A Torre Negra V: Lobos de Calla

Stephen King · Capítulo 38 de 43

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A Torre Negra V: Lobos de Calla

Capítulo 7 · Os Lobos

 

 

Os Lobos

 

1

Veja isto agora, veja muito bem:

Eis uma estrada tão larga e bem conservada quanto qualquer estrada secundária nos Estados Unidos, mas da terra compacta nivelada que o Calla folken chama de oggan. Fossos para escoamento margeiam os dois lados; aqui e ali bueiros de madeira bem cuidados e conservados correm sob a oggan. Na fraca e sobrenatural luz que vem antes do amanhecer, uma dezena de carroças bucka — do tipo conduzidas pelos mannis, com capotas de lona arredondadas — rolam ao longo da estrada. As lonas brilham de tão branquinhas, para refletir o sol e manter os interiores frescos nos dias quentes de verão, e parecem nuvens estranhas flutuando baixo. Como cúmulos, por assim dizer. Cada carroça é puxada por um grupo de seis mulas ou quatro cavalos. No assento de cada, conduzindo-a, estão dois dos combatentes ou dos que cuidam das crianças. Overholser dirige a que vai na frente, com a de Margaret Eisenhart atrás. Em seguida, na fila, vem Roland de Gilead ao lado de Ben Slightman. Em quinto, estão Tian e Zalia Jaffords. A sétima é de Eddie e Susannah Dean. A cadeira de rodas de Susannah segue dobrada na carroceria atrás dela. Bucky e Annabelle Javier comandam a décima. No assento alto da última, vão o padre Donald Callahan e Rosalita Munoz.

Dentro das buckas, encontram-se 99 crianças. O gêmeo restante — que forma o número ímpar — é Benny Slightman, claro. Viaja na últimancarroça. (Ele não se sentiu à vontade em ir com o pai.) As crianças não falam. Algumas das mais novas voltaram a dormir; terão de acordar em breve, quando as carroças chegarem a seu destino. Adiante, agora a menos de 2 quilômetros, fica um lugar onde o atalho para o campo de arroios se separa para a esquerda. À direita, as terras estendem-se por uma encosta suave até o rio. Nenhum dos condutores tira os olhos do leste, da constante escuridão que é o Trovão. A procura de alguma nuvem de poeira que se aproxima. Não vêem nenhuma. Ainda não. Até os ventos seminons ficaram imóveis. As preces de Callahan parecem ter sido atendidas, pelo menos em relação a isso.

 

2

Ben Slightman, sentado ao lado de Roland no banco alto da bucka, falou numa voz tão baixa que o pistoleiro mal conseguiu ouvi-lo.

— Que vai fazer comigo, então?

Se solicitado, quando as carroças partiram de Calla Bryn Sturgis, a dar as probabilidades da sobrevivência de Slightman naquele dia, Roland talvez as classificasse de cinco em cem. Com certeza, não melhores. Duas perguntas cruciais precisavam ser feitas e respondidas corretamente. A primeira teria de vir do próprio Slightman. Roland não esperara na verdade que ele a fizesse, mas ali se apresentava, saindo de sua boca. O pistoleiro girou a cabeça e olhou-o.

O capataz de Vaughn Eisenhart, embora muito pálido, tirou os óculos e enfrentou o olhar de Roland. Este não atribuiu nenhuma coragem especial ao gesto. Certamente Slightman pai tivera tempo para avaliar a postura de Roland e sabia que devia olhar o pistoleiro no olho, se quisesse ao menos alguma esperança, por menos que gostasse de fazer isso.

— Ié, eu sei — disse Slightman, a voz firme, pelo menos até então. — Sei o quê? Que você sabe.

— Desde que pegamos seu parceiro, acho — disse Roland.

A palavra foi deliberadamente sarcástica (sarcasmo era a única forma de humor que Roland entendia de verdade), e Slightman retraiu-se a ela: parceiro. Seu parceiro. Mas assentiu com a cabeça, os olhos ainda firmes nos de Roland.

— Tive de imaginar que se você sabia sobre Andy, devia saber sobre mim. Embora ele jamais tivesse me denunciado. Isto não estava em sua programação. — Por fim, tornou-se demais e ele não conseguiu mais suportar o olho no olho. Baixou os seus, mordendo os lábios. — Eu soube principalmente por causa de Jake.

Roland não foi capaz de disfarçar a surpresa no rosto.

— Jake mudou. Não pretendia, não tão inteligente... e valente... como ele é... mas mudou. Não comigo, com meu garoto. Na última semana, semana e meia. Benny ficou apenas... bem, desnorteado, imagino que você diria. Sentia alguma coisa, mas não sabia o que era. Eu, sim. Era como se o seu garoto não quisesse mais ficar por perto. Perguntei-me o que poderia ter causado aquilo. A resposta pareceu clara como cerveja de farelo de trigo, você sabe.

Roland afastava-se da carroça de Overholser. Sacudiu de leve as rédeas nos traseiros de seus animais, que avançaram um pouco mais rápido. De trás vinha o baixo burburinho das crianças, algumas falando agora, mas a maioria ressonando, e o mudo tilintar do rastro. Pedira a Jake que reunisse uma pequena caixa das posses das crianças e o vira fazendo-o. Era um bom garoto, que nunca se esquivava a um afazer. Naquela manhã, pusera um chapéu de dia para proteger os olhos do sol, e a arma do pai. Seguia no banco da 11ª carroça, com um dos Estrada. Imaginou que Slightman também tinha um bom garoto, o que tornava aquilo a bagunça que estava.

— Jake esteve na Dogan uma noite quando você e Andy estavam lá, passando informações de seus vizinhos — disse Roland. No assento a seu lado Slightman contraiu-se como alguém que acabara de levar um soco na barriga.

— Então é isso — disse ele. — Sim, eu quase pude sentir... ou achei que podia... — Uma pausa mais longa e depois: — Foda.

Roland olhou para o leste. Um pouco mais claro ali agora, mas ainda sem poeira. O que era bom. Assim que ela surgisse, os Lobos viriam a toda. Seus cavalos cinzentos seriam velozes. Continuando a falar quase ociosamente, fez a outra pergunta. Se a resposta de Slightman fosse negativa, ele não viveria para ver a chegada dos Lobos, não importa quão rápido cavalgassem os cavalos cinzentos.

— Se tivesse descoberto, Slightman, se tivesse descoberto meu garoto, você o teria matado?

Slightman tornou a pôr os óculos, lutando com a pergunta. Roland não soube dizer se ele entendia ou não a importância da questão. Esperou para ver se o pai do amigo de Jake ia viver ou morrer. Teria de decidir rápido; aproximavam-se do lugar onde as carroças iam parar e as crianças saltar.

O homem pelo menos ergueu a cabeça e enfrentou mais uma vez os olhos de Roland. Abriu a boca para falar e não conseguiu. O fato em questão era muito claro: podia responder à pergunta do pistoleiro ou encará-lo de frente, mas não as duas coisas ao mesmo tempo.

Baixando o olhar de volta à madeira lascada entre os pés, Slightman disse:

— Sim, admito que o teríamos matado. — Uma pausa. Um balanço afirmativo da cabeça. Quando a mexeu, uma lágrima caiu de um olho e respingou na madeira do piso do banco. — Sim, que mais? — Agora erguia os olhos; conseguia mais uma vez enfrentar o olhar de Roland, e ao fazê-lo viu que seu destino fora selado. — Faça isto rápido — disse — e não deixe meu filho ver acontecer. Eu lhe peço, por favor.

Roland açoitou de leve os traseiros da mula novamente.

— Não sou eu quem dará fim à sua infeliz respiração.

A respiração de Slightman de fato parou. Ao dizer ao pistoleiro que sim, teria matado um garoto de 12 anos para proteger seu segredo, o rosto adquirira uma espécie de nobreza forçada. Agora substituída por esperança, e a esperança o tornara feio, quase grotesco. Depois exalou a respiração num suspiro entrecortado e disse:

— Você está me enrolando, provocando. Vai me matar, tudo bem. Por que não faria?

— Um covarde julga o que vê pelo que ele é — observou Roland. —-Eu não o mataria, a não ser que tivesse de fazê-lo, Slightman, porque gosto do meu garoto. Deve entender ao menos esta parte, não? Gostar de um garoto?

— Sim.

Slightman tornou a ficar cabisbaixo e começou a esfregar a nuca queimada de sol. Devia pensar que seu pescoço terminaria naquele dia coberto de terra.

— Mas você precisa entender uma coisa. Pro seu próprio bem e o de Benny igualmente. Se os Lobos vencerem, você vai morrer. Disto pode ter certeza. Pode descontar no banco, como dizem Eddie e Susannah.

Slightman mais uma vez o encarava, os olhos estreitados atrás das lentes.

— Escute bem, Slightman, e tire entendimento do que vou dizer. Não vamos estar onde os Lobos pensam que vamos estar, nem as crianças. Vençam ou percam, desta vez eles vão deixar alguns corpos pra trás. E vençam ou percam, saberão que foram induzidos em erro. Quem estava lá em Calla pra induzi-los em erro? Só dois. Andy e Ben Slightman. Andy está desativado, além do alcance da vingança deles. — Deu a Slightman um sorriso tão frio quanto o extremo norte da terra. — Mas você não. Nem o único com quem você se importa na pobre desculpa que tem como coração.

Slightman ficou pensando nisso. Embora fosse claramente uma nova idéia para ele, assim que viu sua lógica, era inegável.

— Eles na certa vão achar que você mudou de lado de propósito — continuou Roland —, mas mesmo que consiga convencê-los de que foi um acidente, vão matá-lo de qualquer modo. E seu filho também. Por vingança.

Uma mancha vermelha difundira-se na face do homem enquanto Roland falava, rosa de vergonha, imaginou Roland, mas ao pensar na probabilidade do assassinato do filho nas mãos dos Lobos, ele empalideceu novamente. Ou talvez fosse a idéia de Benny sendo levado para o leste, levado para o leste e tornando-se roont.

— Eu sinto muito — disse ele. — Sinto pelo que fiz.

— Uma ova pro seu sentimento — disse Roland. — O ka trabalha e o mundo segue adiante.

Slightman não respondeu.

— Estou disposto a mandar você com as crianças, como disse que faria — continuou Roland. — Se tudo sair como espero, quero que se lembre que Sarey Adams é a chefe desse torneio de tiros, e se eu vier a falar com ela depois, deve esperar que ela diga que você fez tudo o que lhe mandaram. — Como isto só recebeu mais silêncio de Slightman, o pistoleiro foi ríspido: — Diga se me entende, que os deuses o amaldiçoem. Quero ouvir: “Sim, Roland, eu entendo.”

— Sim, Roland, eu entendo muito bem. — Houve uma pausa. — Se nós vencermos, o povo vai descobrir, concorda? Descobrir sobre... mim?

— Não por Andy, não vão — disse Roland. — A tagarelice dele acabou. Nem por mim, se fizer como agora promete. E tampouco pelo meu ka-tet. Não por respeito a você, mas por respeito a Jake Chambers. E se os Lobos caírem na armadilha que aprontei pra eles, por que o folken iria suspeitar de outro traidor? — Avaliou Slightman com olhos frios. — É gente inocente. Confiante. Como sabe. Com certeza, você usou isso.

O rubor retornou. Slightman baixou os olhos mais uma vez para o piso do banco da boléia. Roland olhou para cima e viu o lugar que estava à procura menos de 500 metros adiante. Ótimo. O horizonte no leste continuava sem nuvens de pó, mas ele as sentiu avolumando-se em sua mente. Os Lobos estavam vindo, ah, sim. Em algum lugar do outro lado do rio, haviam saltado do trem, montado nos cavalos e cavalgavam a toda como o diabo. E disso ele não teve a menor dúvida.

— Eu fiz isso pelo meu filho — disse Slightman. — Andy me procurou e disse que com certeza iam levá-lo. Pra algum lugar ali, Roland. — Apontou para o leste, em direção ao Trovão. — Em algum ali, existem criaturas infelizes chamadas Quebradores. Prisioneiros. Andy disse que são telepatas e psicocinéticos, e embora eu não conheça nenhuma destas duas palavras, sei que têm a ver com a mente. Os Quebradores são humanos, comem tudo que nós precisamos pra nutrir seus corpos, mas necessitam de outra comida, especial, pra nutrir seja o que for que os torna especiais.

— Comida de cérebro — disse Roland, lembrando que sua mãe chamara peixe de comida de cérebro.

E depois, sem nenhuma razão aparente, viu-se pensando nas rondas noturnas de Susannah. Só que não era Susannah quem visitava aquele salão de banquete à meia-noite; era Mia, filha de ninguém.

— É, eu reconheço — concordou Slightman. — De qualquer modo, é alguma coisa que só os gêmeos têm, que os liga mente com mente. E esses caras, não os Lobos, mas os que mandam os Lobos, a tiram. Quando a tiram, as crianças ficam idiotas. Roont. É comida, Roland, entende? Por isso é que eles as levam! Pra alimentar seus malditos Quebradores. Não as barrigas nem os corpos, mas as mentes! E eu nem sei o que eles decidiram quebrar!

— Os dois Feixes de Luz que ainda sustentam a Torre — disse Roland.

Slightman ficou estupefato. E temeroso.

— A Torre Negra? — sussurrou as palavras. — Você diz isso?

— Digo. Quem é Finli? Finli o’Tego?

— Eu não sei. Uma voz que recebe minhas informações, só isso. Um taheen, eu acho... sabe o que é isso?

— Você sabe?

Slightman fez que não com a cabeça.

— Então deixemos pra lá. Talvez eu o encontre a tempo e ele vai responder pessoalmente por isso.

Slightman não respondeu, mas Roland sentiu sua dúvida. Estava tudo bem. Já haviam quase chegado, e o pistoleiro sentiu afrouxar-se uma faixa invisível que fora apertada em sua cintura. Virou-se inteiramente para o capataz pela primeira vez.

— Sempre houve alguém como você pra Andy ludibriar, Slightman; não tenho a menor dúvida de que foi sobretudo pra isso que o deixaram aqui, assim como não tenho a menor dúvida de que sua filha, a irmã de Benny, não morreu num acidente mortal. Eles sempre precisam de um gêmeo restante e um pai fraco.

— Você não pode...

— Calado. Já disse tudo que é bom pra você.

Slightman ficou calado ao lado de Roland no banco.

— Eu entendo a traição. Já fiz minha parcela dela uma vez ao próprio Jake. Mas isto não muda o que você é; vamos falar com toda a franqueza. Você é um corvo que come carniça. Um melro que se tornou abutre.

A cor voltara à face de Slightman, tingindo-a de um tom purpúreo.

— Fiz o que fiz pelo meu menino — disse, obstinadamente.

Roland cuspiu na mão em concha, ergueu-a e acariciou a face de Slightman, agora irrigada de sangue e quente ao toque. Depois o pistoleiro pegou os óculos que ele usava e balançou-os levemente no nariz do sujeito.

— Não vai lavar — disse, muito baixo. — Por causa destes. Assim é como marcam você, Slightman. É seu estigma. Você diz que fez isso pelo seu menino porque lhe permite dormir à noite. Eu digo a mim mesmo que o que fiz a Jake o fiz pra não perder minha chance na Torre... e isso me permite dormir à noite. A diferença entre nós, a única diferença, é que eu nunca aceitei um par de óculos. — Limpou a mão na calça. — Você se vendeu, Slightman. E esqueceu o rosto de seu pai.

— Me deixe estar — sussurrou Slightman. Limpou a mancha de cuspe do pistoleiro da face. Ela foi substituída por suas próprias lágrimas. — Pelo meu filho.

Roland assentiu.

— Tudo não passa disso, pelo seu filho. Você o arrasta atrás de si como uma galinha morta. Bem, não tem importância. Se tudo sair como espero, pode viver sua vida com ele em Calla e envelhecer com o respeito de seus vizinhos. Será um daqueles que se levantou contra os Lobos quando os pistoleiros chegaram à cidade pelo Caminho do Feixe de Luz. Quando não puder andar, ele andará com você e o amparará. Eu vejo isso, mas não gosto do que vejo. Porque um homem que vende a alma por uns óculos vai revendê-la por alguma outra coisa ainda mais barata, e cedo ou tarde seu filho vai descobrir o que você é, de qualquer modo. O melhor que poderia acontecer a seu filho hoje é você morrer como um herói. — E, então, antes que Slightman pudesse responder, Roland elevou a voz e gritou: — Ei, Overholser! Opa, a carroça! Overholser! Pare! Estamos aqui! Agradeça!

— Roland... — começou Slightman.

— Não — disse Roland, afrouxando as rédeas. — A conversa já acabou. Só se lembre do que eu disse, sai: se tiver uma chance de morrer hoje como herói, faça a seu filho um favor e agarre-a.

 

3

A princípio, tudo seguiu de acordo com o plano e eles chamaram isso de ka. Quando as coisas começaram a dar errado e começaram as mortes, também chamaram isso de ka. Ka, o pistoleiro poderia ter-lhes dito, era muitas vezes a última coisa acima da qual a gente tinha de se erguer.

 

4

Roland explicara às crianças o que queria delas quando ainda na refeição em comum, sob as tochas em chamas. Agora, com a luz do dia clareando (mas o sol ainda à espera nos bastidores), ocuparam seus lugares perfeitamente, enfileirando-se na estrada dos mais velhos aos mais moços, cada par de gêmeos de mãos dadas. As buckas estavam estacionadas no lado esquerdo da estrada, as rodas fora pouco acima do fosso. A única abertura era onde a trilha para o campo do arroio se separava da estrada do Leste. Parados ao lado das crianças numa extensa fila encontravam-se os zeladores, o número agora inchado para bem mais de 12 com o acréscimo de Tian, père Callahan, Slightman e Wayne Overholser. Do outro lado, defronte a eles, posicionados numa fila acima do fosso à direita, Eddie, Susannah, Rosa, Margaret Eisenhart e a mulher de Tian, Zalia. Cada mulher usava uma sacola de vime debruada de seda, cheia de pratos. Empilhadas no fosso abaixo e atrás deles estavam caixas contendo mais Orizas. Eram duzentos pratos ao todo.

Eddie olhou o outro lado do rio. Ainda nenhuma poeira. Susannah deu-lhe um sorriso nervoso, que ele retribuiu. Essa era a parte difícil — a parte apavorante. Mais tarde, soube, o nevoeiro vermelho ia envolvê-lo e transportá-lo. Agora ele estava consciente demais. Do que tinha mais consciência era de que naquele exato momento se achavam tão desamparados e vulneráveis como uma tartaruga sem o casco.

Jake chegou dando esbarrões na fila de crianças, trazendo a caixa de miudezas: fitas de cabelo, uma borracha de alívio para dentição infantil, um apito solto de uma língua-de-sogra, um sapato velho com quase toda a sola gasta, uma meia sem par. Devia haver talvez duas dúzias de artigos semelhantes.

— Benny Slightman! — ladrou Roland. — Frank Tavery! Francine Tavery! Aqui comigo!

— Aqui, já! — disse o pai de Benny Slightman, alarmado. — Por que está mandando meu filho sair da fila...

— Pra fazer o dever dele, assim como você faz o seu — disse Roland. — Nem mais uma palavra.

As quatro crianças que Roland chamara apresentaram-se diante dele. Os Tavery ruborizados e ofegantes, olhos brilhando, ainda de mãos dadas.

— Escutem, agora, e não me façam repetir uma única palavra — disse Roland.

Benny e os Tavery curvaram-se para a frente ansiosamente. Embora com visível impaciência por ter de partir, Jake estava menos ansioso; sabia dessa parte, e de quase tudo que se seguiria. Do que Roland esperava que se seguisse.

Roland falava com as crianças, mas alto o bastante para a fila tensa dos zeladores delas também ouvir.

— Vocês vão subir o caminho — disse — e a cada poucos passos deixar alguma coisa, como se houvessem caído numa jornada árdua, rápida. Não corram, mas pouco menos que isso. Vejam onde pisam. Vão só até onde o caminho se bifurca, fica a uns 500 metros, e não além. Estão entendendo? Nem mais um passo além.

Eles assentiram ansiosamente. Roland desviou o olhar para os adultos em pé, tensos, atrás deles.

— Estes quatro têm dois minutos de vantagem. Depois vai o resto dos gêmeos, os mais velhos primeiro, os mais moços em seguida. Eles não vão longe; os últimos pares mal sairão da estrada. — Elevou a voz a um grito de comando. — Crianças! Quando ouvirem isto, voltem! Voltem pra mim às pressas! — Enfiou os dois primeiros dedos da mão esquerda nos cantos da boca e deu um assobio tão penetrante que várias crianças taparam os ouvidos.

Annabelle Javier perguntou:

— Sai, se pretende que as crianças se escondam nas minas, por que as chamaria de volta?

— Porque elas não vão para as grutas — disse Roland. — Elas vão lá pra baixo. — Apontou para o leste. — Lady Oriza vai tomar conta das crianças. Elas vão se esconder nos arrozais, bem deste lado do rio. — Todos olharam para onde ele apontava, e foi assim que todos viram a poeira ao mesmo tempo.

Os Lobos estavam vindo.

 

5

— Nosso grupo a caminho, doce de coco — disse Susannah.

Roland balançou a cabeça e virou-se para Jake.

— Ande logo, Jake. Exatamente como eu disse.

Jake retirou um punhado de coisas da caixa e estendeu-o aos gêmeos Tavery. Depois saltou o fosso à esquerda, gracioso como um gamo, e pôs-se a subir a trilha do arroio com Benny a seu lado. Frank e Francine logo atrás; enquanto Roland olhava, Francine deixou um chapeuzinho cair da mão.

— Muito bem — disse Overholser. — Entendo parte disso, entendo, sim. Os Lobos vão ver o rebotalho e ter ainda mais certeza de que as crianças estão lá em cima. Mas por que mandar todo o resto delas pro norte, pistoleiro? Por que não levá-las direto para o arroz agora?

— Porque temos de imaginar que os Lobos também possam farejar o rastro da presa como os lobos reais. — disse Roland. Elevou mais uma vez a voz. — Crianças, subir o caminho! Os mais velhos primeiro! Segurem a mão do parceiro e não a soltem! Voltem ao meu assobio!

As crianças deram a partida, ajudadas a transpor o fosso por Callahan, Sarey Adams, os Javier e Ben Slightman. Todos os adultos pareciam ansiosos; só o pai de Benny parecia também desconfiado.

— Os Lobos vão subir, porque têm motivos para acreditar que as crianças estão lá em cima — explicou Roland —, mas não são tolos, Wayne. Vão em busca de sinais e nós vamos dá-los a eles. Se farejarem, e aposto a última colheita de arroz desta cidade que vão fazê-lo, vão ter mais que o cheiro de sapatos e fitas caídos pra examinar. Depois que o cheiro do principal grupo acabar, o dos quatro que mandei primeiro vai levá-los ainda mais longe por algum tempo. Mas a essa altura isso não deve importar.

— Mas...

Roland ignorou-o. Voltou-se para o pequeno bando de combatentes. Seriam sete ao todo. Um bom número, disse a si mesmo. Um número de força. Olhou a nuvem de poeira além. Elevava-se mais alta que qualquer dos demônios de poeira do seminon restante, e movia-se com terrível velocidade. Mas por enquanto Roland achou que estavam todos bem.

— Prestem atenção e escutem. — Era com Zalia, Margaret e Rosa que ele falava. Os membros de seu próprio ka-tet já conheciam essa parte, haviam sabido desde que o velho Jamie sussurrara seu segredo há muito guardado no ouvido de Eddie, no alpendre dos Jaffords. — Os Lobos não são homens nem monstros; são robôs.

— Robôs! — gritou Overholser, mais com surpresa que descrença.

— É, daqueles que meu ka-tet já viu antes — continuou Roland. Pensava numa certa clareira onde os últimos serviçais sobreviventes do grande urso haviam perseguido uns aos outros num incessante e nervoso círculo. — Eles usam capuzes pra ocultar minúsculas coisinhas enroscadas no topo da cabeça. São provavelmente desta largura e deste comprimento. — Roland mostrou-lhes uma altura de uns 5 centímetros e um comprimento de uns 10. — Foi no que Molly Doolin acertou e decepou com seu prato, faz muito tempo. Acertou sem querer. Nós vamos acertar de propósito.

— Capuzes pensantes — disse Eddie. — A conexão deles com o mundo externo. Sem eles, são mortos como bosta de cachorro.

— Mirem aqui. — Roland ergueu a mão direita uns 2 centímetros acima do cocuruto da cabeça deles.

— Mas os peitos... as guelras nos peitos... — começou Margaret, parecendo visivelmente desorientada.

— Disparate agora, e sempre foi — disse Roland. — Mirem nos topos dos capuzes.

— Um dia — disse Tian — vou saber por que precisou haver tantos disparates de sacanagem.

— Espero que haja um dia — disse Roland.

As últimas crianças do grupo, as mais moças, acabavam de dirigir-se caminho acima, obedientemente de mãos dadas. Os mais velhos talvez já devessem estar 200 metros adiante, o quarteto de Jake no mínimo outros 200 além deles. Haveria de bastar. Roland voltou a atenção para os zeladores delas.

— Agora eles vão voltar — disse. — Assim que chegarem, levem-nos pro outro lado do fosso e pelos pés de milho em duas filas de pares. — Indicou com o polegar atrás, sem olhar. — Preciso dizer como é importante que os pés do milho não sejam perturbados, sobretudo perto da estrada, onde os Lobos podem ver?

Fizeram que não com a cabeça.

— Na borda do arrozal — continuou Roland —, vocês as levam para um dos riachos. Levem quase até o rio, depois as mandem deitar-se onde as plantas continuam altas e verdes. — Abriu as mãos, os olhos azuis em chamas. — Espalhem-nas. Vocês adultos ficam no lado delas do rio. Se houver problema, mais Lobos, alguma outra coisa inesperada, é deste lado que eles virão.

Sem lhes dar uma chance de fazer perguntas, enfiou mais uma vez os dedos nos cantos da boca e assobiou. Vaughn Eisenhart, Krella Anselm e Wayne Overholser juntaram-se aos outros no fosso e começaram a gritar aos pequenos para que dessem meia-volta e retornassem para a estrada. Eddie, enquanto isso, deu outra olhada para trás e surpreendeu-se ao ver a rapidez com que a nuvem de pó avançara aproximando-se do rio. O movimento incrivelmente rápido fazia perfeito sentido quando se conhecia o segredo; aqueles cavalos cinzentos não eram sequer cavalos, mas transportes mecânicos disfarçados para parecerem cavalos, não mais que isso.

— Roland, eles estão chegando depressa! Depressa pra burro!

Roland olhou.

— Estamos muito bem — disse.

— Tem certeza? — perguntou Rosa.

— Sim.

As crianças mais moças agora voltavam correndo pela estrada, de mãos dadas, olhos esbugalhados de medo e excitação. Cantab dos mannis e Ara, sua mulher, conduziam-nas. Ela dizia-lhes que andassem no meio das fileiras e tentassem não esbarrar nem de leve nas plantas esqueléticas.

— Por que, sai? — perguntou um fedelho, que com certeza não tinha mais de quatro anos. Via-se uma suspeita mancha escura na frente de sua jardineira. — Pode ver que os milhos já foram todos colhidos.

— É um jogo — disse Cantab. — Um jogo de não-toque-no-milho. — Começou a cantar. Algumas das crianças juntaram-se a eles, mas a maioria sentia-se desorientada e assustada demais para isso.

Enquanto os pares iam atravessando a estrada, ficando mais altos e velhos quando se aproximavam, Roland lançou outro olhar ao leste. Calculou que os Lobos ainda estavam a dez minutos do outro lado do Whye, e dez minutos deveriam bastar, mas, deuses, eles eram velozes! Já lhe passara pela mente que talvez tivesse de manter Benny Slightman e os gêmeos Tavery ali em cima, com eles. Embora isso não estivesse no plano, quando as coisas chegavam àquele ponto, o plano quase sempre começava a mudar. Tinha de mudar.

Agora os últimos dos gêmeos estavam atravessando, e só Overholser, Callahan, Slightman pai e Sarey Adams continuavam na estrada.

— Vão — disse-lhes Roland.

— Eu quero esperar meu filho! — contestou Slightman.

— Vá!

Slightman pareceu disposto a discutir a questão, mas Sarey Adams tocou-lhe o ombro e Overholser na verdade segurou o outro.

— Venha — disse Overholser. — O homem vai cuidar do seu da mesma forma que do dele.

Slightman lançou a Roland um último olhar duvidoso, depois transpôs o fosso e começou a conduzir a ponta final da fila ladeira abaixo, junto com Overholser e Sarey.

— Susannah, mostre a eles o esconderijo — disse Roland.

Haviam tomado o cuidado de certificar-se de que as crianças cruzassem o fosso no lado do rio da estrada bem abaixo de onde haviam feito a escavação no dia anterior. Agora, usando uma das pernas inválidas e reduzidas, Susannah chutou para o lado um emaranhado de folhas, galhos e pés de milho mortos — aquela coisa que se esperaria ver deixada para trás num fosso de escoamento na beira de estrada —, e revelou um buraco escuro.

— É só uma trincheira — disse, quase se desculpando. — Há tábuas em cima. Leves, fáceis de empurrar. É aí que vamos ficar. Roland fez um... ah, não sei como vocês o chamam, nós chamamos de periscópio de onde eu venho, uma coisa com espelhos dentro que a gente pode ver através... e quando chegar a hora, simplesmente nos levantamos. As tábuas caem em volta de nós quando o fazemos.

— Cadê o Jake e os outros três? — perguntou Eddie. — Já deviam estar de volta.

— É cedo demais — disse Roland. — Acalme-se, Eddie.

— Não vou me acalmar e não é cedo demais. Vou até lá...

— Não, não vai — disse Roland. — Temos de ter o máximo de gente que pudermos antes que eles percebam o que está acontecendo. O que significa manter nosso poder de fogo aqui, nas costas deles.

— Roland, alguma coisa não está certa.

Roland ignorou-o.

— Damas-sais, por favor, entrem ali. As caixas de pratos extras vão ficar na sua ponta; só vamos chutar algumas folhas sobre elas.

Olhou para o outro lado da estrada quando Zalia, Rosa e Margaret começaram a rastejar para o buraco que Susannah revelara. O caminho até o arroio estava agora completamente vazio. Ainda nenhum sinal de Jake, Benny e os gêmeos Tavery. Começou a achar que Eddie tinha razão; alguma coisa dera errado.

 

6

Jake e seus companheiros chegaram ao lugar onde a trilha se dividia, rápido e sem incidentes. Ele guardara dois objetos, e quando chegaram à bifurcação, atirou um reco-reco quebrado em direção à gruta Glória e um bracelete de menina de fios entrançados na Cardeal. Escolham, pensou, e malditos sejam em qualquer uma das opções.

Quando se virou, viu que os gêmeos Tavery já começavam a voltar. Benny esperava por ele, o rosto pálido e os olhos brilhando. Jake acenou-lhe com a cabeça e forçou-se a retribuir o sorriso de Benny.

— Vamos — disse.

Então ouviram o assobio de Roland e os gêmeos desembestaram a correr, apesar dos seixos e pedras tombadas que juncavam o atalho. Continuavam de mãos dadas, serpeando o caminho em volta do que não podiam simplesmente transpor.

— Ei, não corram! — gritou Jake. — Ele disse pra não correr e cuidado onde pis...

Foi quando Frank Tavery pisou no buraco. Jake ouviu o ruído triturado, estalado, que o tornozelo dele fez ao quebrar-se, soube pela horrorizada contração no rosto de Benny que também ele vira. Então Frank soltou um grito lastimoso, baixo, e tombou para o lado. Francine tentou agarrá-lo e pegou-o pelo antebraço com a mão, mas o garoto era pesado demais. Escorregou pela mão dela como um contrapeso. O baque do crânio colidindo com o afloramento de granito foi mais alto que o feito pelo tornozelo. O sangue logo escorrendo do ferimento na cabeça brilhou na luz da manhãzinha.

Problema, pensou Jake. E em nossa estrada.

Boquiaberto, Benny ficou com a face cor de queijo cottage. Francine já se ajoelhava ao lado do irmão, estendido num ângulo retorcido, horrível, com o pé ainda preso no buraco. Fazia ruídos agudos altos, ofegantes. Então, de repente, o agudo cessou. Os olhos dela reviraram nas cavidades e ela tombou para a frente sobre o irmão gêmeo, inconsciente, num desmaio mortal.

— Vamos — disse Jake, e quando Benny ficou apenas ali parado, boquiaberto, Jake deu-lhe um soco no ombro. — Pelo seu pai!

Isso fez Benny mexer-se.

 

7

Jake via tudo com a visão clara, fria, de um pistoleiro. O sangue respingado na pedra. O tufo de cabelos colado nele. A saliva nos lábios de Frank Tavery. O inchaço do recém-nascido seio da irmã estendida desajeitadamente sobre ele. Os Lobos agora estavam chegando. Não foi o assobio de Roland que lhe disse, mas o toque. Eddie, pensou, Eddie quer vir aqui.

Jake jamais tentara usar o toque para transmitir, mas o fez então: Fique onde está! Se não conseguirmos voltar a tempo, vamos tentar nos esconder enquanto eles passam, MAS NÃO VENHA ATÉ AQUI! NÃO ESTRAGUE TUDO!

Não tinha a mínima idéia se a mensagem fora transmitida, mas sabia sim que era só o que tinha tempo para fazer. Enquanto isso, Benny... o quê? Qual era le mot juste? A Sra. Avery de volta à Piper fora fenomenal em le mot juste. E ela lhe veio. Benny balbuciava.

— Que vamos fazer, Jake? Homem Jesus, os dois! Estavam ótimos! Só correndo, e então... e se os Lobos chegarem? E se chegarem enquanto a gente ainda estiver aqui? Melhor deixá-los aí, não é?

— Não vamos deixá-los aí — disse Jake.

Curvou-se e agarrou Francine Tavery pelos ombros. Puxou-a para uma posição sentada, sobretudo para tirá-la de cima do irmão, para Frank poder respirar. A cabeça dela balançou para trás, os cabelos flutuando como seda escura. As pálpebras adejaram, revelando o glabro branco embaixo. Sem pensar, Jake estapeou-a. E forte.

— Ai! Ai! — Os olhos abriram-se, azuis, lindos e chocados.

— Levante-se! — gritou Jake. — Saia de cima dele!

Quanto tempo se passara? Como tudo ficara quieto, agora que as crianças haviam voltado para a estrada! Nem um único pássaro cantava, sequer um pardal. Esperou que Roland tornasse a assobiar, mas ele não o fez. E, na verdade, por que faria? Estavam sozinhos agora.

Francine rolou para o lado, depois levantou-se cambaleando.

— Ajude-o... por favor, sai, eu imploro.

— Benny. Temos de tirar seu pé do buraco. — Benny abaixou-se sobre um joelho no outro lado do garoto estranhamente estendido. Tinha o rosto pálido, mas os lábios comprimidos um no outro numa linha reta que Jake achou encorajadora. — Pegue o ombro dele.

Benny segurou o ombro direito de Frank Tavery. Jake o esquerdo. Seus olhos se encontraram sobre o corpo do garoto inconsciente. Jake assentiu com a cabeça.

— Já.

Puxaram juntos. Os olhos de Frank Tavery abriram-se — tão azuis e lindos quanto os da irmã —, e ele deu um grito tão alto que saiu mudo. Mas o pé não se soltou.

Estava enterrado fundo.

 

8

Agora um vulto verde-acinzentado saía definindo-se da nuvem de pó, e ouviam o rufo ritmado de muitos cascos na terra dura. As três mulheres de Calla estavam no esconderijo. Só Roland, Eddie e Susannah ainda permaneciam no fosso, os homens em pé, Susannah ajoelhada com as fortes coxas abertas. Fitavam o outro lado da estrada e o atalho do arroio acima. O atalho continuava vazio.

— Ouvi alguma coisa — disse Susannah. — Acho que um deles se machucou.

— Foda-se, Roland, eu vou atrás deles — disse Eddie.

— É isso que Jake quer ou o que você quer? — perguntou Roland.

Eddie ruborizou-se. Ouvira Jake em sua cabeça, não as palavras exatas, mas o essencial, e imaginou que Roland também.

— Há uma centena de crianças ali e apenas quatro lá — disse Roland. — Esconda-se, Eddie. Você também, Susannah.

— E você? — perguntou Roland.

Roland sorveu um profundo hausto de ar, soltou-o.

— Vou ajudar se puder.

— Não vai atrás dele, vai? — Eddie olhava Roland com crescente descrença. — Realmente não.

Roland deu uma olhada em direção à nuvem de poeira e o agrupamento verde-acinzentado embaixo, que se definiria em cavalos e cavaleiros individuais em menos de um minuto. Cavaleiros com cara de lobo rosnando, emoldurada em capuzes verdes. Mais que cavalgavam, precipitavam-se para o rio.

— Não — disse Roland. — Não posso. Esconda-se.

Eddie ficou onde estava por mais um momento, mão na coronha do grande revólver, rosto pálido pensativo. Então, sem dizer uma palavra, virou as costas para Roland e agarrou o braço de Susannah. Ajoelhou-se ao seu lado, depois entrou no buraco. Agora só havia Roland, com o grande revólver pendurado bem baixo em seu quadril esquerdo, olhando para o leito seco do arroio do outro lado da estrada.

 

9

Embora Benny Slightman fosse um rapazola de boa constituição física, não conseguiu empurrar a grande laje de pedra que prendia o pé do garoto Tavery. Jake viu isso na primeira empurrada. Sua mente (sua mente fria, fria) tentou julgar o peso do garoto aprisionado em contraposição ao da pedra aprisionadora. Imaginou que a pedra pesava mais.

— Francine.

Ela olhou-o com olhos agora úmidos e meio cegos de choque.

— Você gosta dele? — perguntou Jake.

— Sim, com todo o meu coração.

Ele é seu coração, pensou Jake.

— Então nos ajude. Puxe-o com o máximo de força que puder, quando eu mandar. Não importa se ele gritar, puxe assim mesmo.

Ela fez que sim com a cabeça como se entendesse. Jake esperou que sim.

— Se não conseguirmos tirá-lo desta vez, vamos ter de deixá-lo.

— Eu nunca!. — ela gritou.

Não era hora de discutir. Jake juntou-se a Benny ao lado da pedra branca chata. Além de sua borda denteada, a canela coberta de sangue de Frank desaparecia num buraco negro. O garoto estava totalmente acordado agora, e ofegando. Revirava o olho esquerdo de terror. O direito achava-se enterrado num lençol de sangue. Um pedaço de crânio com a pele pendia sobre a orelha.

— Vamos erguer a pedra e você vai puxá-lo — disse Jake a Francine. — No três. Pronta?

Quando ela balançou a cabeça, os cabelos desceram em seu rosto como uma cortina. Ela não fez a menor tentativa de retirá-los, apenas segurou o irmão embaixo das axilas.

— Francie, não me machuque — gemeu ele.

— Calado — disse ela.

— Um — disse Jake. — Puxe esta porra, Benny, mesmo que estoure seus ovos. Tá me ouvindo?

— Pode apostar, só conte.

— Dois. Três.

Eles puxaram, gritando do esforço. A pedra se mexeu, Francine deu um puxão no irmão para trás com toda a força, também gritando.

O grito de Frank Tavery quando o pé se soltou foi o mais alto de todos.

 

10

Roland ouviu gritos roucos de esforço sobrepujados por um grito de pura agonia. Algo acontecera lá, e Jake fizera alguma coisa para resolver. A questão era se fora suficiente para corrigir o que saíra errado.

Borrifos voaram na luz matinal quando os Lobos mergulharam no Whye e começaram a galopar do outro lado em seus cavalos cinzentos. Roland via-os claramente agora, vindo em ondas de cinco e seis, enfiando esporas nas montarias. Calculou o número em sessenta. No outro lado do rio, haviam desaparecido sob a banqueta de um penhasco coberto de grama. Depois reaparecendo, a menos de 2 quilômetros. Desapareceriam mais uma vez, atrás de uma última colina — todos eles, se continuassem agrupados como estavam agora —, e essa seria a última chance para Jake chegar, para todos se esconderem.

Olhou fixo o atalho acima, torcendo para que as crianças surgissem — desejando que Jake aparecesse —, mas o atalho continuava vazio.

Os Lobos subiam a toda agora a margem oeste do rio, os cavalos lançando chuvaradas de gotas que cintilavam como ouro no sol da manhã. Voavam torrões de terra e jatos de areia. Então as batidas de cascos tornaram-se um trovão aproximando-se.

 

11

Jake pegou um ombro, Benny o outro. Carregaram Frank Tavery assim pelo atalho, mergulhando à frente com estouvada rapidez, mal olhando até a confusão de pedras embaixo. Francine corria logo atrás deles.

Contornaram a última curva, e Jake sentiu uma onda de alegria quando viu Roland no fosso oposto, Roland imóvel, mantendo guarda com a mão esquerda boa na coronha do revólver e a aba do chapéu virada para trás da testa.

— É meu irmão! — gritava Francine para o pistoleiro. — Ele caiu! Ficou com o pé preso num buraco!

Roland de repente saiu fora da visão.

Francine olhou em volta, não assustada exatamente, mas sem entender.

— Que...?

— Espere — disse Jake, pois foi só isso que soube dizer. Não teve nenhuma outra idéia. Se isso também se aplicava ao pistoleiro, na certa iam morrer ali.

— Meu tornozelo... ardendo — ofegava Frank Tavery.

— Calado — disse Jake.

Benny riu. Uma risada de choque, mas também verdadeira. Jake olhou-o em volta de Frank Tavery soluçando, sangrando... e piscou os olhos. Benny retribuiu a piscadela. E, muito simples, eram mais uma vez amigos.

 

12

Ali deitada na escuridão do esconderijo, com Eddie à esquerda e o cheiro penetrante de folhas no nariz, Susannah sentiu uma repentina contração agarrar-lhe a barriga. Teve apenas tempo de registrá-la até um furador de gelo de dor, indecente e violenta, mergulhar no lado esquerdo do seu cérebro, parecendo entorpecer todo aquele lado de seu rosto e de seu pescoço. No mesmo instante, a imagem de um grande salão de banquete encheu-lhe a mente: assados fumegantes, peixe recheado, filés defumados, litros de champanhe, fragatas cheias de molho, rios de vinho tinto. Ouviu um piano e uma voz carregada de terrível tristeza a cantar a música de Elton John.

— Alguém salvou, alguém salvou, alguém salvou minha viii-da esta noite — entoava.

Não!, Susannah gritou para a força que tentava engoli-la. E tinha nome aquela força? Claro que sim. Chamava-se Mãe, a mão que embalava o berço, e a mão que embala o berço governa o mun...

Não! Você tem de me deixar terminar isto! Depois, se quiser tê-lo, eu a ajudarei! Eu a ajudarei a tê-lo! Mas se tentar forçar isto em mim agora, vou lutar com unhas e dentes! E se isto chegar a me matar e matar seu precioso chapinha junto comigo, eu o farei! Tá me escutando, sua cadela?

Por um instante, nada além da escuridão, a pressão da perna de Eddie, a dormência no lado esquerdo de seu rosto, o estrondo dos cavalos que se aproximavam, o cheiro penetrante das folhas e o som das Irmãs respirando, aprontando-se para sua própria batalha. Depois, cada uma das palavras articuladas claramente de um lugar acima e atrás do olho esquerdo de Susannah, Mia pela primeira vez falou com ela.

Lute sua luta, mulher. Eu até ajudarei, se puder. E depois cumpra sua promessa.

— Susannah? — murmurou Eddie do lado dela. — Está tudo bem com você?

— Sim. — E estava.

O furador de gelo desaparecera. A voz desaparecera, e também a terrível dormência. Mas, ali perto, Mia esperava.

13

Deitado de bruços no fosso, Roland agora vigiava os Lobos com um olho de imaginação e um de intuição, em vez de com os da cabeça. Os Lobos estavam entre o penhasco e a colina, cavalgando a toda carga com as capas flutuando atrás. Iam todos desaparecer atrás da colina por talvez sete segundos. Se, era isso, permanecessem agrupados e os líderes não começassem a avançar na frente. Se ele calculara corretamente a velocidade deles. Se estivesse certo, teria cinco segundos durante os quais poderia fazer sinal a Jake e aos outros para que viessem. Ou sete. Se estivesse certo, eles teriam aqueles mesmos segundos para atravessar a estrada. Se estivesse errado (ou os outros fossem lentos), os Lobos poderiam ver o homem no fosso, as crianças na estrada ou todos eles. As distâncias seriam provavelmente grandes demais para usar suas armas, mas isso não teria muita importância, porque a emboscada cuidadosamente arquitetada iria por água abaixo. O inteligente seria ficar abaixado, e deixar as crianças lá entregues ao seu destino. Droga, quatro crianças capturadas no atalho do arroio tornariam os Lobos mais seguros que nunca de que as demais estavam escondidas mais afastado, numa das velhas minas.

Chega de pensar, disse-lhe Cort na cabeça. Se pretende agir, seu verme, esta é sua única chance.

Roland levantou-se disparado. Do outro lado, bem defronte a ele, protegidos pelo amontoamento de pedregulhos tombados, encontravam-se Jake e Benny Slightman, com o garoto Tavery apoiado entre eles e sangrando em cima e embaixo, sabiam os deuses o que acontecera com ele. A irmã olhava por cima de seu ombro. Naquele instante pareciam não apenas gêmeos, mas gêmeos siameses, ligados no corpo.

Roland sacudiu as duas mãos exageradamente acima da cabeça, como tentando agarrar um apoio no ar: A mim, venham! Venham! Ao mesmo tempo, olhou para leste. Nenhum sinal dos Lobos; ótimo. A colina havia tampado momentaneamente todos.

Jake e Benny atravessaram a toda a estrada, ainda arrastando o garoto entre eles. As botas forradas de Frank Tavery cavaram novas ranhuras na oggan. Só restou a Roland esperar que os Lobos não dessem nenhuma importância especial às marcas.

A garota veio por último, leve como uma fada.

— Pra baixo! — rosnou Roland, puxando-a pelo braço e estendendo-a no chão. — Pra baixo, pra baixo, pra baixo!

Jogou-se ao lado dela e Jake em cima dele. Roland sentia o coração do garoto batendo violentamente entre suas omoplatas, através das duas camisas, e teve um momento para apreciar a sensação.

Agora o tropel dos cavalos chegava intenso e forte, inchando a cada segundo. Teriam sido vistos pelos cavaleiros que os encabeçavam? Era impossível saber, mas eles iam saber, e logo. Nesse meio-tempo, só podiam continuar como planejado. Iam ser acomodações apertadas no esconderijo com mais três pessoas ali, e se os Lobos tivessem visto Jake e os outros três atravessando a estrada, todos iam ser cozinhados onde se achavam sem um único tiro disparado nem prato atirado, mas não havia tempo algum para se preocupar com isso agora. Restava-lhes um minuto no máximo, calculou Roland, talvez apenas quarenta segundos, e essa fraçãozinha de tempo se dissipava embaixo deles.

— Saia de cima de mim e se esconda — disse a Jake. — Já.

O peso desapareceu. Jake deslizou para o esconderijo.

— Você é o próximo, Frank Tavery — disse Roland. — E calado. Daqui a dois minutos pode gritar à vontade, mas por ora feche a matraca. Isto vale pra todos vocês.

— Vou ficar calado — disse o garoto, enrouquecido. Benny e a irmã de Frank assentiram com a cabeça.

— Nós vamos nos levantar num determinado momento e começar a atirar — disse Roland. — Vocês três, Frank, Francine, Benny, fiquem abaixados, colados no chão. — Fez uma pausa. — Por suas vidas, fiquem fora de nosso caminho.

14

Roland jazia estendido no escuro com cheiro de folhas e terra, prestando atenção na áspera respiração das crianças à esquerda. O som logo foi sobrepujado pelo dos cascos que se aproximavam. O olho da imaginação e o da intuição abriram-se mais uma vez, e maiores que nunca. Em não mais que trinta segundos — talvez apenas 15 — a fúria vermelha da batalha extinguiria tudo, menos a mais primitiva visão, mas por enquanto ele via tudo, e tudo que via era exatamente como queria que fosse. E por que não? Que bem visualizar planos perdidos algum dia fez a alguém?

Viu os gêmeos de Calla deitados de pernas e braços abertos como cadáveres na vegetação cerrada, a parte mais úmida do arrozal, com a terra revirada penetrando em suas camisas e calças. Viu os adultos além deles, quase até o lugar onde o arroz se tornava margem de rio. Viu Sarey Adams com seus pratos, e Ara dos mannis — a mulher de Cantab — com alguns dos dela, pois Ara também lançava (embora, como membro do povo manni, não pudesse fazer camaradagem com outras mulheres). Viu alguns dos homens — Estrada, Anselm, Overholser — com seus bahs colados ao peito. Em vez de bah, Vaughn Eisenhart abraçava o rifle que Roland limpara para ele. Na estrada, aproximando-se do leste, viu fileira atrás de fileira de cavaleiros com capas verdes em cavalos cinzentos. Diminuíam a velocidade agora. O sol acabava de subir e brilhava no metal de suas máscaras. A piada daquelas máscaras, claro, era que havia mais metal embaixo delas. Roland deixou o olho da imaginação elevar-se, à procura de outros cavaleiros — um grupo que se dirigia do sul para a cidade desguarnecida, por exemplo. Não viu nenhum. Em sua própria mente, pelo menos, todo o grupo de ataque concentrava-se ali. E se haviam engolido a isca que Roland e o Ka-tet do 99 haviam elaborado com tanto cuidado, deviam estar ali. Viu as carroças buckas enfileiradas no lado da cidade da estrada e teve tempo de torcer para que houvessem livrado as equipes das pegadas, mas claro que assim parecia melhor, mais apressado. Viu o atalho que levava aos arroios, às minas ao mesmo tempo abandonadas e trabalhando, até a colméia de grutas além delas. Viu os Lobos no comando puxando as rédeas ali com as mãos enluvadas, arrastando as bocas das montarias até torná-las rosnadas. Viu pelos olhos deles imagens não feitas de visão humana quente, mas fria, como nas visões de Magda. Viu o chapéu infantil que Francine deixara cair. Sua mente tinha um nariz além do olho, e sentiu o aroma brando embora fecundo de crianças. O cheiro de alguma coisa rica e gordurosa — a substância que os Lobos iriam extrair das que raptassem. Sua mente tinha um ouvido além do nariz, e ele ouvia — fracamente — aqueles mesmos cliques e estalos que haviam emanado de Andy, o mesmo zumbido baixo de transmissores, servomotores, bombas hidráulicas, sabiam lá os deuses que outra maquinaria. O olho de sua mente viu os Lobos primeiro inspecionando a confusão de rastros na estrada (esperava que lhes parecessem uma confusão), depois olhou para o atalho do arroio. Pois imaginá-los olhando para o outro lado, aprontando-se para grelhar eles dez no esconderijo como galinhas numa churrasqueira, bem nenhum lhe faria. Não, olhavam o atalho do arroio acima. Sentiam cheiro de crianças — talvez o medo delas, além da poderosa substância enterrada no fundo dos cérebros —, e viam os poucos vestígios de lixo e tesouro abandonados que suas presas haviam deixado para trás. Erguidos ali em seus cavalos mecânicos. Olhando.

Vão, exortou Roland em silêncio. Sentiu Jake se mexer um pouco a seu lado, a ouvir-lhe o pensamento. Sua prece, quase. Vão. Vão atrás deles. Tratem de pegar o que querem.

Ouviu-se um alto estalo. De um dos Lobos, seguido por um breve escape de sirene. À sirene, seguiu-se o asqueroso assobio gorjeado que Jake ouvira na Dogan. Depois, os cavalos recomeçaram a mover-se. Primeiro com o baixo baque dos cascos na oggan, depois no terreno pedregoso mais afastado do atalho do arroio. E nada mais; aqueles cavalos não gemiam, nervosos, como os ainda presos com arreios às buckas. Para Roland, bastava. Haviam engolido a isca. Ele retirou o revólver do coldre. A seu lado, Jake tornou a mexer-se, e Roland percebeu que fazia o mesmo.

Dissera-lhes a formação que esperava quando irrompessem do esconderijo: cerca de um quarto dos Lobos num lado do atalho, voltado para o rio, um quarto dos seus voltado para a cidade de Calla Bryn Sturgis. Ou talvez alguns mais naquele lado, pois se houvesse problema, era da cidade que os Lobos — ou os programadores dos Lobos — racionalmente esperariam que viesse. E os outros? Trinta ou mais? Já atalho acima. Encurralados, você sabe.

Roland começou a contar até vinte, mas quando chegou a 19 decidiu que já contara o bastante. Tratou de juntar as pernas abaixo de si — sem nenhuma torção seca agora, não mais que uma pontada de dor — e depois se lançou para cima com o revólver do pai seguro alto na mão.

— Por Gilead e Calla! — bramiu. — Agora, pistoleiros! Agora, vocês Irmãs de Oriza! Agora, já! Matem-nos! Não um quarto! Matem todos eles!

 

15

Lançaram-se para cima e para fora da terra como dentes de dragão. Tábuas voaram para os dois lados, junto com rajadas de ervas e folhas. Roland e Eddie tinham um dos revólveres grandes com punhos de sândalo. Jake, a Ruger do pai. Margaret, Rosa e Zalia seguravam cada uma um prato Riza. Susannah, dois, os braços cruzados nos seios como se ela sentisse frio.

Os Lobos se haviam distribuído em formação de combate exatamente como Roland vira com o frio olho assassino de sua imaginação, e ele sentiu um momento de triunfo antes que todos os pensamentos e emoções menores se dissipassem sob a cortina vermelha. Como sempre, nada o fazia sentir-se tão feliz por estar vivo quanto ao se preparar para lidar com a morte. Os cinco minutos de sangue e estupidez, dissera-lhes, e ali estavam aqueles cinco minutos. Também lhes dissera que sempre se sentia nauseado depois, e embora isto fosse bastante verdade, jamais se sentia tão bem quanto nesse momento inicial; tão completa e verdadeiramente ele mesmo. Ali estavam as pontas etiquetadas da antiga nuvem de glória. Não importava que fossem robôs; deuses, não! O que importava era que vinham atormentando os desamparados por infindáveis gerações, e desta vez haviam sido pegos total e completamente de surpresa.

— No alto dos capuzes! — gritou Eddie, quando na sua mão direita a pistola de Roland começou a trovejar e cuspir fogo. Os cavalos e mulas presos aos arreios recuaram nas pegadas; dois relincharam de surpresa. — No alto dos capuzes, peguem os bonés-pensantes!

E, como para demonstrar sua afirmação, os capuzes verdes de três cavaleiros à direita do atalho retorceram-se como apanhados por dedos invisíveis. Cada um dos três embaixo caiu a pique, desossado da sela e bateu no chão. No relato do grand-père, do Lobo que Molly Doolin derrubara, houve muitas contrações depois, mas aqueles três jaziam sob as patas de seus cavalos empinados tão imóveis quanto pedras. Molly talvez não houvesse atingido em cheio o “boné-pensante”, mas Eddie sabia no que estava atirando, e acertara.

Roland também se pôs a disparar, atirando do quadril, quase casualmente, mas cada bala encontrou seu alvo. Estava atrás deles no atalho, querendo empilhar os corpos ali, fazer uma barricada se conseguisse.

— Riza voa autêntica! — guinchou Rosalita Munoz.

O prato que segurava deixou-lhe a mão e arremeteu pela estrada do Leste com um incessante grito agudo. Varou o capuz de um cavaleiro na entrada do atalho do arroio onde ele tentava desesperadamente fazer a montaria dar meia-volta com as rédeas. A coisa tombou para trás, pés virados para o céu, e caiu de cabeça para baixo com as botas no chão.

— Riza! — Era Margaret Eisenhart.

— Pelo meu irmão! — gritou Zalia.

— Lady Riza vem pegar seus traseiros, seus velhacos! — Susannah descruzou os braços e lançou os dois pratos. Eles voaram gritando e entrecruzando-se em pleno ar, e acertaram os alvos. Fragmentos verdes esvoaçaram; os Lobos a quem haviam pertencido os capuzes tombaram mais rápido e pesado.

Brilhantes varas-de-fogo agora cintilavam na luz matinal, quando os cavaleiros, esforçando-se aos encontrões para se firmarem de cada lado do atalho, desembainharam suas armas. Jake acertou o boné-pensante do primeiro a desembainhá-la e ele caiu em sua própria espada, a chiar amargamente, ateando fogo na capa. O cavalo refugou de lado ao encontro da vara-de-fogo que estava descendo do cavaleiro à esquerda imediata. Sua cabeça desprendeu-se, revelando um ninho de faíscas e fios elétricos. Agora as sirenes começavam a balir ininterruptamente, alarmes de arrombamento no inferno.

Roland achara que os Lobos mais próximos da cidade poderiam tentar romper o cerco e fugir para Calla. Em vez disso, os nove que ainda restavam daquele lado — Eddie abatera seis com seus primeiros disparos — passavam a esporear os cavalos pelas buckas e partiam para cima deles. Dois ou três arremessaram bolas prateadas zumbindo.

— Eddie! Jake! Pomos de ouro! Sua direita!

Eles giraram logo naquela direção, deixando as mulheres a arremessarem pratos tão rápido quanto conseguiam retirá-los de suas sacolas revestidas de seda. Jake estava em pé com as pernas abertas e a Ruger estendida na mão direita, a esquerda envolta no punho direito. Os cabelos voavam para trás. De olhos arregalados e bonitos, ele sorria. Disparou três tiros rápidos, cada um uma vergastada no ar da manhã. Teve uma vaga e distante lembrança do dia nas matas em que fizera voar cerâmica pelos ares. Agora atirava numa coisa muito mais perigosa, e sentia-se contente. Contente. As três primeiras bolas voadoras explodiram em brilhantes clarões de luz azulada. Uma quarta esquivou-se, depois se lançou a toda para ele. Jake se abaixou e ouviu-a passar bem acima da cabeça, zumbindo como uma espécie de tostadeira enfurecida. Ia dar meia-volta, ele sabia, e retornar.

Antes que pudesse, Susannah rodopiou e disparou-lhe um prato. O prato voou em cheio para o alvo, uivando. Quando a atingiu, tanto ele quanto o pomo de ouro explodiram. Choveu metralha nos pés de milho, deixando alguns em chamas.

Roland recarregou, o cano fumegante do revólver momentaneamente apontado para baixo entre os pés. Além de Jake, Eddie fazia o mesmo.

Um Lobo saltou a emaranhada pilha de cadáveres na nascente do arroio, a capa verde flutuando atrás, e um dos pratos de Rosa rasgou-lhe para trás o capuz, revelando por um instante o disco de radar lá dentro. Os bonés-pensantes do séquito do urso moviam-se devagar e aos solavancos; este girava tão rápido que sua forma não passava de um borrão metálico. Depois desapareceu e o Lobo caiu aos trambolhões para o lado e em cima da parelha que puxara a carroça dianteira de Overholser. Os cavalos refugaram para trás, empurrando a bucka de encontro a um atrás, espremendo quatro animais que empinavam a gemer no meio. Estes tentaram fugir em disparada, mas não tinham para onde ir. O cavalo derrubado do Lobo ganhou a estrada, tropeçou no corpo de outro Lobo ali estendido e acabou se estatelando no pó, uma das pernas projetando-se torta para o lado.

A mente de Roland se fora; seu olho via tudo. Já recarregara. Os Lobos que haviam subido o atalho achavam-se encurralados atrás de uma emaranhada pilha de corpos, exatamente como ele esperara. O grupo de 15 no lado da cidade fora dizimado, restavam apenas dois. Os na direita tentavam flanquear a ponta do fosso, onde as três Irmãs de Oriza e Susannah ancoraram sua linha. Roland deixou os dois Lobos restantes a seu lado ao encargo de Eddie e Jake, precipitou-se a toda até a trincheira para se postar atrás de Susannah e começou a disparar nos dez Lobos restantes que rumavam em direção a elas. Um ergueu um pomo de ouro para arremessar, depois o largou quando a bala de Roland arrancou fora seu boné-pensante. Rosa tirou outro, Margaret um terceiro.

Margaret mergulhou para pegar mais um prato. Quando tornou a levantar-se, uma vara-de-fogo decepou-lhe a cabeça, ateando fogo nos cabelos ao tombar dentro do fosso. E a reação de Benny foi compreensível; ela fora quase uma segunda mãe para ele. Quando a cabeça em chamas caiu a seu lado, o garoto bateu-a para o lado e saiu correndo do fosso, cego de pânico, uivando de terror.

— Benny, não, volte! — gritou Jake.

Dois dos Lobos restantes arremessaram suas bolas mortais prateadas no garoto que rastejava gritando. Jake acertou uma no ar. Não teve chance na outra. Ela atingiu Benny Slightman no peito e o garoto simplesmente explodiu para fora, um braço desprendendo-se do corpo e pousando com a palma virada para cima na estrada.

Susannah decepou o boné-pensante que matara Margaret com um prato, depois partiu para o que matara o amigo de Jake com outro. Retirou duas Rizas novas da sacola e voltou-se mais uma vez para os Lobos que se aproximavam no momento em que um saltou no fosso, o peito do cavalo derrubando Roland estatelado. Ele brandiu a espada sobre o pistoleiro. A Susannah pareceu um brilhante tubo de néon vermelho-alaranjado.

— Não, não vai foder isso, seu filho-da-puta — gritou ela, e atirou o prato da mão direita. Varou o sabre brilhante e a arma simplesmente explodiu no punho, rasgando o braço do Lobo. No momento seguinte, os pratos de Rosa amputaram-lhe o boné-pensante e ele tombou de lado, espatifando-se no chão, a máscara brilhante sorrindo radiante para os gêmeos Tavery, deitados abraçados um ao outro. Um instante depois, começou a fumegar e fundiu-se.

Chamando Benny com gritos estridentes, Jake atravessou a estrada do Leste, recarregando a Ruger no caminho, rastreando pelo sangue do amigo morto sem percebê-lo. À esquerda, Roland, Susannah e Rosa acertavam as contas com os cinco Lobos restantes no que fora a ala norte do grupo atacante. Os atacantes giravam os cavalos em círculos sacudidos, inúteis, parecendo hesitantes sobre o que fazer em tais circunstâncias.

— Precisa de companhia, garotão? — perguntou-lhe Eddie.

No outro lado, todo o grupo de Lobos que ficara estacionado no lado da cidade do atalho do arroio jazia morto. Apenas um deles havia na verdade chegado até o fosso; o que jazia com a cabeça encapuzada colidida com a terra recém-revolta do esconderijo e os pés calçados de botas na estrada. O resto do corpo achava-se envolto na capa verde. Parecia um bicho que morreu em seu casulo.

— Claro — disse Jake. Estava falando ou só pensando? Ele não sabia. As sirenes explodiam o ar. — Como quiser. Eles mataram Benny.

— Eu sei. Isso fede.

— Devia ter sido a porra do pai dele — disse Jake. Estava chorando? Não sabia.

— Concordo. Tenho um presente.

Na mão de Jake, Eddie largou duas bolas de uns 6 centímetros de diâmetro. As superfícies pareciam de aço, mas quando Jake as apertou, sentiu-as ceder um pouco... era como apertar um brinquedo infantil feito de borracha muito dura. Uma plaqueta na lateral dizia:

“POMO DE OURO”

MODELO HARRY POTTER

Serial # 465-11-AA HPJKR

CUIDADO

EXPLOSIVO

À esquerda da plaqueta havia um botão. Uma distante parte da mente de Jake perguntou quem era Harry Potter. O inventor do pomo de ouro, com toda a probabilidade.

Eles chegaram à pilha de Lobos mortos na nascente do atalho do arroio. Talvez máquinas pudessem não estar realmente mortas, mas Jake não conseguiu pensar nelas como outra coisa, tombadas e emaranhadas como estavam. Mortos, sim. E ficou brutalmente satisfeito. Da parte de trás deles veio uma explosão, seguida de um grito agudo de extrema dor ou extremo prazer. Por um momento, Jake não deu muita bola. Toda a sua atenção se concentrava nos Lobos restantes encurralados no leito do arroio. Eram qualquer coisa entre 18 e 24.

Na frente, postava-se um Lobo com sua vara-de-fogo erguida a chiar. Semivirado para os parceiros, brandia agora a vara-de-fogo para a estrada. Exceto que não era uma vara-de-fogo, pensou Eddie. É um sabre-de-fogo, como os nos filmes Guerra nas Estrelas. Só que aqueles sabres-de-fogo não são efeitos especiais — realmente matam. Que diabos está acontecendo aqui? Bem, o cara na frente tentava reagrupar as tropas, até aí parecia claro. Eddie decidiu abreviar o sermão. Apertou com o polegar o botão num dos três pomos de ouro que guardara para si. A coisa começou a zumbir e vibrar em sua mão. Era como segurar um botão de campainha.

— Ei, Raio de Sol! — chamou ele.

O Lobo no comando não virou a cabeça, e portanto Eddie simplesmente encaixou o pomo de ouro nele. Lançado assim tão facilmente, devia ter atingido o chão a 20 ou 30 metros do amontoado de Lobos restantes e rolado até parar. Pegou ao contrário velocidade, subiu e atingiu o Lobo-chefe no centro exato do rosnado que era sua boca. A coisa explodiu pescoço afora, boné-pensante e tudo mais.

— Vamos — disse Eddie. — Experimente. Usar sua própria merda contra eles tem um prazer espe...

Ignorando-o, Jake largou os pomos de ouro que Eddie lhe dera, saiu tropeçando sobre a pilha de corpos e tomou o atalho.

— Jake? Jake, acho que não é uma idéia muito boa...

Uma mão agarrou a parte superior do braço de Eddie. Ele girou, erguendo a arma, depois baixando-a mais uma vez quando viu Roland.

— Ele não pode ouvi-lo — disse o pistoleiro. — Venha. Vamos ficar com ele.

— Espere, Roland, espere. — Era Rosa. Estava suja de sangue, e Eddie deduziu que fosse da pobre sai de Eisenhart. Não viu nenhum ferimento na própria Rosa. — Eu quero alguns deles — disse ela.

 

16

Eles alcançaram Jake assim que os Lobos restantes fizeram sua última investida. Alguns lançaram pomos de ouro. Estes, Roland e Eddie lançaram pelos ares facilmente. Jake disparou a Ruger em nove tiros firmes, espaçados, pulso direito agarrado na mão esquerda, e cada vez que disparou um dos Lobos ou despencou para trás da sela ou caiu escorregando de lado, para ser pisoteado pelos cavalos que vinham atrás. Quando a Ruger ficou vazia, Rosa pegou um décimo, gritando o nome de Lady Oriza. Zalia Jaffords também se juntara a eles, o 11ª coube a ela.

Enquanto Jake recarregava a Ruger, Roland e Eddie, em pé lado a lado, entraram em ação. Eles quase sem dúvida poderiam ter liquidado juntos os oito restantes (não surpreendeu muito a Eddie que ainda houvesse 19 nesse último grupo), mas deixaram os dois últimos para Jake. Quando se aproximaram, balançando as espadas-de-fogo acima da cabeça, de uma forma que teria certamente apavorado um bando de fazendeiros, o garoto atirou e arrancou o boné-pensante do da esquerda. Depois ficou de lado, esquivando-se quando o último Lobo sobrevivente fez um morno avanço sobre ele.

Seu cavalo saltou a pilha de corpos no fim do caminho. Susannah estava no outro lado da estrada, sentada nas ancas em meio a detritos de maquinaria revestida de capas verdes e máscaras podres, fundidas, tombadas. Também coberta de sangue de Margaret Eisenhart.

Roland entendeu que Jake deixara o final para Susannah, que acharia extremamente difícil juntar-se a eles no atalho do arroio por causa das pernas que lhe faltavam. O pistoleiro assentiu com a cabeça. O garoto vira uma coisa terrível naquela manhã, sofrerá um terrível choque, mas Roland achou que ele ia ficar bem. Oi — à espera da volta deles na casa-reitoria do père — iria sem dúvida ajudá-lo a suportar o pior de sua dor.

— Lady Ó-RIZA! — gritou Susannah, e lançou um prato final quando o Lobo deu meia-volta em seu cavalo, virando-o para leste, rumo ao que quer que chamava de lar. O prato subiu, gritando e cortando fora o topo do capuz verde. Por um momento aquele último ladrão de criança continuou sentado na sela, tremendo e ressoando seu alarme, pedindo ajuda que não viria. Então caiu de repente para trás, dando uma cambalhota completa em pleno ar e se estatelou com um baque na estrada. Sua sirene desligou-se no meio do berro.

E assim, pensou Roland, terminam nossos cinco minutos. Olhou devidamente o cano fumegando de seu revólver, depois o largou de volta no coldre. Um a um os alarmes disparados dos robôs derrubados silenciavam.

Zalia olhava-o com uma espécie de incompreensão aturdida.

— Roland! — disse.

— Sim, Zalia.

— Eles se foram? Podem mesmo ter ido? Realmente?

— Todos se foram — respondeu Roland. — Eu contei 61, e todos estão aqui ou na estrada em nosso fosso.

Por um momento, a mulher de Tian só ficou ali, processando essa informação. Depois fez uma coisa que surpreendeu um homem que não se surpreendia com muita freqüência. Atirou-se a ele, apertando o corpo francamente no dele, e cobriu-lhe o rosto com beijos famintos, molhados. Roland agüentou isso por algum tempo, depois a afastou. A náusea voltava agora. O sentimento de inutilidade. A sensação de que combateria aquela batalha ou outras iguais repetidas vezes por toda a eternidade, perdendo um dedo para as lagostrosidades aqui, talvez um olho para uma bruxa velha inteligente ali, e após cada batalha sentiria a Torre Negra um pouco mais distante, em vez de um pouco mais perto. E o tempo todo a torção seca se encaminharia para o coração.

Pare com isso, disse a si mesmo. É absurdo, e você sabe.

— Eles vão mandar mais, Roland? — perguntou Rosa.

— Talvez não tenham mais pra mandar — disse Roland. — Se o fizerem, haverá quase com toda a certeza menos deles. E agora vocês conhecem o segredo pra matá-los, não?

— Sim — disse ela, e deu-lhe um sorriso selvagem. Os olhos prometeram-lhe mais beijos depois, se ele a quisesse.

— Vão até o milharal — disse ele. — Você e Zalia. Diga a eles que é seguro subir agora. Lady Oriza permaneceu amiga de Calla. E da linhagem de Eld, também.

— Você não vem? — perguntou Zalia. Afastara-se dele, e tinha a face em chamas. — Não quer vir e deixar que eles o aclamem?

— Talvez mais tarde vamos todos ouvi-los nos aclamarem — disse Roland. — Agora precisamos conversar an-tet. O garoto teve um choque terrível, você entende.

— Sim — disse Rosa. — Sim, tudo bem. Vamos, Zee. — Estendeu o braço e tomou a mão de Zalia. — Me ajude a ser a portadora das boas-novas.