Carcereiros

Drauzio Varella · Capítulo 28 de 36

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Carcereiros

Negociador nato

 

Com o passar do tempo seu relacionamento com Luizão mudou:

— Aprendi muito com ele. É o homem mais corajoso que já conheci.

Um dos funcionários mais experientes do Sistema Penitenciário, Guilherme atualmente dirige uma das quatro unidades do antigo Cadeião de Pinheiros, apelidado de “Novo Carandiru” por albergar quase 6 mil presos em celas que chegam a conter mais de vinte homens. Chefia agentes jovens, sempre atentos às orientações do diretor:

— Ninguém conhece cadeia como ele — é o que todos dizem.

Segundo Guilherme, o centro de detenção que dirige, reservado para os presos que não pertencem à facção controladora da maioria dos presídios paulistas, é o mais infame do Sistema:

— Para cá são mandados ex-membros do Partido, ex-delatores, ex-policiais, ex-estupradores, ex-craqueiros, ex-filhos da puta, ex-tudo o que não presta.

Sente mais falta dos dias em que era escalado para sufocar rebeliões do que de tudo o que já fez na vida. Nada é comparável:

— Chegar na gaiola de entrada de uma cadeia com colchões pegando fogo, funcionários-reféns, presos agitados, gritando e correndo para lá e para cá com as facas, ameaçando matar todo mundo, sem perder a calma para analisar o ambiente e perguntar com quem eu converso é a maior adrenalina que um homem pode experimentar.

Nessa hora, segundo ele, o negociador esquece que existe vida fora daquele local. Nem família, nem amigos, nem gente na rua: a atenção se volta integralmente para os detalhes, nenhum dos quais pode passar despercebido. É preciso identificar num relance o líder e analisar-lhe o perfil, a motivação, se fala por iniciativa própria ou a mando de terceiros, se é respeitado ou odiado pelos companheiros, se está sob o efeito de droga, se é psicopata, se mexeu com alguma visita, estuprou um companheiro, saiu com a mulher do outro na rua, se é um imediatista à espera da solução mais rápida ou se está disposto a conduzir a negociação com frieza.

Essa avaliação sumária envolve os reféns. Antes de entrar, é fundamental informar-se com os colegas a respeito da índole de cada um, saber se algum deles tem problema psiquiátrico, se são medrosos ou experientes, se batiam na cara dos detentos ou estavam envolvidos em patifarias.

É necessário reconhecer qual deles está apavorado, em pânico, para tentar libertá-lo depressa, em troca de água, alimentos ou de alguma reivindicação menor, para evitar que sirva de instrumento de pressão chantagista.

— De cara é preciso assumir o controle da situação, deixar claro quem está no comando. Demonstrar insegurança, medo ou fraqueza é colocar tudo a perder.

Anos atrás, numa rebelião no interior do estado, Guilherme chegou na gaiola em que dois prisioneiros, um dos quais falava compulsivamente, aguardavam o negociador ao lado de uma cabeça decepada. Fingindo não ter visto a cabeça jogada no chão, voltou-se para o que parecia mais equilibrado:

— Não converso com drogado. Volto daqui a trinta minutos. Se esse maluco ainda estiver aqui, vou embora para casa.

Nada adiantou o maluco esbravejar, ameaçar que mataria os reféns e que incendiaria a cadeia, em passos lentos ele desapareceu na galeria.

Quando retornou, meia hora mais tarde, a cabeça estava no mesmo local, mas havia outro preso no lugar do drogado. Em quinze minutos foi feito o acordo.