A Torre Negra V: Lobos de Calla
Capítulo 10
É abril e a atmosfera finalmente começou a ficar com o ar e o cheiro de primavera. Callahan estava no Lar desde as cinco, preenchendo cheques para cobrir as contas de final do mês, depois trabalhando em sua especialidade culinária, por ele batizada como Guisado de Sapos e Bolinhos de Massa Cozida. Trata-se na verdade de um ensopadinho de carne com massinha, mas o nome pitoresco o diverte.
Já lavou as grandes panelas de aço durante o preparo da comida, não porque precisa fazê-lo (uma das poucas coisas de que não há escassez no Lar é de equipamento de cozinha), mas porque é assim que a mãe o ensinou a trabalhar: lave tudo que for terminando de usar.
Ele leva uma panela até a porta dos fundos, segura-a junto ao quadril com uma das mãos, vira a maçaneta com a outra. Sai para o beco, com a intenção de jogar a água cheia de sabão no bueiro na sarjeta ali fora, e então pára. Vê uma coisa que já viu antes, mais adiante no Village, só que então os dois homens — o encostado na parede, o diante dele, inclinado para a frente com as mãos apoiadas nos tijolos — eram apenas sombras. Esses dois ele vê claramente na luz que vem da cozinha, e o encostado na parede, parecendo adormecido com a cabeça caída para o lado, pescoço exposto, é alguém que Callahan conhece.
É Lupe.
Embora a porta aberta tenha iluminado aquela parte do beco, e Callahan não tenha feito esforço algum para não fazer barulho — na verdade, saiu cantando, Walk on the Wild Side, de Lou Reed —, nenhum dos dois o nota. Estão em transe. O homem diante de Lupe parece ter cinqüenta anos, bem vestido num terno e gravata. A seu lado, uma cara maleta de mão Mark Cross repousa nas pedras do calçamento. A cabeça desse homem está curvada para a frente, torta. Os lábios abertos estão selados no lado direito do pescoço de Lupe. O que fica ali embaixo? Jugular? Carótida? Callahan não se lembra, nem isso tem importância. O carrilhão não toca dessa vez, mas o cheiro é opressivo, tão fétido que lágrimas lhe irrompem dos olhos e muco claro logo começa a pingar-lhe das narinas. Os dois homens defronte a ele resplandecem com aquela luz azul-escura, e Callahan a vê rodopiando em pulsações ritmadas. É a respiração dos dois, ele pensa. É a respiração dos dois desprendendo aquela merda em volta. O que significa que é real.
Callahan ouve, muito baixo, um ruído de beijo líquido. O ruído que se ouve num filme quando um casal está se beijando apaixonadamente, realmente mandando ver.
Não pensa no que vai fazer em seguida. Larga a panela cheia de água de sabão, gordurosa, que bate com um alto tinido na calçada de concreto, mas a dupla encostada na parede oposta não se mexe; continua absorta em seu sonho. Callahan recua dois passos para a cozinha. No balcão, vê o cutelo que esteve usando para cortar os cubos de carne do ensopado. A lâmina brilha intensamente. Ele vê seu rosto nela e pensa: Bem, pelo menos eu não sou assim; meu reflexo continua ali. Então fecha a mão em volta do cabo de borracha. Volta para o beco. Pára perto da panela com água de sabão. O ar está fresco e úmido. Em algum lugar pinga água. Em algum lugar um rádio troa “Alguém Salvou Minha Vida Esta Noite”. A umidade do ar forma um halo em volta da luz no outro lado do beco. É abril em Nova York, e a 3 metros de onde ele — não muito tempo antes um padre ordenado da Igreja Católica — se encontra, um vampiro está tirando sangue de sua presa. Do homem por quem Callahan se apaixonou.
“Quase enfiou as garras em mim, não foi, querido?”, diz a letra da música que Elton John canta, e Callahan avança, erguendo o cutelo. Baixa-o e afunda-o no crânio do vampiro. Os lados do rosto do vampiro se abrem como asas. Ele levanta o rosto de repente, como um predador que acabou de ouvir a aproximação de alguma coisa maior e mais perigosa que ele. Um momento depois, dobra ligeiramente os joelhos, como pretendendo erguer a maleta, e parece decidir que pode se virar sem ela. Volta-se e encaminha-se devagar para a boca da viela. Para o som de Elton John, que agora canta “Alguém salvou, alguém salvou, alguém salvou minha viii-da esta noite”. O cutelo continua preso ao crânio da coisa. A mão abana para a frente e para trás a cada passo, como uma pequena cauda rígida. Callahan vê algum sangue, mas não o oceano que teria esperado. Nesse momento acha-se em choque profundo demais para pensar nisso, mas depois passará a acreditar que há muito sangue líquido precioso nesses seres; seja o que for que os mantém movendo-se, é mais mágico que o milagre do sangue. A maior parte do que era sangue deles coagulou-se tão firmemente como a gema de um ovo muito cozido.
A coisa dá mais um passo, então pára. Os ombros desabam. Callahan perde a visão de sua cabeça quando ela desaba para a frente. E então, de repente, as roupas começam a cair sobre si mesmas, esparramando-se pela superfície molhada do beco.
Sentindo-se como alguém num sonho, Callahan vai até lá para examiná-las. Encostado na parede, a cabeça para trás, olhos cerrados, Lupe Delgado continua absorto em qualquer que seja o sonho que o vampiro lançou sobre ele. Sangue goteja-lhe pelo pescoço em pequenos e insignificantes fios.
Callahan examina as roupas. A gravata ainda conserva o nó. A camisa ainda dentro do paletó do terno e ainda enfiada na calça do terno. Sabe que se baixasse o zíper daquela braguilha, veria a cueca dentro. Pega um braço do terno, sobretudo para confirmar que está vazio pelo toque assim como pela visão, e o relógio do vampiro tomba da manga e cai com um tinido ao lado do que parece um anel de formatura.
Há cabelo. Dentes, alguns com obturações. Dos restos do Sr. Maleta Mark Cross não há sinal algum.
Callahan junta as roupas. Elton John continua cantando a música, cujo título diz “Alguém Salvou Minha Vida Esta Noite”, mas talvez isso não surpreenda. É uma bela e longa música, uma daquelas composições de quatro minutos, deve ser. Ele põe o relógio no próprio pulso e o anel num dos dedos, só por segurança temporária. Leva as roupas para dentro, passando no caminho por Lupe, que continua perdido em seu sonho. E os orifícios no pescoço, pouco maiores que picadas de alfinete para começar, já começam a desaparecer.
A cozinha está milagrosamente vazia. Num dos cantos, à esquerda, fica uma porta assinalada DEPÓSITO. Além dela, um corredor com compartimentos dos dois lados. Estes ficam atrás de portas fechadas feitas de grossa tela de arame para galinheiro, destinadas a desestimular pequenos furtos. Produtos enlatados de um lado, secos do outro. Depois roupas. Camisas num compartimento. Calças em outro. Vestidos e saias em outro. Casacos em ainda outro. No fim do corredor, vê-se um guarda-roupa dilapidado onde está assinalado MISCELÂNEA. Callahan encontra a carteira de dinheiro do vampiro e enfia-a no bolso, por cima da sua. As duas juntas formam uma senhora intumescência. Então destranca o guarda-roupa e joga as roupas juntas do vampiro. É mais fácil que tentar desfazer o conjunto, embora imagine que quando encontrarem a cueca dentro da calça haverá reclamações. No Lar, não se aceitam roupas de baixo usadas.
— Podíamos distribuir aos mais pobres — disse uma vez Rowan Magruder a Callahan —, mas temos nossos padrões.
Não importa os padrões deles agora. É preciso pensar nos cabelos e dentes do vampiro. O relógio, o anel, a carteira... e, Deus do céu, a maleta e os sapatos! Ainda devem estar lá fora!
Não ouse queixar-se, diz a si mesmo. Não quando 99 por cento dele se foram, muito convenientemente desapareceram como o monstro no último rolo de um filme de terror. Deus tem estado a seu lado até aqui, eu acho que é Deus, portanto não ouse queixar-se.
Nem ele se queixa. Junta os fios de cabelo, os dentes, a maleta, e leva-os para o fim do beco, chapinhando por poças, e atira-os sobre a cerca. Após um momento de reflexão, joga também o relógio, a carteira e o anel. O anel agarra-se por um instante ao dedo e ele quase entra em pânico, mas acaba saindo e lá se vai... clique! Alguém cuidará dessas coisas por ele. É Nova York, afinal. Volta-se para Lupe e vê os sapatos. Associações boas demais para jogá-los fora, pensa; ainda restam anos de uso para aquelas preciosidades. Pega-os e leva-os de volta para a cozinha, pendendo-lhe dos dois primeiros dedos da mão. Está ali em pé com eles perto do fogão quando Lupe chega e entra na cozinha vindo do beco.
— Don? — ele chama. Tem a voz meio enrolada, a voz de quem acabou de acordar de um sono profundo. Aponta os sapatos enganchados nas pontas dos dedos de Callahan. Também parece divertido. — Vai pô-los no ensopado?
— Talvez melhore o sabor, mas não, só no depósito — disse Callahan. Assombra-o a calma de sua própria voz. E o coração! Batendo num ritmo regular e saudável de sessenta a setenta batimentos por minutos. — Alguém os deixou pra trás. Por onde andava você?
Lupe dá-lhe um sorriso, e quando sorri, fica mais lindo que nunca.
— Logo ali fora, fumando — diz. — Estava agradável demais pra entrar. Você não me viu?
— Na verdade, vi — disse Callahan. — Você parecia perdido em seu próprio mundinho, e eu não quis interrompê-lo. Poderia abrir a porta do depósito pra mim?
Lupe abre a porta.
— Mas é mesmo um belo par — diz ele. — Bally. Mas isso é possível, deixar um par de sapatos Bally para os bêbados?
— Alguém pode ter mudado de idéia sobre eles — diz Callahan.
Ouve os sinos, aquela doçura venenosa, e cerra os dentes contra o som. O mundo parece tremeluzir por um momento. Agora não, pensa. Ah, agora, não, por favor.
Não é uma prece, ele reza pouco naqueles dias, mas talvez alguma coisa o ouça, porque o som do carrilhão desaparece. O mundo se estabiliza. Do outro cômodo, alguém berra pelo jantar. Alguém mais xinga. A velha coisa de sempre. E ele precisa de uma bebida. E também é a mesma coisa de sempre, só que a coisa rastejante chega mais violenta que nunca. Ele não pára de pensar na sensação do cabo de borracha na mão. O peso do cutelo. O ruído que fez. E o gosto volta-lhe à boca. O gosto da morte do sangue de Barlow. Tudo a mesma coisa. Que foi que disse o vampiro na cozinha dos Petrie, depois de quebrar o crucifixo que a mãe lhe dera? Que era triste ver a fé de um homem falhar.
Vou participar da reunião dos AA esta noite, ele pensa, pondo um elástico em volta dos mocassins Bally e jogando-os junto dos outros calçados. Às vezes a reunião ajuda. Callahan nunca diz: “Sou Don e sou alcoólatra”, mas às vezes ajuda.
Lupe está tão junto dele quando se volta que ele arqueja um pouco.
— Calma, rapaz — diz Lupe, rindo.
Coça a garganta casualmente. As marcas continuam ali, mas terão desaparecido pela manhã. Mesmo assim, Callahan sabe que os vampiros vêem alguma coisa. Ou sentem o cheiro dela. Ou qualquer maldita coisa que o valha.
— Escute — diz a Lupe. — Estive pensando em sair da cidade por uma ou duas semanas. Arejar um pouco. Por que não vamos juntos? Talvez até o norte do estado. Fazer algumas pescarias.
— Não posso — diz Lupe. — Minhas férias só vencem em junho, e além disso estamos com escassez de mão-de-obra aqui. Mas se você quiser ir, eu acerto com Rowan. Sem problema. — Lupe examina-o atentamente. — Sem dúvida vai-lhe fazer bem algum tempo fora. Você parece cansado. E anda nervoso.
— Nãão, foi só uma idéia — diz Callahan. Não vai a parte alguma. Se ficar, talvez possa cuidar de Lupe. E ele sabe de alguma coisa agora. Matá-los não é mais difícil que eliminar insetos numa parede. E não deixam muita coisa para trás. E-Z Mata Tudo, como dizem nos anúncios de TV. Lupe vai ficar bem. Os Tipos Três como o Sr. Maleta Mark Cross não parecem matar suas presas nem mudá-las. Pelo menos não que ele possa ver, nem a curto prazo. Mas vai vigiar, pode fazer isso muito bem. Montará guarda. Será um pequeno ato de expiação por Jerusalem’s Lot. E Lupe vai ficar ótimo.
11
— Só que ele não ficou — disse Roland.
Enrolava um cigarro das migalhas no fundo do chapéu, o papel quebradiço, o tabaco realmente não muito mais que pó.
— Não — concordou Callahan. — Não ficou. Eu não tenho papéis para cigarro, mas posso lhe fazer uma coisa melhor que isso para fumar. Há um bom tabaco na casa, lá do sul. Eu não o uso, mas Rosalita às vezes gosta de um cachimbo à noite.
— Vou aceitá-lo mais tarde e agradeço — disse o pistoleiro. — Não sinto tanta falta dele quanto de café, mas quase. Termine sua história. Não omita nada, acho importante a gente ouvi-la toda, mas...
— Eu sei. O tempo é curto.
— É — disse Roland. — O tempo é curto.
— Então, em poucas palavras, meu amigo contraiu essa doença... Aids se tornou o nome preferido? — Olhava para Eddie, que assentiu com a cabeça.
— Está muito bem — disse Callahan. — É um nome tão bom quanto qualquer outro, embora a primeira coisa em que pensei quando ouvi essa palavra fosse num tipo de bala dietética. Talvez saibam que nem sempre ela se espalha rápido, mas no caso do meu amigo, foi como fogo em palha. Em meados de maio de 1976, Lupe Delgado ficou muito doente. Perdeu a cor. Tinha febre durante a maior parte do tempo. Às vezes passava a noite toda no banheiro, vomitando. Rowan o teria demitido da cozinha, mas nem precisou, Lupe baniu a si mesmo. E então começaram a aparecer as manchas.
— Chamavam sarcoma de Kaposi, acho — disse Eddie. — Uma doença de pele. Desfigurante.
Callahan assentiu.
— Três semanas depois do surgimento das manchas, Lupe estava no Hospital Geral de Nova York. Rowan Magruder e eu fomos vê-lo uma noite em fins de junho. Até então vínhamos nos dizendo que ele ia dar a volta por cima, sair dela melhor que nunca, era jovem e forte. Mas, naquela noite, soubemos no minuto em que chegamos à porta que ele estava nas últimas. Preso a uma tenda de oxigênio, com quatro tubos intravenosos correndo para os braços. Sentia dores terríveis. Não quis que nos aproximássemos. Talvez fosse contagioso, disse. Na verdade, ninguém parecia saber muito bem sobre a doença.
— O que a tornava mais assustadora que nunca — disse Susannah.
— É. Ele disse que os médicos acreditavam que fosse uma doença do sangue propagada por atividade homossexual, ou talvez pelo uso partilhado de seringas contaminadas. E o que ele queria que soubéssemos, o que não parava de dizer repetidas vezes, era que estava limpo, todos os exames de sangue voltavam negativos. “Desde 1970”, ele não parava de dizer. “Não toquei nem num baseado. Juro por Deus.” Nós dissemos que sabíamos que ele estava limpo. Sentamo-nos em cada lado da cama e ele tomou nossas mãos.
Callahan engoliu em seco. Ouviu-se um estalo em sua garganta.
— Nossas mãos... ele nos fez lavá-las antes de sairmos. Só por precaução, disse. E nos agradeceu pela visita. Disse a Rowan que o Lar fora a melhor coisa que lhe acontecera. No que lhe dizia respeito, foi realmente o seu lar.
“Eu nunca quis tão desesperadamente uma bebida quanto naquela noite ao sair do Hospital Geral de Nova York. Mantive Rowan a meu lado, contudo, e nós dois passamos batidos por todos os bares. Naquela noite, fui para a cama sóbrio, mas fiquei deitado sabendo que de fato era apenas uma questão de tempo. O primeiro drinque é aquele que embriaga a gente, é o que dizem nos Alcoólicos Anônimos, e o meu estava próximo. Em algum lugar um barman só estava à espera de eu chegar para me servir.
“Duas noites depois, Lupe morreu.
“Devia haver trezentas pessoas no enterro, quase todas que haviam passado algum tempo no Lar. Muitas choraram e ouviram-se muitas coisas lindas ditas, algumas que na certa não podiam andar numa linha reta. Quando terminou, Rowan Magruder tomou-me pelo braço e disse: ‘Não sei quem você é, Don, mas sei o que você é... um puta homem bom e um puta mau bebedor, que está a seco por... quanto tempo faz?’
“Pensei em continuar com aquele papo absurdo, mas me pareceu árduo demais. ‘Desde outubro do ano passado’, eu disse.
“‘Está a fim de um agora’, ele disse. ‘Está estampado na sua cara toda. Por isso, ouça o seguinte: se acha que tomar um drinque vai trazer Lupe de volta, tem a minha permissão. De fato, venha me pegar e vamos os dois até o Blarney Stone juntos beber tudo que tem na minha carteira primeiro. Combinado?’
“‘Combinado’, eu disse.
“E ele: ‘Você se embriagar hoje seria o pior memorial a Lupe que posso imaginar. Como mijar no rosto morto dele.’
“Rowan estava certo, e eu sabia disso. Passei o resto daquele dia do jeito como passei meu segundo em Nova York, andando sem parar, lutando contra aquele gosto em minha boca, combatendo a vontade de faturar uma garrafa e ocupar um banco no parque. Lembro que estava na Broadway, depois na Décima Avenida, depois seguindo pela Park e a Décima Terceira. A essa altura, começava a escurecer, carros seguindo nas duas direções na Park com os faróis acesos. O céu todo alaranjado e fúcsia no oeste, e as ruas cheias daquela magnífica luz comprida.
“Uma sensação de paz me invadiu, e eu pensei: ‘Vou vencer. Esta noite, pelo menos, eu vou vencer.’ E foi aí que recomeçaram os repiques dos sinos. Mais altos que nunca. Eu me sentia como se a cabeça fosse explodir. A Park Avenue bruxuleava diante de mim e pensei: Ora, isso não é nada real. Nem a Park Avenue, nem nada disso. É apenas uma gigantesca amostra de tela. Nova York não passa de um cenário pintado nessa tela, e que tem atrás dela? Ora, nada. Nada mesmo. Só escuridão.
“Então as coisas se estabilizaram novamente. O carrilhão foi-se extinguindo... e acabou desaparecendo. Saí andando, muito devagar. Como um homem andando em gelo superficial. O que eu temia era que, se pisasse com demasiada força, poderia mergulhar direto para fora do mundo e nas trevas por trás. Sei que isso não faz o menor sentido, porra, eu sabia então, mas saber uma coisa nem sempre ajuda. Ajuda?”
— Não — disse Eddie, pensando em seus dias cafungando heroína com Henry.
— Não — disse Susannah.
— Não — concordou Roland, pensando na colina Jerico. No chifre caído.
— Andei um quarteirão, depois dois, depois três. Comecei a achar que ia ficar tudo bem. Quer dizer, eu sentia o cheiro, via alguns Tipos Três, mas sabia dar conta daquelas coisas. Principalmente porque os Tipos Três não pareciam me reconhecer. Olhá-los era como olhar através de um vidro suspeitos numa sala de interrogatório policial. Mas naquela noite eu vi uma coisa muito, mas muito pior que um bando de vampiros.
— Viu alguém que estava realmente morto — disse Susannah.
Callahan virou-se para ela com um olhar de total e assombrada surpresa.
— Como... como você...
— Eu sei porque estive em Nova York em estado todash, também — disse Susannah. — Todos nós. Roland diz que são pessoas que não sabem que faleceram ou se recusam a aceitar o fato. São... como você as chamou, Roland?
— Os defuntos errantes — respondeu Roland. —, Não há muitos deles.
— Eram o bastante — disse Callahan —, e sabiam que eu estava lá. Gente mutilada na Park Avenue, um deles um homem sem olhos; outra, uma mulher sem braço e perna no lado direito, e o corpo todo queimado, os dois olhando para mim, como se achassem que eu podia... consertá-los, de algum modo
“Eu saí correndo. E devo ter corrido uma porra de distância, porque quando retornei a alguma coisa semelhante à sanidade me vi sentado no meio-fio da calçada da esquina da Segunda Avenida com a rua Dezenove, a cabeça pendida e ofegando como uma máquina a vapor.
“Um velhote de rua veio até mim e me perguntou se eu estava bem. Àquela altura eu já tinha recuperado suficiente respiração para lhe dizer que sim. Ele me disse que nesse caso era melhor eu me mandar, porque ele acabava de localizar uma radiopatrulha do Departamento de Polícia de Nova York a apenas dois quarteirões dali, que estava vindo em nossa direção. Iam me pôr em cana, talvez dar cabo de mim. Olhei o velho nos olhos e disse: ‘Eu vi vampiros. Até matei um. E vi mortos ambulantes. Acha que vou ter medo de uma dupla de tiras numa radiopatrulha?’
“Ele recuou alguns passos. Mandou que eu ficasse longe. Disse que eu parecia gente boa, por isso tentou me fazer um favor. Disse que isso era o que recebia. ‘Em Nova York, nenhuma boa ação fica impune’, disse, e saiu batendo os pés pela rua como um garoto tendo um ataque de birra.
“Desatei a rir. Me levantei da calçada e dei uma olhada em mim. Tinha a camisa toda fora da calça, a calça suja de graxa por ter esbarrado em alguma coisa. Não consegui lembrar no que havia esbarrado. Olhei em volta, e por todos os santos e todos os pecadores era ali que ficava o Bar Americano. Descobri depois que há vários deles em Nova York, mas achava que se haviam mudado desde os anos 40 só para mim. Entrei, tomei o banco na ponta do bar, e quando o barman se aproximou, perguntei:
“‘Você tem uma coisa guardada pra mim já faz algum tempo.’
“‘É mesmo, amigo?’
“‘É’, eu disse.
“‘Bem, me diga o que é, que vou buscar pra você.’
“‘É a garrafa de Bushmills, e como já está com ela desde outubro, por que não acrescenta os juros e me dá um duplo?’”
Eddie se contraiu.
— Péssima idéia, cara.
— Naquele momento, parecia a mais perfeita idéia já concebida pela mente de um mortal. Eu ia esquecer Lupe, parar de ver pessoas mortas, talvez até parar de ver os vampiros... os mosquitos, como passei a pensar neles.
“Às oito horas, já estava bêbado. Às nove, muito bêbado. Às dez, bêbado como eu sempre vivia. Tenho uma vaga lembrança do barman me atirando na rua. Uma embriaguez ligeiramente melhor que me permitiu acordar na manhã seguinte no parque, sob uma manta de jornais.”
— De volta ao início — murmurou Susannah.
— Ié, dona, de volta ao início, você diz a verdade, eu agradeço. Sentei-me. Achei que a cabeça ia explodir ao meio. Abaixei-a entre meus joelhos, e como não explodiu, ergui-a de novo. Havia uma velha sentada num banco a uns 20 metros de mim, apenas uma velha de lenço na cabeça dando de comer aos esquilos com um saco de papel cheio de nozes. Só que aquela luz azul se movia devagar por sua face e por sua testa, saindo e entrando na boca quando a velha respirava. Ela era um deles. Um mosquito. Os mortos ambulantes haviam desaparecido, mas eu via os Tipo Três.
“Embriagar-me mais uma vez parecia uma reação lógica, mas eu tinha um pequeno problema: sem grana. Parece que alguém tinha me virado enquanto eu dormia sob o cobertor de jornal, e lá se fora minha bola do jogo.”
Callahan sorriu, embora nada houvesse de engraçado.
— Naquele dia, encontrei a agência Manpower de trabalhadores braçais diaristas. Encontrei-a no dia seguinte, também, e no outro. Então enchi a cara. Isso se tornou meu hábito durante o Verão dos Altos Navios de Carga: trabalhar três dias sóbrio, em geral empurrando um carrinho de mão em alguma construção, ou arrastando grandes caixas para alguma empresa de mudança, depois passava uma noite num tremendo porre e no dia seguinte me recuperava. Então recomeçava tudo de novo. Domingos de folga. Esta foi minha vida em Nova York naquele verão. E a todo lugar que ia, parecia que ouvia a letra daquela música de Elton John, ‘Alguém Salvou Minha Vida Esta Noite’. Não sei se foi nesse verão que ela se tornou ou não popular. Só sei que a ouvia em toda parte. Uma vez, trabalhei cinco dias seguidos para a Covay Movers. The Brother Outfit, eles se auto-intitulavam. Pela sobriedade, foi a melhor coisa pessoal que fiz naquele julho. O encarregado chegou pra mim no quinto dia e me perguntou o que eu achava de ser contratado em horário integral.
“‘Não posso’, respondo. ‘O contrato de mão-de-obra diária proíbe especificamente seus caras de pegar um emprego estável em qualquer empresa de fora durante um mês.’
“‘Foda-se o contrato’, ele diz, ‘todo mundo faz vista grossa para essa babaquice. Que é que você acha, Donnie? Você é um bom sujeito. E tenho a impressão de que poderia fazer um pouco mais que apenas levantar móveis até o caminhão. Quer pensar no assunto esta noite?’
“Eu pensei, e pensar me levou de volta à bebida, como sempre fazia naquele verão. Como sempre faz aos da fé alcoólica. De volta a mim mesmo sentado num barzinho do outro lado do Empire State Building, ouvindo Elton John na juke-box. ‘Quase enfiou suas garras em mim, não foi, querida? ’ E quando voltei pra trabalhar, me inscrevi em outra firma de mão-de-obra diarista, uma que nunca tinha ouvido falar da porra da Brother Outfit.”
Callahan cuspiu a palavra porra num quase rosnado desesperado, como fazem os homens quando a vulgaridade se tornou para eles uma espécie de curso lingüístico de último recurso.
— Você se embriagava, se desligava, trabalhava — disse Roland. — Mas teve pelo menos outro trabalhinho naquele verão, não foi?
— Sim. Demorei algum tempo para levá-lo a cabo. Eu vi vários deles, a mulher dando de comer aos esquilos no parque foi só a primeira, mas não estavam fazendo nada. Quer dizer, eu sabia o que eram, mas mesmo assim era difícil matá-los a sangue-frio. Então, uma noite em Battery Park vi outro se alimentando. Eu tinha um canivete de mola no bolso na época, levava pra todo lugar. Cheguei por trás dele e o esfaqueei quatro vezes: uma nos rins, uma entre as costelas, uma no alto das costas, uma no pescoço. Botei toda minha força na última. A lâmina saiu do outro lado com o pomo-de-adão da coisa espetado como um pedaço de carne grelhada num shish kebab, com um ruído rasgado.”
Embora Callahan falasse de forma prosaica, seu rosto ficara muito pálido.
— O que aconteceu no beco atrás do Lar tornou a acontecer: o cara desapareceu direto de dentro das roupas. Eu esperava por isso, mas claro que não podia ter certeza de que tinha acontecido mesmo.
— Uma andorinha só não faz verão — disse Susannah.
Callahan assentiu.
— A vítima era um garoto de uns 15 anos, que parecia porto-riquenho ou talvez dominicano. Ele tinha um radiogravador entre os pés. Não me lembro se estava tocando, portanto provavelmente não era “Alguém Salvou Minha Vida Esta Noite”. Passaram-se cinco minutos. Eu ia começar a estalar os dedos debaixo de seu nariz ou talvez lhe dar uns tapinhas na face, quando ele piscou, cambaleou, sacudiu a cabeça e despertou. Viu-me parado diante dele e a primeira coisa que fez foi agarrar o radiogravador. Segurou-o junto ao peito como um bebê. Então disse: “Que é que tu quer, cara?” Eu disse que não queria nada, coisa nenhuma, nada de maldade nem sacanagem, mas estava curioso sobre aquelas roupas caídas a seu lado. O garoto olhou, ajoelhou-se e começou a remexer nos bolsos delas. Achei que encontraria o bastante para se ocupar, mais que o bastante, e então saí andando. E esta foi a segunda vítima. A terceira foi mais fácil. A quarta, mais fácil ainda. Em fins de agosto eu já tinha liquidado meia dúzia. A sexta foi a mulher que eu tinha visto no Banco Marine Midland. Mundo pequeno, não?
“Com muita freqüência, eu ia até a esquina da Primeira com a Quarenta e Sete e parava defronte ao Lar. Às vezes, me via ali no fim da tarde, olhando os bêbados e os desabrigados que apareciam pro jantar. Às vezes Rowan saía e falava com eles. Não fumava, mas sempre andava com cigarros nos bolsos, dois maços, e os distribuía entre eles até esvaziá-los. Jamais fiz algum esforço em particular para me esconder dele, mas se algum dia me avistou, nunca deu qualquer sinal.”
— Você na certa tinha mudado a essa altura — disse Eddie.
Callahan assentiu.
— Cabelos caindo até os ombros, e ficando grisalhos. Uma barba. E é claro que não ligava mais a mínima pra roupas. Metade do que eu usava então vinha dos vampiros que tinha matado. Um deles era um mensageiro de bicicleta e tinha um belo par de botas. Não mocassins Bally, mas quase novas, e do meu tamanho. Essas coisas duram pra sempre. Ainda as tenho. — Indicou com a cabeça a casa. — Mas acho que não foi por nada disso que não me reconheceu. No negócio de Rowan Magruder, lidando com gente bêbada, viciada em drogas e desabrigada que tem um pé na realidade e o outro na Zona Crepuscular, você se acostuma a ver mudanças nelas, e em geral não pra melhor. Você aprende a ver quem está com novos hematomas e camadas recentes de sujeira. Acho que foi mais por eu ter me tornado um dos que você chama de mortos ambulantes, Roland. Invisível para o mundo. Mas acho que essas pessoas, essas ex-pessoas, devem continuar ligadas a Nova York.
— Nunca se afastam muito — concordou Roland. O cigarro se consumira; o papel seco e as migalhas de tabaco haviam desaparecido até as unhas em duas baforadas. — Os fantasmas sempre assombram a mesma casa.
— Claro que assombram, pobres coitados. E eu queria me mandar. Todo dia o sol se punha mais cedo, e eu sentia um pouco mais forte o chamado daquelas estradas, daquelas estradas escondidas. Parte disso talvez fosse a lendária cura geográfica, à qual creio que já me referi. É uma crença totalmente ilógica, e no entanto poderosa em que tudo vai mudar pra melhor num novo lugar; que a compulsão de se autodestruir vai desaparecer magicamente. Parte disso era sem a menor dúvida a esperança de que em outro lugar, um lugar mais agreste, não haveria mais vampiros nem mortos ambulantes pra gente agüentar. Mas, acima de tudo, eram outras coisas. Bem... uma coisa muito grande. — Callahan sorriu, porém não mais que um risco dos lábios expondo as gengivas. — Alguém havia começado a andar à minha caça.
— Os vampiros — disse Eddie.
— Ié... — Callahan mordeu o lábio, depois repetiu com mais convicção. — É. Mas não apenas eles. Mesmo quando tinha de ser a idéia mais lógica, não parecia inteiramente certa. Eu sabia que não eram os mortos, pelo menos; eles me viam, mas não ligavam pra mim de um jeito ou de outro, a não ser talvez pela esperança de que eu pudesse consertá-los ou tirá-los do seu sofrimento. Mas os Tipo Três não me viam, como eu já disse, de qualquer modo não como a coisa que os caçava. E as durações da atenção deles são curtas, como se fossem em certa medida infectados pela mesma amnésia que passam para suas vítimas.
“Tomei consciência pela primeira vez de que estava em apuros uma noite no parque da Washington Square, não muito depois que matei a mulher do banco. Esse parque se tornara um lugar assíduo preferido por mim, embora Deus saiba que eu não era o único. No verão, era um verdadeiro dormitório ao ar livre. Eu tinha até meu banco favorito, embora não o pegasse toda noite... nem fosse lá toda noite.
“Nessa noite em particular, tempestuosa, abafada e fechada, cheguei lá por volta das oito horas. Tinha comigo uma garrafa num saco de papel pardo e um livro dos Cantos de Ezra Pound. Aproximei-me do banco, e ali, pintada com tinta aerossol de um lado ao outro nas costas de outro banco perto do meu, vi uma pichação que dizia: ELE VEM AQUI. ELE TEM UMA DAS MÃOS QUEIMADAS.”
— Ó meu Deus do céu — sussurrou Susannah, e levou a mão à garganta.
— Saí do parque na mesma hora e dormi num beco a vinte quadras dali. Não havia dúvida alguma pra mim de que eu era o sujeito daquela pichação. Duas noites depois, vi uma na calçada diante de um bar em Lex onde eu gostava de beber e às vezes comer um sanduíche, se estivesse, como dizem, abonado. Tinha sido feita com giz e o tráfego a pé a apagara até parecer fantasmagórica, mas apesar disso deu pra ler. Dizia a mesma coisa: ELE VEM AQUI. ELE TEM UMA DAS MÃOS QUEIMADAS. Havia cometas e estrelas em volta da mensagem, como se quem tivesse escrito realmente tivesse também tentado enfeitá-la. Um quarteirão adiante, pichado com tinta numa placa de Proibido Estacionar: QUASE TODO O SEU CABELO ESTÁ BRANCO AGORA. Na manhã seguinte, na lateral de um ônibus circular: SEU NOME PODE SER COLLING-WOOD. Dois dias depois, comecei a ver cartazes de animais de estimação perdidos em volta de vários dos lugares que haviam passado a ser meus lugares, Needle Park, o lado oeste de The Ramble do Central Park, o bar City Lights em Lex, dois clubes de música e poesia folclóricas no Village.
— Cartazes de animais de estimação perdidos — divertiu-se Eddie. — Sabe, de certa maneira isto é brilhante.
— Eram todos a mesma coisa — disse Callahan. — VOCÊ VIU NOSSO SETTER IRLANDÊS? ELE É UMA COISINHA VELHA E IDIOTA MAS NÓS O AMAMOS. PATA DIANTEIRA QUEIMADA. ATENDE PELO NOME DE KELLY, COLLINS OU COLLING-WOOD. PAGAMOS UMA RECOMPENSA ENORME A QUEM O ENCONTRAR. E depois uma fileira de cifrões de dólares.
— A quem seriam dirigidos esses cartazes? — perguntou Susannah.
Callahan encolheu os ombros.
— Não sei exatamente. Aos vampiros, talvez.
Eddie esfregava o rosto, cansado.
— Muito bem, vamos ver. Temos os vampiros Tipo Três... os defuntos errantes... e agora esse terceiro grupo. Os que saíam por ali colando cartazes de animais de estimação perdidos que não eram sobre animais de estimação e escrevendo coisas em prédios e calçadas. Quem eram eles?
— Os homens maus — disse Callahan. — Se apresentam assim, embora haja mulheres entre eles. Às vezes se chamam de reguladores. Vários usam casacões amarelos... mas não todos. Vários têm caixões azuis tatuados nas mãos... mas não todos.
— Os Grandes Caçadores de Caixão, Roland — murmurou Eddie.
Roland assentiu, mas sem tirar os olhos de Callahan.
— Deixe o homem falar, Eddie.
— O que são, o que na verdade são, é soldados do Rei Rubro — disse Callahan. E persignou-se.
12
Eddie se assustou. Susannah levou mais uma vez a mão à barriga e começou a alisá-la. Roland se viu lembrando o passeio deles pelo Gage Park, após finalmente escaparem de Blaine. Os animais mortos no zoológico. O jardim arruinado das roseiras devastadas. O carrossel e o trem de brinquedo. Depois, a estrada de metal levando a uma estrada de metal ainda maior que Eddie, Susannah e Jake chamavam de auto-estrada com pedágio. Ali, numa placa, alguém pichara CUIDADOCOM O TIPO QUE ANDA . E em outra placa, decorada com o tosco desenho de um olho, esta mensagem: TODOSSAÚDAMO REI RUBRO!
— Vocês já ouviram falar do cavalheiro, pelo que vejo — disse Callahan secamente.
— Digamos que ele deixou sua marca onde também pudéssemos vê-la — disse Susannah.
Callahan indicou a direção do Trovão com a cabeça.
— Se a busca de vocês os levar lá — disse —, vão ver mais uma porrada muito maior do que alguns avisos pintados a aerossol em algumas paredes.
— E você? — perguntou Eddie. — Que foi que fez?
— Primeiro me sentei e analisei a situação. E decidi que, por mais que parecesse fantástica ou paranóica a um forasteiro, eu vinha sendo mesmo caçado, não necessariamente por vampiros Tipo Três. Embora, claro, eu compreendesse, sim, que as pessoas que colocavam os cartazes de animais de estimação perdidos não teriam escrúpulos em usar os vampiros contra mim.
“Nesse ponto, lembrem, eu não fazia a menor idéia de quem poderia ser aquele grupo misterioso. Em Jerusalem’s Lot, Barlow se mudou para uma casa que havia passado por terrível violência e tinha fama de ser mal-assombrada. O escritor, Mears, disse que uma casa má atraía um homem mau. Meu pensamento mais racional em Nova York me levou de volta a essa idéia. Comecei a achar que eu tinha atraído outro tipo de vampiro, outro Tipo Um, da maneira como a Casa Marsten atraiu Barlow. Idéia certa ou errada (acabou se revelando errada), achei confortante saber que meu cérebro, encharcado de pinga ou não, ainda era capaz de alguma lógica.
“A primeira coisa que eu tinha de decidir era se ficava em Nova York ou fugia. Sabia que se não fugisse eles iam me alcançar, e provavelmente mais cedo que mais tarde. Tinham uma descrição, com isto como um identificador especialmente bom.”
Callahan ergueu a mão queimada.
— Tinham quase meu nome; e o saberiam com certeza em mais uma ou duas semanas. Haviam cercado todas as minhas paradas regulares, lugares onde meu cheiro se concentrara. Haviam encontrado pessoas com quem eu conversava, saía, jogava xadrez e cribbage. Pessoas com quem eu também trabalhava em meus empregos da Manpower e da Brawny Man.
“Isso me levou a um lugar onde eu devia ter permanecido muito antes, mesmo um mês depois de cair na bebida. Compreendi que eles iam encontrar Rowan Magruder, o Lar e todas as outras espécies de pessoas que me conheceram lá. Trabalhadores de meio período, voluntários, dezenas de clientes. Porra, após nove meses, centenas de clientes.
“Pra cumular tudo mais, havia a atração daquelas estradas.”
Callahan olhou para Eddie e Susannah.
— Sabiam que existe uma ponte só pra pedestres sobre o rio Hudson até Nova Jersey? É quase uma sombra da ponte George Washington, uma passarela de tábuas que ainda tem alguns bebedouros de madeira para vacas e cavalos ao longo de um dos lados.
Eddie riu como faz um homem quando percebe que um de seus apêndices inferiores está sendo sacudido rapidamente.
— Perdoe-me, padre, mas isto é impossível. Estive na ponte George Washington talvez umas quinhentas vezes na vida. Não existe nenhuma ponte de tábuas.
— Mas existe, sim — disse Callahan calmamente. — Remonta ao início do século XIX, e digo mais, embora tenha sido fechada para reparos várias vezes desde então. Na verdade, há uma placa na metade da travessia que diz REPAROS DO BICENTENÁRIO CONCLUÍDOS EM 1975 PELAS INDÚSTRIAS LAMERK. Eu me lembrei desse nome na primeira vez que vi o robô Andy. Segundo a plaquinha de metal no peito dele, é a empresa que o fez.
— Diferentes subsidiárias da mesma companhia, na certa — disse Susannah.
Roland nada disse, só fez aquele impaciente gesto giratório com os dois dedos restantes da mão direita: ande logo, ande logo.
— Ela está lá, mas é difícil de ver — continuou Callahan. — Escondida. E é apenas o primeiro dos caminhos secretos. De Nova York, irradiam-se como uma teia de aranha.
— Auto-estradas com pedágio todash — murmurou Eddie. — Captei o conceito.
— Não sei se está certo ou não — disse Callahan. — Só sei que vi coisas extraordinárias em minhas perambulações durante os anos seguintes, e também conheci um monte de gente boa. Parece até um insulto chamá-las de pessoas normais, ou comuns, mas eram as duas coisas. E sem a menor dúvida elas dão a palavras como normal e comum uma sensação de nobreza pra mim.
“Eu não queria deixar Nova York sem ver novamente Rowan Magru-der. Queria que ele soubesse que tinha mijado na cara morta de Lupe, me embriagado até a tampa, mas não tinha arriado as calças até embaixo e feito a outra coisa. O que é meu jeito muito troncho de dizer que não desistira inteiramente. E que eu tinha decidido não amarelar como um coelho num feixe luminoso de lanterna.”
Callahan recomeçara a chorar. Enxugou os olhos com as mangas da camisa.
— E também, imagino, eu queria me despedir de alguém, e ter alguém que se despedisse de mim. As despedidas que proferimos e as que ouvimos são as despedidas que nos dizem que ainda estamos vivos, afinal. Queria dar-lhe um abraço, e passar adiante o beijo que Lupe tinha me dado. Mais a mensagem: "Você é valioso demais para se perder. Eu...”
Viu Rosalita correndo pelo gramado com a saia torcida ligeiramente no tornozelo, e interrompeu-se. Ela entregou-lhe um pedaço de ardósia liso no qual alguma coisa fora escrita com giz. Por um momento ensandecido Eddie imaginou uma mensagem ladeada por estrelas e luas: PERDIDO! UM CÃO VIRA-LATA COM A PATA DIANTEIRA MUTILADA! ATENDE PELO NOME DE ROLAND ! MAL-HUMORADO, DADO A MORDER, MAS NÓS O AMAMOS MESMO ASSIM!!!
— É de Eisenhart — disse Callahan, erguendo os olhos. — Se Overholser é o grande fazendeiro por estas bandas, e Eben Took o grande comerciante, então devemos chamar Vaughn Eisenhart de o grande rancheiro. Diz que Slightman pai e filho e o Jake de vocês vão nos encontrar em Nossa Senhora ao meio-dia, se lhes convier. É difícil entender a letra dele, mas acho que vai levá-los para visitar fazendas, pequenas propriedades e ranchos, quando voltarem para a Rocking B, onde passarão a noite. Está bem pra você?
— Não muito — disse Roland. — Eu preferia ter meu mapa antes de partir.
Callahan pensou nisso e depois olhou para Rosalita. Eddie decidiu que a mulher provavelmente era muito mais que apenas uma governanta. Embora tivesse se afastado além do alcance do ouvido, não se afastou de todo da casa. Como uma boa secretária executiva, ele pensou. O Velho não precisou chamá-la; ela se adiantou ao olhar dele. Os dois falaram e então Rosalita foi embora.
— Acho que vamos comer nosso almoço no gramado da igreja — disse Callahan. — Há um agradável bosque de bétulas lá que nos proporcionará sombra. Quando terminarmos, tenho certeza de que os gêmeos vão ter alguma coisa pronta pra você.
Roland assentiu, satisfeito.
Callahan levantou-se com uma contração, pôs as mãos na parte mais estreita das costas e alongou-se.
— E eu tenho uma coisa para lhes mostrar agora.
— Você não terminou sua história — disse Susannah.
— Não — concordou Callahan —, mas o tempo ficou curto. Eu posso andar e falar ao mesmo tempo, se vocês aí puderem andar e escutar.
— Podemos, sim — disse Roland, levantando-se. Doeu, mas nada insuportável. A gordura de gato de Rosalita era uma coisa especial. — Só me diga duas coisas antes de irmos.
— Se eu puder, pistoleiro, farei com o maior prazer.
— Os caras dos avisos: você os viu em suas viagens?
Callahan assentiu com a cabeça devagar.
— Vi, pistoleiro, vi, sim. — Olhou para Eddie e Susannah. — Já viram uma foto colorida de pessoas, tirada com flash, onde os olhos de todo mundo são vermelhos?
— Jááá — disse Eddie.
— Os olhos deles são assim. Olhos rubros. E a sua segunda pergunta, Roland?
— São eles os Lobos, père? Esses homens maus? Os soldados do Rei Rubro? São eles os Lobos?
Callahan hesitou um longo tempo antes de responder.
— Não sei dizer com certeza — acabou respondendo. — Não cem por cento, entenda. Mas acho que não. Mas sem a menor dúvida são seqüestradores, embora não levem só crianças. — Pensou no que dissera. — Uma certa espécie de Lobos, talvez. — Pensou mais um pouco, depois repetiu: — É, uma certa espécie de Lobos.
CAPÍTULO 4
A História do Padre Continua
(Rodovias Escondidas)
1
A caminhada do quintal da reitoria até a porta da frente de Nossa Senhora da Serenidade foi curta, não levando mais que cinco minutos. Certamente, não era tempo suficiente para o Velho contar-lhes sobre os anos que passara vivendo como vagabundo antes de ver uma matéria jornalística no Bee de Sacramento que o levara de volta a Nova York em 1981, e no entanto os três pistoleiros ouviram todo o relato. Roland desconfiou que Eddie e Susannah, assim como ele, sabiam o que isso significava: quando passarem adiante de Calla Bryn Sturgis — supondo sempre que não iam morrer lá — haveria toda a probabilidade de Donald Callahan seguir adiante com eles. Não se tratava apenas de narrar uma história, mas khef, a partilha da água. E deixando de lado o toque, a comunicação, que era outra questão, a khef só podia ser partilhada por aqueles cujo destino fora soldado para o bem ou para o mal. Por aqueles que eram ka-tet.
Callahan disse:
— Vocês sabem o que o pessoal diz: “Não estamos mais no Kansas, Toto?”
— A frase tem alguma vaga ressonância pra nós, doçura, sim — disse Susannah secamente.
— Tem? É, só de olhar pra vocês vejo que tem. Talvez me contem sua própria história um dia. Tenho a impressão de que vai deixar a minha no chinelo. Em todo caso, eu soube que não estava mais no Kansas ao me aproximar da extremidade oposta da ponte de pedestres. E pareceu que eu também não entrava no estado de Nova Jersey. Pelo menos não o que sempre havia esperado encontrar no outro lado do Hudson. Vejo um jornal amassado
2
sobre o parapeito da passarela, que parece completamente deserta exceto para ele, embora o tráfego de veículos na grande ponte pênsil à sua esquerda seja pesado e constante, e ele se curva para pegá-lo. O vento frio que sopra ao longo do rio despenteia-lhe os cabelos grisalhos à altura dos ombros.
Há apenas uma folha de jornal dobrada, mas no alto se vê a primeira página do Register de Leabrook. Callahan nunca ouviu falar de Leabrook. Nenhum motivo para ter ouvido, ele não é nenhum acadêmico de Nova Jersey, nem sequer esteve lá desde a chegada em Manhattan no ano anterior, mas sempre julgou que a cidade do outro lado da ponte George Washington fosse Fort Lee.
Então as manchetes se apoderam de sua mente. A de um lado ao outro no alto da página parece bastante correta; TENSÕES RACIAIS EM MIAM1 DIMINUEM , diz. Os jornais de Nova York estiveram cheios desses problemas nos últimos dias. Mas que entender de GUERRA DE PIPAS CONTINUA EM TEANECK, HACKENSACK , até com uma foto de um prédio em chamas? Há uma foto de bombeiros chegando num carro-pipa, mas estão todos rindo! Que entender de PRESIDENTE AGNEW APÓIA SONHO DE TERRAFORM DA NASA? Que entender da matéria no pé da folha, escrita em cirílico?
Que estava acontecendo comigo?, pergunta-se Callahan. Durante todo o envolvimento com o negócio dos vampiros e os mortos caminhantes — mesmo durante todo o surgimento dos cartazes dos animais de estimação perdidos que claramente se referiam a ele —, Callahan jamais questionou sua sanidade. Agora, parado ali na ponta daquela ponte humilde (e muitíssimo admirável!) de pedestres do outro lado do Hudson, utilizada por ninguém mais além dele — finalmente a questiona. A idéia de Spiro Agnew como presidente basta só por si mesma, ele pensa, faz qualquer um com um pontinho de senso político duvidar de sua própria sanidade. O homem renunciou anos atrás, antes mesmo de seu chefe fazê-lo.
Que estava acontecendo comigo?, pergunta-se, mas se ele é um lunático delirante a imaginar tudo isso, realmente não quer saber.
“Fora com as bombas”, ele diz, e atira o restante de quatro páginas do Register de Leabrook sobre a amurada da ponte. A brisa colhe-o e transporta-o para a George Washington. Isto é realidade, ele pensa, bem ali. Aqueles carros, aqueles caminhões, aqueles ônibus de excursão Peter Pan. Mas então, entre os veículos, ele vê um vermelho que parece correr a grande velocidade por vários fios circulares. Acima do corpo do veículo — mais ou menos do tamanho de um ônibus escolar médio — gira um cilindro rubro. BANDY , lê-se num lado. BROOKS, no outro. BANDY BROOKS . Ou BANDYBROOKS. Que porra é Bandy Brooks? Ele não tem a menor idéia. Nem jamais viu veículo igual na vida, e não teria acreditado em tal coisa — veja os fios, pelo amor de Deus —, seria o acesso daquilo permitido numa rodovia pública?
Então a ponte George Washington também não é o mundo seguro. Ou não mais.
Callahan segura o parapeito da ponte e aperta-o com força, quando uma onda de tonteira o percorre de cima a baixo, fazendo-o sentir-se instável nos pés e inseguro de seu equilíbrio. O parapeito parece bastante real, madeira aquecida pelo sol e gravada com milhares de iniciais e mensagens. Ele vê DK ama MB num coração. FREEDY & HELEN = VERDADEIRO AMOR. Vê MATEM TODOS OS JUDEUS E NEGROS , a mensagem enquadrada por suásticas, e maravilhas de esgotamento verbal tão completas que o sofredor não pode nem soletrar seus epítetos preferidos. Mensagens de ódio, mensagens de amor, e todas tão reais quanto seu rápido batimento cardíaco ou o peso de algumas moedas e notas no bolso da frente do jeans. Sorve um longo hausto da brisa, e isto também é real, até o sabor de combustível diesel.
Isto está acontecendo comigo, eu sei que está, pensa. Não estou na Enfermaria 9 de algum hospital psiquiátrico. Eu sou eu, estou aqui, e até mesmo sóbrio — pelo menos por enquanto —, e Nova York fica atrás de mim. Assim como a cidade de Jerusalem’s Lot, no Maine, com seus mortos agitados. Diante de mim estão os Estados Unidos com todas as suas possibilidades.
Esse pensamento o anima, e é seguido por outro que o leva ainda mais às alturas: não apenas um Estados Unidos, talvez, mas uma dezena... centenas... ou milhares. Se logo ali fica Leabrook em vez de Fort Lee, talvez seja outra versão de Nova Jersey, onde a cidade do outro lado do Hudson é Leeman ou Leighman ou Lee Bluffs ou Lee Palisades ou Leghorn Village. Talvez em vez de 42 Estados Unidos continentais no outro lado do Hudson haja 420 ou 42 mil, todos empilhados em geografias verticais de oportunidades.
E ele entende instintivamente que isso é quase com toda a certeza verdade. Deparara-se com uma enorme, possivelmente infindável, confluência de mundos. São todos Estados Unidos, mas são todos diferentes. Há rodovias que conduzem através deles, e Callahan as vê.
Dirige-se a passos largos até a ponta Leabrook da ponte, e então pára mais uma vez. E se eu não encontrar o caminho de volta?, pensa. E se eu me perder, vagar e jamais tornar a encontrar o caminho de volta aos Estados Unidos, onde Fort Lee fica no lado oeste da ponte George Washington e Gerald Ford (logo quem!) é o presidente dos Estados Unidos?
E então ele pensa: E daí se não encontrar? Foda-se, e daí?
Quando sai e pisa no lado Jersey da ponte de pedestres, está sorrindo radiante, verdadeiramente despreocupado pela primeira vez desde que presidiu em cima do túmulo de Danny Glick na cidade de Jerusalém’s Lot. Dois meninos com varas de pescar encaminham-se em sua direção.
— Algum dos jovens coleguinhas faria o favor de me dar as boas-vindas a Nova Jersey? — pede Callahan, sorrindo ainda mais radiante que nunca.
— Bem-vindo a Ene-Jota, cara — diz um deles, de muito bom grado, mas ambos passam bem ao largo dele e lançam-lhe um olhar cauteloso. Ele não os culpa, mas isso não diminui em nada seu esplêndido estado de espírito. Sente-se como um homem solto de uma prisão cinzenta e tristonha que saiu para um dia ensolarado. Põe-se a andar mais rápido, não se virando para dar sequer uma olhada para a silhueta dos prédios na linha do horizonte de Manhattan. Por que daria? Manhattan é o passado. Os múltiplos Estados Unidos que se estendem adiante dele, esses são o futuro.
Está em Leabrook. Não ressoam os sinos. Mais tarde haverá sinos e vampiros; mais tarde haverá mais mensagens escritas a giz em calçadas e pichadas com tinta aerossol em paredes de tijolos (nem todas sobre ele). Mais tarde, verá os homens maus em seus gritantes Cadillacs vermelhos e Lincolns verdes e Mercedes-Benz roxos, homens maus com olhos disparando faíscas vermelhas, mas hoje, não. Hoje, é só a luz do sol num novo Estados Unidos, no lado oeste de uma ponte para pedestres restaurada do outro lado do Hudson.
Na rua principal, pára diante do Comida Caseira de Leabrook e vê uma tabuleta na janela do restaurante na qual se lê PRECISA-SE DE COZINHEIRO PARA REFEIÇÕES À MINUTA. Don Callahan preparou pratos rápidos durante quase todo seu tempo no seminário, e fez mais que sua parcela da mesma coisa no Lar no East Side de Manhattan. Pensa que talvez possa se encaixar bem ali no Comida Caseira de Leabrook. Acaba vendo que tinha razão, embora sejam necessários três turnos para ele recuperar a habilidade de fritar dois ovos com uma só mão na grelha. O dono, um longo sorvo de água chamado Dicky Rudebacher, pergunta-lhe se tem algum problema médico — “coisa de contágio”, chama-o — e balança a cabeça em simples aceitação quando Callahan diz que não tem. Não pede qualquer documento de trabalho nem o número da Seguridade Social. Quer pagar seu novo cozinheiro fora dos livros, se isso não for um problema para ele. Callahan garante-lhe que não.
— Mais uma coisa — diz Dicky Rudebacher, e Callahan espera apreensivo. Nada o surpreenderia, mas o que Rudebacher diz é: — Você parece um homem que bebe.
Callahan reconhece que tem sido conhecido por gostar de uns drinques.
— Eu também — diz Rudebacher. — Neste negócio, é a maneira de a gente proteger a maldita sanidade. Não vou cheirar seu bafo quando você chegar... se chegar na hora. Não chegue na hora duas vezes, contudo, e pode seguir seu caminho pra qualquer outro lugar. Não vou lhe dizer isto de novo.
Callahan prepara pratos rapidamente no Restaurante Comida Caseira de Leabrook durante três semanas, e hospeda-se a duas quadras dali, no Motel Sunset. Só que nem sempre é a Comida Caseira, nem sempre é o Sunset. Em seu quarto dia na cidade, acorda no Motel Sunrise e o Restaurante Comida Caseira de Leabrook é o Restaurante Comida Caseira de Fort Lee. O Register de Leabrook, que as pessoas têm deixado atrás do balcão, torna-se o Register-American de Fort Lee. Ele não fica exatamente aliviado ao descobrir que Gerald Ford reassumiu a presidência.
Quando Rudebacher lhe paga no final da primeira semana — em Fort Lee —, Grant está nas notas de 50, Jackson nas de 20 e Alexander Hamilton na única de 10 no envelope que o patrão lhe entrega. No fim da segunda semana — em Leabrook — Abraham Lincoln está nas de 50 e alguém chamado Chadbourne na de 10. Continua sendo Andrew Jackson nas de 20, o que é um certo alívio. No quarto do motel de Callahan, a colcha é cor-de-rosa em Leabrook e laranja em Fort Lee. Isto é útil. Ele sempre sabe em qual versão de Nova Jersey está assim que acorda.
Embriaga-se duas vezes. Na segunda, após fechar, Dicky Rudebacher junta-se a ele e o acompanha drinque a drinque.
— Este era um grande país — lamenta a versão Leabrook de Rudebacher, e Callahan pensa em como é fantástico o fato de algumas coisas não mudarem; o fundamental resmungo-e-lamento se aplica com o passar do tempo.
Mas sua sombra começa a alongar-se mais cedo a cada dia, ele viu seu primeiro vampiro Tipo Três esperando na fila para comprar um ingresso no cinema Leabrook Twin, e um dia avisa que vai embora.
— Eu achei que você havia me dito que não tinha nada, meu amigo — diz Rudebacher a Callahan.
— Como?
— Você tem um grave caso de sarna no pé, meu amigo. Isso sempre acompanha a outra coisa. — Faz um gesto de entornar a garrafa com a mão avermelhada de detergente para lavar pratos. — Quando um cara pega sarna no pé tarde na vida, é muitas vezes incurável. Quer saber de uma coisa, se eu não tivesse uma mulher que ainda é uma trepada muito boa e dois filhos na faculdade, talvez fizesse uma trouxa e me juntasse a você.
— Ié? — exclama Callahan, fascinado.
— Setembro e outubro são sempre os piores — diz Rudebacher, devaneando. — A gente ouve o chamado dela. Os pássaros também a ouvem e partem.
— Dela?
Rudebacher dá-lhe um olhar que diz: não seja idiota.
— Com eles, é o céu. Caras como nós, é a estrada. O chamado da porra da estrada. Caras como eu, filhos na escola e uma mulher que ainda gosta da coisa mais que apenas na noite de sábado, aumentam o volume do rádio um pouco mais alto e abafam o chamado. Você não vai querer fazer isso. — Faz uma pausa, encara Callahan astutamente. — Fica mais uma semana? Dou-lhe um bota-fora com mais 25 paus. Você dá uma porra de um Monte Cristo.
Callahan pensa na proposta, depois abana a cabeça. Se Rudebacher estivesse certo, se só fosse uma estrada, talvez ele ficasse mais uma semana... e outra... e outra... Mas não é apenas uma. São todas elas, todas as rodovias escondidas, e ele se lembra do livro de leitura do terceiro ano e desata a rir. Chamava-se Estradas para Todos os Lugares.
— Que é tão engraçado? — pergunta Rudebacher, com azedume.
— Nada — responde Callahan. — Tudo. — Bate com a mão no ombro do patrão. — Você é um bom sujeito, Dicky. Se eu voltar por estas bandas, dou uma passada por aqui.
— Você não vai voltar — diz Dicky Rudebacher, e é claro que ele tem razão.