A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 5 de 43

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

Capítulo 5

 

Entraram e não foram vistos, e Eddie sentiu alívio em contar 21 livros na mesinha de exposição que chamara a atenção do garoto. Só que, claro, quando Jake pegou os dois que queria — Charlie Chuu-Chuu e o livro de adivinhações —, ficaram 19.

— Encontrou alguma coisa, filho? — perguntou uma voz macia. Era um sujeito gorducho com uma camisa branca de gola aberta. Atrás dele, num balcão que parecia poder ter sido roubado de uma fonte de refresco da virada do século, um trio de caras velhos tomava café e mordiscava massas. Havia um tabuleiro de xadrez com um jogo em andamento no balcão de mármore.

— O cara sentado na ponta é Aaron Deepneau — sussurrou Jake. — Vai me explicar o enigma de Sansão.

— Xiu! — fez Eddie.

Queria escutar a conversa entre Calvin Tower e o Garoto Setenta e Sete. De repente, parecia muito importante... só que, por que estava tão escuro ali dentro, porra?

Só que não está escuro de jeito nenhum. O lado leste da rua pega bastante sol a esta hora, e com a porta aberta este lugar recebe toda luz dele. Como pode você dizer que está escuro?

Pois de algum modo estava. A luz do sol — o contraste da luz do sol — só a tornava pior... O fato de que não se podia ver exatamente a tornava pior ainda... e Eddie percebeu uma coisa terrível: aquelas pessoas corriam perigo. Tower, Deepneau, o Garoto Setenta e Sete. Provavelmente, ele e Jake do Mundo Médio, e Oi também.

Todos eles.

 

6

Jake viu o seu outro eu, mais jovem, recuar um passo do dono da livraria, os olhos arregalados de surpresa. Porque ele se chamava Tower, pensou. Foi isso que me surpreendeu. Mas não por causa da Torre de Roland — eu ainda não sabia disso —, mas por causa do desenho que botei na última página de minha Redação Final.

Colara uma foto da Torre Inclinada de Pisa na última página, depois escrevera por cima com Crayola preto, escurecendo-a o melhor que pôde.

Tower perguntou como ele se chamava. Jake Setenta e Sete disse-lhe e o homem o gozou um pouco. Era uma gozação benigna, dessas que se recebe de adultos que na verdade não gostam de crianças.

— Bom manuseio, parceiro — dizia Tower. — Parece o herói vagabundo de um romance de faroeste, o cara que irrompe em Black Fork, Arizona, limpa a cidade e depois segue adiante. Alguma coisa de Wayne D. Overholser, talvez...

Jake chegou um passo mais perto do seu velho eu (uma parte dele pensava que maravilhoso quadro aquilo tudo daria no Embalos de Sábado à Noite) e arregalou ligeiramente os olhos.

— Eddie!

Ainda sussurrava, embora soubesse que as pessoas na livraria não podiam...

Só que, talvez em algum nível, pudessem. Lembrou-se da senhora na rua Quarenta e Quatro, puxando a saia até o joelho para passar por cima de Oi. E agora Calvin Tower desviava ligeiramente os olhos para seu lado, antes de voltar à outra versão dele.

— Talvez seja bom não chamar desnecessariamente a atenção — murmurou Eddie no ouvido de Jake.

— Eu sei — disse o garoto —, mas veja Charlie Cbuu-Chuu, Eddie!

Ele olhou, e por um momento não viu nada — a não ser o próprio Charlie, claro: Charlie com o olho de farol e o sorriso não exatamente digno de confiança. Depois Eddie ergueu as sobrancelhas.

— Eu achava que Charlie Chuu-Chuu tinha sido escrito por uma senhora chamada Beryl Evans — sussurrou.

Jake assentiu com a cabeça.

— Eu também.

— Então quem é esse... — Eddie deu outra olhada. — Quem é essa Claudia y Inez Bachman?

— Não faço a menor idéia — disse Jake. — Nunca ouvi falar dela em minha vida.

 

7

Um dos velhos no balcão veio saltitando para o lado deles. Eddie e Jake afastaram-se. Ao recuarem, a coluna de Eddie deu uma pequena e fria torção. Jake ficou muito pálido, e Oi emitia uma série de baixos e angustiados gemidos. Havia algum problema ali, sem dúvida. De certa forma, eles haviam perdido suas sombras. Eddie simplesmente não sabia como.

O Garoto Setenta e Sete tirara a carteira e pagava pelos dois livros. Houve mais algumas conversas e bem-humoradas risadas, e depois ele se dirigiu para a porta. Quando Eddie foi atrás dele, o Jake do Mundo Médio agarrou-lhe o braço.

— Não, ainda não, eu vou voltar.

— Pouco estou ligando que você alfabetize a casa toda — disse Eddie.

— Vamos esperar na calçada.

Jake pensou nisso, mordendo o lábio, e balançou a cabeça. Encaminharam-se para a porta, pararam e saíram da frente quando o outro Jake voltou. O livro de adivinhações estava aberto. Calvin Tower voltara a cochilar sobre o tabuleiro de xadrez no balcão. Olhou em volta com um sorriso simpático.

— Mudou de idéia sobre a xícara de café, ó Hiperbóreo Guerreiro?

— Não, eu queria lhe perguntar...

— É a parte do enigma de Sansão — disse o Jake do Mundo Médio. — Acho que não tem importância. Embora o tal Deepneau cante uma cantiga muito bonitinha, se você quiser ouvi-la.

— Eu passo — disse Eddie. — Vamos embora.

Saíram. E embora tudo na Segunda Avenida ainda estivesse errado — aquela sensação de interminável escuridão nos bastidores, atrás do próprio céu —, era de algum modo melhor do que dentro do Restaurante da Mente de Manhattan. Pelo menos havia ar fresco.

— Eu vou lhe dizer uma coisa — disse Jake. — Vamos descer a Segunda com a Quarenta e Seis agora mesmo. — Indicou com a cabeça a versão dele que escutava Aaron Deepneau cantar. — Eu nos alcanço.

Eddie pensou e balançou a cabeça.

O rosto de Jake se abateu um pouco.

— Não quer ver a rosa?

— Pode apostar seu rabo que sim — disse Eddie. — Estou doido para vê-la.

— Então...

— Acho que ainda não acabamos aqui. Não sei por que, mas acho que não.

Jake — a versão Garoto Setenta e Sete — deixara a porta aberta quando voltara lá para dentro, e agora Eddie entrava. Aaron Deepneau contava a Jake um enigma que eles iriam depois testar com o Mono Blaine: O que é o que é, que corre mas não anda, tem boca mas não fala. O Jake do Mundo Médio, enquanto isso, olhava mais uma vez o quadro de avisos na vitrina da loja (William Faulkner frito, Raymond Chandler bem-passado). Tinha um daqueles ares que expressam mais dúvida e ansiedade que mau gênio.

— Aquele sinal está diferente, também — disse.

— Como?

— Não me lembro.

— É importante?

Jake voltou-se para ele. Tinha os olhos obcecados abaixo da testa franzida.

— Não sei. É outro enigma. Eu detesto enigmas!

Eddie solidarizou-se com ele. Quando um Berilo não é um Berilo?

— Quando é Claudia — respondeu.

— Hum?

— Deixa pra lá. Melhor recuar, Jake, senão vai atropelar a si mesmo.

Jake lançou um olhar espantado à versão de John Chambers que avançava, depois fez o que Eddie sugerira. E quando o Garoto Setenta e Sete começou a descer a Segunda Avenida com os novos livros na mão esquerda, o Jake do Mundo Médio deu a Eddie um sorriso cansado.

— Eu me lembro de uma coisa — disse. — Quando deixei essa livraria, tinha certeza de que jamais tornaria a voltar aqui. Mas voltei.

— Considerando-se que somos mais fantasmas que pessoas, eu diria que isso é discutível. — Deu um tapinha amistoso na nuca de Jake. — E se você esqueceu alguma coisa importante, talvez Roland possa fazê-lo lembrar. Ele é bom nisso.

Jake sorriu aliviado. Sabia por experiência própria que o pistoleiro realmente era bom em ajudar as pessoas a lembrarem. O amigo dele, Alain, podia ter sido o que tinha a capacidade mais forte de tocar outras mentes, e o amigo Cuthbert tinha um senso de humor nesse ka-tet particular, mas Roland se transformara com os anos num hipnotizador do cacete. Podia ter feito uma fortuna em Las Vegas.

— Podemos me seguir agora? — perguntou Jake. — Dar uma conferida na rosa?

Olhou para um lado e outro da Segunda Avenida — rua escura e iluminada ao mesmo tempo — com uma espécie de infeliz perplexidade.

— É provável que tudo esteja melhor por lá. A rosa torna tudo melhor. Eddie ia dizer tudo bem quando um sedã Lincoln cinza parou na frente da livraria de Calvin Tower. Estacionou no meio-fio amarelo na frente de um hidrante de incêndio sem absolutamente qualquer hesitação. Abriram-se as portas da frente, e quando Eddie viu quem saltava de trás do volante agarrou o ombro de Jake.

— Ai! — disse Jake. — Cara, isso dói!

Eddie não lhe deu atenção. Na verdade, apertou ainda mais a mão no ombro de Jake.

— Nossa! — sussurrou Eddie. — Minha Nossa Senhora, que é isso? Que porra é essa?

 

8

Jake viu Eddie empalidecer até um cinza-claro. Os olhos saltavam das órbitas. Não sem dificuldade, retirou a mão cravada em seu ombro. Eddie fez que ia apontar com aquela mão, mas pareceu não ter a força necessária. Deixou-a cair ao lado da perna com um pequeno baque.

O homem que saltara do lado do carona do sedã contornou-o até a calçada, enquanto o motorista abria a porta traseira do lado do meio-fio. Mesmo para Jake os movimentos deles pareciam treinados, quase como passos numa dança. O homem que saltou do banco traseiro usava um caro terno executivo, mas isso não mudava o fato de que era basicamente um naniquinho gorducho, com uma pança e cabelos negros embranquecendo nas laterais. Cabelo negro de caspa, pela aparência dos ombros do terno.

Para Jake, o dia de repente pareceu mais escuro que nunca. Ergueu o olhar para ver se o sol desaparecera atrás de uma nuvem. Não desaparecera, mas quase lhe pareceu que se formava uma corona negra em torno do círculo brilhante, como um círculo de máscara em torno do olho de uma estrela espantada.

Meio quarteirão abaixo na direção do centro, sua versão 1977 olhava a vitrina de um restaurante, e Jake lembrava o nome da casa: Chew Chew Mama’s. Não muito adiante ficava a Torre da Power Records, onde ele diria que Tower vende barato hoje. Se aquela versão dele olhasse para trás, teria visto o Town Car cinza... mas não olhara. O Garoto Setenta e Sete tinha a mente firmemente fixada no futuro.

— É Balazar — disse Eddie.

— Como?

Eddie apontava o nanico gorducho, que parara para ajeitar a gravata Sulka. Os outros três o ladeavam agora. Pareciam ao mesmo tempo relaxados e vigilantes.

— Enrico Balazar. E parecendo muito mais jovem. Nossa, ele é quase de meia-idade!

— Estamos em 1977 — lembrou-lhe Jake. Depois, quando a ficha caiu: — É o cara que você e Roland mataram?

Eddie contara-lhe a história do tiroteio na boate de Balazar em 1987, deixando de fora as partes mais sangrentas. A parte, por exemplo, em que Kevin Blake pusera a cabeça do irmão de Eddie no escritório de Balazar, para enxotar Eddie e Roland para o espaço aberto. Henry Dean, o grande sábio e viciado ilustre.

— Ié — disse Eddie. — O cara que Roland e eu matamos. E o que estava dirigindo, Jack Andolini. O Velho Duplo-Feio, como as pessoas o chamavam, embora jamais na cara dele. Ele passou por uma daquelas portas comigo pouco antes de começar o tiroteio.

— Roland o matou também. Não matou?

Eddie fez que sim com a cabeça. Era mais simples que tentar explicar que Jack Andolini morrera cego e desfigurado sob as patas vorazes das lagostrosidades na praia.

— O outro guarda-costas é George Biondi. Narigão. Eu mesmo o matei. Vou matá-lo. Daqui a dez anos. — Eddie parecia que ia desmaiar a qualquer segundo.

— Eddie, você está bem?

— Acho que sim. Acho que tenho de estar.

Haviam-se afastado da entrada da livraria. Oi ainda se agachava junto aos calcanhares de Jake. Segunda Avenida abaixo, o outro eu anterior de Jake desaparecera. Estou correndo por ele, pensou Jake. Talvez saltando por cima da boneca do cara da UPS. Saltando disparado para a delicatessen, porque tenho certeza de que é um bom caminho de volta ao Mundo Médio. O caminho de volta para ele.

Balazar espiou o seu reflexo na vitrina ao lado do quadro de avisos do ESPECIAIS DE HOJE, deu aos lados do cabelo acima da têmpora uma última ajeitada com as pontas dos dedos e cruzou a porta aberta. Andolini e Biondi foram atrás.

— Caras durões — disse Jake.

— Os piores — concordou Eddie.

— Do Brooklyn.

— Bem, sim.

— Por que durões do Brooklyn estão visitando um sebo de livros em Manhattan?

— Acho que é para descobrir isso que estamos aqui. Jake, eu machuquei o seu ombro?

— Eu estou bem. Mas na verdade não quero voltar lá.

— Nem eu. Então, vamos.

Voltaram a entrar no Restaurante da Mente de Manhattan.

 

9

Oi continuava nos calcanhares de Jake, ainda gemendo. O garoto não gostava muito do barulho, mas compreendia. O cheiro de medo na livraria era palpável. Deepneau sentava-se atrás do tabuleiro de xadrez, olhando infeliz para Calvin Tower e os recém-chegados, que não pareciam nada com bibliófilos em busca da fugidia primeira edição. Os outros dois caras ao balcão tomavam o resto de seu café em grandes goles, com o ar de sujeitos que acabaram de lembrar-se de compromissos importantes em outra parte.

Covardes, pensou Jake com um desprezo que não reconheceu como uma coisa relativamente nova em sua vida. Cagões. A velhice perdoa parte disso, mas não tudo.

— Temos umas duas coisinhas a discutir, Sr. Toren — dizia Balazar. Falava com uma voz baixa, calma, razoável, sem sequer um traço de sotaque. — Por favor, se pudermos passar ao seu escritório...

— Nós não temos negócios — disse Tower. Não parava de olhar para Andolini. Jake julgava saber por quê. Jack Andolini parecia o psicótico com o machado num filme de horror. — No próximo 15 de julho podemos negociar. Podemos. Portanto, podemos conversar depois do 4. Eu acho. Se você quisesse. — Sorriu, para mostrar que estava sendo razoável. — Mas agora? Puxa, eu não vejo por quê. Nem é junho ainda. E para sua informação, meu nome não é...

— Ele parece não entender — disse Balazar. Olhava para Andolini; olhou para o narigudo; ergueu as mãos até os ombros, depois deixou-as cair. Qual é o problema deste nosso mundo?, dizia o gesto. — Jack? George? Esse homem recebeu um cheque meu... a quantia antes do ponto decimal era seguida por cinco zeros... e agora diz que não vê sentido em conversar comigo.

— Inacreditável — disse Biondi.

Andolini não disse nada. Simplesmente olhava para Calvin Tower, os turvos olhos castanhos espiando por baixo do desagradável volume do crânio como animaizinhos maus espiando de dentro de uma gruta. Com uma cara daquelas, supunha Jake, não era preciso falar muito para fazer-se entender. Tratando-se de intimidação.

— Eu quero conversar com você — disse Balazar. Falou num tom de voz paciente, razoável, mas fixava os olhos no rosto de Tower com terrível intensidade. — Por quê? Porque meus empregados neste caso querem que eu converse com você. Pra mim, isso basta. E sabe por quê? Acho que você pode me dar cinco minutos de papo pelos 100 mil paus. Não pode?

— Os 100 mil paus já se foram — disse Tower de cara fechada. — Como tenho certeza que você e quem quer que o contratou sabem.

— Isso não me interessa — disse Balazar. — Por que interessaria? O dinheiro era seu. O que me interessa é se você vai ou não nos levar ao seu escritório. Se não, vamos ter nossa conversa aqui mesmo, na frente de todo mundo.

Todo mundo agora consistia em Aaron Deepneau, um trapalhão e dois nova-iorquinos expatriados que ninguém na livraria podia ver. Os contracupinchas de Deepneau haviam corrido como os cagões que eram.

Tower fez uma última tentativa.

— Não tenho ninguém pra tomar conta da loja. A hora do almoço está chegando e muitas vezes temos alguns curiosos durante...

— Este lugar não fatura cinqüenta dólares por dia — disse Andolini — e todos sabemos disso, Sr. Toren. Se está mesmo preocupado em perder uma grande venda, deixe que ele fique na caixa registradora alguns minutos.

Durante um horrível segundo, Jake pensou que o cara que Eddie chamara de “Velho Duplo-Feio” se referia a ninguém mais que John “Jake” Chambers. Depois entendeu que Andolini apontava para Deepneau, atrás do dono da livraria.

Tower cedeu. Ou Toren.

— Aaron? — perguntou. — Se incomoda?

— Não se você não — disse Deepneau. Parecia perturbado. — Tem certeza de que quer conversar com esses caras?

Biondi lançou-lhe uma olhada. Jake pensou que Deepneau levantara-se sob esse olhar de uma maneira admirável. De uma forma esquisita, sentia-se orgulhoso do velho companheiro.

— Ié — disse Tower. — Ié, está ótimo.

— Não se preocupe. Ele não vai perder a virgindade do cu por sua causa — disse Biondi, e riu.

— Cuidado com a língua, você está num lugar de intelectuais — disse Balazar, mas Jake achou que ele deu um risinho. — Vamos lá, Toren. Só um papinho.

— Meu nome não é este! Eu o mudei legalmente em...

— Qualquer que seja — disse Balazar num tom tranqüilizador. Chegou a dar um tapinha no braço de Tower. Jake ainda tentava acostumar-se à idéia de que todo aquele... todo aquele melodrama... se passara antes de ele deixar a loja com os dois novos livros (novos para ele, de qualquer modo) e retomar sua jornada. Que tudo acontecera por trás de suas costas.

— Um cabeçudo é sempre um cabeçudo, certo, chefe? — perguntou jovialmente Biondi. — Só um holandês. Não importa que nome se dê.

Balazar disse:

Se eu quiser que você fale, George, eu lhe digo o que quero que diga. Sacou?

— Tudo bem — disse Biondi. Depois, talvez após concluir que isso não pareceu suficientemente entusiástico: — Ié! Claro.

— Ótimo.

Balazar, agora segurando o braço no qual dera um tapinha, guiava Tower para o fundo da loja. Livros empilhavam-se em desordem ali; o ar pesava com o cheiro de um milhão de páginas mofadas. Uma porta tinha a inscrição SÓ FUNCIONÁRIOS. Tower pegou um molho de chaves, que chocalharam levemente quando ele escolheu uma entre elas.

— As mãos dele estão tremendo — murmurou Jake.

Eddie assentiu com a cabeça.

— As minhas também estariam.

Tower encontrou a chave desejada, girou-a na fechadura, abriu a porta. Deu outra olhada nos três homens que tinham vindo visitá-lo — caras durões do Brooklyn — e conduziu-os para a sala dos fundos. A porta fechou-se atrás deles, e Jake ouviu o barulho de um ferrolho sendo corrido. Duvidava que o próprio Tower houvesse feito aquilo.

Jake olhou o espelho convexo anti-roubo no canto da loja, viu Deepneau pegar o telefone ao lado da caixa registradora, pensar um pouco e tornar a pô-lo no lugar.

— Que fazemos agora? — perguntou Jake.

— Eu vou tentar alguma coisa — disse Eddie. — Vi num filme uma vez — Postou-se diante da porta fechada e deu uma piscadela para Jake. — Lá vou eu. Se não fizer nada além de bater com a cabeça, fique à vontade pra me chamar de babaca.

Antes que Eddie pudesse perguntar-lhe do que falava, Eddie entrou pela porta. Jake viu-o fechar os olhos e franzir a boca numa careta. Era a expressão de alguém que espera levar uma baita trombada.

Só que não houve nenhuma baita trombada. Eddie simplesmente passou através da porta. Por um momento, um dos mocassins ficou para fora, depois passou também. Ouviu-se um longo barulho rascante, como a mão de alguém correndo por madeira áspera.

Jake curvou-se e pegou Oi.

— Feche os olhos — disse.

— Olus — concordou o trapalhão, mas continuou a olhar para Jake com aquela expressão de tranqüila adoração.

Jake fechou os olhos, apertando-os. Quando tornou a abri-los, Oi imitava-o. Sem perda de tempo, Jake atravessou a porta com a inscrição SÓ FUNCIONÁRIOS. Fez-se um momento de escuridão e ele sentiu cheiro de madeira. No fundo da cabeça, ouviu dois daqueles angustiantes sinos de novo. E já atravessara.

 

10

Era uma área de depósito muito maior do que Jake esperava — quase tão grande quanto um armazém com altas pilhas de livros para todos os lados. Ele calculou que algumas daqueles pilhas, presas no lugar por pares de caibros em pé que mais escoravam que serviam de prateleira, deviam ter de 3 a 5 metros de altura. Alas estreitas e tortuosas passavam entre elas. Em duas ele viu plataformas rolantes que lembravam as escadas de embarque móveis de alguns pequenos aeroportos. O cheiro de livros velhos era o mesmo que na frente, mas muito mais forte, quase esmagador. Acima delas pendiam lâmpadas com protetores espalhadas, que proporcionavam uma iluminação amarelada e desigual. As sombras de Tower, Balazar e dos amigos deste saltavam de forma grotesca na parede à esquerda deles. Tower virou para aquele lado, levando os visitantes para um canto que na verdade era um escritório: havia uma mesa com máquina de escrever e fichário Rolodex, três velhos arquivos e uma parede coberta com vários pedaços de papel. E um calendário com um cara do século XIX na folha de maio que Jake não reconheceu... e então reconheceu. Robert Browning. Jake o citara na sua Redação Final.

Tower sentou-se atrás de sua escrivaninha, e logo pareceu arrependido de tê-lo feito. Jake solidarizou-se com ele. A maneira como os outros três se amontoaram à sua volta não podia ser muito agradável. As sombras saltaram na parede atrás da escrivaninha como gárgulas.

Balazar meteu a mão no paletó e tirou uma folha dobrada de papel. Abriu-a e largou-a na escrivaninha de Tower.

— Tá reconhecendo isso?

Eddie adiantou-se. Jake agarrou-o.

— Não chegue perto! Eles vão sentir você!

— Não me importa — disse Eddie. — Eu preciso ver esse papel.

Jake seguiu-o, sem saber o que mais fazer. Oi mexeu-se em seus braços e gemeu. Jake mandou-o calar-se e ele piscou os olhos.

— Desculpe, companheiro — disse Jake —, mas tem de ficar calado.

Estaria ainda a sua versão 1977 no terreno baldio? Uma vez lá dentro o Jake anterior escorregara de algum modo e perdera os sentidos. Já acontecera isso? Não adiantava adivinhar. Eddie tinha razão. Jake não gostava, mas sabia que era verdade: eles deviam estar ali, não lá, e ver o papel que Balazar mostrava agora a Calvin Tower.

 

11

Eddie pegou as duas primeiras linhas antes que Jack Andolini dissesse:

— Chefe, eu não estou gostando disso. Tem uma sensação meio estranha.

Balazar assentiu.

— Eu concordo. Tem alguém aqui com a gente, Sr. Toren?

Ainda parecia calmo e cortês, mas tinha os olhos em toda parte, avaliando o potencial do grande cômodo para esconder alguma coisa.

— Não — disse Tower. — Bem, tem Sergio; é o gato da loja. Imagino que esteja em algum lugar por aqu...

— Isto aqui não é loja — disse Biondi —, é um buraco onde você enterrou seu dinheiro. Um desses designers frescos teria problema para cobrir o orçamento em um lugar deste tamanho, e livraria ainda por cima? Cara, tu tá brincando.

Ele mesmo é quem está, pensou Eddie. Está brincando consigo mesmo.

Como se a idéia os invocasse, os terríveis sinos recomeçaram. Os bandidos reunidos no escritório de Tower não os ouviam, mas Jake, Eddie e Oi sim; Eddie lia isso nos rostos angustiados dos outros. E de repente o cômodo, já escuro, começou a ficar mais escuro ainda.

Estamos voltando, pensou Eddie. Nossa, estamos voltando! Mas não antes...

Curvou-se para a frente entre Andolini e Balazar, ciente de que os homens olhavam em volta com olhos arregalados e assustados, mas pouco estava ligando. O que o interessava era o papel. Alguém contratara Balazar primeiro para fazê-lo assinar (provavelmente) e depois empurrá-lo debaixo do nariz de Tower/Toren quando chegasse a hora (certamente). Na maioria dos casos, Il Roche, A Rocha, se satisfaria em mandar dois de seus durões — o que ele chamava de seus “cavalheiros” — numa missão daquela. O serviço, porém, era bastante importante para merecer sua atenção pessoal. Eddie queria saber por quê.

MEMORANDO DE ACORDO

Este documento constitui um Pacto ou Acordo entre o Sr.

Calvin Tower, residente no estado de Nova York, dono de

propriedade imobiliária que é principalmente um terreno

baldio, identificado como Lote n 298 n º e Bloco 19 º,

localizado...

Os sinos tocavam de novo em sua cabeça, causando-lhe arrepios. Desta vez mais alto. As sombras adensavam-se, saltando pelas paredes do depósito. A escuridão que Eddie sentira lá fora na rua irrompia ali dentro, e seria pior, claro que seria, estar afogado em escuridão seria uma maneira terrível de partir.

E se houvesse coisas naquela escuridão? Coisas famintas como o porteiro?

Há. Era a voz de Henry. Pela primeira vez em quase dois meses. Eddie imaginava Henry parado logo atrás dele com um pálido sorriso de viciado: olhos injetados e amarelos, dentes estragados. Você sabe que há. Mas quando ouve os sinos tem de partir, irmãozinho, como acho que você sabe.

— Eddie! — gritou Jake. — Está voltando! Está ouvindo?

— Agarre meu cinto — disse Eddie. Correu os olhos de um lado para outro sobre o papel nas gorduchas mãos de Tower. Balazar, Andolini e o Narigudo ainda olhavam em volta. Biondi chegara a sacar a arma.

— Seu...?

— Talvez não sejamos separados — disse Eddie.

Os sinos tocavam mais alto que nunca, e ele gemeu. As palavras do acordo borraram-se na sua frente. Eddie espremeu os olhos, trazendo de volta a letra impressa.

... identificado como Lote nº 298 e Bloco nº 19, localizado

em Manhattan, cidade de Nova York, na rua Quarenta e Seis

com a Segunda Avenida, e a Empresa Sombra, empresa que

negocia com o estado de Nova York.

Neste dia, 15 de julho de 1976, a Sombra está pagando uma

soma não retornável de 100 mil dólares a Calvin Tower, cujo

recibo é reconhecido em relação à sua propriedade. Em

consideração ao aqui exposto, Calvin Tower concorda em

não...

Dia 15 de julho de 1976. Nem bem um ano atrás.

Eddie sentiu a escuridão baixando sobre eles, e tentou socar o resto dela pelos olhos adentro até o cérebro: o suficiente, talvez, para entender o que se passava ali. Se conseguisse isso, seria pelo menos um passo para descobrir o que significava tudo aquilo.

Se os sinos não me levarem à loucura. Se as coisas na escuridão não nos devorarem na volta.

— Eddie! — disse Jake. Aterrorizado, a julgar pela voz. Eddie ignorou-o.

... Calvin Tower concorda em não vender, alugar ou de outro

modo empenhar a propriedade durante um período de um

ano, a contar desta data e terminar a 15 de julho de 1977.

Fica entendido que a Empresa Sombra terá a preferência na

compra da propriedade anteriormente mencionada, como

definido a seguir.

Durante esse período, Calvin Tower preservará e

protegerá plenamente o interesse declarado da Empresa

Sombra e não permitirá nenhum comprometimento ou

outros empenhos...

Havia mais, porém agora os sinos estavam hediondos, de estourar a cabeça. Por apenas um momento Eddie compreendeu — diabos, quase podia ver — como seu mundo se tornara tênue. Todos os mundos, na certa. Tênue e desgastado como seus jeans. Pegou uma frase final do acordo: ... satisfeitas estas condições, terá o direito de vender ou dispor de outra forma da propriedade à Sombra ou qualquer outra parte. E aí as palavras sumiram, tudo sumiu, rodopiando num redemoinho negro. Jake agarrava o seu cinto com uma das mãos e Oi com a outra. O trapalhão latia feito um louco agora, e Eddie teve outra imagem confusa de Dorothy sendo levada pelo tufão para a Terra de Oz.

Havia coisas na escuridão: vultos que assomavam por trás de olhos de fantástica fosforescência, aquelas coisas que se via nos filmes sobre a exploração das mais profundas fendas do leito do mar. Só que nesses filmes os exploradores sempre se achavam dentro de uma campânula de mergulho, enquanto ele e Jake...

Os sinos atingiram um volume de rachar os tímpanos. Eddie sentia-se como se o tivessem mergulhado de cabeça no mecanismo do Big Ben ao bater a meia-noite. Gritava sem ouvir a própria voz. E então parou, tudo sumiu — Jake, Oi, o Mundo Médio —, e ele flutuava em algum ponto além das estrelas e galáxias.

Susannah!, ele gritou. Cadê você, Suze?

Não houve resposta. Só escuridão.

 

CAPÍTULO 3

 

Mia

 

1

Era uma vez, nos idos dos anos 1960 (antes que o mundo seguisse adiante), uma mulher chamada Odetta Holmes, uma jovem muito simpática e com uma realmente grande consciência social, rica, bonita e inteiramente disposta a cuidar do próximo (ou da próxima). Sem sequer percebê-lo, essa mulher partilhava o corpo com uma criatura muito menos simpática chamada Detta Walker, que estava cagando para o próximo (ou próxima). Rhea do Cöos teria reconhecido Detta e a chamaria de irmã. Do outro lado do Mundo Médio, Roland de Gilead, o último pistoleiro, atraíra para si essa mulher dividida e criara uma terceira, muito melhor e mais forte que qualquer das duas anteriores. Era a mulher pela qual Eddie Dean se apaixonara. Ela o chamava de marido, e assim a si mesma pelo nome do pai dele. Havendo perdido os arranca-rabos feministas das décadas posteriores, fazia isso de muito bom grado. Se não se chamava Susannah Dean com orgulho e felicidade, era apenas porque sua mãe lhe ensinara que o orgulho vem antes da queda.

Agora havia ainda uma quarta mulher. Ela nascera da terceira em mais um período de tensão e transformação. Pouco estava ligando para Odetta, Detta ou Susannah; não ligava para nada além do novo cara na sua frente. A nova dona precisava ser alimentada. Era o que importava e só o que importava para ela.

Essa nova mulher, tão perigosa à sua maneira quanto fora Detta, era Mia. Não usava o nome do pai de ninguém, só a palavra que na Língua Superior significa mãe.

 

2

Ela andava devagar por um corredor para o lugar do banquete. Passou pelos aposentos em ruínas, as naves e nichos vazios, as galerias esquecidas onde os apartamentos eram ocos e nenhum tinha número. Em algum lugar daquele castelo havia um velho trono encharcado de sangue antigo. Em algum lugar escadarias conduziam a criptas emparedadas com ossos de uma profundidade que só Deus sabia. Mas havia vida ali; vida e comida abundante. Mia sabia tanto disso quanto sabia que tinha pernas embaixo de si e a saia estruturada e de muitas camadas roçando nelas. Comida abundante. Vida para a gente e nossa safra, como dizia o ditado. E estava com tanta fome agora. Claro! Não estava comendo por dois?

Chegou a uma ampla escadaria. Um barulho leve, mas forte, subiu até ela: a batida de máquinas de trens lentos sepultadas na terra abaixo da mais profunda das criptas. Mia pouco ligava para elas, nem pela North Central Positronics Ltda., que as construíra e pusera em movimento dezenas de milhares de anos antes. Pouco ligava para computadores bipolares, ou portas, ou os Feixes de Luz, ou a Torre Negra que ficava no centro de tudo.

Importava-se com os cheiros. Eles vagavam para ela, densos e maravilhosos. Frango, molho e assado de porco temperados em gordura a estalar. Fatias de bife sangrentas, rodelas de queijo úmido, imensos camarões Calla Fundy parecendo gordos gomos de laranja. Peixe no espeto com olhos negros a mirar fixo, a barriga empanturrada de molho. Grandes potes de jambalaia e fanata, os vastos ensopados de caldo largo do extremo sul. Acrescentem-se a isso cem frutas e mil doces, e ainda não se estaria nem no começo! Os tira-gostos! Os primeiros bocados do primeiro prato!

 

3

Do pé da escadaria, um largo corredor coberto de mármore negro polido seguia uns 30 metros até um par de portas duplas. Mia apressou-se a percorrê-lo. Via seu reflexo flutuando embaixo, e as chamas elétricas que ardiam nas profundezas do mármore como tochas embaixo d’água, mas não viu o homem que vinha atrás dela, descendo a ampla curva da escadaria não com escarpins elegantes, mas com botas velhas e surradas. Ele usava jeans desbotados e uma camisa de cambraia azul, em vez de roupas da corte. Uma arma, uma pistola com um gasto cabo de sândalo, pendia-lhe do lado esquerdo, o coldre amarrado com couro cru. Tinha o rosto bronzeado e curtido. Cabelos negros, embora agora semeados de crescentes faixas brancas. Os olhos eram a feição mais impressionante. Azuis, frios e firmes. Detta Walker não temia homem algum, nem mesmo esse, mas temera aqueles olhos de atirador.

Havia um saguão antes das portas duplas. Coberto de quadrados de mármore vermelhos e pretos. Retratos desbotados de antigos senhores e senhoras cobriam as paredes de lambris de madeira. No centro, via-se uma estátua feita de mármore e cromo de aço imbricados. Parecia ser um cavaleiro errante, com o que poderia ter sido um revólver de seis balas ou uma pequena espada acima da cabeça. Embora tivesse o rosto quase liso — o escultor pouco mais fizera que insinuar as feições —, Mia sabia quem era ele, sem dúvida. Quem devia ser.

— Eu vos saúdo, Arthur Eld — disse, e fez sua mais profunda mesura. — Por favor, abençoai estas coisas que vou levar para meu uso. E para uso de meu chapinha. Boa-noite a vós.

Não podia desejar-lhe longos dias sobre a terra, pois os dias dele — e os da maioria da sua espécie — haviam passado. Em vez disso, tocou os lábios sorridentes com as pontas dos dedos e soprou-lhe um beijo. Após tais cumprimentos, entrou no salão de jantar.

Tinha 40 metros de largura e 70 de comprimento, o salão. Fortes tochas elétricas em bainhas de cristal enfileiravam-se nos dois lados. Centenas de cadeiras postas numa imensa mesa de pau-ferro carregada de delicias quentes e frias. Havia um prato branco com delicadas teias azuis, um prato especialíssimo, diante de cada cadeira. As cadeiras estavam vazias, os pratos especialíssimos vazios, e as taças de vinho também, embora o vinho para enchê-las repousasse em baldes de ouro a intervalos ao longo da mesa, gelado e pronto. Era como ela sabia que seria, como vira em suas fantasias mais queridas e nítidas, como descobrira repetidas vezes, e ia descobrir enquanto precisasse, ela e a companheira. Onde quer que estivesse, o castelo estava perto. E se havia um cheiro de umidade e mofo antigo, e daí? Se vinham das sombras embaixo da mesa barulhos de correrias — talvez de ratos ou mesmo doninhas —, que lhe importava isso? Acima da mesa tudo era exuberante e iluminado, fragrante, maduro e pronto para levar. Que as sombras embaixo da mesa cuidassem de si mesmas. Isso não era da sua conta, não, senhor.

— Eis que aqui chega Mia, filha de ninguém! — gritou alegremente para o salão vazio com uma centena de aromas de carnes, molhos, cremes e frutas. — Estou faminta, e serei alimentada. Além disso, alimentarei meu chapinha! Se alguém quer dizer alguma coisa contra mim, que dê um passo à frente! Deixe-me vê-lo muito bem, e ele a mim!

Ninguém se adiantou, claro. Os que poderiam ter-se banqueteado ali haviam-se ido muito tempo atrás. Agora só restava a batida profunda e sonolenta de máquinas de trens lentos (e os fracos e desagradáveis barulhos de correria da Terra Embaixo da Mesa). Atrás dela, o pistoleiro permanecia calado, observando. Tampouco era a primeira vez. Ele não via castelo algum, mas via-a; ele a via muito bem.

— Quem cala, consente — gritou ela. Apertou com a mão a barriga, que começava a estufar-se. Curvar-se. Depois, com uma risada, tornou a gritar: — Ié, consente mesmo! Aqui vem Mia para o banquete. Que a sirva bem, e ao chapinha que cresce dentro dela. Que os sirva muito bem!

E banqueteou-se, mas não num só lugar e jamais de um dos pratos. Detestava os pratos, os pratos especialíssimos azul e branco. Não sabia por que, nem queria saber. O que a interessava era a comida. Percorreu a mesa como uma mulher no maior bufê do mundo, pegando as coisas com os dedos e atirando-as à boca, às vezes mastigando carne quente e macia direto do osso e jogando as sobras de volta nos pratos. Algumas vezes errava e os nacos de carne saíam rolando pela branca toalha de linho da mesa, deixando salpicos de molho e manchas que pareciam sangramento de nariz. Uma dessas carnes rolantes derrubou um vaso de molho. Uma despedaçou um prato de cristal cheio de geléia de uva-do-monte. Um terceiro rolou para fora do outro extremo da mesa, onde Mia ouviu alguma coisa arrastá-lo para baixo. Ouviu-se um breve e agudo bochincho, seguido por um uivo de dor, quando uma coisa enterrou os dentes em outra. Depois silêncio. Breve, porém, e logo quebrado pela risada de Mia. Ela limpou os dedos gordurosos no colo, bem devagar. Gostando da forma como as manchas das carnes e molhos errados se espalhavam sobre a cara seda. Gostando das curvas de seus seios que amadureciam e a sensação dos mamilos sob as pontas dos dedos, ásperos, duros e excitados.

Dirigiu-se devagar até a mesa, falando consigo mesma em muitas vozes, criando uma espécie de lunática algaravia.

Como estão indo eles, doçura?

Ah, estão indo muito bem bem, obrigada por perguntar, Mia.

Você acha realmente que Oswald agia só quando atirou em Kennedy?

Nem num milhão de anos, querida — foi um serviço da CIA desde o começo. Eles, ou aqueles caipiras milionários do crescente de aço do Alabama.

Bombingham, Alabama, doçura, não é verdade?

Já ouviu o novo disco de Joan Baez?

Meu Deus, sim, ela não canta como um anjo? Eu soube que ela e Bob Dylan vão se casar...

E por aí vai, fuxicos e fofocas. Roland ouvia a voz culta de Odetta e os rudes, mas pitorescos palavrões de Detta. Ouvia a voz de Susannah, e muitas outras também. Quantas mulheres em sua cabeça? Quantas personalidades, formadas e meio formadas? Viu-a estender a mão por cima dos pratos vazios que não estavam ali e as taças vazias (também ausentes), comendo direto das bandejas de servir, mastigando tudo com o mesmo prazer faminto, o rosto assumindo aos poucos o brilho da gordura, o corpete do vestido (que ele não via mas sentia) escurecendo quando ela os limpava repetidas vezes ali, espremendo o tecido, colando-o aos seios — os movimentos eram claros demais para não serem vistos. E a cada parada, antes de passar adiante, ela pegava o ar vazio à sua frente e jogava um prato que não via ou no chão a seus pés ou para o outro lado da mesa, numa parede que devia existir em seus sonhos.

— Pronto! — gritava com a voz desafiante de Detta Walker. — Pronto, sua desagradável velha Dama Azul, eu o quebrei de novo! Quebrei a porra do prato, e que tal acha você? Que tal acha isso agora?

Depois, passando ao lugar seguinte, podia dar uma agradável risada meio forçada e perguntar a fulano de tal se seu menino fulano ia vir até ali em Morehouse, e não era maravilhoso ter tão ótima escola para gente de cor, simplesmente uma maravilhosíssima!... coisa! E como vai sua mãe, querido? Ah, sinto muito saber, vamos todos rezar para a recuperação dela.

Estendia o braço para pegar mais um daqueles pratos de faz-de-conta enquanto falava. Pegava uma grande terrina cheia de reluzente cabrito preto com rodelas de limão. Baixava o rosto para ele como um porco metendo a cara no cocho. Engolia. Tornava a erguer o rosto, com um sorriso delicado e pudico no fulgor das tochas elétricas, as ovas de peixe destacando-se como suor negro na pele morena, pontilhando a face e a testa, aninhando-se em torno das narinas como coágulos de sangue velho — Ah, sim, acho que estamos fazendo um maravilhoso progresso, gente como aquele Buli Connor vive no pôr do sol já faz anos, e a melhor vingança deles é que o sabem —, e depois atirava a terrina para trás por cima da cabeça como uma louca jogadora de vôlei, parte do cabrito chovendo sobre os cabelos (Roland quase podia vê-lo), e quando a terrina se espatifava na pedra, sua polida cara de mas-não-é-uma-festa-maravilhosa contraía-se num vampiresco rosnado de Detta Walker, e ela talvez gritasse: Pronto, sua insuportável velha Dama Azul, que tal acha isso? Quer enfiar um pouco desse caviar na buceta véia, vá em frente! Vá em frente! Vai ser ótimo, craro!

E então passava para o lugar seguinte. E o seguinte. E o seguinte. Alimentando-se no grande salão de banquete. Alimentando a si mesma e ao seu chapinha. Não se voltando nem uma vez para ver Roland. Jamais percebendo que aquele lugar nem existia, estritamente falando.

 

4

Eddie e Jake andavam longe da mente e das preocupações de Roland quando os quatro (cinco, se se contasse Oi) se deitaram naquela noite após banquetear-se com as bolinhas de bolo fritas. Concentrara-se em Susannah. O pistoleiro tinha quase toda a certeza de que ela ia sair a vagar nessa noite, e de novo ele ia segui-la quando o fizesse. Não para ver o que ela estava aprontando; sabia o que seria de antemão.

Não, sua preocupação principal era protegê-la.

No início daquela tarde, por volta do momento em que Jake retornara com a braçada de comida, Susannah começara a mostrar sinais que ele conhecia: a fala truncada e curta, movimentos um tanto bruscos para serem naturais, tendência a esfregar, ausente, a têmpora ou acima da sobrancelha esquerda. Não via Eddie esses sinais?, perguntava-se Roland. Eddie era um observador de fato tapado quando Roland o conhecera, mas mudara muito desde então.

E ele a amava. Amava-a. Como não via o que Roland via? Os sinais não eram exatamente tão óbvios quanto haviam sido na praia do mar Ocidental, quando Detta se preparava para saltar e tomar o controle de Odetta, mas estavam ali sem dúvida, e não tão diferentes, aliás.

Por outro lado, a mãe de Roland tinha um ditado: O amor tropeça. Talvez fosse por Eddie estar demasiado próximo dela para ver. Ou não queira ver, pensou Roland. Não queria enfrentar a idéia de passar por tudo isso de novo. Fazê-la enfrentar a si mesma e à sua natureza dividida.

Só que desta vez não se tratava dela. Roland suspeitava disso havia muito tempo — desde antes da confabulação deles com a gente de River Crossing, na verdade — e agora ele sabia. Não, não se tratava dela.

E assim deitara-se ali, ouvindo a respiração deles encompridar-se ao adormecerem um a um: Oi, depois Jake, depois Susannah. Eddie por último.

Bem... não exatamente por último. Fraco, muito fraco, Roland ouvia um murmúrio de conversa das pessoas do outro lado da colina sul, as que os vinham seguindo e vigiando. Tomando coragem para adiantar-se e dar-se a conhecer, provavelmente. Roland tinha os ouvidos aguçados, mas não o suficiente para pegar o que eles diziam. Haviam sido meia dúzia de diálogos antes que alguém emitisse um longo psiu. Depois fora o silêncio, a não ser pelo baixo fungado intermitente do vento nos topos das árvores. Roland jazia imóvel, olhando a escuridão acima, onde nenhuma estrela brilhava, à espera de que Susannah se levantasse. Ela acabou por fazê-lo.

Mas antes disso Jake, Eddie e Oi entraram em todash.