A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 32 de 43

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

Capítulo 16

— Não gostou muito dele, não é? — perguntou Roland.

Haviam-se passado dez minutos desde o retorno de Eddie. E eles tinham avançado uma pequena distância da gruta, depois parado onde o atalho serpeava por uma pequena enseada rochosa. O vento estrondoso que atirara para trás seus cabelos e grudara as roupas junto aos corpos ali se reduzia a ocasionais lufadas brincalhonas. Roland lhes era grato. Esperava que desculpassem a lenta e desajeitada maneira como preparava seu fumo. Mas sentiu os olhos de Eddie nele, e o rapaz do Brooklyn — que antes fora tão burro e inconsciente quanto Andolini e Biondi — agora via muito.

— Tower, quer dizer.

Roland lançou-lhe de esguelha um olhar sarcástico.

— De quem mais eu falaria? Do gato?

Eddie deu um pequeno grunhido de reconhecimento, quase uma risada. Inalava longos haustos do ar puro. Era bom estar de volta. A ida a Nova York em carne e osso fora melhor que em todash num aspecto — aquela sensação de escuridão à espreita desaparecera, e também a sensação de tenuidade —, mas, meu Deus, o lugar fedia. O grosso era de carros e canos de descarga (as nuvens oleosas de diesel, o pior), mas também havia milhares de maus cheiros. Não por último o odor de demasiados corpos humanos, o fartum de gambá essencial não disfarçado por todos os perfumes e desodorantes que as pessoas punham em si mesmas. Não tinham consciência do mau odor que exalavam, todas aconchegadas como andavam? Eddie imaginou que não. Ele próprio não tivera, muito tempo atrás. Muito tempo atrás, estivera doido por voltar para Nova York, teria matado para chegar lá.

— Eddie? Volte do mundo da lua. — Roland estalou os dedos diante do rosto de Eddie.

— Desculpe — disse ele. — Quanto a Tower... não, não gostei muito dele. Nossa, mandar os livros assim! Tornar aquelas piolhentas primeiras edições parte de sua condição pra ajudar a salvar a porra do universo!

— Ele não pensa nelas nesses termos... a não ser que o faça nos sonhos. E você sabe que eles vão atear fogo na livraria quando chegarem lá e descobrirem que o cara se mandou. Com quase toda a certeza. Despejar gasolina por baixo da porta e acendê-la. Quebrar a janela e lançar uma granada, manufaturada ou artesanal. Pretende me dizer que isso nunca lhe ocorreu?

Claro que sim.

— Bem, é possível que sim.

Foi a vez de Roland proferir o bem-humorado grunhido.

— Não há muita possibilidade neste sim. Assim, ele salvou seus melhores livros. E agora, na Gruta da Porta, temos alguma coisa atrás da qual esconder o tesouro do père. Embora imagino que agora deva ser incluído como nosso tesouro.

— A coragem dele não me pareceu verdadeira — disse Eddie. — Parecia mais cobiça.

— Nem todos são chamados ao caminho da espada, da arma ou do navio — disse Roland —, mas todos servem a ka.

— É mesmo? O Rei Rubro também? Ou os homens e as mulheres maus de que falava Callahan?

Roland não respondeu.

Eddie disse:

— Ele pode sair-se bem. Tower, quero dizer. Não o gato.

— Muito engraçado — disse Roland secamente; riscou um fósforo nos fundilhos da calça, protegeu a chama com a mão em concha, acendeu o cigarro.

— Obrigado, Roland. Está crescendo nesse sentido. Pergunte se acho que Tower e Deepneau conseguem sair da cidade de Nova York limpos.

— Acha?

— Não, acho que vão deixar um rastro. Nós conseguiríamos segui-lo, mas espero que os homens de Balazar não consigam fazer o mesmo. Quem me preocupa é Jack Andolini. É danado de esperto. Quanto a Balazar, fez um contrato com aquela Imobiliária Sombra.

— Pegou o sal do rei?

— É, acho que fez isso em algum lugar ao longo do caminho — disse Eddie. — Balazar sabe que quando se faz um contrato, é preciso cumpri-lo ou apresentar um motivo danado de bom pra não fazê-lo. Deixe de cumprir, que a notícia se espalha. Começam a circular cascatas sobre fulano e sicrano amolecendo, se cagando. Ainda lhes restam três semanas pra encontrar Tower e obrigá-lo a vender o terreno à Sombra. Eles vão usá-lo. Balazar não é o FBI, mas é um cara bem relacionado e... Roland, o pior em Tower é que, em alguns aspectos, nada disso é real pra ele. Parece que confunde sua vida com a vida de um dos seus livros de ficção. Acha que as coisas têm de acabar bem porque o escritor está sob contrato.

— Acha que ele será descuidado.

Eddie deu uma risada meio louca.

— Ah, eu sei que será descuidado. A questão é se Balazar vai agarrá-lo ou não no ato.

— Vamos ter de monitorar o Sr. Tower. Cuidar dele em nome da segurança. É o que acha, não?

— Pode apostar! — exclamou Eddie, e após um momento de silencioso pensamento os dois caíram na gargalhada. Quando o ataque passou, Eddie disse: — Acho que devíamos mandar Callahan, se ele aceitar ir. Você na certa acha que sou louco, mas...

— De jeito nenhum — disse Roland. — Ele é um dos nossos... ou poderia ser. Senti isso desde o início. E se habituou a viajar em lugares estranhos. Vou propor-lhe a idéia hoje. Amanhã virei com ele aqui e cuidarei de sua travessia pela porta...

— Deixa comigo — disse Eddie. — Uma vez já foi demais pra você. Pelo menos por algum tempo.

Roland examinou-o cuidadosamente, depois atirou o cigarro no precipício.

— Por que diz isso, Eddie?

— Seu cabelo embranqueceu aqui em volta. — Eddie apalpou-lhe o cocuruto da cabeça. — E, também, você está andando meio emperrado. Tá melhor agora, mas acho que o velho reumatismo lhe atacou um pouco. Confesse.

— Tudo bem, eu confesso — disse Roland. Se Eddie achou que se tratava apenas do velho Sr. Reumatismo, a coisa não era tão ruim assim.

— Na verdade, eu poderia trazê-lo aqui em cima esta noite, tempo suficiente pra conseguir o código postal — disse Eddie. — Será novamente dia lá, aposto.

— Nenhum de nós vai subir este caminho no escuro. Se pudermos evitar, não.

Eddie olhou o precipício inclinar-se para onde se projetava o pedregulho tombado, transformando menos de 5 metros do trajeto numa caminhada em corda bamba.

— Questão aceita.

Roland recomeçou a escalada. Eddie estendeu a mão e segurou-lhe o braço.

— Fique mais dois minutos, Roland. Por favor.

Roland tornou a sentar-se, a olhá-lo.

Eddie inspirou fundo e expirou.

— Ben Slightman é sórdido — disse. — O delator. Tenho quase certeza disso.

— Sim, eu sei.

Eddie arregalou os olhos para ele.

— Você sabe? Como é possível?

— Digamos que suspeitei.

— Corno?

— Os óculos — disse Roland. — Ben Slightman pai é a única pessoa em Calla Bryn Sturgis que usa óculos. Por favor, Eddie, o dia nos espera. Podemos conversar enquanto andamos.

 

17

Não puderam, contudo, pelo menos a princípio, porque o atalho era demasiado íngreme e estreito. Depois, porém, ao se aproximarem da base da mesa, ficou mais largo e clemente. A conversa mais uma vez tornou-se praticável, e Eddie falou a Roland sobre o livro The Dogan ou The Hogan, a barraca de terra dos índios navajos e o nome do autor estranhamente discutível. A singularidade da página de copyright (não de todo certo de que Roland entenderia essa parte) e disse que isso o fez se perguntar se alguma coisa também apontava o filho. Parecia uma idéia louca, mas...

— Acho que se Benny Slightman estivesse ajudando o pai a nos delatar — disse Roland —, Jake saberia.

— Tem certeza de que ele já não sabe? — perguntou Eddie.

Isso deu a Roland uma certa pausa. Depois ele fez que não com a cabeça.

— Jake suspeita do pai.

— Ele lhe disse isso?

— Não precisou.

Quase haviam chegado aos cavalos, que ergueram as cabeças em alerta e pareceram felizes por vê-los.

— Ele está ali na Rocking B — disse Eddie. — Que tal dar uma cavalgada até lá? Inventar algum motivo para levá-lo de volta à casa do padre... — A voz extinguiu-se, quando olhou atentamente para Roland. — Não?

— Não.

— Por que não?

— Porque esta é a parte de Jake no negócio.

— É muito duro, Roland. Ele e Benny Slightman gostam um do outro. Muito. Se Jake terminar sendo aquele a mostrar a Calla o que o pai anda fazendo...

— Jake fará o que for preciso — disse Roland. — Como todos nós.

— Mas ele ainda é apenas um garoto, Roland. Não entende isso?

— Não será por muito mais tempo — disse Roland, e montou. Esperava que Eddie não tivesse visto a contração momentânea de dor que lhe fez contrair o rosto quando passou a perna direita sobre a sela, mas claro que Eddie viu.

 

CAPÍTULO 3

 

A Dogan, Parte Dois

 

1

Jake e Benny Slightman passaram a manhã daquele dia levando fardos de feno dos sótãos superiores dos três celeiros internos da Rocking B para os mais baixos, depois abrindo-os. A tarde foi dedicada à natação e à luta aquática no Whye, ainda bastante agradável se se evitassem as partes fundas; as que haviam ficado frias com a estação.

Entre essas duas atividades, comeram um lauto almoço no alojamento dos empregados, com meia dúzia dos trabalhadores (não Slightman pai; ele fora a trabalho ao rancho Buckhead de Telford, fazer uma venda de gado).

— Nunca vi em toda a vida aqueie meninu do Ben tabaiá tão duro — disse Cookie, servindo costeletas fritas na mesa e os garotos fisgando-as, ávidos. — Ocê vai fazê ele disabá, Jake.

Era essa a intenção de Jake, claro. Após transportar feno de manhã, nadar de tarde e uma dezena ou mais de saltos do celeiro para cada um deles à luz avermelhada do crepúsculo, julgava que Benny ia dormir como os mortos. O problema era que poderia ocorrer o mesmo com ele. Quando saiu para lavar-se na bomba-d’água — o pôr-do-sol chegara e se fora àquela altura, deixando cinzas róseas mergulharem em verdadeira escuridão —, levou Oi consigo. Lavou a cara dele e salpicou com os dedos gotas d’água para o animal pegar, o que fez com grande alegria. Depois Jake abaixou-se sobre um joelho e prendeu com delicadeza os dois lados da face do trapalhão.

— Escute, Oi.

— Oi!

— Eu vou dormir, mas quando a lua se levantar, quero que me acorde. Sem fazer barulho, entende?

— Tende!

O que poderia significar alguma coisa ou nada. Se aceitassem apostas nisso, Jake apostaria em alguma coisa. Tinha grande fé em Oi. Ou talvez fosse amor. Ou talvez aquelas coisas fossem iguais.

— Quando a lua subir. Diga lua, Oi.

— Lua!

Parecia ótimo, mas Jake acertaria seu alarme do despertador interno para acordá-lo ao nascer a lua. Porque queria sair e ir até o lugar onde vira o pai de Benny e Andy naquela outra vez. Aquele misterioso encontro inquietava cada vez mais sua mente com o passar do tempo, em vez de diminuir. Não queria acreditar que o pai de Benny estivesse envolvido com os Lobos — Andy, também —, mas precisava ter certeza. Porque era o que Roland faria. Por esse, se por nenhum outro motivo.

 

2

Os dois garotos deitaram-se no quarto de Benny. Só havia uma cama, que Benny, claro, ofereceu ao hóspede, mas Jake a recusou. Bolaram em vez disso um sistema pelo qual Benny ficava na cama no que chamava de “noites pares” e Jake nas “noites ímpares”. Esta era a noite de Jake no chão, o que o alegrou. O colchão de pena de ganso de Benny era macio demais. À luz de seu plano de acordar com a lua, o chão na certa era melhor. Mais seguro.

Benny deitou-se com as mãos atrás da cabeça, olhando o teto. Treinara Oi para subir na cama com ele, e o trapalhão jazia adormecido num coma enroscado, o focinho sob a caricatura floreada de sua cauda.

— Jake? — Um sussurro. — Tá dormindo?

— Não.

— Nem eu. — Uma pausa. — Tem sido muito legal, você aqui.

— Tem sido muito legal pra mim — disse Jake, e era sincero.

— Às vezes, ser filho único é solitário.

— E eu não sei disso?... Eu sempre fui o único. — Fez uma pausa. —-Aposto que ficou triste depois que sua mana morreu.

— Às vezes eu ainda fico triste. — Pelo menos disse isto num tom prosaico, o que tornava mais fácil de ouvir. — Acha que vão ficar depois de vencer os Lobos?

— Provavelmente não por muito tempo.

— Vocês estão numa missão, não é?

— Acho que sim.

— Pra quê?

A missão era para salvar a Torre Negra neste onde e a rosa na Nova York de onde ele, Eddie e Susannah haviam vindo, mas Jake não queria dizer isso a Benny, por mais que gostasse dele. A Torre e a rosa eram coisas meio secretas. Assunto do ka-tet. Mas também não queria mentir.

— Roland não fala muito dessas coisas — disse.

Pausa maior. O ruído de Benny mudando de posição, sem fazer barulho para não perturbar Oi.

— Ele me assusta um pouco, seu dinh.

Jake pensou nisso e disse:

— Também a mim um pouco.

— Assusta meu pai.

Jake ficou de repente muito alerta.

— Verdade?

— É. Ele disse que não ia se surpreender se, depois que vocês se livrassem dos Lobos, se voltassem contra nós. Depois disse que só estava brincando, mas que o velho caubói de cara durona o assustava. Reconheço que este devia ser seu dinh, você não?

— Sim — disse Jake.

Começara a achar que Benny fora dormir quando o garoto perguntou:

— Como era o seu quarto lá de onde você veio?

Jake pensou no seu quarto e a princípio achou surpreendentemente difícil imaginá-lo. Fazia muito tempo que não pensava nele. E agora, ao fazê-lo, sentiu-se sem graça de descrevê-lo demasiado de perto para Benny. Seu amigo vivia bem, era verdade, pelos padrões de Calla — Jake imaginava que houvesse muito poucos garotos de pequenas propriedades da idade de Benny com quartos só seus —, mas será que pensaria no quarto que Jake podia descrever como o de um príncipe encantado? A televisão? O estéreo, com todos os seus discos e os fones de ouvido para a intimidade? Os cartazes de Stevie Wonder e The Jackson Five? O microscópio, que lhe mostrava coisas pequenas demais para ver a olho nu? Devia falar àquele garoto de tais maravilhas e milagres?

— Era como este, só que eu tinha uma escrivaninha — acabou dizendo Jake.

— Uma mesa de escrever! — Benny levantou-se sobre um ombro.

— Bem, é — disse Jake, o tom insinuando Nossa, que mais?

— Papel? Canetas? Penas de escrever?

— Papel — concordou Jake. Eis, afinal, uma maravilha que Benny entendia. — E canetas. Mas não de pena. Esferográficas.

— Canetas esferográficas? Não entendo.

Então Jake começou a explicar, mas na metade ouviu um ronco. Olhou para o outro lado do quarto e viu Benny ainda de frente para ele, mas agora de olhos fechados.

Oi abriu os olhos — brilhavam na escuridão —, depois piscou-os para Jake.

Jake olhou Benny um longo tempo, profundamente perturbado de um jeito que não entendia com muita exatidão... ou não queria entender.

Por fim, também caiu no sono.

 

3

Algum tempo escuro e sem sonho, e depois ele retornou a uma aparência de vigília devido a uma pressão no pulso. Alguma coisa puxando-o. Dentes. De Oi.

— Oi, não, pare com isto — murmurou, mas Oi não parou.

Com o pulso de Jake nos maxilares, continuou a sacudi-lo delicadamente de um lado para outro, parando de vez em quando para um rápido puxão. Só parou de todo quando Jake acabou se sentando e olhou, dopado, a noite inundada de prata lá fora.

— Lua — disse Oi, sentado no chão ao lado de Jake, maxilares abertos num inconfundível sorriso, olhos brilhantes. Tinham de estar brilhantes; uma minúscula pedra branca ardia no fundo de cada um. — Lua!

— Ié — sussurrou Jake, e então fechou os dedos em volta do foci-nho de Oi.

— Xiu!

Soltou-o e olhou para Benny, agora virado para a parede e ressonando profundamente. Jake duvidava que um morteiro o acordasse.

— Lua — disse Oi, muito mais baixo. Agora olhava pela janela. — Lua, lua. Lua.

 

4

Jake teria cavalgado em pêlo, mas precisava de Oi consigo, o que dificultava montar sem arreios. Por sorte, o pequeno pônei malhado que sai Overholser alugara para ele era tão manso quanto um gato doméstico, e havia uma velha e esfolada sela de treinamento na sala de apetrechos no celeiro que até um garoto manejava com facilidade.

Jake selou o cavalo e amarrou o rolo de dormir atrás, na parte que os caubóis chamavam de barco. Sentia o peso da Ruger dentro do rolo — e, se apalpasse, também a forma. O poncho com o cômodo bolso na frente pendia de um prego na sala de apetrechos. Jake pegou-o, enrolou-o transformando-o numa coisa que parecia uma faixa larga e cingiu-o na cintura. Os garotos na escola às vezes usavam assim as camisas longas em dias quentes. Como as lembranças de seu quarto, essa parecia muito distante, parte de um desfile de circo que atravessava a cidade a marchar... e depois partia.

Aquela vida era mais rica, sussurrou-lhe uma voz no fundo da mente.

Esta é mais verdadeira, sussurrou outra, ainda mais fundo.

Embora acreditasse na segunda voz, continuava com o coração pesado de tristeza e preocupação ao conduzir o pônei malhado para fora pelos fundos do celeiro e afastar-se da casa. Oi chapinhava na cola dele, olhando de vez em quando para o céu acima e murmurando: “Lua, lua”, mas sobretudo farejando os cheiros entrecruzados no chão. Aquela viagem era perigosa. Só a travessia do Devar-Tete Whye — do lado Calla das coisas até o lado do Trovão — era perigosa, e Jake sabia. Mas o que realmente o afligia era a sensação de angústia assomando. Pensou em Benny, dizendo que fora fantástico ter Jake na Rocking B como amigo. Perguntou-se se Benny sentiria a mesma coisa dali a uma semana.

— Não tem importância — suspirou. — Isto é ka.

— Ka — disse Oi e ergueu os olhos. — Lua. Ka, lua. Lua, ka.

— Cala a boca — disse Jake, mas com doçura.

— Cala a boca, ka — disse Oi, amistoso. — Cala a boca lua. Cala a boca Aque. Cala a boca, Oi.

Fora o máximo que dissera em meses, e assim que estava do lado de fora calou-se. Jake conduziu o cavalo por mais dez minutos, passou pelo alojamento dos empregados e sua música mista de roncos, grunhidos e traques, depois pela ladeira seguinte. Naquele ponto, com a estrada do Leste à vista, julgou seguro cavalgar. Desenrolou o poncho, vestiu-o, depositou Oi no bolso e montou.

 

5

Tinha quase certeza de que poderia ir direto ao lugar onde Andy e Slightman haviam atravessado o rio, mas reconheceu que só dera uma boa olhada nele, e Roland teria com igual certeza dito que não era bom nesse caso. Por isso, preferiu voltar ao lugar onde ele e Benny haviam acampado, e dali ao afloramento de granito que lhe lembrara um navio parcialmente afundado. Mais uma vez, Oi ficou ofegando em seu ouvido. Jake não teve problema nenhum em avistar a pedra redonda com a superfície brilhante. O tronco morto arrastado contra ela também continuava lá, pois o rio nada fizera além de baixar nas últimas semanas. Não houvera chuva alguma, e isso era uma das coisas com que Jake contava para ajudá-lo.

Subiu agachado de volta ao lugar horizontal acima onde ele e Benny haviam acampado. Ali deixara o pônei amarrado a um arbusto. Conduziu-o até o rio embaixo, pegou Oi e seguiu para o outro lado. Embora o pônei não fosse grande, a água não batia muito acima de sua crina. Em menos de um minuto chegavam à margem oposta.

Parecia igual à do outro lado, mas não era. Jake percebeu de estalo. Com ou sem luar, era de algum modo escuro. Não exatamente da maneira como fora Nova York todash, e não se ouviam sinos, mas mesmo assim havia semelhanças. Uma sensação de alguma coisa à espera, e olhos que podiam virar-se em sua direção se ele fosse tolo o bastante para alertar os proprietários de sua presença. Chegara à borda do Fim do Mundo. A pele de Jake irrompeu em arrepios e calafrios. Oi olhava-o.

— Tá tudo bem — sussurrou. — Eu tinha de tirar isso do meu sistema.

Desmontou, largou Oi no chão e guardou o poncho na sombra da pedra redonda. Não achava que fosse precisar de casaco para aquela parte da excursão; suava, nervoso. O murmúrio do rio era alto, e ele lançava olhares o tempo todo ao outro lado, para certificar-se de que ninguém se aproximava. Não queria ser surpreendido. Aquele senso de presença, de outros, era ao mesmo tempo forte e desagradável. Nada de bom vivia no outro lado do Devar-Tete Whye; disto Jake tinha certeza. Sentiu-se melhor após retirar o coldre do rolo de dormir e prendê-lo com firmeza no lugar, e depois acrescentou a Ruger. A arma fazia-o sentir-se outra pessoa, de que nem sempre gostava. Mas ali, no lado oposto do Whye, ficou maravilhado ao sentir o peso da Ruger contra as costelas, e felicíssimo por ser aquela pessoa: aquele pistoleiro.

Alguma coisa mais distante a leste gritava como uma mulher numa agonia de fim da vida. Jake sabia que era apenas um gato-da-montanha — ouvira-os antes, quando estivera no rio com Benny pescando ou nadando —, mas ainda assim pôs a mão na coronha da Ruger até o som parar. Oi assumira a posição de vênia, patas dianteiras separadas, cabeça abaixada, traseiro apontado para o céu. Em geral isso significava que queria brincar, mas nada havia de brincalhão em seus dentes expostos.

— Tá tudo bem — disse Jake.

Remexeu mais uma vez no rolo de dormir (não se dera ao trabalho de trazer um alforje) até encontrar um pano xadrez. Era o lenço de pescoço de Slightman pai, roubado quatro dias antes debaixo da mesa do alojamento, onde o capataz o deixara cair durante um jogo de Olho Vivo e depois o esquecera.

Que ladrãozinho sou eu, pensou Jake. A pistola do meu pai, agora o lenço do pai de Benny. Não sei se estou abrindo caminho para baixo ou para cima.

Foi a voz de Roland que respondeu. Você está fazendo o que foi chamado a fazer aqui. Por que não pára de bater no peito e põe mãos à obra?

Jake segurou o lenço entre as mãos e olhou Oi embaixo.

— Isto sempre funciona no cinema — disse ao trapalhão. — Não tenho a menor idéia se funciona na vida real... sobretudo depois que se passaram semanas. — Abaixou o lenço até Oi, que esticou o longo focinho e farejou-o delicadamente. — Encontre este cheiro, Oi. Encontre e siga-o.

— Oi! — Mas o trapalhão não saiu do lugar, com os olhos erguidos para Jake.

— Isto, Bobão — disse Jake, deixando-o cheirar novamente. — Encontre-o! Anda!

Oi levantou-se, girou em volta duas vezes e saiu perambulando para o norte, ao longo da margem do rio. Baixava o focinho de vez em quando no chão rochoso, mas parecia muito mais interessado no uivo ocasional de mulher agonizante do gato-da-montanha. Jake olhava o amigo com a esperança a diminuir cada vez mais. Ele próprio poderia seguir naquela direção, caminhar por ali um pouco, ver o que havia para ver.

Oi deu meia-volta, juntou-se mais uma vez a Jake e parou. Farejou um pedaço de terreno mais intensamente. O lugar por onde Slightman saíra da água? Talvez. Oi emitiu um uivo no fundo da garganta e voltou-se para a direita — leste. Encaminhou-se serpeando por entre duas pedras. Jake, agora sentindo ao menos um fio de esperança, montou e seguiu-o.