A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 18 de 43

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

Capítulo 8

Susannah aceitou sem criar caso algum a decisão de Roland de que ela e Eddie ficassem fora da igreja, e o pistoleiro se viu lembrando-se da relutância dela ao entrar no terreno baldio. Perguntou-se se parte dela temia a mesma coisa que ele. Se assim fosse, a batalha — a batalha dela — já começara.

— Quanto tempo até eu entrar e arrastá-lo pra fora? — perguntou Eddie.

— Até nós entrarmos e arrastá-lo pra fora? — corrigiu-o Susannah.

Roland pensou. Era uma boa pergunta. Olhou para Callahan, em pé no último degrau de jeans azul e camisa pregueada com as mangas enroladas até os cotovelos. Viu bons músculos nos antebraços.

O Velho encolheu os ombros.

— A coisa dorme. Não deverá haver nenhum problema. Mas... — Descruzou uma de suas mãos nodosas e apontou o revólver na coxa de Roland. — Eu largaria isso aqui. Talvez a coisa durma com um olho aberto.

Roland desafivelou o cinturão e entregou-o a Eddie, que levava o outro. Depois tirou a bolsa pendurada no ombro e entregou-a a Susannah.

— Cinco minutos — disse. — Se houver problema, talvez eu consiga chamar. — Ou talvez não, deixou de acrescentar.

— Jake já deverá estar aqui, então — disse Eddie.

— Se chegarem, segure-os aqui — disse-lhe Roland.

— Eisenhart e os Slightman não vão tentar entrar — disse Callahan. — Qualquer devoção que tenham é por Lady Oriza. A Senhora do Arroz. — Fez uma careta para mostrar o que achava da Senhora do Arroz e dos demais deuses de segunda categoria de Calla.

— Então vamos — disse Roland.

 

9

Fazia muito tempo desde que Roland Deschain sentira um temor tão profundo e supersticioso que acompanha uma religião em que se acredita. Desde a infância, talvez. Mas o medo caiu sobre ele assim que père Callahan abriu a porta de sua modesta igreja de madeira e segurou-a, fazendo menção para que ele entrasse na frente.

Havia um foyer com um tapete desbotado no chão, duas portas abertas. Além delas, um salão largo com bancos dos dois lados e genuflexórios no chão. No outro lado da sala, erguiam-se uma plataforma e o que Roland julgou ser um atril, ladeado por jarros de flores brancas. Seu suave cheiro difundia-se no ar parado. Atrás do atril, na parede dos fundos, pendia uma cruz de pau-ferro.

Ele ouvia o tesouro secreto do Velho, não com os ouvidos, mas com os ossos. Um zumbido baixo e constante. Como a rosa, aquele zumbido transmitia uma sensação de poder, mas de jeito algum era como a rosa. O zumbido falava de um colossal vazio. Um vácuo como o que eles haviam sentido atrás da superfície da realidade da Nova York todash. Um vazio que poderia tornar-se uma voz.

Sim, foi isto que nos levou, pensou. Isto nos levou a Nova York — uma de várias Nova York, segundo a história de Callahan —, mas podia levar-nos a qualquer lugar ou qualquer quando. Podia levar-nos... ou podia lançar-nos.

Lembrou-se da conclusão de sua longa confabulação com Walter, no lugar dos ossos. Também entrara em todash então; entendia agora. E houvera uma sensação de crescimento, inchaço, até ele ficar maior que a Terra, as estrelas, o próprio universo. Aquele poder estava ali, naquele espaço, e Roland sentiu medo dele.

Deus permita que ele durma, pensou, mas o pensamento foi seguido de outro ainda mais desanimador: mais cedo ou mais tarde, eles iam ter de usá-lo para alcançar Nova York no momento em que precisassem visitá-la.

Havia uma bacia d’água num pedestal ao lado da porta. Callahan mergulhou os dedos e persignou-se.

— Você pode fazer isso agora? — murmurou Roland no que foi pouco mais que um sussurro.

— Sim — disse Callahan. — Deus me aceitou de volta, pistoleiro. Embora eu ache que apenas no que se poderia chamar de “base experimental”. Entende?

Roland assentiu. Seguiu Callahan igreja adentro sem molhar os dedos na pia batismal.

Callahan conduziu-o pela nave central, e embora se movesse com rapidez e segurança, Roland pressentiu que o homem estava tão assustado quanto ele, talvez mais. O religioso queria livrar-se da coisa, claro, havia isso, mas mesmo assim Roland dava-lhe altas notas pela coragem.

No lado direito extremo do púlpito do pregador havia um pequeno lance de três degraus. Callahan subiu-os.

— Não há necessidade de você subir, Roland; pode ver muito bem de onde está. Não vai querer isso agora, eu suponho.

— De jeito nenhum — disse Roland. Os dois sussurravam agora.

— Ótimo. — Callahan ajoelhou-se numa perna. Houve um audível estalo quando a junta se flexionou, e os dois se sobressaltaram com o ruído. — Eu nunca tocaria na caixa em que a coisa está, se não tivesse de fazê-lo. Não toquei desde que a coloquei aí. O esconderijo, eu mesmo fiz, pedindo perdão a Deus por usar uma serra em Sua casa.

— Levante-a — disse Roland.

Em total estado de alerta, todos os sentidos aguçados, sentia e prestava atenção em qualquer mudança mínima naquele infindável zumbido vazio. Sentia falta do peso da arma em sua coxa. Será que as pessoas que iam àquele lugar praticar o culto não sentiam a coisa terrível que o Velho ali escondera? E ele imaginou que na verdade não haveria lugar melhor para esconder tal coisa; a simples fé dos paroquianos talvez neutralizasse-a de certo modo. Talvez até a acalmasse e assim aprofundasse seu cochilo.

Mas a coisa podia acordar, pensou. Acordar e mandá-las todas num piscar de olhos para os 19 pontos de lugar algum. Era um pensamento sobretudo terrível, e Roland desviou-o da mente. Sem dúvida, a idéia de usá-lo para garantir a proteção da rosa parecia cada vez mais uma piada de mau gosto. Enfrentara homens e monstros em sua época, mas nunca chegara nem perto de uma coisa como aquela. O senso de seu mal era terrível, quase acovardante. O senso de seu vazio malévolo, muitíssimo pior.

Callahan apertou o polegar na ranhura entre duas ripas de madeira. Ouviu um fraco estalo e uma seção do púlpito deslocou-se. Callahan soltou as ripas, revelando um orifício quadrado de uns 40 centímetros de comprimento e largura. Ele pendeu para trás nas ancas, segurando as ripas junto ao peito. O zumbido era agora muito mais alto. Roland teve a breve imagem de uma colméia gigantesca com abelhas do tamanho de vagões arrastando-se, vagarosas, sobre ela. Ele curvou-se e olhou dentro do esconderijo do Velho.

A coisa dentro estava embrulhada em tecido branco, linho fino à primeira vista.

— Uma sobrepeliz de sacristão — disse Callahan. Depois, vendo que Roland não conhecia a palavra: — Uma peça de vestimenta. — Encolheu os ombros. — Meu coração disse para embrulhá-la, e assim eu fiz.

— Seu coração certamente falou a verdade — sussurrou Roland. Pensava na sacola que Jake trouxera do terreno baldio com NADA ALÉM DE PONTOS NAS PISTAS DO MUNDO MÉDIO no lado. Eles iam precisar dela, sim e sim, mas não gostou de pensar na transferência.

Então afastou a idéia — o medo também — e desdobrou o tecido. Embaixo da sobrepeliz, embrulhada nela, havia uma caixa de madeira.

Apesar do temor, Roland estendeu a mão para tocar aquela madeira escura, pesada. Será como tocar algum metal levemente oleoso, pensou, e foi. Sentiu um arrepio erótico e profundo agitar-se dentro de si; beijou-lhe o temor como uma antiga amante e depois se foi.

— Isto é eufórbia — sussurrou Roland. — Ouvi falar, mas nunca a vi.

— Em meu Histórias de Arthur, é chamada de folha-de-sangue — sussurrou Callahan de volta.

— É? É mesmo?

Com certeza a madeira tinha um ar fantasmagórico, como de alguma coisa abandonada que chegara para descansar, embora temporariamente, após uma longa perambulação. O pistoleiro gostaria muito de dar-lhe uma segunda apalpadela — a madeira escura, densa, pedia-lhe a mão —, mas ouvira o amplo zumbido da coisa dentro elevar-se um ponto antes de voltar à monotonia anterior. O sábio não cutuca onça adormecida com vara curta, disse a si mesmo. Era verdade, mas não alterou o que ele queria. Tocou mais uma vez a madeira, de leve, só com as pontas dos dedos, depois cheirou-as. Sentiu um aroma de cânfora, fogo e — ele juraria — das flores do extremo norte do país, as que florescem na neve.

Três objetos haviam sido esculpidos na caixa: uma rosa, uma pedra e uma porta. Abaixo da porta, via-se isto:

 

Roland estendeu novamente a mão. Callahan fez um movimento para a frente, como para impedi-lo, e recuou. Roland tocou o entalhe sob a imagem da porta. Mais uma vez, elevou-se o zumbido do globo preto escondido dentro dela.

— Nã...? — sussurrou ele, e correu a base do polegar mais uma vez pelos símbolos em relevo. — Não... encontrada? — Não o que ele leu, mas o que as pontas dos dedos ouviram.

— Sim, tenho certeza de que é isso que diz — sussurrou-lhe Callahan de volta. Parecia satisfeito, mas ainda assim agarrou o pulso de Roland e puxou-o, querendo a mão do pistoleiro longe da caixa. Um fino suor brotara-lhe na testa e nos antebraços. — Faz sentido, em certo aspecto. Uma folha, uma pedra, uma porta desconhecida. São símbolos de um livro a meu lado. Chama-se Não se Volta para Casa, Anjo.

Uma folha, uma pedra, uma porta. Só substitui rosa por folha. Sim. Isto parece certo.

— Você vai pegá-lo? — perguntou Callahan. Apenas sua voz se elevava ligeiramente agora, do sussurro, e o pistoleiro percebeu que ele estava suplicando.

— Você o viu realmente, père, viu?

— Sim. Uma vez. É horrível além do dizível. Como o olho escorregadio de um monstro que se projetou da sombra de Deus. Vai pegá-lo, pistoleiro?

— Sim.

— Quando?

Bem baixinho, Roland ouviu o repique de sinos, um som tão belamente hediondo que faz a gente querer ranger os dentes. Por um momento as paredes da igreja de père Callahan tremeram. Foi como se a coisa na caixa lhes houvesse dito: Vêem como tudo isso tem pouca importância? Com que rapidez e facilidade posso fazer tudo isso desaparecer? Cuidado, pistoleiro! Cuidado, xamã! O abismo está à volta de vocês. Flutuam ou caem nele a um capricho meu.

Então os kammen se foram.

— Quando? — Callahan estendeu a mão sobre a caixa em seu orifício e agarrou a camisa de Roland. — Quando?

— Logo — disse Roland.

Muito em breve, respondeu seu coração.

 

CAPÍTULO 5

 

A História de Gray Dick