demais. Às vezes se contrai e agarra seu corpo, mas se pergunto ela diz que são só gases. E seus seios estão maiores. Tenho certeza. Mas, Roland, ela continua menstruando! Há um mês, mais ou menos, eu a vi enterrando os trapos... e cheios de sangue. Encharcados. Como é que pode? Se ela engravidou quando puxamos Jake... enquanto mantinha o demônio do círculo ocupado... já faz quatro meses, no mínimo, na certa cinco. Mesmo levando em conta a forma como o tempo passa devagar por nós, tem de ser.

Roland assentiu.

— Eu sei que ela tem tido as menstruações. E isto é prova conclusiva de que o filho não é seu. A coisa que ela tem dentro de si desdenha seu sangue de mulher.

Roland pensou nela espremendo a rã na mão, estalando-a. Bebendo a bílis preta. Lambendo-a dos dedos como melado.

— Será que... — Eddie fez menção de comer uma das bagas, decidiu-se contra e jogou-a em vez disso no chapéu de Roland. O pistoleiro achou que passaria algum tempo até Eddie voltar a sentir de novo a excitação do verdadeiro apetite. — Roland, será que chegaria a ter a aparência de um bebê humano?

— Com quase toda a certeza, não.

— Do que, então?

E antes que as pudesse dizer, as palavras saíram.

— É melhor não falar no diabo.

Eddie estremeceu. O pouco de cor restante em seu rosto agora o deixava.

— Eddie? Você está bem?

— Não — disse Eddie. — Claro que não estou nada bem. Mas também não vou desmaiar como uma garota num concerto de Andy Gibb. Que é que vamos fazer?

— Por enquanto, nada. Já temos demasiadas outras coisas a fazer.

— Não temos mesmo — disse Eddie. — Aqui, os Lobos chegam em 24 dias, se é que calculei certo. Lá em Nova York, quem sabe que dia é hoje? Seis de junho? Dez? Mais perto de 15 de julho do que ontem, sem dúvida. Mas Roland... e se o que ela tem ali dentro não é humano, não podemos ter certeza de que sua gravidez vai durar nove meses. Ela pode pôr para fora em seis. Diabos, pode pôr amanhã.

Roland assentiu com a cabeça e esperou. Se Eddie sacara até aí, sem dúvida conseguiria sacar o que faltava até o fim do caminho.

E o fez.

— Estamos de mãos atadas, não?

— Sim. Podemos observá-la, mas não há muito mais que possamos fazer. Não podemos nem mantê-la quieta, na esperança de moderar suas atividades, porque é bem provável que adivinhasse por que fazíamos isso. E precisamos dela. Para atirar quando chegar a hora, mas antes vamos ter de treinar algumas dessas pessoas com quaisquer armas com que se sintam à vontade. Na certa vai acabar sendo com arcos. — Roland fez uma careta. No fim acertara o alvo no Campo do Norte com suficientes flechas para satisfazer Cort, mas jamais gostara de arco e flecha nem de besta ou clava. Estas eram as armas preferidas de Jamie DeCurry, não dele.

— Vamos ter realmente de nos valer delas para atacar, não?

— Ah, vamos.

E Eddie sorriu. Sorriu apesar de si mesmo. Ele era o que era. Roland viu isso e alegrou-se.

 

6

Ao refazerem o caminho de volta à casa-reitoria de Callahan, Eddie perguntou:

— Você abriu tudo pra mim, Roland, por que não abrir pra ela?

— Não sei bem se eu entendo o que quer dizer.

— Ah, acho que entende, sim — disse Eddie.

— Tudo bem, mas acho que você não vai gostar da resposta.

— Já ouvi todo tipo de respostas suas, e não saberia dizer se gostei muito mais de uma em cinco. — Eddie pensou. — Nãao, isto é generoso demais. Digamos uma em cinqüenta.

— Aquela que se chama de Mia... o que significa mãe na Língua Superior... sabe que está esperando um filho, embora eu duvide que saiba que espécie de filho.

Eddie pensou nisso em silêncio.

— Seja o que for, Mia pensa na coisa como seu bebê, e vai protegê-lo até o limite de sua força e vida. Se isto significar se apoderar do corpo de Susannah... assim como Detta Walker às vezes se apodera do de Odetta Holmes... ela o fará se puder.

— E na certa pode — disse Eddie, pessimista. Depois se virou de frente para Roland. — Portanto, o que eu acho que está me dizendo, corrija-me se entendi errado, é que não quer dizer a Suze que ela talvez esteja criando monstro na barriga porque isso poderia prejudicar sua eficácia.

Roland poderia ter reagido à severidade desse julgamento, mas preferiu não fazê-lo. Em essência, Eddie tinha razão.

Como sempre quando se enfurecia, o sotaque de malandro de rua de Eddie tornou-se mais pronunciado. Era quase como se falasse pelo nariz em vez de pela boca.

— E se alguma coisa mudar no próximo mês, ou por aí assim, se ela entrar em trabalho de parto e parir o Monstro da Lagoa Negra, por exemplo, vai ficar completamente despreparada. Não terá sequer uma pista.

Roland parou a uns 5 metros da casa-reitoria. Dentro da janela, viu Callahan conversando com dois jovens, um rapazola e uma mocinha. Mesmo dali, percebeu que eram gêmeos.

— Roland?

— Você diz a verdade, Eddie. Adianta isso? Se adiantar, espero que consiga. O tempo não é mais apenas um rosto na água, como você mesmo observou. Tornou-se uma mercadoria preciosa.

Mais uma vez esperou uma patente explosão de Eddie Dean, completa com frases tipo lamba meu cu ou engula merda e morra. Mais uma vez não veio nenhuma. Eddie o encarava, só isso. O olhar firme e meio pesaroso. Triste por Susannah, claro, mas também por eles dois. Os dois parados ali e conspirando contra um do tet.

— Eu vou junto com você — disse Eddie —, mas não porque é o dinh nem porque um daqueles dois tem chance de voltar sem cérebro do Trovão. — Apontou os gêmeos com quem o Velho conversava na sala. — Eu trocaria todo garoto nesta cidade pelo que Susannah carrega em si. Se fosse uma criança. Meu filho.

— Sei que o faria — disse Roland.

— É a rosa que me preocupa — disse Eddie. — Esta é a única coisa pela qual vale a pena arriscá-la. Mas, mesmo assim, você tem de me prometer que se as coisas saírem erradas, se ela entrar em trabalho de parto, ou se essa rapariga Mia começar a se apoderar, vamos tentar salvá-la.

— Eu sempre tentarei salvá-la — disse Roland, e então teve uma breve e terrível imagem, breve mas muito clara, de Jake pendendo sobre a queda embaixo das montanhas.

— Jura? — perguntou Eddie.

— Juro — respondeu Roland. Seus olhos se encontraram com os do homem mais moço.

Na mente, contudo, ele viu Jake caindo no abismo.

 

7

Os dois chegaram à porta da reitoria no momento em que Callahan conduzia o jovem casal para fora. Eles eram, pensou Roland, com muita probabilidade as crianças mais deslumbrantes que já vira. Tinham os cabelos negros como carvão, os do garoto na altura dos ombros, os da garota presos por uma fita e caindo à altura do bumbum. Os olhos eram de um perfeito azul-escuro, a tez branco-cremosa, os lábios um vermelho sensual, surpreendentes. Salpicos de apagadas sardas espalhavam-se pelas maçãs do rosto. Pelo que notou Roland, os salpicos também eram idênticos. Eles desviaram o olhar dele para Eddie e depois de volta a Susannah, encostada no vão da porta da cozinha com um pano de prato numa das mãos e uma caneca de café na outra. Partilhavam uma expressão de maravilhada curiosidade. Roland viu cautela, mas nenhum medo, em seus rostos.

— Roland, Eddie, eu gostaria que conhecessem os gêmeos Tavery, Frank e Francine. Rosalita foi buscá-los, os Tavery moram a menos de 1 quilômetro daqui, entendem? Vocês terão seu mapa pronto esta tarde, e duvido que terão visto um mais excelente em toda a vida. É apenas um dos talentos que eles têm.

Os gêmeos Tavery mostraram seus bons modos, Frank com uma vênia e Francine com uma reverência.

— Vocês nos fazem bem e nós agradecemos — disse-lhes Roland.

Um idêntico rubor infundiu a tez cremosa; os dois murmuraram seus obrigados e prepararam-se para ir embora. Antes que pudessem fazê-lo, Roland passou um braço em volta de cada par de ombros estreitos, mas bem-feitos, e acompanhou os gêmeos por um trecho da caminhada. Mais do que com a perfeita beleza infantil dos dois, ele estava encantado com a penetrante inteligência que viu em seus olhos azuis. Não tinha a menor dúvida de que fariam seu mapa; nem dúvida alguma de que Callahan mandara Rosalita buscá-los como uma espécie de aula prática, se é que alguém ainda precisa de alguma: sem interferência, uma daquelas belas crianças seria um idiota inarticulado dali a um mês.

— Sai? — perguntou Frank. Agora se desprendia um toque de preocupação de sua voz.

— Não me tema — disse Roland —, mas me escute bem.

 

8

Callahan e Eddie observaram Roland acompanhar os gêmeos Tavery devagar pelo atalho pavimentado de lajes até o caminho de terra contíguo da entrada para a casa. Os dois pensaram a mesma coisa: Roland parecia um avô benévolo.

Susannah juntou-se a eles, olhou, depois puxou a camisa de Eddie.

— Venha comigo um instante.

Ele a seguiu até a cozinha. Rosalita já se fora e os dois ficaram a sós. Susannah tinha os olhos castanhos enormes brilhando.

— De que se trata? — perguntou ele.

— Ponha-me no colo.

Ele o fez.

— Agora me beije rápido, enquanto tem a chance.

— É só isto que você quer?

— E não basta? É melhor bastar, senhor Dean.

Ele beijou-a, e com vontade, mas não pôde deixar de reparar como tinha os seios maiores quando se apertaram contra ele. Ao afastar o rosto do dela, viu-se à procura de traços da outra em seu rosto. Daquela que se chamava mãe na Língua Superior. Viu apenas Susannah, mas imaginou que dali em diante estaria condenado a ver. E não parou de evitar que os olhos baixassem para a barriga. Tentou desviá-los, mas era como se pesassem naquela direção. Perguntou-se em que medida aquilo que existia entre eles mudaria agora. Não foi uma especulação agradável.

— Este foi melhor? — perguntou.

— Muito. — Ela sorriu um pouco, e depois o sorriso se desfez. Algum problema?

Ele deu um sorriso e beijou-a mais uma vez.

— Refere-se a outro além de que todos provavelmente vamos morrer aqui? Necas. Nada mesmo.

Mentira-lhe ele antes? Não se lembrava, mas achava que não. E mesmo que houvesse mentido, jamais o fizera com tanta desfaçatez. Com tamanha maquinação.

Isso era ruim.

 

9

Dez minutos depois, rearmados com canecas de café fresco (e uma tigela com frutas de caruru-de-cacho), saíram para o pequeno quintal atrás da reitoria. O pistoleiro ergueu por um momento o rosto para o sol, saboreando seu peso e calor. Depois se voltou para Callahan.

— Nós três vamos ouvir sua história agora, père, se quiser nos contar. E depois talvez passear até sua igreja e ver o que tem lá.

— Eu quero que tire aquilo de lá — disse Callahan. — A coisa não profanou a igreja, como poderia quando Nossa Senhora jamais foi consagrada para começar? Mas isso a tem mudado para pior. Mesmo quando a igreja ainda estava sendo construída. Eu sentia o espírito de Deus dentro dela. Já não sinto mais. Aquela coisa o expulsou. Quero que você a tire de lá.

Roland abriu a boca para dizer alguma coisa esquiva, mas Susannah falou antes que ele pudesse.

— Roland? Você está bem?

Ele se voltou para ela.

— Ora, estou. Por que não estaria?

— Você não pára de esfregar o quadril.

Teria mesmo esfregado? Sim, ele viu, esfregara. A dor já retornava, se alastrando, apesar do sol quente, apesar da gordura de gato de Rosalita. A torção seca.

— Não é nada — respondeu ele. — Só um toque do reumatismo.

Ela olhou-o, duvidosa, depois pareceu aceitar. É uma desgraçada maneira de começar, pensou Roland, com no mínimo dois de nós guardando segredos. Não podemos continuar assim. Não por muito tempo.

Virou-se para Callahan.

— Conte-nos sua história. Como ganhou essas cicatrizes, como chegou aqui e como obteve o Treze Preto. Ouviremos cada palavra.

— Sim — murmurou Eddie.

— Cada palavra — ecoou Susannah.

Todos os três olhavam para Callahan, o Velho, o religioso que permitia que o chamassem de père, mas não de padre. Levou a mão direita torta à cicatriz na testa e alisou-a. Acabou dizendo:

— Foi a bebida. É no que acredito agora. Não Deus, não os demônios, não a predestinação, não a companhia de santos. Foi a bebida. — Fez uma pausa e deu-lhes um sorriso. Roland se lembrou de Nort o comedor de erva em Tull que fora trazido dos mortos pelo homem de preto. Nort sorrira assim. — Mas se Deus fez o mundo, então fez a bebida. E isto também é Sua vontade.

Ka, pensou Roland.

Callahan ficou ali sentado, calado, alisando a cicatriz em forma de crucifixo na testa e reunindo os pensamentos. E depois começou a contar sua história.

 

CAPÍTULO 3

 

A História do Padre (Nova York)

 

1

Foi a bebida, ele passou a acreditar quando finalmente a deixou e veio a claridade. Não Deus, não Satanás, nem alguma profunda batalha psicossexual entre a abençoada mãe e o abençoado pai. Apenas a bebida. E lá surpreendia que o uísque o pegasse pelas orelhas? Ele era irlandês, um padre, mais um ponto e a gente está fora.

Do seminário em Boston, fora para uma paróquia municipal em Lowell, Massachusetts. Seus paroquianos haviam-no adorado (não se referia a eles como seu rebanho, rebanhos eram o que a gente chamava de gaivotas a caminho do monte de lixo da cidade), mas após sete anos ali, Callahan começara a ficar pouco à vontade. Quando conversara com o bispo Dugan no escritório da diocese, ele usara todas as palavras-chave da época para expressar essa inquietação: anomia, mal-estar urbano, crescente falta de empatia, sensação de desligamento da vida espiritual. Tomara um trago no banheiro antes do encontro (seguido por duas balas de hortelã Wintergreen Life Savers, não era nenhum tolo), e fora particularmente eloqüente naquele dia. A eloqüência nem sempre se origina da crença, mas muitas vezes da garrafa. E ele não era nenhum mentiroso. Acreditava no que dizia naquele dia no gabinete de Dugan. Em cada palavra. Como acreditava em Freud, no futuro da missa falada em inglês, na nobreza da Guerra à Pobreza de Lyndon Johnson e na idiotice de sua guerra que se alastrava pelo Vietnã: afundando até a cintura no Imenso Lamaçal, e o grande idiota dizia para forçar a barra como queria a velha modinha popular. Ele acreditava em grande parte porque aquelas idéias (se é que eram idéias e não apenas conversa fiada de coquetéis) andavam tendo alta cotação na época no Grande Quadro intelectual. A Consciência Social subiu dois e um terço, Casa e Lar desceu dois e um quarto, mas ainda é a ação quente na Bolsa. Depois tudo ficou mais simples. Depois ele passou a entender que não andava bebendo demais por se sentir espiritualmente perturbado, mas se sentia espiritualmente perturbado porque andava bebendo demais. Dava vontade de protestar, dizer que não podia ser isso, ou não apenas isso. Mas era isso, só isso. A voz de Deus é baixa e pequena, a voz de um pardal num ciclone, dizia o profeta Isaías, e todos damos graças. É difícil ouvir claramente uma voz baixa quando se está coberto de merda até o tampo de tão embriagado. Callahan deixou os Estados Unidos para o mundo de Roland antes de a revolução do computador desovar o acrônimo GIGO — G(arbage) I(n), G(arbage) O(ut), lixo dentro, lixo fora —, mas com tempo suficiente para ouvir alguém numa reunião dos AA observar que se a gente põe um babaca num avião em São Francisco e o leva até a Costa Leste, o mesmo babaca desembarca em Boston. Em geral com quatro ou cinco drinques debaixo do cinto. Mas isto foi depois. Em 1964 ele acreditara no que acreditava, e muita gente ficara ansiosa por ajudá-lo a encontrar seu caminho. De Lowell ele fora para Spofford, Ohio, um subúrbio de Dayton. Ali, ficou cinco anos, e depois começou a sentir-se agoniado de novo. Em conseqüência, passou a desabafar mais uma vez a mesma conversa. Daquela que o escritório diocesano escutava. Daquela que faz a pessoa ir para o fim da fila. Anomia. Desligamento espiritual (desta vez de seus paroquianos suburbanos). Sim, eles gostavam dele (e ele gostava deles), mas alguma coisa continuava parecendo errada. E de fato havia uma coisa errada, sobretudo no tranqüilo bar da esquina (onde todo mundo também gostava dele) e no armário de bebidas alcoólicas na sala da reitoria. Acima de pequenas doses, o álcool é uma toxina, e Callahan vinha-se envenenando todas as noites. Era o veneno em seu sistema, não o estado do mundo nem o de sua própria alma, que o estava derrubando. Fora isso sempre tão óbvio assim? Depois (em outra reunião dos AA), ele ouvira um sujeito referir-se ao alcoolismo e à dependência como o elefante na sala: como era possível não vê-lo? Callahan não lhe dissera, ainda estava nos primeiros noventa dias de sobriedade àquela altura (“Tire o algodão dos ouvidos e enfie na boca”, aconselhavam os dos velhos tempos, e todos agradecemos), mas podia ter-lhe dito, na verdade, sim. Era possível não ver o elefante se fosse um elefante mágico, se tivesse o poder — como O Sombra — de toldar as mentes dos homens. De fazer a gente acreditar mesmo que nossos problemas eram espirituais e mentais, mas de modo algum etílicos. Meu Bom Jesus, só a perda do sono REM, relacionada à bebedeira, bastava para nos foder com plena razão, mas de algum modo a gente nunca pensava nisso quando estava ativo. A pinga transformava seu processo mental numa coisa semelhante àquele número circense em que todos os palhaços vêm saltando do carrinho. Quando as revíamos na sobriedade, as coisas que disséramos e fizéramos nos faziam estremecer (“Eu me sentava num bar resolvendo todos os problemas do mundo, depois não conseguia encontrar meu carro no estacionamento”, lembrou um colega na reunião, e todos agradecemos). As coisas em que a gente pensava eram piores ainda. Como se podia passar a manhã vomitando e à tarde acreditar que estava tendo uma crise espiritual? Mas ele, sim. E seus superiores também, possivelmente porque outros estivessem tendo seus próprios problemas com o elefante mágico. Callahan começou a achar que uma igrejinha, uma paróquia rural, o poria de volta em contato com Deus e consigo mesmo. E assim, na primavera de 1969, viu-se mais uma vez na Nova Inglaterra. No norte da Nova Inglaterra, desta vez. Abriu a loja — saco e bagagem, crucifixo e casula sacerdotal — na agradável cidade de Jerusalem’s Lot, no estado do Maine. Ali finalmente encontrou com o verdadeiro diabo. Olhou-o na cara.

E se encolheu.

 

2

— Um escritor se aproximou de mim — disse ele. — Um homem chamado Ben Mears.

— Eu acho que li um dos livros dele — disse Eddie. — Air Dance era o título. Sobre um cara que é enforcado pelo assassinato cometido pelo irmão?

Callahan assentiu.

— É esse mesmo. Também um professor chamado Matthew Burke, e os dois acreditavam que havia um vampiro em ação em ’Salem’s Lot, daqueles que fazem outros vampiros.

— Existe outro tipo? — perguntou Eddie, lembrando-se de centenas de filmes no Majestic e talvez milhares de revistas em quadrinhos compradas (e às vezes roubadas) na Dahlie’s.

— Existe, e vamos chegar lá, mas isso não tem importância agora. Acima de tudo, havia um garoto que acreditava. Ele tinha mais ou menos a mesma idade que o Jake de vocês. Os dois não me convenceram a princípio, mas eles estavam convencidos, e era difícil opor-se à sua crença. E também alguma coisa vinha acontecendo em Lot, isto com certeza. Pessoas desapareciam. Pairava uma atmosfera de terror na cidade. Impossível descrevê-la agora, sentado aqui ao sol, mas pairava. Eu tive de oficiar no enterro de outro garoto. Chamava-se Daniel Glick. Duvido que fosse a primeira vítima desse vampiro em Lot, e certamente não a última, mas foi a primeira que apareceu morta. No dia do enterro de Danny Glick, minha vida de algum modo mudou. E também não me refiro a mais um dia sem o meio litro de uísque. Alguma coisa mudou em minha cabeça. Eu sentia. Como um interruptor que foi ligado. E embora eu não tenha tomado uma bebida faz anos, esse interruptor continua ligado.

Susannah pensou: Foi quando você entrou em todash, padre Callahan.

Eddie pensou: Foi quando você entrou em 19, meu chapa. Ou talvez seja 99. Ou talvez os dois, de algum modo.

Roland apenas escutava. Não se via reflexão alguma em sua mente, era uma perfeita máquina receptora.

— O escritor, Mears, havia-se apaixonado por uma moça da cidade chamada Susan Norton. O vampiro a levou. Creio que fez isso em parte porque pôde, e em parte para punir Mears por ousar formar um grupo, um ka-tet, para tentar caçá-lo. Fomos ao lugar que o vampiro tinha comprado, um destroço velho chamado Casa Marsten. A coisa que morava lá usava o nome de Barlow.

Callahan se interrompeu a pensar, examinando-os, os três, e de volta àqueles velhos tempos. Por fim, recomeçou.

— Barlow tinha ido embora, mas deixado a mulher. E uma carta. Endereçada a todos nós, mas dirigida sobretudo a mim. No momento em que a vi aberta ali no celeiro da Casa Marsten, compreendi que era tudo verdade. O médico que estava conosco ouviu o peito dela e tirou sua pressão, mas só para ter certeza. Nenhum batimento cardíaco. Pressão sangüínea zero. Mas quando Ben lhe enfiou com força a estaca, ela ressuscitou. O sangue fluiu. Ela gritou repetidas vezes. As mãos... eu me lembrei das sombras das mãos dela na parede...

Eddie agarrou a mão de Susannah. Eles ouviam numa expectativa horrorizada, que não era nem crença nem descrença. Não se tratava de um trem pensante energizado por circuitos de computador avariados, nem de homens e mulheres que haviam revertido à selvajaria. Era alguma coisa aparentada ao demônio invisível que chegara ao lugar em que haviam puxado Jake. Ou ao porteiro da casa em Dutch Hill.

— O que ele lhe dizia no bilhete, esse tal de Barlow? — perguntou Roland.

— Que minha fé era fraca e que eu ia me desgraçar. Tinha razão, claro. Àquela altura, a única coisa em que eu realmente acreditava era numa garrafa de Bushmills. Só que eu não sabia. Mas ele, sim. A bebida também é um vampiro, e talvez seja preciso um pra conhecer outro.

“O garoto que estava conosco tinha se convencido de que esse príncipe dos vampiros pretendia matar os pais dele em seguida, ou transformá-los. Por vingança. O garoto tinha sido levado preso, vejam bem, mas escapou e matou o cúmplice semi-humano do vampiro, um cara chamado Straker.”

Roland balançou a cabeça, achando que esse garoto se parecia cada vez mais com Jake.

— Como se chamava ele?

— Mark Petrie. Fui com ele até sua casa, e com todo o considerável poder que minha igreja permite: a cruz, a estola, a água benta e, claro, a Bíblia. Mas já passara a pensar nessas coisas como símbolos, e isto foi meu tendão-de-aquiles. Barlow estava lá. Tinha pegado os pais de Petrie. E depois o garoto. Ergui minha cruz. Ela brilhou. E o feriu. Ele gritou. — Callahan sorriu, lembrando aquele grito de agonia. A imagem gelou o coração de Eddie. — Eu disse que se machucasse Mark, eu ia destruí-lo, e naquele momento poderia ter destruído mesmo. Ele também sabia disso. Sua resposta foi que antes que eu fizesse, ele cortaria a garganta da criança. E ele poderia tê-lo feito.

— Impasse mexicano — murmurou Eddie, lembrando um dia perto do mar Ocidental em que ele enfrentara Roland numa situação de impressionante semelhança. — Impasse mexicano, baby.

— Que aconteceu? — perguntou Susannah.

O sorriso de Callahan desapareceu. Esfregava a mão direita estro-piada como o pistoleiro esfregara o quadril, sem parecer dar-se conta disso. — O vampiro fez uma proposta. Pouparia o garoto se eu largasse a cruz que tinha na mão. Nós nos enfrentaríamos um ao outro desarmados. Sua fé contra a minha. Eu concordei. Deus me ajude, eu concordei. O garoto