Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 9 de 36

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Carcereiros

Bem Nutrido

 

No passado, não havia curso de treinamento para os agentes penitenciários. Os candidatos com boas notas nas provas escrita e oral que passassem pelo exame físico eram escalados para exercer suas funções em contato direto com os presos já no primeiro dia de trabalho. Cada um que aprendesse por conta própria.

Trinta e dois anos atrás, Bem Nutrido recebeu a notícia de que tinha sido aprovado nos exames e que deveria se apresentar às oito horas da manhã seguinte, na Casa de Detenção, local em que jamais havia imaginado um dia pôr os pés.

— Nem passava pela minha cabeça. Quando o ônibus vinha pela avenida Cruzeiro do Sul, eu virava para o outro lado, só para não ver as janelas com aqueles vagabundos atrás das grades.

Acabara de ser demitido da loja de autopeças na Duque de Caxias, quando fez a inscrição no concurso para agente penitenciário. Não que houvesse descoberto alguma vocação repentina para o cargo, estava interessado somente na estabilidade do funcionalismo público; tinha mulher, filhos e mãe inválida para sustentar.

Caía uma garoa fina quando se apresentou ao diretor, que nem lhe disse bom-dia; limitou-se a medi-lo dos pés à cabeça e a ordenar ao assessor que o acompanhava:

— Esse parece bem nutrido, manda para o período da noite, no quinto andar do pavilhão Cinco.

Funcionário nenhum queria trabalhar num ambiente daqueles. O quinto andar do Cinco estava dividido em três setores: o Amarelo, o Amarelinho e a Psiquiatria.

A ala do Amarelo era ocupada pelos condenados à morte, prisioneiros que de alguma forma haviam infringido as leis draconianas do mundo do crime: delatores, dependentes de droga endividados, ladrões que fugiram com o produto do roubo sem dividi-lo com os comparsas, estupradores, traficantes que se apropriaram da droga alheia, conquistadores que se tornaram amantes de mulheres com maridos ou namorados presos. Passavam dia e noite trancados com cinco ou seis ocupantes num espaço em que mal caberiam dois, enquanto aguardavam transferência para presídios nos quais não tivessem inimigos, providência que podia levar meses, anos ou não chegar a tempo de encontrá-los com vida.

O Amarelinho albergava aqueles condenados ao ostracismo por haver cometido faltas que a bandidagem considerava inaceitáveis porém menos graves: prometer matar alguém e não cumprir, desobedecer às ordens dos líderes do pavilhão, cruzar na galeria com a mulher do próximo em dia de visita sem olhar para o lado oposto, andar no meio das visitantes com o segundo botão mais alto da camisa desabotoado, perturbar o sono dos companheiros, permanecer na galeria enquanto o pessoal da alimentação entrava com os carrinhos para servir a boia, acovardar-se quando desafiado por um desafeto. Também passavam os dias na tranca, mas, como não corriam risco de morte, desfrutavam do privilégio de juntar-se aos demais habitantes do pavilhão para receber visitas aos domingos e do conforto do banho de sol exclusivo todas as manhãs de quarta-feira, enquanto os outros xadrezes permaneciam trancados para evitar acidentes.

Na Psiquiatria estavam os que ganhavam o rótulo de “doentes mentais”. Sem nenhuma avaliação psiquiátrica digna desse nome, recebiam no prontuário o carimbo “dm” os portadores de demências variadas, retardos mentais, tendências suicidas, síndrome do pânico, distúrbios obsessivo-compulsivos, os psicopatas, os esquizofrênicos em surto, os dependentes com cérebros consumidos pela droga e os desajustados incapazes de se adaptar à convivência em grupo ou de suportar as agruras do cárcere. Penavam em xadrezes lotados, nas piores condições de higiene, à espera de uma vaga no Juqueri ou em algum centro psiquiátrico que os aceitasse, eventos de ocorrência aleatória.

Conheci esses setores em minha primeira visita ao presídio, guiada por Florisval, na época diretor de Disciplina. Foi num domingo do mês de maio de 1989, imediatamente antes de iniciar um inquérito epidemiológico sobre a prevalência do hiv na população da Casa, pesquisa que abriu caminho para o trabalho voluntário que faço até hoje em cadeias.

Com a intenção — como confessaria mais tarde — de testar os limites do médico curioso que se propunha a levantar os números da epidemia entre os detentos, Florisval abriu algumas celas para que eu pudesse observar as condições internas e conversar com seus ocupantes. A experiência foi inesquecível.

Passados 23 anos, ainda me lembro do impacto das imagens dos xadrezes do Amarelo, com oito e até dez homens jogados sobre pedaços de espuma de borracha no chão, sem fazer nada, embaçados por uma nuvem de fumaça de cigarro, com os parcos pertences em sacos plásticos pendurados em pregos. As manchas enfileiradas que as cabeças dos presos deixavam ao encostar na parede. Alguns, apelidados de morcegos, instalavam redes que lhes permitiam pairar acima dos demais.

Quando quis saber se não havia lugar mais decente para trancar aqueles homens, o diretor de Disciplina mandou abrir uma das portas e perguntou:

— Se alguém quiser mudar para um dos pavilhões, pode sair.

Ninguém se moveu. Um personagem felliniano, bem alto e magro, sem dentes na frente, com orelhas de abano e os olhos assimétricos, pediu com voz rouca:

— Faz uma força, seu Florisval, arranja um bonde para outra cadeia. Ói o esgano que nós estamos.

Nas celas dos dms o ambiente era ainda mais desolador. Antes de abrir a primeira delas, o diretor de Segurança recomendou que eu me afastasse da porta para evitar que o bafo quente e azedo de seu interior impregnasse minha roupa, medida de pouca serventia, porque fiquei para sempre com a memória daquele odor ácido, úmido, espesso e pegajoso. Espremidos nos xadrezes, alguns presos falavam sozinhos, enquanto outros davam berros repetidos em intervalos regulares, choravam agachados nos cantos, andavam nus em pequenos círculos, vestiam frangalhos molhados de urina e dormiam no chão sob o efeito dos medicamentos psiquiátricos receitados sem critério. Nunca havia imaginado que a condição humana pudesse ser degradada a esse nível.

Anos mais tarde, os dms foram transferidos para o pavilhão Quatro, em condições mais decentes, um só em cada cela, mas a assistência especializada continuou precária. Todos recebiam praticamente os mesmos remédios, administrados por um preso que fazia o papel de enfermeiro. Entre os habitantes do andar intrometiam-se bandidos que fingiam transtornos psiquiátricos para fugir de dívidas e de inimigos em seus pavilhões de origem, em vez de ir para o Amarelo, situação considerada humilhante por todos.

O Amarelo permaneceu como Seguro até a implosão do presídio, em 2002. Passei muitos anos atendendo os presos do setor, trancado com eles por horas consecutivas, auxiliado pelo trabalho voluntário do inesquecível Paulo Preto, auxiliar de enfermagem do Hospital Sírio-Libanês, já falecido, e por um preso que fazia as vezes de enfermeiro, um nordestino estrábico educado e respeitoso que havia atacado sexualmente duas enteadas — razão pela qual morava no Amarelo —, além de ter decepado o braço de um desafeto que tentou esfaqueá-lo.

Os funcionários fugiam do Amarelo como o diabo da cruz, porque os que ali cumpriam pena, no desespero, volta e meia agarravam um deles como refém para exigir a transferência que não conseguiam obter com boas maneiras. O fato de Paulo Preto e eu prestarmos atendimento no setor, sozinhos no meio deles, com o cadeado da porta de entrada fechado até terminarmos as consultas, contribuiu decisivamente para que impuséssemos respeito entre os funcionários e a massa carcerária.

Quando Bem Nutrido se apresentou no primeiro dia de trabalho, foi levado à presença do chefe do quinto andar, funcionário mais antigo que gozava de boa reputação entre os colegas, designado para aquela ala como punição depois de um desentendimento com o diretor-geral. As instruções que recebeu não podiam ser mais simples:

— Você pega o molho de chaves, vai virando de uma em uma e trancando. Na hora de abrir, a mesma coisa no sentido inverso.

— Falei: “Deixa comigo, o serviço é só esse?”.

Era, porque a rotina ficava por conta dos próprios presos, comandados por três deles: Nardo coordenava o Amarelinho, Dilmo a Psiquiatria, e Felizardo o Amarelo.

O principiante teve o bom senso de aproximar-se desses coordenadores, por uma razão prática:

— Eles é que sabiam como proceder.

Explicaram que deveria desconfiar de tudo e de todos; ao ouvir uma história, partir do princípio de que poderia se tratar de mentira, principalmente quando tivesse ares de verdade; na hipótese de um chamado para socorrer alguém que passava mal num xadrez, jamais abri-lo nem colocar o rosto na frente do guichê sem antes convocar um dos três para avaliar a gravidade da situação. Naquele ambiente havia que endurecer o coração, não cabiam sentimentalismos; embora fosse inevitável sentir pena de alguém, demonstrá-lo seria considerado manifestação de fraqueza, que despertava liberdades e atitudes indesejáveis. Em caso de dúvida ou de desrespeito, que não hesitasse em consultar um dos três presos coordenadores.

No mês seguinte, um funcionário escalado para trabalhar no diurno pediu ao diretor administrativo que o transferisse para o turno da noite, medida tomada sem a precaução de avisar o diretor-geral, homem de formação militar que mandava e desmandava sem admitir desobediência.

Durante o dia, no Cinco trabalhavam em sistema de plantão cerca de cinquenta funcionários, enquanto à noite havia apenas dois, além do recém-transferido. Para punir o diretor administrativo que fizera a mudança em desrespeito à hierarquia, o diretor-geral transferiu os que trabalhavam de dia para a noite e vice-versa. Passaram a dar plantão cinquenta à noite e somente dois durante o dia, para tomar conta de 1500 presos.

Benedito da Lambreta, o funcionário-chefe do pavilhão Cinco, é que ficou em situação delicada. Como encontrar serviço para tanta gente à noite com os presos trancados e controlar o pavilhão inteiro solto no pátio durante o dia com apenas dois funcionários?

Azar de quem ocupava as celas disciplinares do térreo do Cinco, em que cumpriam a pena-castigo os infratores das regras internas de disciplina. Passavam pelo menos trinta dias sem ver a luz do dia em xadrezes apinhados os que haviam desrespeitado funcionários, permanecido fora das celas na hora da tranca, destruído as instalações em momento de fúria, destilado maria-louca — a pinga tradicional das prisões brasileiras —, fabricado facas e estiletes, participado de rebeliões em outros presídios, cavado túneis, extorquido familiares de companheiros, além daqueles recapturados pela polícia depois de fugir do Semiaberto ou de qualquer cadeia.

Na falta de alternativa, Benedito da Lambreta escalava seus subordinados para vasculhar as celas disciplinares com a missão de retirar colchões, toalhas e até pedaços de papelão em que alguém pudesse deitar, porque a ordem era dormir no chão frio, sem o mínimo conforto, regra que valia mesmo para os portadores de tuberculose, naquela época endêmica no presídio. Para combater o ócio, os funcionários chegavam a revistar as celas até três vezes por noite. Para lidar com o tédio da falta do que fazer, inventavam distrações:

— Nós juntávamos dois carrinhos de servir alimentação com cinco ou seis funcionários sentados em cima, e apostávamos corrida pela galeria.

Sem conseguir pegar no sono por causa do barulho, os detentos reclamaram tanto que o chefe decidiu autorizar os funcionários a dormir em turnos durante o plantão. Quinze dias mais tarde, o diretor-geral ordenou que voltassem para o período diurno.

Recém-admitido, Bem Nutrido ficou surpreso com a violência da repressão:

— Na época da ditadura, chegou um cara que tinha matado o pai para roubar o dinheiro guardado em casa. O diretor disse que um filho desnaturado como aquele merecia sofrer. Deixou o cara sozinho num xadrez, completamente pelado, num mês de junho. De manhã, quando a gente fazia a contagem, encontrava ele num canto, todo encolhido.

Logo nos primeiros dias, ao abrir uma das celas da Psiquiatria, Bem Nutrido teve uma surpresa:

— O preso tinha enchido o cadeado de merda.

Sem saber como agir, pediu a ajuda de Dilmo, o detento encarregado do setor, que não se fez de rogado: retirou o engraçadinho do xadrez e o agrediu com um pedaço de pau até deixá-lo no chão.

Bem Nutrido teve vontade de sumir daquele lugar, arranjar outro emprego num ambiente mais civilizado, em que a maldade não fosse onipresente, mas, com mulher, filhos e a mãe sem saúde, as obrigações falaram mais alto:

— Onde vim parar, maluco! Depois, raciocinei: vou segurar até o fim.

Consciente de seus deveres e respeitador da hierarquia, achou por bem cumprir as ordens dos superiores e seguir à risca as regras locais. Em pouco tempo estava adaptado à nova vida.

Um mês depois da contratação, vinha com um colega mais velho pela galeria, quando Felizardo se aproximou para pedir que dessem um jeito em determinado preso com a alegação de que o mesmo teria folgado:

— A primeira vez a gente nunca esquece. Nós abrimos o xadrez e sentamos o pau. Nem sabíamos o que ele tinha feito, mas, se o Felizardo falou...