A Torre Negra V: Lobos de Calla
Capítulo 10
Eddie acreditava que podiam ser donos do terreno baldio sem sequer tocar na fortuna herdada de Susannah; achava que a história de Callahan mostrava com muita clareza como se poderia fazer. Não a rosa; a rosa não era para ser possuída (por eles nem por ninguém), mas protegida. E isso eles podiam fazer. Talvez.
Assustado ou não, Calvin Tower estivera esperando naquela lavanderia deserta para salvar o padre Callahan. E, assustado ou não, Calvin Tower recusara-se — a partir de 31 de maio de 1977, em todo caso — a vender seu último pedaço de propriedade imobiliária à Empresa Sombra. Eddie achava que Calvin Tower estava, nas palavras da música, esperando para ser herói.
Eddie também vinha pensando na forma como Callahan escondera o rosto nas mãos na primeira vez que ele mencionara o Treze Preto. Queria-o como o diabo fora de sua igreja... mas apesar disso o mantivera até então. Como o dono da livraria, o padre andara esperando. Como haviam sido idiotas em imaginar que Calvin Tower pediria milhões pelo seu terreno! Ele quis ser protegido dele. Mas só até aparecer a pessoa certa. Ou o ka-tet certo.
— Suziella, você não pode ir porque está grávida — disse Eddie. — Jake, você não pode ir porque é um garoto. Todas as outras questões à parte, tenho razoável certeza de que não poderia assinar o tipo de contrato em que tenho pensado desde que Callahan nos contou sua história. Eu poderia levar você comigo, mas parece que quer verificar alguma coisa por aqui. Ou me enganei quanto a isso?
— Não se enganou — disse Jake. — Mas de qualquer modo eu quase preferia ir com você. Parece realmente bom.
Eddie sorriu.
— Quase só conta com pregos e ferraduras, garoto. Quanto a enviar Roland, sem ofensa, chefe, mas você não é muito cosmopolita no nosso mundo. Você, hum, perde alguma coisa na tradução.
Susannah desatou a rir.
— Quanto está pensando em oferecer a ele? — perguntou Jake. — Quer dizer, tem de ser alguma coisa, não?
— Um dólar — disse Eddie. — Na certa vou ter de pedir emprestado a Tower, mas...
— Não, podemos fazer coisa melhor do que isso — disse Jake, parecendo sério. — Tenho uns cinco ou seis dólares no meu saco de dormir, com quase toda a certeza. — Deu um sorriso. — E podemos lhe oferecer mais, depois. Quando as coisas meio se acertarem deste lado.
— Se ainda estivermos vivos — disse Susannah, mas também parecia excitada. — Sabe de uma coisa, Eddie? Você até que pode ser um gênio.
— Balazar e seus amigos não vão ficar satisfeitos se sai Tower nos vender seu terreno — disse Roland.
— É, mas talvez possamos convencer Balazar a deixá-lo em paz — disse Eddie, com um sorrisinho sinistro brincando em volta dos cantos da boca. — Quando chega a isso, Roland, Enrico Balazar é o tipo de sujeito que eu não me incomodaria em matar duas vezes.
— Quando você quer ir? — perguntou-lhe Susannah.
— Quanto mais cedo, melhor. Primeiro, não saber o quanto é tarde lá em Nova York está me deixando pirado. Roland? Que é que você diz?
— Eu digo amanhã. Vamos levar o globo até a gruta, e depois veremos se você pode atravessar a porta para o onde e quando de Calvin Tower. Sua idéia é boa, Eddie, e eu agradeço.
Jake disse:
— E se o globo mandar você pro lugar errado? A versão errada de 1977 ou... — Ele mal soube como concluir. Lembrava-se como tudo aquilo parecera tênue quando o Treze Preto os levou todash pela primeira vez, e de como parecera infindável a escuridão à espera atrás das realidades superficiais pintadas à sua volta. — ... ou algum lugar mais distante? — concluiu.
— Neste caso, eu mando um cartão-postal.
Eddie disse isso com um encolher de ombros e uma risada, mas por apenas um momento Jake viu como ele estava assustado. Susannah também deve ter visto, pois tomou a mão dele nas suas e apertou-a.
— Ei, eu vou ficar bem — disse Eddie.
— É melhor que fique — disse Susannah. — É melhor mesmo.