A Torre Negra V: Lobos de Calla
Capítulo 1 · A Face na Água
A Face na Água
1
O tempo é uma face na água: era um provérbio de muito tempo atrás, na distante Mejis. Eddie Dean jamais estivera lá.
Só que estivera, de certa forma. Roland carregara todos os quatro companheiros — Eddie, Susannah, Jake, Oi — para Mejis uma noite, contando uma longa história quando acamparam na Interestadual 70, no Pedágio do Kansas, num Kansas que jamais existira. Naquela noite contara-lhes a história de Susan Delgado, seu primeiro amor. Talvez seu único amor. E como a perdera.
O ditado poderia ter sido verdadeiro quando Roland era um menino não muito mais velho que Jake Chambers, mas Eddie o achava ainda mais verdadeiro agora, quando o mundo se enrolava como a mola principal de um relógio antigo. Roland contara-lhes que não se podia confiar nem mesmo em coisas básicas como os pontos cardeais no Mundo Médio; o que era absolutamente oeste hoje podia ser sudoeste amanhã, por mais louco que isso parecesse. Havia dias em que Eddie juraria que tinham 48 horas, alguns deles seguidos por noites (como aquela em que Roland os levara a Mejis) que pareciam ainda mais compridas. Depois viera uma tarde em que parecia que quase se via a escuridão precipitar-se para nós no horizonte para nos encontrar. Eddie imaginava se o tempo se perdera.
Haviam viajado (e varado) para fora de uma cidade chamada Lud no Mono Blaine. Blaine é um pé no saco, dissera Jake em varias ocasiões, mas ele — ou a coisa — revelara ser muito mais que um pé no saco; o Mono Blaine era inteiramente louco. Eddie matara-o com falta de lógica (“Uma coisa em que você e naturalmente bom, docinho”, dissera-lhe Susannah), e haviam desembarcado do trem numa Topeka que não fazia exatamente parte do mundo do qual vinham Susannah, Jake e ele. O que era bom, na verdade, porque aquele mundo — em que o time de beisebol pró-Kansas City se chamava Os Monarcas, a Coca-Cola se chamava Nozz-A-La e o grande fabricante de carros japoneses era Takuro e não Honda — fora arrasado por algum tipo de peste que matara quase todo mundo. Assim, apegue-se ao seu Espírito Takuro e dirija-o, pensou Eddie.
A passagem do tempo parecera-lhe bastante clara durante tudo isso. Grande parte do tempo ele estivera cagado de medo — achava que todos eles haviam estado, com exceção talvez de Roland —, mas, sim, parecera real e claro. Ele não tivera aquela sensação de tempo escorrendo do seu poder nem mesmo quando andava pela I-70 com balas zunindo nos ouvidos, olhando o tráfego paralisado e ouvindo o borbulhar do que Roland chamava de solvente. Mas após o confronto no palácio de cristal com o velho amigo de Jake, o Homem do Tiquetaque, e o velho amigo de Roland (Flagg... ou Marten... ou — apenas talvez — Maerlyn), o tempo mudara.
Não imediatamente, porém. Nós viajamos naquela porra daquele projétil cor-de-rosa... vimos Roland matar a própria mãe por engano... e quando voltamos...
É, fora quando acontecera. Haviam despertado numa clareira a uns 50 quilômetros do Palácio Verde. Ainda podiam vê-lo, mas todos haviam compreendido que aquilo era outro mundo. Alguém — ou alguma força — transportara-os sobre ou através do solvente de volta ao Caminho do Feixe de Luz. Quem ou o que houvesse sido na verdade tivera consideração suficiente para preparar um lanche para cada um, completo até com refrigerantes Nozz-A-La e pacotes meio manjados de bolinhos de chocolate Keebler.
Perto deles, grudado num tronco de árvore, estava um bilhete do ser que Roland por pouco deixara de matar no Palácio: “Renuncie a Torre. Este e seu último aviso.” Ridículo, na verdade. Roland não renunciaria mais a Torre do que mataria o cãozinho de estimação de Jake, o trapalhão, e depois o assaria num espeto para o jantar. Nenhum deles renunciaria a Torre Negra de Roland. Que Deus os ajudasse, estavam naquilo para ir até o fim.
Ainda nos resta um pouco de luz do dia, dissera Eddie no dia em que encontraram a nota de advertência de Flagg. Querem usá-la ou não?
Sim, respondera Roland de Gilead. Vamos usá-la.
E assim haviam feito, seguindo o Caminho do Feixe de Luz pelos intermináveis campos abertos divididos uns dos outros por cinturões de mato baixo emaranhado, irritante. Não havia sinal de gente. Os céus haviam permanecido baixos e nublados dia após dia e noite após noite. Como seguiam o Caminho do Feixe de Luz, as nuvens diretamente acima às vezes rolavam e abriam-se, revelando pedaços de azul, mas nunca por muito tempo. Uma noite abriram-se o suficiente para revelar uma lua cheia, com uma cara visível no meio: o desagradável e cúmplice sorriso e entrecerrar de olhos do Mendigo. Isso significava fins de verão pelos cálculos de Roland, mas para Eddie parecia metade de tempo nenhum, o mato na maior parte derreado ou morto mesmo, as árvores (as poucas que havia) nuas, o matagal esquálido e pardo. Havia pouca caca, e pela primeira vez em semanas — desde que deixaram a floresta governada por Shardik, o urso ciborg — às vezes iam para a cama de barriga não inteiramente cheia.
Mas nada disso, pensava Eddie, era tão irritante quanto a sensação de haverem perdido a noção do tempo: horas, dias, semanas, estações, pelo amor de Deus. A lua podia ter dito a Roland que era fim de verão, mas o mundo em volta deles parecia mais a primeira semana de novembro, cochilando sonolenta rumo ao inverno.
O tempo, concluiu Eddie nesse período, era em grande parte criado por fatos externos. Quando muita merda acontecia, o tempo parecia passar rápido. Se se ficava atolado em nada alem da merda habitual de sempre, ele reduzia a marcha. E quando tudo parava, o tempo aparentemente parava por completo. Simplesmente fazia as malas e ia para Coney Island. Estranho, mas verdade.
Havia tudo parado de acontecer, pensava Eddie (e com nada a fazer além de empurrar a cadeira de rodas de Susannah por um aborrecido campo após o outro, havia tempo de sobra para pensar). A única singularidade em que podia pensar desde que retornara do Globo do Mago era o que Jake chamara de Número Misterioso, e isso na certa não queria dizer nada. Haviam precisado resolver um enigma matemático no Berço de Lud para chegar a Blaine, e Susannah sugerira que o Número Misterioso era um remanescente disso. Eddie estava longe de seguro de que ela tivesse razão, mas, ora, era uma teoria.
E, realmente, que poderia haver de tão especial no número 19? O Número Misterioso, na verdade. Após pensar um pouco, Susannah salientara que era ao menos um número primo, como os que haviam aberto o portão entre eles e o Mono Blaine. Eddie acrescentara que era o único que vinha entre o 19 e o vinte toda vez que a gente contava. Jake rira disso e lhe dissera que parasse de ser panaca. Eddie, sentado junto a fogueira do acampamento a esculpir um coelho (quando terminasse ia junta-lo ao gato e ao cachorro já na sua mochila), mandara-o parar de fazer gozação de seu único verdadeiro talento.
2
Talvez fizesse um mês e uma semana ou duas que retornavam pelo Caminho do Feixe de Luz quando chegaram a dois sulcos duplos antigos, que haviam sem dúvida alguma sido um dia uma estrada. Não acompanhava exatamente o Caminho do Feixe de Luz, mas Roland desviou-se um pouco e conduziu-os por ali assim mesmo. Tinha muita semelhança com o Feixe para as finalidades deles, disse o pistoleiro. Eddie achou que o fato de estarem mais uma vez na estrada poderia rearrumar as coisas, ajudá-los a sacudir aquela enlouquecedora sensação de pasmaceira nas Latitudes do Cavalo, mas isso não aconteceu. A estrada levou-os acima para o outro lado de uma série ascendente de campos que pareciam degraus. Acabaram chegando ao topo de um longo cume norte-sul. Quase uma floresta de história de fadas, pensou Eddie ao passarem por suas sombras. Susannah acertou em cheio um pequeno gamo no segundo dia na floresta (ou talvez fosse o terceiro... ou quarto), e a carne era deliciosa, após uma constante dieta de burritos vegetarianos, mas não se viam quaisquer ogros ou duendes travessos nas profundas sendas, nem elfos — Keebler ou outra forma. E tampouco mais gamos.
— Eu não paro de procurar a casinha de doces — disse Eddie. Àquela altura, já fazia vários dias que vinham serpeando por entre as esplendidas árvores antigas. Ou talvez fosse apenas uma semana. Tudo que ele sabia com certeza era que continuavam relativamente próximos do Caminho do Feixe de Luz. Viam-no no céu... e sentiam-no.
— Que casinha de doces é esta? — perguntou Roland. — É outra história? Se for, gostaria de ouvir.
Claro que gostaria. O cara era um glutão por histórias, sobretudo aquelas que começavam com um “Era uma vez, quando todo mundo morava na floresta”. Mas a maneira como ouvia era um tanto esquisita. Meio distanciado. Eddie comentara isso com Susannah, e ela acertara em cheio com uma única explicação, como muitas vezes fazia. Tinha uma capacidade poética misteriosa, quase estranha, de por sentimentos em palavras, encaixando-os no lugar.
— É por isso que ele não as escuta com olhos arregalados como uma criança na hora de dormir — disse. — Assim é apenas como você quer que ele escute, docinho.
— E como é que ele escuta?
— Como um antropólogo — respondeu ela prontamente. — Como um antropólogo tentando entender uma cultura estranha por meio de seus mitos e lendas.
Tinha razão. E se a maneira de escutar de Roland o deixava incomodado, provavelmente era porque em seu coração Eddie achava que se alguém devia ouvir histórias como cientistas, seriam ele, Suze e Jake. Pois vinham de um onde e um quando mais sofisticados. Não vinham?
Se vinham ou não, os quatro haviam descoberto que um grande número de histórias era comum aos dois mundos. Roland conhecia uma chamada “O Sonho de Diana”, estranhamente semelhante a “A Dama ou o Tigre”, que todos os três nova-iorquinos exilados haviam lido na escola. A de Lorde Perth parecia-se muito com a história de Davi e Golias, da Bíblia. Roland ouvira muitos relatos do Homem Jesus, que morreu na cruz para redimir os pecados do mundo, e disse a Eddie, Susannah e Jake que Jesus tinha Sua razoável parcela de seguidores no Mundo Médio. Também havia músicas comuns aos dois mundos. “Careless Love” era uma. “Hey Jude”, outra, embora no mundo de Roland a primeira frase da letra fosse: “Hey Jude, I see you, lad.”
Eddie passou no mínimo uma hora contando a Roland a história de João e Maria, transformando a perversa bruxa comedora de crianças em Rhea do Coos quase sem pensar nela. Quando chegou a parte em que ela tentava engordar as crianças, ele se interrompeu e perguntou a Roland:
— Conhece esta? Uma versão desta?
— Não — disse Roland —, mas é uma bela história. Conte até o fim, por favor.
Eddie contou, acabando com o exigido E viveram felizes para sempre, e o pistoleiro aquiesceu.
— Ninguém nunca vive feliz para sempre, mas deixamos as crianças aprenderem isso por conta própria, não é?
— Ié — disse Jake.
Oi trotava nos calcanhares do menino, olhando para Jake com a expressão habitual de calma adoração nos olhos cercados de dourado.
— Ié — disse o trapalhão, copiando exatamente a inflexão um tanto triste do garoto.
Eddie passou um braço pelos ombros de Jake.
— É uma pena você estar aqui e não em Nova York — disse. — Se estivesse na Maçã, menino Jake, na certa teria seu próprio psiquiatra infantil a esta altura. Estaria resolvendo esses problemas com seus pais. Indo ao fulcro dos conflitos não resolvidos. Talvez tomando alguns remédios também. Ritalina, essas coisas.
— No todo, eu prefiro estar aqui — disse Jake, e baixou o olhar para Oi.
— Ié — disse Eddie. — Eu não o culpo.
— Essas histórias se chamam “contos da carochinha” — disse Roland.
— Ié — repetiu Eddie.
— Mas não havia fadas nessa.
— É — concordou Eddie. — Isso parece mais uma categoria que outra coisa. Em nosso mundo, a gente tem as histórias de detetive e suspense... de ficção científica... faroestes... os contos da carochinha. Sacou?
— É — disse Roland. — As pessoas do seu mundo sempre querem apenas histórias de um só sabor? Só um gosto na boca?
— Eu acho que isso chega bastante perto — disse Susannah.
— Come-se ensopado? — perguntou Roland.
— Às vezes uma ceia, eu acho — disse Eddie —, mas quando se trata de diversão, a gente tende a ficar com um sabor de cada vez, e não deixa coisa nenhuma tocar em outra no prato. Embora pareça chato quando se diz assim.
— Quantas dessas histórias da carochinha você diria que existem?
Sem hesitação — e certamente sem conluio —, Eddie, Susannah e Jake disseram a mesma palavra exatamente na mesma hora:
— Dezenove!
E um instante depois Oi repetia em sua voz rouca:
— De-enove!
Olharam-se uns aos outros e riram, porque “19” se tornara uma espécie de palavra-chave entre eles, substituindo “cascata”, que Jake e Eddie haviam desgastado demais. Mas o riso tinha um travo de nervosismo, porque aquele negócio de 19 se tornara meio esquisito. Eddie vira-se ta-lhando-o no lado de seu mais recente animal de madeira, como uma marca: Ei, você, chapa, bem-vindo à nossa farra! Nós a chamamos de Bar-Dezenove. Susannah e Jake haviam confessado que traziam lenha para a fogueira noturna em braçadas de 19 achas. Nenhum deles soube dizer por quê; apenas parecia correto fazer assim, de alguma forma.
Depois houvera a manhã em que Roland os parara na borda da mata pela qual viajavam então. Apontara para o céu, onde uma árvore particularmente antiga deitara os peludos galhos. A forma que os galhos tomavam contra o céu era o número 19. Visivelmente 19. Todos o tinham visto, mas Roland o vira primeiro.
Contudo ele, que acreditava em presságios e portentos tão rotineiramente quanto Eddie acreditava em lâmpadas elétricas e baterias Double-A, tendia a descartar sua curiosa e súbita paixão ka-tet pelo número. Haviam chegado perto, disse, tão perto quanto poderia qualquer ka-tet, assim os pensamentos, hábitos e pequenas obsessões tendiam a espalhar-se entre eles todos, como um resfriado. Ele acreditava que Jake facilitava isso em certa medida.
— Você tem o toque, Jake — disse. — Não sei se é tão forte em você quanto em meu velho amigo Alain, mas, pelos deuses, eu creio que pode ter.
— Eu não sei do que você esta falando — respondeu Jake, franzindo o cenho intrigado.
Eddie sabia — mais ou menos — e calculava que Jake ia saber, com o tempo. Se o tempo algum dia recomeçasse a passar normalmente, quer dizer.
E no dia em que Jake trouxe os bolinhos, ele soube.
3
Haviam parado para o almoço (os mais desinteressantes burritos vegetarianos, a carne de gamo acabara e os bolinhos de chocolate Keebler nada mais eram que uma gostosa lembrança), quando Eddie percebeu que Jake desaparecera e perguntou ao pistoleiro se sabia aonde fora o garoto.
— Deu o fora cerca de meia volta atrás — disse Roland, e apontou a estrada com os dois dedos restantes da mão direita. — Ele tem razão. Se não tivesse, nós todos sentiríamos.
Roland olhou o seu burrito e deu uma mordida sem nenhum entusiasmo.
Eddie abriu a boca para dizer outra coisa, mas Susannah se adiantou.
— Aí esta ele. Ei, doçura, que é que tem aí?
Jake tinha os braços cheios de umas coisas redondas do tamanho de bolas de tênis. Só que aquelas jamais iriam ricochetear mesmo; pequenos chifres brotavam delas. Quando o garoto se aproximou mais, Eddie sentiu o cheiro das bolas, e era maravilhoso — como pão recém-assado.
— Acho que podem ser boas de comer — disse Jake. — Cheiram a massa de pão fermentada que minha mãe e a Sra. Shaw... a governanta... compravam no Zabar’s. — Olhou para Susannah e Eddie, sorrindo um pouco. — Vocês conhecem o Zabar’s?
— Eu com certeza — disse Susannah. — O melhor de tudo, huummm. E como cheiram. Ainda não comeu nenhum, comeu?
— Nem pensar. — Lançou um olhar interrogador a Roland.
O pistoleiro pôs fim ao suspense pegando uma, quebrando os chifres e mordendo o que restou.
— Bolinhas-de-bolo — disse. — Não vejo um há sabe Deus quanto tempo. Eram maravilhosos. — Os olhos azuis brilhavam. — Não precisa comer os chifres; não são venenosos, mas azedos. Podemos fritá-los, se restou um pouco de carne de gamo. Assim pegarão o gosto de carne.
— Parece uma boa idéia — disse Eddie. — De derrubar a gente. Quanto a mim, acho que salto os bolinhos de cogumelo, ou seja lá o que forem.
— Não são cogumelos de jeito nenhum — disse Roland. — Parecem mais uma espécie de baga do chão.
Susannah pegou um, mordiscou-o e deu uma dentada maior.
— Você não vai querer passar isto, querido — disse. — O amigo do meu pai, Pop Mose, diria: “Estes são de primeira.” — Pegou outro dos bolinhos de Jake e correu o dedo pela superfície sedosa.
— Talvez — disse Roland —, mas eu li um livro para uma redação no ensino médio... acho que se chamava Nós Sempre Moramos no Castelo... em que uma dona maluca envenenava a família toda com uma coisa destas. — Curvou-se para Jake, erguendo as sobrancelhas e esticando os cantos da boca no que esperava fosse um arrepiante sorriso. — Envenenou toda a família e eles morreram em A-gonia!
Eddie caiu do toro em que se sentava e começou a rolar sobre as agulhas de pinheiro e folhas caídas, fazendo caretas e ruídos horríveis. Oi corria em volta dele, repetindo o nome de Eddie numa serie de agudos latidos.
— Pare com isso — disse Roland. — Onde encontrou essa coisa, Jake?
— Lá atrás — disse Jake. — Numa clareira que avistei da trilha. Esta cheia dessas coisas. E também, se vocês tem fome de carne... eu sei que eu tenho... há todo tipo de sinais. Muitos frescos. — Vasculhou com os olhos o rosto de Roland. — Muito... frescas. — Falou devagar, como a alguém não fluente na língua.
Um sorriso brincou nos cantos da boca de Roland.
— Fale baixo mas claro — disse. — Que é que o preocupa, Jake?
Quando Jake respondeu, os lábios mal davam a forma das palavras.
— Tinha uns homens me vigiando enquanto eu colhia os bolinhos.
— Fez uma pausa e acrescentou: — Estão nos vigiando agora.
Susannah pegou um dos bolinhos, admirou-o, depois meteu a cara como para cheirá-lo como uma flor.
— Lá atrás por onde a gente veio? À direita da trilha?
— É — disse Jake.
Eddie levou o punho fechado à boca, como para abafar uma tosse, e disse:
— Quantos?
— Acho que quatro.
— Cinco — disse Roland. — Talvez até seis. Um é uma mulher. Outro um menino não muito mais velho que Jake.
Jake olhou-o, espantado. Eddie perguntou:
— Ha quanto tempo estão lá?
— Desde ontem — disse Roland. — Passaram a seguir-nos desde o leste.
— E você não falou pra gente? — perguntou Susannah, um tanto severamente, sem se incomodar em cobrir a boca e obscurecer a forma das palavras.
Roland olhou-a com o mais tênue brilho no olhar.
— Eu estava curioso por saber quem de vocês seria o primeiro a farejá-los. Na verdade, apostava em você, Susannah.
Ela lançou-lhe um olhar frio e não disse nada. Eddie pensou que havia mais que um pouco de Detta Walker naquele olhar, e sentiu-se alegre por não vê-lo dirigido a si próprio.
— Que fazemos com eles? — perguntou Jake.
— Por enquanto, nada — disse o pistoleiro.
Jake visivelmente não gostou disso.
— E se eles forem iguais ao ka-tet de Tiquetaque? Gasher, Hoots e aqueles caras?
— Não são.
— Como você sabe?
— Porque já nos teriam atacado e virado comida de moscas.
Não parecia haver uma boa resposta para isso, e pegaram a estrada de novo. A trilha serpeava por entre sombras profundas, abrindo caminho no meio de árvores seculares. Antes de andarem vinte minutos, Eddie ouviu o barulho de seus perseguidores (ou seguidores): galhos partidos, mato baixo farfalhando, uma vez até uma voz baixa. Dicas, na terminologia de Roland. Eddie estava enojado consigo mesmo por não tê-los percebido durante tanto tempo. Também imaginava o que aqueles caras faziam para ganhar a vida. Se era seguir a caça e deitar armadilhas, não eram lá muito bons nisso.
Eddie Dean tornara-se parte do Mundo Médio de muitas formas, algumas tão sutis que ele não tinha consciência delas, mas ainda pensava nas distâncias mais em quilômetros que em rodas. Calculava que haviam feito uns vinte e tantos desde o local onde Jake tornara a juntar-se a eles com os bolinhos e a notícia, quando Roland encerrou o dia. Pararam no meio da estrada, como sempre faziam desde que entraram na floresta; desse modo as brasas da fogueira do acampamento tinham pouca chance de atear fogo a mata.
Eddie e Susannah recolheram uma bela coleção de galhos caídos, enquanto Roland e Jake faziam um pequeno acampamento e passavam a dividir o tesouro de bolinhos do garoto. Susannah rolou sem esforço sua cadeira de rodas pelo solo embaixo das árvores, com os galhos no colo. Eddie andava perto, trauteando baixinho.
— Olhe para a esquerda, doçura — disse ela.
Ele o fez, e viu um distante piscar laranja. Uma fogueira.
— Não são muito bons, né? — perguntou.
— É. A verdade é que tenho um pouco de pena deles.
— Alguma idéia do que estão aprontando?
— Hum-hum, mas acho que Roland tem razão: vão nos dizer quando estiverem prontos. Ou isso, ou decidirão que não somos o que querem e simplesmente desaparecerão na paisagem. Vamos, vamos voltar.
— Só um segundo. — Ele catou mais um galho, hesitou e pegou outro. Então ficou certo. — Tudo bem — disse.
Quando voltavam, ele contou as achas que pegara, depois as do colo de Susannah. O número total chegava a 19 em cada caso.
— Suze — disse, e quando ela o olhou: — O tempo recomeçou.
Ela não lhe perguntou o que queria dizer, apenas assentiu com a cabeça.
4
A decisão de Eddie de não comer os bolinhos não durou muito; cheiravam demasiado bem fritando no torrão de gordura de gamo que Roland (uma alma sovina e assassina) poupara na sua velha bolsa surrada. Eddie pegou seu quinhão num dos velhos pratos que haviam encontrado nas matas de Shardik e devorou-os.
— São tão bons quanto lagostas — disse, e depois se lembrou dos monstros na praia que haviam comido os dedos de Roland. — Quer dizer, gostosos como os cachorros-quentes de Nathan. Desculpe por provocá-lo, Roland.
— Não se preocupe com isso — disse Jake, sorrindo. — Você nunca provoca forte.
— Uma coisa que vocês precisam saber — disse Roland. Ele sorria — sorria mais agora, muito mais —, mas tinha os olhos sérios. — Todos vocês. Os bolinhos às vezes trazem sonhos muito vívidos.
— Quer dizer que deixam a gente doidão? — perguntou Jake, meio nervoso.
Pensava em seu pai. Elmer Chambers experimentara muitas dessas coisas esquisitas na vida.
— Doidão? Eu não sei se...
— Chapado. Alucinado. Vendo coisas... Como quando se tomou mescalina e entrou no círculo de pedra onde aquela coisa... você sabe... quase me machucou.
Roland fez uma pausa, lembrando. Havia uma espécie de súcubo aprisionado naquele círculo de pedras. Deixado à própria sorte, sem dúvida teria iniciado Jake sexualmente, depois fodido com ele até matá-lo. Mas na verdade Roland o fizera falar. Para castigá-lo, ele lhe mandara uma visão de Susan Delgado.
— Roland? — Jake olhava-o com um ar de ansiedade.
— Não se preocupe, Jake. Alguns cogumelos fazem o que você esta pensando... mudam a consciência, aumentam-na... mas não esses bolinhos. São bagas, apenas boas pra comer. Se seus sonhos forem particularmente vividos, basta lembrar que está sonhando.
Eddie achou isso um discursinho bastante estranho. Para começar, não era do feitio de Roland ter uma tão terna solicitude com a saúde mental deles. E tampouco desperdiçar palavras.
Começou tudo de novo, e ele sabe disso, pensou. Houve uma ligeira folga lá fora, mas agora o relógio esta andando de novo. Jogo recomeçado, como dizem.
— Vamos montar uma sentinela, Roland? — perguntou Eddie.
— Por mim, não — disse confortavelmente o pistoleiro, e começou a enrolar um cigarro para si.
— Você não os acha perigosos mesmo, acha? — perguntou Susannah, e ergueu os olhos para a mata, onde as árvores individuais agora se perdiam na escuridão geral do anoitecer. A pequena faísca que era a fogueira do acampamento apagara-se, mas as pessoas que os seguiam continuavam lá Ela as sentia. Quando baixou o olhar para Oi e viu-o olhando na mesma direção, não ficou surpresa.
— Acho que talvez seja problema deles — disse Roland.
— O que quer dizer isso? — perguntou Eddie, mas Roland não quis falar mais.
Simplesmente se deitou na estrada com um pedaço de couro de gamo enrolado embaixo do pescoço, olhando o céu escuro e fumando.
Mais tarde, o seu ka-tet dormiu. Não puseram sentinelas nem foram perturbados.
5
Os sonhos, quando vieram, não foram sonhos de modo algum. Todos sabiam disso, com exceção de Susannah, que num sentido bastante real não estava ali de jeito nenhum naquela noite.
Meu Deus, estou de volta a Nova York, pensou Eddie. E, em seguida: Realmente de volta a Nova York. Isto está realmente acontecendo.
Estava mesmo. Ele estava em Nova York. Na Segunda Avenida.
Foi quando Jake e Oi dobraram a esquina, vindos da Quarenta e Quatro.
— Ei, Eddie — disse Jake, sorrindo. — Bem-vindo de volta ao lar.
Jogo recomeçado, pensou Eddie. Jogo recomeçado.
CAPÍTULO 2
O Bosque de Nova York
1
Jake adormeceu olhando a escuridão pura — não havia estrelas na noite nublada nem lua. Ao embarcar, teve a sensação de queda que reconheceu consternado: em sua vida anterior como uma chamada criança normal, muitas vezes sonhava com quedas, sobretudo na época das provas, mas isso cessara desde seu violento renascimento no Mundo Médio.
Então a sensação de queda desapareceu. Ele ouviu uma breve melodia tilintada de algum modo bonita demais: três notas e a gente queria que parasse, uma dúzia e a gente pensava que ia matar-nos se não parasse. Cada toque parecia fazer vibrarem os seus ossos. Parece havaiana, não parece?, ele pensou, pois embora a melodia não se parecesse de jeito nenhum com o terrível gorjeio do solvente, de algum modo parecia.
Parecia.
Então, exatamente quando ele de fato achava que não podia ouvi-la mais, a terrível e gorjeada melodia cessou. A escuridão por trás dos olhos dele de repente se iluminou num forte vermelho-escuro.
Ele os abriu cautelosamente para o sol forte.
E ficou boquiaberto.
Diante de Nova York.
Táxis passavam apressados, brilhando com um amarelo forte à luz do sol. Um jovem negro com fones de ouvido de um walkman passou por ele, batendo as sandálias um pouco ao ritmo da música e dizendo: “Cha-da-ba, cha-da-ba-bu!” Um martelo mecânico batia nos tímpanos de Jake. Pedaços de cimento despencaram num caminhão de entulho com um baque que ecoou de uma face de rochedo de prédios a outra. O mundo ressoava com um barulhão. Ele se acostumara aos profundos silêncios do Mundo Médio sem na verdade compreender isso. Não mais. Passara a amá-los. Contudo, aquele barulho e afobação tinham suas atrações, e Jake não podia negá-lo. De volta ao bosque de Nova York. Sentiu um sorrisinho esticar os seus lábios.
— Aque! Aque! — gritou uma voz baixa e angustiada.
Jake olhou para baixo e viu Oi sentado na calçada com a cauda enrolada em volta. O trapalhão não usava botinhas vermelhas, nem Jake os sapatos vermelhos (graças a Deus), mas ainda era muito como a visita deles à casa de Roland de Gilead, que eles haviam alcançado viajando no Globo cor-de-rosa do Mago. O globo de vidro que causara tanta encrenca e infelicidade.
Não havia vidro agora... ele apenas adormecera. Mas aquilo não era sonho. Era mais intenso que qualquer sonho que ele já tivera, e mais vívido. Também...
Também as pessoas continuavam a contorná-lo e a Oi, parados à esquerda de um bar do centro chamado Kansas City Blues. Enquanto ele fazia essa observação, uma mulher na verdade pisou em Oi, levantando a saia negra reta um pouco acima do joelho para fazê-lo. Seu rosto preocupado (Eu sou apenas mais uma nova-iorquina cuidando da minha vida, logo não me fode, era o que dizia o rosto a Jake) não mudou.
Eles não vêem a gente, mas de algum modo nos sentem. E se podem sentir-nos, devemos estar mesmo aqui.
A primeira pergunta lógica era: Por quê? Jake pensou nisso um instante e decidiu classificá-lo. Teve uma idéia de que a resposta ia vir. Enquanto isso, por que não desfrutar Nova York enquanto a tinha?
— Vamos lá, rapaz — disse, e dobrou a esquina.
O trapalhão, que visivelmente não era nenhum garoto de cidade, andava tão junto dele que ele sentia a sua respiração fazendo cócegas em seus calcanhares.
Segunda Avenida, pensou. E depois: Deus do céu...
Antes que pudesse concluir o pensamento, viu Eddie Dean parado diante do guarda-bagagens Barcelona, parecendo ofuscado e mais que um pouco deslocado num velho jeans, camisa de pele de gamo e mocassins do mesmo material. Tinha os cabelos limpos, mas caídos nos ombros, de uma forma que sugeria que nenhum profissional cuidava dele havia bastante tempo. Jake compreendeu que ele próprio não parecia muito melhor; também usava uma camisa de pele de gamo e, na metade de baixo, os restos esbagaçados dos tênis que calçava no dia em que deixara para sempre o lar, lançando velas para o Brooklyn, Dutch Hill e outro mundo.
É bom que ninguém nos veja, pensou, e decidiu que isso não era verdade. Se as pessoas os vissem, eles provavelmente estariam ricos com trocados antes do meio-dia. A idéia o fez dar um sorriso.
— Ei, Eddie — disse. — Bem-vindo de volta ao lar.
Eddie balançou a cabeça, parecendo divertido.
— Vejo que trouxe seu amigo.
Jake baixou a mão e deu um tapinha afetuoso em Oi.
— É minha versão do American Express Card. Eu não vou para casa sem ele.
Ia prosseguir — sentia-se espirituoso, borbulhante, cheio de coisas divertidas para dizer — quando alguém dobrou a esquina, passou por eles sem olhar (como todos os demais) e mudou tudo. Era um garoto usando uns tênis que pareciam os de Jake, só que eram os de Jake. Não o par que ele calçava agora, mas eram dele, sem dúvida. Eram os que Jake perdera em Dutch Hill. O homem de reboco que guardava a porta entre os mundos os arrancara de seus pés.
O garoto que acabava de passar por eles era John Chambers, era ele, só que aquela versão parecia mais suave, inocente e inteiramente jovem. Como você sobreviveu?, ele perguntou às suas próprias costas que se afastavam. Como você sobreviveu à tensão mental de perder a mente, e fugir de casa, e àquela casa horrível no Brooklyn? Sobretudo, como sobreviveu ao porteiro? Você deve ser mais duro do que parece.
Eddie deu uma dupla olhada tão cômica que Jake riu apesar de sua própria surpresa. Fê-lo lembrar-se daqueles painéis de revistas de história em quadrinhos em que Archie ou Jughead tentavam olhar para dois lados ao mesmo tempo. Baixou o olhar e viu uma expressão semelhante na cara de Oi. De algum modo, aquilo tornava a coisa toda ainda mais engraçada.
— Que caralho? — perguntou Eddie.
— Reprise instantânea — disse Jake, e riu mais ainda. Saiu engraçado como o diabo, mas ele não ligava. Sentia-se engraçado.
É como quando nós olhávamos Roland no Grande Salão de Gilead, só que isto é em Nova York, e estamos em 31 de maio de 1977. Foi o dia em que me ausentei sem licença do Piper! Reprise instantânea, baby!
— Ausência... — começou Eddie, mas Jake não lhe deu chance de acabar. Foi atingido por outra percepção. Só que atingido era uma palavra demasiado branda. Foi sepultado por ela, como um homem que por acaso está na praia quando vem uma onda rolando. Seu rosto fulgiu tão forte que Eddie chegou a dar um passo atrás.
— A rosa! — sussurrou ele. Sentiu-se fraco demais no diafragma para falar mais alto, e tinha a garganta tão seca quanto uma tempestade de areia. — Eddie, a rosa!
— Que é que tem?
— Este é o dia em que a vi! — Estendeu o braço e tocou o antebraço de Eddie com a mão trêmula. — Tenho de ir à livraria... depois ao terreno baldio. Acho que havia uma delicatessen...
Eddie balançava a cabeça e começava a parecer excitado ele próprio.
— A Comestíveis Finos e Artísticos Tom e Jerry, esquina da Segunda com a Quarenta e Seis...
— A deli desapareceu, mas a rosa está lá! Aquele meu eu andando pela calçada está indo vê-la, e nós podemos vê-la, também!
A isso, os olhos de Eddie fulgiram.
— Vamos, então — disse ele. — Não queremos perder você. Ele. Quem caralho for.
— Não se preocupe — disse Jake. — Eu sei pra onde ele está indo.
2
O Jake à frente deles — o de Nova York, o da primavera de 1977 — andava devagar, olhando para todos os lados, claramente curtindo o dia. O Jake do Mundo Médio lembrava exatamente como aquele garoto se sentia: o súbito alívio quando as vozes que discutiam em sua mente
(Eu morri!)
(Eu não morri!)
haviam finalmente parado o bate-boca. Na cerca de tábuas que havia, onde dois comerciantes jogavam o jogo-da-velha com uma caneta Mark Cross. E, claro, o alívio de estar longe do Colégio Piper e da insanidade da Redação Final para a classe de inglês da Sra. Avery. A Redação Final contava 25 por cento para a nota final de cada aluno, a Sra. Avery deixara isso perfeitamente claro, e a de Jake fora blablablá. O fato de sua professora ter depois lhe dado um 10+ não mudava o fato, apenas deixava claro que não era só ele; todo mundo estava pirando, virando 19.
Estar fora disso tudo — mesmo por pouco tempo — fora sensacional. Claro que ele estava curtindo o dia.
Só que o dia não está inteiramente direito, pensou Jake — o Jake que andava atrás de seu velho eu. Alguma coisa nele...
Olhou em volta, mas não pôde compreender. Fins de maio, forte sol estivai, montes de gente a passear e olhar vitrinas na Segunda Avenida, muitos táxis, uma outra limusine negra comprida; nada errado em nada daquilo.
Só que havia.
Tudo estava errado naquilo.
3
Eddie sentiu o garoto puxar sua manga.
— Que é que há com esse quadro? — perguntou Jake.
Eddie olhou em volta. Apesar de seus problemas de adaptação (seu comprometido retorno a Nova York, que estava claramente poucos anos atrás do seu quando), sabia o que Jake queria dizer. Alguma coisa estava errada.
Olhou ao longo da calçada, subitamente certo de que não teria uma sombra. Haviam perdido suas sombras como os meninos numa das histórias... uma das 19 histórias da carochinha... ou seria talvez alguma coisa mais nova, tipo O Leão, a Bruxa e o Guarda-roupa ou Peter Pan? Uma do que poderia chamar-se Moderno Dezenove?
De uma forma ou de outra, não importava, porque suas sombras estavam ali.
Mas não deviam estar, pensou Eddie. Não devíamos poder ver nossas sombras no escuro.
Idéia idiota. Não estava escuro, pelo amor de Deus, uma luminosa manhã de maio, o sol faiscando num cromo de carros a passar e nas vitrinas das lojas no lado leste da Segunda Avenida com força suficiente para fazer a gente entrecerrar os olhos. Contudo, de algum modo parecia escuro para Eddie, como se não passasse de uma frágil superfície, como o pano de fundo de um cenário teatral. “Ao Alvorecer Veremos a Floresta.” Ou Um Castelo na Dinamarca. Ou a Cozinha da Casa de Willy Loman. Neste caso, vemos a Segunda Avenida, no centro de Nova York.
É, uma coisa assim. Só que atrás daquele cenário se encontrariam a oficina e os depósitos dos bastidores, apenas em crescente escuridão. Um vasto universo morto onde a Torre de Roland já teria ruído.
Por favor, faça com que eu esteja errado, pensou Eddie. Por favor, que isso seja apenas um caso de choque cultural ou o puro e velho cagaço.
Não achava que fosse.
— Como chegamos aqui? — perguntou a Jake. — Não havia porta... — Perdeu o fio e depois perguntou com certa esperança: — Será que é um sonho?
— Não — disse Jake. — Parece mais quando viajamos no Vidro do Mago. Só que desta vez não havia globo. — Ocorreu-lhe uma idéia. — Mas você ouviu música? Sinos? Pouco antes de baixar aqui?
Eddie assentiu com a cabeça.
— Foi meio esmagador. Fez meus olhos aguarem...
— Certo — disse Jake. — Exatamente.
Oi farejava um hidrante. Eddie e Jake pararam para deixar o chapinha levantar a pata e pregar seu recado no que já era visivelmente um quadro de avisos. À frente deles, o outro Jake — o Garoto Setenta e Sete ainda andava devagar, olhando feito um basbaque para todos os lados. Para Eddie, parecia um turista de Michigan. Até esticava o pescoço para olhar o alto dos prédios, e ocorreu a Eddie a idéia de que se a Câmara do Cinismo de Nova York o pegasse fazendo aquilo, tomariam o cartão de crédito da Bloomingdale’s do cara. Não que ele fosse se queixar; tornaria o garoto mais fácil de seguir.
E justo quando ele pensava isso, o Garoto Setenta e Sete desapareceu.
— Aonde você iria? Nossa, aonde você iria?
— Não esquenta — disse Jake. (Em seus calcanhares, Oi acrescentou dois centavos de “Ax!”) O garoto sorria. — Eu simplesmente entrei na livraria... hum... Restaurante da Mente de Manhattan, era como se chamava.
— Onde você comprou Charlie Chuu-Chuu e o livro de adivinhações?
— Certo.
Eddie adorou o sorriso confuso e deslumbrado na cara de Jake. Iluminava o rosto todo.
— Lembra-se de como Roland ficou excitado quando eu disse o nome do dono.
Eddie lembrava. O dono do Restaurante da Mente de Manhattan era um cara chamado Calvin Tower.
— Depressa — disse Jake. — Eu quero ver.
Não precisou pedir duas vezes. Também Eddie queria ver.
4
Jake parou na entrada da livraria. O sorriso não desapareceu, exatamente, mas falhou.
— Que foi? — perguntou Eddie. — Qual é o problema?
— Sei não. Alguma coisa diferente, acho. É só que... aconteceu tanta coisa desde que estive aqui...
Olhava o quadro-negro de avisos na vitrina, que Eddie julgou uma maneira esperta de vender livros. Parecia o tipo de coisa que se via em restaurantes, ou talvez nas feiras de peixe.
ESPECIAIS DE HOJE
Do Mississipi! — William Faulkner frito
Capa Dura — Preço de Mercado
Brochuras da Vintage Library — 75 centavos cada
Do Maine! — Stephen King gelado
Capa Dura — Preço de Mercado
Promoções do Clube do Livro
Brochuras — 75 centavos
Da Califórnia! — Raymond Chandler bem cozido
Capa Dura — Preço de Mercado
Brochuras — 7 por U$ 5,00
Eddie olhou mais à frente e viu o outro Jake — o outro não bronzeado sem a expressão de forte claridade nos olhos — parado numa mesinha de exposição. Livros infantis. Na certa tanto as Dezenove Histórias da Carochinha quanto o Moderno Dezenove.
Desista, disse a si mesmo. Isso é merda obsessivo-compulsiva e você sabe disso.
Talvez, mas o bom e velho Jake Setenta e Sete ia fazer uma compra daquela mesa que ia mudar — e muito provavelmente salvar — suas vidas. Ou de jeito nenhum, se ele pudesse dar um jeito.
— Vamos — ele disse a Jake. — Vamos entrar.
O garoto recusou.
— Que é que há? — perguntou Eddie. — Tower não vai poder nos ver, se é com isso que você está preocupado.
— Tower não vai poder — disse Jake —, mas e se ele puder?
Apontou seu outro eu, o que ainda não conhecera Gasher e Tiquetaque e a velha gente de River Crossing. O que ainda não conhecera o Mono Blaine e Rhea de Cöos.
Jake olhava para Eddie com um ar de assustada curiosidade.
— E se eu vir a mim mesmo?
Eddie achou que isso podia acontecer de fato. Diabos, qualquer coisa podia acontecer. Mas isso não mudava o que ele sentia no coração.
— Acho que devemos entrar, Jake.
— Ié... — Saiu com um longo suspiro. — Eu também.