A Torre Negra V: Lobos de Calla
Capítulo 7
Dois dias depois, às cinco da tarde, Rosalita, Zalia, Margaret Eisenhart, Sarey Adams e Susannah Dean reuniram-se no campo logo à direita da bem arrumada casinha de Rosa. Houve muitas risadinhas e não poucos ataques de riso nervoso, estridente. Roland manteve distância, e instruiu Eddie e Jake a fazerem o mesmo. Melhor deixá-las tirar aquilo de seus sistemas.
Encostados na cerca de trilhos, a 30 metros um do outro, erguiam-se espantalhos com rechonchudas cabeças de raiz-forte. Cada cabeça foi envolta num saco de aniagem, amarrado para fazê-lo parecer o capuz de um manto. No pé de cada cara havia três cestas. Encheu-se uma com mais raiz-forte. Outra com batatas. O conteúdo da terceira arrancou gemidos e gritos de protesto. Foram enchidas com rabanetes. Roland mandou-as parar de miar; pensara em ervilhas, disse. Nenhuma delas (nem Susannah) teve certeza absoluta de que ele estava brincando.
Callahan, então vestindo jeans e uma túnica de rancheiro de muitos bolsos, surgiu caminhando sem pressa na varanda, onde Roland se sentava fumando, à espera de as senhoras se acalmarem. Jake e Eddie jogavam dama perto.
— Vaughn Eisenhart está lá fora defronte da casa — comunicou o padre a Roland. — Disse que vai até o Tooky’s tomar uma cerveja, mas só depois de trocar uma palavra com você.
Roland exalou um suspiro, levantou-se e atravessou a casa até a frente. Sentado no banco do cabriolé de um só cavalo, as botas apoiadas no pára-lamas, Eisenhart olhava mal-humorado para um canto da igreja de Callahan.
— Bom-dia a você, Roland — disse.
Wayne Overholser dera alguns dias antes ao pistoleiro um chapéu de caubói, aba larga. Roland levou a mão à aba em resposta ao rancheiro e esperou.
— Imagino que estará enviando a pena em breve — disse Eisenhart. — Convocando uma assembléia, se faz o favor.
Roland admitiu que era mais ou menos isso. Não era função da cidade dizer a cavaleiros do Eld como cumprir seu dever, mas Roland lhes diria que dever deveria ser cumprido. Até aí ele lhes devia.
— Quero que saiba que quando chegar a hora vou tocá-la e passá-la adiante. E chegando a assembléia, direi sim.
— Agradeço — respondeu Roland.
Ficou, de fato, comovido. Desde que se juntara a Jake, Eddie e Susannah, parecia que seu coração crescera. Às vezes lamentava-se, mas quase sempre, não.
— Took não vai fazer nenhuma das duas coisas.
— Não — concordou Roland. — Desde que o negócio esteja bem, os Took do mundo jamais tocam a pena. Nem dizem sim.
— Overholser está com ele.
Isso foi um golpe. Não inteiramente inesperado, mas ele esperara que Overholser mudasse de idéia. Roland teve todo o apoio que precisava, e imaginava que Overholser soubesse. Se fosse sensato, o fazendeiro simplesmente se sentaria e esperaria que terminasse, de um jeito ou de outro. Se interferisse, era provável que não visse mais um ano de colheitas em seus celeiros.
— Eu queria que soubesse de uma coisa — disse Eisenhart. — Estou com você por causa da minha mulher, e minha mulher está com você porque decidiu que quer caçar. No fim, é nisto que dão todas as coisas como o lançamento de discos, uma mulher dizendo a seu homem o que será e o que não será. Não é a maneira natural. O homem deve governar sua mulher. Exceto na questão dos bebês, claro.
— Ela abandonou tudo com que foi criada quando o tomou por marido — disse Roland. — Agora é sua vez de dar um pouco.
— Acha que eu não sei disso? Mas se você fizer com que seja morta, Roland, levará minha maldição consigo quando vocês deixarem Calla. Se deixarem. Não importa quantas crianças salvem.
Roland, que já fora amaldiçoado antes, assentiu com a cabeça.
— Se ka quiser, ela voltará pra você.
— Sim. Mas se lembre do que eu disse.
Eisenhart açoitou as rédeas no traseiro do cavalo e o cabriolé se pôs a rodar.
8
Cada mulher dividia pela metade uma cabeça de raiz-forte a 35, 45 e 55 metros.
— Acertem as cabeças o mais alto dentro do capuz que conseguirem — disse Roland. — Acertem baixo e de nada servirá.
— Armadura, imagino? — perguntou Rosalita.
— É — disse Roland, embora não fosse toda a verdade. Só lhes contaria o que agora entendia ser toda a verdade quando elas precisassem conhecê-la.
Em seguida, vieram as batatas. Sarey Adams acertou a dela a 35 metros, cravou-a a 45 e errou totalmente o alvo a 55; o prato passou alto. Ela proferiu uma maldição nada condizente com as maneiras de uma dama, depois se encaminhou cabisbaixa para a lateral da casinha. Sentou-se ali para assistir ao resto da competição. Roland aproximou-se e sentou-se a seu lado. Viu uma lágrima escorrer do olho esquerdo e sobre a face maltratada pelo vento.
— Eu o decepcionei, estranho. Perdão.
Roland tomou-lhe a mão e apertou-a.
— Nãão, senhora, nãão. Haverá trabalho pra você. Não no mesmo lugar dessas outras. E ainda pode lançar o prato.
Ela deu-lhe um sorriso pálido e assentiu seu obrigada com a cabeça.
Eddie pôs mais “cabeças” de raiz-forte nos caras empalhados, depois um rabanete no topo de cada um. Este quase se escondia nas sombras lançadas pelos capuzes de saco de aniagem.
— Boa sorte, meninas! — disse. — Antes vocês que eu. — E afastou-se.
— Comecem a 10 metros desta vez — gritou Roland.
A 10, todas acertaram. E a 20. A 30, Susannah lançou o prato muito alto, como Roland a instruíra. Ele queria que uma das mulheres de Calla vencesse aquela rodada. A 45 metros, Zalia Jaffords hesitou por tempo demais, e o prato lançado cortou em duas a cabeça de raiz-forte, não o rabanete assentado em cima.
— Commala fodida! — gritou ela, depois levou as mãos à boca e olhou para Callahan, sentado nos degraus dos fundos. O camarada apenas sorriu e acenou alegremente, fingindo surdez.
Ela se encaminhou pisando forte até Eddie e Jake, enrubescida até as pontas das orelhas e furiosa.
— Você precisa pedir a ele que me dê mais uma chance, diga que sim, por favor — disse ela a Eddie. — Eu consigo, sei que consigo.
Eddie pôs-lhe a mão no braço, estancando a inundação.
— Ele também sabe, Zee. Você está dentro.
Ela encarou-o com olhos em chamas, lábios comprimidos tão apertados que quase haviam desaparecido.
— Tem certeza?
— Claro — disse Eddie. — Você podia arremessar para os Mets, querida.
Agora a decisão era entre Margaret e Rosalita. As duas acertaram os rabanetes a 45 metros. A Jake, Eddie murmurou:
— Amiguinho, eu teria lhe dito que era impossível se não houvesse acabado de ver.
A 55 metros, Margaret desviou-se claramente do alvo. Rosalita ergueu o prato acima do ombro direito — era canhota —, hesitou, então gritou: “Riza!”, e lançou. Por mais aguçada que fosse sua vista, Roland não teve certeza absoluta se a borda do prato decepou o lado do rabanete ou se o vento o derrubou. Qualquer dos dois casos que fosse, Rosalita ergueu os punhos e sacudiu-os, rindo.
— Ganso de feira! Ganso de feira!
As outras se juntaram a ela. Logo até Callahan cantava.
Roland foi até Rosa e deu-lhe um abraço, breve mas forte. Ao fazê-lo, sussurrou-lhe no ouvido que embora não tivesse ganso talvez conseguisse encontrar um ganso macho de pescoço longo para ela quando caísse a noite.
— Bem — disse ela, sorrindo —, quando a gente fica mais velha aceita os prêmios onde encontra. Não é?
Zalia olhou para Margaret.
— Que foi que ele disse a ela? Você sabe?
Margaret Eisenhart sorria.
— Nada que você mesma não tenha ouvido, tenho certeza.
9
Depois as damas se foram. E o père também, para um ou outro afazer. Roland de Gilead sentou-se no degrau inferior do alpendre, olhando o local ladeira abaixo da competição tão recentemente concluída. Quando Susannah lhe perguntou se estava satisfeito, assentiu com a cabeça.
— Estou, acho que tá tudo bem aí. Temos de esperar que sim, pois o tempo se estreita agora. Tudo vai acontecer rápido.
A verdade era que jamais passara por tal confluência de acontecimentos... mas apesar disso, desde que Susannah admitira a gravidez, ele se acalmara.
Você lembrou a verdade de ka em sua mente gazeteira, pensou. E isso aconteceu porque essa mulher exibiu aquela bravura que o resto de nós não poderia reunir muito.
— Roland, eu vou voltar para a Rocking B? — perguntou Jake.
O pistoleiro pensou, depois deu de ombros.
— Você quer?
— Sim, mas desta vez quero levar a Ruger. — Corou um pouco, mas a voz permaneceu estável. Acordara com a idéia, como se o deus do sono que Roland chamava de Nis a houvesse incutido nele enquanto dormia. — Vou pôr embaixo da minha colcha e enrolar na minha camisa extra. Ninguém precisa saber que está lá. — Fez uma pausa. — Não quero exibi-la pro Benny, se é o que está pensando.
A idéia nunca passara pela mente de Roland. Mas que tinha Jake em mente? Ele fez a pergunta, e a resposta do garoto foi daquelas que se dá quando já se fez com muita antecipação o mapa do curso provável de uma discussão.
— Pergunta como meu dinh?
Roland abriu a boca para dizer sim, viu a intensa atenção com que o olhavam Eddie e Susannah, e pensou melhor. Havia uma diferença entre guardar segredos (como cada um deles guardara à sua maneira o segredo da gravidez de Susannah) e seguir o que Eddie chamava de “palpite”. O pedido por trás do pedido de Jake ia ser-lhe atendido com mais liberdade de ação. Muito simples. E com certeza Jake tinha direito a um pouco mais de liberdade de ação. Não era o mesmo garoto que chegara ao Mundo Médio tremendo, apavorado e seminu.
— Não como seu dinh — respondeu. — E quanto à Ruger, pode levá-la a qualquer lugar e a qualquer hora. Não a trouxe para o tet logo de início?
— Eu a roubei — disse Jake em voz baixa e cabisbaixo.
— Você trouxe o que precisava pra sobreviver — disse Susannah. — Há uma grande diferença. Escute, doçura, não está planejando atirar em alguém, está?
— Planejando, não.
— Cuidado — disse ela. — Não sei o que tem na cabeça, mas tome cuidado.
— E seja lá o que for, é melhor que esteja resolvido na próxima semana, ou por aí assim — disse-lhe Eddie.
Jake assentiu e olhou para Roland.
— Quando planeja convocar a assembléia da cidade?
— Segundo o robô, ainda temos dez dias até a chegada dos Lobos. Portanto... — Roland fez um breve cálculo. — Assembléia da cidade daqui a seis dias. Convém a você?
Jake mais uma vez assentiu.
— Tem certeza de que não quer nos contar o que tem em mente?
— Tenho, a não ser que pergunte como dinh — disse Jake. — Talvez não seja nada, Roland. Verdade.
Roland assentiu, em dúvida, e pôs-se a enrolar outro cigarro. Ter tabaco fresco era maravilhoso.
— Há mais alguma coisa? Porque se não houver...
— Na verdade, há — disse Eddie.
— O quê?
— Preciso ir a Nova York — falou casualmente, como se propondo não mais que uma viagem ao mercado para comprar picles ou balas de alcaçuz, mas com os olhos dançando de excitação. — E desta vez terei de ir era carne e osso. O que significa usar o globo mais diretamente, imagino. Treze Preto. Espero como o diabo que saiba fazer isso, Roland.
— Pra que você precisa ir a Nova York? — perguntou Roland. — Isto eu de fato pergunto como dinh.
— Claro que sim — disse Eddie —, e vou lhe dizer. Porque você tem razão quanto ao tempo estar-se reduzindo. E porque os Lobos de Calla não são os únicos com os quais temos de nos preocupar.
— Quer saber até que ponto está perto o 15 de Julho — disse Jake. — Não é?
— É — disse Eddie. — Sabemos de quando todos entramos em todash que o tempo está correndo mais rápido naquela versão 1977 de Nova York. Lembra da data naquela parte de The New York Times que encontrei na porta da entrada?
— Dois de junho — disse Susannah.
— Certo. Também temos quase toda a certeza de que não podemos voltar no tempo naquele mundo; é sempre mais tarde toda vez que vamos lá. Certo?
Jake assentiu enfaticamente.
— Porque aquele mundo não é igual aos outros, a não ser que talvez tenha sido apenas o fato de sermos enviados a todash pelo Treze Preto que nos fez sentir daquele jeito?
— Acho que não — disse Eddie. — Aquele trecho da Segunda Avenida entre o terreno baldio e talvez até a Sessenta é um lugar muito importante. Acho que há uma porta de entrada. Das grandes.
Jake Chambers parecia cada vez mais excitado.
— Não até a Sessenta. Não tão distante. A Segunda Avenida entre a Quarenta e Seis e a Cinqüenta e Quatro, é o que acho. No dia em que abandonei a Piper, senti alguma coisa mudar quando cheguei à Cinqüenta e Quatro. O trecho da loja de discos, o Chew Chew Mama’s e o Restaurante da Mente de Manhattan. E o terreno baldio, claro. Essa é a outra ponta. Parece que... eu não sei...
Eddie disse:
— Estar lá leva a gente a um mundo diferente. Algum tipo de mundo-chave. E acho que é por isso que o tempo corre numa única direção...
Roland ergueu a mão.
— Pare.
Eddie parou, olhando-o em expectativa e sorrindo um pouco. Parte de sua sensação de bem-estar se fora. Coisas demais a fazer, droga. E sem tempo suficiente para fazê-las.
— Você quer ver quanto tempo transcorreu desde o dia em que o acordo se tornou nulo e invalidado — disse. — Entendi direito?
— Entendeu.
— Não precisa ir a Nova York fisicamente pra fazer isso, Eddie. Todash serviria à perfeição.
— Todash seria perfeito para conferir o dia e o mês, claro, porém há mais. Ficamos imbecilizados naquele terreno baldio, a rapaziada aqui. Quer dizer, realmente imbecilizado.