A Torre Negra V: Lobos de Calla
Capítulo 1
PARTE TRÊS
OS LOBOS
CAPÍTULO 1
Segredos
1
Atrás do chalé de Rosalita Munoz ficava uma casinha alta pintada de azul-celeste. Projetando-se da parede à esquerda por onde o pistoleiro entrou, bem adentrada a manhã depois que père Callahan terminara sua história, havia um retângulo de ferro liso com um pequeno disco de aço instalado uns 20 centímetros abaixo. Dentro de seu vaso esquelético, um raminho duplo de lírio-do-brejo. Seu cheiro levemente cítrico e adstringente era o único aroma da casinha. Da parede acima da privada pendia numa moldura e sob vidro uma imagem do Homem Jesus com as mãos em prece logo abaixo do queixo, as madeixas encaracoladas ruivas derramando -se sobre os ombros e os olhos erguidos para Seu Pai no céu. Roland soubera que havia tribos de Vagos Mutantes que se referiam ao Pai de Jesus como o Grande Papai do Céu.
A imagem do Homem Jesus era em perfil, e Roland ficou satisfeito. Se o estivesse fitando de frente, o pistoleiro ficou em dúvida se conseguiria fazer seu serviço matinal sem fechar os olhos, por mais cheia que se encontrasse sua bexiga. Que lugar estranho para pôr uma imagem do Filho de Deus, pensou, e então percebeu que não era nada estranho. No curso comum das coisas, só Rosalita usava aquela casinha, e o Homem Jesus nada teria a ver além de suas costas empertigadas.
Roland Deschain desatou a rir, e ao fazê-lo, sua água se pôs a fluir.
2
Rosalita havia saído quando ele acordou, e não pouco tempo antes; seu lado da cama já esfriara. Agora, parado diante do retângulo alto, azul, da casinha e abotoando a braguilha, olhou para o sol e julgou a hora não muito antes do meio-dia. Julgar essas coisas sem relógio, vidro ou pêndulo tornara-se ardiloso nesses últimos dias, mas ainda assim era possível se você fosse cuidadoso nos cálculos e disposto a admitir algum erro no resultado. Cort, pensou, ficaria horrorizado se visse um de seus pupilos — um de seus pupilos diplomados — começar uma atividade daquelas dormindo quase até o meio-dia. E isso era o começo. Tudo mais fora ritual e preparação, mas não extremamente útil. Uma espécie de dança da canção do arroz. Agora esta parte terminara. Quanto a dormir até tarde...
— Ninguém nunca mereceu mais um acordar tarde — disse, e começou a descer a ladeira.
Ali uma cerca demarcava os fundos do canteiro de Callahan (ou talvez o père o visse como o canteiro de Deus). Além dela um córrego fluía, murmurando com tanta excitação quanto uma menina contando segredos à melhor amiga. As margens eram cobertas de lírios, portanto mais um mistério desvendado. Roland inspirou profundamente o perfume.
Viu-se pensando em ka, coisa que raras vezes fazia. (Eddie, que julgava que Roland mal pensava em outra coisa, teria ficado espantado.) A única verdadeira regra de ka era: Saia da frente e me deixe trabalhar. Por que, em nome de Deus, era tão difícil aprender uma coisa tão simples? Por que sempre essa coisa idiota de se intrometer? Cada um deles fizera isso; cada um deles soubera que Susannah Dean estava grávida. O próprio Roland soubera quase no mesmo momento da concepção, quando Jake atravessara da casa em Dutch Hill. A própria Susannah soubera, apesar dos trapos que enterrara ao lado da trilha. Por que, então, fora necessário tanto tempo para a conversa que haviam tido na noite anterior? Por que haviam feito tanto escarcéu disso? E quanto talvez tenham sofrido por causa disso?
Nada, esperava Roland. Mas era difícil saber, não?
Talvez fosse melhor deixar pra lá. Naquela manhã, isso parecia um bom conselho, pois ele se sentia muito bem. Fisicamente, pelo menos. Quase sem dor ou...
— Pensei que vocês fossem se recolher logo depois de mim, pistoleiro, mas Rosalita me disse que só foram se deitar quase ao amanhecer.
Roland virou-se da cerca e de seus pensamentos. Callahan estava vestido de calça preta, sapatos pretos e uma camisa preta com gola dobrada. A cruz estendia-se junto ao pescoço e os cabelos brancos rebeldes haviam sido domesticados em parte, provavelmente com alguma brilhantina. Ele prendeu o olhar do pistoleiro por um pouco e disse:
— Ontem eu dei a Sagrada Comunhão aos das pequenas propriedades que a recebem. E ouvi as confissões deles. Hoje é meu dia de ir às fazendas de gado e fazer o mesmo. Um bom número de caubóis abraça o que a maioria chama de Via Sacra. Rosalita me leva na carroça, por isso, quando chegar a hora do almoço e do jantar vocês precisam se virar sozinhos.
— Podemos fazer isso — disse Roland. — Mas você tem alguns minutos pra conversar comigo?
— Claro — disse Callahan. — Um homem que não pode ficar um pouco não deve se aproximar, pra começar. Um bom conselho, acho, e não apenas para padres.
— Ouviria minha confissão?
Callahan ergueu as sobrancelhas.
— Você então abraça o Homem Jesus?
Roland abanou a cabeça.
— Nem um pouco. Vai ouvir, assim mesmo, eu lhe peço. E guardar segredo?
Callahan deu de ombros.
— Quanto a guardar segredo, é fácil. É o que fazemos. Só não confunda discrição com absolvição. — Concedeu a Roland um sorriso frio. — Nós católicos guardamos isso pra nós mesmos, faça-me o favor.
A idéia de absolvição jamais passou pela mente de Roland, e ele achou quase cômico pensar que pudesse precisar dela (ou de que aquele homem pudesse dá-la). Enrolou um cigarro, lentamente, pensando em como começar e no quanto dizer. Callahan esperava, com respeitoso silêncio.
Por fim, Roland disse:
— Há uma profecia de que eu deveria escolher três, e que deveríamos nos tornar um ka-tet. Não importa quem a fez; não importa nada que veio antes. Não vou me preocupar com aquele velho nó, nunca mais, se depender de mim. Havia três portas. Atrás da segunda, estava a mulher que se tornou a mulher de Eddie, embora na época não se chamasse Susannah...
3
Assim, Roland contou a parte da história deles relacionada diretamente a Susannah e às mulheres que haviam existido antes dela. Concentrou-se em como haviam salvado Jake do porteiro e puxaram o garoto para o Mundo Médio, contando como Susannah (ou talvez naquele ponto fosse Detta) prendera o demônio do círculo enquanto faziam seu trabalho. Soubera dos riscos, disse Roland a Callahan, e passara a ter certeza — mesmo enquanto continuavam dirigindo o Mono Blaine — de que ela não sobrevivera ao risco de gravidez. Ele contou a Eddie, e Eddie não ficara assim tão surpreso. Depois Jake contou a ele. Ralhou com ele, na verdade. E Roland aceitara a descompostura, disse, pois achou que merecia. O que nenhum deles percebera inteiramente até a noite anterior no alpendre era que a própria Susannah sabia, e talvez há tanto tempo quanto Roland. Ela apenas combateu com mais força.
— Então, père, que acha?
— Você diz que o marido dela concordou em guardar o segredo — respondeu Callahan. — E até Jake... que vê claramente...
— Sim — disse Roland. — Ele vê. Ele viu. E quando me perguntou o que devíamos fazer, dei-lhe um mau conselho. Eu disse que melhor faríamos deixando ka agir sozinho, e o tempo todo o vinha guardando em minhas mãos, como um pássaro capturado.
— Tudo sempre parece mais claro quando olhamos para trás, não?
— É.
— Você disse a ela ontem à noite que tem a cria de um demônio crescendo em seu útero?
— Ela sabe que não é de Eddie.
— Então você não disse. E Mia? Falou-lhe de Mia, e do salão de banquete do castelo?
— Sim — respondeu Roland. — Acho que saber disso a deprimiu, mas não a surpreendeu. Havia a outra, Detta, desde o acidente em que ela perdeu as pernas. — Não fora acidente algum, mas Roland não entrara no assunto de Jack Mort com Callahan, não vendo razão para fazê-lo. — Detta Walker escondeu-se muito bem de Odetta Holmes. Eddie e Jake dizem que ela é esquizofrênica. — Pronunciou esta palavra exótica com grande cuidado.
— Mas você curou-a — disse Callahan. — Trouxe-a cara a cara com seus dois eus numa daquelas portas de entrada. Não curou?
Roland encolheu os ombros.
— Você pode cauterizar verrugas pincelando-as com metal de prata, père, mas numa pessoa dada a ter verrugas, elas sempre voltam.
Callahan surpreendeu-o lançando a cabeça para trás, voltada para o céu, e rugindo uma gargalhada. Tão longa e forte que acabou precisando tirar o lenço do bolso de trás para enxugar os olhos.
— Roland, você pode ser rápido com uma arma e mais valente que Satanás na noite de sábado, mas não é nenhum psiquiatra. Comparar esquizofrenia com verrugas... meu Deus!
— E no entanto Mia é real, père. Eu mesmo a vi. Não num sonho, como Jake viu, mas com meus próprios dois olhos.
— É exatamente o que quero dizer. Ela não é um aspecto da mulher que nasceu Odetta Susannah Holmes. Ela é ela.
— Isso faz alguma diferença?
— Acho que sim. Mas aí está uma coisa que não sei lhe dizer com certeza: não importa como as coisas fiquem em sua camaradagem, seu ka-tet... isso tem de ser mantido como um segredo mortal das pessoas de Calla Bryn Sturgis. Hoje, tudo está indo ao encontro de vocês. Mas se vazar a notícia de que a mulher pistoleira de pele parda poderia estar grávida de um filho do demônio, o pessoal lhes daria as costas e tomaria o caminho oposto, e depressa. Com Eben Took encabeçando o desfile. Sei que no fim você vai decidir seu curso de ação baseado em sua própria avaliação do que Calla precisa, mas vocês quatro não podem derrotar os Lobos sem ajuda, não importa o quanto seja bom com estes calibres que carrega. Há coisas demais a organizar.
Desnecessária qualquer resposta. Callahan tinha razão.
— O que teme mais? — perguntou o padre.
— O rompimento do tet — disse Roland, de estalo.
— Com isso quer dizer Mia assumir o controle do corpo que partilham e partir sozinha pra ter o filho?
— Se isso acontecesse na hora errada, seria péssimo, mas tudo poderia mesmo assim dar certo. Se Susannah voltasse. Mas o que ela carrega não passa de veneno com batimento cardíaco. — Roland olhou sem expressão o religioso em suas roupas pretas. — Tenho todo motivo pra acreditar que ia começar seu trabalho matando a mãe.
— O rompimento do tet — meditou Callahan. — Não a morte de sua amiga, mas o rompimento do tet. Eu me pergunto se seus amigos sabem que espécie de homem é você, Roland?
— Eles sabem — disse o pistoleiro, e sobre o assunto nada mais falou.
— Que quer você de mim?
— Primeiro, uma resposta a uma pergunta. Está claro pra mim que Rosalita sabe muita coisa de medicina rudimentar. Saberia o bastante para tirar o bebê antes da hora? E teria estômago para o que poderia encontrar?
Iam ter de estar lá, claro, ele, Eddie e Jake, também, por menos que Roland gostasse da idéia. Pois a coisa dentro dela com certeza se acelerara àquela altura, e mesmo que não houvesse chegado sua hora, seria perigosa. E sua hora está quase sem dúvida alguma próxima, ele pensou. Embora eu não saiba ao certo, sinto-a. Eu...
O pensamento interrompeu-se quando ele se deu conta da expressão de horror de Callahan: horror, repugnância e raiva acumulando-se.
— Rosalita jamais faria uma coisa destas. Grave bem o que eu digo. Ela morreria primeiro.
Roland ficou perplexo.
— Por quê?
— Porque ela é católica!
— Eu não entendo.
Callahan viu que o pistoleiro realmente não entendia, e o fio mais cortante de sua raiva se embotou. Mas Roland sentiu que grande parte permanecia, como o arco atrás da cabeça de uma flecha.
— É de aborto que você está falando!
— É?
— Roland... Roland. — Callahan abaixou a cabeça, e quando a ergueu a raiva parecia ter desaparecido. Em seu lugar, instalou-se uma pétrea obstinação que o pistoleiro jamais vira antes. Roland não poderia quebrá-la mais que levantar uma montanha com as mãos. — Minha igreja divide os pecados em dois: os veniais, que são suportáveis na visão de Deus, e os mortais, que não são. O aborto é um pecado mortal. É assassinato.
— Père, estamos falando de um demônio, não de um ser humano.
— Você assim o diz. Esse é assunto de Deus, não meu.
— E se a coisa a matar? Vai dizer o mesmo então, se esquivar e lavar as mãos?
Roland nunca ouvira falar da história de Pôncio Pilatos, e Callahan sabia disso. Mas mesmo assim estremeceu com a imagem. Sua resposta, porém, foi bastante firme.
— Foi você quem falou do rompimento de seu tet antes de falar da eliminação da vida dela! Que vergonha. Vergonha.
— Minha busca, a busca de meu ka-tet, é a Torre Negra, père. Não é salvar este mundo em que estamos, nem mesmo este universo, mas todos os universos. Toda a existência.
— Não dou a mínima — disse Callahan. — Não posso dar. Agora me escute, Roland filho de Steven, pois eu quero que me escute muito bem. Está escutando?
Roland suspirou.
— Agradeço.
— Rosa não fará o aborto na mulher. Há outras na cidade que poderiam, não tenho a menor dúvida, mesmo num lugar em que as crianças são levadas a cada vinte e alguns anos por monstros da terra das trevas, preservam-se indubitavelmente essas artes imundas, mas se procurar alguma delas, não vai precisar se preocupar com os Lobos. Eu levantarei cada mão em Calla Bryn Sturgis contra você muito antes de eles chegarem.
Roland olhava-o, incrédulo.
— Mesmo sabendo, como tenho certeza de que sabe, que talvez a gente consiga salvar uma centena de outras crianças? Crianças humanas, cuja primeira tarefa na Terra não seria comerem suas mães?
Callahan talvez não tenha ouvido. Tinha o rosto muito pálido.
— Vou querer mais, se me permite... e mesmo que não. Quero sua palavra, jure diante do rosto do seu pai que jamais sugerirá um aborto à própria mulher.
Um estranho pensamento ocorreu a Roland: agora que esse assunto viera à tona... saltara neles, como um boneco de molas de uma caixa-surpresa — Susannah deixara de ser Susannah para aquele homem. Passara a ser a mulher. E outro pensamento: quantos monstros ele mesmo, père Callahan, matara com a própria mão?
Como sempre acontecia em tempos de extrema tensão, o pai de Roland falava com ele. Esta situação não está exatamente além de salvação, mas se a levar muito adiante — se der voz a esses pensamentos —, ela vai ficar.
— Eu quero sua promessa, Roland.
— Ou incitará a cidade.
— É.
— E se a própria Susannah decidir abortar? As mulheres fazem isso, e ela está muito longe de ser idiota. Conhece os riscos.
— Mia, a verdadeira mãe do bebê, vai impedi-la.
— Não tenha tanta certeza. O senso de autopreservação de Susannah Dean é muito forte. E creio que sua dedicação à nossa busca é mais forte ainda.
Callahan hesitou. Desviou os olhos, os lábios comprimidos numa apertada linha branca. Depois tornou a olhá-lo.
— Você vai impedi-lo — disse ele. — Como seu dinh.
Roland pensou. Acabei de ser posto numa sinuca de bico.
— Está bem — disse. — Vou falar a ela de nossa conversa e certificar-me de que entende a posição em que você nos pôs. E direi a ela que não deve contar a Eddie.
— Por que não?
— Porque ele o mataria, père. Ele o mataria por sua interferência.
Roland ficou um tanto satisfeito com o arregalar dos olhos de Callahan. Tornou a lembrar-se que não devia suscitar em si sentimentos contra esse homem, que era simplesmente o que era. Já não lhes falara da armadilha que levava consigo aonde quer que fosse?
— Agora me escute como eu o escutei, pois você agora tem uma responsabilidade por todos nós. Especialmente pela “mulher”.
Callahan contraiu-se um pouco, como atingido. Mas assentiu.
— Diga do que gostaria.
— Primeiro, que a vigiasse quando puder. Como um falcão! Em particular, eu gostaria que a vigiasse esfregando os dedos aqui. — Roland cocou a sobrancelha esquerda. — Ou aqui. — Coçou a têmpora esquerda. — Ouça a forma dela falar. Preste atenção se começar a se acelerar. Observe-a a começar a mover-se em pequenos tiques. — Roland bateu a mão no alto da cabeça, arranhou-a, bateu-a mais uma vez para baixo. Lançou a cabeça para a direita, depois olhou Callahan. — Entende?
— Sim. São sinais de que Mia está chegando?
Roland assentiu com a cabeça.
— Não quero mais que ela fique sozinha quando for Mia. Se eu puder, não.
— Eu entendo — disse Callahan. — Mas, Roland, pra mim é difícil acreditar que um recém-nascido, não importa quem poderia ser o pai...
— Xiu — disse Roland. — Xiu, faça isso. — E quando Callahan se calou, obediente: — O que você pensa e acredita não significa nada pra mim. Você mesmo terá de procurar, e desejo-lhe sucesso. Mas se Mia ou o que ela tem ferir Rosalita, père, eu o responsabilizarei pelos ferimentos dela. Você pagará pela minha mão boa. Está entendendo?
— Sim, Roland. — Callahan parecia ao mesmo tempo atrapalhado e calmo. Uma combinação estranha.
— Muito bem. Agora eis a outra coisa que pode fazer por mim. Chega o dia dos Lobos, eu vou precisar de seis pessoas em que possa confiar totalmente. Gostaria de ter três de cada sexo.
— Importa-se que alguns sejam pais de crianças em risco?
— Não. Mas todas, não. E nenhuma das damas que sabem lançar o prato... Sarey, Zalia, Margaret Eisenhart, Rosalita. Elas vão ficar em outro lugar.
— Para que você precisa dessas seis?
Roland calou-se.
Callahan olhou-o por um momento mais longo e deu um suspiro.
— Reuben Caverra — disse. — Reuben jamais esqueceu a irmã, e como ele a amava. Diane Caverra, sua mulher... ou você não quer casais?
— Não, um casal seria ótimo. — Roland girou os dedos, gesticulando para que o padre continuasse.
— Cantab dos mannis, devo dizer: as crianças o seguem como se ele fosse o Flautista de Hamelin.
— Eu não entendo.
— Não precisa. Eles o seguem, esta é a parte importante. Bucky Javier e sua mulher... e o que diria de seu garoto, Jake? Já as crianças da cidade o seguem com os olhos, e desconfio que várias das meninas estão apaixonadas por ele.
— Não, eu preciso dele.
Ou não pode suportar tê-lo fora de sua visão?, perguntou-se Callahan, mas não disse. Pressionara Roland até onde era prudente, ao menos por um dia. Até mais, na verdade.
— Que tal Andy, então? As crianças também o adoram. E ele as protegeria até a morte.
— É? Dos Lobos?
Callahan pareceu perturbado. Na verdade era em gatos-da-montanha que vinha pensando. Neles, e na espécie de lobos que chegavam em quatro. Quanto aos que vinham do Trovão...
— Não — disse Roland. — Andy não.
— Por que não? Pois não é pra lutar com os Lobos que você quer esses seis, é?
— Andy não — repetiu Roland. Era apenas uma sensação, mas essas sensações eram sua versão do toque. — Há tempo de sobra pra pensar nisso, père... e nós também vamos pensar.
— Você vai sair pra visitar a cidade.
— É. Hoje e todo dia pelos próximos.
Callahan deu um sorriso.
— Seus amigos e eu chamaríamos de schmoozing. É uma palavra iídiche, saber dos “causos” e rumores.
— É? De que tribo eles são?
— De uma tribo malfadada, em todos os aspectos. Aqui, o pessoal chama schmoozing de commala. E a palavra deles pra quase tudo amaldiçoado. — Callahan achou meio divertido constatar o quanto queria recuperar a estima do pistoleiro. E também meio repugnado consigo mesmo. — De qualquer modo, desejo-lhe sucesso nisso.
Roland assentiu. Callahan começou a subir para a reitoria, onde Rosalita já havia posto os arreios nos cavalos e os atrelara à carroça, e agora esperava com impaciência a chegada de Callahan, para saírem a serviço de Deus. No meio da ladeira, Callahan voltou-se:
— Não peço desculpas pelas minhas crenças — disse ele —, mas se compliquei seu trabalho aqui nas terras de Calla, perdão.
— Seu Homem Jesus me parece meio filho-da-puta quando se trata de mulheres — disse Roland. — Ele já foi casado?
Os cantos da boca de Callahan repuxaram-se num tique nervoso.
— Não, Roland, mas Sua namorada era uma meretriz.
— Bem — disse o pistoleiro —, já é um começo.
4
Roland voltou a encostar-se na cerca. O dia chamava-o para começar, mas ele quis dar a Callahan uma dianteira. Não havia mais razão para isso do que houvera para rejeitar Andy sem pestanejar; só uma sensação.
Continuava ali, e enrolando outro cigarro, quando Eddie desceu a ladeira com a camisa adejando atrás e as botas numa das mãos.
— Salve, Eddie — disse Roland.
— Salve, patrão. Vi você conversando com Callahan. Dê-nos este dia, nossa Wilma e Fred.
Roland ergueu as sobrancelhas.
— Deixe pra lá — disse Eddie. — Roland, nessa excitação toda, eu nunca tive uma chance de lhe contar a história do grand-père. E é importante.
— Susannah já se levantou?
— Já. Tomando um banho. Jake comendo o que parece ser uma omelete de 12 ovos.
Roland assentiu.
— Já dei ração aos cavalos. Podemos selá-los enquanto você me conta a história do velho.
— Não pense que vai levar tanto tempo assim — disse Eddie, e não levou.
Chegou ao desfecho — a parte final que o velho lhe sussurrara no ouvido — no momento em que chegavam ao celeiro. Roland virou-se para ele, os cavalos esquecidos. Os olhos faiscando. As mãos que apertou nos ombros de Eddie — mesmo a direita mutilada — eram vigorosas.
— Repita!
Eddie não se ofendeu.
— Ele me disse que jamais tinha dito a ninguém além do filho, o que eu acredito. Tian e Zalia sabem que ele estava lá fora, ou diz que estava, mas não sabem o que ele viu quando arrancou a máscara da coisa. Acho que nem sabem que foi Molly Vermelha quem derrubou a coisa. E então ele sussurrou... — Mais uma vez, Eddie contou a Roland o que o avô de Tian afirmou ter visto.
O olhar feroz de triunfo de Roland brilhava tanto que era assustador.
— Cavalos cinzentos! — disse. — Todos aqueles cavalos do mesmo matiz! Entende agora, Eddie? Entende?
— Sim — disse Eddie, exibindo os dentes num sorriso aberto. Não era particularmente confortante aquele sorriso. — Como disse a corista ao empresário, já estivemos aqui antes.
5
Em inglês americano padrão, a palavra com o máximo de acepções talvez seja run. O dicionário integral da Random House oferece 178 opções, a começar com “mover as pernas, numa seqüência de impulsos, repousando o corpo ora sobre uma, ora sobre outra, e deslocando-se em geral mais rápido que andar” e terminando com “fundido ou liquidificado”. Nas Callas-Crescentes das terras da fronteira, entre o Mundo Médio e o Trovão, o primeiro prêmio pelo maior número de significados iria para commala. Se a palavra constasse da relação de verbetes do dicionário completo da Random House, a primeira definição (supondo-se que fossem atribuídas, como é comum, em ordem de mais amplo uso) seria “uma variedade de arroz cultivada na borda do mais extremo leste do Mundo Todo”. A segunda, contudo, seria “relação sexual”. A terceira, “orgasmo sexual”, como em: Você chegou à commala? (A esperada resposta sendo Sim, agradeço, commala grande-grande.) Molhar a commala é irrigar o arroz em tempo seco; também é masturbar-se. Commala é o começo de alguma lauta e festiva refeição, como um banquete familiar (não a comida em si, se faz o favor, mas o momento de começar a comer). Um homem que está perdendo o cabelo (como Garrett Strong naquela estação) é commala próxima. Pôr animais disponíveis para fins de reprodução é umedecer a commala. Animais castrados são commala seca, embora ninguém saiba dizer por quê. Uma virgem é commala verde, uma mulher menstruada é commala vermelha, um homem que não consegue mais fazer ferro diante da forja é — com perdão da má palavra — commala mole. Ficar em commala é ficar barriga-com-barriga, um termo de gíria que significa “partilhar segredos”. As conotações sexuais da palavra são claras, mas por que deveriam os arroios rochosos a norte da cidade serem conhecidos como poços commala? Aliás, por que um garfo às vezes é commala, mas nunca uma faca nem uma colher? Embora não haja 178 definições para a palavra, devem ser umas setenta. O dobro disso, se acrescentarmos as várias nuanças. Um dos sentidos — certamente viria em primeiro lugar — é o que o père Callahan definiu como schmoozing. A frase concreta seria algo como “vem Sturgis commala”, ou “vem trazer a commala”. O sentido literal seria ficar barriga-com-barriga com a comunidade como um todo.
Durante os cinco dias seguintes, Roland e seu ka-tet tentaram continuar esse processo, que os forasteiros haviam começado no Armazém Geral de Took. A iniciativa foi difícil a princípio (“Como tentar acender uma fogueira com lenha molhada”, disse Susannah, irritada, após a primeira noite), mas aos poucos as pessoas foram-se chegando. Ou pelo menos se interessando por eles. Toda noite, Roland e os Dean retornavam à reitoria do padre. Todo cair de tarde, Jake regressava à fazenda pecuária Rocking B. Andy passou a encontrá-lo no lugar onde a estrada da Rocking B se separava da do Leste e escoltava-o pelo resto do caminho, cada vez fazendo sua mesura e dizendo:
— Boa-tarde, soh, gostaria de ouvir o seu horóscopo? Esta época do ano é às vezes chamada de Colheita de Charyou! Você vai visitar um velho amigo! Uma jovem dama o acha muito simpático! — E assim por diante.
Jake perguntara mais de uma vez a Roland por que passava tanto tempo com Benny Slightman.
— Você está reclamando? — perguntou o pistoleiro. — Não gosta mais dele?
— Eu gosto muito dele, Roland, mas se há alguma coisa que eu deveria estar fazendo além de saltar no feno, ensinar Oi a dar cambalhotas ou ver quem consegue pular mais vezes de uma rocha lisa no rio, acho que precisa me dizer o que é.
— Não há nada mais — respondeu Roland. Então, como se pensasse melhor: — E dormir bem. Garotos em crescimento precisam de muito sono.
— Por que estou lá?
— Porque me parece certo que fique lá — disse Roland. — Tudo o que quero de você é que mantenha os olhos abertos e me diga se vê alguma coisa de que não gosta ou não entende.
— De qualquer modo, já não nos vê o bastante durante os dias? — perguntou-lhe Eddie.
Ficaram juntos durante os cinco dias seguintes, e foram longos dias. A novidade de cavalgar os cavalos de Overholser se esgotou num piscar de olhos. Assim como aumentaram as queixas de músculos doloridos e bundas esfoladas. Num desses trajetos, ao se aproximarem do lugar onde Andy estaria à espera, Roland perguntou sem rodeios a Susannah se ela pensara em aborto como um meio de resolver seu problema.
— Bem — ela disse, olhando-o curiosa do seu cavalo. — Não vou dizer que a idéia jamais me passou pela mente.
— Expulse-a. Nada de aborto.
— Algum motivo particular por que não?
— Ka — disse Roland.
— Caca — retrucou de estalo Eddie.
Era uma piada antiga, mas os três riram, e Roland ficou felicíssimo por rir com eles. E com isto o assunto morreu. Mal dava para Roland acreditar, mas ficou feliz. O fato de Susannah parecer tão pouco inclinada a discutir Mia e a chegada do bebê deixou-o na verdade grato. Ele imaginava que houvessem coisas — muitas poucas — que ela ficaria em melhores condições se não soubesse.
No entanto, nunca lhe faltara coragem. Roland tinha certeza de que as questões viriam cedo ou tarde à baila, mas após cinco dias percorrendo a cidade a angariar votos como um quarteto (quinteto, incluindo-se Oi, que sempre cavalgava com Jake), Roland passou a mandá-la para a pequena propriedade dos Jaffords a fim de pôr sua habilidade à prova com o prato.
Mais ou menos oito dias depois da longa confabulação deles no alpendre da reitoria — a que se estendeu até as quatro da manhã —, Susannah convidou-os à pequena propriedade dos Jaffords para verem seu progresso.
— A idéia foi de Zalia — disse. — Imagino que queira ver se eu passo na prova.
Roland sabia que bastava perguntar a Susannah se quisesse uma resposta àquela questão, mas ficou curioso. Quando chegaram, encontraram toda a família reunida na varanda dos fundos, e vários dos vizinhos de Tian, também: Jorge Estrada e a mulher, Diego Adams (de chaparreras, bombachas de couro sem a parte de trás, usadas sobre calça comum) e os Javier. Pareciam espectadores de um treino de dardos. Zalman e Tia, os gêmeos roont, afastados num dos lados, encaravam com olhos arregalados todos os presentes. Também Andy estava lá, com o bebê Aaron (dormindo) nos braços.
— Roland, você que queria manter tudo isso em segredo, e agora? — perguntou Eddie.
Embora Roland não perdesse a compostura, percebia agora que sua ameaça aos caubóis que haviam visto sai Eisenhart atirar o prato fora totalmente inútil. O pessoal do campo conversava, era só isso. Se nas terras da fronteira ou nos baronatos a fofoca sempre foi o esporte principal. E no mínimo, divertiu-se, aqueles mexeriqueiros iam espalhar a notícia de que Roland era um cabra da peste, commala forte, com quem não se devia brincar.
— Agora, é o que se vê — respondeu. — A gente de Calla sabe há muito tempo que as Irmãs de Oriza lançam o prato. Se souberem que Susannah também lança, e bem, talvez isso seja para o bem.
Jake disse:
— Só espero que ela não, você sabe, faça asneiras.
Ouviram-se respeitosas saudações a Roland, Eddie e Jake quando eles subiram ao alpendre. Andy disse ao garoto que uma mocinha estava morrendo de amores por ele. Jake enrubesceu e disse que preferia simplesmente não saber dessas coisas, se estivesse tudo bem para Andy.
— Como queira, soh.
Jake se viu examinando as palavras e números estampados na parte média de Andy como uma tatuagem de aço, a se perguntar mais uma vez se ele estava mesmo nesse mundo de robôs e caubóis ou se era algum tipo de sonho extraordinariamente vivido.
— Espero que este bebê acorde logo, espero, sim. E chore! Pois eu sei várias cantigas de ninar calmantes...
— Cale a boca, seu bandido de aço rachado! — disse o grand-père, zangado, e após pedir seu perdão (naquele tom de voz complacente, sem se lamentar nem um pouco), Andy se calou. Mensageiro, Multifuncional, pensou Jake. É uma de suas outras funções provocar gente, Andy, ou isso é só minha imaginação?
Susannah entrara na casa com Zalia. Quando saíram, ela trazia pendurada não apenas uma, mas duas bolsas de vime. Pendiam-lhe até os quadris num par de alças entrançadas. Outra tira, também, viu Eddie, contornava-lhe a cintura e mantinha as bolsas junto ao corpo.
— Isto é que é uma senhora amarração, agradeça — observou Die-go Adams.
— Foi Susannah quem inventou — disse Zalia, quando ela entrou na cadeira de rodas. — Chama-o de muleta de estivador.
Não era, pensou Eddie, não exatamente, mas chegava perto. Sentiu um sorriso de admiração brotar-lhe na boca e viu um semelhante na de Roland. E de Jake. Por Deus, até Oi parecia sorrir.
— Vai puxar água, isto é o que eu gostaria de saber — disse Bucky Javier.
Que uma questão dessas jamais deveria sequer ser suscitada, pensou Eddie, só enfatizava a diferença entre os pistoleiros e a gente de Calla. Eddie e seus parceiros sabiam desde a primeira olhada o que era a amarração e como funcionaria. Javier, contudo, era um fazendeiro de pequena propriedade, e como tal via o mundo de uma maneira muito diferente.
Vocês precisam de nós, pensou Eddie em relação ao pequeno grupo de homens em pé no alpendre — os fazendeiros em suas calças sujas de terra, Adams de chaparreras e as botas salpicadas de estrume. Cara, sempre precisaram.
Susannah deslocou-se até a frente da varanda e dobrou os cotos embaixo dela para parecer estar quase em pé na cadeira. Eddie sabia como lhe doía aquela postura, embora seu rosto não revelasse dor alguma. Roland, enquanto isso, olhava as bolsas que ela trazia. Havia quatro pratos em cada, coisas simples, sem nenhum desenho. Pratos de aprendiz.
Zalia encaminhou-se para o celeiro no outro lado. Embora Roland e Eddie houvessem notado a manta presa com tachas ali assim que chegaram, os demais a viram pela primeira vez quando Zalia a puxou para o chão. Desenhado nas tábuas do celeiro, via-se o contorno de um homem — ou um ser de aparência humana —, com uma careta imobilizada no rosto e a sugestão de uma capa esvoaçando atrás. Não era uma obra de qualidade produzida pelos gêmeos Tavery, nem de perto, mas os do alpendre reconheciam os Lobos quando viam um. As crianças mais velhas deixaram escapar um oh! em voz baixa. Os Estrada e os Javier aplaudiram, mas pareciam apreensivos mesmo ao fazer isso, como pessoas que temem talvez estarem aplaudindo o demônio. Andy cumprimentou a artista (“Quem quer que ela seja”, acrescentou maliciosamente) e grand-père mandou-o mais uma vez fechar a matraca. Depois gritou que os Lobos que ele vira eram um pouco maiores. Sua voz tremia de excitação.
— Bem, eu o desenhei do tamanho de um homem — disse Zalia (na verdade, desenhara do tamanho do marido). — Se a coisa real acabar sendo um alvo maior, tanto melhor. Escutem, eu lhes peço. — Isto saiu meio inseguro, quase como uma pergunta.
Roland assentiu.
— Nós agradecemos.
Zalia disparou-lhe um olhar grato, e se afastou do contorno na fachada do celeiro. Depois olhou para Susannah.
— Quando quiser, dama.
Por um momento, Susannah apenas ficou onde estava, a menos de 60 metros do celeiro. Cabisbaixa, tinha as mãos entre os seios, a direita cobrindo o esquerdo. Seus camaradas ka sabiam exatamente o que se passava em sua cabeça: Eu miro com o olho, atiro com a mão e mato com o coração. Os corações deles próprios se deslocaram para ela, talvez transportados pelo toque de amor de Eddie a encorajá-la, desejando-lhe sucesso, partilhando sua emoção. Roland fitava ferozmente. Será que mais uma mão leve com o prato viraria as coisas a favor deles? Talvez não. Mas ele era o que era, o mesmo se aplicava a ela, e desejou-lhe pontaria fiel com cada pedacinho final de sua vontade.
Susannah ergueu a cabeça. Olhou a forma desenhada com giz na parede do celeiro. Continuava com as mãos apoiadas no meio dos seios. Então soltou um grito estridente, como Margaret Eisenhart gritara no quintal da Rocking B, e Roland sentiu o batimento cardíaco acelerar-se. Naquele momento, teve uma clara e bela lembrança de David, seu falcão, abrindo as asas num céu azul de verão e caindo sobre a presa como uma pedra com olhos.
— Riza!
As mãos caíram e tornaram-se um borrão. Só Roland, Eddie e Jake conseguiram ver como elas se cruzaram na cintura, a direita retirando um prato da bolsa à esquerda, a esquerda pegando um da direita. Sai Eisenhart atirara do ombro, sacrificando tempo a fim de ganhar força e exatidão. Os braços de Susannah cruzaram-se abaixo da caixa torácica e pouco acima dos braços da cadeira de rodas, os pratos terminando seu arco engatilhado mais ou menos à altura das omoplatas dela. E voaram, entrecruzando-se em pleno ar um momento antes de arremessar no lado do celeiro.
Os braços de Susannah terminaram no mesmo instante estendidos abertos; por um momento ela parecia um maestro que acabara de apresentar o ato de destaque. Depois caíram e cruzaram-se, pegando mais dois pratos. Ela lançou-os, mergulhou mais uma vez e lançou o terceiro par. Os dois primeiros ainda tremulavam quando os últimos embicaram para a direção do celeiro, um alto e um baixo.
Por um momento houve total silêncio no quintal dos Jaffords. Nem sequer um pássaro piou. Os oito pratos dispararam numa perfeita linha reta da garganta da figura em giz ao que seria sua parte média superior. Todos seguiram com uma distância de uns 3 a 5 centímetros um do outro, descendo como botões numa camisa. E ela lançara todos os oito em não mais que três segundos.
— Vocês pretendem usar os pratos contra os Lobos? — perguntou Bucky Javier numa voz estranhamente trêmula. — É isso?
— Nada ainda foi decidido — disse Roland, impassível.
Com a voz mal audível que transmitia ao mesmo tempo choque e maravilha, Deelie Estrada disse:
— Mas se fosse um homem, ouça bem, teria virado costeletas.
Foi grand-père quem teve a palavra final, como talvez devessem os avós:
— Yer-bugger!
6
A caminho de volta para a rua Alta (Andy a distância na frente deles, levando a cadeira de rodas dobrada e tocando alguma coisa numa gaita de fole através de seu sistema de som), Susannah disse, pensativa:
— Talvez eu largue totalmente o revólver, Roland, e só me concentre no prato. Há uma satisfação elementar em dar aquele grito e depois lançar.
— Você me lembrou o meu falcão — admitiu Roland.
Os dentes de Susannah faiscaram num largo sorriso.
— Eu me sinto como um falcão. Riza! Ô-Riza! Só dizer a palavra já me deixa em clima de lançamento.
Para a mente de Jake, isso trouxe uma obscura lembrança de Gasher (“Seu velho amigo Gasher”, como o cavalheiro gostava de dizer), e ele sentiu calafrios.
— Você largaria mesmo o revólver? — perguntou Roland. Não sabia se estava divertido ou horrorizado.
— Você enrolaria seus próprios cigarros se tivesse como consegui-los feitos sob medida? — perguntou ela, e então, antes que ele pudesse responder: — Não, de jeito nenhum. Mas o prato é uma arma deliciosa. Quando eles chegarem, espero lançar duas dúzias. E superar meu limite.
— Haverá escassez de pratos? — perguntou Eddie.
— Não. Não há muitos refinados como o que sai Eisenhart lançou pra você, Roland... mas há centenas de pratos pra treinamento. Rosalita e Sarey Adams estão escolhendo os melhores, tirando algum que poderia voar torto. — Hesitou e baixou a voz. — Todas estiveram aqui, Roland, e embora Sarey seja valente como um leão e possa resistir a um furacão...
— Não acertou na mosca, hum? — perguntou Eddie, solidário.
— Não com muita precisão — concordou Susannah. — Ela é boa, mas não como as outras. Nem tem exatamente a mesma ferocidade.
— Eu talvez tenha outra coisa pra ela — disse Roland.
— Qual seria, doçura?
— Função de escolta, talvez. Vamos ver como elas atiram, depois de amanhã. Uma competiçãozinha sempre anima tudo. Às cinco da tarde, Susannah, eles sabem?
— Sim. A maioria da gente de Calla apareceria, se você deixasse.
Isso era desanimador... mas ele devia ter esperado. Passei tempo demais fora do mundo das pessoas, pensou. Se passei.
— Ninguém além de você, as damas e nós — disse Roland firmemente.
— Se o pessoal de Calla visse as mulheres lançarem bem, isso tiraria um monte de gente da cerca.
Roland fez que não com a cabeça. Não queria que soubessem até que ponto as mulheres lançavam bem, isso era muito próximo de toda a questão. Mas que a cidade soubesse que elas estavam lançando... talvez não fosse uma coisa ruim.
— Até onde elas são boas, Susannah? Me diga.
Ela pensou, depois sorriu.
— Pontaria de matador — disse. — Cada uma.
— Pode ensinar-lhes aquele lançamento de mãos cruzadas?
Susannah analisou a questão. A gente pode ensinar quase qualquer coisa, tendo mundo e tempo suficientes, mas elas não tinham nenhuma das duas coisas. Só faltavam 13 dias agora, e no dia em que as Irmãs de Oriza (incluindo o mais novo membro delas, Susannah de Nova York) se reunissem para a exibição no quintal do père Callahan, faltaria apenas uma semana e meia. O lançamento de mãos cruzadas viera-lhe naturalmente, como ocorrera tudo sobre atirar armas. Mas as outras...
— Rosalita aprenderá — acabou dizendo. — Margaret Eisenhart poderia aprender, mas talvez fique atarantada na hora errada. Zalia? Não. Melhor que atire um prato de cada vez, sempre com a mão direita. Embora seja um pouco mais lenta, garanto que cada prato lançado por ela beberá o sangue de alguém.
— Até que um pomo de ouro se aloje nela e a jogue pelos ares de seu colete — disse Eddie.
Susannah ignorou isso.
— Podemos machucá-los, Roland. Sabe que podemos.
Roland fez que sim com a cabeça. O que vira o encorajara vigorosamente, sobretudo à luz do que Eddie lhe contara. Susannah e Jake também sabiam agora do antigo segredo dp grand-père. E, falando de Jake...
— Está muito calado hoje — disse-lhe Roland. — Tá tudo bem com você?
— Tudo bem, obrigado — disse Jake.
Ele vinha observando como Andy embalara o bebê. Pensando em que se Tian e Zalia e todos os outros pimpolhos morressem, e só restasse Andy para criar Aaron, o bebê iria na certa morrer em seis meses. Morrer ou tornar-se a criança mais estranha do universo. Andy lhe trocaria as fraldas, o alimentaria com a comida adequada, lhe trocaria as roupas, poria para arrotar se isso fosse necessário, e haveria todo tipo de cantigas de ninar. Cada uma seria cantada à perfeição, embora não motivada pelo amor da mãe. Ou do pai. Andy era apenas Andy, o Robô Mensageiro, Multifuncional. O bebê Aaron melhor ficaria se criado por... bem, por lobos.
Esse pensamento levou-o de volta à noite em que ele e Benny haviam acampado fora de casa (não tornaram a fazê-lo desde então; a temperatura esfriara muito). A noite em que vira Andy e o pai de Benny conversando. Depois o pai de Benny saíra chapinhando para o outro lado do rio. Rumo a leste.
Rumo à direção do Trovão.
— Jake, tem certeza de que está legal? — perguntou Susannah.
— Xim-xim — disse Jake, sabendo que isto na certa a faria rir. Fez, e Jake riu junto, mas continuava pensando no pai de Benny.
Os óculos que o pai de Benny usava. Jake tinha quase certeza de que ele era o único na cidade que os tinha. Perguntara-lhe a respeito naquele dia em que os três deles cavalgavam num dos dois campos norte da Rocking B, à procura de animais extraviados. O pai de Benny contara-lhe uma história sobre a permuta de um belo potro de raça pelos óculos num dos barcos de comércio lacustre em que estivera, quando a irmã de Benny ainda era viva, que Oriza a abençoe. Fizera isso embora todos os caubóis — até o próprio Vaughn Eisenhart, não está vendo? — houvessem dito que aqueles óculos não funcionavam. Mas Ben Slightman os experimentara e eles haviam mudado tudo. De repente, pela primeira vez desde que tinha talvez sete anos, conseguira realmente ver o mundo.
Polira-os na camisa enquanto cavalgavam, erguera-os para o céu a fim de que duas manchas gêmeas de luz nadassem em sua face e pusera-os de novo.
— Se eu algum dia perdê-los ou quebrá-los, não sei o que vou fazer. Vivi muito bem sem este conforto durante vinte anos ou mais, porém uma pessoa se acostuma a uma coisa melhor num piscar de olhos.
Jake julgou-a uma boa história. Tinha certeza de que Susannah teria acreditado nela (supondo-se que a singularidade dos óculos de Slightman lhe houvesse ocorrido antes). Fazia uma idéia de que Roland também teria acreditado. Slightman contou-a da maneira correta: um homem que continuava apreciando sua sorte e não se importava em deixar o pessoal saber que acertara em cheio enquanto um grande número de outras pessoas, seu patrão entre elas, estava muito longe da verdade. Até Eddie talvez a houvesse engolido. O único problema com a história de Slightman é que não era verdadeira. Jake não sabia qual era o negócio de fato, seu toque não chegava àquela profundidade, mas sabia esse tanto, que o preocupava.
Provavelmente não é nada, você sabe. Provavelmente ele apenas os conseguiu de algum modo que não ia parecer certo. Pelo que você sabe, um dos mannis os trouxe de volta de algum outro mundo, e o pai de Benny roubou-os.
Era uma possibilidade; se pressionado, Jake teria proposto mais meia dúzia. Ele era um garoto criativo.
No entanto, quando somada ao que vira próximo ao rio, preocupava-o. Que tipo de negócio poderia ter o capataz de Eisenhart no outro lado do Whye? Jake não sabia. E no entanto, cada vez que pensava em trazer o assunto à baila com Roland, alguma coisa o mantinha calado.
E após fazê-lo passar por um difícil momento sobre guardar segredos!
É, é, é. Mas...
Mas o quê, viajantezinho?
Mas Benny, era isso. Benny era o problema. Ou talvez fosse o próprio Jake que era o problema. Nunca fora muito bom em fazer amigos, e agora tinha um muito bom. A idéia de deixar o pai de Benny em apuros fazia doer-lhe o estômago.