A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 34 de 43

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

Capítulo 1

 

— Nós somos ka-tet — disse o pistoleiro. — Somos um de muitos. — Ele viu o olhar de dúvida de Callahan, impossível não vê-lo, e assentiu. — Sim, père, você é um dos nossos. Não sei por quanto tempo, mas sei que é. E meus amigos também.

Jake fez que sim com a cabeça, assim como Eddie e Susannah. Estavam agora no Pavilhão; após ouvir o relato de Jake, Roland não quis mais se reunir na casa-reitoria, nem sequer no alpendre dos fundos. Achava grande demais a probabilidade de que Slightman ou Andy — talvez até algum outro membro ainda não tido como suspeito amigo dos Lobos — houvesse instalado grampos ali, além de câmeras. Acima, o céu era cinzento, ameaçando chuva, mas o tempo continuava surpreendentemente quente para tão adentrada estação. Algumas senhoras ou cavalheiros de mente cívica haviam retirado com ancinho as folhas caídas num largo círculo em volta do palco onde Roland e seus amigos se haviam apresentado não muito tempo antes, e a relva embaixo deles era verde como no verão. Via-se gente dali soltando pipa, casais passeando de mãos dadas, dois ou três mascates com um olho à cata de fregueses e outro nas nuvens de barrigas caídas acima. No coreto da banda, o grupo de músicos que tocara com tanto brio quando da entrada deles em Calla Bryn Sturgis ensaiava algumas melodias novas. Em duas ou três ocasiões, o pessoal da cidade avançara em direção a Roland e seus amigos, a fim de passar algum tempo, e cada vez que isso aconteceu, Roland abanou a cabeça com um ar sério que os apressara a dar meia-volta. A hora da política do que-bom-encontrar-vocês havia passado. Chegavam quase ao que Susannah descrevia como o verdadeiro sufoco.

Roland disse:

— Daqui a quatro dias, vem a assembléia, desta vez penso em toda a cidade, não apenas nos homens.

— Palavras danadas de belas, precisa ser toda a cidade — disse Susannah. — Se está contando com o lançamento de prato das damas e compensar todas as armas que não temos, acho que não é nada de mais deixá-las entrar na porra do salão.

— Não vai ser no Salão da Assembléia, se for pra todo mundo — disse Callahan. — Não há espaço suficiente. Vamos acender as tochas e realizá-la aqui mesmo.

— E se chover? — perguntou Eddie.

— Se chover, as pessoas vão ficar molhadas — disse Callahan, encolhendo os ombros.

— Quatro dias para a reunião e nove para os Lobos — disse Roland. — Com toda a certeza esta será nossa última chance de confabular como fazemos agora, com as cabeças claras, até tudo acabar. Não vamos ficar aqui muito tempo, portanto, que o façamos valer. — Estendeu as mãos. Jake pegou uma, Susannah a outra. Num instante, todos os cincos se haviam juntado em círculo, mão na mão. — Estamos vendo uns aos outros?

— Vejo vocês muito bem — disse Jake.

— Muito bem, Roland — disse Eddie.

— Claros como o dia, docinho — concordou Susannah, sorrindo.

Oi, farejando o mato em volta, nada disse, mas olhou de fato em volta e deu uma piscadela.

— Père? — perguntou Roland.

— Vejo e ouço vocês muito bem — assentiu Callahan com um pequeno sorriso —, e alegra-me ser incluído. Até então, pelo menos.

2

Roland, Eddie e Susannah haviam ouvido quase todo o relato de Jake; Jake e Susannah quase todo o de Roland e Eddie. Agora Callahan obtinha os dois — o que depois chamou de “Programa Duplo”. Escutava de olhos arregalados, muitas vezes boquiaberto. Persignou-se quando Jake contou que se escondeu no armário. A Eddie, o père disse:

— Você não falava sério sobre matar as mulheres e crianças, não é? Era apenas um blefe?

Eddie ergueu os olhos para o céu carregado, pensando nisso com um leve sorriso. E tornou a olhar para Callahan.

— Roland me disse que para um sujeito que não queria ser chamado de padre, você adotou uma postura muito eclesiástica recentemente.

— Se você se refere à idéia de pôr fim à gravidez de sua mulher...

Eddie levantou a mão.

— Digamos que eu não esteja falando de ninguém em particular. Só que nós temos um trabalho a fazer aqui, e precisamos que nos ajude a fazê-lo. A última coisa de que precisamos é que nos desvie de nosso objetivo com sua lengalenga católica. Portanto, digamos apenas sim, eu estava blefando, e continuemos. Está bem assim, padre?

O sorriso de Eddie enrijeceu-se e exasperou-se. Claras manchas de cor espalhavam-se pelas maçãs do seu rosto. Callahan analisou o olhar dele com grande cuidado e assentiu com a cabeça.

— Sim — disse. — Você estava blefando. Por favor, deixemos isso pra lá e continue.

— Ótimo — disse Eddie. Olhou para Roland.

— A primeira pergunta é para Susannah — disse Roland. — Uma bem simples: como está se sentindo?

— Muito bem — respondeu ela.

— Diz a verdade?

Ela assentiu.

— Digo a verdade, digo obrigada.

— Nada de dores de cabeça aqui? — Roland esfregou a têmpora esquerda.

— Não. E as sensações de nervosismo que eu sentia, pouco depois do pôr-do-sol, pouco antes do amanhecer, se foram. E olhe pra mim! — Correu a mão desde a intumescência dos seios, passando pela cintura, até o quadril direito. — Perdi um pouco do inchaço, Roland. Eu li que às vezes os animais na selva, carnívoros como gatos selvagens, herbívoros como veados e coelhos, reabsorvem os filhotes quando as condições para parir são adversas. Você não acha... — A voz se extinguiu, ela olhava para ele esperançosa.

Embora desejasse poder apoiar aquela encantadora idéia, Roland não podia. E omitir a verdade no seio do ka-tet deixara de ser uma opção. Fez que não com a cabeça. A expressão de Susannah abateu-se.

— Ela tem dormido quietinha, pelo que eu sei — disse Eddie. — Nenhum sinal de Mia.

— Rosalita disse a mesma coisa — acrescentou Callahan.

— Você mandou aquela fulana me vigiar? — perguntou Susannah num suspeito tom de Detta. Mas sorrindo.

— De vez em quando — confessou Callahan.

— Vamos deixar pra lá o tema do chapinha de Susannah, se nos permitem — disse Roland. — Precisamos falar dos Lobos. Deles e de pouco mais.

— Mas Roland... — começou Eddie.

Roland ergueu a mão direita.

— Sei quantos mais assuntos há. Também sei que estamos ficando meio desesperados, temos chance de morrer aqui em Calla Bryn Sturgis, e pistoleiros mortos não podem ajudar ninguém. Nem seguir seu caminho. Concordam?

Varreu-os com os olhos. Nenhum deles respondeu. De algum lugar ao longe veio o som de várias crianças cantando. Alto, alegre e inocente. Alguma coisa sobre commala.

— Há outro detalhezinho do negócio que precisamos tratar — continuou ele. — Envolve você, père. E o que agora se chama Gruta da Porta. Atravessaria aquela porta e retornaria ao seu país?

— Tá brincando? — Os olhos de Callahan iluminaram-se. — Uma chance de voltar, nem que por pouco tempo? É só você dar a ordem.

Roland assentiu.

— Mais tarde, talvez eu e você demos um passeiozinho até lá, e cuido de você ao cruzar a porta. Sabe onde fica o terreno baldio, não?

— Claro. Devo ter passado por ali milhares de vezes, na minha outra vida.

— E já ouviu falar de código postal? — perguntou Eddie.

— Se o Sr. Tower fez como você pediu, vai estar escrito no fim da cerca de tábuas, lado da rua Quarenta e Seis. Aliás, trata-se de uma idéia brilhante.

— Pegue o número... e a data também — disse Roland. — Temos de acompanhar o horário de lá e daqui, Eddie tem razão. Pegue e volte. Depois, terminada a assembléia no Pavilhão, vamos precisar que você atravesse mais uma vez a porta.

— Desta vez para seja lá qual for o lugar onde estão Tower e Deepneau na Nova Inglaterra — disse Callahan.

— Sim — disse Roland.

— Se os encontrar, vai ter mais vontade de falar com o Sr. Deepneau — disse Jake. Enrubesceu quando todos se voltaram para ele, mas não tirou os olhos dos de Callahan. — O Sr. Tower talvez seja obstinado...

— Essa é a versão atenuada da verdade do século — disse Eddie. — Quando você chegar lá, ele na certa terá encontrado 12 sebos e sabe Deus quantas primeiras edições de O Décimo Nono Colapso Nervoso de Indiana Jones.

—... mas o Sr. Deepneau vai ouvir — continuou Jake.

— Ouvi, Aque! — disse Oi, e revirou os olhos para trás. — Ouvi, calados!

Coçando a barriga de Oi, Jake disse:

— Se alguém pode convencer o Sr. Tower a fazer alguma coisa, é o Sr. Deepneau.

— Está bem — respondeu Callahan, assentindo com a cabeça. — Escuto bem você.

As crianças que cantavam estavam mais próximas agora. Susannah virou-se, mas não conseguia vê-las ainda; supôs que vinham pela rua do Rio. Se assim o fosse, surgiriam no campo visual assim que passassem a estrebaria e virassem na rua Alta, no Armazém Geral de Took. Algumas das pessoas na varanda ali já se levantavam para olhar.

Roland, enquanto isso, examinava Eddie com um sorrisinho.

— Uma vez, quando falei a palavra cume, você me disse um ditado sobre ela e seu mundo. Gostaria de ouvi-lo de novo, se ainda lembra.

Eddie deu um largo sorriso.

— Cume forma cu fora de me, isto é, tirar o meu da reta, é isso que quer dizer?

Roland assentiu.

— É um bom ditado. De qualquer modo, vou fazer uma suposição agora, martelá-la como um prego, depois pendurar todas as nossas esperanças de sair vivos disso nela. Não me agrada muito, mas não vejo outra opção. A suposição é que só Ben Slightman e Andy estão trabalhando contra nós. Que se tomarmos cuidado quando chegar a hora, podemos nos movimentar em segredo.

— Não o mate — disse Jake, numa voz quase baixa demais para se ouvir.

Trouxera Oi mais para junto de si e afagava o cocuruto dele e o pescoço longo com uma rapidez compulsiva, disparada. Oi agüentava, paciente.

— Com o seu perdão, Jake — disse Susannah, curvando-se para a frente e pondo a mão atrás de uma orelha. — Eu não...

— Não o mate! — Desta vez, a voz saiu rouca e vacilante quase às lágrimas. — Não mate o pai de Benny. Por favor.

Eddie estendeu a mão e envolveu a nuca do garoto.

— Jake, o pai de Benny Slightman está disposto a mandar centenas de crianças pro Trovão com os Lobos, só pra poupar o filho dele. E você sabe que eles vão voltar.

— É, mas pra ele não existe opção, porque...

— A opção dele podia ter sido resistir conosco — disse Roland. A voz insensível e assustadora. Quase morta.

— Mas...

Mas o quê? Jake não sabia. Repassara aquilo diversas vezes e continuava não sabendo. Lágrimas súbitas jorraram de seus olhos e escorreram-lhe pela face. Callahan estendeu a mão para tocá-lo. Jake afastou-a.

Roland deu um suspiro.

— Faremos o que for possível para poupá-lo. Isso eu prometo. Não sei se será misericórdia ou não... Os Slightman estarão liquidados nesta cidade, se restar uma cidade na semana que vem, mas talvez se dirijam para o norte ou para o sul do Crescente e comecem uma espécie de vida nova. E, Jake, escute: não há a menor necessidade de Ben Slightman jamais saber que você ouviu escondido Andy e o pai dele ontem à noite.

Jake olhava-o com uma expressão que não ousava exatamente ter esperança. Não ligava nada para Slightman pai, mas não queria que Benny soubesse que foi ele. Imaginou que isso o tornava um covarde, mas não queria que Benny soubesse que foi ele.

— Verdade? Com certeza?

— Nada disso é com certeza, mas...

Antes que pudesse terminar, as crianças que cantavam viraram na esquina. A conduzi-las, membros prateados e corpo brilhando suavemente na luz amortecida do dia, vinha o Robô Mensageiro Andy. Andava para trás, com um bastão numa das mãos. A Susannah, parecia uma baliza no Quatro de Julho. Brandia o bastão exageradamente de um lado para o outro, regendo as crianças na música, enquanto um acompanhamento de gaita de fole de junco saía dos alto-falantes de seu peito e cabeça.

— Puta merda — disse Eddie. — É o Flautista de Hamelin.

 

3

“Commala-vem-um! Mamãe teve um filho!

Passou um tempo com papai

se divertindo à beça! ”

Andy cantava essa parte sozinho, depois apontava com o bastão o bando de crianças, que se juntavam a ele animadamente.

“Commala-vem-vem!

Papai teve um!

Passou um tempo com mamãe

se divertindo à beça! ”

Gargalhada jubilosa. Não havia tantas crianças quanto Susannah imaginava, em vista do barulho que faziam. Ver Andy à frente delas, após ouvir o relato de Jake, gelou-lhe o coração. Ao mesmo tempo, sentiu uma pulsação raivosa começar a bater na garganta e na têmpora esquerda. Que ele pudesse liderar a banda na rua daquele jeito! Como o Flautista, Eddie tinha razão, o Flautista de Hamelin.

Agora ele apontava o bastão improvisado para uma garota de 13 ou 14 anos. Susannah julgou que fosse uma das filhas de Anselm, da pequena propriedade logo abaixo da casa de Tian Jaffords. Ela cantou o verso seguinte límpido e claro àquele mesmo compasso, suavemente ritmado, que era quase (mas não exatamente) uma cantiga de pular corda:

“Commala-vem-dois!

Sabe o que faz!

Plante o arroz commala,

Não seja... nenhuma... idiota! ”

Então, quando as outras tornaram a juntar-se ao coro, Susannah percebeu que o grupo de crianças era maior do que ela imaginara quando haviam contornado a esquina, muito maior. Os ouvidos dela haviam revelado mais a verdade que os olhos, e havia um motivo muito bom para isso.

“Commala-vem-dois! [cantam as crianças]

Papai de idiota não tem nada!

Mamãe planta commala,

pois sabe muito bem o que fazer! ”

O grupo pareceu menor à primeira vista porque vários dos rostos eram iguais — o rosto da filha de Anselm, por exemplo, era quase o rosto do menino junto dela. O irmão gêmeo. Quase todas as crianças no grupo de Andy eram gêmeas. Susannah de repente percebeu como aquilo era misterioso, como todos os estranhos duplos que eles haviam encontrado presos numa garrafa. Seu estômago virou. E ela sentiu a primeira pontada de dor acima do olho esquerdo. Começou a erguer a mão até o ponto sensível.

Não, disse a si mesma, Não quero fazer isso. Forçou a mão de novo para baixo. Não precisava esfregar a testa. Nem esfregar o que não doía.

Andy apontou o bastão para um menino rechonchudo, a pavonear-se, que não podia ter mais de oito anos. Ele cantou as palavras num soprano agudo e infantil que fez o resto da garotada rir.

“Commala-vem-três!

Sabe o que vai ser!

Plante o arroz commala,

que o arroz livre o tornará! ”

Ao que o coro respondeu:

 

“Commala-vem-três!

O arroz livre o tornará!

Quando planta o arroz da commala

Você sabe bem o que é! ”

Andy viu o ka-tet de Roland e acenou alegremente o bastão. Assim como as crianças — metade das quais voltaria babando e roont se tudo desse certo para o baliza que as conduzia. Iam crescer e ficar com dimensões gigantescas, gritar de dor e depois morrer cedo.

— Retribuam o aceno — disse Roland, e ergueu a mão. — Retribuam o aceno todos vocês, pelos seus pais.

Eddie disparou a Andy um sorriso radiante cheio de dentes.

— Como vai, seu merda barato da rádio Shack fodida? — perguntou. A voz que saiu através do sorriso era baixa e furiosa. Deu a Andy um duplo polegar erguido. — Como vai, seu robô psicótico? Diga ótimo? Diga obrigado? Diga morda meu saco!

Jake desatou a rir. Todos continuaram acenando e sorrindo. As crianças acenavam e sorriam de volta. Andy também acenou. Conduziu sua alegre banda pela rua Alta, cantando: Commala-vem-quatro! O rio chega à porta!

— Eles o adoram — disse Callahan, com uma expressão doentia de nojo no rosto. — Gerações de crianças amaram Andy.

— Isso — comentou Roland — está prestes a mudar.

 

4

— Mais perguntas? — disse o pistoleiro, quando Andy e as crianças desapareceram. — Perguntem agora, se vão perguntar. Talvez seja a última chance.

— E Tian Jaffords? — perguntou Callahan. — Num sentido muito real, foi Tian quem começou isso. Tem de haver um lugar pra ele no final.

Roland assentiu com a cabeça.

— Tenho um trabalho para ele. Um trabalho que ele e Eddie vão fazer juntos. Père, há uma excelente casinha abaixo do chalé de Rosalita. Alta. Forte.

Callahan ergueu as sobrancelhas.

— É, agradeço. Foi Tian e seu vizinho, Hugh Anselm, que a construíram.

— Poderia pôr uma fechadura no lado de fora nos próximos dias?

— Eu poderia, mas...

— Se tudo sair bem, não será necessário fechadura alguma, mas nunca se pode ter certeza.

— É — disse Callahan. — Imagino que não. Mas posso fazer isso se pedir.

— Qual o plano, doçura? — perguntou Susannah. Falou numa voz baixa, estranhamente delicada.

— Há um precioso planozinho aí. Quase sempre é tudo para o bem. O mais importante que posso dizer é que não acreditem em nada que eu disser assim que nos levantarmos daqui, com a poeira fora dos seus traseiros, e nos reunirmos ao povo. Principalmente em nada que eu disser quando me levantar na assembléia com a pena na mão. Quase tudo será mentira. — Deu-lhes um sorriso. Acima, os baços olhos azuis eram duros como pedras. — Meu pai e o pai de Cuthbert tinham uma regra entre eles: primeiro chegam os sorrisos, depois, as mentiras. Por último, o tiroteio.

— Estamos quase lá, não? — perguntou Susannah. — Quase no tiroteio.

Roland fez que sim com a cabeça.

— E o tiroteio vai acontecer e acabar tão rápido que vocês vão se perguntar pra que o planejamento e a confabulação, quando no fim tudo se resume aos mesmos cinco minutos de sangue, dor e estupidez. — Fez uma pausa e disse: — Sempre me sinto nauseado depois. Como quando eu e Bert fomos ver o homem enforcado.

— Eu tenho uma pergunta — disse Jake.

— Faça — disse Roland.

— Vamos vencer?

Roland ficou calado tanto tempo que Susannah começou a sentir medo. Depois disse:

— Sabemos mais do que eles acham que sabemos. Muito mais. Ficaram complacentes. Se Andy e Slightman forem os únicos delatores no grupo, e não houver demasiados deles na matilha dos Lobos, se não nos faltarem pratos e cartuchos... sim, Jake, filho de Elmer, vamos vencer.

— Quantos considera demasiados?

Roland pensou, os olhos azuis baços olhando o leste.

— Mais do que você acreditaria — acabou dizendo. — E espero que muito mais do que eles acreditariam.

 

5

Mais próximo do fim da tarde, Donald Callahan parou diante da porta desconhecida, tentando concentrar-se na Segunda Avenida, no ano de 1977. Tinha a mente fixa no Chew Chew Mama’s e em que às vezes ele, George e Lupe Delgado iam almoçar.

— Eu comia um filé de peito sempre que podia ir lá — disse o padre, e tentou ignorar a voz aguda da mãe, elevando-se do ventre escuro da gruta. Quando entrara ali pela primeira vez com Roland, seus olhos haviam sido atraídos para os livros que Calvin Tower enviara. Tantos livros! O generosíssimo coração do padre ficou cobiçoso (e um pouco menor) à visão deles. Seu interesse, contudo, não durou, apenas o tempo suficiente para puxar um ao acaso e ver que era Os Virginianos, de Owen Wister. Foi difícil folheá-lo quando os amigos e entes queridos mortos o chamavam com gritos lancinantes e o xingavam.

A mãe no momento perguntava-lhe por que deixara um vampiro, um imundo chupador de sangue, quebrar a cruz que lhe dera.

— Você sempre foi fraco de fé — disse ela dolorosamente. — Fraco na fé e forte para a bebida. Aposto que gostaria de uma agora, não?

Querido Deus, sempre gostaria. Uísque. Doze anos. Callahan sentiu o suor brotar-lhe na testa. O coração martelava em compasso duplo. Não, triplo.

— O filé — resmungou. — Com um pouco daquela mostarda preta espalhada em cima.

Via até o frasco de plástico de apertar da mostarda e lembrava o nome da marca. Plochman’s.

— Como? — perguntou Roland atrás dele.

— Eu disse que estou pronto — disse Callahan. — Se vai fazer isso, pelo amor de Deus, faça já.

Roland abriu a caixa com um estalo. Os sinos no mesmo instante dispararam nos ouvidos de Callahan, fazendo-o lembrar-se dos homens maus em seus carros espalhafatosos. O estômago revirou na barriga e lágrimas revoltadas irromperam dos seus olhos.

Mas a porta abriu-se, e uma fatia de luz solar atravessou-a enviesada, dissipando a tristeza da boca da gruta.

Callahan sorveu um profundo hausto de ar e pensou: Ave-Maria, concebida sem pecado, orai por nós que a vós recorremos. E entrou no verão de 77.

 

6

Era meio-dia, é claro. Hora do almoço. E que ele estava em pé diante do Chew Chew Mama’s. Ninguém pareceu notar sua chegada. Os especiais do dia no cavalete, na saída da porta do restaurante, diziam:

El, VOCÊ Aí, BEM-VINDO AO CHEW-CHEW!

ESPECIAIS PARA 24 DE JUNHO

ESTROGONOFE DE CARNE

FILÉ DE PEITO (C/REPOLHO)

TACOS À RANCHO GRANDE