A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 17 de 43

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

Capítulo 3

 

— Fiquei cinco anos na estrada, era pegar ou largar — disse Callahan, quando eles se aproximavam de sua igreja, e de certa forma foi tudo o que disse sobre o assunto. Os três, contudo, ouviram mais. Nem ficaram surpresos mais tarde ao saberem que Jake, a caminho da aldeia com Eisenhart e os Slightman, também ouvira parte dela. Era Jake, afinal, o mais forte na comunicação.

Cinco anos na estrada, não mais que isso, sabem como é: milhares de mundos da rosa perdidos.

 

4

Ele fica cinco anos na estrada, pegar ou largar, só que há muito mais que uma estrada e talvez, nas circunstâncias certas, cinco anos podem ser uma eternidade. Há a rodovia 71, que corta Delaware, e maçãs para colher.

Há um menininho chamado Lars com um rádio quebrado. Callahan conserta-o e a mãe de Lars embala um farto e maravilhoso almoço para seguir com ele, um almoço que parece durar dias. Há a rodovia 317 que corta a zona rural de Kentucky, e um trabalho de cavar sepulturas com um sujeito chamado Pete Petacki, que não fecha a matraca. Uma jovem chega para vê-los, uma bela moça de uns 17 anos, sentada num muro de pedra com folhas amarelas a chover em toda a sua volta, e Pete Petacki não vê a luz azul que a circunda, e com certeza não vê que suas roupas caem depois à deriva no chão como plumas, quando Callahan se senta a seu lado, puxa-a para junto de si e ela leva a mão pela perna dele acima, a boca em sua garganta, e então ele enfia-lhe a faca com precisão na saliência de osso e nervo abaixo da nuca. E um golpe no qual vem ficando muito bom.

Há a rodovia 19, que atravessa o oeste de Virgínia, e um pequeno parque de diversões enferrujado a beira da estrada à procura de um homem para consertar os cavalos e dar de comer aos animais. “Ou o contrário”, diz Greg Chumm, o dono de cabelos besuntados do parque. “Você sabe como é, alimentar os cavalos e consertar os animais. Cavalos de madeira, o que lhe aprouver.” E por algum tempo, quando uma infecção estreptocócica deixa o parque de diversões sem mão-de-obra braçal (eles se dirigem agora para o sul, tentando ficar adiante do inverno), ele também se vê fazendo o papel de Menso o Prodígio da Percepção Extra-sensorial, e com surpreendente sucesso. Também é como Menso que ele os vê pela primeira vez, não vampiros nem pessoas mortas desorientadas, mas homens altos de rostos pálidos, vigilantes, que andam em geral ocultos sob chapéus antiquados com abas estreitas, ou bonés de beisebol da última moda com bicos extracompridos. Nas sombras projetadas por esses chapéus, seus olhos faíscam um vermelho poeirento, como os olhos de guaxinins ou furões-do-mato quando a gente os capta no facho de uma lanterna, rondando em volta de nossos barris de lixo. Será que eles o vêem? Os vampiros (pelo menos os do Tipo Três) não. Os mortos sim. E esses homens, com as mãos enfiadas nos bolsos de seus longos casacões amarelos e caras de casos perdidos espreitando debaixo dos chapéus? Eles vêem? Callahan não sabe ao certo, mas decide não correr riscos. Três dias depois, na aldeia de Yazoo City, no Mississippi, ergue a cartola preta de Menso, larga o besuntado macacão no leito de uma caminhonete da caravana e acaba com o Show de Maravilhas Itinerantes de Chumm, não se dando ao trabalho da formalidade de seu pagamento final. A caminho de sair da cidade, vê vários daqueles cartazes de animais de estimação perdidos presos a postes telefônicos. Um característico diz:

DESAPARECIDA! GATA SÍAMESA, 2 ANOS

ATENDE PELO NOME DE RUTA

É BARULHEN7A MAS CHEIA DE GRAÇA

OFERECE-SE GRANDE RECOMPENSA

$$$$$$

LIGUE PARA 764 AGUARDE O BIPE, DEIXE SEU NÚMERO

DEUS O ABENÇOE PELA AJUDA

Quem é Ruta? Callahan não sabe. Só sabe que ela é BARULHENTAmas CHEIADE GRAÇA . Continuará barulhenta quando os homens das profundezas a alcançarem? Ainda será cheia de graça?

Callahan duvida.

Mas ele tem seus próprios problemas, e só o que lhe resta é orar a Deus em quem não mais acredita estritamente que os homens de casacões amarelos não a capturem.

Mais tarde nesse dia, pedindo carona no acostamento da rodovia 3 no condado de Issaquena, sob um céu quente de cinza metálica que nada sabe de dezembro e da aproximação do Natal, os badalos do carrilhão mais uma vez recomeçam. Enchem-lhe a cabeça, ameaçando rebentar-lhe os tímpanos e fazer vazarem picadas hemorrágicas mínimas por toda a superfície do cérebro. Ao se extinguirem, uma terrível certeza oprime-o: eles estão chegando. Os homens de olhos vermelhos, chapelões e longos casacos amarelos estão a caminho.

Callahan dispara do acostamento da estrada como a debandada de uma fuga de forçados acorrentados, que limpavam valas inundadas como o Super-homem: num único salto. Adiante, uma velha cerca de ripas de madeira invadida por vegetação rasteira, com tufos de kudzu e o que poderia ser sumagre venenoso. Não liga se é ou não sumagre venenoso. Mergulha sobre a cerca, rola em mato alto, bardanas, e espia a rodovia por um buraco na folhagem.

Por um ou dois momentos, não há nada. Então um Cadillac, capota branca sobre carroceria vermelha, chega esmagando asfalto a toda pela rodovia 3 na direção de Yazoo City. A 110 quilômetros fácil, e embora a vigia de Callahan seja curta, ele os vê com nitidez sobrenatural: três homens, dois no que parecem ser guarda-pós amarelos, o terceiro no que poderia ser uma jaqueta de vôo. Todos os três fumando; a cabine do Cadillac fechada a deitar fumo.

Eles vão me ver eles vão me farejar eles vão me sentir, geme a mente de Callahan, e ele rechaça isso de sua própria certeza estropiada e em pânico, arranca-o. Força-se a pensar na letra da música cantada por Elton John — “Alguém salvou, alguém salvou, alguém salvou minha viii-da esta noite...” e parece funcionar. Há um momento terrível, de parar o coração, quando ele pensa que o Cadillac diminuiu a velocidade... longo o bastante para imaginá-los caçando-o por esse campo esquecido cheio de erva daninha, arrastando-o para um galpão ou celeiro abandonado — e então o Cadillac ronca mais uma vez na ladeira seguinte, rumando para Natchez, talvez. Ou Copiah. Callahan espera mais dez minutos. “Precisa ter certeza de que não estão armando uma arapuca pra você, cara”, talvez dissesse Lupe. Mas, mesmo enquanto espera, sabe que isso não passa de uma formalidade. Não estão armando nada para ele; simplesmente não o viram. Como? Por quê?

A resposta vem devagar... uma resposta, pelo menos, e maldito seja ele se não parece ser a certa. Não o viram porque ele conseguiu escafeder-se para uma versão diferente dos Estados Unidos quando se deitou atrás do emaranhado de kudzu e sumagre, esquadrinhando a rodovia 3. Talvez diferente em apenas uns pequenos detalhes... Lincoln na cédula de 1 e Washington na de 5, em vez de o contrário, digamos... mas suficientes. Muito suficientes. O que é ótimo, porque os caras não têm o cérebro estourado, como os mortos-vivos, ou cegos para ele, como os chupadores de sangue. Essas pessoas, seja lá quem forem, são as mais perigosas de todas.

Callahan acaba voltando para a estrada. Um negro de chapéu de palha e macacão afinal se aproxima num velho e arruinado Ford. Ele se parece tanto com um agricultor negro de um filme da década de 1930 que Callahan quase espera vê-lo rir, dar uma palmada no joelho e proferir gritos ocasionais de ‘Sim-sinhô, patrão! Mas num é dimais!” Nada disso, o negro envolve-o numa discussão sobre política desencadeada por um comentário num programa de rádio nacional, o qual ouvira. E quando Callahan o deixa, em Shady Grove, o negro lhe dá uma nota de 5 dólares e um boné de beisebol de sobra.

— Eu tenho dinheiro — diz Callahan, tentando devolver-lhe os 5 paus.

— Um homem fugindo nunca tem o bastante — diz o negro. — E por favor não me diga que não está fugindo. Não insulte minha inteligência.

— Eu digo obrigado — diz Callahan.

— De nada — diz o negro. — Pra onde está indo? Grosso modo?

— Não tenho a mínima idéia — responde Callahan e sorri. — Grosso modo.

 

5

Colhendo laranjas na Flórida. Empurrando uma vassoura em Nova Orleans. Retirando estrume de uma estrebaria em Lufkin, no Texas. Distribuindo folhetos de corretoras imobiliárias em Phoenix, no Arizona. Trabalhos temporários que pagam em dinheiro. Observar os rostos sempre mudando nas notas. Notar os diferentes nomes nos jornais. Jimmy Carter é eleito presidente, mas também o são Ernest “Fritz” Hollings e Ronald Reagan. George Bush também é eleito presidente. Gerald Ford decide concorrer mais uma vez e é eleito presidente. Os nomes nos jornais (os das celebridades mudam com maior freqüência, e de muitos ele nunca ouviu falar) não têm importância. As faces nas cédulas não têm importância. O que importa é a visão dos campos de trigo contra um violento pôr do sol fúcsia, o ruído dos saltos das botas numa estrada vazia em Utah, o barulho do vento no deserto do Novo México, a visão de uma criança pulando corda ao lado de um Chevrolet Caprice em Fóssil, no Oregon. O que importa é o gemido das linhas de força ao lado da rodovia 50, a oeste de Elko, em Nevada, e um corvo morto numa vala nas imediações de Rainbarrel Springs. Às vezes ele está sóbrio, outras, embriagado. Numa ocasião, deitou-se num galpão abandonado — logo depois da divisa estadual de Nevada com a Califórnia — e bebeu quatro dias seguidos. Acaba com sete horas de vômito intermitente. Durante a primeira hora, ou por aí assim, o vômito é tão violento que ele se convence de que vai matá-lo. Mais tarde, só deseja que o mate. E quando tudo passa, jura a si mesmo que está liquidado, chega de bebedeira para ele, acabou aprendendo a lição, e uma semana depois lá está ele embriagado de novo, a fitar de um restaurante, onde fora empregado como lava-pratos, estranhas estrelas acima. É um animal numa armadilha e não liga a mínima para isso. Às vezes aparecem vampiros e ele os mata. Na maioria das vezes, deixa-os vivos porque teme atrair atenção para si mesmo — a atenção dos homens maus. Às vezes se pergunta o que acha que está fazendo, para que porra de lugar está indo, e perguntas assim tendem a mandá-lo correndo à procura da garrafa seguinte. Porque realmente não está indo a lugar algum. Só seguindo as estradas secundárias e arrastando atrás de si sua armadilha, ouvindo apenas o chamado daquelas estradas e indo de uma à seguinte. Preso ou não na armadilha, às vezes ele se sente feliz: às vezes canta em seus grilhões como o mar. Tem vontade de ver o próximo campo de trigo erguido contra o próximo pôr do sol cor de fúcsia. De ver o próximo silo desmoronando no extremo do campo norte há muito abandonado de um fazendeiro desaparecido e ver o próximo caminhão roncando com TONOPAH GRAVEL ou ASPLUNDH HEAVY CONSTRUCTION escrito na lateral. Está no paraíso dos vagabundos, perdido nas personalidades divididas dos Estados Unidos. Tem vontade de ouvir o vento nos desfiladeiros e saber que ele é o único a ouvi-lo. Tem vontade de gritar e ouvir os ecos fugirem. E, claro, quando vê os cartazes de animais de estimação perdidos ou as mensagens escritas com giz em calçadas, tem vontade de seguir adiante. No oeste, vê menos essas coisas, nem seu nome ou descrição em qualquer deles. De vez em quando, vê vampiros rodando... o sangue nosso de cada dia nos dai hoje... mas deixai-os existir. São mosquitos, afinal, não mais que isso.

Na primavera de 1981, vê-se rodando para a cidade de Sacramento na parte de trás do que talvez seja o mais antigo caminhão com leito de estacas da International Harvester ainda circulando em estrada na Califórnia. Viaja amontoado com três dezenas de ilegais mexicanos, há mescalina, tequila, maconha e várias garrafas de vinho, estão todos embriagados, e Callahan talvez seja o mais bêbado deles. Os nomes dos companheiros no caminhão voltam à sua memória nos anos posteriores como nomes proferidos numa bruma de febre: Escobar... Estrada... Javier... Esteban... Rosário... Echeverria... Caverra. São nomes que encontrará depois em Calla, ou é apenas uma alucinação de embriaguez? Quanto a isso, que deve entender de seu próprio nome, tão próximo do lugar onde ele acaba ficando? Calla, Callahan. Calla, Callahan. Às vezes, quando demora a pegar no sono em sua agradável cama na reitoria, os dois nomes perseguem um ao outro em sua cabeça como tigres em um desenho animado.

Às vezes ocorre-lhe um verso de poesia, uma paráfrase da (ele acha) “Epístola a Ser Deixada na Terra”, de Archibald MacLeish. Não era a voz de Deus, mas apenas o trovão. Não está certo o verso, mas é como o lembra. Não Deus, mas o trovão. Ou é só isso em que quer acreditar? Quantas vezes Deus foi negado exatamente assim?

Em todo caso, tudo isso chega depois. Quando roda para Sacramento, está bêbado e está feliz. Não há questões na mente. Chega a se sentir meio feliz até no dia seguinte, com ressaca e tudo. Encontra sem dificuldade um trabalho; há empregos em toda parte, parece, estendidos em volta como maçãs depois que uma tempestade de vento percorreu o pomar. Desde que você não se importe de ficar com as mãos sujas, isto é, escaldadas com água quente ou às vezes empoladas pelo cabo de um machado ou uma pá; em seus anos na estrada, ninguém jamais lhe ofereceu um emprego de corretor da bolsa de valores.

O trabalho que ele pega em Sacramento é descarregar caminhões numa loja de camas e colchões chamada Sleepy John’s que ocupa todo um quarteirão. A Sleepy John’s está se preparando para seu Ma$$acre de Colchõe$ anual, e durante toda manhã Callahan e uma equipe de cinco ou seis outros transportam os de tamanho médio, grande, os king e os queen sizes, e os beliches. Comparado a algumas das tarefas de diarista que fez ao longo dos últimos anos, é moleza.

Na hora do almoço, Callahan e os demais homens sentam-se à sombra no pátio de descarga. Pelo que percebe, não há ninguém dessa equipe que seja da International Harvester, mas não juraria que não; vive terrivelmente embriagado. Sabe apenas com certeza que é o único cara de pele branca presente. Todos eles comem enchiladas do Crazy Mary’s logo ali na rua. Um velho e sujo radiogravador em cima de uma pilha de engradados toca salsa. Dois rapazes dançam tango juntos enquanto os outros — incluindo Callahan — largam de lado os almoços para acompanhá-los com palmas.

Uma jovem de saia e blusa sai, vê com um ar reprovador os homens dançando e olha para Callahan.

— Você é inglês, certo? — diz-lhe.

— Inglês como o dia é longo — concorda Callahan.

— Então talvez goste disto. Sem dúvida não bom prós outros. — Estende-lhe o jornal — o Bee de Sacramento — e retorna o olhar para os mexicanos que dançam. — Cascas-grossas — diz ela, e o sentido implícito está no tom: — Que se pode fazer?

Callahan pensa em levantar-se e dar um chute na estreita bunda inglesa dela que não sabe dançar, mas é meio-dia, tarde demais para conseguir outro trabalho se perder esse. E mesmo que acabe no calabouço por agressão, não será pago. Decide erguer-lhe o dedo médio pelas costas, e ri quando vários dos homens aplaudem. A jovem se vira, olha-os desconfiada e depois volta para dentro. Ainda rindo, Callahan abre o jornal. O sorriso dura até ele chegar à página assinalada DESTAQUES NACIONAIS e logo se desfaz. Entre uma matéria sobre um descarrilamento em Vermont e um roubo de banco no Missouri, encontra isto:

PREMIADO “ANJO DA RUA” EM ESTADO CRÍTICO

NOVA YORK (AP) — Rowan R. Magruder, proprietário e

supervisor-chefe do que talvez seja o mais altamente premiado

lar dos Estados Unidos para desabrigados, alcoólatras e

dependentes de drogas, acha-se em estado crítico após ser

atacado pelos chamados Irmãos Hitler. Os Irmãos Hitler vêm

agindo nos cinco municípios de Nova York durante pelo menos

oito anos. Segundo a polícia, acredita-se que sejam responsáveis

por mais de três dezenas de ataques e pela morte de dois

homens. Ao contrário das outras vítimas, Magruder não é negro

nem judeu, mas foi encontrado na entrada de uma casa não longe

do Lar, o abrigo que fundou em 1968, com a suástica, marca

registrada dos Irmãos Hitler, talhada na testa. A vítima também

sofreu vários ferimentos a faca.

O Lar ganhou notícia nacional em 1977, quando Madre

Teresa o visitou, ajudou a servir o jantar e orou com os clientes.

O próprio Magruder foi tema de uma matéria de capa da

Newsweek em 1980, quando o chamado “Anjo da Rua” foi

escolhido como Homem do Ano pelo prefeito Ed Koch.

Um médico familiarizado com o caso classificou as chances

de recuperação de Magruder como “não mais do que três em

dez”. Disse que, além de ser marcado, Magruder foi cegado pelos

atacantes. “Eu me considero um homem misericordioso”, disse o

médico, “mas, na minha opinião, os homens que fizeram isso

deviam ser decapitados.”

Callahan relê o artigo, perguntando-se se aquele é o “seu” ou outro Rowan Magruder — um Rowan Magruder de um mundo onde um cara chamado Chadbourne está no verso de algumas cédulas, digamos. Tem alguma certeza de que é o seu. Sem a menor dúvida ele está no que julga ser o “mundo real” agora, e não é apenas a fina cédula na carteira de dinheiro que lhe diz isso. É uma sensação, uma espécie de sinal. Uma verdade. Se assim for (e assim é, ele sabe), quanta coisa perdera ali nas estradas secundárias. Madre Teresa foi visitar! Ajudou a servir o jantar! Droga, por tudo que Callahan sabe, talvez ela houvesse preparado uma refeição de Sapos e Bolinhos de Massa Cozida! É bem possível; a receita estava bem ali, colada com fita adesiva na parede ao lado do fogão. E um prêmio! A capa da Newsweek! Ele fica puto por ter perdido isso, mas também não se vêem revistas de notícias com muita regularidade quando se viaja com parque de diversões e consertam-se Canecas Malucas ou tira-se estrume de estrebarias atrás do rodeio em Enid, no Oklahoma.

Sente tão profunda culpa que nem sabe que sente culpa. Nem quando Juan Castillo pergunta:

— Tá jorando pur quê, Donnie?

— Estou? — ele devolve a pergunta, e enxuga embaixo dos olhos, e, sim, está. Ele está chorando. Mas não sabe se é por culpa ou tristeza. Imagina que seja choque, e de certo modo é mesmo. — Ié, acho que estou, cara.

— Adonde tu vai? — insiste Juan. — O dichcanso do almoço já quase acabou, hombre.

— Preciso ir embora — diz Callahan. — Preciso voltar para o leste.

— Tu te manda, eles no te von pagar.

— Eu sei — diz Callahan. — Tá tudo bem.

E que grande mentira a sua. Porque nada está bem.

Nada.

 

6

— Eu tinha 200 dólares costurados no fundo de minha mochila — disse Callahan. Agora estavam sentados nos degraus da igreja, sob a forte luz do sol. — Comprei uma passagem aérea de volta a Nova York. A rapidez era essencial, claro, mas na verdade não o único motivo. Eu tinha de cair fora daquelas estradas ocultas. — Balançou a cabeça para Eddie. — Das auto-estradas com pedágio todash. Criam tanta dependência quanto a pinga...

— Mais — disse Roland. Viu três figuras aproximando-se deles: Rosalita com os gêmeos Tavery, Frank e Francine. A menina tinha uma grande folha de papel nas mãos e levava-a na frente com um ar de reverência que quase chegava a ser cômico. — Vagar por estradas é a droga existente que mais vicia, e cada estrada secundária leva a mais uma dezena delas.

— Você fala a verdade, eu agradeço — respondeu Callahan. Parecia abatido, triste e, pensou Roland, meio perdido.

— Père, vamos ouvir o resto da sua história, mas vou lhe pedir que a guarde até o anoitecer. Ou pra amanhã à noite, se não voltarmos até então. Nosso amigo Jake vai chegar daqui a pouco.

— Você sabe disto, sabe? — perguntou Callahan, interessado mas não descrente.

— Sabe, sim — respondeu Susannah.

— Quero ver o que tem lá antes de ele chegar — disse Roland. — O relato de como chegou aqui é parte da sua história, acho...

— Sim — disse Callahan. — O objetivo da minha história, creio.

—... e precisa aguardar seu lugar. Quanto a agora, as coisas estão se acumulando.

— Eles têm um jeito de fazer isso — disse Callahan. — Durante meses, às vezes anos, como tentei lhe explicar, o tempo mal parece existir. Então tudo chega num arquejo.

— Você diz a verdade — disse Roland. — Venha comigo, Eddie, para ver os gêmeos. Creio que a mocinha está de olho em você.

— Ela pode olhar à vontade — disse Susannah, bem-humorada. — Olhar é grátis. Prefiro ficar apenas sentada nestes degraus ao sol, Roland, se você concorda. Faz muito tempo desde que montei, e se quer saber, estou com dores da sela. Não ter os pinos inferiores parece deixar tudo mais rebentado.

— Faça do jeito que quiser — disse Roland, mas não falava a sério, e Eddie sabia que não. O pistoleiro queria que Susannah ficasse ali mesmo onde estava. Só podia desejar que ela não tivesse captado a mesma vibração.

Ao seguirem em direção às crianças e Rosalita, Roland falou baixo e rápido com Eddie:

— Quero entrar na igreja só com ele. Saiba apenas que não são vocês dois que quero manter longe de seja lá o que for que esteja lá dentro. Se for o Treze Preto, e creio que deve ser, é melhor que ela nem chegue perto.

— Em vista do estado delicado dela, quer dizer, Roland, eu imaginaria que Suze sofrer um aborto seria quase alguma coisa que você ia gostar.

Roland disse:

— Não é um aborto que me preocupa. Estou preocupado com a possibilidade de o Treze Preto tornar a coisa dentro dela ainda mais forte. — Fez uma pausa. — As duas coisas, talvez. O bebê e a guardadora do bebê.

— Mia.

— Sim, ela. — Então sorriu para os gêmeos Tavery. Francine deu-lhe um sorriso superficial em retribuição, poupando toda a voltagem para Eddie.

— Deixem-me ver o que vocês fizeram, por favor — disse Roland.

— Esperamos que esteja tudo certo. Talvez não esteja. Ficamos com medo, se ficamos. É um pedaço de papel tão maravilhoso que a dona nos deu, que ficamos com medo.

— Desenhamos no chão, primeiro — disse Francine. — Depois com o carvão mais claro. Foi Frank quem fez os traços finais; fiquei com as mãos tremendo.

— Não temam — disse Roland.

Eddie chegou mais perto e olhou por cima do ombro do pistoleiro. O mapa era uma maravilha de detalhes, com o Salão da Assembléia da Cidade e o comunitário no centro, e o Grande Rio/Devar-Tete correndo ao longo do lado esquerdo do papel, que pareceu a Eddie uma folha mimeografada comum. Desses vendidos em resmas em qualquer papelaria dos Estados Unidos.

— Meninos, isto é absolutamente fantástico — disse Eddie, e por um momento achou que Francine poderia desmaiar de verdade.

— Ié — disse Roland. — Vocês fizeram um excelente trabalho. E agora vou fazer uma coisa que provavelmente vai parecer uma blasfêmia pra vocês. Conhecem a palavra?

— Sim — disse Frank. — Somos cristãos: “Não tomaras o nome do Senhor teu Deus ou Seu Filho, o Homem Jesus, em vão.” Mas blasfêmia também é cometer um ato brutal numa coisa de arte.

Falou num tom de profunda seriedade, mas parecia interessado em ver que blasfêmia o forasteiro de outro mundo pretendia cometer. A irmã também.

Roland dobrou o papel — que eles mal ousavam tocar, apesar de sua óbvia habilidade — ao meio. Os gêmeos arquejaram. O mesmo fez Rosalita Munoz, embora não tão alto.

— Não é blasfêmia tratá-lo assim, porque deixou de ser um papel — disse Roland. — Tornou-se um instrumento, e os instrumentos precisam ser protegidos. Vocês entendem?

— Sim — eles responderam, mas em dúvida. Pelo menos parte de sua confiança foi restaurada pelo cuidado com que Roland guardou o mapa dobrado na bolsa.

— Muito, muito obrigado — disse Roland. Tomou a mão de Francine na esquerda, a de Frank na direita mutilada. — Vocês talvez tenham salvado suas vidas com seus olhos e mãos.

Francine caiu em prantos. Frank reprimiu suas lágrimas até sorrir. Depois extravasaram e escorreram-lhe pela face sardenta.

 

7

Nos degraus da igreja, Eddie disse:

— Bons meninos. Talentosos.

Roland assentiu.

— Consegue ver um deles voltando do Trovão como um idiota babando?

Roland, que via tudo muito bem, não respondeu.