A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 30 de 43

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

Capítulo 2 · A Dogan, Parte Um

 

 

A Dogan, Parte Um

 

1

Quando Roland e Eddie entraram na Nossa Senhora da Serenidade na manhã seguinte, a luz do dia era apenas um rumor distante no horizonte nordeste. Eddie iluminou-lhes o caminho pela nave central com uma lanterna, os lábios bem apertados um no outro. A coisa que haviam ido buscar zumbia. Um zumbido sonolento, mas ele detestava o som assim mesmo. A igreja em si era uma aberração. Vazia, parecia de algum modo grande demais. Eddie esperava o tempo todo ver figuras fantasmagóricas (ou talvez um complemento dos mortos errantes) sentadas nos bancos e olhando-os com desaprovação do além.

Mas o zumbido era pior.

Quando chegaram à frente, Roland abriu a bolsa e tirou a sacola de boliche que Jake guardara no saco de dormir até a noite anterior. O pistoleiro estendeu-a por um momento e os dois leram o que tinha impresso no lado: NADA ALÉM DE PONTOS NAS PISTAS DO MUNDO MÉDIO.

— Nem uma palavra até eu lhe dizer tudo bem — sussurrou Roland. — Tá ouvindo?

— Estou.

Roland apertou o polegar na ranhura entre duas das tábuas do piso e o buraco oculto no púlpito do pregador se abriu de um salto. Ele afastou a tampa para o lado. Eddie vira certa vez na TV um filme sobre caras livrando-se de explosivos eletrizados durante a blitz de Londres — UXB , chamava-se —, e os movimentos de Roland agora lembravam fortemente aquele filme em sua mente. E por que não? Se estavam certos sobre o que se encontrava naquele esconderijo — e Eddie sabia que estavam —, então aquilo era uma bomba não explodida.

Roland dobrou para trás a sobrepeliz de linho branco, expondo a caixa. O zumbido elevou-se. A respiração de Eddie parou na garganta. Ele sentiu a pele em todo o corpo ficar fria. Em algum lugar perto, um monstro de quase inimaginável malignidade entreabrira um olho adormecido.

O zumbido voltou ao tom sonolento anterior, e Eddie tornou a respirar.

Roland entregou-lhe o saco de boliche indicando-lhe com a cabeça que o segurasse aberto. Com receio (parte dele queria sussurrar no ouvido de Roland que deviam esquecer a coisa toda), Eddie fez o que lhe foi pedido. Roland retirou a caixa, e mais uma vez o zumbido elevou-se. No rico, embora limitado, brilho da lanterna Eddie viu suor na testa do pistoleiro. Sentia-o na própria. Se o Treze Preto acordasse e os lançasse para algum limbo preto...

Eu não vou. Lutarei para ficar com Susannah.

Claro que sim. Mas mesmo assim ficou aliviado quando Roland passou a caixa de pau-ferro elaboradamente esculpida para a estranha sacola metálica que haviam encontrado no terreno baldio. O zumbido não desapareceu de todo, mas reduziu-se a um mal audível som monocórdico. E quando Roland puxou com toda a delicadeza a tira corrediça em volta da parte superior da sacola, o som monocórdico tornou-se um sussurro distante. Igual ao do ouvido encostado numa concha marinha.

Eddie desenhou o sinal-da-cruz diante de si. Com um leve sorriso, Roland fez o mesmo.

Fora da igreja, o horizonte nordeste clareara apreciavelmente — haveria verdadeira luz do dia, afinal, parecia.

— Roland.

O pistoleiro virou-se para ele, sobrancelhas erguidas. O punho esquerdo estava fechado em volta da garganta da sacola; ele parecia não disposto a confiar o peso da caixa à alça corrediça, por mais resistente que fosse.

— Se estávamos todash quando encontramos esta sacola, como poderíamos tê-la pegado?

Roland pensou nisso. Então respondeu:

— Talvez a sacola também esteja todash.

— Ainda?

Roland assentiu.

— Sim, acho que sim. Ainda.

— Ah. — Eddie pensou nisso. — É fantasmagórico.

— Mudando de idéia a respeito de visitar Nova York, Eddie?

Ele fez que não com a cabeça, embora estivesse apavorado. Provavelmente mais apavorado do que nunca, desde que ficou em pé na passagem central do Vagão do Baronato para propor uma adivinhação a Blaine.

 

2

Às dez horas da manhã, quando se achavam na metade do caminho que levava à Gruta da Porta (É mais acima, dissera Henchick, e assim fora, e assim continuava sendo), estava extraordinariamente quente. Eddie parou, enxugou a nuca com seu lenço grande e contemplou os arroios que serpeavam embaixo ao norte. Aqui e ali, via buracos pretos, escancarados, e perguntou a Roland se eram as minas de granada. O pistoleiro disse que eram.

— E qual delas você tem em mente para a garotada? Dá pra vermos daqui?

— Na verdade, dá. — Roland sacou o único revólver que usava e apontou-o. — Olhe acima da mira.

Eddie olhou e viu uma profunda depressão na forma de um S duplo denteado. Sombras aveludadas enchiam-na até a borda; ele imaginou que devia faltar apenas meia hora para o meio-dia quando o sol atingisse o fundo. Mais longe ao norte, parecia não haver saída contra uma maciça encosta de rochedo. Eddie imaginou que a entrada da mina ficasse ali, mas era muito escuro para distinguir. A sudeste, aquele arroio abria-se numa pista de terra que serpeava o caminho de volta à estrada do Leste. Além desta, viam-se campos estendendo-se encosta abaixo até plantações de arroz esmaecidas, mas ainda verdes.

— Me faz pensar na história que você nos contou — disse Eddie. — Desfiladeiro da Flecha.

— Claro que faz.

— Mas sem ninguém pra fazer o trabalho sujo.

— É — concordou Roland. — Sem ninguém.

— Me diga a verdade: você vai mesmo enfiar a garotada dessa cidade numa mina na ponta de um arroio sem saída

— Não.

— O pessoal acha que você... que nós pretendemos fazer isso. Até as lançadoras de disco acham.

— Eu sei que acham — disse Roland. — Quero que achem.

— Por quê?

— Porque não creio que haja nada de sobrenatural na forma como os Lobos encontram as crianças. Após ouvir a história do grand-père Jaffords. Aliás, acho que não há nada de sobrenatural nos Lobos. Não, há um traidor neste depósito de milho. Alguém delata às forças do Trovão.

— Alguém diferente de cada vez, quer dizer. A cada 23 ou 24 anos.

— É.

— Quem faria isso? — perguntou Eddie. — Quem poderia fazer isso?

— Não tenho certeza, mas tenho uma idéia.

— Took? Um tipo de coisa legada, de pai pra filho?

— Se já descansou, Eddie, acho melhor nos apressarmos.

— Overholser? Talvez aquele tal Telford, o que se parece com um caubói de TV?

Roland passou por ele sem falar, as botas novas moendo seixos e lascas de rocha dispersos. Da mão direita boa a bolsa rosa balançava para a frente e para trás. A coisa dentro continuava sussurrando seus desagradáveis segredos.

— Loquaz como sempre, bom pra você — disse Eddie, e seguiu-o.

 

3

A primeira voz que se elevou das profundezas da gruta pertencia ao grande sábio e ilustre drogado.

— Ora, veja só a bichinha! — gemeu Henry. A Eddie pareceu o cúmplice morto de Ebenezer Scrooge, em Conto de Natal, engraçado e assustado ao mesmo tempo. — A bichinha acha que vai voltar pra Nuui-Iorqui? Você vai parar num lugar muito mais longe se tentar, mano. Melhor se agachar onde está, fazendo apenas seus entalhezinhos, sendo um bom homo...

O irmão morto riu. O vivo arrepiou-se.

— Eddie? — perguntou Roland.

— Ouça seu irmão, Eddie! — gritou a mãe, da garganta escura e inclinada da gruta. No piso da rocha, pequenos ossos brilhavam espalhados. — Ele abriu mão da vida dele por você, da vida toda, o mínimo que você podia fazer é ouvi-lo!

— Eddie, você está bem?

Agora chegava a voz de Csaba Drabnik, conhecido na turma de Eddie como o Porra-Louca húngaro. Csaba mandava Eddie dar-lhe um cigarro, senão ele arriava a porra da calça de Eddie, que desviou com esforço a atenção daquela tagarelice assustadora, mas fascinante.

— Sim — disse. — Acho que sim.

— As vozes estão vindo de sua própria cabeça. A gruta de algum modo as encontra e amplifica. Transmite. É meio angustiante, eu sei, mas sem sentido.

— Por que deixou que eles me matassem, maninho? — soluçou Henry. — Fiquei o tempo todo achando que você ia voltar, mas nunca voltou!

— Sem sentido — disse Eddie. — Tudo bem, entendi. Que fazemos agora?

— Segundo as duas histórias que ouvi deste lugar, a de Callahan e a de Henchick, a porta se abrirá quando eu abrir a caixa.

Eddie riu nervosamente.

— Não quero nem que tire a caixa da sacola. Que tal isso como covardia?

— Se você mudou de idéia...?

Eddie abanava a cabeça.

— Não. Eu quero atravessar com ela. — Disparou um sorriso súbito, vivido. — Não está temendo que eu vá tentar conseguir drogas ilegalmente, está? Encontrar o cara e ficar doidão?

Do fundo da caverna, Henry exultou:

— É Branca da China, maninho! Aqueles crioulos vendem a melhor!

— De jeito nenhum — disse Roland. — Eu temo muitas coisas, mas você retornar a seus antigos hábitos não é uma delas.

— Ótimo. — Eddie avançou um pouco mais para a gruta, olhando a porta suspensa no ar. Com exceção dos hieróglifos na frente e a maçaneta de cristal com a rosa gravada em água-forte, parecia idêntica àquelas na praia. — Se a gente contorná-la...?

— Se a gente contorná-la, a porta desaparece — disse Roland. — Há um maldito de um precipício... até Na’ar, pelo que sei. Eu tomaria cuidado, se fosse você.

— Bom conselho, e Eddie Veloz agradece.

Experimentou a maçaneta de cristal e descobriu que não girava para nenhum dos lados. Também esperara isso. Recuou um passo.

Roland disse:

— Você precisa pensar em Nova York. Na Segunda Avenida, em particular, eu acho. E no tempo. No ano de 1977.

— Como é que a gente pensa num ano?

Quando Roland falou, sua voz traiu um toque de impaciência.

— Pense no dia em que você e Jake seguiram o eu do Jake anterior, imagino.

Eddie começou a dizer que esse era o dia errado, antes demais, e fechou a boca. Se estivessem certos quanto às regras, ele não poderia voltar àquele dia, não todash, e tampouco em carne e osso. Se estivessem certos, o tempo de lá era de algum modo atrelado ao tempo dali, apenas correndo um pouco mais rápido. Se estivessem certos quanto às regras... se houvesse regras...

Bem, por que você simplesmente não vai e vê?

— Eddie? Quer que eu tente hipnotizar você? — Roland tirara uma concha do cinturão. — Pode fazer você ver o passado com mais clareza.

— Não, acho melhor eu fazer isso em meu estado normal e de olhos bem abertos.

Abriu e fechou as mãos várias vezes, dando profundas inspiradas e expiradas ao fazê-lo. O coração não batia especialmente rápido — pelo contrário, batia devagar —, mas cada batida parecia causar-lhe calafrio da cabeça aos pés. Mãe do céu, tudo isso poderia ser tão mais fácil se houvesse alguns controles para a gente acionar, como a Máquina da Volta do Professor Peabody ou naquele filme sobre os Morlocks!

— Ei, como estou, bem? — perguntou a Roland. — Quer dizer, se eu surgir na Segunda Avenida ao meio-dia, quanta atenção vou atrair?

— Se aparecer diante de pessoas — respondeu Roland —, provavelmente muita. Aconselho-o a ignorar qualquer um que queira conversar com você sobre o assunto e saia logo da área.

— Isto eu sei. Quero dizer como estou em termos de vestuário?

Roland deu um pequeno encolher de ombros.

— Eu não sei, Eddie. É a sua cidade, não a minha.

Eddie podia ter objetado. Brooklyn era a sua cidade. Fora, em todo caso. Em geral, embora não passasse um mês sem ir a Manhattan, julgava-a quase outro país. Apesar disso, imaginou saber o que Roland queria dizer. Inventariou a si mesmo e viu uma camisa de flanela comum com botões de chifre acima de uma calça jeans azul-escura com rebites de níquel em vez dos de cobre, e uma braguilha abotoada. (Ele vira zíperes em Lud, mas nenhum desde então.) Reconhecia que passaria por normal na rua. Normal de Nova York, pelo menos. Qualquer um que lhe desse uma segunda olhada o consideraria garçom de bar/candidato a artista fazendo papel de hippie em seu dia de folga. Achava que a maioria das pessoas nem se daria ao trabalho de uma olhada, e isso era decididamente bom. Mas ele podia acrescentar uma coisa...

— Você teria um pedaço de couro cru? — pediu a Roland.

Do fundo da gruta, a voz do Sr. Tubther, seu professor da quinta série, gritou com lúgubre intensidade.

— Você tinha potencial! Era um ótimo aluno, e veja no que se transformou! Por que deixou seu irmão estragá-lo?

Ao que Henry respondeu, em soluçante revolta:

— Ele me deixou morrer! Ele me matou!

Roland retirou sua bolsa do ombro, botou-a no chão na boca da gruta, ao lado do saco rosa, abriu-a, remexeu lá dentro. Eddie não fazia a mínima idéia de quantas coisas havia ali; só sabia que nunca vira o fundo dela. O pistoleiro acabou tirando o que Eddie pedira e estendeu-o.

Enquanto Eddie prendia o cabelo atrás com a tira de couro cru (achou que rematava bem satisfatoriamente seu visual hippie-artístico), Roland retirou o que chamava de seu embornal, abriu-o e começou a esvaziá-lo de seu conteúdo: um saco quase vazio do tabaco que Callahan lhe dera, vários tipos de moedas e notas, um conjunto de costura, a caneca colada que transformara numa bússola tosca não longe da clareira de Shardik, um velho recorte de mapa e o mais novo que os irmãos Tavery haviam desenhado. Quando a bolsa ficou vazia, ele tirou o grande revólver com o punho de sândalo do coldre na coxa esquerda. Girou o cilindro, conferiu as balas e encaixou mais uma vez o cilindro. Depois botou a arma no embornal, apertou bem as tiras e amarrou-as com um nó que se soltava com um único puxão. Entregou o saco a Eddie pela alça. A princípio, Eddie não quis pegá-la.

— Naão, cara, este é seu.

— Nas duas últimas semanas, você usou tanto quanto eu. Talvez mais.

—É, mas é de Nova York que estamos falando, Roland. Em Nova York, todo mundo rouba.

— Não vão roubá-la de você. Pegue a arma.

Eddie encarou Roland dentro dos olhos por um momento, depois pegou o embornal e pendurou-o no ombro.

— Você teve um pressentimento.

— Um palpite, sim.

— Ka em ação?

Roland deu de ombros.

— Está sempre em ação.

— Tudo bem — disse Eddie. — E Roland... se eu não voltar, cuide de Suze.

— Sua tarefa é fazer com que eu não tenha de fazer isso.

Não, pensou Eddie. Minha tarefa é proteger a rosa.

Virou-se para a porta. Embora tivesse mais um milhão de perguntas a fazer, Roland tinha razão, o tempo de fazê-las terminara.

— Eddie, se você realmente não quiser...

— Não. Eu quero. — Ergueu a mão esquerda e o polegar. — Quando me vir fazer isto, abra a caixa.

— Está bem.

Roland falando de trás dele. Porque agora eram apenas Eddie e a porta. A porta com DESCONHECIDA escrita em alguma linguagem estranha e adorável. Uma vez lera um romance intitulado A Volta para o Verão, de... quem? Um dos caras de ficção científica que ele vivia levando da livraria para casa, um de seus antigos constantes, perfeitos para as longas tardes das férias de verão. Murray Leinster, Poul Anderson, Gordon Dickson, Isaac Asimov, Harlan Ellison... Robert Heinlein. Achava que fora Heinlein quem escreverão Volta para o Verão. Henry sempre espinafrando-o pelos livros que levava para casa, chamando-o de bichinha entalhadora, traça de entalhe, perguntando-lhe se conseguia ler e esporrar ao mesmo tempo, querendo saber como ele conseguia ficar naquela fodida imobilidade por tanto tempo com o nariz enfiado em alguma merda sobre foguetes e máquinas do tempo. Henry mais velho que ele. Henry coberto de espinhas sempre reluzentes com Noxzema e Stri-Dex. Henry se aprontando ir para o Exército. Eddie mais moço. Eddie levando livros da biblioteca para casa. Eddie com 13 anos, quase da idade de Jake agora. É 1977, ele tem 13 anos, está na Segunda Avenida e os táxis são amarelo brilhante no sol. Um jovem negro com fones de cabeça de um walkman passou pelo Chew Chew Mama’s, Eddie o vê, sabe que está ouvindo Elton John a cantar — quem mais pode ser? — “Alguém Salvou Minha Vida Esta Noite”. A calçada apinhada de gente. É fim de tarde e as pessoas voltam para casa depois de mais um dia nos arroios de aço de Calla Nova York, onde cultivam dinheiro em vez de arroz, permitam-me dizer, de primeira qualidade. Mulheres que parecem amavelmente estranhas em conjuntos de saia e paletó caros e tênis; os sapatos de salto alto nas pastas porque findou o trabalho do dia e elas vão para casa. Todo mundo parece sorrir porque a luz é muito forte e o ar muito quente, é verão na cidade e em algum lugar há o barulho de uma britadeira, como naquela antiga música “Lovin’ Spoonful”. Diante dele, uma porta para o verão de 77, os táxis abocanhando um dólar e 25 centavos na bandeirada e trinta centavos a cada 500 metros depois, era menos antes e será mais depois, mas trata-se de agora, o ponto dançante de agora. O ônibus espacial com a professora a bordo não explodiu. John Lennon continua vivo, embora não por muito mais tempo se não parar de chafurdar naquela perversa heroína, aquela Branca da China. Quanto a Eddie Dean, Edward Cantor Dean, nada sabe de heroína. Alguns cigarros são seu único vício (além de tentar tocar uma punheta, no que não será bem-sucedido durante quase mais um ano). Ele tem 13 anos. É 1977 e ele tem exatamente quatro pêlos no peito, conta-os religiosamente toda manhã, à espera do número cinco. É o verão após o Verão dos Navios Altos. É um fim de tarde do mês de junho e ele ouve uma melodia feliz. Vem dos alto-falantes acima da porta de entrada da loja de discos, é Mungo Jerry cantando “In the Summertime, e...

De repente ficou tudo real para ele, ou tão real quanto julgava que precisava ser. Eddie ergueu a mão esquerda e levantou o polegar: vamos. Atrás, Roland se sentara e retirava a caixa do saco rosa. E quando Eddie fez o sinal de OK , o pistoleiro abriu a caixa.

Os ouvidos de Eddie logo foram invadidos por um tinido de sinos docemente dissonantes. Os olhos começaram a lacrimejar. Diante dele, a porta suspensa solta abriu-se com um estalo e a gruta foi de repente iluminada por intensa luz solar. Ouviu-se o ruído de buzinas tocando e ra-ta-ta-ra-ta-ta de uma britadeira. Não muito tempo atrás ele quisera uma porta daquelas com tamanho desespero que quase matara Roland para conseguir. E agora que a tinha, morria de pavor.

Os sinos todash pareciam rasgar-lhe a cabeça. Se ouvisse aquilo muito tempo, enlouqueceria. Ande, se você vai, pensou.

Avançou um passo, os olhos cheios d’água vendo três mãos se estenderem e segurarem quatro maçanetas. Puxou a porta em sua direção e a dourada luz do sol de fim de tarde ofuscou-lhe os olhos. Sentiu cheiro de gasolina, ar quente de cidade e a loção pós-barba de alguém.

Quase não conseguindo ver nada, Eddie cruzou a porta desconhecida para o verão de um mundo do qual ele era agora excluído, o exilado.

 

4

Era a Segunda Avenida, tudo bem; ali estava a Blimpie’s, e de trás dele o alegre som daquela música de Mungo Jerry com o ritmo caribenho. Pessoas moviam-se à sua volta numa enchente — parte alta da cidade acima, parte baixa da cidade abaixo, por toda a cidade. Não prestavam atenção alguma a Eddie, em parte porque a maioria só se concentrava em sair da cidade ao cabo de mais um dia, sobretudo porque, em Nova York, não reparar nas outras pessoas era um modo de vida.

Eddie encolheu o ombro esquerdo, acomodando com mais firmeza ali a tira do saco de tropeiro de Roland, e olhou para trás. A porta de Calla Bryn Sturgis continuava lá. Via Roland sentado na boca da gruta com a caixa aberta no colo.

Aquelas porras de sinos devem estar enlouquecendo-o, pensou. E então, ainda olhando, viu o pistoleiro retirar duas balas do cinturão e enfiá-las nos ouvidos. Eddie riu. Boa decisão, cara. Pelo menos ajudava a tapar o gorjeio tênue da Interestadual 70. Se funcionou ou não, Roland ficou sozinho. Eddie tinha coisas a fazer.

Virou-se devagar no pequeno espaço da calçada e olhou mais uma vez para trás, a fim de ver se a porta virará com ele. Virará. Se era igual às outras, iria agora segui-lo a todo lugar que fosse. Mesmo que não o seguisse, Eddie não previa um problema; não pretendia ir muito longe. Também notou outra coisa: aquela sensação de escuridão latente desaparecera. Porque ele estava realmente ali, imaginou, e não apenas todash. Se houvesse mortos errantes à espreita na vizinhança, não conseguiria vê-los.

Mais uma vez ajeitando a tira do embornal acima do ombro, partiu para o Restaurante da Mente de Manhattan.

 

5

As pessoas se afastavam para o lado para ele enquanto andava, mas Eddie não tinha muita certeza de que estava realmente ali; também faziam isso quando se andava todash. Ele acabou provocando uma verdadeira colisão com um cara equilibrando não uma, mas duas pastas — o Grande Caçador de Caixões do mundo empresarial, se é que Eddie já vira algum.

— Ei, olhe por onde anda! — grasnou o Sr. Empresário quando seus ombros colidiram.

— Me desculpe, cara, me desculpe — disse Eddie. O cara tinha razão. — Escute, poderia me dizer que dia...

Mas o Sr. Empresário já se fora, em busca da coronária que na certa ia alcançá-lo por volta dos 45 ou cinqüenta anos, a julgar por seu olhar. Eddie lembrou-se do desfecho de uma velha piada de Nova York: “Perdão, senhor, pode me dizer como chego à Prefeitura, ou devo apenas ir me foder?” Desatou a rir, não pôde evitar.

Assim que recuperou o controle, retomou o passo. Na esquina da Segunda com a Cinqüenta e Quatro, viu um homem olhando uma vitrina que expunha sapatos e botas. Embora também usasse terno, parecia muito mais relaxado que aquele no qual Eddie esbarrara. Também levava apenas uma pasta, o que Eddie julgou um bom presságio.

— Perdão — disse Eddie —, mas poderia me dizer que dia é hoje?

— Quinta-feira — disse o olhador de vitrina. — Vinte e três de junho.

— De 1977?

O olhador de vitrina deu a Eddie um meio sorrisinho, ao mesmo tempo zombeteiro e cínico, mais uma sobrancelha erguida.

— Mil novecentos e setenta e sete, correto. Só será 1978 daqui a... nossa, seis meses. Pense nisso.

Eddie assentiu.

— Obrigado-sai.

— Obrigado-como?

— Nada — disse Eddie, e saiu apressado.

Só três semanas para 15 de julho, é pegar ou largar, pensou. Perto demais pra eu me sentir à vontade, porra.

Sim, mas se conseguisse convencer Calvin Tower a vender-lhe o terreno hoje, toda a questão de tempo seria discutível. Uma vez, muito tempo atrás, seu irmão se jactara para alguns amigos que seu maninho convenceria até o diabo a atear fogo em si mesmo, se realmente encasquetasse com essa idéia. Eddie esperava ainda conservar parte dessa persuasão. Fazer um negocinho com Calvin Tower, investir em alguma propriedade, depois talvez tirar meia hora de folga e aproveitar de verdade aquele bosque de Nova York um pouquinho. Comemorar. Talvez uma bebida de chocolate ou...

O fluxo dos pensamentos interrompeu-se e ele parou tão de repente que alguém bateu nele e xingou. Eddie mal sentiu o esbarrão ou ouviu a imprecação. O seda Lincoln cinza-escuro estava parado de novo ali — desta vez não na frente do hidrante de incêndio, mas duas portas adiante.

O sedã de Balazar.

Eddie recomeçou a andar. Alegrou-se de repente por Roland tê-lo convencido a levar um de seus revólveres. E por ter o revólver todo carregado.

 

6

O quadro-negro voltara à vitrina (o especial do dia era um Cozido à Nova Inglaterra, consistindo em Nathaniel Hawthorne, Henry David Thoreau e Robert Frost — para sobremesa, opção de Mary McCarthy ou Grace Metalious), mas a tabuleta pendurada na porta dizia DESCULPEM-NOS POR ESTARMOS FECHADOS. Segundo o relógio digital do banco na rua acima defronte da Torre da Power Records, eram 3hl4 da tarde. Quem fecha um estabelecimento às 3hl5 da tarde num dia de semana?

Alguém com um cliente especial, admitiu Eddie. Eis quem.

Pôs as mãos nos lados do rosto e olhou dentro do Restaurante da Mente de Manhattan. Viu a pequena mesa redonda com os livros infantis expostos. À direita, o balcão que parecia ter sido surripiado de um bar da virada do século, só que nesse dia não havia ninguém sentado ali, nem Aaron Deepneau. Embora igualmente sem ninguém na caixa registradora, Eddie julgou ler as palavras na tabuleta laranja encaixada no anteparo de vidro: NÃO HÁ LIQUIDAÇÃO.

O lugar estava vazio. Calvin Tower fora chamado a algum lugar, talvez fosse uma emergência familiar...

Ele teve uma emergência, certo, falou na cabeça de Eddie a voz fria do pistoleiro. Veio naquela autocarruagem cinza. E olhe mais uma vez o balcão, Eddie. Só que, desta vez, por que não usa os olhos em vez de deixar d luz inundá-los?

Às vezes pensava nas vozes de outras pessoas. Imaginou que muita gente fazia isso — era uma forma de mudar um pouco a perspectiva, ver as coisas de outro ângulo. Mas aquilo era como se o comprido, alto e feio falasse de verdade com ele dentro da cabeça.

Eddie olhou mais uma vez o balcão. Desta vez viu o punhado de peões de plástico de xadrez no mármore, e a caneca de café derrubada. Desta vez viu os óculos caídos no chão entre dois dos bancos, uma das lentes rachadas.

Sentiu a primeira pulsação de raiva profunda no meio da cabeça. Era embotada, mas se a experiência passada servisse de qualquer indicador, as pulsações tendiam a ficar mais rápidas e fortes, intensificando-se progressivamente. Acabariam por ofuscar o pensamento consciente, e que Deus ajudasse quem passasse ao alcance do revólver de Roland quando isso acontecesse. Perguntara uma vez ao pistoleiro se isso também acontecia com ele, e ele respondera: Acontece com todos nós. Quando Eddie abanara a cabeça e respondera que não era igual a Roland — nem ele, nem Susannah, nem Jake —, o pistoleiro nada dissera.

Tower e seus fregueses especiais tinham ido para os fundos, pensou, para aquela combinação de depósito e escritório. E desta vez conversar na certa não era o que tinham em mente. Ocorreu a Eddie a idéia de que aquele era um curso meio inovador, os cavalheiros de Balazar lembrando ao Sr. Tower que 15 de julho se aproximava, lembrando ao Sr. Tower qual seria a decisão mais prudente assim que chegasse o dia.

Quando a palavra cavalheiros cruzou a mente de Eddie, trouxe consigo outra pulsação de raiva. Era uma palavra e tanto para caras que haviam quebrado os óculos de um dono de livraria gordo e inofensivo e depois o levado para os fundos e o aterrorizado. Cavalheiros! Fodo-se-commala! Experimentou a porta da livraria. Embora trancada, a fechadura não opôs grande resistência; a porta matraqueou no umbral como um dente mole. Parado ali na porta recuada, parecendo (esperava) um cara especialmente interessado num livro que vislumbrara lá dentro, Eddie começou a aumentar a pressão na fechadura, primeiro usando a mão na maçaneta, depois pressionando o ombro contra a porta de uma maneira que esperava parecesse casual.

São 94 em cem as chances de que ninguém o esteja olhando, de qualquer modo. Aqui é Nova York, certo? Pode me dizer como chego à Prefeitura ou devo ir me foder?

Empurrou com mais força. Ainda a uma boa distância de exercer o máximo de pressão, ouviu-se um estalo e a porta girou para dentro. Eddie entrou sem hesitação, como se tivesse todo o direito do mundo de estar ali, depois tornou a fechar a porta. O trinco não a fixou. Ele pegou um exemplar de Como os Grinch Roubaram o Natal da mesa dos infantis, arrancou a última página (“Jamais gostei de como termina mesmo”, pensou), dobrou-a três vezes e enfiou-a na fenda entre a porta e o umbral. Servia para mantê-la fechada. Então olhou em volta.

O lugar estava vazio, e agora, com o sol atrás dos arranha-céus do West Side, ensombrado. Nenhum ruído...

Sim. Sim, havia. Um choro abafado do fundo da loja. Cuidado, homens trabalhando, pensou Eddie, e sentiu outra pulsação de raiva. Esta mais aguda.

Deu um puxão na tira do saco de tropeiro de Roland e dirigiu-se para a porta nos fundos, a com a inscrição SÓ FUNCIONÁRIOS. Antes de chegar lá, teve de contornar uma pilha bagunçada de brochuras e um porta-objetos em exposição virado, daqueles antiquados, giratórios, de drogaria. Calvin Tower agarrara-se a ele quando os cavalheiros de Baltazar o empurraram para a área de depósito. Eddie não vira a cena, nem precisava.

A porta nos fundos não estava trancada. Eddie retirou o revólver do embornal de tropeiro, largou o saco ao lado para não atrapalhá-lo num momento crucial. Abriu com cuidado a porta do depósito centímetro por centímetro, lembrando-se de onde ficava a mesa de Tower. Se o vissem, ele atacaria, gritando a plenos pulmões. Segundo Roland, a gente sempre gritava a plenos pulmões quando era descoberto. Talvez assustasse o inimigo por um ou dois segundos, e às vezes um ou dois segundos faziam toda a diferença do mundo.

Desta vez, não houve necessidade alguma de gritar nem de atacar. Os homens que ele procurava estavam na área do escritório, suas sombras saltavam novamente de forma grotesca na parede atrás deles. Embora Tower se achasse sentado em sua cadeira, esta não estava atrás da escrivaninha. Fora empurrada para o espaço entre os três arquivos. Sem os óculos, seu rosto agradável parecia nu. Os dois visitantes defronte dele, significando de costas para Eddie. Tower poderia tê-lo visto, mas tinha os olhos erguidos para Jack Andolini e George Biondi, concentrados apenas neles. A visão do claro terror do sujeito fez outra pulsação varar-lhe a cabeça.

Emanava do ar o cheiro característico de gasolina, cheiro que Eddie imaginou que assustaria até mesmo o mais valente dos donos de livraria, sobretudo um que presidia um império de papel. Ao lado do mais alto dos dois caras — Andolini —, ficava uma estante com a frente de vidro de um metro e meio de altura. Dentro, quatro ou cinco prateleiras de livros, todos os volumes envoltos no que pareciam capas de plástico transparente. Andolini erguia um deles de uma forma que o fazia parecer absurdamente um vendedor de TV. O mais baixo — Biondi — erguia um copo cheio de líquido âmbar quase na mesma posição. Não havia muita dúvida do que tinha dentro.

— Por favor, Sr. Andolini — disse Tower. Falou numa voz humilde, trêmula. — Por favor, é um livro muito valioso.

— Claro que é — disse Andolini. — Todos aqueles na estante são. Sei que tem um exemplar assinado de Ulisses que vale 26 mil dólares.

— É sobre o que, Jack? — perguntou George Biondi. Parecia embasbacado. — Que tipo de livro vale 26 mil paus?

— Eu não sei — disse Andolini. — Por que não nos diz, Sr. Tower? Ou posso chamar você de Cal?

— Meu Ulisses está num cofre-forte — disse Tower. — Não está à venda.

— Mas estes estão — disse Andolini. — Não estão? E vejo o número 7.500 a lápis na guarda deste. Não são 26 mil dólares, mas ainda assim o preço de um carro novo. Portanto, olhe o que vou fazer, Cal. Está ouvindo?

Eddie aproximava-se mais, e embora se esforçasse para não fazer barulho, nenhum esforço fazia para esconder-se. E apesar disso nenhum deles o viu. Seria ele assim tão imbecil quando fora daquele mundo? Assim tão vulnerável ao que nem sequer era uma emboscada propriamente dita? Imaginou que sim, e soube que não admirava que Roland a princípio o tratasse com desprezo.

— Eu... Eu estou ouvindo.

— Você tem uma coisa que o Sr. Balazar quer tão desesperadamente quanto você quer seu exemplar de Ulisses. E embora esses livros no armário de vidro estejam tecnicamente à venda, aposto que vende poucos deles, porra, porque simplesmente não suporta separar-se deles. Como não suporta separar-se daquele terreno baldio. Portanto, eis o que vai acontecer. George vai despejar gasolina neste livro com 7.500, e eu vou atear fogo nele. Depois vou pegar outro livro do seu armariozinho de tesouros e vou lhe pedir um compromisso verbal pra vender aquele terreno à Imobiliária Sombra ao meio-dia de 15 de julho. Sacou?

— Eu...

— Se me der esse compromisso verbal, nossa reunião vai acabar. Se não me der esse compromisso verbal, vou queimar o segundo livro. Depois um terceiro. Depois um quarto. Após quatro, senhor, creio que é provável que meu parceiro aqui perca a paciência.

— Está brincando — disse Biondi.

Eddie agora estava quase perto o bastante para estender a mão e tocar o Narigão, e no entanto eles não o viam.

— A essa altura, acho que vamos despejar gasolina dentro do seu armariozinho e atear fogo em todos os seus livros valio...

O movimento acabou atraindo o olhar de Jack Andolini. Olhou além do ombro esquerdo do parceiro e viu um rapaz com olhos cor de avelã encarando-o de um rosto profundamente bronzeado. O cara segurava o que parecia o maior e o mais antigo revólver de adereços teatrais. Tinha de ser um adereço.

— Quem caralho é... — começou Jack.

Antes que pudesse continuar, o rosto de Eddie Dean iluminou-se de felicidade e bom humor, uma expressão que lhe fez saltar de bonito para a terra da beleza.

— George! — gritou. O tom de alguém saudando o mais antigo e querido amigo após uma longa ausência. — George Biondi! Cara, você continua tendo o maior bico deste lado do Hudson! Bom te ver, cara!

Há uma certa fiação no animal humano que nos faz, responder a estranhos que nos chamam pelo nome. Quando o apelo convidativo é afetuoso, parecemos quase obrigados a responder na mesma moeda. Apesar da situação em que se encontravam ali, George “Narigão” Biondi virou-se, com o início de um sorriso, para a voz que o saudara com tão festiva intimidade. O sorriso na verdade ainda desabrochava quando Eddie o golpeou violentamente com a coronha do revólver de Roland. Embora os olhos de Andolini fossem aguçados, ele viu pouco mais que um borrão quando a coronha baixou três vezes, o primeiro golpe entre os olhos de Biondi, o segundo acima do olho direito e o terceiro na cavidade da têmpora direita. Os dois primeiros golpes emitiram ruídos surdos, ocos, o terceiro um estalo baixo, nauseante. Biondi tombou como um saco de correspondências, revirando os olhos a mostrar os brancos, franzindo os lábios de uma forma nervosa que o fazia parecer um bebê querendo mamar. O vidro caiu-lhe da mão frouxa, atingiu o piso de cimento, espatifou-se. O cheiro de gasolina ficou de repente muito mais forte, intenso e nauseante.

Eddie não deu ao cúmplice de Biondi tempo de reagir. Enquanto Narigão continuava se retorcendo no chão, na gasolina derramada e no vidro quebrado, Eddie avançara sobre Andolini, pressionando-o para trás.