A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 21 de 43

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

Capítulo 7

O que Pokey Slidell diz sob um incandescente céu de outono, com o cricri dos últimos grilos da estação elevando-se da alta relva branca nos dois lados deles, é:

— Foi bom conhecer você, Jamie Jaffords, falo a verdade.

Tinha um sorriso no rosto como nenhum que Jamie já vira antes, mas com apenas 19 anos e morando no que alguns chamam de a Borda e outros o Crescente, jamais viu muita coisa antes. E jamais verá, do jeito que parece agora. É um sorriso nauseado, mas sem covardia alguma. Ali eles estão sob o céu de seus pais, e a escuridão logo os cobrirá. Chegaram à sua hora de agonia.

No entanto, o aperto é forte quando toma a mão de Pokey.

— Você ainda nem terminou de me conhecer, Pokey — diz.

— Espero que esteja certo.

A nuvem de poeira avança para eles. Num minuto, talvez menos, conseguirão ver os cavaleiros que a levantam. E, mais importante, os cavaleiros que a levantam conseguirão vê-los.

Eamon Doolin diz:

— Sabem, acho que a gente devia ficar naquele fosso — aponta o lado direito da estrada — e nos abaixarmos o máximo possível no fundo. E aí, assim que eles passarem, podemos saltar e atacá-los.

Molly Doolin está de calça de seda preta justa e uma blusa de seda branca aberta na garganta, expondo um pequeno amuleto de prata da colheita: Oriza com o punho erguido. Na mão direita, Molly segura um prato, aço ao titânio azul pintado com um delicado rendilhado de verde arroz primaveril. Pendurado no ombro, um saco de vime debruado de seda. Nele há mais cinco pratos, dois seus e três de sua mãe. Os cabelos ruivos brilham tanto na resplandecente luz que a cabeça parece estar em chamas. Logo, logo, estarão em chamas, é a verdade.

— Pode fazer o que quiser, Eamon Doolin — ela lhe diz. — Quanto a mim, vou ficar bem aqui onde eles podem me ver e gritar o nome da minha irmã gêmea pra que ouçam muito bem. Podem cavalgar por cima de mim, mas vou matar um deles ou cortar as pernas, por baixo, de um de seus malditos cavalos antes que me derrubem, até aí eu faço.

Não há tempo para mais nada. Os Lobos saem da depressão que marca a entrada para o terreno da pequena propriedade de Arra, e os quatro nativos de Calla os vêem e não se fala mais em esconder-se. Jamie quase espera que Eamon Doolin, homem de maneiras brandas e já perdendo o cabelo aos 23 anos, largue o bah e corra em disparada para a relva alta com as mãos erguidas, para mostrar sua rendição. Em vez disso, desloca-se para junto da mulher e encaixa uma flecha. Ouve-se um baixo zumbido quando ele estica a corda bem apertada.

Eles param do outro lado da estrada com suas botas empoeiradas. Param bloqueando o caminho. E o que enche Jamie como uma bênção é um senso de graça. É a coisa certa a fazer. Vão morrer ali, mas está tudo bem. Melhor morrer do que não interferir e apenas vê-los levarem mais crianças. Cada um deles perdeu um gêmeo, e Pokey, que é de longe o mais velho de todos, perdeu um irmão e um filho pequeno para os Lobos. Isto é o certo. Sabem que os Lobos podem exigir um tributo de vingança dos demais pela resistência que estão opondo, mas não tem importância. Isto é o certo.

— Venham — grita Jamie, e arma seu bah... uma e duas vezes, então clique. — Venham, seus abutres! Seus bostas covardes, venham e tomem algumas! Digam Calla! Digam Calla Bryn Sturgis!

Há um momento no calor do dia quando os Lobos parecem não se aproximar nem um pouco, mas apenas tremeluzir no lugar. Então o barulho dos cascos dos cavalos, antes surdo e abafado, torna-se agudo. E os Lobos parecem saltar à frente pelo ar enxameando-se. Usam calças da mesma cor cinzenta dos pêlos dos cavalos. Mantos com capuzes verde-escuros flutuam atrás deles. Os capuzes rodeiam máscaras (têm de ser máscaras) que transformam as cabeças dos quatro cavaleiros restantes em cabeças de lobos famintos rosnando.

— Quatro contra quatro! — grita Jamie. — Quatro contra quatro se igualam, defendem seu terreno, seus lixos de merda! Não fujam um passo!

Os quatro Lobos avançam a toda para cima deles nos cavalos cinzentos. Os homens erguem os bahs. Molly, às vezes chamada Molly Vermelha, mais pelo temperamento que pelos cabelos ruivos, ergue seu disco acima do ombro esquerdo. Não parece furiosa agora, mas com sangue-frio e calma.

Os dois Lobos nas pontas têm varas-de-fogo. Erguem-nas. Os dois no meio lançam para trás os punhos fechados, calçados em luvas verdes, para atirar alguma coisa. Pomos de ouro, pensa Jamie, friamente. É isso o que são.

— Resistam, rapazes — diz Pokey. — Resistam... resistam... já!

Ele sai voando com uma vibração, e Jamie vê a seta do bah passar pouco acima da cabeça do segundo Lobo à direita. A de Eamon atinge o pescoço do cavalo à extrema esquerda. O animal solta um grito louco, lancinante, e cambaleia no mesmo momento em que os Lobos começam a fechar os 40 metros de distância. Colide ao cair com o cavalo vizinho assim que o cavaleiro desse segundo cavalo atira a coisa em sua mão. E de fato um dos pomos de ouro, mas voa muito fora da rota e nenhum de seus sistemas de orientação consegue fixá-lo em alguma coisa.

A seta de Jamie atinge o peito do terceiro cavaleiro. Jamie inicia um grito de triunfo que se extingue em consternação antes mesmo de sair-lhe da garganta. A seta ricocheteia do peito da coisa exatamente como teria ricocheteado do peito de Andy, ou de uma pedra no trato Filho-da-Puta.

Usando armadura, ah, seu veado, você está usando armadura sob essa duas vezes maldita...

O outro pomo de ouro faz um vôo certeiro, atingindo Eamon Doolin em cheio no rosto. Sua cabeça explode num jato de sangue, osso e massa cinzenta farinácea. O pomo de ouro voa talvez uns 30 palmos, rodopia e retorna. Jamie se abaixa e ouve-o chispar acima da sua cabeça, emitindo um zumbido baixo, intenso, ao se deslocar.

Molly não se mexeu nenhuma vez, nem quando é atingida pela chuveirada de sangue e miolos do marido. Agora ela berra:

— ESTE É POR MINNIE, SEUS FILHOS DE MERETRIZES! — e lança o prato.

A distância é muito curta a essa altura — mal chegava a haver alguma distância —, mas ela o lança com força, e o prato sobe assim que deixa sua mão.

Força demais, querida, pensa Jamie ao se abaixar da pancada de uma vara-de-fogo (a vara-de-fogo também emite aquele zumbido intenso, selvagem). Força demais, pode apostar.

Mas o Lobo em que Molly mirou cavalga na verdade ao encontro do prato ascendente. Atinge-o no ponto em que o capuz verde da coisa traspassa a máscara de Lobo que usa. Ouve-se um ruído estranho, abafado, chump!, e a coisa cai para trás do cavalo com as mãos enluvadas de verde adejando acima.

Pokey e Jamie aplaudem feito loucos, mas Molly apenas enfia com sangue-frio a mão no saco para pegar outro prato, todos aninhados à perfeição ali, com os arcos embotados para segurá-los apontados para cima. Ela o está retirando quando uma das varas-de-fogo decepa-lhe o braço do corpo. Molly cambaleia, os dentes arreganhados atrás dos lábios, como numa rosnadela ameaçadora, e cai sobre um joelho, quando sua blusa irrompe em chamas. Jamie se assombra ao vê-la tentar pegar o prato preso na mão decepada que jaz na poeira da estrada.

Os três Lobos restantes passaram por eles. O que Molly atingiu com o prato está estendido no chão, debatendo-se furiosamente, as mãos enluvadas adejando para cima e para baixo no céu como tentando dizer: “Que se pode fazer? Que se pode fazer com esses malditos veados?”

Os outros três manobram as montarias com tanta destreza quanto uma equipe treinada de soldados de cavalaria e precipitam-se de volta para cima deles. Molly agarra o prato dos próprios dedos mortos e então tomba para trás, engolfada pelo fogo.

— Resista, Pokey! — grita Jamie histericamente quando a morte deles avança a toda em sua direção sob o céu de aço incandescente. — Resista, que os deuses os amaldiçoem!

E continua aquele sentimento de graça quando ele sente o cheiro da carne carbonizada dos Doolin. Isso é o que deviam ter feito todo o tempo, sim, todos eles, pois os Lobos podem ser derrubados, embora eles na certa não vivam para contar e esses vão levar consigo seu compadre morto, portanto ninguém saberá.

Sente-se a vibração da corda esticada quando Pokey dispara outra seta e em seguida um pomo de ouro o atinge no centro exato e ele explode dentro das roupas, vomitando sangue, carne rasgada das mangas, dos punhos, dos botões rebentados da braguilha. Mais uma vez Jamie fica empapado, desta vez do guisado quente que era seu amigo. Ele dispara seu próprio bah, e vê a seta arranhar o lado de um cavalo cinzento. Sabe que é inútil abaixar-se, mas mesmo assim se abaixa e alguma coisa rodopia acima de sua cabeça. Um dos cavalos golpeia-o com força ao passar, derrubando-o no fosso onde Eamon propôs que se escondessem. O bah voa-lhe da mão. Ele fica deitado ali, olhos abertos, sem se mexer, sabendo que quando eles manobrarem novamente os cavalos de volta não lhe restará mais nada além de tentar fingir-se de morto e esperar que o deixem para trás ao passarem. Não o deixarão, claro que não o deixarão, mas esta é a única coisa que ele tem a fazer e assim o faz, tentando dar aos olhos a aparência vítrea da morte. Mais alguns segundos depois, Jamie sabe, não terá de fingir. Sente cheiro de pó, ouve os grilos no mato, e agarra-se àquelas coisas, sabendo que são as últimas que irá cheirar e ouvir para sempre, que a última coisa que verá serão os Lobos, esmagando-o com suas rosnadelas imóveis.

Retornam martelando com força.

Um deles volta-se na sela e atira um pomo de ouro da mão enluvada ao passar. Mas, ao atirá-la, a montaria do cavaleiro salta o corpo do Lobo tombado, que continua estendido a debater-se na estrada, embora agora suas mãos mal se levantem. O pomo de ouro sobrevoa Jamie, apenas um pouco alto demais. Ele quase o sente hesitar, em busca da presa. Então segue planando sobre o campo.

Os Lobos cavalgam para leste, levantando poeira atrás. O pomo de ouro dá uma reviravolta e sobrevoa mais uma vez Jamie, agora mais alto e devagar. Os cavalos cinzentos contornam a toda velocidade uma curva uns 50 metros a leste e saem do campo visual. A última coisa que ele vê são três mantos verdes, estendidos quase retos para trás e esvoaçando.

Jamie levanta-se no fosso em pernas que ameaçam fletir sob ele. O pomo de ouro faz outro mergulho e sobe voltando, desta vez diretamente para ele, só que agora se move devagar, como se qualquer energia que o propulsione esteja quase esgotada. Jamie avança de rastros de volta para a estrada, ajoelha-se junto aos restos ardendo do corpo de Pokey e pega seu bah. Desta vez, segura-o pela ponta, como se segurasse um maço de flechas. O pomo de ouro aproxima-se dele em velocidade de cruzeiro. Jamie leva o bah ao ombro, e quando a coisa vai para cima dele, dá-lhe uma tacada, fazendo-a voar pelos ares como se fosse um besouro gigante. A coisa cai no pó perto de uma das botas estraçalhadas de Pokey e fica ali zumbindo malevolamente, tentando erguer-se.

— Toma, seu desgraçado! — grita Jamie, e se põe a jogar pó com a mão em concha sobre a coisa. Ele está chorando. — Eis o que você pediu, seu patife! Toma! Toma! — Por fim a coisa desaparece, enterrada sob um monticulo de pó branco que zumbe e treme, mas que acaba ficando imóvel.

Sem se levantar — ele não tem força para encontrar novamente os pés, ainda não, continua mal acreditando que está vivo —, Jamie Jaffords engatinha até o monstro que Molly matou... e ele está morto agora, ou pelo menos estendido imóvel. Ele precisa tirar-lhe a máscara, vê-lo sem disfarces. Primeiro chuta-o com os dois pés, como uma criança tendo um chilique. O corpo do Lobo balança de lado a lado, depois fica novamente imóvel. Um pungente mau cheiro sai da criatura. Uma fumaça fedendo a podre desprende-se da máscara, que parece derreter-se.

Morto, pensa o garoto que vai acabar se tornando o grand-père, o ser humano vivo mais velho de Calla. Morto, sim, não tem a menor dúvida. Então vá lá, seu poltrão! Vá e desmascare-o!

Ele o faz. Sob o sol incandescente de outono, segura a máscara quase putrefata, que parece uma espécie de malha metálica, arranca-a e vê...

 

8

Por um momento, Eddie nem sequer se deu conta de que o homem parou de falar. Continuava absorto na história, hipnotizado. Via tudo com tanta clareza que poderia ter sido ele lá na estrada do Leste, ajoelhado no pó com o bah apoiado no ombro como um bastão de beisebol, pronto para derrubar o pomo de ouro.

Então Susannah passou na cadeira pelo alpendre para o celeiro, com uma cumbuca de ração de galinha no colo. Lançou-lhe um olhar curioso ao passar perto. Eddie despertou. Não fora ali para ser entretido. Imaginou que o fato de que pudesse ser entretido por aquela história dizia alguma coisa sobre si mesmo.

— E? — perguntou Eddie ao velho, depois que Susannah entrou no celeiro. — Que foi que o senhor viu?

— Hem? — Grand-père lançou-lhe um olhar de tão perfeita vacui-dade que Eddie se desesperou.

— Que foi que o senhor viu? Quando tirou a máscara?

Por um momento, aquele olhar vazio — as luzes estão acesas, mas não tem ninguém em casa — perdurou. E então (por pura força de vontade, pareceu a Eddie) o velho retornou. Olhou a casa atrás de si. Olhou as fauces pretas do celeiro e a língua de luz fosfórea lá no fundo. Olhou o próprio terreno em volta.

Assustado, pensou Eddie. Morto de medo.

Eddie tentou dizer a si mesmo que era apenas paranóia de velho, mas mesmo assim sentiu um calafrio.

— Chegue mais perto — murmurou o avô, e quando Eddie o fez: — O único a quem já contei foi meu filho Luke... o pai de Tian, você sabe. Anos e anos depois, foi. Ele me disse pra nunca falar disso a mais ninguém. Eu disse: “Mas, Lukey, e se pudesse ajudar? E se isso pudesse ajudar na próxima vez que eles vierem?”

Os lábios do grand-père mal se moviam, embora a pronúncia pastosa houvesse desaparecido quase inteiramente, e Eddie o entendesse à perfeição.

— E ele me disse: “Pai, se acredita mesmo que poderia ajudar, por que não contou antes e só agora?” E eu não pude responder, meu rapaz, que como era apenas intuição fiquei de boca fechada. Além disso, que bem poderia fazer? O que isso muda?

— Eu não sei — disse Eddie. Seus rostos estavam próximos. Eddie sentia o cheiro de carne e molho no hálito do velho Jamie. — Como posso, se ainda não me contou o que viu?

— “O Rei Rubro sempre encontra seus capangas”, disse meu filho. “Seria bom se ninguém jamais soubesse que você esteve lá fora, melhor ainda se ninguém jamais soubesse o que viu lá, menos ainda se desforrar deles, é, mesmo no Trovão.” E eu vi uma coisa triste, meu camaradinha.

Embora estivesse quase louco de impaciência, Eddie julgou melhor deixar o velho contar à sua própria maneira.

— Que coisa foi essa, grand-père.

— Vi que Luke não acreditou inteiramente em mim. Achou que seu próprio pai talvez fosse apenas um contador de lendas narrando uma história louca de ser um assassino de Lobo pra se jactar. Embora você haja de concordar que mesmo um imbecil veria que se eu fosse inventar uma história, faria de mim o assassino do Lobo, não a mulher de Eamon Doolin.

Fazia sentido, pensou Eddie, e então se lembrou do avô pelo menos insinuando que levara o crédito mais de uma vez pela fanfarrice, como diria Roland. Sorriu apesar de si mesmo.

— Lukey tinha medo de que alguém mais ouvisse minha história e acreditasse nela. Que ela chegasse até os Lobos e eu acabasse morto por narrar uma história da carochinha. E nem isso era. — Os olhos remelosos suplicavam junto ao rosto de Eddie na escuridão crescente. — Você acredita em mim, não?

Eddie assentiu com a cabeça.

— Eu sei que o senhor diz a verdade, grand-père. Mas quem... — Fez uma pausa. Quem lhe dedo-duraria?, foi como lhe ocorreu a pergunta, mas o avô talvez não a entendesse. — Mas quem iria delatar? De quem suspeitava?

O grand-père olhou o quintal que escurecia, em volta, pareceu que ia falar, depois nada disse.

— Conte — disse Eddie. — Conte o que...

Uma manzorra ressequida, com o tremor da idade embora ainda muito forte, segurou-o pelo pescoço e puxou-o mais para perto. Suíças eriçadas rasparam a concha do ouvido de Eddie, fazendo-o tremer de cima a baixo e arrepiar-se todo.

O avô sussurrou 19 palavras quando a última luz se extinguia do dia e a noite chegava a Calla.

Eddie arregalou os olhos. O primeiro pensamento foi que ele agora entendia a respeito dos cavalos... todos os cavalos cinzentos. O segundo foi: Claro. Faz perfeito sentido. Devíamos ter sabido.

A 19ª palavra foi dita e cessou o sussurro do grand-père. A mão apertada no pescoço de Eddie tornou a cair no colo do avô. Eddie virou-se para ele.

— Fala a verdade?

— Sim, pistoleiro — disse o velho. — Verdade como sempre foi. Não posso falar por todos eles, pois muitas máscaras talvez cubram vários rostos diferentes, mas...

— Não — disse Eddie, pensando em cavalos cinzentos. Para não falar em todos aqueles grupos de calças cinza. Todos aqueles mantos verdes. Fazia perfeito sentido. Como era mesmo aquela antiga música que sua mãe cantava? Você está no Exército agora, não atrás do arado mato afora. Você jamais será rico nem bacana, seu grande merda sacana, você está no Exército agora. — Vou ter de contar esta história ao meu dinh — explicou Eddie.

Grand-père balançou a cabeça, devagar.

— Sim — disse —, como queira. Eu não me dou muito bem com o garoto, você sabe. — E então, com a voz pastosa quase incompreensível, acrescentou: — Lukey ento pur o poo ond Tian ponava a vainha ’abo’ntica, ’ê’ mitende.

Eddie fez que sim com a cabeça, como se houvesse entendido o acréscimo. Mais tarde Susannah traduziu-o para ele: Lukey tentou pôr o poço onde Tian apontava a varinha rabdomântica, você entende.

— Uma varinha rabdomântica? — perguntou Susannah da escuridão. Retornara em silêncio e agora gesticulava com as mãos, como se segurasse um ossinho da sorte.

O velho olhou-a, surpreso, e em seguida assentiu.

— A’abo’ntica, sim. Qalqué vainha. Eu a’gumentei cont’a isso, mas despos qui us Lobus vieru e levaru su irmã Tia, Lukey fazia tudo que o menino queria. Pod’imaginar, dexá um guri não mais de dizessete dizê o lugá du poço, cum ’abdo’ntica ou não? Mas Lukey pôs o poço lá e havia água, eu reconheço isso, todus vimo éia b’ilhá e cheira antes do barro dos lados cede e enterra meu filho vivo. Nós escavamos mas ele tinha ido pra clareira, gaganta e pumões tudo cheio de barro e estrume.

Com muito vagar, o velho tirou um lenço do bolso e enxugou os olhos.

— O guri e eu num tivemo uma palavra ducada entre nós desdientão; aquele poço tá cavado entre nós. Num tá vendo? Mas ele tá certo sobre querê resistir contra os Lobos, e se puderem lhe dizer alguma coisa por mim, digam-lhe que seu grand-père o saúda com uma porra de orgulho, o saúda muitíssimo, yer-bugger! Ele tem a areia dos Jaffords atravessada na garganta, sim! Nós fizemos nossa resistência todos aqueles anos que há muito se foram, e agora o sangue se revela autêntico. — Balançou a cabeça, desta vez ainda mais devagar. — Vá e conte a seu dinh, sim! Cada palavra! E se vazar... se os Lobos chegarem do Trovão cedo à procura de uma bosta seca velha como eu...

Ele expôs os poucos dentes num sorriso que Eddie achou extraordinariamente macabro.

— Eu ainda sei esticar um bah — disse —, e uma coisa me diz que seu bolinho de chocolate pode aprender a lançar pratos, pernas curtas ou não.

O velho desviou os olhos para a escuridão.

— Que venham — disse, baixinho. — A última vez vale por todas, pode apostar, a última vez vale por todas.