Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 20 de 36

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Carcereiros

A cachaça

 

— Mal encosto no balcão, já vem o bem-estar. No primeiro gole de conhaque saio voando do inferno para o paraíso.

Assim descreveu a sensação que lhe trazia o bar no fim do expediente um moreno alto, jovem ainda, que dava plantão no setor do Amarelo com um pedaço de cano nas mãos, para lá e para cá, o tempo todo, dois anos mais tarde afastado para tratamento psiquiátrico no Hospital do Servidor.

As cadeias são ambientes cinzentos, mesmo que não estejam pintadas dessa cor. A presença ostensiva das grades, das trancas e o som de ferro das portas quando se fecham oprimem o espírito de forma tão contundente, que em mais de vinte anos jamais encontrei alguém que dissesse sentir prazer quando entra num presídio. Ao contrário, a sensação de alívio ao cruzar o portão que dá acesso à rua é universal.

O conforto de ficar livre da opressão ao sair não desaparece com a repetição da experiência; ainda hoje o sinto, sensação compartilhada por todos os funcionários que conheço.

É nessa hora, depois do dever cumprido, antes de encarar a condução lotada, os problemas familiares, os apertos financeiros e, muitas vezes, o mau humor da esposa insatisfeita, que o salto para o paraíso no outro lado da rua fica irresistível.

Nesse contexto estão reunidas as condições que os especialistas definem como fatores de risco para o alcoolismo. São tantos os casos de colegas afastados por problemas dessa ordem, que os demais aprenderam a não recriminá-los; aceitam a fragilidade do companheiro como inerente à insalubridade da profissão.

Numa tarde de atendimento no pavilhão Oito, situado nos fundos da Detenção, da porta da enfermaria vi que dois funcionários cruzavam o pátio interno amparando um colega. Um deles, à direita, agarrava-o pela parte de trás do cinto da calça, enquanto, à esquerda, o outro caminhava tão colado a ele que pareciam formar um corpo único. À distância, a impressão era de que amparavam alguém muito doente.

Quando atravessei o pátio para saber do que se tratava e se podia ajudar, foram evasivos: o rapaz que tinham acabado de acomodar num sofá rasgado era vítima de uma pequena indigestão que ficaria curada assim que ele descansasse algumas horas, diagnóstico desmentido pelo cheiro de álcool que exalava dos pulmões do bêbado. Como haviam conseguido passar pelo portão de entrada e pela sala de Revista com o rapaz naquele estado, sem que ninguém os barrasse?

Descontados os casos mais dramáticos de dependência, muitos fazem uso regular do álcool como relaxante e antidepressivo, passo inicial para o consumo compulsivo. Não é que a profissão atraia pessoas com tendência a desenvolver alcoolismo, quase todos eram abstêmios ou bebiam muito pouco antes do emprego na cadeia.

Não são homens de bebidas fracas, cachaça e conhaque são as preferidas; cerveja para eles é quase um refrigerante. Acompanhá-los é tarefa inglória, são resistentes.

Um funcionário daquela época resumiu sua opção pela cachaça:

— O que adianta o cara beber uísque, champanhe, vodca, vinho, bebidas caras, se, quando fica bêbado, todo mundo xinga de pinguço?

Valdemar, ainda solteiro aos 64 anos, quase todos vividos ao lado do irmão mais velho, na companhia de coelhos, patos e outras aves, entre as quais um papagaio que manda as visitas tomar no cu, na mesma casa arborizada em que nasceram no Chora Menino, ao descrever um fim de semana anos atrás disse que tinham esvaziado um garrafão aberto na sexta-feira. Fiquei assustado:

— É demais, Valdemar, são cinco litros de pinga; mais de um litro e meio por dia.

Reagiu quase ofendido:

— Mas não tomei sozinho. Fui eu e o meu irmão.

Meses mais tarde, com o propósito de mostrar que ele estava a caminho da cirrose, convenci-o a colher sangue para as provas de função hepática e pedi que levasse os resultados até meu consultório, para adverti-lo em tom formal. A estratégia foi malsucedida, o fígado estava impecável, nem o mais leve sinal de hepatite alcoólica.

No início dos anos 1990, nas primeiras vezes que me reuni com eles depois do atendimento, fiquei impressionado com a comparação: enquanto eu tomava um copo de cerveja, bebiam uma dose de cachaça. Quando eu parava, ainda pediam a saideira, que geralmente precedia a antepenúltima. Não obstante, o transeunte que os visse a caminho de casa jamais imaginaria quanto haviam bebido.

Resisti por muitos encontros antes de aderir à cachaça, bebida para mim definitivamente ligada ao alcoolismo, preconceito dominante naquele tempo. Iniciei com a timidez das donzelas hesitantes, dando pequenos goles no copo dos companheiros de mesa, prática de principiantes considerada abominável entre apreciadores profissionais. Quando sugeriam que pedisse logo uma dose inteira, eu quase me horrorizava.

Para minha surpresa, quando decidi acompanhá-los verifiquei que bebia até menos do que antes. Eles tinham razão ao dizer:

— Cerveja o cidadão toma um copo atrás do outro, feito guaraná. Cachaça impõe respeito, precisa ir devagar, medir as consequências.

Com regularidade, temos mantido a rotina de nossos encontros a cada duas ou três semanas, quase sempre à noite, em bares e restaurantes de bairro ou do centro antigo de São Paulo. Como os participantes se conhecem desde a época do Carandiru, o prazer que a oportunidade de rever os velhos amigos nos traz explica a assiduidade a essas reuniões, que se repetem há mais de vinte anos.

De minha parte faço qualquer sacrifício para estar presente, gosto de ouvir como enfrentam as adversidades cotidianas, como resolvem os problemas familiares, as histórias que contam, a descrição das situações nas quais correram risco de perder a vida, os comentários sobre os atos de heroísmo e de perversidade que testemunharam. Homens maduros, com muitos anos de profissão, falam com tristeza da decadência do Sistema Penitenciário instalada por ocasião do massacre do pavilhão Nove, marco histórico a partir do qual as facções criminosas adquiriram um poder de mando que eles jamais teriam admitido no tempo em que comandavam os presídios.

Nessas horas que passamos juntos, tento não perder uma frase, um gesto, uma expressão idiomática; procuro aprender o máximo que posso. Não consigo sequer imaginar quem seria hoje sem o privilégio dessa convivência, sem privar da amizade sincera de homens que dão valor à palavra, à companhia dos amigos, à solidariedade, e que viveram aventuras com as quais nem sonha o comum dos mortais. Mergulho integralmente nesse universo, consciente da preciosidade que me é oferecida, esqueço os problemas, as preocupações com os doentes, os desencontros, e me divirto com as gozações mútuas que provocam explosões de riso em série. Existe prazer espiritual comparável ao de chorar de tanto rir?