A Torre Negra V: Lobos de Calla
Capítulo 17
As duas mulheres atravessaram a estrada, fazendo um largo contorno em volta dos restos cobertos de sangue e tombados do pobre menino Slightman. Zalia achou que quase tudo que restara dele só estava unido pelas roupas, e estremeceu ao pensar na dor do pai.
A dama-sai do homem mais moço estava na ponta do extremo norte do fosso, examinando os corpos dos Lobos ali espalhados. Ela encontrou um onde a coisinha giratória não fora inteiramente atingida, e continuava tentando girar. As mãos com luvas verdes do Lobo tremiam descontroladamente no pó, como com paralisia. Susannah pegou um grande pedaço de pedra e, fria como uma noite na Terra Plena, baixou-a sobre os restos do boné-pensante. O Lobo imobilizou-se imediatamente. O zumbido baixo que vinha dele cessou.
— Vamos contar aos outros, Susannah — disse Rosa. — Mas primeiro queremos parabenizar você pela boa execução. Como a amamos, digo a verdade!
Zalia assentiu com a cabeça.
— Nós agradecemos, Susannah de Nova York. Agradecemos muitíssimo mais do que algum dia já lhe agradeceram.
— É, você diz a verdade — concordou Rosa.
A dama-sai ergueu os olhos para ela e sorriu meigamente. Por um momento, Rosalita pareceu um pouco em dúvida, como se talvez tivesse visto alguma coisa que não devia naquele rosto marrom-escuro. Viu que Susannah Dean não estava mais ali, por exemplo. Então a expressão de dúvida desapareceu.
— Vamos com boas-novas, Susannah — disse ela.
— Desejo-lhe o prazer disso — disse Mia, filha de ninguém. — Tragam eles de volta como quiserem. Digam-lhes que o perigo aqui acabou, e deixem que os que não acreditam contem os mortos.
— As pernas de sua calça estão molhadas, você sabe — disse Zalia.
Mia balançou a cabeça, séria. Outra contração transformara-lhe a barriga numa pedra, mas ela não deu qualquer sinal.
— É sangue, receio. — Indicou com a cabeça o corpo sem cabeça da mulher do grande rancheiro. — Dela.
As mulheres se puseram a descer pelo milharal, de mãos dadas. Mia viu Roland, Eddie e Jake atravessarem a estrada em sua direção. Essa seria a hora perigosa, bem ali. Mas talvez não perigosa demais, afinal; os amigos de Susannah pareciam aturdidos no desfecho da batalha. Se ela parecia meio desequilibrada, talvez pensassem o mesmo dela.
Achava que seria sobretudo uma questão de esperar sua oportunidades. Esperar... e depois se mandar sem ser vista. Nesse meio-tempo, conduziu a contração na barriga como um barco galgando uma onda alta.
Eles vão saber aonde você foi, sussurrou uma voz. Não uma voz na cabeça, mas da barriga. A voz do chapinha. E aquela voz dizia a verdade.
Leve a bola com você, disse-lhe a voz. Leve-a com você quando for. Não deixe para eles nenhuma porta aberta para segui-la até o fim.
Sim.
18
A Ruger estalou um único disparo e um cavalo morreu.
De baixo da estrada, do arrozal, veio uma algazarra de alegria que não era muito surpreendente. Zalia e Rosa haviam transmitido as boas-novas. Então um grito lancinante varou as vozes misturadas de felicidade. Haviam transmitido as ruins, também.
Jake Chambers sentou-se na roda da carroça capotada. Soltara os três cavalos que estavam bem. O quarto se estendia no chão com duas patas quebradas, espumando, desamparado, pelos dentes, a pedir ajuda ao garoto com os olhos. O garoto a dera. Agora fitava o amigo morto. O sangue de Benny era absorvido pela estrada. A mão na ponta do braço jazia com a palma virada para cima, como se o amigo morto quisesse cumprimentar Deus. Que Deus? Segundo o rumor corrente, o topo da Torre Negra estava vazio.
Do arrozal de Lady Oriza veio um segundo grito de dor. Fora o de Slightman, fora o de Vaughn Eisenhart? A certa distância, pensou Jake, não se podia diferenciar o rancheiro do capataz, o patrão do empregado. Haveria uma lição ali, ou era o que a Sra. Avery, lá na velha Piper, teria chamado de MEDO, falsa prova parecendo real?
A palma apontando para o céu a iluminar-se, isto era com certeza real.
Agora a gente começava a cantar. Jake reconheceu a música. Era uma nova versão da que Roland cantara em sua primeira noite em Calla Bryn Sturgis:
“Vem-vem-commala
O arroz chega ô pessoal
Eu vejo tudo brotar
Eles vêm ô pessoal
Nós fomos pro rio
’Riza nos deu kivva...”
O arroz ondulava com a passagem da fòlken a cantar, ondulava como a dançar pela alegria deles, como Roland dançara para eles naquela noite iluminada a lume de tochas. Alguns vinham com os filhinhos no colo, e mesmo tão sobrecarregados balançavam de um lado para outro. Todos dançamos esta manhã, pensou Jake. Não sabia o que queria dizer, só que era um pensamento verdadeiro. A dança que fizemos. A única que sabemos. Benny Slightman? Morreu dançando. Sai Eisenhart também.
Roland e Eddie aproximaram-se dele; Susannah também, mas um pouco atrás, como a decidir se, pelo menos por enquanto, os rapazes deviam ficar com os rapazes. Roland fumava, e Jake indicou com a cabeça o cigarro.
— Poderia enrolar um desses pra mim?
Roland virou-se na direção de Susannah, sobrancelhas erguidas. Ela deu de ombros e fez que sim com a cabeça. Roland enrolou um cigarro para Jake, entregou-lhe, depois riscou um fósforo nos fundilhos da calça e acendeu-o. Ali sentado na roda da carroça, Jake sugava a fumaça em baforadas ocasionais, prendia-a na boca, depois a soltava. A boca encheu-se de cuspe. Ele não se importou. Ao contrário de algumas coisas, a gente podia se livrar do cuspe. Não fez tentativa alguma de tragar.
Roland olhou colina abaixo, onde os primeiros dos homens que corriam acabavam de entrar no milharal.
— Aquele é Slightman — disse. — Bom.
— Por que bom, Roland? — perguntou Eddie.
— Porque sai Slightman terá acusações a fazer — disse Roland. — Em sua dor, não vai ligar pra quem as ouvir, nem o que seu extraordinário conhecimento poderia dizer sobre sua parte no trabalho desta manhã.
— Dança — disse Jake.
Eles se viraram para olhá-lo, ali sentado na roda da carroça, pálido e pensativo, segurando o cigarro.
— A dança desta manhã — disse.
Roland pareceu pensar nisso e depois assentiu.
— Sua parte na dança desta manhã. Se chegar aqui cedo o suficiente, talvez possamos calá-lo. Se não, a morte do seu filho só vai ser o início da commala de Ben Slightman.
19
Slightman tinha quase 15 anos menos que o rancheiro, e chegou ao sítio da batalha bem antes do outro. Por um momento, só ficou na outra borda do esconderijo, examinando o corpo estraçalhado caído na estrada. Já não havia mais muito sangue, agora — a oggan o absorvera gulosamente —, mas o braço decepado continuava estendido onde estivera, e o braço decepado disse tudo. Roland tanto não o teria movido dali antes de Slightman chegar ao local quanto não teria aberto a braguilha e mijado no cadáver de Slightman filho. Benny chegara à clareira no fim de seu caminho. O pai, como o seguinte de sangue, tinha o direito de ver onde e como isso acontecera.
O sujeito ficou quieto talvez por cinco segundos, depois inspirou fundo e exalou um grito lancinante, que gelou o sangue de Eddie. Ele olhou em volta à procura de Susannah e viu que ela não estava mais lá. Não a culpou por se mandar. Aquela era uma cena terrível. A pior.
Slightman olhou à esquerda, à direita, depois direto em frente e viu Roland, em pé ao lado da carroça virada com os braços cruzados. A seu lado, Jake estava sentado na roda, fumando seu primeiro cigarro.
— VOCÊ! — gritou Slightman. Portava seu bah, agora o tirava do ombro. — VOCÊ FEZ ISTO! VOCÊ!
Eddie puxou habilmente a arma das mãos de Slightman.
— Não, você não, parceiro — murmurou. — Não precisa disto agora, deixe que eu a seguro pra você.
Slightman pareceu não notar. Incrivelmente, sua mão direita continuava fazendo movimentos circulares no ar, como se armando o bah para um disparo.
— VOCÊ MATOU MEU FILHO! PRA SE VINGAR DE MIM! SEU PATIFE! PATIFE ASSASSI...
Movendo-se com a assombrosa e fantasmagórica rapidez em que Eddie ainda não conseguia completamente acreditar, Roland agarrou Slightman pelo pescoço na curva de um braço e depois o puxou para a frente. O ato ao mesmo tempo interrompeu o fluxo das acusações do sujeito e trouxe-o para perto.
— Ouça — disse Roland —, e ouça bem. Não dou a mínima pra sua vida nem sua honra, a primeira foi mal levada e a outra há muito desapareceu, mas seu filho está morto, é a honra dele que me importa demais. Se não se calar neste segundo, seu verme da criação, vou calá-lo eu mesmo. Então, o que vai ser? Qualquer uma das duas coisas não é nada pra mim. Digo a eles que você enlouqueceu com a visão de seu filho, roubou minha arma do coldre e meteu uma bala em sua própria cabeça pra se juntar a ele. Qual das duas prefere? Decida.
Eisenhart, embora bastante arrasado, continuava cambaleando e serpeando seu caminho pelo milharal, chamando roucamente o nome da mulher:
— Margaret! Margaret! Me responda, querida! Me dê uma palavra, eu lhe imploro, dê!
Roland soltou Slightman e olhou-o severamente. Slightman desviou seus olhos medonhos para Jake.
— Seu dinh matou meu menino pra se vingar de mim? Me diga a verdade, filho.
Jake deu uma última baforada no cigarro e atirou-o fora. A guimba caiu em brasas no chão, junto ao cavalo morto.
— Você chegou a olhar pra ele? — perguntou ao pai de Benny. — Nenhuma bala já fabricada poderia fazer aquilo. A cabeça de sai Eisenhart caiu quase em cima dele, e Benny saiu rastejando pra fora do... do horror daquilo. — Esta era uma palavra, percebeu, que ele jamais usara em voz alta. — Eles arremessaram dois pomos de ouro nele. Eu peguei um, mas... — Engoliu em seco. Ouviu-se um estalo em sua garganta. — O outro... eu teria, você sabe... eu tentei, mas... — O rosto se contorcia. A voz se extinguia. Mas os olhos estavam secos. E de algum modo tão terríveis quanto os de Slightman. — Eu não tive uma chance no outro — terminou, depois baixou a cabeça e caiu em prantos.
Roland olhou para Slightman, as sobrancelhas erguidas.
— Tudo bem — disse Slightman. — Eu entendo como foi. Sim. Me diga, ele foi valente até então? Me diga, eu peço.
— Ele e Jake trouxeram de volta um daquele par — disse Eddie, gesticulando para os gêmeos Tavery. — O menino. Ficou com o pé preso num buraco. Jake e Benny o puxaram, depois o carregaram. Nada além de coragem, seu garoto. Lado a lado e o tempo todo até a metade.
Slightman assentiu com a cabeça. Tirou os óculos do rosto e olhou-os como se nunca os houvesse visto antes. Manteve-os assim, diante dos olhos, por um ou dois segundos, depois largou-os na estrada e esmagou-os sob o salto de uma das botas. Olhou para Roland e Jake quase se desculpando.
— Creio que vi tudo o que precisava — disse, e depois se encaminhou para o filho.
Vaughn Eisenhart surgiu do milharal. Viu a mulher e soltou um uivo. Depois rasgou a camisa no meio e começou a martelar o punho direito acima de seu flácido peito esquerdo, gritando o nome dela a cada golpe.
— Ah, cara — disse Eddie. — Roland, você tem de parar com aquilo.
— Eu não — disse o pistoleiro.
Slightman pegou o braço decepado do filho e deu um beijo na palma com tamanha ternura que Eddie achou quase insuportável. Pôs o braço do garoto no peito, depois se encaminhou de volta para eles. Sem os óculos, seu rosto parecia nu e de algum modo amorfo.
— Jake, me ajudaria a encontrar uma manta?
Jake desceu da roda da carroça para ajudá-lo a encontrar o que ele precisava. Na trincheira descoberta que fora o esconderijo, Eisenhart embalava a cabeça queimada da mulher junto ao peito, balançando-a. Do milharal, aproximando-se, vinham as crianças e os zeladores cantando “A Balada do Arroz”. A princípio, Eddie achou que o que ouvia vindo da cidade devia ser um eco daquela cantoria, e então compreendeu que eram os demais Calla folken. Eles haviam ouvido a música e souberam. Estavam vindo.
Père Callahan saiu do campo com Lia Jaffords aninhada nos braços. Apesar do barulho, a menina dormia. Callahan olhou as pilhas de Lobos mortos, retirou uma das mãos debaixo das coxas da menina e desenhou uma lenta e trêmula cruz no ar.
— Deus seja agradecido — disse.
Roland foi até ele e pegou a mão que fizera a cruz.
— Ponha uma em mim — pediu.
Callahan olhou-o, sem compreender.
Roland indicou com a cabeça Vaughn Eisenhart.
— Aquele prometeu que eu deixaria a cidade com uma maldição sobre mim se algum mal acontecesse à sua mulher.
Poderia ter dito mais, porém não foi necessário. Callahan entendeu e fez o sinal-da-cruz na testa de Roland. A unha do dedo deixou um calor atrás que Roland sentiu por um longo tempo. E embora Eisenhart jamais cumprisse sua promessa, o pistoleiro nunca se arrependeu de que pedira ao padre esse pouco de proteção extra.
20
O que se seguiu foi um jubileu confuso ali na estrada do Leste, misturado com a dor pelos dois que haviam tombado. Mas mesmo a dor tinha uma luz brilhando através dela. Ninguém parecia sentir que as perdas eram de qualquer modo iguais aos ganhos. E Eddie imaginou que isso fosse verdade. Se não fosse sua mulher ou filho que houvessem tombado, quer dizer.
A cantoria dos da cidade ficou mais próxima. Agora eles viam poeira subindo. Na estrada, homens e mulheres se abraçavam. Alguém tentava tirar a cabeça de Margaret Eisenhart do marido, que por enquanto se recusava a soltá-la.
Eddie aproximou-se de Jake.
— Você nunca viu Guerra nas Estrelas, viu? — perguntou.
— Não, já te disse. Eu ia ver, mas...
— Partiu cedo demais. Eu sei. Aquelas coisas que eles estavam cantando... Jake, eram desse filme.
— Tem certeza?
— Sim. E os Lobos... Jake, os próprios Lobos...
Jake balançava a cabeça, muito devagar. Agora viam as pessoas da cidade. Os recém-chegados viram as crianças — todas as crianças, ainda ali e ainda sãs e salvas — e gritaram vivas. As da frente puseram-se a correr.
— Eu sei.
— Sabe? — perguntou Eddie. Quase implorava com os olhos. — Sabe mesmo? Porque... cara, isto é muito louco...
Jake olhou para os Lobos amontoados. Os capuzes verdes. As longas perneiras cinza. As botas pretas. As caras rosnantes em decomposição. Eddie já retirara uma daquelas caras de metal em putrefação e olhara o que tinha dentro. Nada, além de metal liso, mais lentes que serviam de olhos, uma malha gradeada que sem dúvida servia de nariz, dois microfones projetados nas têmporas como orelhas. Não, toda a personalidade que aquelas coisas tinham estava nas máscaras e na roupagem que usavam.
— Louco ou não, eu sei o que eles são, Eddie. Ou pelo menos de onde vieram. Das revistas em quadrinhos da Marvel Comics.
Um olhar de sublime alívio encheu o rosto de Eddie. Ele curvou-se e beijou Jake no rosto. Um espectro de sorriso tocou a boca do garoto. Não era muito, mas um começo.
— As revistas do Homem Aranha — disse Eddie. — Quando eu era garoto, nunca eram demais as que comprava.
— Eu não comprava — disse Jake —, mas Timmy Mucci na Mid-Town Lanes tinha um terrível vício pelos gibis da Marvel. Homem Aranha, Os Super-heróis, O Incrível Hulk, Capitão América, todas elas. Esses caras...
— Parecem o Dr. Destino — disse Eddie.
— É — disse Jake. — Não exatas, tenho certeza de que as máscaras foram modificadas pra fazê-las um pouco mais como lobos, mas fora isso... os mesmos capuzes, as mesmas capas verdes. É, o Dr. Destino.
— E os pomos de ouro — disse Eddie. — Já ouviu falar de Harry Potter?
— Não, você já?
— Não, e vou lhe dizer por quê. Porque os pomos de ouro são do futuro. Talvez de um gibi da Marvel que vai sair em 1990 ou 1995. Entende o que estou dizendo?
Jake fez que sim com a cabeça.
— É tudo 19, não é?
— É — disse Jake. — Dezenove, 99 e 19-99.
Eddie olhou em volta.
— Cadê Suze?
— Na certa foi pegar a cadeira de rodas — disse Jake.
Mas antes que um dos dois pudesse explorar mais a questão do paradeiro de Susannah (e àquela altura provavelmente tarde demais), o primeiro folken da cidade chegou. Eddie e Jake foram arrebatados para uma violenta comemoração improvisada — abraços, beijos, apertos de mão, risos, choros, agradecimentos, agradecimentos e agradecimentos.
21
Dez minutos depois da chegada do principal grupo do pessoal da cidade, Rosalita aproximou-se relutante de Roland. O pistoleiro ficou extremamente feliz em vê-la. Eben Took levara-o pelos braços e dizia-lhe — repetidas vezes, infinitamente, parecia — que ele e Telford se haviam enganado, que estavam total e completamente errados, e que quando Roland e seu ka-tet se dispusessem a partir, ele iria equipá-los de popa a proa sem pagarem nenhum centavo.
— Roland! — chamou Rosa.
Roland pediu licença e pegou-a pelo braço, levando-a um pouco adiante na estrada. Os Lobos haviam sido espalhados por toda parte e agora eram saqueados sem misericórdia de suas posses pela folken a rir, em delirante felicidade. Retardatários chegavam a cada minuto.
— Rosa, que foi?
— É a senhora de vocês, Susannah.
— Que tem ela? — perguntou Roland. Franzindo o cenho, olhou em volta. Não viu Susannah, nem se lembrava de quando a vira a última vez. Quando dera o cigarro a Jake? — Onde ela está?
— É exatamente isto — disse Rosa. — Eu não sei. Por isso, fui ver na carroça em que ela veio, achando que talvez tivesse ido pra lá descansar. Que talvez estivesse fraca ou enjoada, você sabe. Mas não está lá. E Roland... a cadeira de rodas desapareceu.
— Deuses! — rosnou Roland, e deu um soco na perna. — Ó deuses!
Rosalita recuou um passo, alarmada.
— Cadê Eddie? — perguntou Roland.
Ela apontou. Eddie estava tão enfurnado num bando de admiradores e admiradoras que Roland achou que não o veria, não fosse pela criança cavalgando em seus ombros; era Heddon Jaffords, um enorme e radiante sorriso no rosto.
— Tem certeza de que precisa incomodá-lo? — perguntou timidamente Rosa. — Talvez ela só tenha saído por um instante, pra se recompor.
Saído por um instante, pensou Roland. Sentia um negror enchendo-lhe o coração. O coração afundando. Ela saíra só por um instante, tudo bem. E ele sabia quem interveio para tomar seu lugar. A atenção deles se desviara no desfecho da luta... A dor de Jake... as congratulações da Calla folken... a confusão, a alegria e a cantoria... mas isso não era desculpa.
— Pistoleiros! — bramiu ele, e a multidão em júbilo calou-se de repente. Se se houvesse dado ao trabalho, teria visto o medo logo abaixo de seu alívio e adulação. Não teria sido novidade para ele; as pessoas sempre temiam aqueles que chegavam portando grossos calibres. O que queriam quando terminasse o tiroteio era oferecer-lhes uma refeição final, talvez uma foda final de gratidão e pegar mais uma vez suas ferramentas pacíficas de cultivo.
Bem, pensou Roland, logo estaremos partindo. De fato, um de nós já se foi. Deuses!
— Pistoleiros, venham cá! Aqui!
Eddie foi o primeiro a chegar junto de Roland. Olhou em volta.
— Onde está Susannah? — perguntou.
Roland apontou a terra pedregosa inculta de penhascos e arroios, depois elevou o dedo até parar apontado para um buraco preto logo abaixo da linha do horizonte.
— Acho que ali — disse ele.
Toda a cor se esvaíra do rosto de Eddie.
— É a Gruta da Porta que você está apontando — disse —, não é?
Roland assentiu com a cabeça.
— Mas o globo, o Treze Preto, ela não quis nem chegar perto dele quando estava na igreja de Callahan...
— Não — disse Roland. — Susannah, não. Mas ela não está mais no comando.
— Mia? — perguntou Jake.
— Sim. — Roland examinou o buraco preto com olhos baços. — Mia foi ter seu bebê. Foi ter seu chapinha.
— Não — disse Eddie. As mãos serpearam e agarraram a camisa de Roland. Em volta deles, as pessoas em silêncio os observavam. — Roland, diga que não.
— Vamos atrás dela, e esperemos que não seja tarde demais — disse Roland.
Mas em seu coração ele sabia que já era.