A Torre Negra V: Lobos de Calla
Capítulo 1
Agora são 23, pensou Roland naquela noite, sentado nos fundos da Rocking B de Eisenhart, ouvindo os garotos gritando e Oi latindo. Em Gilead, esse tipo de varanda que dá para os celeiros e os campos seria chamado de alpendre de trabalho. Vinte e três dias para a chegada dos Lobos. E quantos até Susannah parir?
A idéia terrível relacionada a isso começara a formar-se em sua cabeça. Imagine se Mia, a nova ela dentro da pele de Susannah, desse à luz sua monstruosidade no mesmo dia em que surgissem os Lobos? Não se julgaria provável tal coisa, mas, segundo Eddie, a coincidência fora cancelada. Roland achou que ele na certa tinha razão. Com certeza, não se tinha como calcular o período de gestação da coisa. Mesmo que fosse uma criança normal, nove meses poderiam não ser mais nove meses. O tempo ficara leve.
— Meninos! — berrou Eisenhart. — O que, em nome do Homem Jesus, eu digo a minha mulher se vocês matarem seus tristes seres pulando desse celeiro?
— A gente está legal! — gritou Benny Slightman. — Andy não vai deixar a gente se machucar! — O garoto, vestido de jardineira e com os pés descalços, estava em pé na janela saliente aberta do celeiro, logo acima das letras esculpidas que diziam Rocking B. — A não ser... que o senhor queira realmente que a gente pare, sai?
Eisenhart olhou para Roland, que viu Jake em pé pouco atrás de Benny, esperando com impaciência sua chance de se arriscar a quebrar os ossos. Jake também usava uma jardineira, de seu novo amigo sem dúvida, e a aparência deles o fez sorrir. De algum modo, Jake não era o tipo de menino que a gente imaginava naquela roupa.
— Não é nada pra mim, de um ou de outro jeito, se é o que você quer saber — disse Roland.
— Que se danem, então! — gritou o rancheiro. Depois voltou a atenção para a miscelânea de ferragens espalhadas nas tábuas. — Que acha? Será que alguma destas atira?
Eisenhart apresentara todas as suas três armas para inspeção de Roland. A melhor era a espingarda que o rancheiro levara à cidade na noite em que Tian Jaffords convocara a assembléia. As outras eram duas pistolas do tipo que Roland e seus amigos haviam chamado de “canos de disparo” na infância, porque seus cilindros, de tamanhos maiores que os comuns, tinham de ser girados com o lado da mão a cada disparo. Roland desmontou as armas de fogo de Eisenhart sem nenhum comentário inicial. De novo pusera óleo lubrificante, agora numa tigela em vez de numa molheira.
— Eu perguntei...
— Eu ouvi o que você perguntou, sai — interrompeu Roland. — Sua espingarda é a melhor que já vi neste lado da cidade grande. O cano de disparo... — Balançou a cabeça. — Este com revestimento de níquel talvez atire. O outro bem faria você enfiando-o na terra. Talvez faça desabrochar alguma coisa melhor.
— Detesto ouvi-lo falar assim — disse Eisenhart. — Foram de meu pai e do pai dele, antes, e de mais pelo menos destes tantos antes. — Ergueu sete dedos e um polegar. — Remontam a antes dos Lobos, você sabe. Sempre foram guardadas juntas, passadas ao filho predileto por testamento. Quando as ganhei em vez de meu irmão mais velho, fiquei muito satisfeito.
— Você tinha um gêmeo? — perguntou Roland.
— Sim, uma irmã, Verna — disse Eisenhart. Sorria fácil e com freqüência, e o fazia sob seu basto bigode grisalho, mas era um sorriso cheio de dor, o sorriso de um homem que não quer que a gente saiba que esta sangrando em algum lugar dentro das roupas. — Ela era linda como o alvorecer, era, sim. Foi-se desta há dez anos ou mais. Dolorosamente cedo, como muitas vezes vão os roont.
— Sinto muito.
— Eu lhe agradeço.
O sol se punha vermelho no sudoeste, tornando o quintal da cor de sangue. Havia uma fileira de cadeiras de balanço na varanda. Eisenhart estava sentado numa delas. Roland, de pernas cruzadas no piso de tábuas, cuidando da herança de Eisenhart. O fato de que as armas provavelmente jamais disparariam nada significava para as mãos do pistoleiro, treinadas para esse trabalho há muito tempo e ainda achando-o calmante.
Agora, com uma rapidez que fez o rancheiro piscar, Roland remontou as armas numa rápida série de cliques e claques. Largou-as de lado num quadrado de pele de ovelha, limpou os dedos num trapo e sentou-se na cadeira de balanço junto da de Eisenhart. Imaginou que em crepúsculos mais comuns Eisenhart e a mulher sentavam-se ali fora, lado a lado, vendo o sol abandonar o dia.
Roland remexeu na bolsa à procura de seu saquinho de tabaco, encontrou-o e fez um cigarro com a erva fresca, doce, de Callahan. Rosalita acrescentara seu próprio presente, uma pequena pilha de invólucros de meda de milho que ela chamava de “puxadores”. Roland achou que enrolavam tão bem quanto qualquer mortalha, e fez uma pausa para admirar o produto acabado antes de pôr a ponta no fósforo que Eisenhart acendera com um calejado polegar. O pistoleiro aspirou fundo e exalou uma longa pluma que se elevou alto mas devagar no ar do anoitecer, parado e surpreendentemente abafado para fins de verão.
— Ótimo — disse, e balançou a cabeça.
— É? Bom proveito. Eu nunca peguei o gosto por isso.
O celeiro era muito maior que a casa da fazenda de criação de gado, com pelo menos 45 metros de comprimento e 15 de altura. Enfeitavam-no grinaldas de plantas-amuleto da colheita, em homenagem à estação; caras empalhados com cabeças de raízes-fortes mantinham guarda. Acima da janela saliente, sobre as portas principais, destacava-se a ponta da viga mestra. Prendera-se uma corda em volta. Abaixo, no quintal, os garotos haviam ajuntado um monte de feno de um bom tamanho. Oi estava num dos lados dele, Andy do outro. Os dois olhavam Benny Slightman acima quando ele se agarrou à corda, puxou-a com força e recuou de volta ao sótão, saindo da visão. Oi se pôs a latir de antecipação. Um momento depois, chegou Benny com a corda enrolada nos pulsos, e os cabelos adejando atrás.
— Gilead e o Eld! — gritou ele, e saltou do sótão. Balançou no ar vermelho do pôr do sol com sua sombra rastejando atrás.
— Ben-Ben! — latiu Oi. — Ben-Ben-Ben!
O garoto se soltou, voou para o monte de feno, desapareceu e então despontou rindo. Andy ofereceu-lhe a mão de metal, mas Benny a ignorou, saltando para a terra compacta. Oi corria à sua volta, latindo.
— Eles sempre dão esse brado quando brincam? — perguntou Roland.
Eisenhart rugiu uma risada.
— De jeito nenhum! Em geral é um brado de Oriza, ou Homem Jesus, ou “salve a Calla”, ou todos os três. Seu menino é que tem deixado a cabeça do menino Slightman cheia de histórias, eu acho.
Roland ignorou o tom ligeiramente desaprovador e observou Jake girando na corda. Estendido no chão, Benny brincava de fingir-se de morto, até Oi lamber-lhe o rosto. Então ele se sentou, dando risadinhas. Roland não tinha a menor dúvida de que se o garoto tivesse se desviado no salto, Andy o teria agarrado.
Afastada num dos lados do celeiro, ficava uma muda de cavalos de carga, talvez vinte ao todo. Um trio de vaqueiros com chapéu e botas curtas surradas conduzia a última meia dúzia de montarias para lá. No outro lado do quintal, um curral-matadouro cheio de novilhos. Nas semanas seguintes, seriam abatidos, esquartejados e enviados rio abaixo nos barcos comerciais.
Jake recuou para o sótão, depois avançou correndo em disparada.
— Nova York! — gritou ele. — Times Square! Empire State Building-Torres Gêmeas! Estátua da Liberdade! — E lançou-se no espaço ao longo do arco da corda. Eles o viram desaparecer, rindo, no monte de feno.
— Algum motivo particular pra querer que seus outros dois ficassem com os Jaffords? — perguntou Eisenhart. Embora falasse ociosamente, Roland achou que a pergunta o interessava mais que um pouco.
— É melhor nos espalharmos por aí. Deixar-nos ver pelo máximo de gente possível. O tempo é curto. Decisões precisam ser tomadas.
Tudo isso era verdade, mas havia mais, e Eisenhart na certa sabia. Era mais astucioso que Overholser. Também se decidira totalmente contra levantar-se contra os Lobos — pelo menos até então. O que não impedia Roland de gostar do sujeito, que era grande, honesto e tinha um mundano senso de humor de homem do campo. Roland achava que ele podia mudar de posição, se lhe mostrassem que tinha uma chance de vencer.
A caminho da Rocking B, eles haviam visitado meia dúzia de fazendas de pequeno porte ao longo do rio, onde o arroz era a principal colheita. Eisenhart realizara as apresentações com disposição bastante boa. A cada parada, Roland fazia as duas perguntas que fizera na noite anterior, no Pavilhão: Vocês se abrirão para nós se nos abrirmos para vocês? Vocês nos vêem pelo que somos, e aceitam o que fazemos? Todos responderam que sim. Eisenhart também respondera sim. Mas Roland não caíra na asneira de fazer a terceira pergunta a nenhum deles. Não havia necessidade, ainda não. Eles ainda tinham mais de três semanas.
— Nós esperamos o bom momento, pistoleiro — disse Eisenhart. — Mesmo diante dos Lobos, esperamos o bom momento. Antes existiu Gilead, ninguém mais que você sabe disto, mas ainda assim esperamos o bom momento. Se nos levantarmos contra os Lobos, tudo isso talvez mude. Para você e os seus, o que acontece ao longo do Crescente talvez não signifique de um jeito ou de outro mais que um traque no vento. Se vencermos e sobrevivermos, vocês seguirão adiante. Se perdermos e morrermos, não teremos lugar algum pra onde ir.
— Mas...
Eisenhart ergueu a mão.
— Eu peço que me ouça. Poderia me ouvir?
Roland balançou a cabeça, resignando-se. E o que ele tinha a dizer provavelmente para o melhor. Adiante dos dois, os garotos corriam de volta ao celeiro para mais um salto. Logo a escuridão se aproximando poria fim à brincadeira deles. O pistoleiro perguntou-se o que estariam compreendendo Eddie e Susannah. Já teriam falado com o avô de Tian? Se já, teria ele lhes dito alguma coisa de valor?
— Imagine que eles mandem cinqüenta ou até sessenta, como já fizeram antes, inúmeros deles? E imagine que a gente dê cabo deles. E, então, imagine que uma semana ou um mês mais tarde, depois que vocês se forem, eles mandem quinhentos contra nós.
Roland pensou na pergunta. Enquanto o fazia, Margaret Eisenhart juntou-se a eles. Era uma mulher esguia, na faixa dos quarenta anos, seios pequenos, vestida de jeans e uma blusa de seda cinza. Os cabelos, puxados para trás num coque na nuca, eram pretos entremeados de fios brancos. Tinha uma das mãos escondidas sob o avental.
— É uma boa pergunta — disse ela —, mas talvez não seja o tempo certo pra fazê-la. Dê a ele e a seus amigos uma semana, por que não, para inspecionar os arredores e ver o que podem fazer.
Eisenhart deu à sua sai um olhar meio divertido e meio irritado.
— Eu lhe digo como administrar sua cozinha, mulher? Quando cozinhar e quando lavar?
— Só quatro vezes por semana — disse ela. Então, vendo Roland levantar-se da cadeira de balanço junto à do marido: — Não, por favor, fique sentado, eu passei a última hora numa cadeira, descascando raiz-forte com Edna, a tia daquele lá. — Indicou com a cabeça na direção de Benny. — É bom eu ficar de pé. — Olhava, sorrindo, os meninos a girar no monte de feno e pular no chão, às gargalhadas, enquanto Oi dançava e latia. — Vaughn e eu jamais tivemos de enfrentar o horror total disso antes, Roland. Tivemos seis, todos gêmeos, mas todos criados no tempo intermediário. Portanto, talvez a gente não tenha toda a compreensão necessária pra tomar uma decisão como a que você pede.
— Ter sorte não torna um homem idiota — disse Eisenhart. — Muito pelo contrário, é o que eu penso. Olhos serenos vêem com clareza.
— Talvez — disse ela, vendo os meninos correrem de volta ao celeiro. Davam esbarrões de ombros e riam, cada um tentando chegar à escada primeiro. — Talvez sim. Mas o coração também deve exigir seus direitos, e um homem ou uma mulher que não escuta é um tolo. Às vezes, é melhor balançar na corda, mesmo que esteja escuro demais para ver se existe o feno ou não.
Roland estendeu a mão e tocou a dela.
— Eu mesmo não conseguiria dizer melhores palavras.
Ela deu-lhe um pequeno sorriso, aflito. Passou-se apenas um instante antes de voltar a atenção para os meninos, mas foi o bastante para que Roland visse que estava assustada. Apavorada, na verdade.
— Ben, Jake! — gritou ela. — Chega! Hora de se lavar e vir pra dentro! Tem uma torta pra vocês comerem, e creme pra pôr em cima!
Benny chegou até a janela aberta.
— Meu pai disse que podemos dormir na minha barraca ali em cima da ribanceira, sai, se tá tudo bem com a senhora.
Margaret Eisenhart olhou para o marido. Eisenhart assentiu com a cabeça.
— Tudo bem — disse ela —, então vai ser barraca a dar a vocês a alegria dela, mas entrem já, se quiserem comer torta. Último aviso! E se lavem primeiro, façam o favor! As mãos e os rostos!
— Tá bem, obrigado — disse Benny. — Oi pode comer torta?
Margaret Eisenhart levou as costas da mão esquerda à testa, como se estivesse com dor de cabeça. A direita, Roland se interessou por observar, continuou embaixo do avental.
— Pode — disse ela. — Torta pro trapalhão também, pois tenho certeza de que ele é Arthur Eld disfarçado e vai me recompensar com jóias, ouro e o toque curador.
— Obrigado-sai — gritou Jake. — Será que a gente podia dar só mais uma saltada primeiro? É a maneira mais rápida de descer.
— Eu os seguro se voarem o salto errado, Margaret-sai — disse Andy.
Seus olhos faiscaram azuis, depois baixaram a luz. Parecia estar sorrindo. A Roland o robô parecia ter duas personalidades, uma de solteirona megera, a outra inofensivamente aconchegante. O pistoleiro não gostava de nenhuma das duas, e entendia perfeitamente por quê. Passara a desconfiar de maquinaria de todos os tipos, sobretudo do tipo que andava e falava.
— Bem — disse Eisenhart —, a perna quebrada em geral vem no último pinote, mas dêem mais um, se é imprescindível.
Eles deram, e não houve perna quebrada. Os dois garotos caíram em cheio no monte de feno, despontaram rindo e olhando um para o outro, depois apostaram corrida até a cozinha, com Oi disparado atrás. Parecendo arrebanhá-los.
— É maravilhosa a rapidez com que crianças se tornam amigas — disse Margaret Eisenhart, mas sem parecer alguém que contemplava alguma coisa maravilhosa. Parecia triste.
— Sim — disse Roland. — É maravilhosa mesmo. — Pôs a bolsa no colo, pareceu à beira de desatar o nó que prendia as alças, depois desistiu. — Em que seus homens são bons? — perguntou a Eisenhart. — Arco ou bah? Pelo que sei, com certeza não é rifle nem revólver.
— Preferimos bah — respondeu Eisenhart. — A gente encaixa o ferrolho, puxa a mola, atira, pronto.
Roland balançou a cabeça. Era como imaginara. Nada bom, porque o bah raras vezes acertava a uma distância maior que 20 metros, e isto só num dia parado. Num dia em que soprasse uma brisa constante... ou, Deus nos ajude, um vento forte...
Mas Eisenhart olhava para a mulher. Olhava-a com certa admiração relutante. Parada ali em pé, ela retribuía o olhar, sobrancelhas erguidas, ao seu homem. Retribuía o olhar com uma pergunta. Qual seria? Certamente tinha a ver com a mão sob o avental.
— Diabos, conte a ele — disse Eisenhart. Então apontou um dedo quase irado para Roland, como o cano de um revólver. — Mas não vai mudar nada. Nada! Eu agradeço! — As últimas palavras com os lábios repuxados para trás num sorriso furioso.
Roland ficou mais intrigado que nunca, mas sentiu uma leve excitação de esperança. Talvez fosse falsa esperança, na certa seria, mas qualquer coisa era melhor que preocupações, confusões... e as dores... que o haviam atacado recentemente.
— Não — disse Margaret com ensandecida modéstia. — Este não é o meu lugar pra contar. Pra mostrar, talvez, mas não contar.
Eisenhart suspirou, pensou, depois se voltou para Roland.
— Você dançou a dança do arroz — disse —, portanto conhece Lady Oriza.
Roland balançou a cabeça. A Senhora do Arroz, em alguns lugares considerada uma deusa, em outros uma heroína, ainda em outros as duas coisas.
— E você sabe como a Lady Oriza deu cabo de Gray Dick, que matou o pai dela?
Roland balançou mais uma vez a cabeça.
2
Segundo a história — uma das boas que ele precisava lembrar de contar a Eddie, Susannah e Jake, quando (e se) houvesse mais tempo para contar histórias —, Lady Oriza convidou Gray Dick, um famoso príncipe proscrito, a um imenso banquete em Waydon, seu castelo perto do rio Send. Queria perdoá-lo pelo assassinato do pai, disse, pois aceitara o Homem Jesus no coração e isso condizia com Seus ensinamentos.
Você quer me fazer ir até aí para me matar, se eu for idiota o bastante para ir, disse Gray Dick.
Não, não, disse Lady Oriza, jamais pense nisso. Todas as armas serão deixadas do lado de fora do castelo. E quando nos sentarmos no salão do banquete embaixo, só haverá eu, numa cabeceira da mesa, e você na outra.
Vai esconder uma adaga na manga ou uma bola sob o vestido, disse Gray Dick. E se não fizer isso, eu farei.
Não, não, disse Lady Oriza, jamais pense nisso, pois estaremos os dois nus.
Diante disso, Gray Dick foi dominado pela luxúria, pois Lady Oriza era bela. Excitou-o pensar no pau endurecendo à visão dos seios e pêlos desnudos dela, sem aqueles calções amarrados nos joelhos para esconder a excitação dos olhos da donzela que ainda era. E julgou entender por que ela faria tal proposta. Seu arrogante coração vai liquidá-lo, Lady Oriza disse à sua criada (cujo nome era Marian e que em seguida teve, ela mesma, muitas aventuras fantasiosas).
A Lady tinha razão. Matei o Lorde Grenfall, o mais astuto lorde de todos os baronatos do rio, disse Gray Dick a si mesmo. E quem restou para vingá-lo além de uma filha fraca? (Ah, mas era bela.) Então a Lady roga paz. E talvez até casamento, se tiver audácia e imaginação, além de beleza.
Acabou aceitando o convite. Seus homens vasculharam o salão do banquete no andar de baixo antes da sua chegada e não encontraram arma alguma — nada debaixo da mesa, nem atrás das tapeçarias. O que nenhum deles poderia saber era que durante semanas antes do banquete Lady Oriza exercitara-se em lançamento de um prato de jantar com peso especial. Treinava dez horas por dia. Tinha propensão atlética, para começar, e olhos aguçados. Também odiava Gray Dick do fundo do coração e decidira fazê-lo pagar, não importava o custo.
O prato de jantar não era apenas pesado; a borda fora afiada. Os homens de Dick deixaram passar isso, como ela e Marian tinham certeza de que fariam. E assim eles se banquetearam, e que banquete estranho deve ter sido, com o risonho e belo proscrito numa das cabeceiras da mesa e a donzela recatadamente sorridente, mas de refinada beleza, a 9 metros dele na outra, também nua. Eles brindaram um ao outro com o mais excelente vinho tinto do Lorde Grenfall. Enfureceu a donzela quase à loucura vê-lo sorver ruidosamente aquele requintado vinho campestre como se fosse água, gotas escarlates escorrendo-lhe pelo queixo e respingando no peito peludo, mas ela não deixou escapar sinal algum; apenas sorria, faceira, e tomava goles de seu cálice. Sentia nos seios o peso dos olhos dele. Era como ter percevejos rastejando de um lado para outro na pele.
Por quanto tempo continuou esse jogo de gato e rato? Alguns narradores de história punham-na dando fim a Gray Dick após o segundo brinde. (O dele: Que sua beleza aumente para sempre. O dela: Que seu primeiro dia no inferno dure 10 mil anos, e que este seja o mais curto de todos.) Outros — o tipo de intrigantes que adoravam prolongar o suspense — narravam uma refeição de 12 pratos antes de Lady Oriza agarrar o prato especial, os olhos cravados nos de Gray Dick e a sorrir-lhe enquanto o girava, tateando à procura do lugar embotado onde era seguro pegá-lo.
Não importa a duração da história, sempre terminava com Lady Oriza lançando o prato. Pequenos canais estriados haviam sido esculpidos na base do prato, embaixo da borda afiada, para ajudá-lo a voar com precisão. Ao fazê-lo, zumbiu misteriosamente na trajetória, lançando sua sombra fugaz no lombo de porco e peru assados, nas vasilhas repletas de legumes, as frutas frescas empilhadas em travessas de cristal.
Um momento depois que ela lançou o prato em trajetória ligeiramente ascendente — o braço continuava estendido, o primeiro dedo e o polegar dobrado mirando o assassino do pai —, a cabeça de Gray Dick saiu voando pela porta aberta para o salão de entrada atrás dele. Por um momento mais longo, o corpo de Gray Dick ficou ali com o pênis apontado para ela como um dedo acusador. Então o pau murchou e o Dick atrás do pau tombou com estrondo para a frente num imenso filé e uma montanha de arroz com ervas.
Lady Oriza, a quem Roland ouviria citada como a Senhora do Prato em algumas de suas perambulações, ergueu o cálice de vinho e brindou ao corpo. Ela disse
3
— Que seu primeiro dia no inferno dure 10 mil anos — murmurou Roland.
Margaret balançou a cabeça em assentimento.
— Sim, e que este seja o mais curto. Um brinde terrível, mas que eu faria com muito prazer a cada um dos Lobos. A cada um e a todos! — Cerrou a mão visível. A luz se extinguindo, ela parecia febril e doente. — Nós tivemos seis, tivemos, sim. Uma meia dúzia em partes iguais. Ele contou a você por que nenhum deles está aqui, para ajudar a encurralar e abater os animais na Época da Ceifa? Ele contou isso, pistoleiro?
— Margaret, não há a menor necessidade — disse Eisenhart. Ajeitou-se com mal-estar na cadeira de balanço.
— Ah, mas talvez haja. Remonta ao que dizíamos antes. Talvez você pague um preço por omitir, mas às vezes paga um mais alto por examiná-lo a fundo. Nossos filhos cresceram livres, sem Lobos com os quais se preocupar. Dei à luz meus primeiros dois, Tom e Tessa, menos de um mês antes de eles chegarem a última vez. Os outros se seguiram, pipocando em perfeita ordem como ervilhas de uma vagem. Os mais moços têm apenas 15 anos. Mas não está vendo?
— Margaret...
Ela o ignorou.
— Mas não teriam tanta sorte com seus próprios filhos, e sabiam. E por isso se foram. Alguns para o extremo norte ao longo do Arco, alguns para o extremo sul. À procura de um lugar onde os Lobos não vão.
Ela virou-se para Eisenhart, e embora falasse com Roland, era o marido que encarava quando disse as palavras finais.
— Um de cada dois; esta é a paga dos Lobos. É o que eles levam a cada vinte anos e mais alguns, há muitos e muitos anos. Exceto pra nós. Eles levaram todos os nossos filhos. Cada... um... um por um. — Curvou-se para a frente e bateu na perna de Roland pouco acima do joelho com grande ênfase. — MAS NÃO ESTÁ VENDO?
O silêncio caiu no alpendre dos fundos. Os novilhos condenados no curral-abatedouro mugiram alienadamente. Da cozinha, chegou a risada infantil em seguida a algum comentário de Andy.
Eisenhart baixara a cabeça. Roland nada via além da extravagante moita do bigode, mas não precisava ver o rosto do homem para saber que chorava ou lutava com muita força para não fazê-lo.
— Eu não o faria ficar arrasado nem por todo o arroz do Arco — disse ela, e acariciou o ombro do marido com infinita ternura. — E eles voltam às vezes, sim, o que é mais do que fazem os mortos, exceto em nossos sonhos. Não são tão velhos que não sintam saudade da mãe, ou tenham perguntas tipo como-fazemos-isto a seu pai. Mas no entanto se foram. E este é o preço da segurança, como você deve saber. — Baixou os olhos para Eisenhart por um momento, uma das mãos no ombro dele e a outra ainda embaixo do avental. — Agora diga que está zangado comigo — disse ela —, para que eu saiba.
Eisenhart fez que não com a cabeça.
— Zangado, não — disse, numa voz abafada.
— E mudou de idéia?
Eisenhart fez que não com a cabeça.
— Coisa velha turrona — disse ela, mas com bem-humorado afeto. — Cabeça-dura como um pau, é, sim, e todos agradecemos.
— Estou pensando nisso — disse ele, ainda sem erguer a cabeça. — Continuo pensando, o que é mais que esperava nesta data tardia... em geral eu tomo uma decisão e ponto final.
“Roland, eu sei que o jovem Jake mostrou a Overholser e aos demais algumas proezas de tiro lá no mato. Talvez pudéssemos lhe mostrar uma coisa bem aqui que vai erguer suas sobrancelhas. Maggie, vá lá dentro e pegue sua Oriza.”
— Não precisa — disse ela, tirando afinal a mão debaixo do avental —, pois eu a trouxe comigo quando saí, eis.
4
Era um prato que tanto Detta quanto Mia teriam reconhecido, um prato azul com um delicado desenho rendado. Um prato para ocasiões especiais. Após um momento, Roland reconheceu a trama rendada pelo que era: a jovem Oriza, brotada da semente do arroz. Quando sai Eisenhart bateu os nós dos dedos no prato, este emitiu um tinido característico. Parecia porcelana, mas não era. Vidro, então? Algum tipo de vidro?
Roland estendeu a mão para pegá-lo com a atitude solene, reverente, de alguém que conhece e respeita armas. Ela hesitou, mordendo o canto do lábio. O pistoleiro enfiou a mão no coldre, cuja tira soltara antes da refeição do meio-dia diante da igreja e retirou o revólver. Entregou-o a ela, coronha para a frente.
— Nãão — disse ela, deixando a palavra prolongar-se num longo Suspiro. — Não precisa me oferecer sua arma como garantia, Roland. Creio que se Vaughn confia em você a ponto de trazê-lo pra casa, eu posso entregar-lhe em confiança a minha Oriza. Mas cuidado como toca o prato, senão vai perder outro dedo, e acho que você não pode se permitir isso, pois vejo que já tem dois mutilados na mão direita.
Um único olhar no prato azul, a Oriza da sai, deixou claro como fora sábio o aviso. Ao mesmo tempo, Roland sentiu um brilhante lampejo de excitação e apreciação. Haviam-se passado longos anos desde que vira uma nova arma de valor, e jamais alguma como aquela.
O prato era de metal, não vidro, uma liga leve e forte. Do tamanho de um prato de jantar comum, 30 centímetros (e um tiquinho mais) de diâmetro. Três quartos da borda haviam sido afiados para um corte suicida.
— Não se trata jamais da questão de por onde segurá-lo, mesmo que estejamos apressados — disse Margaret —, pois, você sabe...
— Sim — disse Roland, num tom de profundíssima admiração.
Dois dos caules de arroz cruzavam-se no que poderia ter sido a Grande Letra Zn , que por si só quer dizer ao mesmo tempo zi (eternidade) e agora. No ponto em que esses dois talos se cruzavam (só um olho aguçado poderia identificá-los do desenho maior, para começar), a borda do prato era não apenas embotada, mas ligeiramente mais grossa. Boa para segurar.
Roland virou o prato ao contrário. Embaixo, no centro, ficava uma boquilha de metal. Para Jake, talvez tivesse parecido o apontador de lápis de plástico que ele levava para a escola no primeiro período. Para Roland, que jamais vira um apontador de lápis, parecia o casulo de algum inseto.
— Isto faz o barulho sibilante quando o prato voa, entende? — explicou ela. Vira a honesta admiração de Roland e reagia a isso, a cor da tez vivida e os olhos brilhantes. Roland ouvira aquele tom de entusiástica explicação várias vezes antes, mas já fazia um longo tempo.
— Não tem outra finalidade?
— Nenhuma — disse ela. — Mas precisa assobiar, pois isso faz parte da história, não é?
Roland assentiu. Claro que fazia.
As Irmãs de Oriza, disse Margaret Eisenhart, eram um grupo de mulheres que gostavam de ajudar os outros...
— E fofocar entre si mesmas — grunhiu Eisenhart, mas com um ar bem-humorado.
— É, também — reconheceu ela.
As irmãs cozinhavam para enterros e festivais (elas é que haviam preparado o banquete da noite anterior no Pavilhão). Realizavam às vezes círculos de costura e reuniões sociais em que confeccionavam colchas e edredons, depois que alguma família perdia seus pertences por incêndio ou quando as enchentes fluviais vinham em intervalos de seis ou oito anos e afundavam as pequenas propriedades mais próximas do Devar-Tete Whye. Eram as irmãs que mantinham o Pavilhão bem-arrumado e o Salão da Assembléia da Cidade bem varrido no interior e bem conservado no exterior. Organizavam bailes para os jovens e participavam como acompanhantes. Eram às vezes contratadas pela gente rica (“Como os Took e seus parentes, eram, sim”, disse ela) para fornecer e servir o bufê de festas de casamento, e esses eventos eram sempre excelentes, a conversa do pessoal de Calla durante meses seguidos, claro. Entre elas, mexericavam, sim, Margaret não negaria; também jogavam cartas de baralho, Pontas e Castelos.
— E vocês lançam o prato — disse Roland.
— Ié — disse ela —, mas você precisa entender que só fazemos isso pela diversão. Caça é atividade dos homens, e eles são exímios no bah. — Mais uma vez acariciava o ombro do marido, agora meio nervosa, achou Roland. Também achou que se os homens realmente se saíssem bem com o bah, ela não teria trazido de dentro de casa aquela bela e letal coisa debaixo do avental, para começar. Nem Eisenhart a teria encorajado.
Roland abriu o saquinho de tabaco, tirou uma palha de milho de Rosalita e lançou-a em direção à borda afiada do prato. A palha de milho flutuou na varanda por um momento depois, cortada à perfeição em duas. Só pela diversão, pensou Roland, e quase sorriu.
— Que metal é este? — perguntou. — Sabes?
Ela ergueu ligeiramente as sobrancelhas a essa forma de tratamento, mas não comentou nada.
— Titânio é como Andy o chama. Vem do grande prédio de uma fabrica antiga, no extremo norte, em Calla Sen Chre. Há várias ruínas lá. Eu nunca estive lá, mas já ouvi as histórias. Parecem fantasmagóricas.
Roland assentiu com a cabeça.
— E os pratos... como são feitos? Andy sabe?
Ela fez que não com a cabeça.
— Não sabe ou não quer dizer, não sei qual das duas coisas. São as senhoras da Calla Sen Chre que os fazem, e enviam para as Callas de toda a região. Embora eu ache que a Calla Divine fica mais distante no sul do que esse tipo de comércio alcança.
— São as senhoras que os fazem — refletiu Roland. — As senhoras.
— Em algum lugar há uma máquina que ainda os faz, é só isso — disse Eisenhart. Roland achou divertido o tom de rígida defesa. — Trata-se apenas de apertar um botão, imagino.
Margaret, olhando-o com um sorriso feminino, nada disse em resposta a isso, a favor ou contra. Talvez não soubesse, mas sem a menor dúvida conhecia a política conjugai que mantinha um casamento harmonioso.
— Então há Irmãs no norte e no sul daqui, ao longo do Arco — disse Roland. — E todas lançam pratos?
— Sim... de Calla Sen Chre a Calla Divine, no sul de nós. Mais ao sul ou ao norte, não sei. Gostamos de ajudar e de conversar. Lançamos nossos pratos uma vez por mês, em memória de como Lady Oriza fez a Gray Dick, mas algumas de nós não são nada boas nisso.
— Você é boa no lançamento, sai?
Ela se calou, mordendo mais uma vez o canto do lábio.
— Mostre a ele — grunhiu Eisenhart. — Mostre a ele e acabe logo com isso.
5
Desceram os degraus, a mulher do fazendeiro na frente, Eisenhart em seguida, Roland o terceiro. Atrás deles, a porta da cozinha abriu-se e fechou-se batendo.
— Glória a Deus, dona Eisenhart vai lançar o prato! — gritou entusiasmado Benny Slightman. — Jake! Você não vai acreditar nisso!
— Mande-os de volta pra dentro, Vaughn — disse ela. — Não precisam ver isto.
— Não, deixe que vejam — disse Eisenhart. — Não faz mal a um garoto ver uma mulher sair-se bem.
— Mande-os de volta, Roland, sim? — Ela olhou-o, corada, atarantada e muito bonita.
A Roland parecia dez anos mais moça do que quando chegara à varanda, mas ele se perguntou como ela ia atirar naquele estado. Era uma coisa que ele queria muito ver, pois emboscada era um trabalho brutal, rápido e emocional.
— Eu concordo com seu marido — disse. — Deixaria que ficassem.
— Como quiser — disse ela.
Roland percebeu que na verdade estava satisfeita, queria um público, e a esperança dele se intensificou. Achava cada vez mais provável que aquela bela mulher de meia-idade, seios pequenos e cabelos grisalhos tivesse um coração de caçador. Não o coração de um pistoleiro, mas àquela altura ele aceitaria alguns caçadores — alguns matadores —, homens ou mulheres.
Ela se encaminhou para o celeiro. Quando chegaram a 45 metros dos caras empalhados que guardavam a porta, Roland tocou o braço dela e a deteve.
— Não — disse ela —, longe demais.
— Eu já a vi lançar de mais uma vez e meia desta distância — disse o marido, e manteve-se firme diante do olhar zangado dela. — Vi, sim.
— Não com um pistoleiro da linhagem do Eld em pé junto ao meu ombro direito, não viu, não — disse ela, mas ficou onde estava.
Roland foi até a porta do celeiro e tirou a sorridente cabeça de raiz-forte do cara empalhado no lado esquerdo. Entrou no celeiro, onde viu um compartimento cheio de raiz-forte recém-colhida, e ao lado um de batata. Pegou uma das batatas e assentou-a nos ombros do cara empalhado, onde estivera a raiz-forte. Era uma batata de bom tamanho, mas mesmo assim o contraste ficou cômico; o parrudo cara empalhado agora parecia o Sr. Microcéfalo num espetáculo de parque de diversões ou feira de rua.
— Ah, Roland, não! — gritou ela, parecendo verdadeiramente chocada. — Eu jamais conseguiria!
— Eu não acredito em você — disse ele, e ficou ao lado. — Lance.
Por um momento, achou que ela não ia lançar. Olhou em volta à procura do marido. Se Eisenhart ainda continuasse parado a seu lado, pensou Roland, ela teria atirado o prato nas mãos dele e corrido para a casa, sem se incomodar também que ele se cortasse na arma. Mas Vaughn Eisenhart se retirara para o pé dos degraus. Com os garotos a seu lado, Benny Slightman olhando com simples interesse, Jake com atenção mais concentrada, as sobrancelhas comprimidas uma na outra e o sorriso agora desaparecido do rosto.
— Roland, eu...
— Nada disso, sai, eu lhe peço. Toda aquela conversa de saltar por cima das partes foi muito boa, mas agora eu a vejo fazendo o mesmo. Lance.
Ela recuou um pouco, os olhos arregalados, como se houvesse levado um tapa na cara. Então virou-se de frente para a porta do celeiro e levou a mão direita acima do ombro esquerdo. O prato tremeluziu à luz tardia, agora mais fúcsia que vermelha. Os lábios haviam-se afinado numa linha branca. Por um instante, todo o mundo se imobilizou.
— Riza! — gritou ela numa voz esganiçada, furiosa, e jogou o braço para a frente. A mão se abriu, o dedo indicador apontado precisamente ao longo da trajetória que o prato ia seguir.
De todos no quintal (os vaqueiros também haviam parado para olhar), só os olhos de Roland eram aguçados o bastante para acompanhar o vôo do projétil.
Exato!, ele exultou. Exato como sempre!
O prato emitiu um certo gemido oco quando voou disparado acima do quintal de terra. Menos de dois segundos após deixar a mão dela, a batata jazia estendida em duas partes, uma perto da mão enluvada do cara empalhado e a outra à esquerda. O próprio prato fincou-se ao lado da porta do celeiro, tremendo.
Os garotos fizeram uma aclamação. Benny ergueu a mão como o novo amigo ensinara e Jake bateu os cinco dedos erguidos nos dele.
— Grande jogada, sai Eisenhart! — gritou Jake.
— Ótimo lançamento! Eu agradeço! — acrescentou Benny.
Roland observou que os lábios da mulher se desprenderam dos dentes a esse louvor infeliz, bem-intencionado... ela parecia um cavalo que viu uma cobra.
— Meninos — disse ele. — Eu entraria agora, se fosse vocês.
Benny ficou aturdido. Jake, contudo, deu mais uma olhada em Margaret Eisenhart e entendeu. Você fez o que tinha de fazer... e então se desencadeou a reação.
— Vamos, Ben — disse.
— Mas...
— Venha. — Jake pegou o novo amigo pela camisa e rebocou-o de volta à porta da cozinha.
Roland deixou a mulher ficar onde estava por um momento, cabisbaixa, tremendo com a reação. Uma cor forte ainda lhe ardia na face, mas em todas as outras partes a pele ficara pálida como leite. Ele achou que ela lutava para não vomitar.
Foi até a porta do celeiro, pegou o prato no lugar de segurar e puxou-o. Espantou-o o grande esforço necessário para primeiro mexer o prato de um lado para o outro, soltá-lo e depois puxá-lo. Levou-o de volta para ela, entregou-lhe.
— Tua ferramenta.
Por um momento ela não o pegou, só olhou Roland com uma espécie de ódio intenso.
— Por que você zomba de mim, Roland? Como sabe que Vaughn me tirou do clã dos mannis? Diga isso, eu lhe peço.
Era a rosa, claro — uma intuição deixada pelo toque da rosa —, e também a história de seus traços fisionômicos, uma versão feminina do rosto do velho Henchick. Mas como ele sabia o que sabia não era parte da vida daquela mulher, e apenas abanou a cabeça.
— Não posso. Mas eu não zombo de ti.
Margaret Eisenhart agarrou bruscamente Roland pelo pescoço. O apertão era seco e tão quente que a pele parecia febril. Puxou o ouvido dele para a boca nervosa, torta. Ele achou que sentia o cheiro de cada pesadelo que ela devia ter tido desde que decidira abandonar seu povo pelo grande fazendeiro de gado de Calla Bryn Sturgis.
— Eu o vi conversando com Henchick ontem à noite — disse ela. — Vai falar mais com ele? Vai, não vai?
Roland balançou a cabeça, siderado pelo apertão dela. A força. As pequenas baforadas de ar junto ao seu ouvido. Será que um lunático se escondia no fundo de qualquer um, mesmo de uma mulher como aquela? Ele não sabia.
— Ótimo. Eu agradeço. Diga a ele que Margaret do clã do Caminho Vermelho vive muito bem com seu marido pagão, sim, ainda muito bem. — O apertão se estreitou. — E diga a ele que ela não se arrepende de nada! Fará isto por mim?
— Sim, senhora, se assim o deseja.
Ela arrancou o prato dele, sem temer a borda letal. Deu-lhe a impressão de que o objeto a equilibrara. Encarou-o com olhos nos quais nadavam lágrimas não derramadas.
— Foi da gruta que você falou com meu pai? A Gruta do Vão da Porta?
Roland balançou a cabeça.
— Por que nos visitaria, seu cauteloso fanático por armas?
Eisenhart juntou-se a eles. Olhou inseguro para a mulher que sofrerá exílio de seu povo por ele. Por um momento, ela o olhou como se não o conhecesse.
— Eu só faço as vontades de ka — disse Roland.
— Ka! — gritou ela, e ergueu o lábio. Um esgar transformou-lhe os traços bonitos numa feiúra quase assustadora. Teria apavorado os meninos. — A desculpa de todo desordeiro! Juntar o rabo com o resto da sujeira!
— Eu só faço o que manda o ka e assim fará você — disse Roland.
Ela olhou-o, parecendo não compreender. Roland retirou a mão quente que o agarrara e apertou-a, não muito a ponto de dor.
— E assim fará você.
Ela sustentou o olhar dele por um momento, depois baixou os olhos.
— Sim — murmurou. — Oh, sim, assim faremos todos. — Aventurou-se a olhá-lo mais uma vez. — Vai dar meu recado a Henchick?
— Sim, senhora, como eu disse.
O quintal escuro ficou silencioso, a não ser pelo distante relincho de um rebelão. Os vaqueiros continuavam encostados na cerca da muda. Roland encaminhou-se sem pressa até eles.
— Noite, gente.
— Espero que esteja bem — disse um deles e tocou a testa.
— Que fique ainda melhor — disse Roland. — A dona lançou o prato, e o lançou bem, dizem sim?
— Eu agradeço — concordou outro deles. — Sem ferrugem alguma, a dona.
— Sem ferrugem — concordou Roland. — E querem saber de uma coisa agora, pessoal? Uma palavra pra enfiarem debaixo dos chapéus, como costumamos dizer?
Eles o olharam cautelosos.
Roland ergueu a cabeça, sorriu para o céu. Depois tornou a olhá-los.
— Acerto meu relógio e garanto. Talvez queiram falar disso. Contar o que viram.
Eles o encaravam cautelosos, não dispostos a admitir.
— Falem disso, que eu mato cada um de vocês — disse Roland. — Entendem o que eu digo?
Eisenhart tocou o seu ombro.
— Roland, com certeza...
O pistoleiro soltou o ombro da mão dele sem olhá-lo.
— Vocês me entendem?
Eles balançaram a cabeça.
— E acreditam em mim?
Balançaram mais uma vez. Pareciam assustados. Roland alegrou-se ao ver isso. Tinham razão de estar com medo.
— Agradeçam.
— Agradeço — repetiu um deles. Suava copiosamente.
— Sim — disse o segundo.
— Agradeço muitíssimo — disse o terceiro, e lançou uma baforada de tabaco para o outro lado.
Eisenhart tentou de novo.
— Roland, ouça-me, eu peço...
Mas Roland não o ouviu. Tinha a mente em chamas de idéias. Num piscar de olhos, viu o curso deles com perfeita clareza. O curso deles neste lado, pelo menos.
— Onde está o robô? — perguntou ao rancheiro.
— Andy? Foi para a cozinha com os meninos, eu acho.
— Bom. Você tem um escritório ali? — Indicou o celeiro com a cabeça.
— Sim.
— Vamos pra lá, então. Eu, você e sua senhora.
— Eu gostaria de levá-la pra dentro de casa um pouco — disse Eisenhart. Eu gostaria de levá-la a qualquer lugar longe de você, Roland leu nos olhos dele.
— Nossa confabulação não será longa — disse Roland, e com perfeita honestidade. Já vira tudo que precisava.
6
O escritório da fazenda tinha uma única cadeira atrás da escrivaninha. Margaret ocupou-a. Eisenhart sentou-se num banco para pés. Roland açocorou-se de costas para a parede e a bolsa aberta diante de si. Mostrara-lhes o mapa dos gêmeos. Eisenhart não entendera logo o que ele observara (talvez não entendesse nem agora), mas a mulher sim. O pistoleiro não achou surpreendente que ela não houvesse conseguido ficar com os mannis. Os mannis eram pacíficos. Margaret Eisenhart não. Pelo menos quando se chegava abaixo de sua superfície, de qualquer modo.
— Não contem nada sobre isso — disse ele.
— Ou você vai nos matar, como nossos vaqueiros? — perguntou ela.
Roland lançou-lhe um olhar paciente, e ela enrubesceu.
— Me desculpe, Roland. Estou transtornada. Da idéia de lançar prato em sangue quente.
Eisenhart passou o braço em volta dela. Desta vez ela o aceitou, satisfeita, e deitou a cabeça em seu ombro.
— Quem mais em seu grupo sabe lançar bem assim? — perguntou Roland. — Alguma delas?
— Zalia Jaffords — respondeu ela, sem pestanejar.
— Fala a verdade?
Ela assentiu com a cabeça enfaticamente.
— Zalia poderia ter cortado aquela batata em duas, de vinte passos mais atrás.
— Outras?
— Sarey Adams, mulher de Diego. E Rosalita Munoz.
Roland ergueu as sobrancelhas a isto.
— Ié — disse ela. — Além de Zalia, Rosie é a melhor. — Uma breve pausa. — E acho que eu também.
Ele sentiu como se um enorme peso lhe saísse das costas. Convencera-se de que de algum modo iam ter de trazer armas de Nova York ou encontrá-las no lado leste do rio. Agora parecia que talvez não fosse necessário. Ótimo. Tinham outros negócios em Nova York — assuntos envolvendo Calvin Tower. Não queria misturar os dois, a não ser que tivesse absolutamente de fazê-lo.
— Eu gostaria de me encontrar com vocês quatro na casa-reitoria do Velho. E só vocês quatro. — Lançou um breve olhar a Eisenhart e de volta a Margaret. — Sem os maridos.
— Ora, espere só um minuto, porra — disse Eisenhart.
Roland ergueu a mão.
— Nada foi decidido ainda.
— É a forma como ainda não foi decidido que não me interessa — disse Eisenhart.
— Cale-se um minuto — disse Margaret. — Quando gostaria de nos encontrar?
Roland calculou. Faltavam 24 dias, talvez só 23, e muito mais ainda para ver. E havia a coisa escondida na igreja do Velho, aquilo para ter de resolver também. E o velho manni, Henchick...
Mas no fim ele sabia, chegaria o dia e as coisas iam se desenrolar com uma rapidez chocante. Sempre se desenrolavam. Cinco minutos, dez no máximo, e tudo estaria acabado, para o bem ou para o mal.
O segredo era estar pronto quando chegassem esses poucos minutos.
— Daqui a dez dias — disse ele. — À noite. Eu gostaria de vê-las girando e girando.
— Tudo bem. Essa parte podemos fazer. Mas Roland... Eu não lançarei sequer um único prato, nem levantarei um único dedo, se meu marido continuar dizendo não.
— Eu entendo — disse Roland, sabendo que ela ia fazer o que ele dissesse, gostasse ou não. Quando chegasse a hora, todos eles iam.
Havia uma pequena janela na parede do escritório, suja e adornada com teias de aranha, mas transparente o bastante para que eles vissem Andy a atravessar marchando o quintal, os olhos elétricos faiscando intermitentes no crepúsculo que se intensificava. Zumbia consigo mesmo.
— Eddie diz que os robôs são programados para fazer certas tarefas — disse ele. — Andy faz as tarefas que você lhe propõe?
— A maioria, sim — disse Eisenhart. — Não sempre. E nem sempre está por perto, você sabe.
— É difícil acreditar que tenha sido programado para não fazer mais nada além de cantar cantigas tolas e dizer horóscopos — cismou Roland.
— Talvez o Povo Antigo lhe desse passatempos — disse Margaret Eisenhart —, e agora que suas principais tarefas se foram, perdidas no tempo, você sabe como é, ele se concentra nos passatempos.
— Você acha que foi o Povo Antigo quem o fez.
— Quem mais? — perguntou Vaughn Eisenhart. Andy passara e o quintal ficou vazio.
— Ié, quem mais? — disse Roland, ainda cismando. — Quem mais teria a inteligência e as ferramentas? Mas o Povo Antigo já havia desaparecido 2 mil anos antes de os Lobos começarem a atacar Calla. Dois mil ou mais. Portanto, o que eu gostaria de saber é quem ou o que programou Andy para não falar deles, exceto dizer a vocês quando eles vão chegar. E eis aqui outra questão, não tão interessante quanto a anterior, mas ainda assim curiosa: por que ele lhes diz esse tanto se não pode, ou não quer, dizer-lhes nada mais?
Eisenhart e a mulher continuavam se entreolhando, estupefatos. Ainda não tinham digerido até o fim a primeira parte do que Roland dissera. O pistoleiro não se surpreendeu, mas ficou meio decepcionado com eles. Na verdade, muita coisa ali era óbvia. Se, assim era, a gente começa a pensar. Para ser justo com os Eisenhart, os Jaffords e os Overholser de Calla, ele imaginou, o pensamento lógico não era tão fácil quando seus filhos corriam perigo.
Ouviram uma batida na porta. Eisenhart gritou:
— Entre!
Era Ben Slightman.
— O gado foi todo recolhido para dormir, patrão. — Tirou os óculos e limpou-os com a camisa. — E os meninos saíram com a tenda de Benny. Andy está de tocaia perto, portanto, tudo bem. — Olhou para Roland. — É cedo para os gatos da montanha, mas se algum chegasse, Andy daria a meu garoto pelo menos um tiro de aviso com seu bah, foi-lhe dada esta informação e respondida: “Ordem gravada.” Se Benny errasse, Andy ficaria entre os meninos e o gato. É programado estritamente para defesa, e jamais conseguimos mudar isso, mas se o gato continuasse avançando...
— Andy o despedaçaria — disse Eisenhart, com uma espécie de sombria satisfação.
— É rápido, ele? — perguntou Roland.
— Pode apostar — disse Slightman. — Não parece, não é, tão alto e desengonçado como ele? Mas, sim, desloca-se como um raio lubrificado quando quer. Mais rápido do que qualquer gato da montanha. Acreditamos que deve funcionar com base em antimônio.
— É muito provável — disse Roland, ausente.
— Não se preocupe com isso — disse Eisenhart —, mas escute, Ben... qual seria o motivo, na sua opinião, de Andy não falar dos Lobos?
— A programação dele...
— Ié, mas é como Roland nos chamou a atenção pouco antes de você entrar, e devíamos ter visto isso sozinhos há muito tempo, se roí o Povo Antigo que o pôs em movimento e se o Povo Antigo se extinguiu ou seguiu adiante, muito antes de os Lobos aparecerem, entende o problema?
Slightman pai assentiu, depois tornou a pôr os óculos.
— Deve ter alguma coisa a ver com os Lobos nos dias dos antepassados, não acha? Há muitos deles para Andy distingui-los uns dos outros. É o que posso deduzir.
É mesmo?, pensou Roland.
Ele apresentou o mapa dos gêmeos Tavery, abriu-o e bateu num arroio no campo montanhoso a nordeste da cidade. O arroio serpeava cada vez mais adentro naquelas montanhas antes de terminar numa das antigas minas de granada de Calla. Esta era um poço que penetrava uns 10 metros numa das encostas e depois parava. O lugar não era realmente muito parecido com o desfiladeiro da Flecha em Mejis (não existia estanho no arroio, por exemplo), mas havia uma semelhança crucial: os dois eram becos sem saída. E, Roland sabia, a gente tenta servir-se novamente do que já serviu uma vez. Que ele escolhesse esse arroio, esse poço de mina sem saída, para sua emboscada aos Lobos fazia perfeito sentido. Para Eddie, Susannah, os Eisenhart e agora o capataz de Eisenhart. Faria sentido para Sarey Adams e Rosalita Munoz. Faria sentido para o Velho. Ele ia revelar esta parte do plano a outros, e também faria sentido para eles.
E se houvessem omitido coisas? E se parte do que ele disse fosse uma mentira?
Se os Lobos viessem a saber da mentira e acreditassem nela?
Isso seria bom, não? Bom se eles arremetessem e atacassem na direção certa, mas na coisa errada?
Sim, mas eu vou acabar precisando confiar em alguém para contar toda a verdade. Em quem?
Susannah não, porque ela voltara agora a ser duas, e ele não confiava na outra.
Nem Eddie, porque ele poderia deixar escapar um lapso crucial para Susannah, e então Mia saberia.
E tampouco Jake, porque se tornara amigo do peito de Benny Slightman.
Ele estava novamente sozinho, e essa condição jamais lhe parecera mais solitária.
— Veja — disse ele, batendo no arroio. — Aqui está um lugar em que poderia pensar, Slightman. Fácil para entrar, não tão fácil para sair. Imagine se levássemos todas as crianças de uma determinada idade e as escondêssemos em segurança nesse pedacinho de mina?
Viu a compreensão começar a fazer-se luz nos olhos de Slightman. E alguma coisa mais também. Esperança, talvez.
— Fazê-las de isca, quer dizer. Pistoleiro, isso é difícil.
Roland, que não tinha a mínima intenção de pôr as crianças de Calla na mina de granada abandonada — nem em qualquer lugar perto dela —, balançou a cabeça.
— Mundo difícil, às vezes, Eisenhart.
— Eu agradeço — respondeu Eisenhart, mas tinha a expressão sombria. Tocou o mapa. — Talvez desse certo. Sim, talvez desse certo... se você conseguisse sugar todos os Lobos para dentro.
Onde quer que as crianças terminem, vou precisar de ajuda para pô-las lá, pensou Roland. Terão de ser pessoas que saibam aonde ir e o que fazer. Um plano. Mas ainda não. Por enquanto eu posso fazer o jogo que estou fazendo. É igual a Castelos. Porque alguém está escondido.
Ele sabia disso? Não, ele não sabia.
Farejava? Sim, ele farejava.
Agora são 23, pensou Roland. Vinte e três dias até os Lobos.
Haveria de ser suficiente.
CAPÍTULO 6
A História do Grand-père