A Torre Negra V: Lobos de Calla
O Caminho do Eld
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
1
Por volta das duas da tarde daquele dia, os dez se sentaram para o que Roland chamou de almoço de rancheiro.
— Durante as tarefas matinais, vocês olham para a frente com amor — disse aos amigos depois. — Nas da noite, olham para trás com nostalgia.
Eddie achou que ele estava brincando, mas com Roland nunca se podia ter completa certeza. O pouco humor que ele tinha era seco ao ponto da desidratação.
Não foi a melhor refeição que Eddie já tivera, o banquete servido pela velha gente de River Crossing ainda mantinha o posto de honra nesse aspecto, mas após semanas nas matas, subsistindo com os burritos do pistoleiro (e cagando duro como pacotes de excremento de coelho às vezes duas vezes por dia), era boa comida de fato. Andy serviu bifes sensacionais ao ponto e cobertos com molho de cogumelo. Acompanhados de feijão, coisas enroladas como tacos e milho assado. Eddie experimentou uma espiga e achou-a dura mas gostosa. Havia ainda a salada de repolho cru, Tian Jaffords insistia em dizer-lhes que fora feita pelas mãos de sua esposa. E também um maravilhoso pudim chamado bolo de morango. E, claro, café. Eddie calculava que eles quatro juntos haviam mandado para dentro pelo menos uns quatro litros. Até Oi bebeu um pouco. Jake serviu-lhe um pires de café escuro e forte. Oi farejou, disse: “Caffe!”, e bebeu com grande rapidez e eficiência.
Não houve conversa séria durante a refeição (“Comida e confabulação não se misturam” era apenas uma das muitas pepitinhas de sabedoria de Roland), e no entanto Eddie ficou sabendo muita coisa sobre Jaffords e sua esposa, sobretudo como se vivia a vida ali, no que Tian e Zalia chamavam de “terras de fronteira”. Esperava que Susannah (sentada ao lado de Overholser) e Jake (com o jovem em quem Eddie já pensava como o Garoto Benny) estivessem aprendendo o mesmo tanto. Teria esperado que Roland se sentasse com Callahan, mas este não se sentou com ninguém. Levou a comida para uma certa distância de todos eles, benzeu-se e comeu sozinho. E não muito. Furioso com Overholser por roubar o espetáculo ou apenas solitário por natureza? Difícil saber com tão pouco tempo, mas se alguém houvesse encostado um revólver em sua cabeça Eddie teria votado na última hipótese.
O que mais fortemente o impressionou foi como era civilizada aquela parte do mundo, cacete. Fazia Lud, com seus Grays e Pubes em guerra, parecer as ilhas Canibal numa história marítima juvenil. Aquelas pessoas tinham estradas, agentes da lei e um sistema de governo que fazia Eddie lembrar-se das assembléias da Nova Inglaterra. Havia um Salão de Assembléia Municipal e uma pena que parecia ser algum tipo de símbolo de autoridade. Se se queria convocar uma assembléia, tinha-se de fazer circular a pena. Se um número suficiente de pessoas a tocasse quando chegasse ao seu lugar, havia uma reunião. Se não, não havia. Mandavam-se duas pessoas levar a pena, e a contagem delas era aceita sem questionar. Eddie duvidava que isso funcionasse em Nova York, mas para um lugar como aquele parecia uma maneira ótima de dirigir tudo.
Havia pelo menos mais setenta outras Callas, que se estendiam num leve arco ao norte e ao sul de Calla Bryn Sturgis. Calla Bryn Lockwood ao sul e Calla Amity ao norte eram também fazendas e ranchos pecuários. Também sofriam as periódicas depredações dos Lobos. Mais ao sul ficavam Calla Bryn Bouse e Calla Staffel, contendo vastos tratos de terra agrícola, e Jaffords dizia que também elas sofriam com os Lobos... pelo menos ele achava que sim. Mais ao norte, Calla Sen Pinder e Calla Sen Chre, de fazendas e ovinos.
— Fazendas de bom tamanho — disse Tian —, mas vão ficando menores quando se avança para o norte, você sabe, até chegarmos a terras onde cai neve... pelo que me dizem; eu nunca vi... e faz-se um queijo maravilhoso.
— Os do norte usam tamancos de madeira, ou assim dizem — explicou Zalia a Eddie, parecendo meio nostálgica. Ela própria usava uns tamancões velhos chamados botas de praia.
As pessoas das Callas viajavam pouco, mas as estradas estavam lá se quisessem viajar, e o comércio era ativo. Além delas, havia o Whye, também chamado de Grande rio, que corria ao sul de Calla Bryn Sturgis até os mares do Sul, ou assim diziam. Havia Callas de mineração e Callas de manufatura (onde se faziam as coisas com prensas a vapor e até mesmo, sim, com eletricidade), e até uma Calla dedicada a nada mais que o prazer: jogo e cavalgadas loucas e divertidas, e...
Mas nesse ponto Tian, que era quem vinha falando, sentiu os olhos de Zalia sobre ele e voltou à panela para buscar mais feijão. E um conciliador prato da salada da esposa.
— Então — disse Eddie, e riscou uma curva no chão. — Essas são as terras de fronteira. As Callas. Um arco que vai para norte e sul por... que distância, Zalia?
— Isso é coisa de homem, é mesmo — disse ela. Então, vendo seu próprio homem ainda junto ao fogo em brasa, examinando as panelas, curvou-se um pouco para Eddie: — Está falando em quilômetros ou em voltas?
— Um pouco dos dois, mas eu me sinto melhor com quilômetros.
Ela assentiu com a cabeça.
— Talvez uns 3 mil quilômetros, mais ou menos. — Apontou para o norte. — E duas vezes isso, mais ou menos. — Apontou para o sul.
Continuou assim, apontando para direções opostas, e depois baixou os braços, cruzou as mãos no colo e retomou a pose tímida de antes.
— E essas cidades, essas Callas, se estendem por toda a distância?
— Assim nos dizem, se faz favor, e os comerciantes vêm e vão. A noroeste daqui, o Grande rio se divide em dois. Nós chamamos o braço esquerdo de Devar-Tete Whye... o Pequeno Whye, pode-se dizer. Claro que vemos mais viagens fluviais do norte, pois o rio corre do norte para o sul, você entende.
— Entendo. E para leste?
Ela baixou os olhos.
— Trovão — disse numa voz que Eddie mal pôde ouvir. — Ninguém vai lá.
— Por quê?
— É escuro lá — disse ela, ainda sem erguer os olhos do colo. Então ergueu o braço. Desta vez apontou na direção de onde tinham vindo Roland e seus amigos. Na direção do Mundo Médio. — Lá — disse — o mundo está acabando. Ou assim nos dizem. E lá... — Apontou para o leste e ergueu os olhos para Eddie. — Lá, no Trovão, já acabou. No meio ficamos nós, que apenas queremos seguir nosso caminho em paz.
— E acha que isso vai acontecer?
— Não.
E Eddie viu que ela chorava.
2
Pouco depois disso, Eddie desculpou-se e entrou numa touceira de árvores para um momento a sós. Quando se levantou, pegando algumas folhas para limpar-se, uma voz falou bem atrás dele.
— Essas, não, sai, se faz favor. Essas são plantas venenosas. Limpe-se com elas e vai ficar se cocando.
Ele saltou e girou, agarrando o cós da calça jeans com uma das mãos e estendendo a outra para o revólver de Roland, pendurado numa árvore próxima. Então viu quem tinha falado — ou o que tinha falado — e relaxou um pouco.
— Andy, na verdade não é muito católico se esgueirar por trás de pessoas que estão dando uma cagada. — Apontou então para um colmo de baixo mato verde. — E aquelas dali? Que problemas eu vou ter se me limpar com elas?
Seguiram-se pausas e chocalhos.
— Como? — perguntou Eddie. — Eu fiz alguma coisa errada?
— Não — disse Andy. — Eu apenas estou processando informação, sai. Católico: palavra desconhecida. Esgueirar, eu não fiz isso, eu andei, se está bom pra você. Dando uma cagada: provavelmente gíria para excreção de...
— Ié — disse Eddie —, é isso aí. Mas escute: se você não se esgueirou até onde eu estava, Andy, como foi que não o ouvi? Quer dizer, tem mato baixo. A maioria das pessoas faz barulho quando atravessa vegetação rasteira.
— Eu não sou uma pessoa, sai — disse Andy.
Eddie achou que ele pareceu presunçoso.
— Cara, então. Como pode um cara grandalhão como você ser tão silencioso?
— Programação — disse Andy. — Essas folhas servem muito bem, pode pegá-las.
Eddie revirou os olhos e agarrou um punhado.
— Ah, programação. Claro. Eu devia saber. Obrigado, sai, longas noites, puxe meu saco e vá pro céu.
— Céu — disse Andy. — Lugar pra onde a gente vai depois da morte; uma espécie de paraíso. Segundo o Velho, os que vão para o céu se sentam à direita de Deus Pai Todo-Poderoso, para todo o sempre e sempre.
— Ié. Quem vai se sentar à esquerda? Todos os vendedores de Tupperware?
— Sai, eu não sei. Tupperware é uma palavra desconhecida para mim. Gostaria de ouvir seu horóscopo?
— Por que não? — disse Eddie.
Começou a voltar para o acampamento, guiado pelo barulho de garotos a rir e dos latidos do trapalhão. Andy seguiu-o, reluzindo mesmo debaixo do céu nublado e parecendo não fazer barulho. Era fantástico.
— Qual a sua data de nascimento, sai?
Eddie achou que devia estar preparado para esta.
— Eu sou Lua de Cabra — disse, e pensou mais um pouco. — Cabra de barbicha.
— A neve do inverno traz muita infelicidade, o frio do inverno é forte e bárbaro — disse Andy. Sim, havia presunção em sua voz, sem dúvida.
— Forte e bárbaro, isto sou eu — disse Eddie. — Não tomo um banho de verdade há mais de um mês, logo é melhor acreditar que sou forte e bárbaro. De que mais você precisa, Andy velho? Quer ver a palma da minha mão, ou alguma coisa assim?
— Não é preciso, sai Eddie. — O robô parecia inequivocamente feliz e Eddie pensou: Eis-me aí, espalhando felicidade a toda parte que vou. Até os robôs me amam. É meu ka. — Estamos na Terra Plena, sai, todos agradecemos. A lua está rubra, o que se chama Lua da Caçadora no Mundo Médio. Vai viajar, Eddie? Vai viajar para longe! Você e seus amigos! Esta noite mesmo você retornará a Calla Nova York. Encontrará uma dama negra. Vai...
— Eu quero saber mais sobre a viagem a Nova York — disse Eddie, detendo-o. O acampamento estava logo à frente, e ele próximo o bastante para ver as pessoas se movimentando. — Nada de brincadeiras, Andy.
— Você entrará em todash, sai Eddie! Você e seus amigos. Deve ter cuidado. Vai ouvir os kammen... os sinos, você conhece bem... todos devem se concentrar uns nos outros. Para evitar se perderem.
— Como você sabe dessas coisas? — perguntou Eddie.
— Programação — disse Andy. — Horóscopo está feito, sai. De graça. — E, depois, o que pareceu a Eddie a loucura final do acampamento. — Sai Callahan... o Velho, você sabe... diz que eu não tenho licença para dizer a sorte, por isso eu nunca cobro.
— Sai Callahan fala a verdade — disse Eddie, e então, quando Andy recomeçou a adiantar-se: — Mas espere um minuto, Andy. Espere, eu lhe peço. — Era absolutamente fantástico como isso começara a parecer legal.
Andy parou de bom grado e volveu para Eddie os olhos azuis fulgentes. Eddie tinha umas mil perguntas sobre todash, mas no momento estava mais curioso sobre outra coisa.
— Você sabe sobre esses Lobos?
— Ah, sim. Eu disse a sai Tian. Ele ficou irado.
Mais uma vez, Eddie detectou alguma coisa semelhante a presunção na voz de Andy... mas sem dúvida era apenas impressão sua, certo? Um robô, mesmo um sobrevivente dos velhos tempos, não podia sentir os mal-estares dos seres humanos. Podia?
Você não levou muito tempo para esquecer o mono, levou, doçura?, perguntou em sua cabeça a voz de Susannah. E foi seguida pela de Jake: Blaine é um pé no saco. E depois, apenas a sua própria: Se você tratar esse cara como nada mais que uma máquina que diz a sorte numa arcada de circo, Eddie velho, você merece o que lhe acontecer.
— Me fale dos Lobos.
— Que quer saber, sai Eddie?
— De onde eles vêm, para começar. O lugar onde acham que podem pôr os pés pra cima e peidar alto. Para quem trabalham. Por que levam as crianças. E por que as que levam voltam arruinadas. — Então lhe ocorreu outra pergunta. Talvez a mais óbvia. — E, também, como vocês sabem que eles vão vir?
Estalidos dentro de Andy. Muitos desta vez, talvez todo um minuto. Quando o robô voltou a falar, foi com uma voz diferente. Fez Eddie lembrar-se do guarda Bosconi, do bairro. Na avenida Brooklyn, a ronda de Bosco Bob. Se a gente o encontrava, andando pela rua e rodando o cassetete, ele falava com a gente como se a gente fosse um ser humano e ele também — como vai indo, Eddie, como vai sua mãe atualmente, como vai seu irmão imprestável, você vai se inscrever nos Middlers PAL, tudo bem, lhe vejo no colégio, fique fora do fumo, tenha um bom dia. Mas se achava que talvez você houvesse feito alguma coisa, Bosco Bob virava um cara que a gente não queria conhecer. Esse não sorria, e os olhos por trás dos óculos pareciam poças de gelo em fevereiro (o que por acaso era o Tempo da Cabra daquele lado do Qualquer Coisa Verde). Bosco Bob jamais batera em Eddie, mas umas duas vezes — uma pouco depois de alguns garotos atearem fogo ao mercadinho de Woo Kim — ele tivera certeza de que o filho-da-puta de uniforme azul ia espancá-lo, se ele fosse estúpido o bastante para ficar por perto. Não era esquizofrenia — pelo menos não do tipo puro de Detta/Odetta —, mas chegava perto. Havia duas versões do guarda Bosconi. Uma delas era um cara legal. A outra era um tira.
Quando Andy tornou a falar, não mais parecia o tio bem-intencionado, mas meio estúpido, que acreditava que as histórias de menino-jacaré e de Elvis-está-vivo-em Buenos Aires que a Inside View publicava eram absolutamente verdadeiras. Aquele Andy soava sem emoção e meio morto.
Parecia um robô louco, em outras palavras.
— Qual é a sua senha, Eddie?
— Como?
— Senha. Você tem dez segundos. Nove... oito... sete... Eddie lembrou-se de filmes de espião que tinha visto.
— Você quer que eu diga alguma coisa tipo “As rosas florescem no Cairo” e aí você diz “Só no jardim da Sra. Wilson”, e aí eu digo...
— Senha incorreta, sai Eddie... dois... um... zero.
De dentro de Andy veio o barulho de baque que Eddie achou singularmente desagradável. Parecia uma lâmina de faca afiada cortando carne e penetrando na tábua de cortar embaixo. Viu-se pensando pela primeira vez no Povo Antigo, que certamente construíra Andy (ou talvez o povo antes do Povo Antigo, chamemo-lo de Povo Realmente Antigo — quem sabia ao certo?). Não um povo que o próprio Eddie quisesse conhecer, se os últimos remanescentes de Lud fossem um exemplo.
— Você pode tentar mais uma vez — disse a voz fria. Tinha uma semelhança com a que perguntara a Eddie se ele gostaria de ouvir o seu horóscopo, mas isso era o melhor que se podia dizer: uma semelhança. — Quer tentar de novo, Eddie de Nova York?
Eddie pensou rápido.
— Não — disse —, está tudo bem. A informação é restrita, certo?
Vários estalos. Depois:
— Restrita: confinada, mantida dentro de certos limites, como a informação num determinado documento ou disco-q; limitada aos autorizados a usar essa informação; os autorizados anunciam-se dando a senha. — Outra pausa para pensar, e depois: — É, Eddie. Essa informação é restrita.
— Por quê? — quis saber Eddie.
Não esperava resposta, mas Andy deu-lhe uma:
— Diretriz 19.
Eddie deu-lhe um tapinha no flanco metálico.
— Meu amigo, isso não me surpreende nem um pouco. Diretriz 19 é o que é.
— Gostaria de ouvir um horóscopo ampliado, Eddie-sai?
— Eu acho que passo.
— Que tal uma música chamada “The Jimmy Juicy I Drank Last Night”? Tem muitos versos divertidos.
A nota rachada de uma flauta aguda veio de algum ponto no diafragma de Andy.
Eddie, que achava assustadora a idéia de muitos versos divertidos, acelerou o passo para junto dos outros.
— Por que não deixamos isto pra outra hora? — perguntou. — No momento eu acho que preciso de outra xícara de café.
— Dê-se o prazer de uma — disse Andy.
A Eddie ele pareceu meio triste. Como Bosco Bob quando a gente lhe dizia que ia estar ocupado para a Liga PAL naquele verão.
3
Roland sentava-se num afloramento de pedra, tomando sua xícara de café. Ouvia Eddie sem dizer nada, e apenas com uma leve mudança de expressão: um mínimo erguer das sobrancelhas às palavras Diretriz 19.
Do outro lado da clareira, defronte deles, o jovem Slightman sacara uma espécie de canudo que produzia bolhas extraordinariamente duras. Oi corria atrás delas, estourando várias com os dentes. Depois começou a entender o que o garoto parecia querer, que era que ele as amontoasse numa pequena pilha de luz. A pilha de bolhas fez Eddie lembrar-se do Arco-íris do Mago, as perigosas bolas de vidro. Será que Callahan tinha mesmo uma? A pior de todas?
Mais adiante dos garotos, na borda da clareira, Andy permanecia parado com os braços cruzados sobre a curva de aço inoxidável do peito. Esperando para tirar o jantar que ele trouxera e cozinhara para o grupo, supunha Eddie. O perfeito criado. Cozinha, limpa, fala da dama negra que a gente vai encontrar. Só não espere que viole a Diretriz 19. Não sem a senha, pelo menos.
— Venha cá, pessoal, por favor — disse Roland, erguendo levemente a voz. — É hora de um dedo de confabulação. Não vai demorar muito, o que é bom, pelo menos para nós, pois já tivemos a nossa, antes de Callahan nos procurar, e após algum tempo as conversas chateiam, chateiam mesmo.
Eles se aproximaram e sentaram-se perto dele, obedientes como crianças, os de Calla e os de mais distante e que dali iriam mais distante ainda.
— Primeiro eu gostaria de ouvir o que vocês sabem desses Lobos. Eddie me disse que Andy talvez não saiba como descobre o que sabe.
— Você fala a verdade — murmurou o pai Slightman. — Os que o fizeram ou os que vieram depois o impediram de falar sobre o assunto, embora ele sempre nos avise da vinda deles. Sobre as outras coisas, sua boca não pára de tagarelar.
Roland olhou o grande fazendeiro de Calla.
— Você nos informará, sai Overholser?
Tian Jaffords pareceu decepcionado por não ser chamado. A mulher também. O pai Slightman balançou a cabeça, como se a escolha de Roland fosse o que esperava. O próprio Overholser não se envaideceu como Eddie teria calculado. Em vez disso, baixou os olhos para as pernas cruzadas e as botas forradas por uns trinta segundos, e esfregou o lado do rosto, pensando. A clareira estava tão silenciosa que Eddie ouvia o raspar da palma da mão do fazendeiro nos tocos de pêlos de três dias. Por fim Overholser deu um suspiro e ergueu o olhar para Roland.
— Eu agradeço. Você não é o que eu esperava, devo dizer. Nem o seu tet. — Voltou-se para Tian. — Você tinha razão em nos arrastar até aqui, Tian Jaffords. Esta é uma reunião que precisávamos ter, e eu agradeço.
— Não fui eu quem trouxe você aqui — disse Jaffords. — Foi o Velho.
Overholser fez um cumprimento a Callahan. Este retribuiu, descreveu a forma de uma cruz no ar com a mão cicatrizada — como a dizer, pensou Eddie, que não fora ele tampouco, mas Deus. Talvez fosse, mas quando se tratava de puxar brasas do fogo ele apostava 2 dólares em Roland para cada um que apostava em Deus e no Homem Jesus, pistoleiros celestiais.
Roland esperou, o rosto calmo e perfeitamente delicado.
Finalmente Overholser se pôs a falar. Falou durante quase 15 minutos, devagar, mas sempre objetivo. Havia o negócio dos gêmeos, para começar. Os moradores das terras Callas percebiam que as crianças nascidas aos pares eram mais exceção que a regra em outras partes do mundo e outras épocas anteriores, mas na área deles do Grande Crescente eram os filhos individuais, como o Aaron dos Jaffords, que eram as raridades. As grandes raridades.
E, a partir de uns 120 anos atrás (ou talvez 150; com o tempo como estava, era impossível precisar esse tipo de coisa com qualquer certeza), os Lobos haviam começado suas incursões. Não vinham exatamente uma vez a cada geração; isso teria sido a cada vinte anos mais ou menos, e o período era mais longo. Contudo, ficava perto.
Eddie pensou em perguntar a Overholser e Slightman como o Povo Antigo poderia ter fechado a boca de Andy em relação aos Lobos se eles só vinham atacando a partir do Trovão havia menos de dois séculos, mas deixou pra lá. Perguntar o que não podia ser respondido era perda de tempo, teria dito Roland. Ainda assim, era interessante, não era? Interessante imaginar quando alguém (ou alguma coisa) programara o Mensageiro Andy (muitas outras funções) pela última vez.
E por quê.
As crianças, disse Overholser, uma de cada par, entre as idades de três e 14 anos talvez, eram levadas para o leste, para a terra do Trovão. (O velho Slightman passou o braço pelos ombros do filho durante esta parte da história, notou Eddie.) Eles ficavam lá por um período relativamente curto — talvez um mês, talvez dois. Depois, a maioria era devolvida. Sobre os que não voltavam, supunha-se que haviam morrido na Terra das Trevas, que qualquer ritual diabólico que fizessem com eles matava alguns em vez de apenas arruiná-los.
Os que retornavam eram na melhor das hipóteses idiotas que faziam coisas. Uma criança de cinco anos voltava sem a capacidade da fala duramente conquistada, reduzida a nada mais que balbucios e a pegar o que queria. Fraldas que haviam sido deixadas esquecidas dois ou três anos antes voltavam a ser usadas e podiam continuar em uso até o roont ter dez ou 12 anos.
— Sim, senhor, Tia ainda se mija um dia em cada seis, e pode-se contar que se caga uma vez por lua também — disse Jaffords.
— Ouçam o que ele diz — concordou Overholser com ar sombrio. — Meu próprio irmão, Welland, foi assim até morrer. E claro que têm de ser vigiados com mais constância, pois se virem alguma coisa que gostem, comem até estourar. Quem está vigiando o seu, Tian?
— Minha prima — disse Zalia antes que Tian pudesse falar. — Hedda e Heddon já ajudam um pouco, também; chegaram a uma idade bastante provável...
Interrompeu-se e pareceu compreender o que dizia. Torceu a boca e calou-se. Eddie julgou entender. Heddon e Hedda já podiam ajudar, claro. No ano seguinte, um deles ainda poderia. Mas o outro...
Uma criança levada com dez anos podia voltar com alguns rudimentos de linguagem, mas nunca iria além disso. As levadas mais velhas eram de algum modo piores, pois pareciam voltar com uma vaga compreensão do que lhes haviam feito. Do que lhes fora roubado. Essas tendiam a chorar muito, ou simplesmente desligar-se de si mesmas e ficar olhando para o leste, como coisas perdidas. Como se pudessem ver seus pobres cérebros lá, circulando como aves no céu escuro. Meia dúzia dessas chegava a suicidar-se.
Os roonts permaneciam crianças em estatura também, como na fala e no comportamento, até cerca de 16 anos. Então, de maneira inteiramente repentina, a maioria assumia o tamanho de jovens gigantes.
— Vocês não podem ter idéia de como é, se não tivéssemos visto e passado por isso — disse Tian. Olhava as cinzas da fogueira. — Não têm idéia do sofrimento que isso causa a eles. Quando nascem os dentes dos bebês, sabe como eles choram?
— Sei — disse Susannah.
Tian balançou a cabeça.
— É como se do corpo todo deles brotassem dentes.
— Ouçam o que ele diz — disse Overholser. — Durante 16 ou 18 meses, tudo que meu irmão fez foi dormir, comer, chorar e crescer. Eu me lembro dele chorando até no sono. Eu me levantava da cama e lá estava aquele choramingo dentro do peito, das pernas, da cabeça dele. Era o barulho dos ossos crescendo de noite, me escutem.
Eddie pensou no horror. Ouviam-se histórias de gigantes — fi-fi-fo-fum e essa coisa toda —, mas até agora ele jamais pensara em como poderia ser tornar-se um gigante. Como se do corpo todo deles brotassem dentes, pensou com um arrepio.
— Um ano e meio, não mais que isso, e acabou, mas imagino quanto tempo deve ter parecido para eles, devolvidos sem mais sentido de tempo que pássaros ou besouros.
— Interminável — disse Susannah. Tinha o rosto muito pálido e parecia nauseada. — Deve parecer interminável.
— O sussurro à noite quando os ossos crescem — disse Overholser. — A dor de cabeça quando o crânio cresce.
— Zalman gritou uma vez durante nove dias seguidos — disse Zalia. A voz era sem expressão, mas Eddie viu o horror nos olhos dela; viu muito bem. — As maçãs do rosto se estufavam. A gente via. A testa curvava-se cada vez mais para fora, e se a gente encostava a orelha, ouvia o crânio estalando ao expandir-se. Parecia um galho de árvore sob o peso da neve.
“Gritou durante nove dias. Nove. De manha, ao meio-dia e no silêncio da noite. Gritava e gritava. Os olhos esguichavam água. Nós rezávamos a todos os deuses para que ele perdesse a voz... que ficasse mudo, até... mas nada disso acontecia, digo graças. Se a gente tivesse uma arma, acho que teria matado ele ali deitado no catre, só para acabar com a dor, Na verdade, meu velho e bom pai estava pronto para cortar a garganta quando isso parou. Os ossos continuaram crescendo por algum tempo... o esqueleto, vocês sabem... mas a cabeça era o pior e finalmente parou, dêem graças a Deus, e ao Homem Jesus também.”
Balançou a cabeça em direção a Callahan. Ele retribuiu e ergueu a mão para ela, estendida no ar por um instante. Zalia voltou-se para Roland e seus amigos.
— Agora eu tenho cinco meus — disse. — Aaron está a salvo, e eu agradeço, mas Heddon e Hedda têm dez anos, idade de primeira. Lyman e Lia têm só cinco, mas cinco já está no ponto. Cinco é...
Ela cobriu o rosto com as mãos e nada mais disse.
4
Assim que o surto de crescimento parava, disse Overholser, alguns deles tinham condições de trabalhar. Outros — a maioria — não conseguiam nem mesmo fazer tarefas rudimentares como arrancar tocos ou cavar buracos de estaca. A gente os via sentados nos degraus do Armazém Geral de Took ou às vezes atravessando os campos em grupos, rapazes e moças de enorme altura, peso e estupidez, às vezes rindo uns para os outros e balbuciando, outras vezes apenas de olhos grudados no céu.
Não se acasalavam, por isso podia-se ser grato. Embora nem todos atingissem proporções prodigiosas, e suas capacidades mentais e físicas variassem um pouco, parecia haver um padrão universal: vinham sexualmente mortos.
— Pedindo perdão a vocês pela crueza — disse Overholser —, mas não acredito que meu irmão teve um só tesão de mijo depois que o trouxeram. Zalia? Você algum dia viu seu irmão com... você sabe...
Ela balançou a cabeça.
— Que idade tinha você quando eles vieram, sai Overholser? — perguntou Roland.
— A primeira vez, você quer dizer. Welland e eu tínhamos nove anos. — Falou rápido. Isso deu ao que disse o ar de um discurso ensaiado, mas Eddie não achou assim. Overholser era uma força em Calla Bryn Sturgis; era, Deus nos salve e apedreje os corvos, o grande fazendeiro. Era-lhe difícil voltar na mente a uma época em que fora criança, pequena, impotente e aterrorizada. — Nossa mãe e nosso pai tentaram nos esconder no celeiro. Pelo menos foi o que me disseram. Eu mesmo não me lembro de nada, claro. Me treinei pra não lembrar, acho. É, é bem provável. Uns lembram melhor que outros, Roland, mas todas as histórias dão no mesmo: um é levado, outro deixado para trás. O levado volta roont, talvez capaz de trabalhar um pouco, mas morto da cintura para baixo. Aí... quando chegam aos trinta anos...
Quando chegavam aos trinta anos, os gêmeos roont envelheciam de repente, de uma forma chocante. Os cabelos embranqueciam e muitas vezes caíam completamente. Os olhos embaçavam-se. Músculos que haviam sido prodigiosos (como eram agora os de Tia Jaffords e Zalman Hoonik) afrouxavam e desgastavam-se. Às vezes eles morriam em paz, durante o sono. Mas na maioria das vezes, porém, o fim não era pacífico de jeito nenhum. Surgiam as feridas, às vezes na pele, mas na maioria das vezes no estômago ou na cabeça. No cérebro. Todos morriam muito antes da idade natural, não fosse pelos Lobos, e muitos como quando haviam crescido do tamanho de crianças normais para o de gigantes: gritando de dor. Eddie imaginava quantos desses idiotas, morrendo do que lhe parecia câncer terminal, eram simplesmente sufocados, ou talvez lhes ministrassem fortes sedativos que os levavam muito além da dor, do sono. Não era o tipo de pergunta que se fizesse, mas imaginava que a resposta teria sido muitos. Roland às vezes empregava a palavra delah, sempre dita com um ligeiro movimento de cabeça para os lados do horizonte.
Muitos.
Os visitantes de Calla, as línguas e lembranças unidas pela angústia, podiam ter continuado por algum tempo, amontoando uma triste recordação em cima da outra, mas Roland não os deixou.
— Agora falem dos Lobos, eu peço. Quantos são os que vêm?
— Quarenta — disse Tian Jaffords.
— Espalhados por toda Calla? — perguntou o velho Slightman. — Não, mais de quarenta. — E para Tian, num tom de desculpa: — Você não tinha mais de nove anos quando eles vieram a última vez. Quarenta na aldeia, talvez, porém mais vieram às cidades e ranchos em volta. Eu diria sessenta no total, Roland-sai, talvez oitenta.
Roland olhou para Overholser, sobrancelhas erguidas.
— Isso foi há 23 anos, veja bem — disse o fazendeiro —, mas eu diria que sessenta é o número certo.
— Vocês os chamam de Lobos, mas que são eles realmente? São homens? Ou outra coisa?
Overholser, Slightman, Tian e Zalia: por um instante, Eddie sentiu-os partilhando khef, quase podia ouvi-los. Isso o fez sentir-se solitário e deixado de fora, como quando se via um casal se beijando numa esquina, envoltos nos braços um do outro ou olhando-se dentro dos olhos, totalmente perdidos nos respectivos olhares. Bem, ele não tinha de sentir-se mais assim, tinha? Tinha seu próprio ka-tet, seu próprio khef. Para não falar de sua própria mulher.
Enquanto isso, Roland fazia o impaciente gesto de girar os dedos que Eddie passara a conhecer bem. Vamos lá, gente, dizia, o dia está passando.
— Não há como dizer ao certo o que são eles — disse Overholser. — Parecem homens, mas usam máscaras.
— Máscaras de lobo — disse Susannah.
— É, dona, máscaras de lobo, cinzentas como os cavalos.
— Está dizendo que todos vêm em cavalos cinzentos? — perguntou Roland.
O silêncio foi mais breve desta vez, mas Eddie ainda teve aquela sensação de khef e ka-tet, mentes consultando-se por meio de alguma coisa tão elementar que nem podia ser acertadamente chamada de telepatia; era mais elementar que telepatia.
— Yer-bugger, sim, senhor! — disse Overholser, um termo de gíria que parecia significar Pode apostar o rabo, não me insulte perguntando isso de novo. — Todos em cavalos cinzentos. Usam calças cinzentas que parecem pele. Botas pretas com cruéis esporas grandes de aço. Capas e capuzes verdes. E as máscaras. Sabemos que são máscaras porque foram encontradas deixadas para trás. Parecem de aço, mas apodrecem ao sol como carne, coisas fedidas.
— Ah.
Overholser lançou-lhe um olhar de lado quase ofensivo, desses que perguntam: Você é louco ou apenas retardado? Então Slightman disse:
— Os cavalos cavalgam feito o vento. Alguns levam um bebê na sela e outro atrás.
— Você afirma isso? — perguntou Roland.
Slightman balançou enfaticamente a cabeça.
— Dou graças aos deuses. — Viu Callahan fazer de novo o sinal-da-cruz no ar e suspirou. — Perdão, Velho.
Callahan deu de ombros.
— Você estava aqui antes de mim. Convoque todos os deuses que queira, desde que saiba que eu acho que eles são falsos.
— E vêm do Trovão — disse Roland, ignorando a última observação.
— Ié — disse Overholser. — A gente vê onde fica para aquele lado cerca de 100 rodas. — Apontou para o sudeste. — Pois nós saímos da mata na última montanha antes do Crescente. Podemos ver toda a Planície Oriental de lá, e depois uma grande escuridão, como uma nuvem de chuva sobre o horizonte. Dizem, Roland, que no passado muito distante a gente via as montanhas ali.
— Como as Rochosas de Nebraska — murmurou Jake.
Overholser olhou-o.
— Como, Jake-soh?
— Nada — disse Jake, e deu um sorrisinho embaraçado.
Eddie, enquanto isso, registrava do que Overholser o chamara. Não sai, mas soh. Simplesmente mais uma coisa interessante.
— Nós ouvimos falar do Trovão — disse Roland. Sua voz era um tanto aterrorizante na falta de emoção, e quando Eddie sentiu a mão de Susannah deslizar para dentro da sua, sentiu-se satisfeito.
— É uma terra de vampiros, ogros e bichos-papões, dizem as histórias — disse-lhes Zalia. A voz era tênue, à beira do tremor. — Claro, são histórias antigas...
— São verdadeiras — disse Callahan. Tinha a voz áspera, mas Eddie sentiu o medo nela. Ouviu muito bem. — Existem vampiros... outras coisas também, muito provavelmente... e o Trovão é o ninho deles. Podemos falar mais sobre isso outra hora, pistoleiro, se lhe apraz. Por enquanto, apenas me escute, eu lhe peço: de vampiros eu sei um bocado. Não sei se os Lobos levam as crianças de Calla para eles... prefiro pensar que não... mas sim, existem vampiros.
— Por que você fala como se eu duvidasse? — perguntou o pistoleiro.
Callahan baixou os olhos.
— Porque muitos duvidam. Eu mesmo duvidava. Duvidava muito e... — Sua voz rachou-se. Ele pigarreou, e quando concluiu foi quase num sussurro. — ... foi a minha desgraça.
Roland permaneceu calado alguns instantes, agachado sobre as botas antigas e com os braços em torno dos joelhos ossudos, balançando um pouco para a frente e para trás. Depois, para Overholser:
— A que horas eles vêm?
— Quando levaram Welland, meu irmão, era de manhã — disse o fazendeiro. — Não muito depois do desjejum. Eu me lembro, porque Welland perguntou à mãe se podia levar a xícara de café consigo para o celeiro. Na última vez, porém, quando vieram e pegaram a irmã de Tian, o irmão de Zalia e muitos outros...
— Eu perdi duas sobrinhas e um sobrinho — disse o pai Slightman.
— Daquela vez não foi muito depois do sino do meio-dia no Salão da Assembléia. Sabemos o dia porque Andy sabe, e até aí ele nos conta. Então ouvimos o trovão dos cascos quando vieram do leste e vimos a crista de galo de poeira que levantavam...
— Então vocês sabem quando eles vêm — disse Roland. — Na verdade, sabem de três formas: Andy, o som dos cascos dos cavalos, a onda de poeira.
Overholser, pegando a insinuação do pistoleiro, ficou com as gordas bochechas roxas até o pescoço.
— Eles vêm armados, Roland, você sabe. Com armas... fuzis e revólveres como os que seu tet carrega, granadas também... e outros instrumentos. Armas terríveis do Povo Antigo. Varas-de-fogo que matam com um toque, bolas metálicas que zumbem e são chamadas de zangões ou pomos de ouro. As varas queimam a pele e param o coração... elétricas, talvez, ou talvez...
Eddie ouviu a palavra seguinte de Overholser como ant-NÔMICO. A princípio pensou que o homem tentava dizer "anatomia". Um momento depois percebeu que provavelmente era "atômico".
— Assim que os zangões farejam a gente, seguem até onde quer que a gente corra — disse o garoto de Slightman muito sério —, por mais que a gente vire e volte.
— Pode apostar — disse o velho Slightman. — Depois brotam lâminas que giram tão rápido que a gente não as vê, e que nos cortam em pedaços.
— Tudo em cavalos cinzentos — meditou Roland. — Todos da mesma cor. Que mais?
Nada, parecia. Já haviam contado tudo. Eles vinham do leste no dia que Andy previa, e durante uma hora terrível — talvez mais — Calla se enchia do trovejante bater dos cascos dos cavalos cinzentos e dos gritos dos pais desolados. Capas verdes rodopiavam. Máscaras de lobo parecendo metal e apodrecidas ao sol como pele rosnavam. As crianças eram apanhadas. Às vezes alguns pares passavam despercebidos e eram deixados intatos, sugerindo que a presciência dos Lobos não era perfeita. Ainda assim, devia ser muito boa, pensou Eddie, porque se as crianças eram mudadas de lugar (como muitas vezes eram) ou escondidas em casa (como quase sempre eram), eles as descobriam mesmo assim, e logo. Mesmo no fundo dos montes de madeira ou feno eram descobertas. Os de Calla que tentavam resistir eram fuzilados, fritados pelos bastões de luz — alguma espécie de laser? — ou cortados em pedaços pelos zangões voadores. Quando tentava imaginá-los mais tarde, Eddie recordava um filmezinho sangrento a que Henry o arrastara para ver, Phantasm, chamava-se. No velho Majestic. Esquina de Brooklyn com a avenida Markey. Muito parecido com sua antiga vida, o Majestic cheirava a mijo e pipoca, e àquele tipo de vinho que vinha em sacos pardos. Às vezes havia agulhas nos corredores. Não boas, mas às vezes — em geral a noite, quando o sono tardava — uma parte profunda dele ainda chorava pela antiga vida da qual o Majestic fizera parte. Chorava por ela como uma criança roubada choraria pela mãe.
As crianças eram levadas, o bater dos cascos recuava na direção de onde tinham vindo, e isso era o fim.
— Não, não pode ser — disse Jake. — Eles devem trazê-las de volta, não devem?
— Não — disse Overholser. — Os roonts voltam no trem, escute, posso lhe mostrar um grande monturo e... Como? Qual é o problema?
Jake ficara boquiaberto e perdera quase toda a cor.
— Tivemos uma experiência muito ruim com um trem não faz muito tempo — disse Susannah. — São monos os trens que trazem suas crianças de volta?
Não eram. Overholser, os Jaffords e os Slightman não tinham a menor idéia do que era um mono, na verdade. (Callahan, que fora à Disneylândia quando adolescente, sabia.) Os trens que traziam as crianças de volta eram puxados por simples locomotivas velhas (espero que nenhuma chamada Charlie, pensou Eddie), sem maquinistas e engatadas a um ou talvez dois vagões abertos. As crianças vinham amontoadas neles. Quando chegavam, em geral vinham chorando de medo (e de queimaduras de sol também, se o clima a oeste do Trovão estivesse quente e claro), cobertas de comida e sua própria merda seca, e desidratadas ainda por cima. Não havia estação na estrada de ferro, embora Overholser opinasse que podia ter havido, séculos antes. Assim que as crianças eram descarregadas, usavam-se parelhas de cavalos para puxar os trens dos enferrujados trilhos. Ocorreu a Eddie que eles podiam imaginar o número de vezes em que os Lobos tinham vindo pelo número de máquinas no ferro-velho, como calcular a idade de uma árvore pela contagem dos anéis do tronco.
— Qual a distância, vocês diriam? — perguntou Roland. — A julgar pela condição deles quando chegam?
Overholser olhou para Slightman, depois para Tian e Zalia.
— Dois dias? Três?
Eles encolheram os ombros e balançaram a cabeça.
— Dois ou três dias — Overholser disse para Roland, falando com mais confiança do que talvez se justificasse, a julgar pela aparência dos outros. — O bastante para queimaduras de sol e para comer a maior parte da ração que lhes resta...
— Ou pintar-se com ela — grunhiu Slightman.
—... mas não o bastante para morrer de insolação — concluiu Overholser. — A julgar pela distância a que foram levados de Calla, eu só posso dizer é que desejo que apreciem a viagem, pois ninguém sabe a que velocidade o trem se arrasta quando cruza as planícies. Vem devagar e com suficiente majestade até o outro lado do rio, mas isso pouco quer dizer.
— É — disse Roland. — É, sim. — Pensou um pouco. — Restam 27 dias?
— Vinte e seis agora — disse Callahan em voz baixa.
— Uma coisa, Roland — disse Overholser.
Falou em tom de desculpa, mas projetava o queixo. Eddie achou que ele recuara para o tipo de cara de que a gente pode desgostar à primeira vista. Quer dizer, se se tinha um problema com figuras de autoridade, e Eddie sempre tivera.
Roland ergueu as sobrancelhas em muda pergunta.
— Nós não dissemos sim — disse Overholser.
Olhou para o pai Slightman, como em busca de apoio, e Slightman o deu com um aceno de cabeça.
— Você deve saber que nós não temos como saber que vocês são quem dizem ser — disse Slightman num tom de desculpa. — Minha família não foi educada com livros, e não há nenhum na fazenda... sou capataz da Rocking B de Eisenhart... a não ser os livros de contabilidade, mas em menino eu ouvi tantas histórias de Gilead, pistoleiros e Arthur Eld quanto qualquer outra criança... ouvi falar da colina de Jerico e histórias de sangue e raios de pretensos... mas nunca soube de um pistoleiro sem dois dedos, ou de uma pistoleira parda, ou de alguém que não tem idade suficiente para fazer a barba por anos ainda.
O filho dele pareceu chocado, e em agônico embaraço também. O próprio Slightman pareceu embaraçado, mas continuou.
— Imploro o seu perdão se o ofendo, na verdade imploro...
— Escutem-no, escutem-no — roncou Overholser.
Eddie começava a pensar que, se o queixo do cara se projetasse mais um pouco, ia partir-se e cair.
—... mas qualquer decisão que tomemos terá longos ecos. Você deve ver que é assim. Se tomarmos a errada, pode significar a morte da nossa aldeia, e de tudo nela.
— Eu não acredito no que estou ouvindo! — gritou indignado Tian Jaffords. — Você acha que eles são uma fraude? Deus do céu, homem, você não o viu? Você não...
A esposa pegou-o pelo braço com força bastante para deixar marcas no bronzeado do camponês com as pontas dos dedos. Ele olhou-a e calou-se, embora apertasse os lábios com força.
Em algum ponto ao longe, um corvo crocitou, um som ligeiramente mais agudo. Então todos se calaram. Um a um, voltaram-se para Roland de Gilead, para ver o que ele ia responder.
5
Era sempre a mesma coisa, e isso o cansava. Eles queriam ajuda, mas exigiam referências. Um desfile de testemunhas, se pudessem obtê-las. Queriam o resgate sem risco, simplesmente fechar os olhos e ser salvos.
Roland balançou devagar para a frente e para trás, abraçado aos joelhos. Depois assentiu para si mesmo com a cabeça e ergueu-a.
— Jake — disse. — Venha cá.
Jake olhou para Benny, seu novo amigo, levantou-se e foi até Roland, Oi seguiu em seus calcanhares, como sempre.
— Andy? — disse Roland.
— Sai?
— Traga-me quatro dos pratos em que comemos. — Enquanto o robô fazia isso, ele falou a Overholser: — Você vai perder alguma cerâmica. Quando os pistoleiros chegam à aldeia, sai, tudo se quebra. É uma simples verdade da vida.
— Roland, não creio que precisemos...
— Calado — disse Roland, e embora a voz fosse delicada, Overholser calou-se imediatamente. — Você contou sua história; agora nós contaremos a nossa.
A sombra de Andy caiu sobre ele. O pistoleiro ergueu o olhar e viu os pratos que não haviam sido lavados e ainda brilhavam de gordura. Depois voltou-se para Jake, que passara por uma considerável modificação. Sentado com o garoto Benny, vendo Oi fazer seus truques espertos e sorrindo de orgulho, Jake parecia qualquer outro garoto de 12 anos — descuidado e cheio da velha raça, provável ou não. Agora o sorriso desaparecera e era difícil dizer qual seria a sua idade exata. Os olhos azuis olhavam os de Roland, quase do mesmo tom. Abaixo dos ombros, a Ruger que Jake pegara na escrivaninha do pai pendia no coldre. O gatilho estava preso num laço de couro cru que ele afrouxou sem olhar. Bastava um pequeno puxão.
— Diga sua lição, Jake, filho de Elmer, e seja fiel.
Roland esperava que Eddie ou Susannah interferissem, mas nenhum dos dois o fez. Ele os olhou. Tinham os rostos frios e graves como o de Jake. Ótimo.