A Torre Negra V: Lobos de Calla
Capítulo 5
Roland e seus companheiros haviam ficado sabendo do todash (o que existia para saber) por Vannay, o tutor da corte no longo tempo atrás em que eram jovens. Formavam um quinteto, para começar: Roland, Alain, Cuthbert, Jamie e Wallace, filho de Vannay. Wallace, de uma inteligência feroz mas sempre doentio, morrera do mal da queda, às vezes chamado mal do rei. Então haviam ficado quatro, e sob o guarda-chuva do verdadeiro ka-tet. Vannay conhecera-o muito bem, e esse conhecimento sem dúvida fazia parte do seu pesar.
Cort ensinara-os a navegar pelo sol e pelas estrelas; Vannay mostrara-lhes a bússola, o quadrante, o sextante, e ensinara-lhes a matemática necessária para usá-los. Cort ensinara-os a lutar. Com a história, problemas de lógica e manuais do que chamava “verdades universais”, Vannay ensinara-lhes que às vezes podiam evitar ter de fazê-lo. Cort ensinara-os a matar se tivessem de fazê-lo. Vannay, com o manquejar e o sorriso doce mas distraído, ensinara-lhes que na maioria das vezes a violência piorava mais os problemas do que os resolvia. Chamava-a de câmara oca, onde todos os verdadeiros sons são distorcidos por ecos.
Ensinara-lhes física — a que havia. Ensinara-lhes química — a que restara. Ensinara-os a terminar frases como “A árvore é igual a”, “Quando eu corro me sinto tão contente quanto” e “Não pudemos deixar de rir porque”. Roland detestava esses exercícios, mas Vannay não o deixava escapulir deles.
— Sua imaginação é uma coisa pobre, Roland — disse-lhe o tutor certa vez. Roland devia ter uns 11 anos na época. — Não vou deixar que você a alimente com rações curtas e a torne mais pobre ainda.
Ensinara-lhes os Sete Mostradores da Magia, recusando-se a dizer se acreditava em algum deles, e Roland achou que fora como tangente a uma daquelas lições que Vannay falara do todash. Não sabia ao certo. Sabia que Vannay falara da seita manni, pessoas que eram viajantes de longe. E não falara também do Arco-íris do Mago?
Roland achava que sim, mas tivera duas vezes a curva rósea do arco-íris em seu poder, uma vez quando menino e uma já homem, e embora viajasse nela nas duas vezes — com os amigos na segunda ocasião —, isso jamais o tornara todash.
Ah, mas como você iria saber?, perguntou a si mesmo. Como iria você saber, Roland, quando estava lá dentro?
Porque Cuthbert e Alain lhe teriam dito, aí está por quê.
Tem certeza?
Um sentimento tão estranho que chegava a não ser identificável subiu do peito do pistoleiro — seria indignação? horror? talvez mesmo um senso de traição? —, quando compreendeu que não, não tinha certeza. Sabia apenas que a bola o levara para o fundo de si mesma, e ele tivera sorte de sair de novo.
Não há bola aqui, pensou, e mais uma vez foi aquela outra voz — a voz seca, implacável, de seu velho tutor capenga, cuja dor pelo filho único jamais terminara de fato — que lhe respondeu, e com as mesmas palavras:
Tem certeza?
Pistoleiro, você tem certeza?
6
Começou com um longo estalo. O primeiro pensamento de Roland foi a fogueira do acampamento: um deles pusera alguns galhos verdes de pinheiro nela, e eles faziam aquele barulho quando as agulhas pegavam fogo. Mas...
O barulho aumentou, tornou-se uma espécie de zumbido elétrico. Roland sentou-se e olhou além do fogo que morria. Arregalou os olhos e seu coração começou a acelerar-se.
Susannah voltara-se do lado de Eddie, afastara-se um pouco, também. Eddie estendera o braço e Jake o imitou. Tocaram-se as mãos. E, quando Roland os olhava, eles começaram a sumir da existência numa série de pulsações bruscas. Oi fazia o mesmo. Quando desapareceram, foram substituídos por um baço fulgor cinza que se aproximava das formas e posições de seus corpos, como se alguma coisa mantivesse seus lugares na realidade. Cada vez que retornavam, havia o zumbido estalado. Roland via as pálpebras fechadas ondularem quando os globos rolavam embaixo.
Sonhavam. Mas não sonhavam apenas. Aquilo era todash, a passagem entre dois mundos. Supunha-se que os mannis podiam fazê-lo. E que alguns pedaços do Arco-íris do Mago podiam possibilitar à pessoa fazê-lo também, quer se quisesse ou não. Um determinado pedaço.
Eles podiam ficar presos lá dentro e cair, pensou Roland. Vannay disse isso também. Ele disse que virar todash era cheio de perigos.
Que mais dissera? Roland não teve tempo de lembrar, pois naquele momento Susannah se sentou, enfiou os soquetes de couro macio que ele fizera para ela nos cotocos das pernas e içara-se para a cadeira de rodas. Um momento depois, saía rolando para as árvores antigas no lado norte da estrada. Diretamente oposto ao lugar onde os vigilantes se achavam acampados; por esse tanto devia-se agradecer.
Roland permaneceu onde estava por um instante, dilacerado. Mas no fim seu curso era bastante claro. Não podia acordá-los enquanto se achavam em estado todash; fazer isso seria um risco terrível. Podia apenas seguir Susannah, como fizera outras noites, e esperar que ela não se metesse em encrenca.
Você podia também pensar um pouco no que aconteceria em seguida. Era a voz seca e professoral de Vannay. Agora que estava de volta, parecia que o velho tutor aparentemente pretendia ficar um tempo. A razão jamais foi o seu ponto forte, mas você tem de fazer, mesmo assim. Vai querer esperar até que os visitantes se façam conhecer, claro — mas no fim, Roland, você tem de agir. Mas pense primeiro. Mais cedo será melhor do que mais tarde.
Sim, mais cedo é sempre melhor do que mais tarde.
Ouviu outro estalo, mais alto. Eddie e Jake haviam voltado, Jake deitado com o braço enrolado em torno de Oi, e depois tornaram a desaparecer, nada ficando do que eram além de fraco brilho ectoplásmico. Bem, deixa pra lá. O trabalho dele era seguir Susannah. Quanto a Eddie e Jake, haveria água se Deus quisesse.
E se você voltasse e eles tivessem desaparecido? Acontece, Vannay disse. Que vai dizer a ela se ela acordar e descobrir que os dois desapareceram, o marido e o filho adotivo?
Não era para se preocupar no momento. No momento tinha Susannah com quem se preocupar, Susannah para manter em segurança.
7
No lado norte da estrada, velhas árvores com troncos enormes erguiam-se a consideráveis distâncias umas das outras. Os galhos podiam entrançar-se e criar um sólido dossel acima, mas no solo havia bastante espaço para a cadeira de rodas de Susannah, e ela seguia em boa marcha, serpeando por entre os vastos paus-ferro e pinheiros, rolando ladeira abaixo por cima de uma fragrante camada de musgos e agulhas.
Não era Susannah. Nem Detta ou Odetta, tampouco. Esta se chama Mia.
Roland pouco estava ligando se ela se chamava Rainha dos Dias Verdes desde que voltasse salva, e as outras ainda estivessem lá quando o fizesse.
Ele começou a sentir o cheiro de verde mais forte, mais novo; juncos e plantas aquáticas. Com ele vieram o odor de lama, o martelar das rãs, a sarcástica saudação, huul! huul!, de uma coruja, o espadanar na água de alguma coisa que saltara. Isso foi seguido por um fino grito de alguém que morria, talvez o saltador, talvez aquele em que ele saltou. O mato baixo começava a cobrir musgos e agulhas, primeiro pontilhando-os e depois tomando-os completamente. A cobertura de árvores adelgaçava-se. Mosquitos e muriçocas zumbiam. Besouros costuravam o ar. Os cheiros de pântano tornavam-se mais fortes.
As rodas da cadeira haviam passado por cima do manto de folhas no chão sem deixar traços. À medida que o manto dava lugar ao espalhado mato baixo, Roland começou a ver galhos quebrados e folhas arrancadas, marcando a passagem dela. Depois, quando ela chegou ao terreno baixo mais ou menos plano, as rodas começaram a afundar na terra cada vez mais fofa. Vinte passos adiante, ele começou a ver água entrando nos traços. Susannah era sábia demais para ficar atolada, porém — muito esperta. Vinte passos além dos primeiros sinais de umidade, ele deu com a própria cadeira, abandonada. Sobre o assento havia a calça e a blusa dela. Entrara no pântano nua, a não ser pelas luvas que cobriam seus cotocos.
Lá embaixo viam-se tiras de neblina pairando sobre poças de água parada. Erguiam-se montículos cobertos de mato; num deles, amarrado com arame a um toro seco fincado em pé, via-se o que Roland a princípio tomou por um antigo espantalho. Quando chegou mais perto, percebeu que era um esqueleto humano. A testa da caveira fora afundada, deixando um triângulo escuro entre as órbitas vazias. O ferimento fora feito por alguma espécie de tacape primitivo, sem dúvida, e deixara-se o cadáver (ou o espírito que ficara) para assinalar aquele ponto como o limite de algum território tribal. Provavelmente, estavam mortos havia muito tempo, ou se haviam mudado, mas a cautela era uma verdadeira virtude. Roland sacou o revólver e continuou a procurar a mulher, passando de um montículo a outro e piscando com uma ou outra fisgada de dor no quadril esquerdo. Era preciso toda a sua concentração e agilidade para acompanhá-la. Isso se devia em parte ao fato de ela não ter o interesse dele de manter-se tão seca quanto possível. Estava tão nua quanto uma sereia, e movia-se como tal, tão à vontade na lama e água do pântano quanto em terra seca. Arrastava-se sobre os montículos maiores, deslizava pela água entre eles, parando de vez em quando para desgrudar uma sanguessuga. Na escuridão, o andar e deslizar pareciam fundir-se num único movimento coleante de enguia, perturbador.
Ela penetrou meio quilômetro, talvez, no pântano úmido, com o pistoleiro seguindo paciente logo atrás. Roland mantinha o maior silêncio possível, embora duvidasse que fosse necessário; a parte dela que via, sentia e pensava estava longe dali.
Finalmente ela parou, erguida em cima das pernas truncadas e segurando-se a emaranhados de galhos de cada lado para equilibrar-se. Olhou por cima da superfície negra de uma poça, cabeça erguida, corpo imóvel. O pistoleiro não sabia se a poça era grande ou pequena; os limites perdiam-se na neblina. Mas havia luz ali, uma espécie de fraca radiação desfocada que parecia jazer logo abaixo da superfície da própria água, talvez emanando de troncos podres em lenta decomposição.
Ficou ali parada, examinando o bosque coberto de musgo como uma rainha examinando um... um o quê? Um salão de banquete? Foi o que ele acabou por acreditar. Quase por ver. Era um sussurro da mente dela para a dele, e batia com o que ela dizia e fazia. O salão de banquete era a maneira engenhosa de manter a mente dela separada de Mia, como mantivera Odetta separada de Detta aqueles anos todos. Mia podia ter muitos motivos para querer manter sua existência em segredo, mas certamente o maior deles tinha a ver com a vida que trazia dentro de si.
O chapinha, como ela o chamava.
Então, com uma rapidez que o assustou (embora já houvesse visto isso antes, também), ela começou a caçar, deslizando em fantásticos espadanos silenciosos primeiro ao longo da borda da poça, depois um pouco para dentro dela. Roland observava-a com uma expressão que continha horror e luxúria quando ela tricotava e tecia seu caminho entrando e saindo nos juncos, por entre e por cima dos montículos. Agora, em vez de desgrudar as sanguessugas da pele e jogá-las fora, ela jogava-as na boca, como pedaços de açúcar. Os músculos das coxas ondulavam. A pele parda luzia como seda molhada. Quando ela se voltou (Roland já se escondera atrás de uma árvore e tornara-se uma das sombras), ele viu como os seios dela haviam amadurecido.
O problema, claro, ia além do “chapinha”. Tinha-se de pensar em Eddie também. Que diabos há com você, Roland?, ele podia ouvi-lo dizendo. Podia ser nosso filho. Quer dizer, não se pode saber com certeza que não é. Ié, ié, eu sei que alguma coisa a possuiu enquanto a gente puxava Jake, mas isso não quer necessariamente dizer...
E por aí seguia, blablablá, como diria o próprio Eddie, e por quê? Porque ele a amava e ia querer o filho da sua união. E porque discutir era tão natural para Eddie Dean quanto respirar. Cuthbert fora a mesma coisa.
Nos juncos, a mão da mulher saltou para a frente e agarrou uma rã de bom tamanho. Ela apertou, e a rã explodiu, esguichando entranhas e uma reluzente carga de ova entre os dedos dela. A cabeça estourou. Ela levou-a à boca e comeu-a gulosamente enquanto as pernas esverdeadas ainda tremelicavam, lambendo o sangue e os fios brilhantes de tecido dos nós dos dedos. Depois imitou alguma coisa e gritou: “Que tal acha isso, sua Dama Azul fedorenta?”, numa voz baixa e gutural que causou arrepios em Roland. Era a voz de Detta Walker. Detta em estado mais perverso e louco.
Quase sem pausa, ela seguiu em frente de novo, buscando. Em seguida veio um peixinho... depois outra rã... e então o verdadeiro prêmio: um rato-d’água que guinchou, contorceu-se e tentou morder. Ela esmagou a vida dele e meteu-o na boca, com patas e tudo. Um instante depois, curvou-se e regurgitou os restos — uma massa retorcida de pele e ossos lascados.
Mostre isso a ele, então — sempre supondo que ele e Jake voltem de qualquer aventura onde estejam, quer dizer. E diga: “Eu sei que as mulheres devem ter estranhos desejos quando estão grávidas, Eddie, mas isso não parece um pouco estranho demais? Olhe pra ela, buscando no meio dos juncos e lama como uma espécie de jacaré humano. Olhe pra ela e me diga se está fazendo aquilo para alimentar a criança. Qualquer criança humana.”
Mas ele não discutiria. Roland sabia disso. O que não sabia era o que a própria Susannah poderia fazer quando Roland lhe dissesse que ela estava gerando uma coisa que ansiava por carne crua no meio da noite. E como se já não fosse preocupante o suficiente, agora havia todash. E estranhos que vinham em busca deles. Mas os estranhos eram o menor dos seus problemas. Na verdade, achava a presença deles quase reconfortante. Não sabia o que eles queriam, e no entanto sabia. Encontrara-os antes, muitas vezes. No fundo, sempre queriam a mesma coisa.