A Torre Negra V: Lobos de Calla
Canja de Galinha
PROVE NOSSA TORTA DE MAÇÃ HOLANDESA!
Tudo bem, uma pergunta foi respondida. Era o dia seguinte àquele em que Eddie estivera ali. Quanto ao próximo...
Callahan virou-se de costas para a rua Quarenta e Seis por enquanto e seguiu pela Segunda Avenida. Olhou uma vez para trás e viu a porta de entrada da gruta seguindo-o tão fielmente quanto o trapalhão seguia o garoto. Viu Roland ali sentado, pondo alguma coisa nos ouvidos para tapar o enlouquecedor repicar dos sinos.
Percorreu duas quadras exatas antes de parar, começando a arregalar os olhos de choque, a boca pendendo aberta. Haviam dito que esperasse aquilo, Roland e Eddie, mas no íntimo ele não acreditara. Achara que ia encontrar o Restaurante da Mente de Manhattan perfeitamente intato, naquele perfeito dia de verão, tão diferente do proscrito outono de Calla que deixara. Ah, talvez houvesse um aviso na vitrina dizendo FECHADO PARA FÉRIAS ATÉ AGOSTO — alguma coisa assim —, tinha de haver. Ah, sim.
Mas não havia. Pelo menos, nada disso. A fachada da loja era uma casca queimada cercada por fita amarela dizendo: INVESTIGAÇÃO POLICIAL. Quando avançou um pouco mais, sentiu cheiro de madeira carbonizada, papel queimado e, muito fraco, o cheiro de gasolina.
Um engraxate velho havia instalado uma cadeira e banco diante da sapataria Station Shoes & Boots, próxima. Agora dizia a Callahan:
— Lamentável, não? Graças a Deus que a loja estava vazia.
— É, graças. Quando isso aconteceu?
— No meio da noite, quando mais? Acha que aqueles bandidões em bando vão atirar seus coquetéis Molotov em plena luz do dia? Não são gênios, porém são mais espertos que isso.
O engraxate velho lançou a Callahan um olhar cínico. Ah, por favor, dizia. Espetou o polegar manchado de graxa na ruína ardendo.
— Tá vendo aquela fita amarela? Acha que se põe fita amarela com INVESTIGAÇÃO POLICIAL em volta de um lugar que se incendiou espontaneamente? De jeito nenhum, meu amigo. De jeito nenhum, José. Cal Tower estava encrencado com os bandidos. Até as sobrancelhas. Todo mundo no quarteirão sabia. — O engraxate mexeu as próprias sobrancelhas, bastas, brancas e emaranhadas. — Detesto pensar na perda dele. Tower tinha alguns livros muito valiosos nos fundos. Valiosíssimos.
Callahan agradeceu ao engraxate por sua perspicácia, depois se virou e voltou a descer a Segunda Avenida. Não parava de apalpar-se furtivamente, tentando convencer-se de que aquilo estava mesmo acontecendo. Continuava sorvendo profundos haustos do ar da cidade, com seu cheiro típico de hidrocarbonetos, saboreava cada ruído, desde o ronco dos ônibus (alguns com anúncios de As Panteras) ao martelar das britadeiras e ao incessante estardalhaço das buzinas. Ao aproximar-se da Torre da Power Records, parou um pouco, hipnotizado pela música que vazava dos alto-falantes acima das portas. Um antigo sucesso que não ouvia fazia anos, popular em seus dias de Lowell. Alguma coisa sobre seguir o Flautista de Hamelin.
— Crispian St. Peters — murmurou. — Este era o nome dele. Bom Deus! Homem Jesus, estou aqui mesmo. Estou realmente em Nova York!
Como para confirmá-lo, uma mulher parecendo atormentada disse:
— Tem gente que pode ficar parado por aí à toa o dia todo. Será que dá pra ir andando, ou pelo menos sair da frente?
Callahan pediu desculpas que duvidava fossem ouvidas (ou apreciadas se fossem), e seguiu em frente. Aquela sensação de estar num sonho — um sonho extraordinariamente vivido — persistiu até ele se aproximar da rua Quarenta e Seis. Então começou a ouvir a rosa, e tudo em sua vida mudou.
7
A princípio era pouco mais que um murmúrio, mas ao chegar mais perto achou que ouvia várias vozes, vozes angelicais, cantando. Elevando seus confiantes e alegres salmos a Deus. Ele jamais ouvira nada tão doce, e foi ao seu encontro. Chegou à cerca e encostou as mãos nela. Começou a chorar, não pôde evitar. Imaginou que as pessoas o olhavam, mas não ligou. De repente entendeu muito sobre Roland e seus amigos, e pela primeira vez se sentiu parte deles. Não admira que tentassem com tanto afinco sobreviver e continuar! Não admira, quando aquilo estava em jogo! Havia alguma coisa no outro lado da cerca com sua camada esfarrapada de cartazes... uma coisa total e completamente maravilhosa...
Um rapaz de longos cabelos amarrados atrás com um elástico e usando chapéu de caubói de aba virada para trás parou e deu-lhe um leve tapi-nha no ombro.
— É legal aqui, não é? — disse o caubói hippie. — Não sei exatamente por que, mas realmente é. Venho uma vez por dia. Quer saber alguma coisa?
Callahan virou-se para o rapaz, enxugando os olhos molhados.
— Sim, acho que sim.
O rapaz correu os dedos pela testa, depois pela face.
— Eu tinha a pior acne do mundo. Sério, não era nem cara de pizza, a minha era uma estrada esburacada. Então passei a vir aqui em fins de março ou início de abril e... ficou toda lisa. — Ele riu. — O dermatologista a que meu pai me mandou disse que foi o oxido de zinco, mas acho que é este lugar. Alguma coisa neste lugar. Está ouvindo alguma coisa?
Embora a voz de Callahan estivesse ressoando com vozes docemente cantantes — era como estar na catedral de Notre Dame, cercada por coros —, fez que não com a cabeça. Fazer isso não passou de um instinto.
— É — disse o hippie de chapéu de caubói —, eu também não. Mas às vezes acho que sim. — Ergueu a mão direita para Callahan, os dois primeiros dedos esticados num V. — Paz, irmão.
— Paz — disse Callahan, e retribuiu o sinal.
Quando o caubói hippie se foi, Callahan passou a mão pelas tábuas cheias de farpas e um cartaz anunciando Guerra dos Zumbis. O que queria acima de tudo era trepar para o outro lado e ver a rosa — possivelmente ajoelhar-se e adorá-la. Mas as calçadas estavam apinhadas de gente, e ele já atraía vários olhares curiosos, alguns sem dúvida de pessoas que, como o caubói hippie, sabiam um pouco do poder daquele lugar. Melhor serviria àquela grande força cantante atrás da cerca (será uma rosa?, poderia ser apenas ela?) protegendo-a. E isso significava proteger Calvin Tower de quem quer que houvesse incendiado sua loja.
Ainda correndo a mão pelas tábuas ásperas, virou na rua Quarenta e Seis. Ali no fim desse lado da calçada ficava a maior parte verde vítrea do Hotel Plaza da ONU. Calla, Callahan, ele pensou, e depois: Calla, Callahan, Calvin. E depois: Calla-vem-quatro, há uma rosa atrás da porta, Calhi-vem-Callahan, e mais um, Calvin!
Chegou ao fim da cerca. A princípio não viu nada, e seu coração afundou. Depois olhou para baixo: cinco números escritos em preto.
Callahan enfiou a mão no bolso à cata do toco de lápis que sempre guardava ali, depois arrancou o canto de um cartaz de uma peça off-Broadway, chamada Dungeon Plunger, A Revue. Nele escreveu os cinco números.
Não queria ir embora, mas sabia que era preciso; pensar assim tão perto da rosa era impossível.
Eu vou voltar, disse a ela, e para seu delicioso espanto um pensamento retornou, claro e verdadeiro: Sim, padre, a qualquer hora. Vem-commala.
Na esquina da Segunda com a Quarenta e Seis, olhou para trás. A porta da gruta continuava ali, a superfície inferior flutuando uns 6 centímetros acima da calçada. Um casal de meia-idade, turistas a julgar pelos guias nas mãos, vem andando da direção do hotel. Conversando um com o outro, chegam à porta e contornam-na. Não a vêem, mas a sentem, pensou Callahan. E se a calçada estivesse cheia e contorná-la tivesse sido impossível? Achou que, nesse caso, teriam atravessado direto pelo lugar onde ela pendia, a tremeluzir, talvez nada sentindo além de uma sensação momentânea de frio e tonteira. Talvez ouvindo, fracamente, o amargo som característico de sinos e captando uma lufada de alguma coisa como cebola queimada ou carne estorricada. E naquela noite talvez tivessem sonhos com lugares de longe mais estranhos que a Cidade da Diversão.
Ele podia recuar e cruzá-la, na certa devia; conseguira o que viera buscar. Mas uma caminhada rápida o levaria à Biblioteca Pública de Nova York. Ali, atrás dos leões de pedra, até um homem sem dinheiro no bolso poderia obter alguma informação. A localização de um certo código postal, por exemplo. E — diga a verdade e ao diabo com tudo — não queria ainda ir embora.
Acenou as mãos à frente até o pistoleiro notar o que ia fazer. Ignorando os olhares dos transeuntes, Callahan ergueu os dedos no ar uma, duas, três vezes, sem saber se o pistoleiro entenderia. Parece que Roland entendeu. Deu um exagerado assentimento com a cabeça e ergueu os polegares para ter certeza.
Callahan partiu, andando tão rápido que quase fazia jogging. Não ia fazer nada para se demorar, apesar do grande prazer proporcionado por uma Nova York mudada. Isso não podia ser agradável quando Roland estava à espera. E, segundo Eddie, talvez fosse perigoso também.
8
O pistoleiro não teve problema algum para entender a mensagem de Callahan. Trinta dedos, trinta minutos. O père queria mais meia hora no outro lado. Roland deduziu que ele encontrara um meio de transformar o número escrito na cerca num verdadeiro lugar. Se conseguisse fazer isso, seria tudo para o bem. Informação era poder. E às vezes, quando o tempo urgia, era rapidez.
As balas nos ouvidos bloqueavam as vozes completamente. Os sinos chegavam lá dentro, mas até mesmo eles estavam amortecidos. Que bom, porque aquele barulho era pior que a tagarelice das almas penadas lá embaixo. Dois dias ouvindo aquele barulho e ele reconheceria estar pronto para o asilo de loucos, mas durante trinta minutos ficaria bem. Se piorasse, poderia atirar alguma coisa pela porta, atrair a atenção do padre, e fazê-lo voltar antes.
Por algum tempo, Roland viu a rua descortinar-se diante de Callahan. As portas na praia haviam sido como olhar pelos olhos de seus três: Eddie, Odetta, Jack Mort. Aquela era um pouco diferente. Via sempre as costas de Callahan nela, ou seu rosto se ele se virava para olhar, como muitas vezes fazia.
A fim de passar o tempo, Roland levantou-se para dar uma olhada nos livros que tanto haviam significado para Calvin Tower, a ponto de ele tornar a segurança deles uma condição para sua cooperação. O primeiro que Roland retirou tinha a silhueta da cabeça de um homem. O homem fumava um cachimbo e usava um chapéu de caça. Cort tivera um igual, e na infância Roland o julgara muito mais elegante que o chapéu velho da montaria diária do pai com suas manchas de suor e cordão desfiado. As palavras no livro eram do mundo de Nova York. Roland tinha certeza de que as teria lido sem dificuldade se estivesse naquele lado, mas não estava. E assim sendo, conseguiu ler parte, e o resultado foi quase tão enlouquedor quanto os sinos.
— Sir-lock Hones — leu em voz alta. — Não, Holmes. Como o sobrenome do pai de Odetta. Quatro... movelas. Movelas? — Não, esta era um . — Quatro novelas de Sirlock Holmes. — Abriu o livro, passando a respeitosa mão sobre a folha de rosto e depois a cheirando: o aroma levemente doce do papel bom e antigo. Decifrou o nome de uma das quatro novelas... O Signo dos Quatro. Além das palavras Cão de Caça e Estudo, os títulos das outras lhe eram ininteligíveis. — Um sinal é uma garota — disse ele. Pegou-se contando o número de letras do título, e teve de rir de si mesmo. Além disso, eram 17. Pôs de novo o livro no lugar e pegou outro, este com o desenho de um soldado na capa. Entendeu uma palavra do título: Morto. Olhou outro. Uma mulher e um homem se beijando. Sim, sempre havia homens e mulheres se beijando nas histórias; as pessoas gostavam disso. Devolveu-o ao lugar e ergueu os olhos para verificar o progresso de Callahan. Abriu-os ligeiramente ao ver o père entrando numa sala enorme cheia de livros e do que Eddie chamava de visões de Magda... embora Roland não soubesse o que Magda vira, nem por que haveria tantos escritos sobre isso.
Puxou outro livro e sorriu para a fotografia na capa. Uma igreja, com o sol avermelhando-se atrás. A igreja parecia um pouco com Nossa Senhora da Serenidade. Abriu-o e folheou-o. Um perfeito encadeamento de palavras, mas ele conseguiu entender apenas uma em cada três, se muito. Sem figuras. Ia repô-lo no lugar quando uma coisa atraiu seu olhar. Saltou aos olhos. Roland parou de respirar por um instante.
Recuou, não mais ouvindo os sinos todash, nem mais se importando com a enorme sala de livros onde Callahan entrara. Começou a ler o livro da igreja na capa. Ou tentar. As palavras nadavam ensandecidas diante de seus olhos, e ele não tinha certeza. Não muita. Mas, deuses! Se via o mesmo que julgava estar vendo...
A intuição dizia-lhe que era uma chave. Mas para qual porta?
Não sabia, não conseguiu ler palavras suficientes para saber. Mas o livro em suas mãos parecia quase zumbir. Roland imaginou que talvez aquele livro fosse como a rosa...
.... mas existiam rosas pretas, também.
9
— Roland, achei! É uma cidadezinha no centro do Maine chamada East Stoneham, cerca de 65 quilômetros a norte de Portland e... — Interrompeu-se, dando uma boa olhada no pistoleiro. — Que foi que houve?
— O som de carrilhão — apressou-se a dizer Roland. — Mesmo com os ouvidos tapados, penetra.
A porta foi fechada e o carrilhão parou de ressoar, mas as vozes continuavam. O pai de Callahan perguntava se Donnie achava que aquelas revistas que encontrara debaixo da cama do filho eram coisas que um menino cristão gostaria de ter, e se a mãe as houvesse encontrado? E quando Roland sugeriu que saíssem da gruta, Callahan ficou mais que disposto a ir embora. Lembrava aquela conversa com o pai muito claramente. Haviam terminado rezando juntos ao pé de sua cama, e as três Playboys foram jogadas no incinerador dos fundos.
Roland tornou a guardar a caixa esculpida na sacola cor-de-rosa e mais uma vez a acomodou atrás da estante de livros valiosos de Tower. Já reacomodara o livro com a igreja, virando-o com o título para baixo, a fim de reencontrá-lo mais rapidamente.
Saíram juntos e ficaram lado a lado, dando profundas inaladas do ar fresco.
— Tem certeza de que eram apenas os sinos? — perguntou Callahan. — Cara, você parecia que tinha visto um fantasma.
— Os sinos todash são piores que fantasmas — disse Roland.
Podia ou não ser verdade, mas pareceu satisfazer Callahan. Ao iniciarem a descida do caminho, Roland lembrou a promessa que fizera aos outros, e, mais importante, a si mesmo: não mais segredos no tet. Com que rapidez se vira pronto a quebrar aquela promessa! Mas achou que tinha o direito de fazê-lo. Ele soube pelo menos alguns nomes daquele livro. Os outros também iriam sabê-los. Mais tarde iam precisar saber, se o livro era tão importante quanto julgara que pudesse ser. Mas agora só ia desviá-los do negócio dos Lobos que se aproximava. Se conseguissem vencer aquela batalha, então quem sabe...
— Roland, tem certeza de que está bem?
— Sim. — Bateu de leve no ombro de Callahan. Os outros teriam condições de ler o livro, e lendo-o poderiam descobrir o que significava. Talvez a história no livro fosse apenas uma história... mas como poderia ser, quando... — Père?
— Sim, Roland.
— Um romance é uma história, não é? Uma história inventada?
— Sim, longa.
— Mas faz-de-conta.
— Sim, é isso o que significa ficção. Faz-de-conta.
Roland meditou sobre isso. Charlie Chuu-Chuu também fora faz-de-conta, só que de várias formas vitais. E o nome do autor havia mudado. Existiam vários mundos diferentes, todos mantidos coesos pela Torre. Talvez...
Não, agora não. Não devia pensar nessas coisas agora.
— Fale-me da cidade pra onde foram Tower e seu amigo.
— Não sei, na verdade. Eu a encontrei num dos catálogos de telefone do Maine, só isso. E também um mapa simplificado de código postal que mostrava onde fica.
— Bom. Isto é muito bom.
— Roland, tem certeza de que está bem?
Calla, pensou Roland. Callahan. Obrigou-se a sorrir. A dar mais uma vez um tapinha no ombro do padre.
— Estou ótimo — disse. — Agora vamos voltar pra cidade.