A Torre Negra V: Lobos de Calla
Capítulo 3
Sentado e esculpindo um pedaço de madeira na varanda dos Jaffords, Eddie ouvia uma história confusa de grand-père e assentia no que julgava serem os momentos certos, quando Roland e Jake surgiram a cavalo. Eddie largou a faca e desceu os degraus ao encontro deles, virando-se para chamar Suze lá atrás.
Sentia-se extraordinariamente bem nessa manhã. Seus temores da noite anterior haviam-se dissipado, como fazem nossos pesadelos mais extravagantes muitas vezes; como os vampiros Tipo Um e Tipo Dois do padre, esses medos pareciam especialmente alérgicos à luz do dia. Primeiro, todas as crianças haviam estado presentes e contadas no desjejum. Segundo, sumira de fato um leitão do celeiro. Tian perguntara a Eddie e a Susannah se tinham ouvido alguma coisa à noite, e balançou a cabeça com triste satisfação quando os dois fizeram que não com a cabeça.
— É. Quase todas as raças de vira-latas se extinguiram de nossa parte do mundo, mas não no norte. Matilhas de cães selvagens descem todo ano. Duas semanas atrás, é provável que estivessem em Calla Amity; semana que vem seremos o abrigo deles e eles vão ser o problema de Calla Lockwood. Silenciosos, é o que são. Não calados, quer dizer, mas mudos. Nada aqui. — Tian bateu a garganta com a mão. — Além disso, não é que não me tenham feito pelo menos algum bem. Eu encontrei um desgraçado de um grande rato de celeiro lá. Morto com uma pedra. Um deles rasgou a cabeça do bicho até quase o osso.
— Que nojeira — dissera Hedda, afastando sua tigela com uma careta teatral.
— Coma seu minguau, mocinha — disse Zalia. — Vai aquecer você quando estiver pendurando as roupas lá fora.
— Mã-mã, pur quêêêê?
Eddie captara o olhar de Susannah e dera-lhe uma piscadela de olho.
Ela retribuiu-lhe, e tudo parecia bem. Certo, então ela fizera algumas incursões à noite. Comera seu lanche da meia-noite. Enterrara os restos. E, sim, aquela história de ela estar grávida tinha de ser conversada. Claro que sim. Mas tudo seria falado muito bem, Eddie tinha certeza disso. E à luz do dia, a idéia de que Susannah pudesse sequer ferir uma criança parecia de todo ridícula.
— Salve, Roland. Jake.
Eddie virou-se para onde Zalia saíra no alpendre. Ela fez uma mesura. Roland tirou o chapéu, estendeu-o para ela e tornou a colocá-lo.
— Sai — perguntou —, está ao lado do seu marido na questão da luta com os Lobos, não é?
Ela deu um suspiro, mas com um olhar bastante firme.
— Estou, pistoleiro.
— Você pede ajuda e socorro?
A pergunta foi feita sem ostentação — quase em tom de boa conversação, de fato —, mas Eddie sentiu o coração dar um pulo, e quando a mão de Susannah se moveu furtivamente para a sua, apertou-a. Ali estava a terceira pergunta, a pergunta-chave, e não fora feita a um grande fazendeiro, grande pecuarista, nem a um grande comerciante. Fora feita à mulher de um pequeno fazendeiro cuja tez, embora naturalmente bronzeada, ficara muito rachada e grossa de sol demais, e cujo vestido caseiro desbotara de lavagens demais. E era certo que assim fosse, perfeitamente certo. Porque a alma de Calla Bryn Sturgis estava em quatro dúzias de pequenas propriedades agrícolas iguais àquela, reconheceu Eddie. Que Zalia Jaffords fale por todas elas. Por que diabos não?
— Eu busco isso e agradeço — ela lhe disse apenas. — O Senhor Deus e o Homem Jesus os abençoam, a você e aos seus.
Roland assentiu como se apenas passasse o tempo.
— Margaret Eisenhart me mostrou uma coisa.
— É mesmo? — perguntou Zalia, com um leve sorriso.
Tian chegou contornando devagar um canto; parecia cansado e suado, embora só fossem nove da manhã. Sobre um dos ombros trazia um arreio surrado. Desejou a Roland e Jake um bom dia e se pôs ao lado da mulher, uma das mãos em volta da cintura e descansando no quadril.
— É, e nos contou a história de Lady Oriza e Gray Dick.
— É uma bela história — disse ela.
— É sim — concordou Roland. — Não vou fazer rodeios, dama-sai. Virá para a linha de frente com seu prato, quando chegar a hora?
— Sim — disse Zalia.
Tian largou o arreio e abraçou-a. Ela retribuiu-lhe o abraço, breve e forte, depois se voltou mais uma vez para Roland e seus amigos.
Roland sorria. Eddie foi tomado por uma fraca sensação de irrealidade, como sempre quando observava esse fenômeno.
— Ótimo. E vai mostrar a Susannah como lançá-lo?
Zalia olhou pensativa para Susannah.
— Será que ela vai aprender?
— Não sei — disse Susannah. — É alguma coisa que devo aprender, Roland?
— Sim.
— Quando, pistoleiro? — perguntou Zalia.
Roland calculou.
— Daqui a três ou quatro dias, se tudo correr bem. Se ela não mostrar qualquer aptidão, mande-a de volta para mim e experimentaremos Jake.
Jake assustou-se visivelmente.
— Mas acho que ela vai se sair muito bem. Jamais conheci um pistoleiro que não se acostumava a novas armas como pássaros num novo lago. E eu preciso ter pelo menos um de nós que saiba lançar o prato ou disparar o bah, pois somos quatro e temos apenas três armas com que podemos contar. E eu gosto do prato. Gosto muito.
— Eu lhe mostrarei o que sei fazer, claro — disse Zalia, e lançou um olhar tímido a Susannah.
— Então, daqui a nove dias, você, Margaret, Rosalita e Sarey Adams irão até a casa do Velho e veremos o que veremos.
— Você tem um plano? — perguntou Tian. Os olhos ardiam de esperança.
— Terei até lá — respondeu Roland.
4
Os quatro cavalgaram para a cidade lado a lado naquele mesmo passo sem pressa, mas onde a estrada do Leste cruzava com outra, esta seguindo para o norte e o sul, Roland parou.
— Aqui tenho de deixar vocês por algum tempo — disse. Apontou para o norte, em direção às montanhas. — A duas horas daqui fica o que alguns dos que buscam chamam Manni de Calla e outros Manni do Caminho Vermelho. É o lugar deles pelos dois nomes, uma cidadezinha dentro de uma maior. Vou me encontrar com Henchick lá.
— O dinh deles — disse Eddie.
— O lugar que você apontou no mapa dos gêmeos Tavery? — perguntou Susannah.
— Não, mas perto. A gruta que me interessa é a chamada Gruta do Vão da Porta. Vamos saber dela por Callahan esta noite, quando ele terminar sua história.
— Sabe disto como um fato, ou é intuição? — perguntou Susannah.
— Sei por Henchick. Ele falou dela ontem à noite. Também falou do père. Eu poderia contar a vocês, mas acho que é melhor ouvirmos do próprio Callahan. De qualquer modo, aquela gruta será importante pra nós.
— É o caminho de volta, não? — perguntou Jake. — Você acha que é o caminho de volta a Nova York.
— Mais — disse o pistoleiro. — Com o Treze Preto, acho que poderia ser o caminho para todo lugar e todo quando.
— Incluindo a Torre Negra? — perguntou Eddie. Tinha a voz enrouquecida, quase nada mais que um sussurro.
— Não sei dizer — respondeu Roland —, mas creio que Henchick vai me mostrar a gruta, e talvez eu saiba mais então. Enquanto isso, vocês têm negócios a fazer no armazém geral de Took.
— Temos? — perguntou Jake.
— Têm, sim.
Roland equilibrou a bolsa no colo, abriu-a e enfiou a mão no fundo. Por fim retirou um saquinho com tiras corrediças de couro que nenhum deles vira antes.
— Meu pai me deu isto — disse, ausente. — É a única coisa que tenho hoje, além das ruínas de meu rosto mais moço, que eu tinha quando cavalguei para Mejis com meus companheiros de ka todos esses anos.
Eles o olharam com reverente admiração, partilhando o mesmo pensamento: se o que o pistoleiro disse era verdade, o saquinho de couro devia ter centenas de anos. Roland abriu-o, examinou dentro, balançou a cabeça.
— Susannah, estenda as mãos.
Ela o fez. Em suas palmas como conchas Roland despejou umas dez moedas de prata, esvaziando o saco.
— Eddie, abra as suas.
— Hum, Roland, acho que o armário está vazio.
— Estenda as mãos.
Eddie encolheu os ombros e o fez. Roland virou o saquinho sobre elas e despejou uma dezena de moedas de ouro, esvaziando-o.
— Jake?
Jake estendeu as mãos abertas. Do bolso na frente do poncho, Oi olhava com interesse. Desta vez o saquinho expeliu meia dúzia de brilhantes pedras preciosas antes de esvaziar-se. Susannah arquejou.
— Não passam de granadas — disse Roland, quase se desculpando. — Um meio justo de câmbio aqui, pelo que dizem. Não vão comprar muita coisa, mas comprarão, sim, as necessidades de um garoto, acho.
— Legal! — Jake sorria, radiante. — Eu lhe agradeço! Muitíssimo obrigado!
Eles olharam para o saco vazio com silêncio maravilhado, e Roland sorriu.
— Quase todas as mágicas que eu outrora sabia ou a que tinha acesso desapareceram, mas vocês vêem que algumas persistem. Como folhas encharcadas no fundo de um bule de chá.
— Tem ainda mais coisa aí dentro? — perguntou Jake.
— Não. Com o tempo, talvez tenha. É um saquinho em crescimento — Roland devolveu-o ao fundo da bolsa, retirou o suprimento fresco de tabaco que Callahan lhe dera e enrolou um cigarro. — Vão até o armazém. Comprem o que lhes agradar. Algumas camisas, talvez... e uma pra mim, se fazem o favor; eu preciso de uma. Depois subam para a varanda e descansem, como diz a gente da cidade. Sai Took não vai dar muita importância a isso, não há nada que ele gostaria mais de ver do que nossas costas rumando para o leste e para o Trovão, mas não os enxotará.
— Quero vê-lo tentar — grunhiu Eddie, e tocou a coronha do revólver de Roland.
— Você não vai precisar disto — disse o pistoleiro. — Só os fregueses o manterão atrás do balcão, cuidando de sua gaveta registradora. Isto, e a disposição da cidade.
— Está do nosso lado, não? — perguntou Susannah.
— Sim, Susannah. Se você lhes perguntar sem rodeios, como perguntei a sai Jaffords, não vão responder, portanto é melhor não perguntar, ainda não. Mas, sim. Eles pretendem lutar. Ou nos deixar lutar por eles. O que não podemos censurar. Lutar por aqueles que não sabem lutar por si mesmos é o nosso trabalho.
Eddie abriu a boca para dizer a Roland o que o grand-père lhe contara, depois tornou a fechá-la. Roland não lhe perguntara, embora este tivesse sido o motivo de tê-los enviado à casa dos Jaffords. Nem, percebeu, Susannah lhe perguntara. Ela nem sequer mencionara a conversa dele com Jamie.
— Vai perguntar a Henchick o que perguntou à Sra. Jaffords? — indagou Jake.
— Sim — disse Roland. — A ele vou perguntar.
— Porque sabe o que ele vai dizer.
Roland assentiu e sorriu mais uma vez. Não um sorriso que desprendesse algum conforto, mas tão frio quanto a luz do sol na neve.
— Um pistoleiro jamais faz essa pergunta antes de saber qual será a resposta — disse. — A gente se encontra na casa do padre para a refeição da noite. Se tudo correr bem, estarei lá assim que o sol chegar ao horizonte. Estão todos bem? Eddie? Jake? — Uma ligeira pausa. — Susannah?
Todos assentiram com a cabeça. Oi também.
— Então, até o entardecer. Que fiquem bem, e que o sol nunca caia sobre seus olhos.
Roland virou o cavalo e afastou-se na abandonada estradinha que levava para o norte. Eles o viram seguir até ficar fora da visão, e como sempre quando ficavam sozinhos, os três partilharam um complexo sentimento que era parte temor, parte solidão e parte orgulho nervoso.
Cavalgaram em direção à cidade com os cavalos um pouco mais próximos entre si.
5
— Nhá-nhá-nhá, Nhá-nhá-nhá, nada de trazê exe xujo animá-tapaião aqui dento, nunca! — gritou Eben Took de seu lugar atrás do balcão.
Tinha uma voz esganiçada, quase feminina; arranhava como estilhaços de vidro a quietude adormecida das mercadorias. Apontava Oi, que espiava do bolso da frente do poncho de Jake. Uma dezena de compradores discordantes, a maioria mulheres vestidas de roupas feitas em casa, voltou-se para olhar.
Dois trabalhadores agrícolas, vestidos de camisas cáqui simples, calças brancas sujas e sandálias de couro, que se achavam junto ao balcão, recuaram às pressas, como se esperassem que os dois forasteiros armados logo sacassem os revólveres e mandassem pelos ares sai Took até a montanha Calla Boot.
— Sim, senhor — disse Jake, com brandura. — Desculpe-me. — Ergueu Oi do bolso do poncho e sentou-o na varanda ensolarada, logo na saída da porta. — Fique aí, menino.
— Aí, menino — disse o trapalhão, e enroscou a cauda em forma de mola de relógio em volta das ancas.
Jake tornou a juntar-se aos amigos e os três entraram no empório. Para Susannah, o lugar emanava um cheiro igual aos que freqüentara durante seu tempo no Mississippi: um aroma misto de charque, couro, especiarias, café, naftalina e trapaças. Ao lado do balcão, ficava um grande barril com a tampa corrediça semi-aberta e um par de pinças pendendo de um gancho próximo. Do barril vinha o forte e lacrimogênico cheiro de picles em salmoura.
— Não tem fiado! — gritou Took, na mesma voz desagradável de cana rachada. — Eu num dô crédito a ninguém de longe e nunca vô dá! Ocês fala a verdade! Fala obrigado!
Susannah tomou a mão de Eddie e deu-lhe um apertão de advertência. Eddie soltou-a, impaciente, mas quando ele falou, sua voz foi tão branda quanto a de Jake.
— Eu lhe agradeço, sai Took, nós não pedimos! — E lembrou-se de uma coisa que ouvira de père Callahan: — Jamais na vida.
Ouviu-se um murmúrio de aprovação de alguns dos presentes na loja. Nenhum deles fazia mais o mínimo fingimento de que ia comprar alguma coisa. Took ruborizou-se. Susannah tomou mais uma vez a mão de Eddie e deu-lhe um sorriso para acompanhar o aperto.
A princípio, compraram em silêncio, mas antes que terminassem várias pessoas — que haviam estado todas no Pavilhão duas noites antes — disseram olá e perguntaram (timidamente) como eles iam. Os três responderam que muito bem. Compraram camisas, incluindo duas para Roland, calças de brim, roupas de baixo e três pares de botas curtas de aparência medonha, mas resistentes. Jake comprou um saco de balas que escolheu apontando, enquanto Took o botava numa sacola de palha trançada com lentidão relutante e desagradável. Quando tentou comprar um saco de tabaco e alguns papéis de enrolar para Roland, o comerciante recusou-se com um prazer demasiado evidente.
— Nhá-nhá-nhá, nhá-nhá-nhá, num vendo erva de pito pra guri. Jamais vendi.
— E é uma boa idéia — disse Eddie. — Um passo abaixo da erva-do-diabo, e o Ministério da Saúde agradece. Mas vai vender pra mim, não vai, sai? Nosso dinh gosta de uma fumaça à noite, enquanto planeja novos meios de ajudar as pessoas necessitadas.
Houve alguns risos abafados a isto. O armazém começara a encher-se de maneira impressionante. Eles representavam agora para um verdadeiro público, e Eddie não deu a mínima. Took estava se exibindo como um babaca, o que não surpreendia. Took claramente era um cabeça de merda.
— Eu nunca vi um homem dançar uma commala melhor que ele! — gritou um homem de uma das alas.
— Agradeço — disse Eddie. — Vou transmitir a ele.
— E sua dama canta bem — disse outro.
Susannah fez uma mesura sem saia. Terminou suas compras abrindo um pouco mais a tampa do barril e fisgando um enorme espécime com as pinças. Eddie aproximou-se e disse:
— Eu talvez tenha tirado uma coisa verde assim do meu nariz certa vez, mas não consigo realmente me lembrar.
— Não seja grotesco, meu caro — respondeu Susannah, ao mesmo tempo sorrindo secretamente.
Eddie e Jake ficaram satisfeitos por deixá-la assumir a responsabilidade pela barganha, o que ela fez com prazer. Took deu o melhor de si para cobrar um preço excessivo pelas compras deles, mas Eddie teve uma idéia de que isso não visava a eles especificamente, mas era apenas parte do que Eben Took via como seu trabalho (ou talvez sua sagrada vocação). Sem a menor dúvida, ele era esperto o bastante para medir a temperatura de sua clientela, pois quase deixara de alfinetá-los quando a compra terminou. O que não o impediu de fazer tinirem as moedas deles num quadrado especial de metal cuja finalidade parecia ser só essa, erguer as granadas de Jake até a luz e rejeitar uma delas (que parecia igual a todas as outras, pelo que viam Eddie, Jake e Susannah).
— Quanto tempo ocês vai ficar aqui, pessoal? — perguntou ele numa voz meio cordial quando terminou a barganha.
Mas com os olhos astuciosos, e Eddie não teve a menor dúvida de que qualquer coisa que dissessem iria bater nos ouvidos de Eisenhart, Overholser e quem mais importasse antes de o dia chegar ao fim.
— Ah, bem, depende do que vemos — disse Eddie. — E o que vemos depende do que as pessoas nos mostram, não é mesmo?
— É — Took concordou, mas pareceu perplexo. Havia agora umas cinqüenta pessoas no espaçoso armazém de secos e molhados, a maioria aparvalhada. Uma excitação pairava no ar como pó. Eddie gostava disso. Não sabia se era certo ou errado, mas sim, gostava muito.
— E também depende do que as pessoas querem — amplificou Susannah.
— Eu vô dizê a ocês o que elas num quere, bolinho de chocolate! — Took disse isto com sua voz esganiçada de estilhaçar vidro. — Elas quer paz, o mesmo que sempre! Quer que a cidade inda teja aqui despois que ocês quatro...
Susannah agarrou o polegar do sujeito e curvou-o para trás. A coisa foi feita com destreza. Jake duvidou se mais de dois ou três locais, os mais próximos do balcão, viram, mas a cor da cara de Took ficou branco-sujo e os olhos projetaram-se abaulados das cavidades.
— Eu aceito esta palavra de um velho que perdeu quase todo o juízo — disse ela —, mas não de você. Me chame mais uma vez de bolinho de chocolate, gorducho, que eu lhe arranco a língua da boca e limpo teu cu com ela.
— Eu rogo perdão — arquejou Took. O suor agora escorria-lhe pela face em gotas grandes e meio nojentas. — Rogo seu perdão, rogo, sim!
— Ótimo — disse Susannah, e soltou-o. — Agora talvez a gente possa simplesmente sair e se sentar um pouco em sua varanda, pois fazer compras é um trabalho cansativo.
6
O Armazém Geral de Took não exibia Guardiães do Feixe de Luz como os de Mejis dos quais falara Roland, porém mais de duas dúzias de cadeiras de balanço enfileiravam-se ao longo de toda a varanda. E todos os três lances de escada eram flanqueados por caras empalhados em homenagem à estação. Quando os companheiros ka de Roland saíram, ocuparam três cadeiras de balanço no meio da varanda. Oi deitou-se, satisfeito, entre os pés de Jake, e parecia que ia dormir com o focinho nas patas.
Eddie apontou o polegar engatilhado para trás na direção de Took.
— É uma grande lástima que Detta Walker não estivesse aqui para furtar algumas coisas do filho-da-puta.
— Não pense que não fiquei tentada em nome dela — disse Susannah.
— Gente vindo — disse Jake. — Acho que querem falar conosco.
— Claro que sim — disse Eddie. — É pra isso que estamos aqui. — Sorriu, o belo rosto ficando ainda mais belo. Baixinho, disse: — Apresento-lhes os pistoleiros, minha gente vem-vem-commala, tiroteio pela frente.
— Cale essa sua boca má, filho — disse Susannah, mas rindo.
Eles são loucos, pensou Jake. Mas se ele era a exceção, por que também estava rindo?
7
Henchick dos mannis e Roland de Gilead fizeram a refeição do meio-dia à sombra de um imenso afloramento rochoso, comendo galinha fria e arroz envoltos em tortillas, e bebendo sidra suave de um jarro que trocavam entre si. Henchick iniciou a conversa com um termo que chamava ao mesmo tempo de A Força e O Além, depois se calou. Para Roland, estava tudo bem. O velho respondera sim a uma pergunta que ele precisara fazer.
Quando terminaram a refeição, o sol já se pusera atrás dos altos penhascos e escarpas. Assim eles caminhavam na sombra, seguindo por um caminho coberto de cascalho e estreito demais para os cavalos, deixados num arvoredo abaixo de choupos-brancos tremulantes e de folhas amarelas. Centenas de minúsculos camaleões corriam na frente deles, às vezes precipitando-se para fendas nas pedras.
Com sombra ou não, era mais quente ali que nos quintos do inferno. Após quase 2 quilômetros de subida constante, Roland começou a ofegar e usar seu lenço grande e estampado para enxugar o suor da face e do pescoço. Henchick, que parecia estar em algum ponto na faixa dos 80 anos, seguia à sua frente com firme serenidade. Respirava com a facilidade de um homem que passeasse num parque. Deixara a capa embaixo, estendida sobre o galho de uma árvore, mas Roland não via quaisquer manchas de suor espalhando-se em sua camisa preta.
Eles chegaram a uma curva no caminho, e por um momento o mundo a norte e oeste descortinou-se abaixo deles em diáfano esplendor. Roland via os imensos retângulos cinza-amarelados do pasto, e minúsculos bois de brinquedo. Ao sul e a leste, os campos iam ficando mais verdes à medida que os dois avançavam para as planícies fluviais. Ele via a aldeia de Calla, e até — na onírica distância ocidental — a borda da grande floresta que haviam atravessado para chegar ali. A brisa que os atingia naquele trecho do caminho era tão fria que fez Roland arquejar. Mas ele ergueu o rosto para ela em gratidão, os olhos quase fechados, sentindo o cheiro de todas as coisas existentes em Calla: novilhos, cavalos, grãos, água fluvial e arroz, arroz, arroz.
Henchick tirara o chapéu de aba larga, copa chata, e também ficou com a cabeça erguida e olhos quase fechados, um estudo de silenciosa ação de graças. O vento soprava-lhe os cabelos para trás e brincava com sua barba à altura da cintura, dividindo-a em tufos. Os dois ficaram ali talvez uns três minutos, deixando a brisa refrescá-los. Então Henchick recolocou o chapéu na cabeça. Olhou para Roland.
— Você acha que o mundo vai terminar em fogo ou gelo, pistoleiro?
Roland pensou.
— Em nenhuma dessas duas coisas — acabou por dizer. — Acho que em escuridão.
— É o que você diz?
— É.
Henchick refletiu por um momento, depois retomou a subida. Embora impaciente para chegar ao lugar aonde iam, Roland tocou o ombro dele. Promessa era promessa. Sobretudo feita por uma dama.
— Eu me hospedei ontem à noite com um dos esquecidos — disse. — Não é assim que vocês chamam aqueles que preferem deixar seu ka-tet?
— Falamos esquecidos, sim — disse Henchick, fitando-o atentamente —, mas não ka-tet. Conhecemos esta palavra, mas não é uma das nossas, pistoleiro.
— De qualquer modo, eu...
— De qualquer modo, você dormiu na Rocking B com Vaughn Eisenhart e nossa filha, Margaret. E ela lançou o disco para você. Não falei destas coisas quando conversamos ontem à noite, pois sabia delas tão bem quanto você. Em todo caso, tínhamos outros assuntos para discutir, não é? Grutas e tudo mais.
— Tínhamos, sim. — Roland tentou não demonstrar surpresa. Não deve ter conseguido, pois Henchick balançou ligeiramente a cabeça, os lábios mal visíveis dentro da barba curvando-se num leve sorriso.
— Os mannis têm meios de saber, pistoleiro; sempre têm.
— Não vai me chamar de Roland?
— Não.
— Ela me pediu para lhe dizer que Margaret do clã do Caminho Vermelho vive muito bem com seu marido pagão, continua vivendo muito bem.
Henchick assentiu com a cabeça. Se isso lhe causou dor, não se revelou, nem em seus olhos.
— Ela está condenada — disse. O tom era de um homem dizendo Parece que vai fazer sol à tarde.
— Está me pedindo que lhe diga isso? — perguntou Roland, ao mesmo tempo divertido e horrorizado.
Embora os olhos azuis de Henchick tivessem desbotado e ficado aquosos com a idade, não era engano algum a surpresa que lhes chegou a esta pergunta. As emaranhadas sobrancelhas ergueram-se.
— Por que me daria a esse trabalho? — perguntou ele. — Ela sabe. Terá tempo à vontade para se arrepender de seu pagão nas profundezas de Na’ar. Ela também sabe disso. Vamos, pistoleiro. Mais um quarto de volta e chegaremos lá. Mas é para cima.
8
E era para cima mesmo, muito acima, na verdade. Meia hora depois, chegaram a um lugar onde um pedregulho tombado bloqueava quase todo o caminho. Henchick contornou-o com cuidado, a calça escura ondulando ao vento, a barba voando para os lados, dedos de unhas longas agarrando-se a pontos de apoio. Roland seguiu-o. O pedregulho estava quente do sol, mas o vento agora soprava tão frio que ele tremia. Sentia os saltos das botas gastas projetando-se sobre um precipício de talvez mais de 600 metros. Se o velho decidisse empurrá-lo, tudo terminaria numa fração de segundo. E de maneira decididamente não dramática.
Mas não terminaria, pensou. Eddie continuaria em meu lugar, e os outros dois seguiriam até cair.
No outro lado do pedregulho, o caminho terminava num buraco escuro de uns 3m de altura por l,5m de largura. Uma corrente de ar soprou no rosto de Roland. Ao contrário da brisa que brincava com eles quando subiam o caminho, aquele ar era malcheiroso e desagradável. Chegando junto, transportados por ele, ouviram-se gritos que Roland não conseguiu entender. Mas eram gritos de vozes humanas.
— São os gritos do pessoal lá em Na’ar estes que estamos ouvindo? — perguntou a Henchick.
Nenhum sorriso tocou os lábios do velho, agora quase escondidos.
— Não fale em tom de ironia — disse ele. — Aqui, não. Pois você está na presença do infinito.
Roland acreditou. Avançou cuidadosamente, as botas rangendo nos grãos de cascalho, a mão caindo até a coronha do revólver — sempre usava a esquerda agora, quando usava alguma —, abaixo da mão inteira.
O fedor que se exalava da boca aberta da gruta tornou-se ainda mais forte. Nocivo, se não completamente tóxico. Roland levou o lenço à boca e ao nariz com a mão reduzida. Alguma coisa dentro da gruta, ali nas sombras. Ossos, sim, ossos de camaleões e outros animais pequenos, mas alguma outra coisa também, uma forma que ele conhecia...
— Tenha cuidado, pistoleiro — disse Henchick, mas manteve-se de lado para deixar Roland entrar na gruta se assim desejasse.
Meus desejos não importam, pensou Roland. Isto é apenas uma coisa que tenho de fazer. Provavelmente, isso a torna mais simples.
A forma na gruta ficou mais clara. Ele não se surpreendeu ao ver que era uma porta exatamente igual àquelas a que chegara na praia; porque mais esta teria sido chamada de Gruta da Porta? Feita de pau-ferro (ou talvez coroa-de-cristo), ficava a uns 6 metros da entrada da gruta. Tinha pouco mais de 2 metros de altura, como as portas na praia. E, como aquelas, erguia-se livremente nas sombras, com dobradiças que pareciam presas a nada.
Mas giraria nessas dobradiças facilmente, ele pensou. Vai girar. Quando chegar a hora.
Não tinha fechadura. A maçaneta parecia de cristal. Gravada em água-forte, via-se uma rosa. Na praia do mar Ocidental, as três portas haviam sido assinaladas com a Língua Superior: O PRISIONEIRO numa, A DAMA DAS SOMBRAS em outra, O EMPURRADOR na terceira. Ali, os hieróglifos que vira na caixa escondida na igreja de Callahan:
— Quer dizer “desconhecida” — explicou Roland.
Henchick assentiu, mas quando Roland se moveu para contornar a porta, o velho deu um passo à frente e estendeu a mão.
— Tome cuidado, ou talvez consiga descobrir sozinho a quem essas vozes pertencem.
Roland entendeu o que ele quis dizer. A uns 2,5m ou 3 além da porta, o piso da gruta caía num ângulo de 50 ou 60 graus. Não havia nada a que se segurar, e a rocha parecia lisa como vidro. A menos de 10 metros embaixo, esse escorrega deslizante desaparecia num abismo. Vozes gemendo entrelaçadas dali se elevavam. E então chegou uma nítida. Era a de Gabrielle Deschain.
— Roland, não! — gritou sua mãe morta das trevas. — Não atire, sou eu! É sua m... — Mas antes que ela pudesse terminar, o estrondo sobreposto de disparos a silenciou. A dor atingiu a cabeça de Roland. Apertava o lenço no rosto com força quase suficiente para quebrar o nariz. Tentou relaxar os músculos no braço e a princípio não conseguiu.
Daquela escuridão malcheirosa chegou em seguida a voz do pai.
— Eu soube desde que você começou a andar que não era nenhum gênio — disse Steven Deschain numa voz cansada —, mas jamais acreditei até a noite de ontem que você era um idiota. Deixá-lo conduzi-lo como uma vaca a uma queda-d’água! Deuses!
Não tem importância. Não são nem fantasmas. Acho que são apenas ecos, de algum modo tirados do mais fundo de minha própria cabeça e projetados.
Quando contornou a porta (atento ao precipício agora à direita), a porta desaparecera. Só havia a silhueta de Henchick, uma severa forma de homem cortada de papel preto em pé na boca da gruta.
A porta continua ali, mas você só pode vê-la de um lado. E nesse aspecto também é igual às outras portas.
— Um tanto aflitivo, não é? — riu a voz abafada de Walter, do fundo da goela Gruta do Vão da Porta. — Desista, Roland! É melhor desistir e morrer do que descobrir que o aposento no topo da Torre Negra está vazio.
Então veio o urgente soar da trombeta de Eld, fazendo eriçar os pêlos nos braços e na nuca de Roland: o grito da batalha final de Cuthbert Allgood quando se precipitou pela colina Jericó abaixo ao encontro de sua morte nas mãos dos bárbaros de rostos azuis.
Roland afastou o lenço do rosto e recomeçou a andar. Um passo; dois; três. Ossos eram esmagados sob os saltos de suas botas. No terceiro passo, a porta reapareceu, a princípio de lado, com o trinco parecendo morder o ar rarefeito, como as dobradiças no outro lado. Ele parou por um momento, contemplando sua solidez, saboreando a estranheza da porta exatamente como saboreara a estranheza das que encontrara na praia. E na praia estava doente, à beira da morte. Se movia um nada a cabeça para a frente, a porta desaparecia. Se tornava a recuá-la, ela estava ali. A porta nunca oscilava nem tremeluzia. Era sempre um caso de estar/não estar, ali/não ali.
Refez passo a passo todo o caminho de volta, pôs as mãos espalmadas no pau-ferro, curvou-se sobre elas. Sentiu uma fraca vibração, como se apalpasse uma possante maquinaria. Da soturna goela da gruta, Rhea do Cöos gritou-lhe, chamando-o de um fedelho que jamais vira a verdadeira face de seu pai, contando-lhe que seu pedaço de rabo lhe explodiu a garganta com seus gritos enquanto queimava na fogueira. Roland ignorou-a e pegou a maçaneta de cristal da porta.
— Não, pistoleiro, não ouse! — gritou Henchick, alarmado.
— Eu ouso — disse Roland. E o fez, mas a maçaneta não girou em nenhuma direção. Ele recuou.
— Mas a porta estava aberta quando você encontrou o padre? — perguntou ele a Henchick. Os dois haviam conversado sobre isso na noite anterior, mas Roland queria saber mais.
— Sim. Fomos eu e Jemmin que o encontramos. Você sabe que nós, anciãos manni, buscamos os outros mundos? Não por riquezas, mas por iluminação?
Roland assentiu com a cabeça. Também sabia que muitos haviam voltado insanos. Outros nem sequer voltaram.
— Essas montanhas são magnéticas e crivadas com vários acessos a muitos mundos. Havíamos ido a uma gruta perto das velhas minas de granada e lá encontramos uma mensagem.
— Que tipo de mensagem?
— Havia uma máquina instalada na boca da gruta — disse Henchick. — A gente apertava um botão e uma voz saía dela. A voz nos convidava a entrar.
— Você sabia da existência dessa gruta antes?
— Sim, mas antes da chegada do père era chamada Gruta das Vozes. Pelo motivo que você agora sabe.
Roland assentiu e fez um sinal com a mão para que Henchick continuasse.
— A voz da máquina falava com sotaque igual ao de seus companheiros de ka, pistoleiro. Dizia que devíamos vir aqui, Jemmin e eu, que encontraríamos uma porta, um homem e uma maravilha. Assim fizemos.
— Alguém deixou instruções a vocês — meditou Roland. Era em Walter que ele pensava. O homem de preto, que também deixara os biscoitos que Eddie chamava de Keeblers. Walter era Flagg, Flagg era Marten e Marten... seria ele Maerlyn, o velho e patife feiticeiro da lenda? Sobre esta questão, Roland continuava inseguro. — E se dirigiu a vocês pelo nome?
— Não, não sabia tanto. Só nos chamou de pessoal manni.
— Como este alguém soube onde deixar a máquina de voz, você sabe?
Os lábios de Henchick afinaram-se.
— Por que você precisa achar que era uma pessoa? Por que não um deus falando com voz humana? Por que não um agente do Outro Lado?
Roland disse:
— Os deuses deixam sinais. Os homens deixam máquinas. — Fez uma pausa. — Pela minha experiência, claro, pai.
Henchick fez um curto gesto, como se a dizer a Roland que dispensasse a adulação.
— Era de conhecimento generalizado que você e seus amigos estavam explorando a gruta onde acharam a máquina falante?
Henchick deu de ombros um tanto carrancudo.
— As pessoas nos vêem, eu imagino. Algumas talvez observem a quilômetros de distância com seus telescópios e binóculos. E também há o homem mecânico. Ele vê muito e tagarela sem parar com todos que se dispõem a ouvir.
Roland interpretou isso como um sim. Achou que alguém soubera que père Callahan ia chegar. E que precisaria de ajuda quando chegasse às imediações de Calla.
— Até onde a porta estava aberta? — perguntou Roland.
— Estas perguntas são para Callahan — respondeu Henchick. — Eu prometi lhe mostrar este lugar. E mostrei. Certamente isso lhe basta.
— Ele estava consciente quando o encontrou?
Houve uma pausa relutante. Em seguida:
— Não. Só resmungando, como a gente faz no sono quando tem um sonho horrível.
— Assim, ele não vai poder me dizer, não é? Esta parte, não. Henchick, você busca ajuda e socorro. Isto você me disse em nome de todos os seus clãs. Ajude-me então a ajudá-lo.
— Eu não vejo como isto ajuda.
E talvez não ajude, não na questão dos Lobos que tanto atormentava aquele velho e as demais pessoas de Calla Bryn Sturgis, mas Roland tinha outras preocupações e outras necessidades; outros peixes para fritar, como às vezes dizia Susannah. Continuou fitando Henchick, a mão ainda na maçaneta da porta.
— Estava um pouco aberta — acabou dizendo Henchick. — A caixa também. As duas só um pouquinho. Aquele a quem chamam de o Velho estava deitado de bruços, ali. — Apontou o piso coberto de detritos de cascalho e ossos onde se apoiavam agora as botas de Roland. — A caixa junto à mão direita dele, aberta este tanto. — Henchick estendeu o polegar e o indicador talvez uns 6 centímetros um do outro. — Saindo dela, o barulho dos kammen. Eu já o ouvi antes, mas não tão alto. Eles fizeram meus próprios olhos doer e jorrar água. Jemmin gritou e começou a se encaminhar para a porta. As mãos do Velho estendiam-se abertas no chão e Jemmin pisou numa delas sem nem perceber.
“A porta estava apenas entreaberta, como a caixa, mas uma luz terrível saía dela. Eu viajei muito, pistoleiro, a vários ondes e a vários quandos. Vi outras portas e vi todash tahken, os buracos na realidade, mas nunca qualquer luz como aquela. Era preta, como todo o vazio que já existiu, mas com alguma coisa vermelha.”
— O Olho — disse Roland.
Henchick olhou-o.
— Um olho? Acha que é mesmo?
— Acho, sim — confirmou Roland. — O negrume que você viu é lançado pelo Treze Preto. O vermelho poderia ser o olho do Rei Rubro.
— Quem é ele?
— Eu não sei — disse Roland. — Só que ele espera pelo bom momento no extremo leste daqui, no Trovão, ou além dele. Creio que talvez seja o Guardião da Torre Negra. É possível até que se julgue dono dela.
À menção por Roland da Torre, o velho cobriu os olhos com as duas mãos, um gesto de profundo terror religioso.
— Que aconteceu em seguida, Henchick? Diga, eu peço.
— Eu comecei a estender a mão para Jemmin, então me lembrei que ele pisara na mão do homem com o salto da bota, e pensei melhor. Pensei: “Henchick, se ele faz isso, vai arrastá-lo consigo até o fim.” — Os olhos do velho cravaram-se nos de Roland. — Viajar é o que fazemos, sei que você sabe muito bem como é, e raras vezes sentimos medo, pois confiamos no outro lado. Mas eu senti medo daquela luz e do som daqueles carrilhões. Pavor deles. Eu jamais falei desse dia.
— Nem a père Callahan?
Henchick fez que não com a cabeça.
— Ele falou com você quando acordou?
— Perguntou se estava morto. Eu disse que se estivesse todos estaríamos também.
— E Jemmin?
— Morreu dois dias depois. — Henchick bateu na frente da camisa preta. — Coração.
— Faz quantos anos que encontrou Callahan aqui?
Henchick abanou a cabeça devagar em largos arcos de um lado para o outro, um gesto manni tão comum que poderia ser genético.
— Pistoleiro, eu não sei. Pois o tempo...
— Sim, está sem rumo — disse Roland, impaciente. — Quanto tempo você diria?
— Há mais de cinco anos, pois ele tem igreja e superstições tolas para enchê-la, você sabe.
— Que foi que você fez? Como salvou Jemmin?
— Ajoelhei-me e fechei a caixa — disse Henchick. — Foi só o que me ocorreu fazer. Se houvesse hesitado um único segundo, creio que teria desaparecido, levado pela mesma luz preta que saía dela. Fez-me sentir fraco e... apagado.
— Aposto que sim — disse Roland sinistramente.
— Mas eu agi rápido, e quando a tampa da caixa se fechou com um clique, a porta girou e fechou-se. Jemmin socava-a com os punhos, gritava e implorava para que o deixassem transpô-la. Depois caiu, desmaiado. Arrastei-os, ele e Callahan, para fora. Após algum tempo no ar fresco, os dois voltaram a si. — Henchick ergueu as mãos e baixou-as em seguida, como se para dizer: Pronto, aí está.
Roland fez uma última tentativa na maçaneta da porta. Não se moveu em nenhuma das duas direções. Mas com a bola...
— Vamos voltar — disse ele. — Quero estar na casa do padre por volta da hora do jantar. Isto significa uma rápida caminhada até os cavalos e uma cavalgada ainda mais rápida assim que chegarmos lá.
Henchick assentiu. Seu rosto barbudo era bom em esconder a expressão, mas Roland achou o velho aliviado por ir embora dali. Também ficou um pouco aliviado. Quem gostaria de ficar ouvindo os gritos acusatórios da mãe morta e do pai erguendo-se das trevas? Para não falar dos gritos dos amigos mortos?
— Que aconteceu com a máquina falante? — perguntou Roland, quando começaram a descer o caminho de volta.
Henchick deu de ombros.
— Você conhece baderias?
Baterias. Roland assentiu.
— Enquanto elas funcionaram, a máquina tocava a mesma mensagem repetidas vezes, a que nos dizia que devíamos ir à Gruta das Vozes e encontrar um homem, uma porta e uma maravilha. Também havia uma música. Nós a tocamos para o padre, e ele chorou. Você precisa perguntar-lhe a respeito, pois esta é verdadeiramente parte da história dele.
Roland assentiu mais uma vez.
— Então as baterias acabaram. — O encolher de ombros de Henchick mostrou um certo desprezo pelas máquinas, pelo mundo que se foi, ou talvez pelas duas coisas. — Nós as retiramos. Eram Duracell. Conhece Duracell, pistoleiro?
Roland fez que não com a cabeça.
— Nós as levamos para Andy e perguntamos se talvez pudesse recarregá-las. Ele as botou dentro de si mesmo, mas quando tornaram a sair estavam tão inúteis quanto antes. Andy se desculpou. Nós agradecemos. — Henchick mexeu os ombros naquele mesmo gesto de desprezo. — Abrimos a máquina, outro botão fazia isso, e a língua saiu. Era deste tamanho. — Henchick afastou as mãos no que correspondia a uns 15 ou 20 centímetros. — Dois furos. Material marrom brilhante dentro, como barbante. O padre chamou-a de “fita cassete”.
Roland assentiu.
— Eu quero lhe agradecer por me levar à gruta lá em cima, Henchick, e por me contar tudo o que sabe.
— Eu fiz o que tinha de fazer — disse Henchick. — E você fará o que prometeu. Não vai?
Roland de Gilead balançou a cabeça.
— Que Deus escolha um vencedor.
— Sim, assim dizemos nós. Fala como se nos conhecesse outrora uma estação. — Fez uma pausa, encarando Roland com certa astúcia amarga. — Ou só está fazendo de conta para mim que conhece? Pois qualquer um que leu o Bom Livro adula até os corvos voarem para casa.
— Pergunta se faço o jogo de bajulação, logo aqui onde não há ninguém para nos ouvir além deles? — Roland indicou as trevas murmurantes. — Sabes melhor das coisas, eu espero, pois se não sabe, é um tolo.
O velho refletiu, depois estendeu a mão nodosa de dedos longos.
— Seja bem-sucedido, Roland. Tem um nome bom e justo.
Roland estendeu a mão direita. E quando o velho a tomou e apertou, ele sentiu a primeira pontada de dor onde queria senti-la menos.
Não, ainda não. Onde eu sentiria menos é na outra. A que ainda está inteira.
— Talvez desta vez os Lobos matem todos nós — disse Henchick.
— Talvez.
— Ainda assim, talvez sejamos bem-recebidos.
— Talvez sejamos — respondeu o pistoleiro.