A Torre Negra V: Lobos de Calla
Capítulo 3
O garoto se foi, como um redemoinho de água turva.
Barlow parece ficar mais alto. Os cabelos puxados para trás da testa, à maneira européia, parecem flutuar em volta do crânio. Veste um terno escuro e uma gravata vermelha berrante, com um nó impecável, e a Callahan parece fazer parte da escuridão que o cerca. Os pais de Mark Petrie jazem mortos a seus pés, os crânios esmagados.
— Cumpra sua parte da barganha, xamã.
Mas por que deveria ele? Por que não repeli-lo, aceitar um empate esta noite? Ou matá-lo já? Alguma coisa está errada com a idéia, terrivelmente errada, mas ele não consegue atinar exatamente o que é. Nem qualquer daquelas palavras-chave que o ajudaram em momentos de crise anteriores lhe será de alguma valia ali. Isto não é anomia, falta de empatia, nem a angústia existencial do século XX; isto é um vampiro. E...
E sua cruz, que andou brilhando ferozmente, começa a escurecer.
O medo salta-lhe na barriga com uma confusão de fios elétricos quentes. Barlow encaminha-se em direção a ele pela cozinha dos Petrie, e Callahan vê as presas da coisa com muita nitidez, porque Barlow sorri. O sorriso de um vencedor.
Callahan dá um passo atrás. Depois dois. Então bate com a bunda na borda da mesa, e a mesa recua até a parede, e não lhe resta mais lugar algum para onde correr.
— É triste ver a fé de um homem falhar — diz Barlow, e estende a mão. Por que não deveria estendê-la? A cruz que Callahan segura no alto agora está escura. Agora não passa de um pedaço de gesso, um pedaço barato de renda irlandesa que sua mãe comprou numa loja de suvenires em Dublin, na certa a preço de banana. O poder que tinha de descarregar pelo seu braço acima, voltagem espiritual suficiente para fazer desmoronar paredes e estilhaçar pedras, desapareceu.
Barlow toma-a de seus dedos. Callahan grita desesperadamente, o grito de uma criança que de repente percebe que o bicho-papão sempre foi real, à espera pacientemente de sua chance no armário. E agora vem um ruído que vai persegui-lo pelo resto da vida, desde Nova York e as secretas rodovias secretas dos Estados Unidos às reuniões dos AA em Topeka, onde ele ficou sóbrio para a parada final em Detroit, até sua vida ali, em Calla Bryn Sturgis. Vai lembrar-se dele quando estiver morto. O ruído são dois estalos secos quando Barlow quebra os braços da cruz, e o baque sem sentido quando ele joga o que restou dela no chão. E também vai lembrar-se do pensamento cosmicamente ridículo que lhe veio, mesmo quando Barlow partia em sua direção: Meu Deus, eu preciso de uma bebida.
4
O père fitava Roland, Eddie e Susannah com os olhos de quem está se lembrando dos piores momentos absolutos de sua vida.
— A gente ouve todo tipo de ditados e lemas nos Alcoólicos Anônimos. Tem um que me retorna à mente sempre que eu penso naquela noite. Em Barlow agarrando meus ombros.
— O quê? — perguntou Eddie.
— Cuidado com o que pede ao rezar — disse Callahan. — Porque você pode simplesmente recebê-lo.
— Você recebeu sua bebida — disse Roland.
— Ah, sim — confirmou Callahan. — Recebi minha bebida.
5
As mãos de Barlow são fortes, implacáveis. Quando Callahan é puxado para a frente, de repente entende o que vai acontecer. Não a morte. A morte seria uma misericórdia comparada a isso.
Não, por favor, não, tenta dizer, mas nada lhe sai da boca além de um gemido baixo, rápido.
— Agora, padre — sussurra o vampiro.
A boca de Callahan é apertada contra a carne putrefata da garganta fria do vampiro. Não há anomia alguma, nem disjunção social, nada de ramificações éticas ou raciais. Só o fedor da morte e uma veia, aberta e pulsátil com o sangue morto e infectado de Barlow. Nenhum senso de perda existencial, nenhuma dor pós-moderna pela extinção do sistema de valores americanos, nem sequer a culpa psicorreligiosa do homem moderno. Só o esforço de prender a respiração para sempre, ou desviar a cabeça, ou as duas coisas. Ele não pode. Prende-se ali pelo que parece uma eternidade, besuntando-se de sangue na face, testa e queixo como pintura de guerra. Em vão. No fim faz o que todos os alcoólatras devem fazer assim que a pinga os pegou pelas orelhas: bebe.
Ponto três. Você está fora.
6
— O garoto conseguiu fugir. Houve esse tanto. E Barlow me soltou. Matar-me não teria sido nada divertido, teria? Não, a diversão era me deixar vivo.
“Eu vaguei sem rumo mais ou menos durante uma hora, por uma cidade que cada vez ia deixando de existir. Não há muitos vampiros Tipo Um, o que é uma bênção, porque o Tipo Um pode causar um inferno de muitos estragos num período extremamente curto. Embora a cidade já estivesse semi-infectada, eu estava cego demais, chocado demais, para percebê-lo. E nenhum dos novos vampiros se aproximou de mim. Barlow deixara esta marca em mim com tanta certeza quanto Deus deixou o sinal dele em Caim antes de mandá-lo para a terra de Node. Seu relógio e sua garantia, como diria você, Roland.
“Havia uma fonte de água potável na alameda ao lado da drogaria Spencer, o tipo de coisa que nenhum Departamento de Saúde Pública teria sancionado alguns anos depois, mas naquela época havia uma ou duas em cada cidade pequena. Lavei ali o sangue de Barlow do meu rosto e pescoço. Tentei tirá-lo do cabelo também com a água. Depois fui para St. Andrews, minha igreja. Decidira orar por uma segunda chance. Não ao Deus dos teólogos que acreditam que tudo sagrado e profano acaba vindo de dentro de nós mesmos, mas ao Deus antigo. Aquele que proclamou a Moisés que não devia permitir que vivesse uma feiticeira e deu ao seu próprio filho o poder de ressuscitar dos mortos. Uma segunda chance era tudo o que eu queria. Minha vida por isso.
“Quando cheguei a St. Andrews, eu quase corria. Havia três portas por onde se entrar. Fui até a do meio. Em algum lugar o cano de descarga de um carro soltou explosões, e alguém riu. Eu me lembro muito bem desses ruídos porque demarcam a fronteira de minha vida como padre da Santa Igreja Católica Romana.”
— Que aconteceu com você, doçura? — perguntou Susannah.
— A porta me rejeitou — disse Callahan. — Tinha uma maçaneta de ferro, e quando a toquei saiu fogo como um raio em sentido contrário. Me derrubou pelos degraus escada abaixo até a calçada de cimento. Fez isto. — Ele ergueu a mão cicatrizada.
— E isso? — perguntou Eddie, apontando a testa dele.
— Não — disse Callahan. — Esta veio depois. Eu me levantei. Andei mais um pouco. Passei mais uma vez pela Spencer. Só que desta vez entrei. Comprei uma atadura para minha mão. E aí, enquanto eu pagava, vi o cartaz. Viaje pela Grande Grey Dog.
— Ele quer dizer Greyhound, doçura — Susannah disse a Roland. — É uma empresa de ônibus de âmbito nacional.
Roland assentiu com a cabeça e girou um dedo em seu gesto de continue.
— A Srta. Coogan me disse que o próximo ônibus ia para Nova York, então comprei uma passagem. Se ela me dissesse que ia para Jacksonville ou Nome ou Hot Burgoo, Dakota do Sul, eu teria ido a qualquer um desses lugares. Queria apenas sair da cidade. Não me importava que as pessoas estivessem morrendo e pior que morrendo, algumas delas amigos meus, algumas delas meus paroquianos. Só queria ir embora. Vocês entendem isso?
— Sim — disse Roland sem hesitação. — Muito bem.
Callahan olhou-o no rosto e o que viu ali pareceu tranqüilizá-lo um pouco. Quando continuou, parecia mais calmo.
— Loretta Coogan era uma das solteironas da cidade. Devo tê-la assustado, porque ela disse que eu teria de esperar o ônibus do lado de fora. Eu saí. O ônibus acabou chegando. Entrei e dei a passagem ao motorista. O ônibus começou a rodar. Passamos sob o pisca-pisca amarelo no meio da cidade, e tínhamos percorrido o primeiro quilômetro. O primeiro quilômetro da estrada que me trouxe até aqui. Mais tarde, talvez às quatro e meia da manhã, ainda escuro lá fora, o ônibus parou em
7
— Hartford — disse o motorista. — Aqui é Hartford, moço. Vamos fazer uma parada de descanso de vinte minutos. Não quer entrar e comprar um sanduíche ou coisa que o valha?
Callahan tateia no bolso para retirar a carteira com a mão enfaixada e quase a deixa cair. O gosto da morte na boca, um gosto degenerado, farináceo como uma maçã podre. Ele precisa de alguma coisa para tirar aquele gosto, e se não tirá-lo, alguma coisa que o modifique, e se nada o modificar, pelo menos alguma coisa para disfarçá-lo, como a gente às vezes disfarça uma falha num piso de madeira com um pedaço de tapete barato.
Estende uma nota de 20 dólares para o motorista do ônibus e diz:
— Pode me comprar uma garrafa?
— Senhor, as normas...
— E fique com o troco, claro. Uma de meio litro seria ótimo.
— Eu não preciso de ninguém bagunçando meu ônibus. Vamos chegar a Nova York em duas horas. Você pode comprar o que quiser assim que chegar lá. — O motorista tenta sorrir. — É a Cidade da Diversão, você sabe.
Callahan — ele não é mais padre Callahan, o raio de fogo da maçaneta da porta respondeu a essa questão, pelo menos — acrescenta uma nota de 10 à de 20. Agora estende 30 dólares. Mais uma vez diz ao motorista que uma de meio litro seria ótimo, e não espera nenhum troco. Desta vez o motorista, que não é idiota, pega o dinheiro.
— Mas não vá me criar confusão, eu não quero ninguém bagunçando meu ônibus — repete ele.
Callahan assente com a cabeça. Sem bagunça, um grande escore. O motorista entra na combinação de mercearia-loja-de-bebidas-restaurante-de-pedidos-rápidos que existe na borda de Hartford, à borda do amanhecer, sob luzes amarelas de alta intensidade. Há rodovias secretas nos Estados Unidos, rodovias ocultas. Esse lugar fica numa das rampas de acesso a essa rede de estradas do lado sombrio, pressente Callahan. Fica na forma como xícaras descartáveis Dixie e maços de cigarro amassados voam pelo macada-me na hora antes do amanhecer. Isso sussurra da placa nas bombas de gasolina, a que diz PAGUE A GASOLINA ANTES DO PÔR DO SOL. Na forma como o adolescente do outro lado da rua se senta na rampa da varanda às quatro e meia da manhã, com a cabeça nos braços, um estudo silencioso de dor. As rodovias secretas ficam ali fora, próximas, e sussurram-lhe. “Vamos, companheiro”, dizem. “É aqui onde você pode esquecer tudo, até o nome que ataram a você quando não passava de um bebê nu, balindo, ainda manchado de sangue de sua mãe. Amarraram um nome a você como uma lata ao rabo de um cachorro, não foi? Mas você não precisa arrastá-lo por aí. Venha. Vamos.” Mas ele não vai a parte alguma. Espera o motorista do ônibus voltar, e logo o motorista volta, e ele pega a garrafa de meio litro de Old Log Cabin num saco de papel pardo. Esta é uma marca que Callahan conhece bem, meio litro da bebida custa provavelmente 2 dólares e 25 centavos aqui onde Judas perdeu as botas, o que significa que o motorista de ônibus acabou de receber uma gorjeta de quase 28 dólares, pegar ou largar. Nada mal. Mas é este o jeito americano, não? Dar muito para receber pouco. E se o Log Cabin tirar esse terrível gosto da boca — muito pior do que a dor latejante na mão queimada —, terá valido cada centavo dos 30 dólares. Porra, teria valido uma nota de 100.
— Nada de confusão — diz o motorista. — Eu jogo você no meio da via expressa Cross Bronx se começar a bagunçar. Juro por Deus que jogo.
Quando o Greyhound pára na Alfândega, Don Callahan está embriagado. Mas não cria confusão; fica simplesmente sentado em silêncio até a hora de saltar e juntar-se ao fluxo de humanidade sob as frias luzes fluorescentes: os drogados, os taxistas, os pequenos engraxates, os garotos vestidos de mulher que chupam seu pau por 10 dólares, os tiras rodando os cassetetes, os traficantes de drogas portando rádios transistores, os operários uniformizados que acabam de chegar de Nova Jersey. Callahan junta-se a eles, bêbado mas quieto; os policiais girando os cassetetes não chegam a olhá-lo duas vezes. O ar da Alfândega cheira a fumaça de cigarro, joysticks, escape. Os ônibus atracados roncam. Todo mundo ali parece solto. Sob as frias e brancas luzes fluorescentes, todos parecem mortos.
Não, ele pensa, passando por uma placa onde se lê PARA A RUA. Mortos não. Não mortos.
8
— Cara — disse Eddie. — Você esteve na guerra, não? Gregos, romanos, Vietnã?
Quando o Velho começara o relato, Eddie torcera para que ele acabasse logo a história e eles pudessem ir até a igreja e ver o que estivesse enfurnado lá. Não esperara ficar tocado, muito menos abalado, mas ficara. Callahan conhecia coisas que Eddie julgava impossível que mais alguém conhecesse: a tristeza das xícaras descartáveis Dixie rolando pela calçada, a enferrujada desesperança naquela placa nas bombas de gasolina, a aparência do olhar humano na hora antes do amanhecer.
Acima de tudo, como às vezes a gente tinha de acertar.
— As guerras? Não sei — disse Callahan. Depois deu um suspiro e assentiu com a cabeça. — Sim, acho que sim. Passei aquele primeiro dia em cinemas e aquela primeira noite no parque da Washington Square. Vi que as outras pessoas desabrigadas se cobriam com jornais, e foi o que eu fiz. E eis um exemplo de como a vida, a qualidade de vida e a textura de vida pareciam ter mudado para mim, a começar naquele dia do enterro de Danny Glick. Vocês não vão entender já, mas me acompanhem. — Olhou para Eddie e sorriu. — E não se preocupe, meu filho, não vou falar até o fim do dia. Nem sequer da manhã.
— Continue e conte qualquer história das coisas antigas que quiser, que isso lhe faz bem — disse Eddie.
Callahan desatou a rir.
— Agradeço! Ié, agradeço muitíssimo! O que ia dizer é que eu tinha me coberto da cintura pra cima com o Daily News e a manchete dizia: IRMÃOS HITLER ATACAM NO QUEENS.
— Ó meu Deus, os Irmãos Hitler — exclamou Eddie. — Eu me lembro deles. Aquela dupla de débeis mentais. Espancavam... quem? Judeus? Negros?
— Os dois grupos — respondeu Callahan. — E esculpiam suásticas em suas testas. Não tiveram chance de terminar a minha. O que foi bom, porque o que tinham em mente após o corte era muito mais que uma simples surra. E isso foi anos depois, quando voltei a Nova York.
— Suástica — disse Roland. — O emblema no avião que encontramos perto de River Crossing? O com David Quick dentro?
— Hã-hã — disse Eddie, e desenhou uma na grama com o bico de sua bota.
A grama despontou quase imediatamente, mas não antes de Roland ver que sim, a marca na testa de Callahan podia ter sido planejada para ser uma daquelas. Se tivesse sido concluída.
— Naquele dia em fins de outubro de 1975 — continuou Callahan — os Irmãos Hitler eram apenas uma manchete sob a qual eu dormi. Passei a maior parte daquele segundo dia em Nova York andando sem parar e lutando contra a urgência de matar uma garrafa. Parte de mim queria lutar em vez de beber. Tentar expiar. Ao mesmo tempo, eu sentia o sangue de Barlow agindo dentro de mim, mergulhando-me cada vez mais fundo. O mundo tinha um cheiro diferente, e nada melhor. As coisas pareciam diferentes e nada melhores. E o gosto dele retornando devagarinho à boca, um gosto de peixe morto ou vinho podre.
“Eu não tinha a menor esperança de salvação. Nem me passou pela cabeça. Mas expiação não tem a ver com salvação. Nem com céu. Mas trata de limpar sua consciência aqui na Terra. E você não pode fazer isso embriagado. Eu não me julgava um alcoólatra, nem sequer então, mas me perguntava, sim, se ele tinha me transformado num vampiro. Se o sol ia começar a queimar minha pele e eu ia passar a olhar para os pescoços de senhoras.”
Deu de ombros e riu:
— Ou talvez dos cavalheiros. Vocês sabem o que dizem do sacerdócio: somos apenas um bando de bichas enrustidas correndo em volta e brandindo a cruz na cara das pessoas.
— Mas você não era vampiro — disse Eddie.
— Nem sequer do Tipo Três. Nada além de impuro. No lado de fora de tudo. Banido. Sempre sentindo o fedor dele e sempre vendo o mundo como coisas da espécie dele devem vê-lo, em matizes de cinza e vermelho. Vermelho era a única cor viva que me permitia ver durante anos. Tudo mais era apenas um laivo.
“Acho que eu estava procurando um dos escritórios chamados Manpower... você sabe, a empresa de mão-de-obra diarista? Eu ainda era muito musculoso naquele tempo, e é claro que muito mais jovem, também.
“Não encontrei a Manpower. O que encontrei, sim, foi um lugar chamado Lar. Ficava na Quinta Avenida com a Quarenta e Sete, não muito longe da ONU.”
Roland, Eddie e Susannah se entreolharam. Fosse qual fosse o Lar, existira a apenas duas quadras do terreno baldio. Só que não estaria vazio então, pensou Eddie. Não em 1975. Em 75 ainda continuava sendo Comestíveis Finos e Artísticos Tom e Jerry. Nossa Especialidade: Bandejas para Bufês. De repente desejou que Jake estivesse ali. Eddie achou que a esta altura o garoto estaria dando pulos de emoção.
— Que tipo de loja era o Lar? — perguntou Roland.
— Não era loja nenhuma. Um abrigo. Um abrigo onde se bebia. Não tenho certeza de que era o único em Manhattan, mas aposto que era um dos muito poucos. Eu não sabia quase nada sobre abrigos na época, só alguma coisa de minha primeira paróquia, mas com o passar do tempo aprendi bastante. Vi o sistema dos dois lados. Havia vezes em que eu era o cara que servia as conchas de sopa às seis da tarde e distribuía as mantas às nove da noite; em outras, eu era o cara que tomava a sopa e dormia sob as mantas. Depois de uma inspeção na cabeça para ver se tinha piolho, claro.
“Há abrigos que não deixam a gente entrar se sentem cheiro de pinga no bafo. E há uns que deixam a gente entrar se afirmarmos que estamos no mínimo duas horas rio abaixo de nosso último drinque. Há lugares, poucos, que recebem a gente bêbado de mijar nas calças, desde que possam nos revistar na porta e livrar-nos de toda bebida alcoólica. Assim que você passa aos cuidados deles, eles o põem numa sala especial trancada com o restante dos caras do fundo. Você não pode dar uma escapadinha para arranjar outra bebida se mudar de idéia nem assustar o pessoal que está menos empapado que você, se ficar com delirium tremens e começar a ver bichos saindo das paredes. Não se permite a entrada de mulheres na sala trancada; elas têm chances demais de serem estupradas. Este é apenas um dos motivos de morrerem mais mulheres desabrigadas nas ruas do que homens desabrigados. É o que dizia Lupe.
— Lupe? — perguntou Eddie.
— Já vou chegar nele, mas por ora basta dizer que era o arquiteto da política do álcool no Lar. Ali, eles mantinham trancada a bebida, não os bêbados. A gente conseguia um trago se precisasse, e se prometesse ficar quieto. Mais um tranqüilizante. Não é um procedimento médico recomendado... não tenho nem certeza de que era legal, pois nem Lupe nem Rowan Magruder eram médicos... mas parecia funcionar. Eu trabalhei de graça durante os dois primeiros dias, e depois Rowan me chamou ao seu escritório, que era mais ou menos do tamanho de um armário de vassouras. Ele me perguntou se eu era alcoólatra. Respondi que não. Ele me perguntou se estava fugindo de alguma coisa. Respondi que sim, de mim mesmo. Ele me perguntou se eu queria trabalhar, e desatei a chorar. Ele tomou isso como um sim.
“Passei os nove meses seguintes, até junho de 1976, trabalhando no Lar. Fazia as camas, preparava a sopa na cozinha. Ia aos pedidos de levantamento de fundos com Lupe ou às vezes com Rowan, levava bêbados a reuniões dos AA na caminhonete do Lar, dava tragos aos caras que tremiam horrivelmente até para segurar o copo sozinho. Assumi a contabilidade porque era melhor nisso do que Magruder ou Lupe, ou qualquer dos outros caras que trabalhavam lá. Não foram os dias mais felizes de minha vida, eu jamais chegaria a tanto, e o gosto do sangue de Barlow nunca deixou minha boca, mas foram dias de graça. Eu não pensava muito. Só mantinha a cabeça baixa e fazia tudo que me mandavam fazer. Comecei a me curar.
“Em algum momento durante aquele inverno, percebi que tinha começado a mudar. Foi como se tivesse desenvolvido uma espécie de sexto sentido. Às vezes ouvia repiques de um carrilhão. Horrível, mas ao mesmo tempo agradável. Às vezes, andando na rua, as coisas começavam a parecer escuras mesmo que o sol brilhasse. Lembro que olhava para ver se minha sombra continuava lá. Eu seria positivo se não estivesse, mas sempre estava.”
O ka-tet de Roland trocou um olhar.
— Às vezes havia um elemento olfativo nessas fugas. Era um cheiro amargo, como cebola forte misturada com metal quente. Passei a achar que contraíra uma forma de epilepsia.
— Foi ver um médico? — perguntou Susannah.
— Não fui. Temia o que mais ele pudesse encontrar. Um tumor no cérebro parecia o mais provável. O que fazia era manter a cabeça baixa e continuar trabalhando. Então, uma noite, fui ver um filme na Times Square. Era uma reapresentação de dois faroestes de Clint Eastwood. Que eles chamavam de faroestes spaghetti?
— Ié — disse Eddie.
— Comecei a ouvir os sinos. O carrilhão. E a sentir aquele cheiro, cada vez mais forte. Tudo isso me chegava pela frente e à esquerda. Olhei para ali e vi dois homens, um mais velho, o outro mais jovem. Foi bastante fácil localizá-los, porque três quartos da sala estavam vazios. O mais moço inclinava-se para perto do mais velho, que nunca tirava os olhos da tela, mas passava o braço em volta dos ombros do mais moço. Se eu tivesse visto isso em qualquer outra noite, teria sido muito positivo quanto ao que estava acontecendo, mas não naquela noite. Observei. E comecei a ver um tipo de luz azul-escura, primeiro em volta do mais moço, depois em volta dos dois. Não era como nenhuma luz que eu tinha visto antes. Era como a escuridão que às vezes eu sentia na rua, quando os sinos começavam a repicar em minha cabeça. Como o cheiro. Eu sabia que aquelas coisas não estavam ali, e no entanto estavam. E compreendi. Não aceitei a princípio, isso veio depois, mas compreendi. O cara mais moço era um vampiro.
Ele se interrompeu, pensando em como contar sua história. Em como apresentá-la.
— Acredito que haja três tipos de vampiros em ação no nosso mundo. Eu os chamo de Tipo Um, Dois e Três. Os Tipo Um são raros. Barlow era Tipo Um. Vivem vidas muito longas, e podem passar períodos prolongados, cinqüenta anos, uma centena, talvez duas centenas, em profunda hibernação. Quando entram em atividade, são capazes de fazer novos vampiros, os que chamamos de não mortos. Os não mortos são Tipo Dois. Eles também são capazes de fazer novos vampiros, mas não astutos. — Olhou para Eddie e Susannah. — Vocês viram A Noite dos Mortos-vivos?
Susannah fez que não com a cabeça, Eddie que sim.
— Os não mortos nesse filme são zumbis, de cérebro totalmente morto. Os vampiros Tipo Dois são mais inteligentes que esses, mas não muito. Não podem sair durante as horas de luz diurna. Se tentam, ficam cegos, sofrem graves queimaduras ou são mortos. Embora eu não saiba com certeza, acho que a duração de suas vidas é em geral curta. Não porque a mudança de vivo e humano para não morto e vampiro encurta a vida, mas porque a existência dos Tipos Dois é extremamente perigosa.
“Na maioria dos casos, isto é o que acredito, não o que sei, os vampiros Tipo Dois criam outro tipo de vampiros Tipo Dois, numa área relativamente pequena. A essa altura da doença, e isto é uma doença, o vampiro Tipo Um, o vampiro rei, já se mandou. Em ’Salem’s Lot, eles na verdade mataram o filho-da-puta, um dos que talvez fossem apenas uma dúzia no mundo todo.
“Em outros casos, os Tipos Dois criam os Tipos Três. Estes são como mosquitos. Não podem criar mais vampiros, mas podem sugar. E sugam.”
— Eles pegam Aids? — perguntou Eddie. — Quer dizer, você sabe o que é isso, certo?
— Sei, embora só tenha ouvido o termo na primavera de 1983, quando trabalhava no Abrigo Ligthtouse em Detroit e meu tempo nos Estados Unidos encurtara. Claro que sabíamos havia mais de dez anos que existia alguma coisa. Alguns na literatura médica chamavam de GRID, acrônimo em inglês para Deficiência Imunológica Relacionada a Gays. Em 1982, começaram a publicar em jornais artigos sobre uma nova doença chamada “Câncer de Gay”, e especulações de que era contagiosa. Na rua, alguns homens a chamavam de Doença das Feridas de Foda, devido às manchas que deixava. Não creio que os vampiros morram disso nem que adoeçam disso. Mas podem pegar. E passar para outros. Ah, sim. E eu tenho motivo para pensar assim. — Os lábios de Callahan tremeram, depois se firmaram.
— Quando o demônio-vampiro fez você beber seu sangue, ele lhe deu a capacidade de ver tudo isso — disse Roland.
— Deu.
— Todos eles, ou só os Três? Os pequenos?
— Os pequenos — matutou Callahan, exprimindo em seguida uma risada breve e sem graça. — Sim, eu gosto disso. Em todo caso, os Três são tudo que vi, pelo menos desde que deixei Jerusalem’s Lot. Mas claro que os Tipos Um como Barlow são mais raros, e os Tipos Dois não duram muito tempo. A própria fome deles os desgraça. São sempre vorazes. Os Tipos Três, contudo, podem sair na luz do dia. E tiram seu principal sustento da comida, assim como nós.
— Que foi que você fez naquela noite? — perguntou Susannah. — No cinema?
— Nada — disse Callahan. — Todo o meu tempo em Nova York, minha primeira vez em Nova York, não fiz nada até abril. Eu não tinha certeza, você sabe. Quer dizer, meu coração tinha, mas a cabeça se recusava a acompanhar. E o tempo todo a interferência da mais insignificante das coisas: eu era um alcoólatra a seco. Um alcoólatra também é vampiro, e essa parte de mim vinha ficando cada vez mais sedenta, enquanto o resto tentava negar minha natureza essencial. Assim, eu disse a mim mesmo que vi dois homossexuais se acariciando no cinema, nada mais que isso. Quanto ao resto — os repiques do carrilhão, o cheiro, a luz azul-escura em volta do jovem —, me convenci de que era epilepsia, ou alguma coisa remanescente do que Barlow me fizera, ou as duas coisas. E é claro que quanto a Barlow eu tinha razão. Seu sangue estava acordado dentro de mim. E via.
— Era mais que isso — disse Roland. Callahan voltou-se para ele.
— Você entrou em todash, père. Alguma coisa o chamava deste mundo. A coisa em sua igreja, eu suspeito, embora não devesse estar ali quando soube pela primeira vez dela.
— É — disse Callahan. Encarava Roland com cauteloso respeito. — Não estava. Como é que você sabe? Me diga, eu lhe peço.
Roland não lhe deu a resposta.
— Continue — disse. — Que lhe aconteceu em seguida?
— Lupe aconteceu em seguida.
9
Seu último nome era Delgado.
Roland registrou apenas um momento de surpresa ao ouvi-lo — um arregalar dos olhos —, mas Eddie e Susannah conheciam o pistoleiro bem o bastante para entender que mesmo isso era extraordinário. Ao mesmo tempo, haviam-se acostumado a essas coincidências que talvez pudessem não ser coincidências, que cada uma era o clique de alguma incrível rodinha numa engrenagem.
Lupe Delgado tinha 32 anos, alcoólatra já quase — um dia de cada vez — há cinco anos longe da bebida, e trabalhava no Lar desde 1974. Magruder fundara a instituição, mas foi Lupe Delgado quem a investiu de vida e finalidades reais. Durante o dia, fazia parte da equipe de manutenção no Hotel Plaza, na Quinta Avenida. A noite, trabalhava no abrigo. Ajudara a elaborar a política “molhada” do Lar, e foi a primeira pessoa a cumprimentar Callahan quando ele entrou.
— Eu estava em Nova York pouco mais de um ano naquela primeira vez — disse Callahan —, mas em março de 1976 eu me...
Fez uma pausa, lutando para dizer o que todos três entenderam pelo olhar em seu rosto. Ficara com o rosto todo enrubescido, a não ser onde lhe cortava a cicatriz, que parecia emanar um brilho branco quase sobrenatural em comparação.
— Ah, tudo bem. Eu imagino que vocês diriam que em março eu me apaixonei por ele. Isto me torna um veado? Uma bicha? Não sei. Dizem que todos nós somos, não dizem? Alguns são mesmo, de qualquer modo. E por que não? A cada mês ou dois parecia haver mais uma matéria no jornal sobre um padre com uma queda por meter a mão pelas batas dos sacristãos acima. Quanto a mim, não tenho motivo algum para me ver como bicha. Deus sabe que eu não era imune a uma virada de perna de mulher bonita, freira ou não, e jamais passou por minha mente molestar os sacristãos. Nem nunca existiu nada de físico entre mim e Lupe. Mas eu o amava, e não falo só de sua mente, de sua dedicação ou de suas ambições para com o Lar. E tampouco só porque ele tinha escolhido fazer seu verdadeiro trabalho entre os pobres, como Cristo. Havia uma atração física.
Callahan fez uma pausa, lutou, e então desabafou:
Deus do céu, ele era lindo. Lindo!
— Que aconteceu com ele? — perguntou Roland.
— Chegou numa noite de neve em fins de março. A casa estava cheia, e os nativos agitados. Já tinha ocorrido uma briga de socos, e ainda nos refazíamos disso, pondo tudo em ordem. Um cara começou a ter um ataque violento de delirium tremens, e Rowan Magruder o levou para os fundos, em seu escritório, dando-lhe café com um pouco de uísque. Como acho que lhes contei, não tínhamos trancafiamento no Lar. Era hora do jantar, já passara meia hora, na verdade, e três dos voluntários não haviam chegado por causa do tempo. O rádio estava ligado e duas mulheres dançavam. “Passando o tempo no zoológico”, dizia Lupe.
“Começava a tirar meu paletó, encaminhando-me para a cozinha, um cara chamado Frank Spinelli me deteve, queria saber sobre uma carta de recomendação que eu lhe tinha prometido... e também uma mulher, Lisa alguma coisa, que queria ajuda com um dos passos dos AA: ‘Fiz uma lista dos que nós prejudicávamos’... mais um rapaz que queria ajuda com um formulário para se candidatar a um emprego, sabia ler mas não escrever... alguma coisa começou a queimar no fogão... uma confusão total. E eu gostava disso. Do jeito como envolvia a gente num redemoinho e nos arrastava a toda junto. Mas no meio de tudo isso, parei. Os sinos deixaram de tocar e os únicos cheiros eram o bodum dos bêbados e a comida queimando... mas aquela luz envolvia o pescoço de Lupe como um colarinho. E vi marcas ali. Só pequeninas. Não mais que picadas, na verdade.
“Parei, e devo ter cambaleado, porque Lupe avançou correndo pra mim. E então o senti, apenas de leve: cebola forte e metal quente. Também devo ter apagado por alguns segundos, porque de repente os dois estávamos no canto perto do gabinete de inscrição, onde guardávamos o material dos AA, e ele me perguntava quando eu havia comido a última vez. Sabia que às vezes eu esquecia de fazer isso.
“O cheiro desapareceu. O brilho azul em volta de seu pescoço se foi. E aquelas picadas, onde alguma coisa o mordera, também haviam sumido. A não ser que o vampiro fosse um verdadeiro beberrão, as marcas logo sumiam. Mas eu sabia. Não era nada bom perguntar a ele com quem havia estado, ou quando e onde. Os vampiros, mesmo os Tipo Três — sobretudo os Tipo Três, talvez —, têm seus macetes protetores. As sanguessugas lacustres segregam uma enzima na saliva que mantém o sangue fluindo enquanto se alimentam. Também anestesia a pele; assim, a não ser que você esteja vendo mesmo a coisa ali, não sabe o que está acontecendo. Com esses vampiros Tipo Três, é como se eles transportassem um tipo de amnésia seletiva, de curto prazo, na saliva.
“Eu apaguei de algum modo. Disse a ele que apenas me sentira tonto por um ou dois segundos, botei a culpa na saída brusca do frio para todo aquele barulho, luz e calor lá dentro. Lupe aceitou, mas me disse que eu tinha de ir com calma. ‘Você é valioso demais para o perdermos, Don’, disse, e então me beijou. Aqui.”
Callahan tocou o lado direito do rosto com a mão direita cicatrizada.
— Portanto acho que menti quando disse que não havia nada físico entre nós, não? Houve esse beijo. Ainda me lembro exatamente da sensação. Até da leve espetada da barba fina por fazer em seu lábio superior... aqui.
— Eu sinto muitíssimo por você — disse Susannah.
— Obrigado, minha cara — disse ele. — Eu me pergunto se sabe o que isso significa. Como é maravilhoso receber condolências de alguém do seu próprio mundo. É como ser um náufrago e receber notícias de casa. Ou água doce de uma fonte após anos da coisa engarrafada rançosa. — Estendeu as mãos, tomou a dela nas suas duas. Para Eddie, alguma coisa naquele sorriso pareceu forçada, ou até falsa, e teve uma repentina e horrível idéia. E se père Callahan estivesse sentindo naquele exato momento o cheiro misturado de cebola amarga e metal quente? E vendo um brilho azul, não em volta do pescoço de Susannah como uma gola, mas em volta da barriga como um cinto?
Eddie olhou para Roland, mas não veio ajuda alguma dali. A face do pistoleiro não tinha expressão.
— Ele tinha Aids, não tinha? — perguntou Eddie. — Algum vampiro Tipo Três gay mordeu seu amigo e passou isso pra ele.
— Gay — disse Callahan. — Você pretende mesmo me dizer que esta palavra imbecil realmente... — Sua voz se extinguiu, ele balançando a cabeça.
— É isso aí — disse Eddie. — O Red Sox ainda não tinha ganhado a Série e os homossexuais são gays.
— Eddie! — ralhou Susannah.
— Qual é? — defendeu-se Eddie — Acha que é fácil ser o último a sair de Nova York e esquecer de apagar as luzes? Porque não é, não. E ouça bem, eu mesmo estou me sentindo cada vez mais careta. — Virou-se para Callahan: — De qualquer modo, foi o que aconteceu, não?
— Acho que sim. Você precisa lembrar que eu também não sabia grande coisa naquela época, e vinha negando e reprimindo o que sabia de fato. Com grande vigor, como dizia o presidente Kennedy. Vi o primeiro, o primeiro “pequeno”, naquele cinema na semana entre o Natal e o Ano-novo de 1975. — Deu uma risada breve, mais um latido. — E agora, repensando o passado, aquele cinema era chamado Gaiety. Não é surpreendente? — Fez uma pausa, examinando os rostos com alguma perplexidade. — Não é. Vocês com certeza não estão nada surpresos.
— A coincidência foi cancelada, querido — disse Susannah. — O que vivemos nestes dias é mais como a versão da realidade de Charles Dickens.
— Não estou entendendo.
— Não precisa, doçu... Continue. Conte sua história.
O Velho levou um momento para encontrar o fio interrompido e continuou.
— Eu vi o meu primeiro Tipo Três em fins de dezembro de 1975. Naquela noite, mais ou menos três meses depois que vi a luz azul em volta do pescoço de Lupe, eu encontraria mais meia dúzia. Só um deles caindo sobre a presa. Foi andando numa viela em East Village com outro cara. Ele, o vampiro, estava em pé assim. — Callahan levantou-se e demonstrou, braços abertos, palmas apoiadas numa parede invisível. — O outro, a vítima, parado entre seus braços apoiados, olhava-o de frente. Poderiam estar conversando. Poderiam estar se beijando. Mas eu sabia, eu sabia, que não era nenhuma das duas coisas.
“Os outros... vi dois em restaurantes, sozinhos. Aquele brilho se espalhava pelas mãos pelos e pelos rostos de todos — manchava o contorno dos lábios como... como suco de mirtilo elétrico —, e o cheiro de cebola queimada pairava à volta deles como um perfume.” Callahan deu um breve sorriso. “Me impressiona como cada descrição que tento fazer tem uma espécie de sorriso enterrado. Porque não estou apenas tentando descrevê-los, sabem, mas tentando entendê-los. Ainda continuo tentando entendê-los. Compreender como poderia existir aquele outro mundo, aquele mundo secreto, ali o tempo todo, bem ao lado do que eu sempre conheci.”
Roland tem razão, pensou Eddie. Isso é todash. Tem de ser. Ele não sabe, mas é. Será que isso o torna um de nós? Parte de nosso ka-tet?
— Vi um na fila no Banco Marine Midland, onde o Lar fazia suas transações financeiras — disse Callahan. — No meio do dia. Eu estava na fila do depósito, uma mulher na do saque. Aquela luz a envolvia toda. Ela me viu olhando-a e sorriu. Contato visual destemido. De flerte. — Fez uma pausa. — Sensual.
— Você os reconhecia por causa do sangue do demônio em você — disse Roland. — Eles o reconheciam?
— Não — respondeu de pronto Callahan. — Se houvessem conseguido me ver, me isolar, minha vida não valeria um centavo. Embora eles passassem a saber de mim. Mas isto foi depois.
“O que quero frisar é que sabia que eles estavam ali. E quando vi o que aconteceu com Lupe, soube o que o havia possuído. Eles também o vêem. Sentem o cheiro. Assim como na certa ouvem os repiques do carrilhão. Suas vítimas ficam marcadas, e depois disso mais outros tendem a chegar, como besouros a uma luz. Ou cachorros, todos decididos a mijar no mesmo poste telefônico.
“Tenho certeza de que aquela noite em março foi a primeira vez que Lupe foi mordido. Nunca vi aquele brilho em volta dele antes... nem as marcas no lado do pescoço, que não pareciam mais que dois talhozinhos ao fazer a barba. Mas ele foi mordido repetidas vezes depois. Tinha a ver com a natureza do trabalho que fazíamos, trabalho com pessoas em trânsito. Talvez beber sangue pingado de álcool seja o grande barato deles. Quem sabe?
“De qualquer modo, foi por causa de Lupe que cometi meu primeiro assassinato. O primeiro de muitos. Este foi em abril...”