A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 20 de 43

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

Capítulo 1

 

Eddie, um rapaz citadino até a medula, ficou quase chocado ao ver o quanto gostara da casa dos Jaffords na estrada do Rio. Eu poderia viver num lugar desses, pensou. Seria legal. Ia me fazer bem.

Era uma cabana comprida, habilmente construída e calafetada contra os ventos hibernais. Ao longo de um lado, grandes janelas descortinavam uma vista desde o topo de uma alta e suave colina até os arrozais e o rio embaixo. No outro lado, ficavam o celeiro e o jardim da entrada, terra batida embelezada com ilhas circulares de grama e flores, e à esquerda do alpendre dos fundos, uma pequena horta meio exótica. Metade dela era ocupada por uma erva amarela chamada madrigal, que Tian esperava que florescesse em quantidade no ano seguinte.

Susannah perguntou a Zalia como mantinha as galinhas fora das plantas, e ela riu, pesarosa, soprando os cabelos para trás da testa.

— Com grande esforço, é como mantenho. Mas o madrigal cresce, sim, você vê, e onde coisas crescem, há sempre esperança.

O que Eddie gostava era a maneira como tudo parecia funcionar em harmonia e proporcionar uma sensação caseira. Não se podia dizer exatamente o que causava essa sensação, porque não era nenhuma coisa única, mas...

Sim, há uma coisa. E não tem nada a ver com o rústico visual do lugar, com a cabana de ripas de madeira, nem com a horta e as galinhas ciscando, e tampouco com os canteiros de flores.

Eram as crianças. A princípio, ele ficou meio aturdido com o número delas, apresentadas à inspeção dele e de Suze como um pelotão de soldados ao olhar de um general visitante. E, por Deus, à primeira vista parecia haver quase o bastante delas para formar um batalhão... ou pelo menos um pelotão.

— Aqueles na ponta são Heddon e Hedda — disse Zalia, apontando o par de cabelos louro-escuros. — Têm dez anos. Mostrem suas boas maneiras, vocês dois.

Heddon esboçou uma vênia, batendo ao mesmo tempo na testa encardida com o lado do punho ainda mais encardido. Cobrindo todas as bases, pensou Eddie. A menina fez uma mesura.

— Longas noites e belos dias — disse Heddon.

— É belos dias e longas vidas, seu burrinho — sussurrou no palco Hedda, depois fez uma reverência e repetiu o sentimento no que julgava ser a maneira correta.

O excesso de temor reverente de Heddon pelos forasteiros impediu que fulminasse com o olhar a irmã sabe-tudo, ou até realmente notá-la.

— Os dois mais moços são Lyman e Lia — disse Zalia.

Lyman, que parecia todo olhos e boquiaberto, curvou-se com tanta violência que quase caiu no chão. Lia, na verdade, tombou ao fazer sua mesura. Eddie teve de lutar para manter a expressão em ordem quando Hedda levantou a irmã do chão, desaprovando.

— E este — disse, beijando o bebê grande em seus braços — é Aaron, meu amorzinho.

— Seu filho não gêmeo — disse Susannah.

— Ié, dona, é sim.

Aaron se pôs a lutar, chutando e se debatendo. Zalia botou-o no chão. Aaron puxou a fralda e saiu trotando para o lado da casa, a berrar pelo pai.

— Heddon, vá atrás tomar conta dele — disse Zalia.

— Mamãe, não! — Ele enviou-lhe frenéticos sinais oculares de que queria ficar ali mesmo, ouvindo os estranhos e comendo-os com os olhos.

— Mamãe, sim! — disse Zalia. — Obedeça e cuide de seu irmão, Heddon.

O garoto talvez tivesse continuado a discutir, mas nesse momento Tian Jaffords contornou a quina de sua cabana e tomou o menininho nos braços. Aaron rejubilou-se, derrubou o chapéu de palha do pai e puxou-lhe o cabelo suado.

Eddie e Susannah mal notaram isso. Tinham os olhos cravados apenas nos gigantes de uniforme vindo atrás de Jaffords. Eddie e Susannah talvez tivessem visto uma dezena de pessoas extremamente grandes em sua jornada pelas pequenas propriedades ao longo da estrada do Rio, mas sempre a distância. (“A maioria se acanha na presença de estranhos, vocês sabem como é”, dissera Eisenhart.) Aqueles dois estavam a menos de 3 metros.

Homem e mulher, ou menino e menina? As duas coisas ao mesmo tempo, pensou Eddie. Porque a idade deles não importa.

A moça, suada e rindo, tinha de ter no mínimo l,98m de altura, seios que pareciam o dobro do tamanho da cabeça de Eddie. Trazia numa corrente ao pescoço um crucifixo de madeira. O rapaz, no mínimo 15 centímetros mais alto que a cunhada. Ele olhou timidamente os recém-chegados e pôs-se a chupar o polegar com uma das mãos e apertar as entrepernas com a outra. Para Eddie, o mais impressionante neles não era o tamanho, mas a assombrosa semelhança com Tian e Zalia. Era como olhar os primeiros rascunhos toscos de uma obra de arte que acaba dando certo. Eram tão claramente débeis mentais, ambos, e tão claramente, tão visivelmente relacionados com pessoas que não eram.

Não, pensou Eddie, a palavra é roont.

— Este é meu irmão Zalman — disse Zalia, o tom estranhamente formal.

— E minha irmã Tia — acrescentou Tian. — Apresentem suas boas maneiras, seus dois desajeitados.

Zalman apenas avançou uns passos, chupando uma parte de si mesmo e amassando a outra. Tia, contudo, fez uma imensa mesura (semelhante a uma pata).

— Longos dias longas noites longa terra! — gritou ela. — TEMOS BATATA E MOLHO DE CARNE !

— Ótimo — disse Susannah, baixinho. — Batata e molho de carne está ótimo!

— BATATA E MOLHO DE CARNE ESTÁ ÓTIMO ! — Tia enrugou o nariz, afastando o lábio superior dos dentes num sorriso meio suíno de boa camaradagem. — BATATA E MOLHO DE CARNE! BATATA E MOLHO DE CARNE! BOAS E VELHAS BATATAS E MOLHO DE CARNE!

Hedda tocou a mão de Susannah, hesitante.

— Ela vai continuar assim o dia inteiro, a não ser que a mande calar, dona-sai.

— Xiu, Tia — disse Susannah.

Tia deu um ronco de risada para o céu, cruzou os braços sobre os prodigiosos seios e calou-se.

— Zal — disse Tian. — Você precisa fazer xixi, não?

O irmão de Zalia não disse nada, apenas continuou apertando as entrepernas.

— Vai fazer xixi — disse Tian. — Vai ali atrás do celeiro. Regue a raiz-forte, agradeça.

Por um momento, nada aconteceu. Então Zalman partiu, deslocando-se num modo de andar largo, atrapalhado.

— Quando eles eram pequenos... — começou Susannah.

— Brilhantes como ágatas polidas, os dois — disse Zalia. — Agora ela está mal e meu irmão ainda pior.

Ela levou bruscamente as mãos ao rosto. Aaron deu uma risada alta disso e cobriu o próprio rosto em imitação (“Tapa-olho”, gritou por entre os dedos), mas os dois pares de gêmeos pareceram sérios. Alarmados, até.

— Qual o problema com mamãe? — perguntou Lyman, puxando a perna da calça do pai.

Zalman, alheio a tudo, continuava em direção ao celeiro, ainda com uma das mãos na boca, a outra na virilha.

— Nada, filho. Está tudo bem com a sua mãe. — Tian pôs o bebê no chão, depois correu os dedos pelos olhos. — Está tudo ótimo. Não está, Zee?

— Sim — disse ela, baixando as mãos.

Tinha os contornos dos olhos vermelhos, mas não chorava.

— E com a bênção, o que não está ótimo vai ficar.

— Dos seus lábios para o ouvido de Deus — disse Eddie, vendo o gigante a gingar atrapalhado até o celeiro. — Dos seus lábios para o ouvido de Deus.

 

2

— Será que ele está num de seus dias lúcidos, seu grand-pèrê — perguntou Eddie a Tian alguns minutos depois.

Haviam contornado a casa, até o lugar onde Tian podia mostrar a Eddie o trato que batizara como Filho-da-Puta, deixando Zalia e Susannah com todas as crianças grandes e pequenas.

— Não tanto que dê pra notar — disse Tian, a expressão sombreando-se. — Ele não é nem meio doido e não quer nada comigo, de qualquer modo. Com ela, sim, porque lhe dá de comer na boca e diz-lhe graças. Não basta eu ter dois grandes desajeitados roonts pra alimentar, não? Tenho de ter também aquele velho intratável. A cabeça ficou tão enferrujada quanto uma dobradiça velha. Metade do tempo ele nem sabe quem é, diabos, se há coisa pior!

Continuaram andando, o mato a roçar-lhes nas calças. Duas vezes Eddie quase tropeçou em pedras, e uma vez Tian pegou seu braço e levou-o em volta do que parecia o perfeito buraco quebra-canelas. E no entanto havia sinais de cultivo. Era difícil acreditar que alguém pudesse puxar um arado naquela confusão, mas parecia que Tian Jaffords andara tentando.

— Se sua mulher tiver razão, eu preciso falar com ele — disse Eddie. — Preciso ouvir sua história.

— Meu avô tem histórias, certo. Meio milhão delas! O problema é que a maioria era mentira desde o início e agora ele mistura todas elas. Sua pronúncia sempre foi pastosa, e nos últimos três anos também perdeu três dentes. É provável que você não consiga entender os disparates dele, pra começar. Desejo que você goste dele, Eddie de Nova York.

— Que diabos fez ele a você, Tian?

— Não foi o que ele fez a mim, mas a meu pai. É uma longa história, e nada tem a ver com esse assunto. Esqueça.

— Não, esqueça você — disse Eddie, parando.

Tian olhou-o, assustado. Eddie balançou a cabeça, sem sorrir: você me ouviu. Ele tinha 25 anos, já um ano mais velho que Cuthbert Allgood no seu último dia na colina Jericó, mas naquela luz do dia se esvaindo poderia passar por um homem de 50 anos. Um homem de severa certeza.

— Se ele viu um Lobo morto, precisamos interrogá-lo para nossas ações.

— Eu não estou reconhecendo você, Eddie.

— Ié, mas acho que entende muito bem o que eu quero dizer. Seja lá o que tenha contra ele, esqueça. Se resolvermos a questão dos Lobos, você tem minha permissão pra chutá-lo na lareira ou empurrá-lo da porra do telhado. Mas, por ora, guarde seu rabo ferido pra si mesmo. Certo?

Tian assentiu. Ficou ali olhando seu problemático trato do norte, o que chamava de Filho-da-Puta, com as mãos nos bolsos. Enquanto pensava na questão, tinha a expressão de perturbada cobiça.

— Você acha que a história dele, de que matou o Lobo, é pura balela? Se acha mesmo, não vou perder meu tempo.

De má vontade, Tian disse:

— Sou mais propenso a acreditar nessa que na maioria das outras.

— Por quê?

— Bem, ele a contava desde que eu tinha idade bastante pra escutar, e esta nunca muda muito. E também... — As palavras seguintes de Tian saíram mastigadas, como se ele as falasse por dentes trincados. — A meu grand-père nunca faltaram audácia e valentia. Se alguém tivesse coragem bastante para sair até a estrada do Leste e enfrentar os Lobos, sem mencionar suficiente trum pra conseguir que outros o acompanhassem, eu apostaria meu dinheiro em Jamie Jaffords.

— Trum?

Tian pensou em como explicar.

— Se você tivesse de enfiar a cabeça na boca de um gato da montanha, isto exigiria coragem, não?

Exigiria idiotice, foi o que pensou Eddie, mas assentiu com a cabeça.

— E se você fosse o tipo de homem que conseguisse convencer alguém mais a enfiar a cabeça na boca de um gato da montanha, isto o tornaria trum. Seu dinh é trum, não é?

Eddie lembrou-se de algumas das coisas que Roland o mandara fazer, e assentiu. Roland era trum, certíssimo. Uma porra de trum. Eddie tinha certeza de que os velhos amigos do pistoleiro teriam dito a mesma coisa.

— Ié — disse Tian, voltando o olhar para o campo. — Em todo caso, se pretende tirar alguma coisa semi-sensata do velho, eu esperaria até depois do jantar. Ele se ilumina um pouco mais assim que come as rações e toma uma caneca de graf. E cuide pra que minha mulher esteja sentada bem a seu lado, onde ele possa dar-lhe uma boa olhada. Imagino que tentaria muito mais que pôr o olho nela, se fosse um homem mais jovem.

A expressão em seu rosto ficou mais uma vez sombria.

Eddie segurou-o pelo ombro.

— Bem, ele não é mais jovem. Você é. Portanto se anime, tá legal?

— Tá. — Tian fez um visível esforço para conseguir apenas isso. — Que acha do meu campo, pistoleiro? Vou plantar madrigal ano que vem. Aquela coisa amarela que semeamos no terreno da frente.

O que Eddie achou foi que o campo parecia uma enorme decepção à espera de acontecer. Desconfiava no fundo de seu íntimo de que Tian achava a mesma coisa; você não batizaria seu único terreno não plantado de Filho-da-Puta se esperasse que boas coisas iam acontecer. Mas ele conhecia a expressão no rosto de Tian. Era a que Henry tinha quando os dois saíam à cata de droga. Ia sempre ser a melhor daquela vez, a melhor de todas até então. A Branca da China, e não importava que fosse a Marrom Mexicana, que fazia a cabeça doer e desatava as tripas. Iam ficar muito doidões durante uma semana, o melhor barato de todos, numa boa, e depois largar a heroína para sempre. Esta era a escritura de Henry, e poderia ter sido Henry ali a seu lado, dizendo-lhe que excelente safra comercial era o madrigal, e como as pessoas que lhe haviam dito que seria impossível cultivá-la naquele norte tão extremo iam ver o feitiço virar contra o feiticeiro quando chegasse a colheita seguinte. E depois ele ia comprar o campo de Hugh Anselm no outro lado de seu penhasco, empregar mais dois homens quando chegasse a colheita, pois a terra ficaria dourada até onde a vista alcançasse, ora, poderia até abandonar de vez o arroz e tornar-se um monarca do madrigal.

Eddie indicou o campo com a cabeça, onde nem a metade fora arada.

— Mas parece uma lavragem lenta e árdua. Você precisa ter um cuidado da porra com as mulas.

Tian deu uma risadinha.

— Eu não arrisco uma mula ali, Eddie.

— Então ara com o quê?

— Com a minha irmã.

O queixo de Eddie caiu.

— Está me sacaneando!

— De jeito nenhum. Eu lavraria com Zal, também, ele é maior, como você viu, e até mais forte, mas não tão inteligente. Mais problemas do que valia a pena, já experimentei.

Eddie abanou a cabeça, sentindo-se aturdido. As sombras dos dois se estendiam longas sobre a terra grumosa, com sua colheita de ervas daninhas e cardo.

— Mas... cara... ela é sua irmã!

— É, e o que mais ela poderia fazer o dia todo? Sentar-se diante da porta do celeiro e vigiar as galinhas? Dormir cada vez mais horas e só se levantar pra suas batatas e molho de carne? Com o arado é melhor, acredite. Ela não se incomoda. É muito difícil fazê-la arar reto, mesmo quando não tem uma pedra que destrói o arado ou um buraco a cada oito ou dez passos, mas ela puxa como o diabo e ri como uma doida.

O que convenceu Eddie foi a seriedade do sujeito. Não se desprendia qualquer defesa de suas palavras, pelo menos que ele detectasse.

— Além disso, ela na certa estará morta daqui a dez anos, de qualquer modo. Deixe que ajude como pode, eu digo. E Zalia acha a mesma coisa.

— Tudo bem, mas por que não pega Andy pra fazer pelo menos parte da lavragem? Aposto que faria mais rápido que você. Todos os caras com as pequenas propriedades poderiam dividi-lo, já pensou nisso? Ele poderia arar seus campos, escavar os poços, erguer uma viga no telhado de um celeiro e tudo sozinho. E vocês se poupariam para batatas e molhos. — Deu mais um tapa no ombro de Tian. — Isto só pode fazer bem a você.

A boca de Tian contraiu-se num arabesco.

— É um lindo sonho, concordo.

— Não funciona, hem? Ou melhor, ele não funciona?

— Algumas coisas ele faz, mas arar campos e perfurar poços não estão entre elas. A gente pede e ele pergunta a nossa senha. Quando não temos nenhuma senha pra dar, ele pergunta se queremos tentar novamente. E depois...

— Depois ele lhe diz que você está com uma merda de falta de sorte. Por causa da tal Diretriz 19.

— Se você sabia, por que perguntou?

— Eu sabia que ele agia assim em relação aos Lobos, porque lhe perguntei. Não sabia que se estendia a todas essas outras coisas.

Tian balançou a cabeça.

— Ele realmente não é de grande ajuda, e às vezes fica chato. Se você ainda não percebe agora, vai perceber se ficar aqui algum tempo, mas ele nos diz, sim, quando os Lobos estão a caminho, e por isso todos nós lhe agradecemos.

Eddie na verdade teve de reprimir a pergunta que lhe veio aos lábios. Por que lhe agradeciam quando a notícia dele de nada servia, além de deixá-los infelizes? Claro que daquela vez talvez houvesse mais que isso: daquela vez, a notícia de Andy poderia de fato levar a uma mudança. Seria essa notícia o que o Sr. Você-Vai-Encontrar-um-Estranho-Interessante estivera apresentando tendenciosamente durante todo aquele tempo? Fazer o pessoal erguer-se nas patas traseiras e lutar? Eddie lembrou-se do sorriso decididamente hipócrita e achou tamanho altruísmo difícil de engolir. Não era justo julgar pessoas (nem robôs, talvez) pela maneira como sorriam ou falavam, e no entanto todo mundo fazia isso.

Agora que pensei nisso, e quanto à voz dele? E aquela coisinha presunçosa Eu-sei-e-você-não-sabe-o-que-vai-acontecer? Ou estou imaginando isso também?

O diabo de tudo aquilo era que ele não sabia.

 

3

O som da voz de Susannah acompanhada pelas risadinhas das crianças — todas as crianças grandes e pequenas — atraiu Eddie e Tian de volta ao outro lado da casa.

Zalman segurava a ponta do que parecia uma corda de arado. Tia a outra. Giravam-na em arcos ociosos, com sorrisos radiantes nos rostos, enquanto Susannah, sentada no chão, recitava uma cantiga de pular corda de que Eddie lembrava vagamente. Zalia e seus outros quatro filhos pulavam em uníssono, os cabelos subindo e caindo. Parado perto, o bebê Aaron estava agora com a fralda frouxa até os joelhos. Um enorme e maravilhado sorriso estampava-se em seu rosto. Fazia movimentos de girar a corda com o punho rechonchudo.

— “Pula-pula sem errar! Um dois três! Pula-pula sem parar! Quatro cinco seis! Pula-pula sem errar!” Mais rápido, Zalman! Mais rápido, Tia! Vamos lá, façam-nos pular mesmo!

Tia logo girou sua ponta mais rápido, e um momento depois Zalman a alcançou. Parece que aquilo era uma coisa que ele sabia fazer. Rindo, Susannah cantou mais rápido.

— “Pula-pula sem parar! Quatro cinco seis! E ao céu vamos chegar!” Dá-lhe, Zalia, estou vendo seus joelhos, menina! Mais rápido, caras! Mais rápido!

Os quatro gêmeos pulavam como petecas, Heddon com os punhos enfiados nas axilas, corcoveando. Agora que haviam dominado o temor reverente que os deixara desajeitados, os mais moços pulavam em perfeita harmonia. Até os cabelos deles pareciam voar nos mesmos tufos. Eddie viu-se lembrando-se dos gêmeos Tavery, cujas sardas pareciam idênticas.

— “Pula-pula sem parar!...” — Ela então parou. — Ai, Eddie! Não me lembro mais do resto!

— Mais rápido, pessoal! — disse Eddie aos gigantes que giravam a corda. Eles obedeceram, Tia relinchando para o céu que escurecia. Eddie mediu a volta da corda com os olhos, movendo-se para a frente e para trás fletindo os joelhos, pegando o ritmo dela. Levou a mão à coronha do revólver de Roland para certificar-se de que não ia se soltar no ar.

— Eddie Dean, você não vai, jamais... conseguir! — gritou Susannah, rindo.

Mas na vez seguinte que a corda subiu, ele conseguiu, pulando entre Hedda e sua mãe. De frente para Zalia, com o rosto vermelho, suado, ele pulou com ela em perfeita harmonia. Eddie cantou os únicos versos que haviam sobrevivido na memória. Para manter-se no ritmo, teve de fazê-lo quase tão rápido quanto o leiloeiro de uma feira de atrações.

— “E ao céu vamos chegar! Pula-pula sem parar! Um dois três! E ao céu vamos chegar! Quatro cinco seis!” Vamos, pessoal! Girem mais rápido!

Eles o fizeram, rodopiando a corda tão rápido que era quase um borrão. Num mundo que agora parecia subir e descer como um saltador a mola de um palhaço invisível, ele viu um homem de cabelos revoltos e espetados e suíças encanecidas sair para a varanda, como um ouriço-cacheiro de sua toca, martelando uma bengala de ferro. Olá, grand-père, pensou Eddie, depois descartou a idéia por enquanto. Só queria agora manter o ritmo e não ser aquele que ia ferrar o volteio. Na infância, sempre gostara de pular corda, e sempre odiara a idéia de que tinha de abandonar a brincadeira assim que entrara na Escola Elementar Roosevelt ou ser condenado para sempre como maricas. Mais tarde, na aula de educação física do ensino médio, redescobrira brevemente as alegrias de pular corda. Mas nunca fora nada como aquilo. Era como se houvesse descoberto (ou redescoberto) uma mágica prática que unia as vidas de Nova York dele e de Susannah àquela outra vida de uma maneira que não exigia portas mágicas ou bolas de cristal, nem estado todash. Ele ria, delirante, e começou a bater com os pés abrindo-os para a frente e para trás como uma tesoura. Um momento depois, Zalia Jaffords fazia o mesmo, imitando-o passo por passo. Era tão gostoso quanto a dança do arroz. Talvez melhor, porque todos o faziam em uníssono.

Certamente era mágico para Susannah, e de todas as maravilhas à frente e atrás, todos aqueles momentos no jardim da frente dos Jaffords mantinham sempre seu brilho próprio e singular. Não dois pulando um atrás do outro, mas seis, enquanto os dois idiotas sorrindo giravam a corda o mais rápido que lhes permitiam os braços que pareciam postas.

Tian riu, batendo as botas no chão, e gritou:

— Isto é melhor que o tambor! Não é mesmo? Pode apostar!— E da varanda seu avô soltou uma gargalhada tão enferrujada que Susannah teve de se perguntar há quanto tempo ele guardara aquele som em bolas de naftalina.

Por mais cinco segundos ou por aí assim a magia perdurou. A corda de pular girava tão rápido que o olho a perdia e ela existia como apenas um zunido, como de uma asa. A meia dúzia naquele zunido — de Eddie, o mais alto, na ponta de Zalman, ao rechonchudo e pequenino Lyman, na de Tia — subia e descia como pistons numa máquina.

Então a corda esbarrou no salto de alguém — Heddon, pareceu a Susannah, embora depois todos assumissem a culpa para que ninguém tivesse de sentir-se mal —, e eles se esparramaram na poeira, arquejando e rindo. Eddie, agarrando o peito, captou o olhar de Susannah.

— Estou tendo um ataque cardíaco, benzinho, é melhor ligar pra 911.

Ela içou-se até onde ele se encontrava e baixou a cabeça para poder beijá-lo.

— Não, não está, mas está atacando o meu coração, Eddie Dean. Eu amo você.

Eddie olhou-a seriamente da poeira do quintal. Sabia que, por mais que ela o amasse, ele sempre a amaria mais. E como sempre quando pensava nessas coisas, veio-lhe a premonição de que o ka não era amigo dos dois, que tudo ia terminar pessimamente entre eles.

Se assim for, então sua tarefa é fazer disso o melhor possível enquanto durar. Fará sua tarefa, Eddie?

— Com o maior prazer — disse ele.

Ela ergueu as sobrancelhas, sem entender.

— É mesmo? — disse ela, fala de Calla para dizer: Como?

— É sim — disse ele. — Acredite em mim, é sim.

Passou o braço em volta do pescoço dela, puxou-a, beijou-lhe a testa, o nariz e por fim os lábios. Os gêmeos sorriram e bateram palmas. O bebê riu alto. E na varanda o velho Jamie Jaffords fez o mesmo.

 

4

Todos ficaram famintos após o exercício, e com Susannah ajudando-a de sua cadeira, Zalia Jaffords serviu uma lauta refeição na longa mesa de ca-valetes ao ar livre nos fundos da casa. A vista era campeã, na opinião de Eddie. No sopé da montanha, estendia-se um campo do que julgou ser um tipo resistente de arroz, que agora se erguia à altura do ombro de um homem alto. Além dele, o rio cintilava à luz do pôr do sol.

— Não gostaria de nos dar o início com uma palavra, Zee? — pediu Tian.

Ela pareceu satisfeita ao ouvir isso. Susannah disse a Eddie depois que Tian não tinha em alta consideração a religião da mulher, mas parecia ter mudado desde o inesperado apoio que recebeu de père Callahan no Salão da Assembléia da Cidade.

— Baixem a cabeça, crianças.

Quatro cabeças abaixaram-se... seis, contando as grandes. Lyman e Lia franziram os olhos fechando-os tão apertados que pareciam crianças com uma terrível enxaqueca. Estenderam as mãos, limpas e brilhando com um rosa forte do jato frio da bomba ali fora diante deles.

— Abençoe esta comida ao nosso dispor, Senhor, e nos torne gratos. Obrigada por nossa companhia, que os façamos ficarem bem e eles a nós. Livre-nos do terror que voa ao meio-dia e do que rasteja à noite. Damos graças.

— Graças! — gritaram as crianças. Tia quase alto demais para fazer trepidar as janelas.

— Em nome de Deus Pai e de Seu Filho, o Homem Jesus — disse ela.

— Homem Jesus — gritaram as crianças.

Eddie achou graça ao ver o grand-père, que usava um crucifixo quase tão grande quanto o usado por Zalman e Tia, ficar sentado com os olhos abertos, futicando pacificamente o nariz durante as orações.

— Amém.

— Amém!

— BATATA! — gritou Tia.

 

5

Tian sentava-se a uma das cabeceiras da mesa, Zalia à outra. Os gêmeos não foram manobrados para o gueto de uma “mesa da pirralhada” (como Susannah e os primos sempre haviam sido em reuniões familiares, e como ela odiava isso), mas se sentavam em fila num dos lados da mesa, com os dois mais velhos flanqueando o par mais moço. Heddon ajudava Lia; Hedda ajudava Lyman. Susannah e Eddie sentavam-se lado a lado defronte das crianças, com um jovem gigante à esquerda de Susannah e o outro à direita de Eddie. O bebê se saiu bem primeiro no colo da mãe e depois, quando se chateou, no do pai. O velho sentava-se junto a Zalia, que o serviu, cortou-lhe o bife em pedaços bem pequenos, e na verdade limpou-lhe o queixo quando o molho escorreu. Tian exasperou-se com isso, de uma maneira mal-humorada que lhe dava pouco crédito, mas ficou de boca fechada, exceto uma vez, quando perguntou ao avô se ele queria mais pão.

— Meu braço ainda funciona, se eu quiser — disse o velho, e pegou a cesta de pão para prová-lo. Fez isso lepidamente para alguém avançado em anos, depois estragou a impressão de vivacidade derrubando o galheteiro. — Bosta mole! — gritou.

As quatro crianças se entreolharam, espantadas, levaram as mãos às bocas e deram risadinhas. Tia jogou a cabeça para trás e zurrou para o céu. Um dos ombros esbarrou nas costelas de Eddie e quase o derrubou da cadeira.

— Eu gostaria que não falasse assim na frente das crianças — disse Zalia, endireitando o galheteiro.

— Rogo seu perdão — disse o grand-père.

Eddie perguntou-se se ele teria conseguido tão encantadora humildade se a repreensão houvesse vindo do neto.

— Deixe-me ajudar a lhe servir um pouco disto — disse Susannah, tomando o galheteiro de Zalia.

O velho encarou-a com olhos úmidos, quase com veneração.

— Eu não vejo uma verdadeira mulata faz, oh, eu diria, uns quarenta anos — disse-lhe o grand-père. — Antigamente costumavam vir nas barcaças mercantis do lago, mas não vêm mais. — Quando o grand-père disse barcaças, saiu cabaços.

— Espero que não seja um grande choque descobrir que continuamos aqui — disse Susannah, e deu-lhe um sorriso. O velho respondeu com outro, lascivo e desdentado.

O bife era duro, mas saboroso, o milho quase tão bom quanto o da refeição que Andy preparara perto da borda da mata. A tigela de batata, embora quase do tamanho de uma bacia de lavar roupas, teve de ser reenchida duas vezes, a do molho de carne três vezes, mas para Eddie a verdadeira revelação foi o arroz. Zalia serviu três tipos diferentes, e pelo que ele achou, cada um melhor do que o anterior. Os Jaffords, contudo, comeram-no quase alheios, como pessoas bebem água num restaurante. A refeição terminou com uma torta de maçã, e depois as crianças foram liberadas para brincar. O grand-père acrescentou o toque final com um sonoro arroto.

— Eu agradeço — disse ele a Zalia. — Ótimo como sempre, Zee.

— Fico feliz em vê-lo comer assim, pai — disse ela.

Tian grunhiu e disse:

— Pai, estes dois querem conversar com o senhor sobre os Lobos.

— Só Eddie, se está tudo bem — corrigiu Susannah com rápida determinação. — Eu vou ajudar a tirar a mesa e lavar a louça.

— Não precisa — disse Zalia.

Eddie achou que a mulher estava enviando com os olhos uma mensagem a Susannah: Fique, ele gosta de você, mas Susannah não viu ou preferiu ignorá-la.

— De jeito nenhum — disse ela, transferindo-se para a cadeira de todas com a facilidade da longa experiência. — Falará com meu homem, não, sai Jaffords?

— Tudo isso foi há muito tempo, e, aliás — disse o velho, mas não parecia relutante —, não sei se sou capaz. Minha mente não guarda uma história como antigamente.

— Mas eu ouvirei o que ainda se lembra — disse Eddie. — Cada palavra.

Tia zurrou alto como se fosse a coisa mais engraçada que já ouvira. Zal fez o mesmo, depois tascou longe o último resto de purê de batata da tigela com a mão quase tão grande quanto uma tábua de cortar carne. Tian deu-lhe uma palmada.

— Não faça isto, seu grande mentecapto, quantas vezes eu já lhe disse?

— Está bem — disse o grand-père. — Falarei um pouco, se quiser me ouvir, rapaz. Que mais posso fazer nestes dias a não ser tentear com esta bengala? Ajude-me a voltar para a varanda, pois é um pouco mais fácil descer os degraus que subir. E se você enchesse meu cachimbo, menina filha, me faria bem, pois um cachimbo ajuda a gente a pensar, é, ajuda sim.

— Claro que sim — disse Zalia, ignorando outro olhar azedo do marido. — Agora mesmo.

 

6

— Tudo isto foi há muito tempo, você deve saber — disse o grand-père, assim que Zalia Jaffords o instalou na cadeira de balanço com uma almofada nas costas e ele aspirou confortavelmente o cachimbo. — Não sei dizer ao certo se os Lobos vieram duas ou três vezes desde então, pois embora eu estivesse há 19 colheitas na terra, perdi a contagem dos anos que se passaram nesse meio-tempo.

A noroeste, a linha vermelha do pôr do sol tornara-se uma deslumbrante sombra de resíduos de rosa. Tian estava no celeiro com os animais, ajudado por Heddon e Hedda. Os gêmeos mais moços, na cozinha. Os gigantes, Tia e Zalman, na outra extremidade do quintal, olhando para leste, sem falarem nem se mexerem. Pareciam monólitos numa fotografia da National Geographic da ilha de Páscoa. A visão deles causava em Eddie um moderado surto de arrepios. Mas ainda assim ele levava em conta suas bênçãos. O grand-père parecia relativamente inteligente e consciente, e embora seu sotaque fosse espesso, quase burlesco, não tivera o menor problema em acompanhar o que o homem dizia, pelo menos até então.

— Não acho que os anos no meio tenham tanta importância, senhor — disse Eddie.

As sobrancelhas do grand-père se ergueram. Ele deu uma risada enferrujada.

— Senhor, ainda! Faz muito, muito tempo que não ouço isto! Você deve ser da gente do norte!

— Acho que sim — disse Eddie.

O avô caiu num longo silêncio, olhando o pôr do sol extinguindo-se. Depois voltou a olhar para Eddie, com certa surpresa.

— Nós já comemos? Desbastamos algumas rações?

O coração de Eddie afundou.

— Sim, senhor. Na mesa do outro lado da casa.

— Pergunto porque vou despejar um pouco de barro, geralmente despejo diretamente depois da refeição da noite. Não sinto nenhuma urgência, por isso achei que devia perguntar.

— Sim. Nós comemos.

— Ah. E qual é o seu nome?

— Eddie Dean.

— Ah. — O velho chupou o cachimbo. Cachos gêmeos de fumaça desprenderam-se do nariz. — E o bolinho de chocolate é seu? — Eddie ia pedir esclarecimento quando grand-père deu. — A mulher.

— Susannah. Sim, ela é minha mulher.

— Ah.

— Senhor... grand-père... os Lobos?

Mas Eddie não acreditava mais que ia conseguir alguma coisa do velho. Talvez Suze conseguisse...

— Segundo me lembro, éramos quatro — disse ele.

— Não cinco?

— Nã-não, embora bem perto pra que se possa chamar de um moit. — A voz se tornara seca, prosaica. O sotaque se desfez um pouco. — Éramos jovens e loucos, não dávamos o cu vermelho de um rato se íamos viver ou morrer, você sabe. Só putos da vida o bastante pra resistir mesmo que os outros dissessem sim, não ou talvez. Éramos eu, Pokey Slidell, meu melhor amigo, e Eamon Doolin e sua mulher, aquela ruiva Molly. Ela era o próprio diabo quando se tratava de lançar o prato.

— O prato?

— É, as Irmãs de Oriza lançam. Zee é uma delas. Vou pedir que lhe mostre. Elas têm pratos que são afiados em toda a borda, menos no lugar em que as mulheres o seguram, você sabe. Danadas de espertas, é o que são, isto sim! Fazem um homem com um bah parecer um idiota total. Você precisa ver.

Eddie tomou nota mental para dizer a Roland. Ele não sabia se existia ou não alguma coisa desse lançamento de prato, mas sabia, sim, que a falta de armas era extrema.

— Foi Molly quem matou o Lobo...

— Não foi o senhor? — Eddie ficou pensativo, imaginando como lenda e verdade se emaranhavam até passar a ser impossível desenredá-las.

— Nã-não, embora... — Os olhos do velho se iluminaram. — Eu talvez tenha dito uma ou outra vez que fui eu, talvez para abrir os joelhos de uma jovem quando ela de outro modo os teria mantido apertados um no outro, entende?

— Acho que sim.

— Foi Molly quem o fez com o prato, esta é a verdade, mas estou pondo a carroça na frente do cavalo. A gente viu a nuvem de poeira deles despontando. Então, talvez seis voltas fora da cidade ela se trifurcou.

— Que é isso? Eu não entendo.

O grand-père ergueu três dedos nodosos para mostrar que os Lobos tomaram três direções diferentes.

— O bando maior, a julgar pela poeira, você sabe, rumou para a cidade e partiu para o Armazém Geral de Took, o que fez sentido, porque alguns haviam decidido esconder seus bebês no galpão de depósito atrás. Tooky tinha um quarto secreto ali nos fundos, onde guardava dinheiro vivo, pedras preciosas, algumas armas velhas e outras comerciáveis que aceitara; não é à toa que o chamam de Tucano, você entende! — Mais uma vez, a risada cacarejante. — Era bem escondido, nem o pessoal que trabalhava pro velho abutre sabia que existia o lugar, mas quando chegou a hora, os Lobos foram direto pra lá, pegaram os bebês e mataram todo mundo que tentou impedi-los ou até lhes dizer uma palavra de misericórdia. E então eles atacaram o depósito com suas varas-de-fogo e, quando saíram cavalgando, atearam fogo ao lugar. Queimou até o chão, sim, e foi uma sorte não terem perdido toda a cidade, jovem sai, pois as chamas desencadeadas pelas varas que os Lobos carregam não são como nenhum outro fogo, que pode ser debelado com bastante água. A gente joga água e elas se alimentam dela! Ficam mais altas! Mais altas e mais quentes! Yer-bugger!

Ele cuspiu sobre o parapeito para dar ênfase, depois olhou Eddie astuciosamente.

— Tudo o que estou dizendo é: não importa quantos nestas bandas meu neto convença a se levantar e lutar, ou você e seu bolinho de chocolate, Eben Took jamais vai estar entre eles. Os Took mantiveram aquele depósito desde que o tempo ainda não tinha dentes, e jamais vão querer vê-lo novamente queimado até o chão. Uma vez basta para aqueles cagões covardes, me entende?

— Sim.

— Das outras duas nuvens de poeira, a maior partiu para o sul, rumo às fazendas de gado. A menor precipitou-se estrada do Leste abaixo em direção às propriedades pequenas, que era onde a gente estava, e onde a gente opôs nossa resistência.

O rosto do velho brilhava, entusiasmado pela lembrança. Eddie não vislumbrava o jovem que ele fora (o grand-père era velho demais para isso), mas nos olhos remelosos via a mistura de excitação, determinação e medo aflito que devia tê-lo tomado naquele dia. Devia ter tomado todos eles. Eddie viu-se curvando-se mais para perto dele como um homem faminto por comida, e o velho deve ter visto parte disso em seu semblante, pois pareceu inchar e ganhar vigor. Certamente, não era essa a reação que o avô já tivera algum dia do neto; não falta bravura a Tian, eu agradeço, mas era um babaca apesar disso. Este homem, contudo, este Eddie de Nova York... poderia viver uma vida curta e morrer com a cara na terra, mas não era nenhum veadão, por Oriza.

— Continue — disse Eddie.

— Sim. Vou continuar. Os que vinham em nossa direção dividiram-se na estrada do Rio, rumando para as pequenas propriedades de arroz que ficam lá, a gente via a poeira, e alguns mais se dividiram na de Peaberry. Lembro que Pokey Slidell se virou pra mim, com aquele sorriso nauseado no rosto, e estendeu a mão (a que não segurava o bah), e disse...