Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 8 de 36

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Carcereiros

Hulk

 

Não nasce do dia para a noite o destemor para enfrentar situações dramáticas como a da batalha do conhaque nem a fúria assassina que por pouco não fez Florisval cometer um ato insano.

Praticamente todos os guardas de presídio eram pessoas com bons antecedentes, que levavam vida pacata nas ruas dos bairros em que viviam. Nem mesmo os que mais tarde adquiririam fama de “caceteiros” prestaram concurso para agente penitenciário por apresentar alguma psicopatia ou pelo prazer sádico de torturar seres humanos. A convivência diária com a brutalidade da cadeia e com a falta de respeito à vida é que os contamina e transforma.

Quando perguntei a um ladrão condenado a mais de 120 anos quantas mortes tinha nas costas, ele respondeu:

— Perdi a conta. Para quem vive no crime, matar um inimigo é como tomar um copo de água.

Hulk foi o carcereiro mais forte que conheci. Antes de ser apresentado a ele, já tinha ouvido que, na sala em que os funcionários eram revistados antes de entrar na cadeia, havia “um negão do tamanho de um guarda-roupa de casal”, de modo que foi fácil identificá-lo quando saí naquele começo de noite.

Parecia uma estátua africana com os braços cruzados no umbral da salinha, vigiando os presos enfileirados que acabavam de chegar. A figura imponente ocupava a moldura inteira da porta.

A admissão de novos detentos acontecia todo fim de tarde. Os homens desciam dos camburões no pátio interno, conhecido como Divineia, para formar a fila que os levaria às celas coletivas do Dois, onde teriam o cabelo cortado rente nas têmporas, receberiam a calça cáqui que os identificaria e passariam várias noites dormindo no chão, colados uns aos outros, com os tênis ou as havaianas servindo de travesseiro, em meio às sarnas e à tosse alheia, até conseguir vaga nos demais pavilhões.

Como em obediência a um comando superior, ao descer do camburão invariavelmente olhavam ao redor e para cima, na direção das muralhas guardadas pelas metralhadoras dos pms. Abaixavam a cabeça e seguiam em frente até desaparecer atrás do portão de ferro do Dois, engolidos pelo monstro de concreto cinzento.

A chegada de presos em qualquer cadeia é um espetáculo desolador; não tem a menor graça ver aquelas vidas — jovens na maioria e pobres na totalidade — desperdiçadas atrás das grades. Nada mais semelhante à imagem dos bois a caminho do matadouro. Apesar da melancolia que a cena me faz sentir, até hoje não consigo deixar de acompanhar essas admissões atento aos detalhes e às expressões individuais como se fosse possível desvendar o mal que eles fizeram, os dramas familiares e a agonia que lhes vai na alma ao deixar a liberdade para trás.

A “Ave Maria” de Gounod, cantada por uma soprano que nunca pude identificar, às seis da tarde na Boca de Ferro, o alto-falante fanhoso instalado no alto da fachada do pavilhão Dois, horário que em geral coincidia com a admissão de novos detentos, ficou para mim definitivamente associada à fila de prisioneiros a caminho do portão que por anos seguidos os separaria do mundo livre. Se num fim de tarde eu decidir dar cabo da vida mas sentir que me falta coragem, bastará colocar no aparelho de som um cd com a “Ave Maria”.

O guarda-roupa de casal plantado à porta já tinha ouvido falar de mim, porque sorriu quando me aproximei:

— O senhor é o médico voluntário?

— E você só pode ser o Hulk.

O tamanho fazia jus ao apelido, mas não ao sorriso desarmado nem ao olhar de boi manso. Sorte que fui decidido para o aperto de mão, do contrário teria corrido o risco de vê-la esmigalhada.

Parei a seu lado enquanto os presos seguiam caminho. Quando passou por nós, o penúltimo da fila voltou-se para ele:

— Está me achando bonito?

Hulk descruzou os braços e andou firme na direção do atrevido. A fila estancou. Ele parou quase colado no rapaz, franzino, minúsculo perto do gigante. Tive a impressão de que seria levantado do chão e arremessado por cima da muralha, mas Hulk ficou mudo, com as narinas dilatadas. Ninguém se movia; nem ele, com os olhos fixos no ladrão que não ousava encará-lo.

Quando a tensão se tornou insuportável, Hulk retirou a esferográfica do bolso da camisa:

— Conhece esta arma? Me dá o número do teu prontuário.

Assim que os presos entraram pelo portão do Dois, perguntei que arma era aquela.

— Hoje em dia, doutor, é a única que o agente pode carregar, para anotar no prontuário a infração cometida. Atrasa a vida do sentenciado mais que uma surra de pau.

Funcionário antigo, ele veio para a Detenção depois de alguns anos no presídio do Hipódromo, desativado no início dos anos 1990.

Localizado no bairro paulistano da Mooca, o Hipódromo era uma prisão atípica, porque não tinha muralhas nem era vigiado pela pm: a segurança ficava por conta exclusiva dos guardas que trabalhavam sem armas num ambiente que lembrava o dos calabouços medievais. As celas não passavam de cubículos escuros fechados por grades, envoltos no cheiro acre das aglomerações humanas, nos quais os presos passavam os dias e as noites enjaulados, sem condições mínimas de convivência civilizada. Os corredores eram tão estreitos que os carcereiros tinham como norma percorrê-los de lado, para colocar o corpo fora do alcance dos ocupantes das celas.

O pequeno pátio interno, situado no topo do prédio, mal permitia o banho de sol em rodízios de curta duração. Os homens cumpriam pena trancados, a disputar o espaço físico, apertados uns contra os outros, no ócio, à espera do ofício que se dignasse a transferi-los ou libertá-los. Sem os préstimos de advogados particulares, privilégio raro, podiam mofar durante anos nessas condições. A única alternativa para escapar daquele inferno era saltar do teto da cadeia para o telhado da gráfica que funcionava ao lado, aventura em que o risco de fraturar as pernas era grande.

A precariedade das instalações era fonte permanente de desentendimentos, revoltas, mortes e tentativas de fuga. Sem contar com a intimidação que a presença constante dos policiais militares nas muralhas impõe nos presídios, muitos funcionários do Hipódromo aderiram à filosofia de que só era possível manter a disciplina na base do constrangimento físico. Numa época em que reprimir com violência fazia parte da rotina nas prisões, os colegas que trabalhavam em outras unidades diziam que o lema da turma do Hipódromo era bater antes para perguntar depois.

Hulk decidiu entrar para o Sistema Penitenciário aos dezoito anos, ao ouvir o conselho do pai de um amigo, funcionário que se aposentara após trinta anos de serviço na Penitenciária do Estado:

— Com um tamanho desses, você devia ser boxeador ou guarda de presídio.

Como seu maior sonho era comprar um terno azul-marinho para fazer boa figura nos bailes de sábado à noite do Som de Cristal e do Paulistano da Glória, a segunda opção lhe pareceu mais razoável:

— Não nasci para tomar soco na cara nem para ficar de agarra-agarra com homem.

Vestia o terno que comprara em seis prestações na Casa José Silva, da Brigadeiro Luiz Antônio, assim que recebeu o primeiro salário, quando conheceu a moça com quem casou e teve três filhos. Pai carinhoso e filho exemplar que não voltava para casa sem descer do ônibus dois pontos antes para passar pelo sobradinho da mãe viúva que vivia com uma irmã mais velha do que ela, estava sempre pronto para os que dele necessitassem, fossem familiares ou vizinhos do bairro. Diziam que seu coração era proporcional ao tamanho do corpo. Só não emprestava dinheiro, por princípio:

— Quando me pedem, reflito: é melhor ser antipático agora ou na hora de cobrar a dívida atrasada?

Ao ser designado para o Hipódromo, ficou chocado com as sessões de interrogatório, em que os presos eram levados para uma salinha reservada, de onde saíam em estado deplorável. Quando perguntava se era realmente necessário agir daquela maneira, os mais velhos repetiam que não havia outra, que ele chegaria à mesma conclusão quando conhecesse melhor a laia de gente com quem lidavam.

Desde criança pouco afeito ao uso da força nas disputas com os companheiros da zona norte, trouxe para o trabalho o mesmo temperamento conciliador: considerava o diálogo, as advertências e a caneta para preencher relatórios sobre as faltas cometidas instrumentos suficientes para controlar e punir os indisciplinados. Um dos colegas daquele tempo diz que não era vantagem, a delicadeza no trato encontrava respaldo na aparência física:

— Só de olhar para o tamanho do negão, o interrogado tremia. A gente até ameaçava: “Vai contar para mim ou prefere que eu chame o Hulk?”.

Uma tarde, quando se preparava para sair do plantão, trouxeram à sua presença um rapaz de olhos aterrorizados, preso alguns dias antes por fazer parte de uma quadrilha de adolescentes que roubava toca-fitas nas adjacências da puc, em Perdizes. Tinha o rosto inchado e o corpo coberto de manchas roxas, queimaduras com ponta de cigarro e cortes de faca, sequelas da luta travada com os quatro companheiros de xadrez, na tentativa infrutífera de evitar o estupro coletivo. O sangue que manchava a camisa e escorria pelas pernas da calça formou uma poça no chão. Quando a ambulância chegou, já estava a ponto de perder os sentidos.

Hulk ajudou a transportá-lo e subiu até a cela dos estupradores. Sem dizer uma palavra, retirou os dois que estavam mais próximos da porta e fechou o cadeado.

Na salinha do térreo, perguntou ao mais gordo e ao magrinho o que tinha acontecido:

— Nada — respondeu o mais entroncado. — Nós aqui nesse esgano, chega esse menino bonitinho de olho azul.

Hulk agarrou-o pelas axilas, levantou-o a um metro do chão e arremessou-o contra a parede como um saco de batatas, que fez um som oco e desabou desacordado. Enquanto o magricela pedia pelo amor de Deus para ser poupado, ele enrolou um pano para proteger a mão esquerda e desferiu-lhe um soco no peito que o deixou roxo de falta de ar. Antes que recuperasse o fôlego, veio o segundo na ponta do queixo. Voaram dois cacos de dente.

Arrastou pelos pés até a sala ao lado os corpos inertes, deixou-os aos cuidados de um colega perplexo e subiu para buscar os que faltavam.

Dessa vez não fez perguntas.

Foi embora a pé. Perambulou sem rumo durante duas horas, nem pensou em ver a mãe e a tia-madrinha. Quando chegou em casa, a esposa estranhou a fisionomia carregada, o resto de comida deixado no prato, a mudez e o desinteresse pelas crianças.

Na cama, com a luz apagada, Hulk não viu sentido em rezar os três padre-nossos e as cinco ave-marias pela alma do pai e dos parentes que nem conhecera, como estava habituado a fazer desde pequeno. A mulher, os filhos que dormiam ao lado, a mãe e os vizinhos viviam em outro mundo, eram pessoas ingênuas, alheias às maldades que um ser humano é capaz de praticar, ao contrário dele, que não conseguia esquecer o olhar vazio do rapaz violentado, imagem atenuada apenas pela lembrança da surra que dera nos agressores enquanto imploravam clemência. Bando de covardes, cheios de coragem na hora de abusar do adolescente indefeso, degenerados capazes de se excitar sexualmente diante de um menino ensanguentado mas que tremiam de medo na frente de um homem disposto a arrebentar-lhes a cara. Arrependeu-se de haver feito pouco, devia ter batido com mais força, gente perversa como aquela merecia desaparecer da face da Terra.

Depois dessa ocorrência vieram outras, sempre justificadas por seu julgamento de que nelas havia a clara intenção de explorar, subjugar ou maltratar o mais fraco ou afrontar algum funcionário. Sem se dar conta, virou uma espécie de justiceiro interno, cada vez mais seguro de que devia impor seus conceitos de certo e errado, de crime e castigo.

A família e os amigos se queixaram da mudança: pouco visitava a mãe e, assim que a tia-madrinha mencionava o primeiro dos achaques que a afligia, levantava e ia embora. Tornou-se ensimesmado, rígido com o comportamento dos filhos, desinteressado da companhia dos amigos de infância, quase não conversava com os parentes nas festas de família, segurá-lo até a hora do parabéns era um parto. Começou a tomar cachaça ao chegar do trabalho: no início uma para abrir o apetite, depois duas ou três, e talvez tomasse mais não fosse a intervenção firme da esposa, a única pessoa com autoridade para repreendê-lo. Só conseguia relaxar quando estava com os companheiros de profissão; eles, sim, sabiam os limites que pode alcançar a perversidade humana, não viviam na superfície espumante de um mundo povoado de ilusões, mergulhavam na essência do comportamento dos homens, conheciam a vida como de fato é.

Na cadeia, eram cada vez mais frequentes os dias em que achava necessário bater em alguém, tarefa sempre executada no fim do expediente, depois da qual voltava para casa com a sensação do dever cumprido.

— Esse negócio de bater contamina a mente do cidadão. Ia chegando o fim da tarde, começava a ficar agitado, nervoso, enquanto não batesse num ladrão parece que não sossegava. Fiquei de um jeito que batia em um porque havia feito, em outro porque deixou de fazer.

Uma tarde, recebeu a denúncia de que havia um revólver escondido em determinado xadrez. Acompanhado por dois colegas que chegavam para o plantão noturno, transferiu os homens para outra cela e iniciou a busca. Rasgaram colchões, quebraram paredes, arrancaram o vaso sanitário.

Na manhã seguinte, chamou o informante:

— Tá tirando uma com a nossa cara?

— Não, senhor, é quente. Só se esconderam no xadrez de algum laranja. Quem deve saber é o carequinha que mora naquele que os senhores quebraram.

À noite, Hulk juntou duas escrivaninhas, colocou entre elas uma barra de ferro e mandou trazer o carequinha. Quando o suspeito entrou na sala, fez cara de bravo e perguntou com voz mansa:

— Já foi apresentado ao pau de arara?

— Sim, senhor, fui pendurado no Deic.

— Então, é o seguinte: ou você dá o revólver ou vou te pendurar por cinco minutos. Aí você descansa quinze minutos para refletir. Se não mudar de ideia, volta outra vez, só que agora por dez minutos seguidos dos mesmos quinze para reflexão. Da terceira vez serão vinte minutos; da quarta, quarenta. E, assim, vamos de dobro em dobro até você entregar. Contou onde o cano está mocozado, já era; maior tranquilidade.

Com o auxílio de um colega, atou com tiras de pano os punhos do preso, passou a barra de ferro por baixo das pernas dobradas, de modo a deixá-la entre as mãos amarradas e os joelhos, ergueu-a do chão e apoiou-a nas mesas. O homem ficou pendurado de cabeça para baixo, posição denominada de “frango assado”, uma das formas de tortura mais populares nas delegacias brasileiras da época.

Passados cinco minutos, abaixaram a barra e deitaram o rapaz no chão. Hulk se aproximou com voz paternal:

— Tem quinze minutos para pensar na vida, meu filho. Daqui a pouco eu volto, para te pendurar por mais dez, contra minha vontade. Não seria mais inteligente de sua parte reconsiderar?

Deixou-o sob a vigilância do colega e saiu da sala. Estava no telefone avisando a esposa de que chegaria mais tarde por necessidade de serviço, quando um funcionário entrou aflito:

— Um preso está se enforcando no segundo andar.

Largou o telefone e subiu correndo. No xadrez indicado, um rapaz bem jovem tinha pendurado na grade da janela uma corda improvisada com arame e tiras de cobertor e enlaçara o pescoço, porém titubeava para encolher as pernas e deixar o peso do corpo cair no laço fatal.

Ele conhecia o moço, era o mesmo que dias antes tivera um ataque de pânico na cela que dividia com mais oito. Como havia um xadrez pequeno momentaneamente vago, ocorrência rara no Hipódromo, transferiu-o para lá, imaginando que as crises de desespero acontecessem por causa do confinamento em espaço tão exíguo. A providência tomada deixou-o com remorso:

— É de bem-intencionados assim que o inferno anda cheio, pensei naquela hora. Melhor ter ataque no meio dos outros do que morrer enforcado, sozinho.

Perguntou a idade do suicida:

— Dezenove.

— Não vai fazer isso de jeito nenhum, meu filho. Mal começou a vida e já quer acabar com ela? Hoje você está preso, mas amanhã volta para a rua, para a família. Já imaginou a dor da sua mãe? Larga desse laço pelo amor de Deus, não faz isso comigo.

O rapaz ficou parado com a corda no pescoço e os olhos fixos na figura negra de olhos arregalados, do lado de fora, que alternava o tom persuasivo da fala dirigida a ele com os berros na direção da galeria para que lhe trouxessem a chave do xadrez, providência que havia deixado de tomar ao subir correndo.

Hulk enfiou o braço entre as grades:

— Pega na minha mão, meu filho. Agarra firme, ninguém vai te fazer mal. Vou te ajudar, vou falar com o juiz, não vou deixar você sozinho de jeito nenhum, dou minha palavra.

Ficou com a mão estendida até o outro segurá-la, timidamente, sem tirar a corda do pescoço, de modo que não pôde puxá-lo para junto das grades como pretendia e assim livrá-lo do risco de enforcamento.

E nada da chave:

— É todo mundo surdo aí embaixo? Eu aqui nesse sufoco. Traz a porra da chave, caralho.

Ainda segurando a mão do suicida, repetiu palavras de conforto e insistiu no quanto a mãe sofreria se o perdesse.

Quando, finalmente, o molho de chaves chegou e a porta foi aberta, Hulk tirou o laço do pescoço do rapaz e lhe deu um abraço forte. Estava tão emocionado que começou a chorar. Choraram os dois.

Mais calmos, desceram até a copa dos funcionários, o agente com a mão no ombro do detento. Hulk pediu que um colega servisse pão com manteiga e uma xícara de café com leite:

— Senta e toma teu café enquanto eu vou resolver um probleminha e volto.

Na sala do interrogatório, o suposto dono do revólver ainda estava no chão com as mãos atadas, quando Hulk entrou:

— Deu sorte, malandro, quase meia hora de descanso. Prefere falar ou ver o mundo de cabeça para baixo? Agora são dez minutos.